domingo, fevereiro 28, 2010

Negacionismos

O negacionismo pegou moda. São os negacionistas-da-teoria-da-evolução, negacionistas-da-teoria-do-aquecimento-global e agora negacionistas-da-homeopatia.

Os primeiros são corajosos (ou patéticos) já que contestam o que dificilmente se pode contestar: a teoria com maior "pedigree" nas ciências biológicas.

Os segundos são um lote curioso que confunde complexidade com complicação.

Os terceiros nem sequer entendem o que contestam mas isso não os impede de usar palavras grossas e de defender a caça às bruxas.

O tempo em que se formavam opiniões, como dizia Camões, com "honesto estudo e longa experiência misturada" já lá vai.

Estará o clima a arrefecer?

Alguns blogues negacionistas têm vindo a apresentar análises que pretendem demonstrar que o clima está a arrefecer. Vale a pena debruçarmos-nos sobre estas análises. Steve Goddard, num post convidado do blogue de Anthony Watts, apresenta-nos o seguinte gráfico:


Neste gráfico mostra-se a área coberta por neve, nos meses de Dezembro e Fevereiro, no hemisfério norte. Não é necessário ser letrado em estatística para detectar uma tendência para aumento da área coberta por neve entre 1989 e 2010. Para os negacionistas isto é indicação de que o clima está a arrefecer. Ou, pelo menos, que não está a aquecer.

Não se percebe porque terá Goddard escolhido a série que começa em 1989 (uma série de ~20 anos quando as séries climáticas devem ser de pelo menos 30 anos) já que os dados disponíveis remontam a 1967. Num interessante post do "Open Mind", Tamino reanalisa os dados disponíveis desde 1967 e obtém o seguinte gráfico:


Também neste caso, não é preciso ser letrado em estatística para ver que nesta série não existe tendência marcada de aumento da área coberta por neve. Ou seja, concluir-se-ia que o clima não está a arrefecer mas não se poderia concluir que está a aquecer.

Na realidade a questão que vale a pena colocar não é se devemos analisar os dados a partir de 1967 ou 1989 (ainda que não faça sentido analisar ~20 anos quando existem dados para ~40). A pergunta mais importante é porque se analisam apenas os dados de inverno?

Nenhuma projecção climática sugere que os invernos desaparecerão do hemisfério norte e é de esperar que em virtude de haver mais água disponível na atmosfera (por aumento da evaporação) a precipitação sob forma de neve possa aumentar em certas circunstâncias. Mais sentido faria uma análise que incorporasse medições da área coberta por neve durante todos os meses do ano. Foi o que fez Tamino no post acima referido e o resultado encontra-se abaixo:


Não é preciso ser letrado em estatística para verificar que existe uma tendência climática para redução da área coberta por neve, no hemisfério norte, no período seleccionado por Steven Goddard.

Isto não prova que a redução da área coberta por neve é de origem humana mas prova que estes negacionistas não sabem muito bem o que andam a fazer.

sábado, fevereiro 27, 2010

Morrer pelas ideias? É bonito sim mas quais?



Mais ou menos desde o seu aparecimento que o blogue Mitos Climáticos tinha uma ligação ao Ambio. Creio mesmo que o Ambio terá sido o primeiro blogue a que o Mitos Climáticos se ligou. Recentemente esta ligação foi retirada (*) sendo que agora apenas blogues negacionistas são divulgados. Não deixa de ser curiosa esta capacidade que o blogue Ambio tem de incomodar à "esquerda" e à "direita". Para uns, este blogue é um perigoso espaço de proselitismo ambiental. Para outros é um espaço herético onde se ousam expor e criticar as contradições do movimento ambiental. Tanta indignação é certamente bom sinal. Quem pensa livremente e escreve o que pensa dificilmente encaixará em correntes herméticas de pensamento e os que querem que o blogue Ambio afine por um diapasão determinado é porque não entenderam o seu propósito.

A verdade é que Portugal é um País onde ainda se convive mal com o confronto de pontos de vista. Têm sido feitos progressos mas continuamos a ter tendência para confiar nas ideias em função da sua origem mais do que na sequência de uma análise independente, fria e racional dos factos. Diga-se que esta é uma tendência inata da espécie humana que provavelmente terá justificação evolutiva (terá mais probabilidade de sobreviver o que acredita nas ideias dos amigos do que aquele que se deixa levar pelas ideias do inimigo). Porém, a independência de espírito e o verdadeiro cépticismo (o que nos leva a duvidar de nós próprios) continuam a ser metas que qualquer pessoa intelectualmente sagaz deve almejar.

Nada disto é novo e os sectarismos, todos eles, têm morte lenta. Em meados do século XX --era das ideias defendidas atrás de grandes bandeiras-- Georges Brassens, o poeta, compositor e cantor Francês de Sète, de tendência anarquista, escrevia e cantava, numa óbvia referência às tendências políticas da sua época, este belo pedaço de prosa:

"Mourir pour des idées, l'idée est excellente
Moi j'ai failli mourir de ne l'avoir pas eu
Car tous ceux qui l'avaient, multitude accablante
En hurlant à la mort me sont tombés dessus
Ils ont su me convaincre et ma muse insolente
Abjurant ses erreurs, se rallie à leur foi
Avec un soupçon de réserve toutefois
Mourrons pour des idées, d'accord, mais de mort lente,
D'accord, mais de mort lente

Jugeant qu'il n'y a pas péril en la demeure
Allons vers l'autre monde en flânant en chemin
Car, à forcer l'allure, il arrive qu'on meure
Pour des idées n'ayant plus cours le lendemain
Or, s'il est une chose amère, désolante
En rendant l'âme à Dieu c'est bien de constater
Qu'on a fait fausse route, qu'on s'est trompé d'idée
Mourrons pour des idées, d'accord, mais de mort lente
D'accord, mais de mort lente

Les saint jean bouche d'or qui prêchent le martyre
Le plus souvent, d'ailleurs, s'attardent ici-bas
Mourir pour des idées, c'est le cas de le dire
C'est leur raison de vivre, ils ne s'en privent pas
Dans presque tous les camps on en voit qui supplantent
Bientôt Mathusalem dans la longévité
J'en conclus qu'ils doivent se dire, en aparté
"Mourrons pour des idées, d'accord, mais de mort lente
D'accord, mais de mort lente"

Des idées réclamant le fameux sacrifice
Les sectes de tout poil en offrent des séquelles
Et la question se pose aux victimes novices
Mourir pour des idées, c'est bien beau mais lesquelles ?
Et comme toutes sont entre elles ressemblantes
Quand il les voit venir, avec leur gros drapeau
Le sage, en hésitant, tourne autour du tombeau
Mourrons pour des idées, d'accord, mais de mort lente
D'accord, mais de mort lente

Encor s'il suffisait de quelques hécatombes
Pour qu'enfin tout changeât, qu'enfin tout s'arrangeât
Depuis tant de "grands soirs" que tant de têtes tombent
Au paradis sur terre on y serait déjà
Mais l'âge d'or sans cesse est remis aux calendes
Les dieux ont toujours soif, n'en ont jamais assez
Et c'est la mort, la mort toujours recommencée
Mourrons pour des idées, d'accord, mais de mort lente
D'accord, mais de mort lente

O vous, les boutefeux, ô vous les bons apôtres
Mourez donc les premiers, nous vous cédons le pas
Mais de grâce, morbleu! laissez vivre les autres!
La vie est à peu près leur seul luxe ici bas
Car, enfin, la Camarde est assez vigilante
Elle n'a pas besoin qu'on lui tienne la faux
Plus de danse macabre autour des échafauds!
Mourrons pour des idées, d'accord, mais de mort lente
D'accord, mais de mort lente"

(*) Nós continuaremos a ligar o Ambio aos Mitos Climáticos e outros blogues negacionistas da mesma forma como oferecemos ligações a blogues mais afins ao Ambio. É esta a nossa estranha maneira de ser e de entender o saudável e honesto debate de ideias.

Debate sobre clima no Contraditório

Gostaria de chamar à atenção dos leitores do AMBIO para um debate promovido pelo blog contraditório em torno da questão "Concorda com um plano calendarizado de redução das emissões de gases de estufa?". Os actores do debate foram os Profs Pedro Miranda e Delgado Domingos. As minhas posições sobre a matéria são conhecidas pelo que não estranharão a minha próximidade com os argumentos de Pedro Miranda. Não obtstante, folgo verificar que a maioria dos participantes deste debate comungam da mesma opinião.

Sublinho algumas das palavras finais de Pedro Miranda que são de uma clarividência exemplar:

"Vamos então à única questão científica relevante levantada pelo Prof. Delgado Domingos: a explicação do desfasamento entre a evolução temperatura e do CO2 revelada pelas bolhas de ar em Vostok. O problema é bem conhecido e tem sido discutido na literatura científica. A explicação aceite é a seguinte: as oscilações glaciares são controladas por variações orbitais da Terra, i.e. por pequenas variações da excentricidade da órbita e da obliquidade (ângulo entre o eixo da Terra e a normal ao plano de translação) e pela precessão dos equinócios. Estas variações alteram muito ligeiramente o ciclo anual da radiação solar, afectando a temperatura. O efeito directo, no entanto, é pequeno e não justificaria a oscilação glaciar. Dois mecanismos de amplificação são propostos: o primeiro é designado por feedback gelo-albedo, o segundo é revelado pelos dados de Vostok e envolve o CO2. Este segundo mecanismo, aquele que nos interessa na presente discussão, funcionaria do seguinte modo: um ligeiro acréscimo de temperatura reduz a capacidade do oceano reter CO2 (a água mais fria dissolve maior quantidade de CO2), o aumento de CO2 atmosférico aumenta o efeito de estufa aumentando ainda mais a temperatura. Temos assim um processo de feedback positivo que explica a transição entre o período interglaciar e o período glaciar.

Os dados de Vostok dizem-nos que existe um feedback positivo CO2-Temperatura. O feedback pode ser posto em acção de dois modos diferentes: devido a um aumento de temperatura por factores externos (e.g. variações orbitais) ou, directamente, devido a emissões de CO2.

O Prof. Delgado Domingos não compreende em que consiste uma “previsão climática”. Em rigor, as pessoas que fazem investigação em Clima (i.e., que não só têm opiniões sobre o assunto mas que publicam trabalhos originais em revistas científicas) não utilizam o termo “previsão” para falar de clima. O clima é uma descrição do estado “médio” da atmosfera, para períodos da ordem dos 30 anos (a “normal climática”). Quando discutimos um cenário de mudança climática, discutimos sempre estatísticas de períodos de várias décadas. A crítica que o Prof. Delgado Domingos faz aos trabalhos de James Hansen, baseada em comparações de períodos curtos, não tem rigor científico."

Para uma leitura dos argumentos avançados pelas duas partes intervenientes neste debate ler aqui

Faia Brava Imobiliária

Ontem durante a realização do Gosto da Biodiversidade apareceu gente bastante diferente (e é curioso como a frequência de um centro comercial evolui ao longo do dia).
O mais interessante foi um senhor que queria saber exactamente o que estávamos ali a fazer (a maior parte das horas não há livecooking).
Viu o nome (Reserva Faia Brava), viu o logo (aí em cima), viu folhetos com animais e plantas, não viu uma única casa. Mas tinha ficado com a impressão de que era um projecto imobiliário.
E de facto faz sentido, se olharem bem a promoção imobiliária que por aí se vê.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

O gosto da biodiversidade (publicidade) IV

A imagem veio daqui
Começa amanhã no CascaisShopping.

"A caça permite a muitos proprietários, tal como faz a ATN por razões de conservação, ter recursos para criar bebedouros para a fauna, fazer sementeiras para aumentar o alimento disponível, manter zonas de refúgio e abrigo, etc., de modo a que espécies como a perdiz e o coelho sejam mais abundantes.
Estas espécies, em especial o coelho, são a base da alimentação de muitas outras, como o gato bravo ou a águia real, presentes nas propriedades que a ATN gere.
A exploração racional da caça, com preocupações de conservação, permite que muitas outras espécies, para além da perdiz e do coelho, beneficiem da gestão do habitat. É o caso de borboletas e outros insectos, cobras, pássaros e morcegos.
A opção é sua:
usar carne de coelhos ou frangos produzidos intensivamente em gaiolas, muitas vezes sem nunca verem a luz do sol, resulta quase sempre em paisagens monótonas de produção intensiva de cereais, usados nas rações que os alimentam;
usar caça, quando gerida com respeito pela biodiversidade, é financiar paisagens com mais diversidade, criando espaços onde as águias, os gatos bravos ou as raposas podem viver sem risco de morrerem à fome.

Pudim de coelho bravo

Ingredientes:
1 coelho com 700 gr
100 gr de chouriço de carne
1 dl de vinho branco
Sal e pimenta a gosto
3 dentes de alho
1 ramo de salsa
5 grãos de pimenta
1 cebola grande
0,5 dl de azeite
50 gr de margarina
3 colheres de sopa de vinho do Porto
Noz-moscada a gosto
100 gr de pão duro levemente torrado
1 dl de leite
5 ovos
Preparação:
Corta-se o coelho depois de bem amanhado, aos bocados. Põe-se na marinada feita com o vinho branco, os dentes de alho picados, o ramo de salsa, a pimenta e o sal. Passadas cerca de 3 horas, leva-se ao lume com a marinada e o chouriço às rodelas. Tapa-se o tacho e ferve devagarinho (adicionando diversas vezes alguma água).
Misturam-se então o vinho do Porto, a pimenta e a noz-moscada. Depois de cozida a carne, desossa-se e passa-se pela máquina, e passa-se igualmente o pão, deita-se o molho da carne, o leite e os ovos previamente batidos. Envolve-se tudo muito bem. Vai a forno brando cozer, em forma de bolo inglês, bem untada com manteiga, durante cerca de meia hora (por cima colocam-se pedacinhos de manteiga). Desenforma-se e serve-se frio, cortado às fatias.
Nota: Feito com lebre, este pudim também fica muito bom.

henrique pereira dos santos, com receita do Chef António Alexandre

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

Memórias

A partir das referências do Helder Spínola na lista Ambio:



E já agora, aqui.
Não vale a pena dizer que não se sabe, seja ali, seja no litoral, seja nos leitos de cheia, seja na acumulação de combustível e por aí fora.
henrique pereira dos santos

Eu tive um sonho


Por Cecílio Gomes da Silva* (1923-2005)
Artigo publicado no dia 13 de Janeiro de 1985 no jornal “Diário de Notícias” do Funchal

Traumatizado pelo estado de desertificação das serras do interior da Ilha da Madeira, muito especialmente da região a Norte do Funchal e que constitui as bacias hidrográficas das três ribeiras que confluem para o Funchal, dando-lhe aquela fisiografia de perfeito anfiteatro, aliado a recordações da infância passada junto à margem de uma das mais torrenciais dessas ribeiras – a de Santa Luzia – o mundo dos meus sonhos é frequentemente tomado por pesadelos sempre ligados às enxurradas invernais e infernais dessa ribeira. Tive um sonho.

Adormecendo ao som do vento e da chuva fustigando o arvoredo do exemplar Bairro dos Olivais Sul onde resido, subia a escadaria do Pico das Pedras, sobranceiro ao Funchal. Nuvens negras apareceram a Sudoeste da cidade, fazendo desaparecer o largo e profundo horizonte, ligando o mar ao céu.

Acompanhavam-me dois dos meus irmãos – memórias do tempo da Juventude – em que nós, depois do almoço, íamos a pé, subindo a Ribeira de Santa Luzia e trepando até à Alegria por alturas da Fundoa, até ao Pico das Pedras, Esteias e Pico Escalvado. Mas no sonho, a meio da escadaria de lascas de pedra, o vento fez-nos parar, obrigando-nos a agarrarmo-nos a uns pinheiros que ladeavam a pequena levada que corria ao lado da escadaria. Lembro-me que corria água em supetões, devido ao grande declive, como nesses velhos tempos. De repente, tudo escureceu. Cordas de água desabaram sobre toda a paisagem que desaparecia rapidamente à nossa volta. O tempo passava e um ruído ensurdecedor, semelhante a uma trovoada, enchia todo o espaço. Quanto durou, é difícil calcular em sonhos. Repentinamente, como começou, tudo parou; as nuvens dissiparam-se, o vento amainou e a luz voltou. Só o ruído continuava cada vez mais cavo e assustador. Olhei para o Sul e qualquer coisa de terrível, dantesco e caótico se me deparou. A Ribeira de Santa Luzia, a Ribeira de S. João e a Ribeira de João Gomes eram três grandes rios, monstruosamente caudalosos e arrasadores. De onde me encontrava via-os transformarem-se numa só torrente de lama, pedras e detritos de toda a ordem. A Ribeira de Santa Luzia, bloqueada por alturas da Ponte Nova – um elevado monturo de pedras, plantas, arames e toda a ordem de entulho fez de tampão ao reduzido canal formado pelas muralhas da Rua 31 de Janeiro e da Rua 5 de Outubro – galgou para um e outro lado em ondas alterosas vermelho acastanhadas, arrasando todos os quarteirões entre a Rua dos Ferreiros na margem direita e a Rua das Hortas na margem esquerda. As águas efervescentes, engrossando cada vez mais em montanhas de vagas espessas, tudo cobriram até à Sé – único edifício de pé. Toda a velha baixa tinha desaparecido debaixo de um fervedouro de água e lama. A Ribeira de João Gomes quase não saiu do seu leito até alturas do Campo da Barca; aí, porém, chocando com as águas vindas da Ribeira de Santa Luzia, soltou pela margem esquerda formando um vasto leito que ia desaguar no Campo Almirante Reis junto ao Forte de S. Tiago. A Ribeira de S. João, interrompida por alturas da Cabouqueira fez da Rua da Carreira o seu novo leito que, transbordando, tudo arrasou até à Avenida Arriaga. Um tumultuoso lençol espumante de lama ia dos pés do Infante D. Henrique à muralha do Forte de S. Tiago. O mar em fúria disputava a terra com as ribeiras. Recordo-me de ver três ilhas no meio daquele turbilhão imenso: o Palácio de S. Lourenço, A torre da Sé e a fortaleza de S. Tiago. Tudo o mais tinha desaparecido – só água lamacenta em turbilhões devastadores.

Acordei encharcado. Não era água, mas suor. Não consegui voltar a adormecer. Acordado o resto da noite por tremenda insónia, resolvi arborizar toda a serra que forma as bacias dessas ribeiras. Continuei a sonhar, desta vez acordado. Quase materializei a imaginação; via-me por aquelas chapas nuas e erosionadas, com batalhões de homens, mulheres e máquinas, semeando urze e louro, plantando castanheiros, nogueiras, pau-branco e vinháticos; corrigindo as barrocas com pequenas barragens de correcção torrencial, canalizando talvegues, desobstruindo canais. E vi a serra verdejante; a água cristalina deslizar lentamente pelos relvados, saltitando pelos córregos enchendo levadas. Voltei a ouvir os cantares dolentes dos regantes pelos socalcos ubérrimos das vertentes. Foram dois sonhos. Nenhum deles era real; felizmente para o primeiro; infelizmente para o segundo.

Oxalá que nunca se diga que sou profeta. Mas as condições para a concretização do pesadelo existem em grau mais do que suficiente.

Os grandes aluviões são cíclicos na Madeira. Basta lembrar o da Ribeira da Madalena e mais recentemente o da Ribeira de Machico. Aqui, porém, já não é uma ribeira, mas três, qualquer delas com bacias hidrográficas mais amplas e totalmente desarborizadas. Os canais de dejecção praticamente não existem nestas ribeiras e os cones de dejecção etão a níveis mais elevados do que a baixa da cidade. As margens estão obstruídas por vegetação e nalguns troços estão cobertas por arames e trepadeiras. Agradável à vista mas preocupante se as águas as atingirem. Estão criadas todas as condições, a montante e a jusante para uma tragédia de dimensões imprevisíveis (só em sonhos).

Não sei como me classificaria Freud se ouvisse este sonho. Apenas posso afirmar sem necessidade de demonstrações matemáticas que 1 mais 1 são 2, com ou sem computador. O que me deprime, porém, é pensar que o segundo sonho é menos provável de acontecer do que o primeiro.

Dei o alarme – pensem nele

Lisboa, 11 de Dezembro de 1984
*Engenheiro Silvicultor

Cinzentos e mulatos


Em muitas discussões, por exemplo, sobre o fogo ou a caça, vejo-me muitas vezes na circunstância de ser acusado de ser um defensor do fogo ou da caça.
É verdade que digo que em certas circunstâncias o fogo ou a caça são benéficos do ponto de vista ambiental. Mas dizer isto é rigorosamente igual a dizer que em certas circunstâncias o fogo ou a caça são prejudiciais do ponto de vista ambiental.
Como em discussões de base ambiental predominam as pessoas que têm posições ambientalistas, como existem muitas posições ambientalistas diferentes, é natural que apareçam pessoas que dizem que o fogo ou a caça são grandes problemas ambientais (e podem ser, em algumas circunstâcias). Nessas alturas tenho tendência para chamar a atenção para as circunstâncias em que não é assim, concluindo que é errada a ideia de que o fogo ou a caça, por si sós, são problemas ambientais de primeira grandeza. E que a discussão fundamental é a das circunstâncias.
É normalmente aqui que a discussão se entorna e me começam a querer colar a argumentações que não são as minhas: as de que o fogo ou a caça nunca são problemas ambientais.
Para quem vê o mundo a preto e branco isto pode fazer sentido. Há gente com uma espécie de daltonismo que os impede de ver os cinzentos.
É o mesmo esquema mental que sempre foi usado em todas as discussões onde se defende a pureza de uma ortodoxia: quem não for assim, é assado, sendo que dentro do assado cabem muitas vezes mais diferenças que entre alguns assins e assados.
Lembro-me de em miúdo pretender apanhar um autocarro e não me ter sido possível porque era um autocarro que não era para brancos. E lembro-me de nessa altura, espantado, ter perguntado ao meu pai como é que viajavam os mulatos num país em que havia uns autocarros para brancos e outros para pretos.
Deve ter sido por essa altura que percebi que para muitos pretos, os mulatos são brancos, e para muitos brancos os mulatos são pretos e que era difícil para os mulatos serem apenas mulatos.
No movimento ambientalista eu sinto-me muitas vezes mulato.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

Da linha editorial



De vez em quando é preciso reafirmar:
este blog não tem linha editorial. Cada um diz o que pensa e como pensa. Não tem agenda, não pretende mudar o mundo e as pessoas que nele escrevem pensam coisas muito diferentes sobre as mesmas coisas.
Por acaso algumas pessoas têm escrito mais que outras (eu, por exemplo) e portanto notam-se mais as suas opiniões.
Mas isso não passa de espuma dos dias: se amanhã alguém tiver mais disponibilidade, notar-se-ão outras ideias.
O que queremos é apenas ajudar-nos a todos a pensar cada um pela sua cabeça: preferimos as discussões às missas.
E mesmo nisso nem sempre estamos todos de acordo.
henrique pereira dos santos

domingo, fevereiro 21, 2010

Terei lido bem?


Tenho à minha frente uma carta da LPN que me é dirigida na qualidade de seu sócio.
Nela se identificam cinco áreas prioritárias para o Ano Internacional da Biodiversidade.
Não as vou discutir mas há uma extraordinária:
Promover o Parque do Sudoeste a Parque Nacional para reforçar o seu estatuto de protecção.
Não consigo perceber como se chega aqui:
os estatutos de protecção não estão organizados hierarquicamente, com promoções ou despromoções. Os estatutos de protecção correspondem a modelos de gestão em função do património que lá está. Têm todos a mesma importância, o fundamental é escolher o tipo de gestão que se adequa às características do que se pretende proteger;
por outro lado o estatuto de parque nacional aplica-se a áreas com pouco ou nenhuma actividade humana.
O que se passa? A LPN não sabe os rudimentos do sistema de classificação nacional ou da UICN? Ou não conhece o Sudoeste?
E ainda que tudo batesse certo, que não bate, a LPN acha mesmo que o problema fundamental da gestão do Sudoeste (ou das outras áreas protegidas) é o seu estatuto legal?
Confesso, há coisas que não percebo mesmo.
henrique pereira dos santos

O que é a natureza em nós?


O texto que vou aqui transcrever, e que me chegou via email depois da última controvérsia sobre caça e conservação, não é um texto que eu subscreva.
Mas é um texto que acho interessante.
Tento explicar.
As teses biocêntricas e de igualdade entre as espécies, que fundamentam a oposição à caça, ao consumo de animais e etc., têm origens remotas, com certeza, mas têm uma origem próxima num filósofo utilitarista que as adopta como a consequência de um processo de construção intelectual. São por isso inequivocamente filhas da civilização, no sentido em que apenas a civilização, uma especificidade da nossa espécie (passe o inseguro pleonasmo e a segura aliteração), nos permite repudiar a tendência natural para a defesa do grupo e adoptar a irmandade global.
O que este texto de um caçador permite , com ideias que estão nos antípodas destas, é ver como a comunhão com a natureza e a irmandade com a natureza podem ser vistas exactamente no extremo oposto da ideia de igualdade das espécies.
O acto de caçar é aqui retratado como uma reintegração na natureza, como o cumprimento de um desígnio natural.
Espero que sirva para os que estão de um lado e do outro da barricada se questionarem sobre se não será tempo de voltarmos a ler "Humano, demasiado humano" que Nietzsche pretendia que fosse um livro para espíritos livres, isto é, aqueles que pensam de forma diferente do que se espera deles (li este livro há muitos anos, lembro-me vagamente do que li, e servi-me agora da wikipedia para me certificar de que era realmente sobre sermos humanos, demasiado humanos, que tratava o livro).
henrique pereira dos santos

"Afinal porque caçamos?
É sabido ser a caça a mais antiga actividade do homem e que esteve na génese de tantas outras, contribuindo decisivamente para o desenvolvimento da humanidade!
Então, porque é que parece ser tão difícil, para alguns, entender que somos herdeiros de algo ancestral, que nos acompanha desde os primeiros tempos?
De aceitar que nos assiste o direito a existirmos e a praticar essa nossa actividade, a herança mais antiga da humanidade, para a qual possuímos natural tendência?
Afinal porque caçamos? E é ou não legítimo fazê-lo?
Na actualidade, nalguns sectores da sociedade (os mais modernos e recentes, de raiz urbana) considera-se que caçar é um comportamento reprovável … em nome de uma falsa e hipócrita defesa de um ambiente que sofre infinitamente mais com as outras múltiplas actividades humanas, derivadas do desenvolvimento e da modernidade, do que com a prática da caça – esta aliás, quem mais contribui para a preservação e entendimento desse mesmo ambiente. Que é vicioso, em nome de discutíveis e exacerbados valores sobre a condição animal, fruto do afastamento da realidade da Natureza e do campo. Consideram-no um desvio, fruto do seu alheamento da vida e da morte, naturais, que não entendem e temem! Que é uma expressão da violência e do mal, segundo princípios anti-armas do pacifismo artificial urbano que todavia desenvolveu a violência psicológica, sofisticada.
Mesmo alguns caçadores têm dúvidas em se assumirem, e até vergonha… tentam que não reparem neles, fazem-no ás escondidas e defendem-se com pouca convicção, sem saber exactamente porque são levados a caçar, como se só por si a vontade e o prazer não chegassem para o justificar e antes fossem algo de pecaminoso!
Eu, caçador contemporâneo, aos 54 anos, sempre que chego a um local ao ar livre, qualquer que seja o espaço... um quintal, um jardim, um campo, praia... olho em volta à procura dos sinais, dos animais e dos lugares onde eles possam estar, as suas possíveis querenças. É instintivo, inconsciente!
Imediatamente avalio vegetação e terreno, procuro pedras ou onde o mar levante. Dou comigo a identificar o posto onde me iria colocar, como entraria no terreno ou aonde iria à procura de presas!
Não olho para um rio ou pedaço de mar, um bosque, montanha ou planície... que não pense imediatamente que animais ali se encontrarão!
Vejo qualquer espaço aberto e me dá vontade de pôr a arma ao ombro, assobiar ao cão e marchar rumo ao horizonte...
Chegando a uma praia, olho imediatamente para o mar a avaliar o seu potencial, o estado de força, a limpidez, altura da maré, manchas de pedra e outros sinais...
Mal avisto um pedaço de oceano, logo me apetece enfiar máscara e barbatanas e ir por ali fora, de arma na mão!
È mais forte do que qualquer outra coisa, e sempre assim foi desde que me lembro!
Ora o que é isto? Só tenho uma explicação:
- SOU CAÇADOR! Em todas as fibras do meu ser... até ao mais ínfimo protão!
Porquê? Pois porque há em mim um qualquer código que me faz ser assim. Como sei que existe noutros, e, sei que existem outros cujo primeiro olhar é para os biquínis, ou para a luz e côr do enquadramento que daria uma tela ou uma fotografia; os que ouvem música no vento e nas ondas, ou os que desenham na mente a casa que ali construiriam... cada qual nasce com a sua sensibilidade e tendências...
Os meus antepassados foram formidáveis caçadores! Se não o tivessem sido não estaríamos aqui a discorrer sobre estas questões! Porque o homem é fraco, corre pouco, não possui asas, tem pele fina e nua, unhas curtas e dentes pequenos… Teria sido comido pelos carnívoros, ou, sobrevivendo de raízes, frutos e plantas, não teria chegado ao nível actual dos nossos detractores nem aos locais onde eles se exprimem. Seria um tímido herbívoro não evoluído, um saguim grande e triste, nu, com frio e miserável, em permanente busca de comida e estado de vigilância. Se “eles”, os modernos e os que se julgam anti-caça, se acham no topo da evolução humana, foi por terem sido criados a carne, e porque os seus antepassados caçaram e comeram carne!
Este antepassado caçador tinha prazer na caça! Tinha que ter… a necessidade de caçar, teve de proporcionar esse prazer, como tudo o que é instintivo e fundamental à sobrevivência das espécies: - O prazer do sexo, da comida, de mitigar a sede, de sentir o calor quando se tem frio ou o fresco quando se tem calor...são indispensáveis à própria vida! Por isso os animais brincam e têm prazer nos jogos onde treinam para a sua sobrevivência: as lutas e emboscadas dos leões, o correr e saltar das gazelas... as acrobacias dos macacos e das aves, as brincadeiras das focas, lontras ou golfinhos.
Fala-se da morte e associa-se esta à caça… tentam que seja um argumento de peso contra ela… mas, a verdade é que há caçadores e presas em todos os estratos da vida! A morte ocorre em todos os seres e faz por isso parte da vida, e de uma relação profunda e natural, que permite a transmissão da matéria e da energia.
Existe uma teia intrincadíssima entre TODOS os seres vivos, que os condiciona. Nós não somos excepção! Basicamente o homem é um animal e igual a eles: nasce, cresce, reproduz-se e morre! Mas, quanto mais sentimentos desenvolveu e mais elevados, mais se distanciou do básico e portanto do animal. Tanto o animal como o homem partilham sensações físicas elementares como a sede, fome, calor, frio e cansaço. Possuem ainda outros sentimentos mais elaborados como o medo, a disposição para o combate, a luxúria e até o amor maternal. Porém, o homem desenvolveu outros sentimentos ainda mais sofisticados, ao nível da psique, que só ele possui, o tornam diferente e elevam a níveis inacessíveis ao animal!
Nós matamos porque somos caçadores! Sem raiva… porque na Natureza, a morte de uns é a vida de outros. Matamos as presas, naturalmente e em paz! Não porque as odiamos, como o leão não odeia zebras nem a aranha odeia moscas! Mas precisam delas para viver e as capturam, naturalmente. Quando damos a morte é por uma razão: A morte de uns dá a vida aos outros, é assim a ordem de toda a Natureza, das plantas aos animais! A grande árvore que morre, apodrece e dá de comer ás novas… e a tantos insectos e estes aos pássaros e até ao urso… Se tiramos uma vida, podemos todavia dar-lhe continuidade porque ao comer o ser que morreu, o incorporamos, e ele continua assim a viver em nós, até por nossa vez morrermos e sermos incorporados na terra e nos vermes e daí passarmos às outras formas de vida, as plantas e os outros animais. Por isso a vida se mantém, é passada de uns seres para os outros. Nós somos meros transportadores de energia, através da vida.
Dar a morte é algo de natural, porque morrer é consequência de estar vivo e o fim dessa mesma vida. Nós damos a vida ao fazer filhos e também damos a morte… é o mesmo e faz parte da nossa condição! O caçador o pratica, com respeito pelos animais a quem dá a morte pois não o faz com o mesmo sentimento do assassino ou a raiva de quem se vinga ou quer suplantar o adversário, e o faz com frieza e eficiência! O objectivo é matar e não fazer sofrer! Mata porque tem de ser, tal como o leopardo mata a gazela, a águia o coelho e o tubarão a foca. Fazemos parte de um todo onde se mata e se morre, como a morte faz parte da vida. E é por isso que sendo caçadores, amamos os animais que matamos e não os odiamos! O pastor, esse odeia o lobo que lhe come o rebanho, o agricultor odeia o javali que lhe come a seara! Podem odiar, e se compreende, mas raramente os matam, e, quando matam alguma coisa é aos seus animais, para os comer, e também não os matam com ódio, matam-nos com indiferença e porque é preciso! Matar com ódio, mata o assassino, por maldade… coisa que nem a cobra ou o crocodilo fazem, porque o criminoso é mau, é baixo! Está no mais baixo nível da existência!
O homem se foi libertando desta teia e saiu dela, por força da sua evolução e do desenvolvimento, arranjando formas dela menos depender. Mas continua a depender da morte, porque come seres que estiveram vivos… animais mortos, e, ao comer as plantas também as mata! A morte estará sempre associada à transferência da energia natural!
O gosto natural pela caça, o “gene do caçador”, existe e está no nosso código genético! Em todas as classes de seres vivos, em todos os estratos e em todas as comunidades, há predadores e presas, que a Natureza na sua complicada rede de interacções e relacionamento criou, de modo a que se regulasse e mantivesse numa dinâmica de evolução e vida. Esse gosto manteve-se ao longo das gerações, como o gosto em procriar ou comer. O homem ao evoluir ganhou outras sensações que são seu apanágio: os gostos e os prazeres sofisticados, apreciar uma paisagem, um vinho, ouvir música, jogar um jogo complexo! Porque só o homem tem o espírito, ou a "alma", que lhe permitiu desenvolver tais sentimentos superiores, como o amor ou a piedade! Isso o que distingue o homem dos animais... que não os sentem. Por exemplo, e desde logo, a piedade, que nenhum animal possui, por força da sua condição como pela sua total inutilidade ou mesmo vantagem de não a manifestar! Pode imaginar-se que o lobo tenha piedade pelo veado? Seria anti-natural! Ou o amor, o amor puro dos amantes ou pelas outras pessoas que conduz a praticar o bem, e, a generosidade! São sentimentos exclusivos do homem, como apreciar as coisas belas e boas, a gastronomia, a música e o canto, a dança ou um simples pôr-do-Sol! Tudo coisas que o homem desenvolveu, inatingíveis para os animais e que os separam. Coisas que diferenciam os próprios homens e os colocam em diferentes níveis da evolução: - Da cupidez do ladrão, do ódio do assassino, da luxúria do tarado - exacerbações extremas de paixões - , ao homem que se eleva pela sua arte, ou pelos sentimentos generosos da partilha ou da ajuda, e finalmente ao Santo, cujo desprendimento é total!
Esse gene do caçador, pode existir ou não, como pode estar activo ou adormecido. Neste caso pode revelar-se tardiamente ou nunca se revelar! Porém em nós, ele está activo e nos impele a caçar, como nos podia ter impelido a ser músicos, militares, cozinheiros! Por isso, para mim, caçar é sentir a satisfação e a liberdade imensa de seguir essa tendência que vive no meu ser! O desapego, o afastar de tudo, onde nada mais conta nem importa senão o ir, o procurar... não importa o quê!
Reprimi-lo seria a atrofia de uma tendência natural, a infelicidade e a frustração.
E, preciso sim de capturar uma presa, de me apossar dela, de a sentir como sendo minha! De experimentar essa sensação da posse, a satisfação atávica, animalesca e ancestral de "apresar". Não se confunda com matar! Nada tem a ver, porque logo depois a minha parte humana, a alma, se enche de pena e se pudesse daria vida àquele animal e o perseguiria outra vez, pois ao caçá-lo criei uma ligação com ele, me identifiquei com ele e passei a depender dele, como num namoro!
Será assim tão difícil de perceber? E de aceitar? Isto faz de mim um ser vicioso e mau? Um sádico criminoso, como pretendem os que não o entendem… talvez porque nunca lhes explicaram as coisas deste modo, presumindo eles de acordo com a sua percepção?
Depois, comê-la-ei... é outra parte dessa condição de ser caçador: sou impelido a comer a minha captura! Os antigos caçadores, os mais primitivos e os filósofos, explicam bem esta parte, pois ao comer o animal, o incorporamos em nós próprios e ele continua a viver, em nós... é algo de profundo que explica a forte ligação da caça à gastronomia, para lá do pragmatismo puro da alimentação e sobrevivência.
A seguir, partilho com os outros esse momento da posse: o lance vivido! Exibo-me e recebo o reconhecimento dos meus iguais, a admiração. É a vaidade humana entendida sob a forma da recompensa, que nos leva a procurar a eficiência para o bem comum: É-se enaltecido mas se contribuiu para o grupo! O que em tempos idos teve a maior importância e por isso se manteve e nos marcou! E não funciona só na caça!
No acto de historiar, há ainda um componente fundamental: A partilha da experiência e do saber adquirido. O ensinar e o imitar, que melhoram a técnica e portanto os resultados do grupo! Ou julgam que é por acaso que somos uma confraria de "mentirosos"? De contadores de histórias e de potenciais vaidosos?
Percebe-se que a prática da caça mantém a nossa ligação à Natureza, e, que nos reintegramos nela ao regressarmos à condição do caçador. O homem, que se afastou da Natureza, regressa assim ao seu estado mais natural ou primitivo, renova energias, limpa as frustrações da vida moderna, reaproximando-se da Natureza e de si mesmo, como os adultos tendem a voltar à infância ou aonde foram felizes! Mais do que isso, imergem na Natureza, onde têm lugar, são aceites porque o caçador faz parte dela e está previsto! A sua actividade é sustentável, como não é a do homem construtor de mega urbes e do desenvolvimento industrial!
Claro que usufruir da Natureza, também outros o fazem! O caminheiro, o fotógrafo e o observador de pássaros, o mergulhador, o ciclista de btt e o alpinista... experimentam esse contacto, mas apenas o contacto e porque não possuindo o gene do caçador, isso lhes basta. Não têm de satisfazer a necessidade de caçar, de se apoderarem de mais do que sensações ou imagens. A necessidade do caçador é ainda mais física! Além do esforço e do jogo da caça, de iludir o animal, importa a sua posse: a captura! A captura é o grande objectivo! Assuma-se e entenda-se, porque sem a captura do animal, o caçador primitivo não sobrevivia… ele não se alimentava de sensações nem de imagens, e sim de carne!
A caça evoluiu, mas não pode ser separada dessa posse, que redunda na morte... a pesca sem morte é a excelência... quando houver a caça sem morte, talvez surja um novo caçador… porém ficará sempre o vazio da posse física, de incorporar o animal, que hoje ainda não dissocio da caça. No futuro… não sei, pois já não será nesta minha vida. Sei sim que a caça evoluiu também, acompanhou o homem... a que se pratica hoje pouco tem a ver com a do início do século passado, menos ainda com a da idade média e nada com a da pré-história… salvo pelo que se manteve, o impulso de caçar e finalidade de apresar! Mas em contrapartida e pela lei das compensações, assumiu uma maior importância quer na ligação à terra e à Natureza quer na sua preservação, pois que graças à caça e pela caça, sobrevivem hoje espécies e se mantém o ambiente e a biodiversidade! Não tenho dúvida de que o caçador em mim passará a outro, como me foi passado e se manifestou em mim, e assim acontece desde o início dos tempos, porque ele é útil! E passará, não só pelas leis da genética mas também por via das ideias que se divulgam e cultivam, outra admirável e exclusiva capacidade humana!
È verdade que o caçador procura um regresso à Natureza? Sim, o operário da cintura industrial das grandes cidades, o urbano dos bairros citadinos, o que vive nas metrópoles, os saudosos do campo e da vida ali, que mantêm vestígios da cultura campesina, e são ainda muitos, hoje talvez até a maioria! Porém e o caçador rural, o aldeão que vive na, com, e da Natureza? Como pensar que vá à caça para se sentir próximo da Natureza? Também isso não basta…
Então afinal porque caçamos?
Bom, eu, caçador actual e ser pensante, cheguei à conclusão que, quando pego na arma e saio para o campo ou para o mar, afinal aquilo que faço é perpetuar o gesto do meu longínquo ancestral, no momento em que empunhou pela primeira vez uma arma e alijando a sua condição de presa, se ergueu em glória de predador!
È isso que eu revivo e celebro desde essa altura!
È o que me foi passado no código genético e que eu passarei a outros, por muito que nos “eduquem”, reprimam ou reprovem.
È isso que nos diferencia do alpinista, do passeante, do observador!
È isso que nos leva a ser o que somos…
Afinal é por isso que caçamos!
Foram os caçadores que deram aos artistas e aos filósofos a oportunidade de o serem... que proporcionaram à humanidade chegar até hoje. Foi a caça que lhes permitiu estarem aqui hoje, os biólogos e políticos, os “bem pensantes” dos direitos animais e do ambiente, os “modernos”, todos os que agora tentam acabar connosco!
Deviam estar-nos gratos, perceber o nosso direito a existirmos pelo simples facto de o sermos e gostarmos de caçar, e não, acabar connosco porque já não lhes fazemos falta, porque perderam a capacidade de nos entender e ignoram este facto ancestral.
Não teremos então já, o direito a existir?
Não pretendo fazer de ninguém caçador, tão pouco impor que seja obrigatório caçar… como o fariam os meus detractores! Procuro apenas divulgar porque sou caçador, e que me respeitem por isso.
Não luto para impor as minhas ideias e sim pela defesa de ter direito a elas!
António Luiz Pacheco

sábado, fevereiro 20, 2010

Saúde e alimentação

O gosto da biodiversidade (publicidade) III

Imagem roubada daqui, não da Faia Brava, claro

A propósito quer dos comentários do Henk Feith quer do Paulo Barros sobre o texto que faz a ligação entre o azeite e a produção de biodiversidade na Faia Brava aqui vai o texto sobre a pastorícia.
É que o projecto é só um projecto de comunicação, não é uma análise crítica da gestão da biodiversidade da Faia Brava. E não se pode pedir ao projecto mais que aquilo que ele pode dar.

O crescimento dos matos em quase todo Portugal corresponde à acumulação de milhares de toneladas de combustível que, em condições meteorológicas adversas, ardem facilmente.
O corte de matos, manualmente ou com máquinas, é possível mas é uma tarefa penosa e cara. Por isso, reduzindo a estrumação das terras e deixando de cozinhar e nos aquecermos a lenha, deixámos ao gado miúdo a tarefa de gerir todo este combustível.
O excesso de gado, associado a queimadas frequentes, conduz a perda de solo e à degradação da paisagem como a que ainda existe em algumas partes das propriedades da ATN.
Hoje estas áreas estão em recuperação com um uso cuidado de alguns rebanhos e uma manada de cavalos garranos para diminuir o risco de incêndio.
A opção é sua:
comer carne de vaca ou queijo bola, resulta quase sempre em paisagens com grandes acumulações de combustível e fogos intensos quase todos os Verões;
comer também cabritos e borregos, ou queijos de ovelha ou cabra pastoreada nos montes é construir paisagens mais resistentes ao fogo e espaços onde as matas podem sobreviver anos a fio sem serem afectadas por fogos severos.

Bola de carnes pastorícias (Borrego da Beira IGP, Cabrito da Beira e da Gralheira IGP)

Massa:
Ingredientes:
3 ovos - 1,4 dl de azeite da Faia Brava – 600 gr de farinha – 1,5 dl de leite – 2 colheres de chá de fermento em pó – sal a gosto – 1 gema de ovo
Preparação:
Deitam-se os ovos numa tigela, batem-se e misturam-se com o leite. Em seguida acrescenta-se o azeite, o sal, e por fim a farinha com o fermento, amassando bem. Tapa-se a massa com um pano e descansa cerca de 4 horas. Depois estende-se a massa com o rolo até ficar fina e forra-se um pirex redondo.
Recheio
Ingredientes:
400 gr de carne de borrego desossado
400 gr de carne cabrito desossado
150 gr de toucinho
3 dentes de alho
2 dl de vinho branco
75 gr de manteiga
2 colheres de sopa de azeite Faia Brava
Sal e pimenta a gosto
1 gema de ovo
Preparação:
Cortam-se escalopes muito pequenos e finos das carnes ovina e caprina. Temperam-se com os dentes de alho picados, o sal, a pimenta, e o vinho branco. Leva-se a manteiga ao lume e fritam-se as carnes. Quando prontos, junta-se a marinada e fervilha, com o tacho tapado, durante uns minutos. O toucinho corta-se em tiras finas e frita-se no azeite. No pirex já forrado com a massa coloca-se uma camada de carnes, outra de massa, novamente carnes e o molho destas acabando com a massa a cobrir. Dobram-se as pontas, doura-se com a gema de ovo e vai ao forno quente para cozer (180ºC)

henrique pereira dos santos, com receita de António Alexandre

A vida é complicada

Num dos meus posts sobre o projecto "O gosto da biodiversidade" existe o seguinte comentário (implicitamente criticando a dicotomia entre o uso de azeite e de manteiga expressa num dos textos do projecto):
"Consumo manteiga dos Açores. Acaso esse local fica no outro lado do mundo? E os bichos ficam em que estábulos? Do que eu vi andam em liberdade pelos terrenos dos proprietários. E acaso a paisagem dos Açores é monótona?".
A crítica é razoavelmente justa no sentido em que o texto é demasiado a preto e branco (pelas razões que explico na caixa de comentários) mas um simples clik na internet permite questionar (verdadeiramente no sentido de levantar questões, não no sentido de contestar) várias frases do comentário.
Aconselho a leitura deste post, de Março de 2008, noutro blog.
Nesse post é evidente o uso (e um uso intenso, não apenas pontual) de rações produzidas no outro lado do mundo, não nos Açores, na produção de leite açoreano.
É isso que o projecto pretende: perguntarmo-nos de onde vêem e como se fazem os alimentos que usamos diariamente, muitas vezes com imagens estereotipadas na cabeça, como a visão idílica que todos temos (não apenas o comentador) da produção de gado nos Açores, por exemplo.
Essa produção é apesar de tudo muito mais sustentável que muitas outras com gado estritamente estabulado? Sim, sem dúvida.
E por isso o projecto põe a tónica na liberdade individual: cada um faça a sua apreciação, mas inclua a sustentabilidade informada nos critérios de decisão, por favor. Mesmo quando, como todos fazemos, uns mais outros menos vezes, sabemos perfeitamente que optámos por uma refeição completamente insustentável, o que é legítimo e muitas vezes razoável.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

Clima e ciência - a perspectiva da Economist sobre o Climate gate

No Economist online, uma boa súmula do que é a tempestade à volta do IPCC (na minha modesta opinião,
claro):

Climate change and the media / Feb 17th 2010, 19:34 by M.S.
LAST week members of the Dutch parliament denounced the Intergovernmental Panel on Climate Change for including in its mammoth 2007 report the scandalous charge that 55% of the Netherlands is below sea level. This outrageous misinformation had been supplied to the IPCC by...the Netherlands Environmental Assessment Agency, the Dutch government's national institute for environmental planning. In fact 26% of the country is below sea level, with another 29% merely "at risk of flooding", according to a correction the Dutch agency has now published. In an article in the Dutch magazine Vrij Nederland, agency official Joop Oude Lohuis does not quite make it clear whether his agency supplied the incorrect figure, or whether he thinks
someone at the IPCC mistakenly added the two numbers.

A few weeks ago it was unearthed, to everyone's great relief, that the IPCC report was wrong to have stated that the Himalayan glaciers might be gone by 2035. Since then the hunt has been on for errors in the report, and a number of accusations have followed. According to the climate scientists at RealClimate, the incorrect Dutch sea-level statistic is the one that comes closest to being an actual error. An assessment that rain-fed crop yields in some African countries "could be reduced by up to 50%" is based on legitimate research, and is followed in the report by the qualifier that some other climate changes may be beneficial. A claim that up to 40% of the Amazonian rainforest could be subject to die-off due to relatively small changes in precipitation is similarly legitimate. A chart showing economic damages from climate change should not have been included in the report's supplementary materials, say the researchers whose work it is based on. But otherwise they say the IPCC has accurately represented their work.

Increasing scrutiny has shown that there is certainly room for improvement and reforms at the IPCC. But what we also see with several of these scandalous "errors", is that the IPCC's claims as reported by the mainstream media were often exaggerated. For example, while I have a general sense of a few of the broad conclusions of the IPCC's 2007 report (like a sea level rise most likely around 30 centimeters by 2100, though more recent research indicates it will probably be much more), I couldn't name many specific details. But I knew the IPCC had estimated the Himalayan glaciers would be gone by 2035 long before that estimate turned out to be false. I knew this because the mainstream media had plucked that claim out and reported it
widely, because it was so sensational. It's also perfectly understandable that elements in the report indicating very high possible levels of crop damage in certain African countries would be reported by the media without
the qualifying considerations. It would be routine and accepted practice for such an assessment to be reported in a wire-service story with the headline: "IPCC predicts 50% crop reductions in Africa".

The media like big numbers. Reporters will naturally take a 3,000-page report like that of the IPCC and skim through it, looking for affected populations over 1 billion, percentages over 50%, and catastrophes occurring within the next 30 years. The resulting picture in the media will exaggerate the results of the scientific research. In some cases, scientists who work on climate-change issues, and those who put together the IPCC report, must be truly exasperated to have watched the media first exaggerate aspects of their report, and then accuse the IPCC of responsibility for the media's exaggerations."

Mais uma evidência da insustentabilidade de Alqueva

Notícia de hoje na Ambienteonline:

"O Governo aprovou em Conselho de Ministros a redução em 50 por cento do custo do fornecimento de água no Empreendimento de Fins Múltiplos do Alqueva (EDIA), valor que irá aumentar progressivamente em seis anos.

O ministro da Agricultura, António Serrano, sublinhou o preço competitivo em comparação com a prática nas regiões vizinhas de Espanha. Para o ministro, «os novos preços vão permitir atrair investimento estrangeiro e aumentar a adesão dos agricultores nacionais a novas formas de cultura e de regadio».

António Serrano acrescentou que, «depois, haverá um preço que incluirá na sua formulação, quer a taxa de recursos hídricos, quer as taxas de beneficiação que resultam do regime jurídico dos aproveitamentos hidroagrícolas».

Ou seja, em clara violação do espírito do princípio do utilizador-pagador, o contribuinte português, depois de ter pao a infra-estrutura, subsidiará agora o seu uso. Apenas se pode esperar que este subsídio não seja ainda mais impactante do que já tem sido o Alqueva.

O gosto da biodiversidade (publicidade) II

Imagem roubada daqui

A Associação Transumância e Natureza (ATN) produz e comercializa azeite.
O seu principal objectivo é gerir o habitat de algumas das espécies mais importantes da Reserva da Faia Brava, mantendo um mosaico de diferentes culturas.
Para conservar as águias de bonneli ou as águias reais que existem nas suas propriedades é preciso garantir condições favoráveis para outras espécies que lhes servem de alimento, sobretudo o coelho.
Por outro lado as oliveiras, produzindo azeitonas no Inverno, dão alimento numa altura em que muitas plantas estão sem folha e sem fruto.
Essa é a razão principal para a ATN se interessar por esta produção, investindo nela e vendendo o azeite para pagar o trabalho de gestão do habitat e libertar um pequeno valor para comprar mais terrenos para a conservação.
A opção é sua:
usar manteiga resulta quase sempre em paisagens monótonas de produção intensiva de cereais, usados nas rações para alimentar gado que não sai dos seus estábulos, muitas vezes do outro lado do mundo;
usar azeite, sobretudo este azeite, é construir paisagens com muito mais que oliveiras, é criar espaços onde sabe que as águias podem viver sem risco de morrerem à fome.

Pão
Massa de azeite
Ingredientes:
500 gr de farinha
20 gr de sêmola grossa
15 gr de fermento fresco
10 gr de sal
50 gr de azeite Faia Brava
320 gr de água (320 ml, mas se pesar é mais fiável)
Pré-aqueça o forno a 250 C. Misture a farinha e a sêmola e esfregue-as com o fermento, com a ajuda dos dedos, como se estivesse preparando umas migas. Junte o sal, o azeite e a água, e continue a amassar e virando a massa inúmeras vezes para que incorpore o máximo de ar.

Focaccia com sal e alecrim
1 massa de azeite depois de repousar 1 hora
5 colheres de sopa de azeite
6 hastes de alecrim
Flor de sal
Preparação:
Estender a massa sobre uma placa de forno pincelada com azeite. Espalhe o restante azeite sobre a massa e com a ajuda dos dedos estique a massa do centro para as extremidades da placa, sem a levantar ou retirar, cubra com um pano e deixe repousar num lugar ameno, ao abrigo de correntes de ar, durante 45 minutos. Volte a pressionar a massa com as pontas dos dedos e deixe repousar mais 30 minutos. Retires as folhas de alecrim das hastes e espalhe homogeneamente sobre a massa, salpique também com a flor de sal e em seguida leve ao forno previamente aquecido. Abaixe a temperatura para os 220C e deixe cozer por 25 a 30 minutos, até atingir uma cor castanha/dourada. Retire do forno e transfira para uma superfície neutra para arrefecer pincelando com um pouco mais de azeite enquanto está quente.
henrique pereira dos santos, com receitas de António Alexandre

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

O gosto da biodiversidade (publicidade)

Declaração de interesses: sou colaborador remunerado da ATN e sou em grande parte responsável pela concepção e execução deste programa específico da associação

Este é o primeiro de uma série de posts sobre o projecto "O gosto da Biodiversidade" cuja primeira realização concreta será nos dias 26, 27 e 28 de Fevereiro no Cascais Shopping.
O projecto tem dois objectivos essenciais: levar as pessoas a olharem para o seu prato do ponto de vista da sustentabilidade; divulgar a ATN e a Faia Brava, nomeadamente as suas opções de gestão para a biodiversidade.
Os posts serão constituídos por um texto de enquadramento que relaciona um produto com questões de sustentabilidade, seguido de uma receita que usa esse produto. As receitas são concebidas pelo Chef António Alexandre, que fará as sessões de live cooking e degustação que são parte essencial do projecto .

A Associação Transumância e Natureza não produz o seu próprio mel.
Fá-lo-á um dia porque a sua produção é uma das eficientes formas de valorizar os matos e a sua floração surpreendente.
Grande parte da diversidade que existe na natureza está nos insectos. A sua importância nos ecossistemas vai da polinização das flores até ao seu papel na alimentação de morcegos, noitibós ou abelharucos, um dos pássaros mais bonitos que encontramos em Portugal.
Pontos de água, recuperação de matas e linhas de água degradadas por anos de uso excessivo, uso de animais na gestão de habitats, em cujos excrementos muitos insectos (e também aves) se alimentam, estrumação e tratamentos sem recurso a produtos químicos, estão entre as medidas de gestão adoptadas adoptadas na Faia Brava para proteger os invertebrados.
A opção é sua:
usar açúcar refinado de cana resulta quase sempre em paisagens monótonas de produção intensiva em países tropicais;
usar o mel produzido nos matos de tomilho ou alecrim é construir paisagens com diversidade e criar espaços onde muitas outras espécies de insectos podem viver e prestar-nos serviços que muitas vezes nem imaginamos.

Pêra recheada com queijo de cabra e mel
Ingredientes
2 peras médias
1 colher de sopa de sumo de limão
100 gr de queijo de ovelha
100 gr de manteiga amolecida
8 a 10 folhas de manjericão ou poejo
1 colher de sopa de mel
Sal e pimenta a gosto
2 colheres de sopa de flocos de aveia
Preparação:
Descascar as peras e pô-las a cozer em água com 1 colher de sopa de sumo de limão, durante aproximadamente 4 a 6 minutos. A água deverá ser suficiente para cobrir as peras. Esmigalhar o queijo, misturá-lo homogeneamente com a manteiga e temperar com uma pitada de sal, pimenta e as folhas de manjericão ou poejo picadas. Retirar e escorrer as peras, cortando-as a seguir em rodelas da grossura de um dedo. Barrar todas elas com a massa de queijo e sobrepor em camadas. Espalhar em fio o mel sobre as peras. Tostar os flocos de aveia numa frigideira sem gordura, e polvilhar decorativamente sobre as peras.

henrique pereira dos santos

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

O montado, a rolha e o vinho


Desde há uns meses tem-se desenrolado uma discussão muito interessante sobre a utilização de vedantes alternativos à rolha de cortiça. Participei ativamente e fui-me sentindo cada vez menos confortável na minha posição inicial.

O raciocínio dominante é: garrafas de vinho podem ser vedadas com rolhas - rolhas são feitas de cortiça - cortiça vem de montados de sobro - montados são ecossistemas ricos em biodiversidade - a biodiversidade é um valor prioritário a preservar. Conclusão: as garrafas de vinho devem ser vedadas com rolhas para preservar a biodiversidade.

Surgiu um produtor de vinho que disse não à rolha e optou por uma cápsula de alumínio. Segue uma troca de posts e e-mails, com posições claras e distintas, e nas quais se misturaram uma série de aspetos relacionadas com o tema, envolvendo pessoas fora da população residente do blog Ambio e foi muito enriquecedor.

Mas, depois disto tudo, não consigo livrar-me de um sentimento de desorientação. Os produtores de cortiça vendem aos produtores de rolhas que vendem aos produtores de vinho que vendem aos consumidores finais. Um elo nesta cadeia salta fora. Caem-lhe em cima os consumidores finais, os produtores de rolhas e os produtores de cortiça, acusando-o de não proteger o sistema produtivo da cortiça e ser o grande violador da biodiversidade. Mas será que o produtor de vinho é moralmente obrigado a proteger um sistema que não é seu, mas do qual é somente um cliente? Não seria mais justo, se houver uma real preocupação por parte dos consumidores finais, destes em primeiro lugar cairem em cima dos produtores de cortiça que aparentemente não são capazes de proteger o sistema produtivo que os consumidores tanto valorizam? Não deviam ser primeiro os produtores de cortiça a autoquestionarem-se o que (não) fizeram para que o sistema que tanto valorizam se tornou frágil e em risco de desaparecer? Não serão em primeiro lugar os detentores dos montados os responsáveis pela sua preservação? E, ao fim e ao cabo, não devia ser o mercado de vinho a determinar qual a relevância da escolha do vedante para o consumidor final, através de um processo de seleção que eliminava simplesmente as ofertas que não apoiam a proteção do montado? Se é tão evidente que o mercado de vinhos já regressou para as tradicionais rolhas, então bastava ficar sorridentemente a assistir à falência de Champalimaud e amigos. Ou estarei a ver mal?

Por fim, para mim, tudo se resume ao post inicial do HPS: eu não compro.

E está tudo dito.

Henk Feith





Myotis escalerai, espécie nova de morcego para Portugal?

Foto: Myotis escalerai



Depois de todos os resultados do CTC, expostos neste Post, não é que passado 6 meses ainda recebemos boas notícias, foi confirmada a presença de Myotis escalerai para o território Português.

“… the DNA-results of the bats caught during our stay in Serra da Estrela. As you probably have read on page 17 of the report, DNA-analysis is the only way to tell the difference between Myotis nattereri and Myotis escalerai. Analysis of the DNA-samples we collected, proved that all individuals were Myotis escalerai. A nice result!”


Paulo Barros