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terça-feira, abril 24, 2012

Lince Ibérico: O valor da política de reintroduções

Não entrarei em grandes detalhes porque isto é trabalho em curso, não publicado, em colaboração com colegas das Universidades de Adelaide, de Stony Brook e do CSIC de Madrid e de Doñana mas fica uma figura que me parece ser relevante para esta discussão.

No eixo do X temos a linha do tempo e no eixo do y temos o número de populações de linces ibéricos (áreas mais ou menos isoladas com casais reprodutores). A linha azul representa um valor médio e as linhas vermelhas os intervalos de confiança com base em simulações. O primeiro gráfico mostra o número de populações de lince num cenário "business as usual" sem gestão do território (neste caso, gestão de populações de coelhos) e sem reintrodução de linces. O segundo gráfico mostra o mesmo mas com gestão de populações de coelhos que, não obstante, são episodicamente afetados por doenças. Os restantes gráficos representam cenários onde intervêm diferentes estratégias de reintrodução.

Naturalmente isto são resultados de modelos e não a realidade. É possível que as projeções sejam mais otimistas ou pessimistas que a realidade (as nossas projeções indicam que a extinção do lince seria eminente sem políticas de reprodução ex-situ e respetivas reintroduções) mas tudo leva a crer que a comparação entre cenários é robusta. Ou seja, a estratégia "do deixar andar" é menos efetiva que uma estratégia que envolva da gestão intensiva de coelhos e ambas estratégias são inferiores a uma estratégia que combine gestão de coelho com reintroduções.

PS. As projecções na figura são feitas com modelos espacialmente explícitos de PVA (Population Viability Analysis), incluindo interações do lince com populações de coelhos, dos coelhos com as suas respectivas doenças, com uso de solo atual e com projeções futuras de clima e de uso de solo que, no caso vertente, consideram  um aumento de disponibilidade de habitat para o lince na Península Ibérica (ainda que com tendência para degradação da qualidade de habitats no sul e melhoria destas condições no centro e norte). 

segunda-feira, setembro 26, 2011

Importância de congregar dados



O conhecimento da distribuição de qualquer espécie, comunidades ou grupo faunístico, requer uma congregação de dados e as plataformas de recolhas de dados (tralhas!, como carinhosamente são chamadas por um amigo meu) são uma óptima ferramenta para atingir esse objectivo.
Como sou muito pragmático, aqui deixo um exemplo muito concreto.
Tomemos como objectivo saber qual é a diversidade de morcegos referenciada na quadrícula UTM NF97 dos últimos três anos.
Dados de capturas (base de dados de Paulo Barros): 11 espécies (Myotis myotis, Myotis blythii, Myotis nattereri, Myotis daubentonii, Pipistrellus pipistrellus, Pipistrellus pygmaeus, Nyctalus leisleri, Eptesicus serotinus, Barbastella barbastellus, Plecotus austriacus e Miniopterus schreibersii).
Monitorização de abrigo (plano de monitorização do Parque eólico do Outeiro): 3 espécie Rhinolophus ferrumequinum, Rhinolophus hipposideros e Rhinolophus euryale.
Monitorização de mortalidade (plano de monitorização do Parque eólico do Outeiro): 3 espécies (Pipistrellus kuhlii, Hypsugo savii e Tadarida teniotis).
Monitorização de abrigo (plano de monitorização do Parque eólico de penedo Ruivo): uma espécie (Plecotus auritus).
Artigos científicos (Bráz et al., 2009): uma espécie (Myotis bechsteinii).
A congregação destes dados resulta na confirmação de 19 espécies de morcegos (76% da espécies dadas para Portugal Continental) para esta quadrícula, muito mais significativo de quaisquer dados individuais.
Nota adicional: Tendo em conta a mobilidade deste grupo faunístico, e se a este dados, adicionarmos as referências de Myotis mystacinus e Myotis emarginatus (Base de dados de Paulo Barros) que estão confirmados a menos de 1km da quadrícula e Nyctalus noctula/lasiopterus (plano de monitorização do PE da Serra do Alvão) a menos de 2km da quadrícula, obtemos uma diversidade potencial de 22 espécies, excluindo as duas espécies (Eptesicus isabellinus e Rhinolophus mehelyi) que muito provavelmente não se encontram no Norte de Portugal, obtemos uma diversidade efectiva de 82% e uma diversidade potencial de 95% para esta quadrícula.
Este é um exercício que as plataformas podem fazer automaticamente, sem ter que as pessoas individuais a rebuscar na sua memória (ou cadernos de campo para quem os utiliza) os dados.

terça-feira, maio 03, 2011

Cultura de participação?




Fotografia de um painel informativo do ICNB retirada daqui

Transcrevo do facebook do biodiversity4all:
"Agradecemos a todos os parceiros o apoio na Actividade Pé N'a Terra.
Entre os dias 15 e 28 de Abril foram realizadas cerca de 60 actividades por todo o país sendo registadas cerca de 1772 observações, com 200 fotografias referentes a 550 espécies!".
Para uma organização sem um tostão, baseada apenas na boa-vontade de quem quiz, feita pela primeira vez, não se pode dizer que o resultado seja mau. E calculo que haja um outro resultado menos visível: aparentemente está a haver mais registos e mais diversificados.
É a Primavera, com certeza, mas pode também ser um pequeno impulso de iniciativas como esta.
Aparentemente nos primeiros meses deste ano as observações rondam as 3000 por mês. Significa que com uma integração de dados excepcional e anual como a das 15000 observações que foi feita nas últimas duas semanas (referentes a observações anteriores a 2011, portanto não influenciam a média mensal que referi) estamos nas tais 50000 observações anuais que permitem pensar realisticamente em meio milhão de observações em dez anos.
Há quem se queixe muito da falta de cultura participativa dos portugueses. Eu nunca dei por ela. Sempre que as coisas são feitas com verdadeiro empenho em motivar as pessoas, elas respondem, como maior ou menor facilidade, com maior ou menor grau.
Mas respondem.
Era útil o movimento ambientalista compilar meia dúzia de regras para uma boa adesão às iniciativas e fazer um manual que servisse a todos.
É que não tenho a certeza de que a falta de cultura participativa não esteja mais nos dirigentes que nas pessoas comuns, não porque não desejem que as pessoas participem nas suas organizações, mas simplesmente porque não sabem ou não acreditam que a participação das pessoas comuns depende mais de uma técnica que de uma cultura.
Claro que tudo o que diga respeito às pessoas não é matemática, e técnicas que resultam num dia, não resultam no outro.
Por isso a utilidade de ir fazendo um manual on line onde cada um vá registando o que funcionou e o que não funcionou, e as razões para a diferença.
A experiência colectiva é geralmente muito mais abrangente e útil que a experiência e o estudo individual ou de pequenos grupos.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, maio 02, 2011

O Atlas dos morcegos e a participação dos comuns

O Paulo Barros deu aqui uma boa notícia sobre o processo para a produção de um atlas de morcegos.


A leitura dos comentários associados a esse post é para mim tão surpreendente que resolvi fazer eu também um post sobre a questão específica da participação dos comuns em projectos de atlas.

Um pouco de enquadramento.

Há já uns anos (14, 15), quando tive responsabilidades na presidência do ICNB, acompanhei de perto o lançamento de alguns atlas. Alguns concretizaram-se, outros não, todos com muitos atrasos.

Nessa altura participei activamente nas reuniões de técnicos ligados ao assunto, não por ser técnico ligado ao assunto, mas por ter responsabilidades de decisão e a presidência de então considerar os processos de sistematização e disponibilização pública de informação sobre biodiversidade uma das questões essenciais da política de conservação da natureza e uma responsabilidade indiscutível do ICNB.

Desde muito cedo a então presidência do ICNB deixou claro o princípio de que os atlas (e genericamente a produção, sistematização e disponibilização ao público de informação sobre biodiversidade) era demasiado importante para ser deixada aos técnicos de biodiversidade.

Isto que hoje é uma banalidade foi na altura um corte fracturante (como agora se diz) com a prática do ICNB, que se materializou na lógica inicial dos atlas, independentemente de terem depois evoluído noutros sentidos, menos o atlas das aves, mais o atlas dos répteis e anfíbios, infelizmente ainda muito amarrado a uma concepção tecnocrática de produção de informação de biodiversidade. E materializou-se em vários outros processos, como o impulso no desenvolvimento do SIPNAT ou a obrigação que foi imposta, contrariada pelos técnicos, pelo menos quanto ao timing, da discussão pública sobre a delimitação da rede natura (considerado um processso exclusivamente técnico nos seis ou sete anos anteriores, razão pela qual ninguém conhecia as propostas então levadas a discussão pública).

Mais tarde, já sem essas responsabilidades, mas com responsabilidades mais operacionais na avaliação de impacte ambiental, apercebi-me (na realidade já tinha essa percepção, mas não com a dimensão da evidência que me entrava pelos olhos dentro) da quantidade de informação sobre biodiversidade que o país produzia e desperdiçava em arquivos, físicos ou virtuais, a que poucos ou nenhuns tinham acesso.

Tentei, como já em vários posts expliquei, encontrar dentro do ICNB mecanismos de cooperação com terceiros que garantissem um sistema de recolha e disponibilização dessa informação. Nunca o consegui (erros meus, má fortuna...). A BIO3 chegou a lançar uma plataforma que foi de facto asfixiada pelo recuo do ICNB na partilha de dados, com o argumento (agora repetido) que dentro de seis meses (penso que sito terá sido há três anos) teria operacional uma nova versão do SIPNAT que tornaria redundante a tal base de dados da BIO3.

Quando saí do ICNB continuei a trabalhar numa solução que permitisse servir de plataforma para esse objectivo de recolha e disponibilização de informação que é todos os dias produzida pelo país em matéria de biodiversidade.

Nesse contexto, um dia o Henrique Miguel Pereira disse-me para ir falar com as pessoas do Biodiversity4all que eu não conhecia de lado nenhum. Tivemos uma conversa simpática num café qualquer e eu abandonei imediatamente as minhas propostas para passar a apoiar as propostas, bem mais adiantadas e estruturadas que as minhas (pelo menos em alguns aspectos, há outros em que acho que as soluções em que vinha a trabalhar estavam mais adiantadas, mas isso é um pormenor).

O apoio que dou ao biodiversity4all é um apoio externo, isto é, não estou envolvido no núcleo duro do projecto, faço propostas e perguntam-me opiniões, mas verdadeiramente quem trabalha no projecto e o mantém a andar são essas pessoas.

Esse apoio tem essencialmente duas componentes: alguma discussão sobre orientações estratégicas e procura de meios de sustentabilidade económica do projecto (sim, o trabalho das pessoas é voluntário mas o seu desenvolvimento pode implicar despesas); procura de dados, que todos fazemos, de forma a alimentar a plataforma com informação.

O site tem bastantes coisas de que não gosto.

Criado a partir de uma plataforma holandesa (se não me engano) é a cara portuguesa de uma plataforma europeia (http://www.observado.org/) que é essencialmente uma plataforma de observações, pressupondo observadores com alguma experiência. Tem por isso uma orientação muito marcada para o registo e é muito pouco intuitiva para as pessoas, como eu, que mais que observadores são utilizadores de informação. Por exemplo, obter o mapa de distribuição de uma espécie obriga a um caminho longo e muito pouco intuitivo. E há muitos exemplos destes.

Mas tem três coisas de que gosto muito: 1 - existe;2 - é muito democrática; 3 - tem uma plasticidade que lhe permite adaptar-se às situações novas. Por exemplo, estão a ocorrrer os primeiros resultados de uma inovação pedida por uma entidade apoiante: o registo de habitats e não apenas o registo de espécies.

Dentro deste meu trabalho de procura de fontes de informação, tenho tentado (com poucos resultados, por agora) mobilizar detentores de grandes quantidades de registos a ligar-se ao biodiversity4all. A questão não é transferir informação de uns sítios para outros, isso pode fazer-se, bem entendido, a questão é mesmo partilhar informação entre diferentes bases de dados de modo a facilitar o registo (registar num sítio ser suficiente para estar em diferentes plataformas) e a permitir o acesso mais próximo possível dos interesses dos seus utilizadores.

Como toda a gente envolvida no processo faz este trabalho de formiguinha, procurando carrear informação, o site tem neste momento quase 60 mil registos, tendo nas duas últimas semanas dado um salto grande por incorporação automática de 15 mil registos que existiam (obrigado Daniel Sobral, porque convém dar nomes à generosidade) e que foram transferidos automaticamente, ficando disponíveis para todos nós quase instantaneamente.

A quantidade de gente que tem registos em bases de dados e folhas excel deve ser incrível, a quantidade de registos que existem, uns em plataformas mais públicas mas pouco acessiveis aos não iniciados, outros nos seus computadores deve ser assombrosa e portanto haverá com certeza, ao longo do tempo, boas surpresas destas.

O biodiversity4all nasce aliás do facto de alguns dos participantes na carta piscícola nacional terem achado um desperdício não encontrar maneira para tornar permanentemente acessíveis os dados que recolheram para essa tarefa específica.

Já hoje, se os diversos participantes nas reuniões dos atlas dos morcegos estivessem disponiveis para ceder os dados de observações que sem dúvida detêm em bases de dados e folhas excel, em meia dúzia de dias (literalmente em meia dúzia de dias) era possível ter um primeiro esboço de um atlas com algum significado. Não como atlas, que seria muito incompleto e desequilibrado, mas como base de programação do atlas, tal como se pretende que ele venha a ser e como base de mobilização de terceiros eventuais produtores de informação útil. Sem qualquer custo.

Este é o contexto do meu pequeno comentário estranhando mais um novo projecto que vai criar uma nova base de registo e disponibilização de dados fechada à comunicação com outras bases (já nem discuto o facto dessa base de dados não ser necessária, existem coisas já feitas que servem, e ser portanto um desperdício de recursos inventar outra vez a roda).

Curioso é o desenvolvimento da discussão que este comentário motivou.

Seria perfeitamente razoável que me respondessem "fizemos esta opção por estas razões".

Mas não. Deram-me respostas polidas (agradeço aliás a disponibilidade da Ana Rainho, coordenadora do processo, para ter vindo aqui comentar, além das outras pessoas envolvidas, claro) que remetiam para coisas genéricas que não respondiam a nada de concreto face ao comentário que fiz.

Por esta razão fiz notar que se se pretende que as pessoas participem voluntariamente no que quer que seja, a confiança e transparência são os activos essenciais a construir e preservar. E acrescentei, para evitar más interpretações, que estava a discutir um pormenor dentro de um projecto que é muito mais importante que esse pormenor.

E a partir daí a reacção afunila na distinção entre os especialistas, os que participam e por aí fora (que já discutiram tudo e decidiram tudo, presumivelmente bem, até porque são especialistas) e os outros que, se quiserem, contactem a coordenação do projecto (a típica inversão tecnocrática que postula que os interessados se devem dirigir a quem orienta os processos de decisão antónima do postulado democrático de que são os dirigentes que devem dirigir-se aos comuns). E depois uma pequena derivação sobre os que criticam em vez de fazer e que minam o processo, o que não passa de um exagero da argumentação tecnocrática, em que os que manifestam opiniões fora do guião oficial devem ser proscritos por não cumprirem as regras que garantem o bem comum.

Esta reacção é muito comum nas lógicas tecnocráticas predominantes nos domínios de especial complexidade técnica.

É o caso da gestão da biodiversidade mas também da energia nuclear, só para citar dois extremos opostos de políticas necessariamente públicas que os técnicos acham sempre ter fundamentos demasiado complexos para serem decididas pelas pessoas comuns.

E são estas reacções que combato sempre.

Porque levanto suspeições sobre o atlas dos morcegos? Porque acho a Ana Rainho (uso-a como exemplo por ser a coordenadora do atlas) menos estimável e sem capacidade para ser a coordenadora do Atlas? Porque quero ser eu a determinar o que o atlas deveria ser e como o processo deveria ser gerido? Não, não, não a todas as perguntas e as vezes que for necessário. Aliás, dificilmente se arranjaria coordenadora melhor que a Ana Rainho, talvez com a excepção da Ana Rainho menos influenciada pela excessivamente ideológica faculdade de ciências de Lisboa.

Se comento e discuto o processo é apenas porque acho normais e intuitivas estas reacções dos técnicos face ao risco de erro que existe em modelos de produção de informação menos controlados e porque estas reacções têm efeitos muito negativos na mobilização das pessoas (que é sempre difícil e condicionada por pequenas coisas aparentemente sem importância).

Abrir processos de construção de atlas (ou outros processos de aquisição de dados de biodiversidade que exijam milhares de olhos em milhares de hectares, e não necessariamente os melhores olhos em áreas limitadas de observação) implica ser capaz de resistir à tentação do rigor excessivo na base, transferindo o rigor para os procedimentos (Francisco Amorim dá um bom exemplo a propósito dos ultra-sons) e para o controlo de qualidade dos resultados.

Implica ser capaz de resistir à desconfiança na capacidade dos outros produzirem informação útil, e o que interessa é a informação útil, não necessariamente a informação rigorosa (sendo rigorosa é necessariamente útil, mas a inversa não é verdadeira).

E implica um esforço sério de ir à procura de quem pode ser útil ao processo, resistindo ao conforto de fechar o processo no grupo de pessoas em quem já se tem confiança.

Discutir se o biodiversity4all é a plataforma a usar ou não no processo é um pormenor lateral.

Mas discutir a atitude geral de abertura ou retracção "aos comuns", muitas vezes claramente ignorantes, é certo, mas ainda assim podendo ser úteis, já não é uma questão lateral.

henrique pereira dos santos

quinta-feira, abril 28, 2011

Um Atlas no forno



“Apesar do aumento do interesse na biologia dos morcegos em Portugal, pouco é ainda conhecido sobre a distribuição de algunas das espécies que ocorrem no território continental, bem como sobre os factores ecológicos e históricos que originaram este padrões.
Esta lacuna no conhecimento deste grupo tem óbvias implicações na conservação dos morcegos, já que as decisões são muito dependentes na informação existente sobre a distribuição e/ou presença de cada espécie.
Assim, e em resultado da iniciativa de alguns elementos de equipas de AIA envolvidos na monitorização de morcegos, o ICNB lançou o projecto Atlas de Morcegos de Portugal Continental.”

quinta-feira, abril 21, 2011

Pé n'A Terra III


Entramos hoje na fase mais intensa da iniciativa Pé n'a Terra, uma iniciativa para celebrar o dia da terra (22 de Abril) passeando e registando biodiversidade.

No calendário das actividades estão agora quase sessenta actividades à disposição de qualquer pessoa, incluindo actividades em Lisboa e Porto.

Sim, a chuva pode ter levado algumas pessoas a achar que as condições não são óptimas, mas a biodiversidade é assim, diversa, e por isso há mesmo grupos que beneficiam com estas condições (que o diga o projecto charcos com vida que organiza a partir de hoje quase uma dezena de visitas em diferentes localizações até Domingo. Podem mesmo aproveitar para ir renovado Jardim Botânico do Porto, o jardim da casa de infância de Sofia de Mello Breyner, hoje às 15).

Para o primeiro ano da iniciativa é muito animador. O tráfego no site está a aumentar e estamos quase nas 40 mil observações, o que torna credível o meio milhão de observações nos primeiros dez anos. Suspeito que com tudo o que é preciso ainda melhorar (a lógica de acesso é a do observador e do registo, e é ainda muito pouco intuitivo o acesso na óptica do utilizador dos dados, por exemplo) é bem possível que estejamos a caminhar no sentido de ter informação de biodiversidade com verdadeiro interesse, com verdadeira amplitude de grupos e verdadeiramente acessível no prazo de alguns, poucos, anos.

Não serve, nem nunca servirá, para a produção de informação que exija métodos de observação e protocolos de registo mais sofisticados, mas serve muito bem como informação complementar para muitos e muitos fins, desde os mais científicos aos mais turísticos.

Acho que vou propor que se avalie a possibilidade de repetir a iniciativa num espaço de tempo mais curto do que pensava e concretizar uma ideia antiga: casar finalmente a tradição sulista e muito popular da quinta feira da espiga com as modernas ideias da conservação da natureza democrática.

henrique pereira dos santos

sexta-feira, abril 01, 2011

Passeios para todos os gostos


Fui ao calendário do Pé n'aTerra para ver em que param as modas.

Estou muito satisfeito.

Em primeiro lugar por ver organizações tão diferentes como a Altri Florestal, a QUERCUS, a Transcudânia, o grupo Lobo, a Rocha, a ATN, a associação cultural e recreativa das Abrunheiras, a sociedade portuguesa de botânica, empresas de animação turística como a Birds and Nature, a Montes de Encanto, a Ecotrails, ou a Escola de Mar, a cooperativa terra chã e até o restaurante da urbanização Tamonte a fazer acções para terceiros, sob o mesmo chapéu de uma celebração da terra e da sua biodiversidade. E outros informaram-nos de que estarão presentes na celebração, mas por qualquer razão ainda não registaram no calendário, como a câmara de Penela.

Mas verdadeiramente o que gosto de ver é três dos principais produtores de informação, a Lisete Matos do Colmeal, o Paulo Eduardo Cardoso na mata da Machada e o Francisco Barros em Montejunto (que acompanha também o passeio da Terra Chã, noutro dia) simplesmente dizendo, estou aqui, às tantas horas e seja bem vindo quem vier por bem (a Lisete ainda promete um refresco no fim, estraga os participantes com mimos).

Não só com frequência partilham o que vêem como agora se disponibilizam em pessoa para transmitir parte do conhecimento que têm.

Eu gosto de gente generosa e queria agradecer-lhes publicamente.

henrique pereira dos santos

quinta-feira, março 31, 2011

Efeito das alterações climáticas nas redes de áreas para conservação

Foi publicado hoje um artigo que me ocupou durante quase 10 anos. Poucos trabalhos em que me envolvi tardaram tanto em ver a luz do dia. É uma avaliação exaustiva do efeito que as alterações climáticas projetadas para a Europa poderão ter na biodiversidade das suas áreas protegidas e da Rede Natura 2000.

O artigo pode ser visualizado aqui.

Trechos do comunicado de imprensa que será enviado hoje pode ser lido em baixo:

Até 2080, 58% dos vertebrados terrestres e das plantas poderão perder condições climáticas adequadas à sua ocorrência nas áreas protegidas da Europa. Estas perdas poderão atingir 63% das espécies prioritárias presentes na Rede Natura 2000. Estas e outras conclusões são obtidas num estudo coordenado por Miguel Araújo. O estudo analisa, pela primeira vez, a eficácia das políticas de conservação, num contexto de alterações climáticas, para 75% dos vertebrados terrestres e 10% das plantas presentes na Europa.

A equipa liderada por Miguel Araújo estudou a distribuição potencial de 1883 espécies, 585 vertebrados terrestres e 1298 plantas que ocorrem nestas redes de conservação, em função de vários modelos climáticos. “De acordo com os cenários climáticos disponíveis, as áreas protegidas preservam espécies da fauna e flora Europeias melhor que o território não conservado mas a Rede Natura 2000 é mais vulnerável às alterações climáticas e poderia preservar espécies prioritárias, na Europa, em condições menos propícias que outros territórios não conservados”.

A melhor capacidade de retenção de espécies nas áreas protegidas deve-se ao facto destas se situarem primordialmente em zonas de montanha que têm tendência a actuar como refúgios climáticos. No entanto, além de regiões montanhosas, a Rede Natura 2000 inclui regiões com relevo pouco acidentado, como é o caso das áreas agrícolas, onde os impactes das alterações do clima na distribuição das espécies se intensificam.

Este estudo confirma que o sul da Europa será mais afectado pelas alterações climáticas e que a Escandinávia e as regiões de alta montanha afectarão, negativamente, um conjunto menor de espécies. “Muitas espécies com ampla distribuição na Europa e presentes na Europa central e setentrional beneficiarão da subida de temperaturas. Porém, as espécies mais tolerantes ao frio e que vivem no extremo norte e em maiores altitudes serão expostas a pressões climáticas que poderão afectar seriamente a sua persistência”, diz Miguel Araújo.

Mudança nas políticas de conservação
Segundo os autores do estudo é necessária uma alteração de fundo nas políticas de conservação na Europa, já que estas não consideram as consequências das alterações climáticas na abundância e distribuição das espécies. O carácter fortemente dinâmico da distribuição das espécies, num contexto de alterações climáticas, poderá forçar uma revisão do estatuto actual de algumas áreas protegidas e induzir a classificação de novas áreas. Também se sugere o aprofundamento de mecanismos de gestão integrada da paisagem de modo a facilitar a mobilidade das espécies entre áreas protegidas. “Ainda hoje vigora a ideia de que as estratégias de conservação implicam o isolamento das áreas protegidas face a factores de ameaça externos. Porém, para que sejam eficazes, estas áreas devem mitigar os efeitos das alterações climáticas além de proporcionar uma gestão sustentável dos habitats e ecossistemas locais”. Segundo Miguel Araújo, seria importante rever os mecanismos de gestão das áreas protegidas de modo a contemplar planos para períodos de 20 a 50 anos em função da velocidade das transformações em cada ecossistema. Estes planos deveriam ser revistos regularmente e ser concebidos a escalas relevante para minimizar os impactes do clima.

domingo, março 27, 2011

Pé n'A Terra II

A imagem é uma das mais de dez mil que estão também registadas e disponibilizadas no biodiversity4all. Neste caso é uma calendula arvensis fotografada por andré h Pode ver-se informação sobre esta iniciativa aqui.
O dia da Terra é usado como pretexto para uma iniciativa nacional de registo de biodiversidade.

Mas não nos enganemos sobre a sua natureza com a frase pomposa acima.

Como nessa altura estarei para os lados da terra da minha família organizei a minha contribuição para este dia em função disso.

Com um dos meus sobrinhos vou dar uma volta (previsivelmente uma hora) e registar o que conseguirmos (nem ele nem eu somos grandes espingardas em identificação de espécies seja de que grupo fôr, mas ainda distinguimos um pinheiro de um eucalipto, um pardal de um chapim).

A organização descreve-se facilmente: às nove horas de Sábado de aleluia, 23 de Abril, estamos no Ral, Oliveira de Frades, e partimos com quem estiver e quiser ir.

Tão simples como isso.

Este extraordinário evento já está no calendário da iniciativa.

Claro que nem todas as actividades previstas são assim tão básicas, muitas têm verdadeiros especialistas a acompanhá-las e a geri-las. Algumas exigem das organizações que as promovem um esforço organizativo diferente, portanto o número de actividades já confirmadas é superior às que já estão nos calendários porque os seus promotores ainda estão a organizá-las.

Mas o que está previsto, como resultado de um primeiro esforço de criação de uma iniciativa nacional que promova uma aproximação útil e lúdica à biodiversidade já me parece interessante. Tão interessante como os quase 35000 registos obtidos e disponibilizados num ano. Com um crescimento moderado e alguma persistência é possível ter meio milhão de dados de observações acessíveis em dez anos. Nada disso substitui a monitorização formal e os sistemas estruturados de aquisição de dados sobre biodiversidade, mas não se pode dizer que seja irrelevante.

Para quem quiser dar um passeio e dar um pequena contribuição para o registo, disponibilização e democratização da biodiversidade em Portugal pode com certeza ficar satisfeito em participar em iniciativas como esta que descrevo. Quem quiser aprender um pouco mais, que escolha outras. Quem quiser, que a organize a sua própria.

Simples, fácil, barato, útil e, provavelmente, prazenteiro.

henrique pereira dos santos

PS Isto não me impede de estar a procurar mobilizar alguns especialistas que vivem na região, mas isso seria uma mais-valia, não é o essencial

quinta-feira, março 24, 2011

O paraíso natural de Chernobyl

Já por várias vezes tenho referido a extraordinária recuperação natural da zona de exclusão de Chernobyl.
Isso foi até usado num comentário pró-nuclear como sendo a demonstração de que a radiação não é um problema de maior (dentro da linha de argumentação pró-nuclear que pretende apenas reduzir afectação a morte por radiação directa, uma desonestidade imensa).
A recuperação que está a transformar a zona de exclusão de Chernobyl num paraíso para a conservação, sendo um facto e um facto positivo para a conservação, carece de alguns comentários de enquadramento.
O primeiro é o de que recuperação de sistemas e afectação de indivíduos (tal como nos impactos dos eólicos nas aves, tal como a caça, tal como os fogos) são duas coisas totalmente distintas. Os sistemas estão a recuperar do ponto de vista natural ao mesmo tempo que muitos indivíduos têm mal-formações e outros tipos de afectação. Se estas mal-formações ou afectações várias em indivíduos de raposa, lobo, urso ou outra espécie qualquer, são-me iguais ao litro, já a afectação de pessoas não é. Esta é uma distinção essencial.
O segundo comentário prende-se com a tolice de se pretender medir a afectação com base nos dois mortos por exposição directa a radiações muito elevadas num pequeno espaço de tempo. Chernobyl criou cerca de duzentos mil refugiados e destruiu (não no sentido físico, mas no sentido social) quase duzentas comunidades hoje quase desertas (algumas pessoas voltaram, as crianças estão proibidas). Estamos pois longe de poder medir a afectação provocada por Chernobyl às pessoas que comprovadamente morreram por exposição a elevados níveis de radiações num curto espaço de tempo. Este foi o preço da criação do paraíso natural. Dizer que existe um paraíso natural como benefício marginal de um prejuízo maior não pode ser entendido como inexistência ou minimização do prejuízo.
O terceiro comentário é sobre um aspecto em que a argumentação pró-nuclear está cheia de razão: a radiação não cria desertos por centenas de anos, nem pode ser confundida com um processo destrutivo. É um processo transformador, com ganhadores e perdedores. Os sistemas naturais absorvem bem os efeitos da radiação, os indivíduos é que são o problema. Ou mais precisamente, o risco para os indivíduos é que é um problema. É no passo seguinte que a argumentação pró-nuclear perde o pé: pretende reduzir este risco e as suas consequências sociais, a meras questões estatísticas, desvalorizando os indivíduos em concreto (mesmo que estatisticamente irrelevantes) e desvalorizando o medo social de uma ameaça invisível, inodora, incolor de que é difícil alguém defender-se por si só. Esta desvalorização atira sempre este medo para o domínio da irracionalidade, mas tendo, como tem, componentes de irracionalidade, o facto é que é tudo menos irracional.
O quarto comentário é uma evidência: as consequências para o património natural de um acidente como Chernobyl são incomparavelmente mais pequenas que o uso quotidiano que fazemos desse património natural em actividades aparentemente tão pouco impactantes como a agricultura, a exploração florestal e a pastorícia.
Se me perguntarem se no futuro a zona de exclusão de Chernobyl deve voltar ao que foi antes do acidente eu tenderei a dizer que não, que estando os custos da exclusão já saldados, mais vale reter a mais-valia de uma enorme área de não gestão, como tem defendido o Miguel Araújo, inicialmente com a minha oposição, hoje com a minha concordância (divergências existem no modo, tempo e lugar como, mas para aqui isso é irrelevante).
henrique pereira dos santos

quarta-feira, março 09, 2011

Biodiversidade é mais que bichinhos fofos


Video dedicado ao PAN, o maior equívoco político em matéria de conservação da biodiversidade

Mas o que verdadeiramente interessa está aqui.
henrique pereira dos santos

sábado, março 05, 2011

Compensação de impactes


Li esta notícia, assim como outras que deram origem a alguns post aqui na Ambio (este, este ou este), mais direcionados sobre a questão da gestão e decisão do Fundo de Conservação da Natureza e Biodiversidade (FCNB) do Aproveitamento Hidroelétrico do Baixo Sabor (AHBS).

Tendo em conta que este fundo é direcionado para a compensação de impactes sobre a Biodiversidade (que ao que parece ainda não é claro, visto continuarem a incluir medidas de minimização e outras neste fundo!), convém ter ciente o n.º 4 do Artigo 6º da Directiva habitats, diz o seguinte “Se, apesar de a avaliação das incidências sobre o sítio ter levado a conclusões negativas e na falta de soluções alternativas, for necessário realizar um plano ou projecto por outras razões imperativas de reconhecido interesse público, incluindo as de natureza social ou económica, o Estado-Membro tomará todas as medidas compensatórias necessárias para assegurar a protecção da coerência global da rede Natura 2000. O Estado-Membro informará a Comissão das medidas compensatórias adoptadas.

Para serem aceitáveis, as medidas compensatórias devem:
• incidir, em proporções comparáveis, nos habitats e espécies afectados negativamente;
• dizer respeito à mesma região biogeográfica no mesmo Estado-Membro e ser tão próximas
quanto possível do habitat adversamente afectado pelo plano ou projecto;
• cumprir funções comparáveis às que justificaram os critérios de selecção do sítio original;
• ter objectivos de aplicação e gestão claramente definidos, para que, como medidas
compensatórias, logrem manter ou intensificar a coerência da rede Natura 2000.