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terça-feira, fevereiro 15, 2011

Do pensamente mágico na academia

O relatório que referi no último post é um bom relatório sob vários aspectos, tem informação empírica relevante e já me foi útil. E foi de lá que tirei esta figura.
Mas tem um problema estrutural: as ideias da sua autora e dos seus orientadores sobre conservação. Que são aliás bastante comuns.
E é por este vício de raciocínio ser tão comum que resolvi pegar num aspecto concreto do relatório procurando explicar que quando não se toma cuidado o pensamento mágico tende a exilar o pensamento científico. Mesmo em relatórios científicos, como é o caso.
Um conjunto de citações e depois um comentário final.
"Ao longo dos corredores de construção das rodovias em estudo, os valores de IQA [mede a densidade de indícios de lobo] foram sempre baixos ou mesmo nulos (Figura 3) (Petrucci-Fonseca et al, 2007). "
...
"Entre 2005 e 2008, a percentagem de quadrículas utilizadas pelo lobo foi diminuindo, chegando a verificar-se um decréscimo de 56,6% do uso do espaço no ano 2008 em relação a 2005. Este decréscimo ao longo dos anos está relacionado em parte com a construção das infra-estruturas A24 e A7 na área de estudo durante o referido período de tempo. Analisando-se os valores de IQA, verifica-se uma redução geral dos mesmos e um afastamento do lobo em relação às auto-estradas, especialmente da A24, uma vez que o número de quadrículas com presença de lobo é muito baixo."
...
"A intensidade de uso por parte da espécie das quadrículas junto às rodovias, apesar da recuperação, ainda é fraca, com excepção ao troço da A24 entre Vila Pouca de Aguiar e Pedras Salgadas. Este troço está numa zona de contacto entre a Serra da Padrela e a Serra do Alvão e apesar da vegetação da encosta leste da Serra do Alvão ter sido destruída por um grande incêndio, parece continuar a ter condições para a presença do lobo."
...
"Entre Janeiro e Junho de 2010 encontraram-se valores de IQA mais baixo do que os observados no mesmo período do ano anterior (Anexo IX). Verificou-se um afastamento do lobo em relação a ambas as auto-estradas, não se observando quadrículas com presença em redor da A7 e do troço da A24, onde anteriormente já fora registada."
...
"A comparação dos IQA’s médios ao longo dos anos veio demonstrar uma diminuição dos mesmos e principalmente uma diferença significativa entre o ano 2005 e os anos 2007, 2008, 2009, e 2010 e entre o ano 2006 e os anos 2008 e 2010. Esta diferença vem confirmar a existência de uma perturbação sobre a população lupina desta área. As auto-estradas parecem ser responsáveis por esta diminuição geral dos IQA médios anuais, uma vez que foi a partir do ano 2005 que se começou a verificar a redução dos mesmo, ano esse que corresponde ao início da construção destas infra-estruturas. Porém, outros factores de perturbação podem também estar a contribuir para esta situação, tais como a construção de parques eólicos ou a existência de pedreiras na área de estudo. Contudo observa-se um aumento dos valores de IQA de 2009, que poderá indicar uma diminuição do impacto das auto-estradas, ou seja, uma diminuição do efeito de repulsa. Todavia, nas duas primeiras estações de 2010 verificam-se valores de IQA mais baixo comparativamente às duas primeiras estações do ano 2009. É, portanto, provável que a população do lobo continue a sentir os impactos da construção da A24 e A7 ou de outros factores de perturbação."
...
"Densidade Populacional nº ind/100 km² de 2005 (primeiro) a 2009 (último):
2,12; 1,76; 2,00; 1,76; 1,76"
...
"estes valores encontram-se dentro dos valores apresentados para os núcleos a Norte do rio Douro (Pimenta et al, 2005). Todavia, mais baixos comparativamente com os estudos de Carreira & Petrucci-Fonseca (2000), para a mesma região, em que a estimativa é de 2,6 lobos/km2 no Outono."
...
"o baixo registo de indícios de presença do lobo em redor destas infra-estruturas não é, contudo de estranhar, uma vez que estas vias se encontram fora dos centros de actividade das alcateias da área de estudo, sendo portanto o uso do espaço próximo das auto-estradas mais pontual e apenas durante movimento exploratórios ou de dispersão de alguns indivíduos da espécie".
Depois de se passar o tempo todo a dar explicações para a baixa densidade de indícios junto das auto-estradas a partir da tese base (as auto-estradas afectam a espécie), uma nota quase de rodapé explica o essencial: o traçado das estradas foi alterado para afectar o menos possível os valores naturais presentes.
Depois de se passar o tempo todo a discutir densidades de indícios (esquecendo como são frágeis os métodos de análise, com visitas de jipe de três em três meses para uma área vastíssima) passa-se como cão por vinha vindimada pelo facto de não haver variações expressivas (e muito menos com uma tendência definida) sobre a densidade populacional de lobos.
A falta de rigor nas interpretações que são feitas (e não esqueçamos que sendo natural jovens profissionais cometerem erros básicos por falta de experiência, já é menos razoável admiti-los em trabalhos que têm orientadores experientes e conhecedores) acaba por mascarar o essencial dos resultados:
Repare-se neste parágrafo quase final do relatório:
"As principais presas do lobo ibérico na área de estudo são os ungulados domésticos, sem os quais seria muito difícil esta espécie sobreviver. Torna-se então necessário implementar medidas de conservação e gestão que visem diminuir a predação dos rebanhos e o pagamento atempado das indemnizações dos prejuízos."
Como? Então a espécie depende da predação sobre os rebanhos e conclui-se que para conservar a espécie é precisa diminuir essa predação?
Eu percebo o raciocínio ingénuo por trás deste parágrafo: se o lobo preda os rebanhos os pastores vão matar os lobos, portanto é melhor fazer qualquer coisa para ver se isso se resolve e parece que pagar os estragos (que não serve para diminuir a predação sobre os rebanhos, só serve para ressarcir prejuízos) e diminuir a predação sobre os rebanhos está na lista das medidas de conservação do lobo.
Só que a questão é outra. O que se passa é que os lobos estão em stress trófico, e o que é preciso é resolver isso: aumentando a predação sobre os rebanhos, se for o caso, gerindo habitat para aumentar a densidade de outras presas, se for possível.
E o relatório até tem uma coisa fantástica: a identificação do coelho como uma presa relevante.
Aumentar a densidade de corços é possível, mas demora tempo, aumentar a densidade de coelhos é mais fácil.
Mas qual seria o orientador que aceitaria uma tese que propusesse o aumento da densidade de coelho para melhorar as condições de conservação dos lobos em Vila Real?
Antes a diminuição da predação dos rebanhos, que é absurdo (face aos dados) mas é politicamente correcto.
henrique pereira dos santos

domingo, fevereiro 13, 2011

Lobos e coelhos

Tenho sido motivo de chacota por parte de alguns conservacionistas emocionalmente envolvidos na conservação do lobo por dizer, especulativamente, que uma das causas do declínio do lobo na Península Ibérica pode ser o declínio do coelho.
Expliquei as minhas razões neste post.
E hoje, mais de dois meses depois, Frederico V chama-me a atenção para este relatório (cuja leitura aconselho, pelo que tem de dados empíricos e como ilustração da resistência das ideologias conservacionistas ao confronto com a realidade, que ignoram olimpicamente quando as contradizem).
Pois bem, depois das cabras, que representam mais de 80% da dieta do lobo na região, aparecem em segundo os coelhos, com mais de 6% de peso na dieta.
Cada vez estou mais convencido de que é mais fácil compreender a dinâmica das espécies selvagens estudando as dinâmicas da paisagem que lendo os resultados de grande parte da investigação em biologia da conservação, fortemente dominada por ideias feitas.
Infelizmente erradas.
henrique pereira dos santos

terça-feira, janeiro 18, 2011

SIPNAT

Imagem da notícia publicada no jornal Água e Ambiente (não encontrei on line) com a estrutura do sistema. Administração pública, empresas privadas, investigadores e institutos públicos, é o que se vê no lado direito e em cima, a relacionar-se com o sistema. Os "manuéis e as joaquinas, enfim, gente de todas as cores, e feitios e medidas e perdoem-me as pessoas que ficaram esquecidas", não existem
Esta sigla, SIPNAT, é uma espécie de D. Sebastião da conservação.
Há anos que o ICNB anda às voltas com um Sistema de Informação do Património Natural.
De vez em quando aparecem novas notícias sobre o sistema, geralmente prometendo o paraíso amanhã.
Tentei, quando estive no ICNB, canalizar o potencial de informação existente para um sistema misto, público e privado, com uma gestão aberta , sustentável e ligada ao que de facto acontece todos os dias em matéria de biodiversidade.
Tentei de diversas maneiras.
Nunca consegui.
Espero que estas notícias que surgiram por estes dias não sejam apenas um aviso à navegação para limitar o empenho de terceiros nas iniciativas da sociedade civil, uma espécie de resposta do Estado ao êxito das iniciativas como o dia B, os bio-eventos, o biodiversity4all, a naturdata. Ou seja, o êxito dos que fartos de esperar pelo paraíso, amanhã, fizeram hoje o que lhes pareceu melhor.
Espero que estas novas notícias não sejam iguais às que sempre fui ouvindo, exactamente dos mesmos responsáveis que há anos gerem o SIPNAT, com as virtudes e defeitos que podem ser verificados por quem se dispuser a usar essa ferramenta, prometendo o paraíso para daí a seis meses, razão pela qual nunca valia a pena entregar o ouro ao bandido (leia-se entregar o imenso valor da informação detida pelo icnb, validada cientificamente, à sociedade).
Espero que iniciativas como a Naturdata e o Biodiversity4all venham um dia simplesmente a extinguir-se por falta de objecto, já que tudo estará contido no SIPNAT.
Mas até lá, até esse momento redentor, espero que estas iniciativas que se vão desenvolvendo, muitas vezes contra ventos e marés, sirvam ao menos para ir demonstrando que ou o Estado dá corda aos sapatinhos nesta matéria, ou um dia acorda extinto por haver alternativas funcionalmente equivalentes e muito, muito mais baratas para os contribuintes.
E pelo sim, pelo não, vou buscar uma cadeira para esperar sentado.
henrique pereira dos santos

sábado, janeiro 08, 2011

Pode ser útil...

... dar um salto aqui quando se quer saber qualquer coisa sobre qualquer planta.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, janeiro 06, 2011

Ainda as áreas de wilderness

Dos posts anteriores e respectivas discussões nas caixas de comentários parece-me que vale a pena reter uma ideia: as áreas de wilderness que se pretendem não precisam de ser áreas de elevado conteúdo biológico inicial. É melhor que o tenham, mas verdadeiramente o que caracteriza o que se pretende é o modelo de gestão.
E o modelo de gestão é o de uma gestão não extractiva.
Haverá sempre gestão: fiscalização, investigação, visitação e por aí fora. O que se pretende é que não haja gestão extractiva: agricultura, pastorícia, caça, pesca, etc..
O limite de 100 000 hectares referido pelo Miguel Araújo é um limite teórico e não rígido que tem sobretudo na base, se bem percebo, ideias relacionadas com a necessidade de área sem intervenção para os predadores de topo. Com menos que esta área haverá sempre interacção entre a gestão humana e a dinâmica das populações de predadores de topo e grandes herbívoros.
Em rigor, haverá sempre interacção nas franjas, mais ou menos extensas, destas áreas, mas os 100 000 hectares permitem que nas áreas mais centrais dos 100000 hectares a dinâmica das populações e a sua interacção com os sistemas seja já muito, muito ténue, ou, preferencialmente, inexistente.
Tenho algumas dúvidas sobre toda esta contrução teórica, que obriga a que o 100 000 hectares sejam de áreas mais ou menos compactas (idealmente um círculo), de modo a que se impeça que interacções laterais de áreas demasiado estreitas impeçam o objectivo de ter áreas centrais sem influência humana.
Mas tenho uma grande simpatia por esta ideia de não gestão.
No caso de um país de enorme variedade em curtos espaços, como é Portugal, esta ideia de não gestão tem muito caminho a fazer. Basta olhar para a percepção dos especialistas expressa no quadro que ilustra um dos posts, em que áreas de gestão bastante intensa, como o montado, são classificadas como áreas de elevada wilderness, demonstrando uma grande confusão entre conteúdo biológico e intensidade de gestão.
O que me pergunto é se neste caminho para a ideia de ter grandes áreas não geridas não seria preferível investir seriamente na reconstrução (reconstrução que pode ser feita pela não gestão) de corredores naturais e na recuperação, mesmo fragmentada, de sistemas naturais, segiundo o modelo actual que tem permitido a recuperação dos grandes herbívoros e dos predadores de topo (o lobo está em expansão, o urso está em expansão) sem que em muitos casos essa recuperação se faça com aumento de conflito com as pessoas. É o caso de Montezinho, em que a recuperação do lobo, do corço e o abandono rural, em simultâneo, têm permitido um baixo conflito com a população de lobo, que é hoje muito relevante.
É provável que o mesmo suceda com o Urso, que em breve estará a chegar a Portugal.
Partir de uma estratégia mitigada de dedicação de espaços à não gestão, em que cada espaço de não gestão é menor, mas a área de projecto pode ser muito maior que os 100 000 hectares, parece-me com maior probabilidade de sucesso que a insistência num grande espaço de 100 000 hectares como ponto de partida.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, janeiro 03, 2011

100 000 hectares para wilderness

Quadro retirado daqui, onde é patente todo o peso ideológico que hoje contamina a discussão técnica sobre políticas de conservação. Repare-se como os especialistas consultados classificam o olival como mais natural que as culturas anuais, mas colocam as vinhas e os pomares ao mesmo nível das culturas anuais. Para já não falar dos prados ou dos arbustos e do sobreiro e da azinheira, que são essencialmente montados, e que os especialistas consideram muito naturais, mesmo mais naturais que as outras folhosas (embore reservem a classificação de campeões da naturalidade para os carvalhos). Repare-se como a escala é comprimida para os valores mais baixos, mas não existem valores abaixo de três, ficando desertas as duas classes supostamente mais naturais. Entre as cidades e a generalidade dos usos rurais, que se distribuem entre 9 e 3, apenas se destaca uma coisa: os eucaliptais, considerados qualquer coisa entre o urbano e o agrícola.
Nos comentários a este post, e na sequência do post do Henrique Miguel Pereira e doutro mais velhinho do Miguel Araújo, pergunta-me o Miguel em que me baseio para afirmar que, neste momento, 100 000 hectares de wilderness em Portugal são socialmente insustentáveis.
O Miguel orientou uma tese de doutoramento que exactamente procurou encontrar áreas de cem mil hectares susceptíveis de serem geridas numa óptica de não gestão.
A tese realmente encontrou quatro áreas de cem mil hectares que poderiam servir para este efeito, simplesmente é preciso ter em atenção a natureza académica do trabalho, que ainda por cima se baseia em opiniões de peritos em conservação para definir o carácter de wilderness das áreas. Ora os peritos em conservação têm o problema de serem peritos em conservação, a maior parte dos quais sem grande sensibilidade económica e social, e muitos profundamente ignorantes sobre as dinâmicas da paisagem. É óptimo para fazer um tese de doutoramento e é bom como trabalho académico, simplesmente os seus resultados são absurdos enquanto base de tomada de decisão.
Para se ter uma ideia, uma das principais áreas identificadas é o interflúvio que separa o Tejo do Sado, uma das mais importantes áreas de produção florestal do país, incluindo de cortiça, com 65% da área ocupada com montado.
Será preciso muito para explicar que hoje é socialmente inaceitável trocar uma boa parte da fileira da cortiça por uma gestão cujos objectivos não seriam claros? Há alguma fundamentação para supôr que 100 000 hectares de sobreiral denso teria mais reconhecimento como área produtora de biodiversidade que o actual mosaico de montado e outros usos? Há alguma razão para supôr que as pessoas estariam dispostas a ver arder periodicamente, com intervalos crescentes, mas com violência e tamanho também crescentes, áreas imensas onde antes se produzia riqueza palpável, a troco de uma ideia cuja interesse social não é claro?
Em todas as áreas definidas, os matos, aquilo que mais facilmente é aceite socialmente como área de evolução sem gestão, nunca passam dos 50% (com uma excepção de pouco mais de 50%) e que os povoamentos florestais mais próximos do que seria a paisagem final são hoje residuais (quase sempre menos de 5%, sendo que a única área com pouco mais de 6% são as montanhas do Noroeste onde foi até hoje experimentado o conceito de wilderness, numa área de apenas 10 000 hectares, motivando protestos infindos, embora do meu ponto de vista sem grande razão).
É aliás por isso que não entendo o que seja o projecto Rewilding Europe no Noroeste da península, em cima de uma destas áreas identificadas na tese em questão, no Douro/ Côa e Águeda, a que se junta a parte espanhola.
Não entendo onde estejam os tais cem mil hectares, conheço os 600 da Faia Brava (que está longe de ser gerida como área de wilderness), conheço mais meia dúzia de milhares (sendo generoso) da fundacion hombre e naturaleza (cujo nome não engana ninguém) e não vejo como se cresce para cima de áreas ainda produtivas, com aldeias, vilas e outros estabelecimentos humanos, e com recusa de aceitação do fogo como consequência inevitável.
Ora com base nisto que não entendo, começo a ouvir falar de introdução de grandes herbívoros, desaparecidos há muito, usando a legitimação de uma suposta renaturalização que efectivamente está a acontecer, incluindo a expansão dso ungulados e seus predadores, embora de forma não contínua. Qual a necessidade de reintrodução de espécies icónicas, engraçadas, e sem função reconhecida no ecossistema que justifique a sua reintrodução?
Não sei como se gerem estas áreas de não gestão para que não se tornem terras de ninguém (há bons exemplos na história das consequências de perda de controlo social do território), sem ser à custa de muita e cara repressão.
Não sei como se gere a interface com as áreas envolventes, sem ser à custa de muita indemnização.
Não sei como se adquire a custódia do território a não ser à custa de muitos milhões de euros em compras de terra, mesmo que por via da expropriação.
E não sei como se gere o processo de transição, em particular o horror social ao fogo, mesmo com muitos e muitos milhões de euros porque a gestão do fogo é inevitavelmente a negação da não gestão ou a aceitação de fogos extensos e severos nos próximos cem anos (pelo menos).
E em rigor não sei qual o fundamento teórico para este modelo, já que se deita fora toda a construção de legitimação da política de conservação da biodiversidade baseada na conservação dos elementos do património genético: é que a conservação de processos naturais não tem utilidade social tão evidente como isso.
Quer isto dizer que não concordo com a ideia e que a a gestão com objectivos de wilderness não é útil?
Não, quer simplesmente dizer que há muito caminho a fazer antes de se embarcar num desejo excessivo de natureza que é mais uma construção teórica que uma necessidade social.
Ora não há política nenhuma de longo prazo que se mantenha sem racionalidade social.
E racionalidade social, no longo prazo e a esta escala, quer dizer fundamento económico.
É por não ver com clareza esse fundamento económico, em particular na forma de atingir o objectivo, que não vejo qualquer viabilidade social de embarcar numa alteração desta profundidade na paisagem, na escala proposta.
O que não inviabiliza o passo a passo.
Caro, de qualquer maneira, mas eventualmente aceitável à boleia do abandono rural actual, cuja manutenção a prazo não sabemos se existirá.
henrique pereira dos santos

domingo, janeiro 02, 2011

"Independentemente de qualquer consideração de ordem económica"

Uma síntese feliz, retirada daqui, leitura que se recomenda no contexto desta discussão
Da lista de discussão que partilha a sua gestão com este blog, retirei o título deste post.
A frase completa era "assumo o meu interesse em preservar a fantástica paisagem natural do vale do Tua, independentemente de qualquer consideração de ordem económica".
O contexto da frase era o da discussão sobre comboios e fecho de linhas, no qual me cabe a mim o papel desagradável de falar de dinheiro, essa coisa suja, que anda nas mãos de todos e que às vezes, no calor da defesa das grandes causas nobres do mundo, parece ser uma coisa irrelevante e repugnante.
No fundo nada de novo, como escrevia Suetónio há dois mil anos: "Seu filho Tito censurava-o um dia por ter lançado imposto até sobre a própria urina; Vespasiano chegou-lhe ao nariz o primeiro dinheiro cobrado por esse imposto e perguntou-lhe se cheirava mal. Respondeu-lhe Tito que não: "No entanto", tornou-lhe, "provém da urina"."
Não consigo deixar de me identificar com o mesmo Vespasiano quando alguns deputados lhe foram anunciar que os seus concidadãos lhe queriam erigir uma estátua colossal de muito valor, ao que lhes respondeu, estendendo a palma mão, que a pusessem, ali que o pedestal já estava pronto.
Tudo a propósito do excelente post do Henrique Miguel Pereira (como se não me chegassem os insultos que eu mesmo provoco, de vez em quando ainda apanho com alguns que são dirigidos a este Henrique, que não sou eu) ao qual me parece faltar um módico de economia (do que resultam os comentários do Luís, Henk e Jaime na respectiva caixa de comentários).
Os cenários de que fala o Henrique são cenários possíveis, claro, mas cenários possíveis não quer dizer cenários verdadeiros.
Por isso convém ser muito claro no fundamento das coisas, para que a incerteza dos cenários, que lhes é inerente, não se dilua na lógica do argumento.
Se é verdade que partilho parte da esperança do Henrique Miguel Pereira de que a recuperação dos sistemas é uma boa notícia para a biodiversidade, três aspectos merecem-me comentários:
1) A escola de arquitectura paisagista é agnóstica em relação às questões relacionadas com a wilderness. A opção por modelos de gestão sem intervenção é uma opção de gestão tão sólida como qualquer outra e, desse ponto de vista, a escola de arquitectura paisagista não é responsável pela falta de uso dessa opção em Portugal. Bem pelo contrário, sempre defendeu essa opção em algumas circunstâncias, mas sempre como opção de gestão que não se dirige a valores imanentes mas ao serviço do homem e determinada pelos interesses de gestão das pessoas. Quando no livro que escrevi chamei "paisagens artificiais" às áreas protegidas era exactamente a isso que me referia: retirar áreas do processo económico com base na autoridade do Estado é criar uma linha de evolução artificial para essas paisagens. Mas nada contra essa opção;
2) Dizer que há 10 000 anos quase todas as espécies europeias já existiam o que invalida a ideia de que co-evoluíram com a evolução dos sistemas de exploração e de construção das paisagens parece-me uma enorme falácia. Na apresentação que fez do livro que escrevi, Humberto Rosa usa exactamente o mesmo argumento para dizer que lhe parece que o capítulo sobre biodiversidade lhe parece o menos conseguido do livro: a especiação é uma processo lento, com um ritmo que não é compatível com o ritmo, muito mais frenético, da alteração da paisagem. Onde é que eu acho este argumento errado? É que se o processo de especiação é lento, o processo de extinção ou o processo de adaptação de populações a condições concretas pode ser muito rápido. Ou dito de outro modo, se em dez mil anos as espécies presentes ou se extinguiram (e muitas de facto extinguiram-se) ou se adaptaram, nada nos permite prever que as populações resultantes desse processo, mesmo sendo das mesmas espécies existentes há 10 000 anos, sejam capazes de rapidamente se adaptarem à rápida mudança de condições (que em qualquer caso nunca serão um retorno mas uma nova construção). Nada contra modelos de gestão orientados para a wilderness, mas não vale a pena fazer batota e diminuir os riscos reais de perda de património genético;
3) "como aproveitar esta oportunidade para evoluir para florestas auto-sustentáveis (evitando os ciclo curtos de recorrência do fogo)", ou seja, como poderemos ter sol na eira e chuva no nabal? Este é um atalho, que é uma cedência dos defensores do wilderness, para fugir a um problema social relevante: as políticas de não gestão têm de implicar a não gestão do fogo e as consequências daí decorrentes. Por uma razão simples: não é possível gerir combustiveis na fase de transição, entre o que hoje existe e o que virá depois, sem violar os princípios de uma gestão orientada para obter resultados de processos naturais. Nada contra, mais uma vez, mas é uma fraude pretender que é possível deixar de gerir sem aceitar um longo, muito longo período de fogos cada vez mais severos, antes que o desenvolvimento dos sistemas reponha os seus mecanismos de defesa (sempre temporária) face ao fogo.
O posto do Henrique Miguel é importante, a discussão sobre o assunto também.
E essa é sempre uma discussão sobre economia.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, dezembro 30, 2010

O movimento ambientalista e o BB

A iniciativa Business and Biodiversity foi muito mal digerida pelo movimento ambientalista em Portugal, com o argumento de que não havia mecanismos de controlo e de sancionamento dos aldrabões.
Isso não impediu algumas ONGs de serem parceiras de projectos concretos de algumas empresas, com implicações nos fluxos financeiros, mas sempre que a iniciativa aparecia as ONGs desapareciam, atrás de umas vagas declarações sobre greenwashing.
Esta atitude é normal em Portugal onde o dinheiro das empresas é sempre objecto de suspeita (ao contrário do dinheiro das empresas que faça um estágio nos cofres do Estado, que é sempre virginal).
Por várias vezes, enquanto estive ligado à iniciativa, tentei fazer com que as ONGs criassem um observatório da iniciativa, sem qualquer sucesso. Teria de ser uma iniciativa voluntária das ONGs e sem dinheiro associado, portanto era de pouco interesse. Como de costume a resposta era de que esse papel cabia ao Estado e o Estado é que tinha de fiscalizar o cumprimento dos compromissos (voluntários) das empresas.
A posição habitual: as empresas fazem, nós entramos no assunto com a nossa capacidade técnica e conhecimento, que naturalmente tem custos, e o Estado é que deve fiscalizar para podermos ter as mãos livres para criticar a fiscalização se alguma coisa correr mal.
Agora envolvimento directo, risco de falhar, hipótese de ser acusado de estar com os interesses económicos, isso não nos peçam que nós estamos aqui para ser a consciência crítica do sistema e não para resolver problemas.
Ora um comentário sobre as audiência do terra alerta feito na caixa de comentários deste post veio lembrar-me de tudo isto.
É que a SIC comprometeu-se, no BB, a produzir conteúdos sobre biodiversidade. E comprometeu-se voluntária e publicamente como testemunho do seu compromisso para com a biodiversidade, e não como área de negócio a desenvolver (as audiências parecem demonstrar que as duas coisas até se podem conjugar).
Acabar com o único programa onde a biodiversidade era tratada de forma sistemática é na verdade uma ruptura dos compromissos assumidos.
Volto a frisar, a SIC é livre de rever os seus compromissos voluntários.
Mas se houvesse o tal observatório sobre a iniciativa BB, sempre teria alguma visibilidade uma posição clara de classificação desta atitude como demonstrativa do pouco empenho da SIC na conservação da biodiversidade.
Claro que pôr as ONGs a criticar um dos seus pilares de sobrevivência, uma televisão, não seria fácil. E claro que há casos mais escandalosos de compromissos BB que são promessas assinadas em papel molhado.
Mas eu gostava tanto que o movimento ambientalista português, deixasse de ser o pãozinho sem sal em que se transformou e de vez em quando desse um ar da sua graça, que teimo em fazer estes posts que só me trazem chatices.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, dezembro 23, 2010

Se não extinta, a mais rara…

trevo-de-quatro-folhas (Marsilea quadrifolia)
“Um taxon considera-se Extinto quando não restam quaisquer dúvidas de que o último indivíduo morreu. Um taxon está presumivelmente extinto quando falharam todas as tentativas exaustivas para encontrar um indivíduo em habitat conhecidos e potenciais, em períodos apropriados (do dia, estação e ano), realizadas em toda a sua área de distribuição histórica. As prospecções devem ser realizadas durante um período de tempo adequado ao ciclo de vida e forma biológica do taxon em questão.” (IUCN, Red List Categories).
 

segunda-feira, dezembro 20, 2010

Rutger Barendse et alii

Há algum tempo que não ia ver quem eram os observadores com mais espécies observadas no biodiversity4all.
Hoje fiquei surpreendido ao verificar que embora Francisco Barros continue a ser o observador com mais espécies observadas, havia, muito próximo, um segundo observador de que nunca me tinha apercebido: Rutger Barendse.
Curioso fui verificar que observações eram essas.
São cerca de três dias no Algarve, a meio de Março de 1999, e cerca de quinze dias na Madeira na segunda quinzena de Abril e princípio de Maio, onde são feitas a grande maioria das quase mil observações registadas por Rutger Barendse e com certeza nas últimas semanas vertidas para a base de dados holandesa a que está associado o Biodiversity4all.
Curiosamente dois factos completamente independentes chamaram-me a atenção para a produção de conhecimento em biodiversidade feito por estrangeiros em Portugal e que com frequência passam mais despercebidos do que eventualmente deveriam (vou tendo idade suficiente, e contactos transversais suficientes, para ir conhecendo o meio da conservação, embora não profundamente, e alguns destes nomes parecerem-me pouco frequentes nas discussões sobre fontes de informação de biodiversidade em Portugal).
O primeiro facto, no sábado dia 11, nas jornadas da ATN, em Figueira de Castelo Rodrigo. Uma das apresentações, sobre flora, com dezenas de observações de Horst Engels, da associação trilhos d'esplendor (curiosa associação cujos membros da direcção, da assembleia geral e do conselho fiscal são os mesmos, pelo que Horst Engels é simultaneamente o presidente da direcção, da assembleia geral e do conselho fiscal) cujo trabalho eu desconhecia por completo e sobre o qual não tenho a menor informação de solidez ou não. Mas o facto é que existe trabalho, não apenas de dois meses na Faia Brava, o que linkei acima, mas de muito mais tempo na zona de Quiaios (as observações não estão no biodiversity4all).
O segundo facto já este fim de semana: o acesso a mais um artigo de George Estabrook, para cujo trabalho Carlos Aguiar me chamou a atenção, e como os artigos que eu já conhecia, muito, muito interessante. George Estabrook está a preparar a publicação dos seus oito trabalhos sobre agricultura tradicional e vida rural portuguesa para a Arizona University Press e espero que o livro não demore muito a ser publicado. Curiosamente nos agradecimentos deste artigo, Estabrook agradece o apoio de Horst Engles (a grafia não é a mesma, mas suponho que seja a mesma pessoa).
Claro que tal como os portugueses haverá nestas observações, mais ou menos em férias, e nestes trabalhos, uns mais, outros menos estruturadamente científicos, coisas boas e coisas más, gente que presta e gente que não presta e por aí fora.
Mas o que eu queria era dizer que de repente, de dois pequenos períodos de férias de um holandês curioso e com cultura de registo de observações, saltam quase mil observações, a grande maioria para a Madeira. E que sem as plataformas sociais que hoje conhecemos seriam provalvemente observações que nunca veriam a luz do dia em Portugal.
Nada de relevante está nessas observações?
Talvez, mas quantas mais, de gente que por aí passa, em férias ou não, poderiam estar a ser integradas, nenhuma delas particularmente relevante, mas que no conjunto nos permitiriam conhecer melhor a nossa biodiversidade?
Espero que aos poucos, a resistência de académicos e especialistas a estes modelos caóticos de registo da informação, organizados em bases não caóticas, vá esmorecendo e seja dada a devida importância, nem mais (são sempre, e só, dados ad hoc), nem menos (muitos dados ad hoc formam padrões estatísticos provavelmente fiáveis), a este tipo de procedimentos novos (em Portugal) de produzir ciência em domínios para os quais a quantidade de informação é uma condição (não suficiente, é certo) da sua qualidade.
henrique pereira dos santos

sábado, dezembro 18, 2010

25 000 observações

O biodiversity4all atingiu hoje as 25 000 observações.
Quando decidi apoiar o projecto fiz alguns posts, como este, por exemplo, em que dizia que ficaria satisfeito se se conseguissem 10 000 observações em cinco anos. No fundo falava de cinco observações diárias.
No último mês a média de observações diárias passou as 40 (em grande parte devido à utilização da plataforma como caderno de campo do Francisco Barros, mas está longe de ter sido apenas isso), em Maio, o tal que incluía do dia B, a média foi de mais de 70 observações diárias, claramente inflacionadas pelo dia 22, com 771 observações num dia só e algum do crescimento do número de observações resultou da integração de listas e bases de dados já existentes (onde reside um potencial de crescimento brutal, assim os investigadores e naturalistas abandonem o "amor táctil, que votamos aos maços de cigarro" para usar uma expressão com que Caetano Veloso caracterizou o amor aos livros e que neste caso se aplica às suas listas de observações).
A integração com outros projectos vai crescendo, por exemplo, estou muito esperançado na articulação com o projecto Naturdata, uma enciclopédia de biodiversidade muito sólida.
Mais uma vez, parece que os portugueses (e alguns estrangeiros que observam e registam biodiversidade em Portugal) são mobilizáveis.
O que me incomoda é ver alguns dos que mais se queixam da incapacidade dos portugueses se mobilizarem em matérias ambientais, e de conservação em particular, não fazerem o esforço mínimo de ceder uma folha excel onde "jaz morto, e arrefece" o seu imenso conhecimento traduzido em observações concretas.
Partilhar dados é apenas uma forma de enriquecer acedendo a mais conhecimento, não é empobrecer cedendo conhecimento.
Com o ritmo deste ano, os 10 000 dados em cinco anos que já me faziam contente em Março, poderiam ser para cima de 125 000 que seria fantástico.
Desvalorizar essa possibilidade num país tão pobre em conhecimento da sua biodiversidade é uma tolice que não entendo.
henrique pereira dos santos

terça-feira, dezembro 14, 2010

O fetiche da reestruturação do ICNB

Esta imagem está desactualizada. Porque lhe faltam algumas áreas protegidas, como o monumento do cabo Mondego, ou várias áreas protegidas locais (esquecidas na resposta que comento), como porque algumas destas áreas estão legalmente extintas, pese embora o facto de provavelmente algumas ressuscitarem com certeza (ilegalmente) daqui a algum tempo
Ontem com o Público vinha uma revista chamada Recicla, da sociedade Ponto Verde (será que faz sentido a sociedade Ponto Verde ter uma revista institucional a distribuir com o Público? É isso uma adequado uso da taxa que todos pagamos para a reciclagem e o tratamento de resíduos?).
Nela há uma entrevista da Luísa Schmidt que se recomenda.
E há uma resposta notável a uma pergunta banal (o facto de ser banal não invalida a razoabilidade da pergunta na entrevista): "Que balanço faz do Ano Internacional da Biodiversidade em Portugal?"
A primeira frase é o que seria expectável de Luísa Scmidt "O balanço é negativo". A fundamentação está ao nível do que é hábito nestas opiniões muito assertivas de Luísa Schmidt: "As efemérides são sempre importantes, blá blá, fizeram-se alguns estudos, blá ,blá.". E depois começa o que realmente me interessa: "No entanto, e na prática, o que aconteceu às áreas protegidas é deprimente (o uso de adjectivos é especialmente interessante, sendo parte integrante da atracção pelo que escreve Luísa Schmidt. A par dos trocadilhos fazem parte do engraçadismo que nas suas opiniões substitui o trabalho e análise ponderada, tornando-os uns textos muito agradáveis de ler e bastante irrelevantes). A última reforma foi absolutamente nefasta. A verdade é que estão mais desprotegidas do que há dois anos: têm menos técnicos no terreno, menos capacidade económica, menos visibilidade e estão mais degradadas".
Deixem-me ser bruto com Luísa Schmidt como ela é com quem lhe apetece: isto é um chorrilho de disparates e uma resposta completamente idiota à pergunta que é feita.
Ao contrário de Luísa Schmidt, que diz de terceiros coisas semelhantes ao que eu agora disse de uma resposta dada por si, mas com mais elegância e piada, é certo, o que disfarça com frequência a violência do que diz, vou tentar fundamentar esta minha opinião em questões objectivas e verificáveis.
Em primeiro lugar, reduzir a prática da conservação da biodiversidade às áreas protegidas não faz o menor sentido. Em segundo lugar, comparar a gestão das áreas protegidas em dois momentos separados por dois anos, atribuindo tudo o que se passa a um facto ocorrido há quatro anos não tem ponta por onde se lhe pegue. Mas estas duas questões, não sendo marginais, têm ainda em si um grau de incerteza que permite interpretações criativas como as de Luísa Schmidt.
O resto é que é de cabo de esquadra.
Vejamos as razões objectivas invocadas por Luísa Schmidt para tirar a conclusão de que a última reforma do ICNB "foi absolutamente nefasta".
"têm menos técnicos no terreno"
O que tem este aspecto com a reforma levada a cabo? Nada, rigorosamente nada. Aliás, se tivesse alguma coisa, seria exactamente no sentido de que haveria mais técnicos no terreno porque alguns anteriores dirigentes passaram a técnicos, melhorando substancialmente o rácio de dirigentes por técnico. Ora isso pode implicar uma gestão pior por sobrecarga dos dirigentes, mas em caso algum tem como consequência a existência de menos técnicos no terreno. Na verdade até podem existir menos técnicos no terreno, mas isso deve-se à política de José Sócrates para a funçao pública em geral (eu sou um exemplo disso, mas há mais, muitos mais técnicos que se cansaram de aturar as tolices nesta matéria e ou se reformaram, ou usaram outros mecanismos de saída da função pública,sem que fossem substituídos). No máximo, e mesmo assim marginalmente, deve-se também à sensação de irrelevância da política de conservação neste governo, mas isso não decorre da reforma do ICNB mas das opções políticas deste Governo.
"menos capacidade económica"
O que tem isto com a reforma do ICNB? Zero. A capacidade económica das áreas protegidas resulta das decisões que todos os anos são tomadas no orçamento do Estado (que como se sabe são influenciadas pela conjuntura económica). Portanto atribuir isto à reforma do ICNB é simplesmente uma tontice.
"menos visibilidade"
Não vou discutir este argumento. Não tenho, nem eu, nem Luísa Schmidt, a menor informação objectiva sobre o assunto, quer de alterações nos últimos dois anos, ou quatro, ou seis ou sessenta. É o único destes argumentos cuja lógica de ligação à reforma do ICNB se pode admitir, argumentando-se que um director em cada área pode ter maior capacidade de comunicação. Claro que avaliar as autonomias que em Espanha têm, com bons resultados, o modelo de gestão de áeas protegidas adoptado para o ICNB está fora de causa, que ainda estragaria o argumento.
"estão mais degradadas"
Estão mais degradadas sob que ponto de vista? E avaliadas com base em que critérios? Claro que ninguém sabe responder. Mas se avaliadas do ponto de vista da recuperação dos sistemas naturais, o mais provável é que as áreas protegidas, não por causa das políticas de conservação, mas porque essas são as tendências sócio-económicas, estejam melhores. Essa é pelo menos a tendência geral do território. Avaliadas sob critérios de gestão da organização, o mais natural é que estejam como estão há muitos e muitos anos: mal, muito mal.
Sem registo, sem monitorização, sem formalização de instrumentos formais de gestão (planeamento e reporte), sem vigilância, sem visitação de qualidade e por aí fora.
Pretender que isso se deve à reforma do ICNB e não que a reforma decorre do reconhecimento dessa situação "é ideia que não cabe cá nas minhas".
henrique pereira dos santos

segunda-feira, dezembro 13, 2010

Caderno de campo

Umas plantas de uma observação do Francisco, que não faz a mínima ideia do que seja. Alguém, cedo ou tarde, identificará e dir-lhe-á o que isto é. Noutras circunstâncias corrigem-se obervações com identificações erradas.
Sou um péssimo naturalista. Mas de vez em quando vejo alguma coisa que gostaria de saber o que é. De maneira geral telefono para quem eu ache que sabe do assunto e tento descrever o que vejo na esperança de que me expliquem o que é.
Foi o que fiz um dia destes com duas rapinas que vi. E liguei para o Francisco Barros.
A conversa foi parar ao biodiversity4all, em que o Francisco é um observador muito activo.
A verdade é que o que o Francisco me disse sobre a sua utilização do projecto me pareceu interessante.
Citando de memória e esperando não trair muito a ideia transmitida, o Francisco no essencial disse-me que tem aprendido muito com o uso do site.
Começou a usá-lo por ser um caderno da campo prático, sempre acessível em qualquer ponto onde haja internet e que vai usando aos poucos, à medida da disponibilidade, em qualquer parte.
Mas mais importante, o Francisco, porque estava doente e não estava a registar os grupos que conhecia melhor, começou a registar grupos que conhecia pior, em que tinha muitas dúvidas ou mesmo que não conhecia, fotografando e enviando fotografias.
Mas como o Francisco é um bom naturalista, mesmo que não saiba identificar o que vê, distingue o que é comum do que não é comum, ou simplesmente regista o que por qualquer razão lhe chama a atenção.
E de repente começou a receber feedback dos especialistas, entusiasmados com algumas observações, alguns invertebrados que não eram dados para a Península há uns anos, algumas plantas com localizações pouco expectáveis e por aí fora. E mais que tudo, como qualquer outro observador que entre no sistema, começou ver outros identificarem o que via e a aprender o que não sabia.
Hoje é essa possibilidade de ir à procura do que não conhece e receber em troca informação de quem sabe mais que o motiva na sua intensa participação.
Como utilizador de observações de terceiros e como não obervador, a mim interessa-me mais o resultado, a manipulação de mapas e coisas que tal.
Nunca tinha percebido como uma base de dados destas, apoiada numa rede de observadores não especialistas (mas que pode integrar, e integra, especialistas entre os mais de 1000 utilizadores registados), mas com o apoio de uma rede de especialistas (aliás internacional) constitui de facto um poderoso intrumento de formação e difusão de conhecimento.
Que cedo ou tarde se reflectirá na capacidade do país gerir melhor o seu património natural, porque o conhece melhor, mas sobretudo porque ajudou a criar um público mais informado e exigente.
henrique pereira dos santos

domingo, dezembro 12, 2010

A acompanhar

Não conheço este projecto, para a além do que vou vendo aqui e ali. Nunca lá fui, não conheço as pessoas envolvidas.
Mas o que me é dado ver no blog agrada-me.
Um objectivo tamanho e quem não tem medo de arriscar.
Na sessão anterior eram duas voluntárias, desta vez eram doze. Em Janeiro poderiam ser mais. A QUERCUS tem 4000 sócios pagantes (ao que me dizem, não sei se bem) e o país tem muito mais gente.
Será que será assim tão difícil mobilizar trinta pessoas para Janeiro, para um trabalho duro e cansativo, é certo, mas cujos resultados são visiveis no momento e, mantendo a persistência, poderão constituir uma das poucas experiências do país de erradicação de invasoras agresssivas em média escala?
henrique pereira dos santos

domingo, dezembro 05, 2010

A resistência dos conservacionistas às boas notícias

A série de posts sobre o lobo resultam em grande medida do facto de eu ter dito que o lobo era uma espécie em expansão no Norte de Portugal e alguém imediatamente ter dito: "e a perda de alcateias no Alvão?".
Independentemente da discussão técnica sobre o assunto, a verdade é que esta é uma atitude muito frequente nos meios da conservação: a valorização do aspecto pontual que assinala a visão negativa da realidade e a desvalorização de tudo que sejam boas notícias.
Os conservacionistas gostam de dramas.
Na primeira metade dos anos oitenta trabalhei em Montezinho (não fui lá fazer uns trabalhos, vivi e trabalhei lá) e o lobo era então uma novidade nas conversas, ali no meio termo entre as velhas histórias com lobos, e as novas ideias de que parece que afinal havia mais do que se pensava.
Logo depois trabalhei na envolvente do Azibo. Aí não vivi lá, trabalhava no Porto, mas como era meu hábito na altura, quando trabalhava para uma área percorria-a a pé durante uns dias, com itinerários mais ou menos definidos mas comendo e dormindo onde calhava, vendo o que calhava e conversando com quem calhava. Estive uma semana inteira por ali, de mochila às costas. De lobos nem sinal nas conversas.
Trabalhei na segunda metade dos anos oitenta no PNPG, que percorri de lés a lés. Lobos? Eram quase só histórias do passado, e muito menos se falava de lobos na serra de Arga (não estou a falar de estudos académicos, que os havia muito pouco, mas do dia a dia das pessoas).
Na primeira metade dos anos noventa trabalhei para o Alvão (dessa vez não vivi lá, fiz algum trabalho para lá) e já se começava a ouvir falar de lobos com maior proximidade geográfica e temporal.
E de lá para cá foi sempre a aumentar. Por isso quando me perguntam por que razão eu digo, sem a menor reserva ou dúvida, que o lobo é uma espécie em expansão em Portugal, eu respondo que porque a razão me diz que o que ouvi nas serras do Norte de Portugal nos últimos vinte a trinta anos não me deixa qualquer dúvida.
Mas há outra razão para eu o dizer. É que esta dinâmica descrita é perfeitamente coerente com as dinâmicas da paisagem e das espécies presa do lobo.
Por volta dos anos 50 dá-se o pico da pressão sobre o território rural em Portugal. Daí para cá o abandono tem sido imenso. Ora o fim dos anos 70 e início dos oitenta coincide provavelmente com o período de maior escassez trófica para os lobos: por um lado a diminuição de rebanhos diminui as presas domésticas (incluindo o que daí resultava de necrofagia), a população de coelho atinge o seu pico mínimo (sim, o coelho, os especialistas que quiserem discutir a provável importância do coelho da dieta do lobo ibérico façam o favor de se chegar à frente) e a recuperação dos sistemas ainda não está suficientemente madura para que o aumento dos ungulados compensem essas duas perdas.
A partir dos anos 80 dá-se a inversão da disponibilidade alimentar, quando o desfasamento entre o abandono e a recuperação dos sistemas fica coberto e as populações de ungulados começam a cobrir as perdas das outras presas do lobo.
Estradas, eólicos, pedreiras, caça?
Quando uma raposa ronda um galinheiro e desaparecem galinhas, para quê procurar outras explicações para o seu desaparecimento?
Dramas de conservação há sim senhor, mas é com os perdedores deste processo, não é com o lobo.
henrique pereira dos santos

sábado, dezembro 04, 2010

Excesso de computador e avião e falta de pés no chão


A discussão sobre este post (que continua nos comentários), pode fazer pensar que em matéria de conservação sou um louco tocador de concertina na banda do Titanic.
Pode ser que sim, mas repare-se nesta coisa extraordinária:
"A população portuguesa de lobos representa apenas cerca de 15% da ibérica e, ao contrário do referenciado para certas regiões da Península Ibérica (Blanco & Cortés, 2002) e para o resto da Europa (Boitani 2000), não existem evidências de expansão recente da mesma."
Este parágrafo é retirado da ficha do lobo que consta do livro vermelho.
Apesar dos imensos cuidados na escolha de cada palavra ("certas regiões da Península" pretendendo dizer-se que há evidência de aumento populacional em Espanha, mas o melhor é acentuar que não é assim em toda a Espanha, ou "não existem evidências de expansão recente" em Portugal, que é como quem diz, eu não digo que não haja expansão, mas não me comprometam a mim) o facto essencial é que o parágrafo diz que há expansão em Espanha e no resto da Europa.
E o que há de extraordinário nisso? O que há de extraordinário é que ninguém se dá ao trabalho de explicar que especificidade existe em Portugal que justifique uma tendência populacional diferente da de Espanha e da Europa, tanto mais que não existe uma população portuguesa de lobo, existe sim uma população ibérica que se distribui entre Espanha e Portugal.
Mas se eu sou um louco tocador de concertina na banda do Titanic, o melhor mesmo é ir ouvir o resto da banda, por exemplo, lendo o que dizem outros sobre o wildlife comeback in Europe.
O movimento conservacionista reaccionário pretende desesperadamente manter o discurso da desgraça anunciada ao virar da esquina.
O movimento conservacionista que se preocupar com a realidade sabe que a discussão a fazer se prende com o preço que boa parte do resto do mundo está a pagar por este wildlife comeback europeu que resulta sobretudo da diminuição da pressão produtiva alimentar em território europeu.
Daí o meu conselho aos académicos e ambientalistas que escrevem sobre o assunto: menos modelação computacional, menos inferência estatística, menos horas de avião em reuniões internacionais onde se aferem todos esses modelos e inferências e mais horas com os pés no chão seriam muito, mas mesmo muito úteis à conservação em Portugal.
E mais, muito mais atenção ao tempo e à paisagem.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, dezembro 03, 2010

O fado da desgraçadinha

Nos comentários a este post lá aparece alguém a chamar a atenção para o facto de ter havido uma diminuição de 18 alcateias para 12/ 13 no Alvão, sugerindo que isso invalida a minha afirmação de que o lobo é uma espécie em expansão no Norte de Portugal.
Em matéria se conservação há sempre este fado da desgraçadinha: nunca há boas notícias, só desastres anunciados.
E depois fala-se nos parques eólicos, nas estradas e nos fogos como explicando esta diminuição, que se considera uma desgraça.
Independentemente do desaparecimento destas alcateias ter uma importância menor na dinâmica de recuperação da espécie, estas explicações são, para mim, muito extravagantes.
A ideia de que os incêndios são um factor de ameaça para o lobo não tem a menor sustentação empírica: parte de uma associação de ideias lógica, mas falsa. Os incêndios degradam os habitats de reprodução, portanto são um factor de ameaça para o lobo. O erro está em considerar que os incêndios degradam o habitat, o que está por provar. Aliás o normal é considerar-se que o fogo é um motor de alterações da paisagem mas os fogos que hoje temos não são nenhum motor, são antes uma consequência das alterações da paisagem.
Dos eólicos ainda falta algum tempo para termos informação fiável, mas o estranho é considerar-se como um importante factor de ameaça um factor que actua há muito poucos anos, quando a dinâmica populacional lhe é muito anterior.
Das estradas diz-se sempre uma data de coisas, mas fica por explicar como havendo um aumento generalizado de estradas em Portugal e no resto da Europa, só ali no Alvão é que são um problema sério.
O meu ponto de vista é simples de enunciar e difícil de demonstrar: eólicos, estradas, barragens não passam de uns arranhões na paisagem e na dinâmica populacionais dos grandes mamíferos oportunistas e flexiveis como o lobo.
Os factores condicionantes da dinâmica do lobo estão em coisas mais triviais: no almoço (o nosso e o dele).
henrique pereira dos santos

quinta-feira, dezembro 02, 2010

Uma boa iniciativa

Imagem da última acção de voluntariado do projecto
Pela lista de discussão Ambio chegou de novo informação sobre este projecto da QUERCUS.
No caso é uma acção de voluntariado no dia 11 de Dezembro, para a qual convido quem esteja por ali que tenha disponibilidade e vontade.
Se me perguntassem eu teria vários comentários técnicos a fazer, estranharia o enfoque da comunicação no eucaliptal em detrimento do problema muito mais grave (embora mais restrito geograficamente) das plantas invasoras (que é o que realmente está a ser atacado com acções de voluntariado), teria sugestões organizacionais, de comunicação do projecto e de fund raising.
Mas por mais questões pontuais que me pareça que possam ser mais bem trabalhadas, o que eu gostaria mesmo era de tirar o chapéu à QUERCUS por este projecto, pelo menos tanto quanto o conheço (reconhecidamente pouco).
Aconselho a consulta às apresentações sobre o antes do fogo, o imediatamente após e o que se encontra depois da primeira Primavera, mas que não se ligue muito, muito às legendas porque reflectem mais os preconceitos sobre o fogo e os eucaliptos que a realidade observável.
É um projecto gigantesco mas que pelos vistos não amedronta o núcleo de Aveiro da QUERCUS.
E merecem pelo menos esse crédito.
Este é dos casos em que mais um ou menos um voluntário faz diferença. Pensem nisso.


Declaração de interesses: colaboro com a Silvicaima, nesse contexto já ouvi falar deste projecto em termos muito genéricos, mas nunca tive qualquer contacto directo com ele até hoje.
henrique pereira dos santos

terça-feira, novembro 30, 2010

O lobo (entre outros) e a lei

O jornal I faz referência a um estudo sobre leis extravagantes.
Como exemplo cita em primeiro lugar a lei do lobo, que tipifica o abate de um lobo como crime, mas não atribui sanção ao facto (na verdade, para a conservação do lobo, isto é uma matéria muito pouco relevante, mas não quero entrar nessa discussão).
A lei do lobo é um dos muitos exemplos de leis ligadas à conservação que são feitas mais com o coração que com a cabeça e não é caso único: durante anos o Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros foi gerido com base num plano de ordenamento que não previa sanções para o seu incumprimento, por exemplo.
Muitas destas incongruências derivam da vontade de transformar a lei em instrumento de educação ambiental: perante a resistência em aprovar uma lei com efeitos reais, aprova-se uma lei que ao menos sirva para educar as pessoas.
O resultado merece ser discutido.
O caso da lei do lobo é um bom exemplo: aprovou-se o princípio do pagamento dos prejuízos do lobo mas não se aprovaram os mecanismos concretos de financiamento desse pagamento.
O resultado foi fazer recair sobre o orçamento da conservação (e sobre o orçamento corrente da conservação) uma obrigação para a qual ele não tem capacidade de resposta.
Naturalmente uma de duas coisas acontecem (de maneira geral vão oscilando entre si no tempo): ou a obrigação não é cumprida, como sucedeu vezes sem conta, com atrasos de cinco anos nos pagamentos, criando uma situação desfavorável para a conservação e o ICNB na opinião pública; ou a obrigação é cumprida com prejuízo de outras obrigações de conservação, com frequência mais importantes para a conservação do património natural.
O balanço global destas leis de conservação mal feitas, que com frequência são defendidas como sendo o possível, está longe de ser claramente positivo para mim.
É o caso também do Fundo de Conservação da Natureza, criado sem verdadeira dotação de recursos que não sejam uns esquemas manhosos de medidas comepensatórias, que a prazo se irá voltar contra a própria ideia de conservação.
Conheço muito bem a história dos pagamentos do prejuízos do lobo porque quando a presidência do ICNB de que fiz parte tomou posse havia atrasos monumentais no seu pagamento (com alguma excepção no Gerês, que tinha atrasos menores, porque o então director usava as suas influências dentro dos serviços administrativos do ICNB para ter um tratamento de favor para a sua área protegida, com prejuízo de todos as outras, situação que foi imediatamente atalhada pela então Presidente do ICNB, Teresa Andresen, situação que explica muita da posterior história que conduziu ao afastamento do então director do PNPG).
A então presidente do ICNB explicou taxativamente à tutela que iria fazer os pagamentos devidos (que não constavam do orçamento do ICNB) por se recusar a aceitar que fossem os pastores a financiar a política de conservação da natureza e o investimento em visitação.
A situação gerou alguma tensão entre a presidência do ICNB e a tutela política, que estava mais interessada na taxa de execução do orçamento criativo que tinha inventado, que ao mesmo tempo que cortava os fundos nacionais (de onde necessariamente saíam os pagamentos do lobo), aumentava contabilisticamente os fundos europeus, para disfarçar o corte orçamental de 30% que efectivamente havia.
Mas acabou por resultar num reforço pontual do orçamento especificamente para os pagamentos, numa afectação de 10% das receitas da caça para o ICNB com o objectivo de financiar estes pagamentos e numa revisão total de procedimentos que limitaram fortemente as fraudes (especialmente presentes no Gerês).
Mas naturalmente tudo isso teve custos para a política de conservação da natureza (também para a então presidente do ICNB mas felizmente isso nunca foi coisa que a preocupasse. É aliás para mim muito divertido ver o que então as várias ONGs, fortemente dependentes do esquema de influências que tinham na presidência anterior do ICNB, disseram da actuação dessa presidência e o que disseram de outras presidências do ICNB, reconhecidamente más, como a actual).
O lobo está longe de ser uma prioridade de conservação hoje em Portugal: é uma espécie em expansão a Norte do Douro, tem problemas a Sul do Douro mas é uma das espécies mais claramente beneficiadas pelas actuais dinâmicas de alteração da paisagem em Portugal. Não quer dizer que seja um assunto pouco importante do ponto de vista de conservação, o que quero dizer é que há outros muito mais importantes, como a recuperação do coelho, por exemplo.
Tudo isso poderia ser mais facilmente discutido se a administração cumprisse a lei e tivesse produzido um cadastro dos valores naturais nos prazos impostos pela lei.
Mas como digo no começo do post, leis extravagantes em matéria de conservação é coisa que não falta.
E do que estou convencido é que mais vale lei nenhuma que leis mal feitas.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, novembro 19, 2010

Do mito da necessidade das populações locais para a conservação do património natural


"ou será ao contrario é os residentes que fazem funcionar o PNPG?"
Este é outro dos argumentos centrais dos putativos representantes das oprimidas populações das áreas protegidas: as populações locais são imprescindíveis para a conservação do património natural e as responsáveis pela sua existência.
É um argumento sem qualquer base.
O PNPG é, a esse nível, um excelente exemplo, visto que uma das suas povoações, Vilarinho da Furna, foi alagada, sendo os seus habitantes deslocados, extinguindo-se as actividades de gestão feitas pelas pessoas da aldeia, que se estendiam a toda a encosta da serra Amarela.
O que se verifica hoje?
Uma degradação e diminuição do valor natural dessa encosta?
Seguramente que não, é das zonas do PNPG com uma recuperação mais pujante (que inclui vários fogos que a retardam mas não a eliminam).
Pode então dizer-se que a retirada das populações seria benéfica para os valores naturais?
Não, não pode, pode apenas dizer-se que para alguns valores naturais há vantagem na diminuição ou desaparecimento da população local, para outros valores naturais há desvantagem no desaparecimento de actividades que estão associadas a algumas formas de produção.
No campo dos valores naturais que beneficiam da diminuição (ou desaparecimento) da população estão os carvalhais (e todas as matas maduras, como galerias ripícolas, etc.) e as espécies associadas a esse ambiente, como o corço e o lobo, por exemplo.
No campo dos valores naturais que ficam prejudicados com o desaparecimento de algumas actividades de gestão estão as comunidades florísticas dos lameiros e outras situações do mesmo tipo, e as espécies que beneficiam do campo aberto (como a águia real ou a perdiz), bem como as que beneficiam do mosaico agrícola (como uma boa parte dos passeriformes, de muitos invertebrados e coelho, por exemplo).
A questão portanto não é a de haver ou não população local, mas a de saber se é mais barato para a comunidade remunerar os serviços ambientais prestados por algumas actividades ou ter de fazer uma gestão activa estritamente orientada para a conservação de alguns valores que beneficiam dessa gestão.
A população local que tem parques de campismo, pensões, restaurantes, empresas de construção civil, gado estabulado e alimentado a rações e por aí fora, não contribui em nada para a conservação dos valores naturais.
A população local que faz gestão de habitat, através da agricultura e pastorícia, contribui para uma maior diversidade de valores naturais, e para uma paisagem mais equilibrada, desde que exerça essas actividades dentro de determinados parâmetros.
Ora esta ideia tonta de que o património natural é assegurado pelas populações locais (volto a dizer, ideia comum mas sem qualquer suporte na verificação empírica) prejudica os elementos da população local que são gestores que efectivamente fazem gestão do território, em favor dos que, sendo população local, nada acrescentam à gestão do património natural.
O que faz sentido é que os serviços ambientais efectivamente prestados sejam convenientemente remunerados, não que as populações locais, em geral, tenham benefícios completamente desproporcionados face ao que contribuem para a sociedade, como por exemplo, serem ressarcidos pelo não licenciamento de actividades prejudiciais à conservação do património natural.
henrique pereira dos santos