
Por estes dias, penso que ontem, o Público tinha uma notícia sobre fogos muito interessante para vermos como funciona a informação nesta matéria.
Vejamos alguns extractos:
"Área ardida em 2009 já supera a dos últimos três anos"
Até aqui nada de especial: os últimos três anos foram bastante benignos e só quem quis é que engoliu a conversa da melhoria da eficiência do dispositivo (que terá existido) como explicação para os sucessos nesta matéria. Já em Fevereiro de 2009 tinha escrito sobre isto.
"Agora, o área ardida chega a 77.131 hectares.Este valor ainda está abaixo da meta fixada pelo Governo no Plano Nacional de Defesa da Floresta contra Incêndios – a de não ultrapassar 100.000 hectares por ano."
Neste post já procurei explicar como é absurda a meta dos 100 000 hectares, que ultrapassa em mais de dez mil hectares a mediana dos últimos vinte anos. E confirma-se que este ano estaremos seguramente a rondar a mediana, excepto se o Outono e Inverno tiverem longos períodos de vento Leste forte, situação em que ultrapassaremos a mediana. Ou seja, comparar a área ardida com um objectivo claramente laxista é evidentemente garantir resultados para a comunicação social, mas tem pouco interesse real (refira-se mais uma vez que o indicador área ardida é um indicador bem pobre para traduzir o bom ou mau trabalho sobre esta matéria, como procurei defender neste outro post bem como noutros).
"O comandante operacional da ANPC, Gil Martins, disse ontem que 40 por cento dos fogos deste ano começaram durante a noite, o que sugere causas humanas."
Sempre a mesma história: quando corre bem, são as nossas políticas que estão a ter êxito. Quando corre mal, é porque Portugal tem muitos incendiários. Mas não há um jornalista que pergunte se estes incendiários estavam todos presos o ano passado e foram todos indultados pelo Natal?
"Na contabilidade deste ano, quase 70 por cento de todos os incêndios tiveram origem humana, 30 por cento deveram-se a causas indeterminadas e um por cento, a causas naturais. De acordo com Mourato Cabrita, segundo comandante-geral da GNR, o número de fogos criminosos “mais do que duplicou”."
Aqui é mesmo falta de seriedade na discussão. Fala-se de origens humanas, logo a seguir de fogos criminosos porque o que se pretende é mesmo criar a ideia de que origem humana e fogo criminoso são basicament a mesma coisa, o que está muito longe de ser verdade. Volto a perguntar, mas o que aconteceu no ano passado a todos estes malandros para que não existissem fogos? Ou será que pura e simplesmente a forma como começam os fogos é muito pouco importante para os resultados da política e o essencial não é saber como começou o fogo mas sim, saber por que razão não foi possível pará-lo?
"Também houve um aumento no número de contra-ordenações.“As câmaras deviam exercer mais a sua capacidade coerciva sobre os cidadãos e exercer uma acção repressiva em caso de não cumprimento da lei”, disse Mourato Cabrita, dado o exemplo da limpeza das matas."
Eu acho de uma imensa ternura ver oficiais da GNR de um país que não consegue fazer cumprir o código da estrada, e muita outra legislação, acreditarem que será a acção repressiva das câmaras, exercida no meio dos montes imensos e sem ninguém, que vai resolver o assunto. Esta deliciosa ingenuidade faz-me ter na nossa polícia uma enorme confiança na sua capacidade de análise da realidade.
"Os meios aéreos fizeram mais 50 por cento de horas de voo do que em 2008 (6.230 face a 4.091) e descarregaram 66 milhões de litros de água para apagar os fogos, o equivalente a 40 piscinas olímpicas. ... “Se tivessemos tido o mesmo número de ocorrências provavelmente teríamos a mesma área ardida. O dispositivo [de combate a incêndios] não tem sucesso se não tiver a colaboração de toda a gente”, frisou."
Claro. Mas que tal começar por falar com o Ministério da Agricultura para ver se abandonam a política suicida de não remunerar devidamente os serviços ambientais e a política de favorecimento da floresta contra o pastoreio? E que tal ler o brilhante comentário de Paulo Fernandes que reproduzi neste post a propósito de um fogo de Inverno no Marão?
Mas sobretudo, que tal explicar por que temos vindo a gastar todos os anos muito mais dinheiro no dispositivo de combate aos fogos se isso afinal não é o essencial, como se reconhece nestas afirmações?
henrique pereira dos santos






