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quarta-feira, março 17, 2010

A energia e o movimento ambientalista

Imagem do site da EDP, esses malandros

Na sequência deste post, e comentários subsequentes, resolvi hoje dar uma volta pelos sites das três principais ONGA nacionais (a propósito de um comentário sobre o plural de Onga existe consenso no sentido do apóstrofo no plural onga's estar inequivocamente errado, existe alguma dúvida sobre ONGA não tem plural porque é uma sigla, ou se o tem por já ser um acrónimo, penso eu).
Ontem foi apresentada pelo Governo a Estratégia Nacional da Energia 2020 e seria por isso natural que perante uma das mais relevantes questões ambientais que temos pela frente houvesse opinião estruturada por parte do movimento ambientalista.
No Geota o último comunicado da associação que se encontra no seu site diz que o GEOTA fará parte do Júri do concurso das sete maravilhas naturais de Portugal. Tanto quanto me apercebi, não existe nada no site referente à estratégia nacional de energia.
Na LPN o último comunicado que existe diz que a LPN se associa à iniciativa "Plante uma árvore" da representação permanente da Comissão Europeia em Portugal. Esta iniciativa, que a mim me parece meritória nas intenções e processos, tem sido criticada pelo uso de espécies exóticas nas acções de vários parceiros (não o caso da LPN, mas vale a pena ver com que se entretem a LPN a propósito da biodiversidade), para além da estranha bizarria da autoridade nacional para a biodiversidade não fazer parte dos parceiros na iniciativa. Tanto quanto me apercebi, não existe nada no site referente à estratégia nacional de energia.
A QUERCUS tem posição sobre a estratégia nacional para a energia nos próximos dez anos. Está aqui a posição para quem a queira ler sem intermediários.
E vale a pena ler. A ideia principal está naturalmente no título que a QUERCUS dá ao comunicado: "um bom começo, mas contradições nas prioridades".
Importam-se de repetir? Um bom começo? Começo, ao fim de não sei quantos anos de decisões?
Lembro-me de quando o Governo anterior tomou a decisão de contrariar o regulador, não aumentando o preço da electricidade para resolver o défice tarifário, ter perguntado a um dos principais dirigentes da QUERCUS, e directamente envolvido nesta matéria, se a QUERCUS não tinha posição sobre isso. A resposta é que era uma questão de mercearia, não fazia sentido a QUERCUS envolver-se nisso. Verifico que de facto é assim que a QUERCUS pensa: o preço, o tarifário e esses pormenores, que traduziriam o princípio básico do utlizador pagador, estão ausentes da posição da QUERCUS. Não são por isso uma questão central para a QUERCUS (aparentemente o desenvolvimento sustentável, para a QUERCUS, não inclui o pilar da economia). Registo que a QUERCUS pretende discutir uma estratégia de energia omitindo a discussão dos preços.
O lead do comunicado, tirando a primeira parte que não interessa nada, reza assim:
"A Quercus considera que a referida estratégia continua a não criar um novo paradigma de coerência das políticas governamentais em matéria de energia, na medida em que as políticas dos últimos anos continuam a ser muito contraditórias, com investimentos programados nos transportes, principal área da nossa dependência energética."
Ou seja, a QUERCUS está a dizer que a política do Governo é incoerente, mas isso não a coíbe de a classificar como um bom começo. A quadradatura do círculo no seu esplendor, que retrata bem o comunicado emitido pela QUERCUS como procurarei fazer notar e que é de facto a marca de água da QUERCUS nas suas posições públicas há muito: criticar sim, em questões pontuais até fortemente e com acções jurídicas, mas nunca em caso algum dizer alto e bom som, com a clareza que seria exigível, que este Governo é o maior embuste ambiental que se possa imaginar.
Dizer que esta política energética não tem nada de ambiental, é apenas filha da falência do Estado e do desespero financeiro que obriga o Estado a empenhar os recursos naturais numa política suicidária de captação de investimento, isso a QUERCUS nunca fará nas actuais circunstâncias.
O que a QUERCUS faz é tocar e fugir, brincar permanente ao gato e ao rato da crítica, neste comunicado.
"Muitas das áreas abrangidas têm sido parte de planos e intenções anteriores, sem que Portugal tenha conseguido cumprir objectivos iniciais (ex. água quente solar e biomassa), e principalmente tenha visto reduzir de forma continuada o seu consumo de electricidade e a sua intensidade energética (indicador nunca referido durante todos os discursos da apresentação)".
Ou seja, a QUERCUS diz que o mais provável é ser tudo aldrabice, mas isso não a coíbe de considerar a estratégia um bom começo.
O melhor é que depois de passar esta medalha de aldrabice ao Governo (este e os anteriores), refere como o primeiro aspecto positivo:
"- Metas apresentadas em diferentes áreas (redução da dependência externa dos combustíveis fósseis; aumento das energias renováveis, aumento do emprego, e aumento do peso do PIB associado ao sector energético) são significativas, bem como a identificação da área da energia como crucial para o desenvolvimento sustentável do país;".
Ou seja, o que o Governo diz não é para levar a sério e o mais positivo da estratégia é o que o Governo diz, mesmo não sendo para levar a sério. Pergunto na minha ingenuidade: se os planos e intenções anteriores demonstram a sua inutilidade, como podem ser metas e coisas que tal ser consideradas como elementos positivos da estratégia?
Coerente com o seu princípio de que os preços são questões de mercearia, a QUERCUS afirma como segundo aspecto positivo:
"- Aumento em dez vezes da potência a instalar para produção de electricidade renovável de origem solar;"
Extraordinário, depois de considerar que a água quente solar é um bom exemplo de como as intenções ambientais do Governo não são para levar a sério, a QUERCUS acha bem que a estratégia opte por aumentar em dez vezes a produção eléctrica de energia solar que é, por enquanto, ruinosa. Não seria normal a QUERCUS dizer que o Governo se devia deixar de parvoíces com a produção eléctrica solar enquanto não levasse ao limite as potencialidades da água quente solar?
O terceiro aspecto positivo é a recusa da energia nuclear, que não vale a pena comentar. Não porque o assunto não seja importante, mas porque considerar positivo que não esteja em cima da mesa o que o Governo (e já agora, quase toda a oposição) sempre disse que não deveria estar, não deixa de ser sintomático.
O primeiro dos aspectos negativos:
"- Prioridade maior às energias renováveis em relação à redução de consumos e eficiência energética (quer no conteúdos das medidas apresentadas, quer em investimento previsto);"
Finalmente de acordo com a QUERCUS. Mas, pergunto eu, não é este aspecto negativo, por si só a demonstração de que o que está em causa nesta estratégia não tem nada, mas rigorosamente nada, de preocupação ambiental. Não é esta a pedra de toque que separa uma estratégia energética de base ambiental de uma estratégia energética de captação de investimento à custa da justificação moral ambiental que torna politicamente aceitável um tarifário que todos pagaremos em ineficiência e desemprego, sem ganhos ambientais reais?
"- Os investimentos em energias renováveis arriscam-se a ser demasiado extensos e a agravar fortemente os conflitos com o ambiente, nomeadamente através de barragens e eólicas onde as áreas disponíveis são cada vez menores."
Ou seja, a QUERCUS considera entre os aspectos positivos as metas estabelecidas para as energias renováveis, mas considera nos aspectos negativos o excesso de investimento nas duas principais e mais competetivas fontes de energia renovável. Resumindo, o que quer afinal a QUERCUS? Não quer discutir os preços e os custos, não quer o nuclear (eu também não), não quer barragens nem eólicas em excesso (faltaria definir o que é o excesso mas a QUERCUS depois pensa nisso) e quer aumentar dez vezes o eléctrico solar (a mais irracional das apostas de produção a partir de fontes renováveis, neste momento), querendo ainda melhorias de eficiência (eu também) embora não explique bem como.
O ponto seguinte mostra bem a vocação actual da QUERCUS para o contorcionismo:
"- No sector dos transportes, nomeadamente o papel do transporte colectivo, esteve completamente ausente. A prioridade foi para o automóvel eléctrico que apesar das suas inegáveis virtudes ambientais deverá ser apenas um eixo de uma política mobilidade que não está a funcionar (veja-se as Autoridades Metropolitanas de Transportes), bem como um visão integrada em termos de ordenamento do território. A redução da necessidade de utilização do transporte individual é fundamental para as famílias portuguesas reduzirem custos e o país reduzir a sua dependência energética;"
Tal como no primeiro ponto, esta é mais uma demonstração cabal da falta de perspectiva ambiental nesta estratégia. Mas ainda assim a QUERCUS ganha ânimo para incluir uma frase sobre as "inegáveis virtudes ambientais" do carro eléctrico? Inegáveis? Depois de se criticar a aposta nas barragens e eólicas? Depois de querer pôr a tónica na redução de consumos ainda se consegue vislumbrar inegáveis virtudes ambientais no carro eléctrico? Tudo isso no mesmo parágrafo em que "en passant" se diz, como se de coisa menor se tratasse, que os transportes colectivos estão ausentes da estratégia?
E por fim, num tique próprio da QUERCUS, o comunicado acaba com uma conversa de comadres sobre os meandros internos do Governo, dizendo que o ambiente vai ceder à economia. Francamente, acham que é mesmo uma questão importante? Se há coisa que Sócrates tem feito bem é manter a consistência interna dos seus Governos, e eu também acho que assim deve ser. Não há políticas do Ambiente e da Economia, há políticas do Governo. Não é o ambiente que vai ceder, é o Primeiro Ministro que define essa política.
Seria pedir muito à QUERCUS que explicitasse de forma clara e inequívoca que esta estratégia corresponde à opção política do Primeiro Ministro:
empolar artificialmente o investimento no sector da energia durante o próximo ciclo eleitoral, justificar enganadoramente essa opção com razões ambientais, as quais na verdade estão completamente ausentes das suas preocupações políticas, e deixar a factura a pagar em competitividade, desemprego e dívida nacional para quem vier depois.
Meus caros dirigentes do movimento ambientalista,
podem com certeza acusar-me pela enésima vez de eu ser anti-onga, mas francamente, quando numa questão ambiental estratégica como é a energia, a LPN e o GEOTA dormem placidamente, e a QUERCUS faz um dos mais indecorosos exercícios de contorcionismo político que tenho vito em matéria ambiental eu respondo-vos que se há alguém que está de facto a matar as ONGA são vocês, não sou eu.
Mesmo que estejam, como creio que na maioria estarão, cheios de boas intenções.
henrique pereira dos santos

terça-feira, março 16, 2010

O trigo e o petróleo

Em 1916 António de Oliveira Salazar publicou a sua tese "A questão cerealífera. O trigo", que não li mas um dia lerei. O que li foram alguns comentários sobre o que pensava em 1916 o académico Oliveira Salazar. Aparentemente pensava que o país não era particularmente vocacionado para a produção de trigo e que a sua agricultura se deveria orientar, a prazo, para "culturas hortícolas e pomícolas, isto é, para a produção de legumes, frutas, flores, videiras e oliveiras", para citar a leitura que dele faz Pedro Lains.
Mas, e a questão não é irrelevante, isso seria a prazo, porque no imediato havia problemas estruturais na agricultura que a impediam de cumprir a sua vocação e um défice alimentar que seria preciso colmatar por razões estratégicas.
Terá sido por isso que o político Oliveira Salazar, mais tarde, cerca de 1930, reforça o regime de protecção da produção de trigo.
Lembrei-me disto quando li hoje no jornal o Ministro Vieira da Silva a fazer umas contas à poupança de petróleo no sector energético:
"Prevemos aumentar para 8 600 MW de capacidade instalada para a hídrica, 8 500 MW de eólica e atingir os 1 500 MW de solar de todas as dimensões (térmico e fotovoltaico). Este mix significa uma poupança/ ano de cerca de trinta milhões de barris de petróleo equivalente, mais ou menos 2 000 milhões de euros, a preço de hoje."
A jornalista que o entrevista, da secção de política ou de economia, com certeza, não lhe faz as perguntas que seria razoável esperar:

1) Porque se fala em capacidade instalada em vez de energia produzida expectável?

2) Como é que o solar térmico entra na produção de electriccidade?

3) A que preço fica a dita poupança em barris de petróleo no sobrecusto do tarifário de electricidade e em custo de oportunidade para os investimentos necessários a essa poupança.

Salazar, muito melhor economista e político que a maioria dos que por aí andam (sem que isso signifique qualquer concessão em relação às suas opções políticas, muito piores que as de muitos dos que por aí andam), não justificaria economicamente, que eu saiba, a campanha do trigo, mas sim com a soberania da nação.
Se o que se pretende é justificar economicamente a política energética do Governo seria bom começar por deixar de lado a propaganda e avaliar realmente a questão tal como ela é, com todas as suas virtudes e defeitos.
Na prática o Governo está empenhado numa campanha do trigo (neste caso substituído por petróleo), com custos económicos e ambientais que escamoteia permanentemente.
Do outro lado existe também uma campanha de sinal inverso, que pretende que todo o sobrecusto actual de produção de electricidade a partir de renováveis é injustificado e economicamente ineficiente, e que conclui sempre que a solução está na energia nuclear.
Os preços do petróleo são demasiado voláteis e incorporam mal o longo prazo e as suas externalidades ambientais negativas para que se ponham de lado todas as formas de apoio à produção alternativa de electricidade a partir de fontes renováveis, para já não falar da eficiência energética cujo principal motor será, com certeza, o facto do consumidor suportar preços reais de produção e não preços martelados politicamente (incluindo o preço da água de Alqueva, por exemplo, completamente irrealista do ponto de vista dos custos de disponibilização aos utilizadores).
Não é possível a produção responder de imediato às condições instantâneas de mercado, pelo que haverá sempre alguma ineficiência aceitável para que possamos garantir a capacidade de resposta numa situação de escalada dos preços do petróleo e outros combustiveis fósseis (que, ao contrário do que pretendem os nuclearistas, influenciará também os preços da electricidade produzida pelo nuclear).
Clarificar economicamente a política de produção de electricidade é pois uma questão central para a racionalidade das decisões.
Olhar para os efeitos negativos da campanha do trigo talvez nos ajude a perceber os riscos destas campanhas patrióticas de poupança de barris de petróleo, a um preço que se esconde na propaganda.
É que poupar cem euros de petróleo porque gastei 300 a construir um sistema alternativo de abastecimento de electricidade não é a coisa mais economicamente racional. Embora possa haver outras razões, não económicas, como era o caso da soberania nacional defendida por Salazar a propósito do trigo. O que de qualquer modo o levou a desvalorizar os efeitos na fertilidade dos solos decorrentes da opção política tomada, que agravaram os problemas estruturais da produção agrícola por muitos anos (mesmo que inicialmente disfarçados pelo crescimento exponencial do uso de adubos).
Havendo razões não estritamente de economia de curto prazo, e eu acho que há algumas, convém explicitá-las e pôr-lhe o preço bem à vista, deixando às pessoas a possibilidade de escolher o que querem para o seu futuro.
henrique pereira dos santos

sábado, fevereiro 20, 2010

O gosto da biodiversidade (publicidade) III

Imagem roubada daqui, não da Faia Brava, claro

A propósito quer dos comentários do Henk Feith quer do Paulo Barros sobre o texto que faz a ligação entre o azeite e a produção de biodiversidade na Faia Brava aqui vai o texto sobre a pastorícia.
É que o projecto é só um projecto de comunicação, não é uma análise crítica da gestão da biodiversidade da Faia Brava. E não se pode pedir ao projecto mais que aquilo que ele pode dar.

O crescimento dos matos em quase todo Portugal corresponde à acumulação de milhares de toneladas de combustível que, em condições meteorológicas adversas, ardem facilmente.
O corte de matos, manualmente ou com máquinas, é possível mas é uma tarefa penosa e cara. Por isso, reduzindo a estrumação das terras e deixando de cozinhar e nos aquecermos a lenha, deixámos ao gado miúdo a tarefa de gerir todo este combustível.
O excesso de gado, associado a queimadas frequentes, conduz a perda de solo e à degradação da paisagem como a que ainda existe em algumas partes das propriedades da ATN.
Hoje estas áreas estão em recuperação com um uso cuidado de alguns rebanhos e uma manada de cavalos garranos para diminuir o risco de incêndio.
A opção é sua:
comer carne de vaca ou queijo bola, resulta quase sempre em paisagens com grandes acumulações de combustível e fogos intensos quase todos os Verões;
comer também cabritos e borregos, ou queijos de ovelha ou cabra pastoreada nos montes é construir paisagens mais resistentes ao fogo e espaços onde as matas podem sobreviver anos a fio sem serem afectadas por fogos severos.

Bola de carnes pastorícias (Borrego da Beira IGP, Cabrito da Beira e da Gralheira IGP)

Massa:
Ingredientes:
3 ovos - 1,4 dl de azeite da Faia Brava – 600 gr de farinha – 1,5 dl de leite – 2 colheres de chá de fermento em pó – sal a gosto – 1 gema de ovo
Preparação:
Deitam-se os ovos numa tigela, batem-se e misturam-se com o leite. Em seguida acrescenta-se o azeite, o sal, e por fim a farinha com o fermento, amassando bem. Tapa-se a massa com um pano e descansa cerca de 4 horas. Depois estende-se a massa com o rolo até ficar fina e forra-se um pirex redondo.
Recheio
Ingredientes:
400 gr de carne de borrego desossado
400 gr de carne cabrito desossado
150 gr de toucinho
3 dentes de alho
2 dl de vinho branco
75 gr de manteiga
2 colheres de sopa de azeite Faia Brava
Sal e pimenta a gosto
1 gema de ovo
Preparação:
Cortam-se escalopes muito pequenos e finos das carnes ovina e caprina. Temperam-se com os dentes de alho picados, o sal, a pimenta, e o vinho branco. Leva-se a manteiga ao lume e fritam-se as carnes. Quando prontos, junta-se a marinada e fervilha, com o tacho tapado, durante uns minutos. O toucinho corta-se em tiras finas e frita-se no azeite. No pirex já forrado com a massa coloca-se uma camada de carnes, outra de massa, novamente carnes e o molho destas acabando com a massa a cobrir. Dobram-se as pontas, doura-se com a gema de ovo e vai ao forno quente para cozer (180ºC)

henrique pereira dos santos, com receita de António Alexandre

A vida é complicada

Num dos meus posts sobre o projecto "O gosto da biodiversidade" existe o seguinte comentário (implicitamente criticando a dicotomia entre o uso de azeite e de manteiga expressa num dos textos do projecto):
"Consumo manteiga dos Açores. Acaso esse local fica no outro lado do mundo? E os bichos ficam em que estábulos? Do que eu vi andam em liberdade pelos terrenos dos proprietários. E acaso a paisagem dos Açores é monótona?".
A crítica é razoavelmente justa no sentido em que o texto é demasiado a preto e branco (pelas razões que explico na caixa de comentários) mas um simples clik na internet permite questionar (verdadeiramente no sentido de levantar questões, não no sentido de contestar) várias frases do comentário.
Aconselho a leitura deste post, de Março de 2008, noutro blog.
Nesse post é evidente o uso (e um uso intenso, não apenas pontual) de rações produzidas no outro lado do mundo, não nos Açores, na produção de leite açoreano.
É isso que o projecto pretende: perguntarmo-nos de onde vêem e como se fazem os alimentos que usamos diariamente, muitas vezes com imagens estereotipadas na cabeça, como a visão idílica que todos temos (não apenas o comentador) da produção de gado nos Açores, por exemplo.
Essa produção é apesar de tudo muito mais sustentável que muitas outras com gado estritamente estabulado? Sim, sem dúvida.
E por isso o projecto põe a tónica na liberdade individual: cada um faça a sua apreciação, mas inclua a sustentabilidade informada nos critérios de decisão, por favor. Mesmo quando, como todos fazemos, uns mais outros menos vezes, sabemos perfeitamente que optámos por uma refeição completamente insustentável, o que é legítimo e muitas vezes razoável.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

O gosto da biodiversidade (publicidade) II

Imagem roubada daqui

A Associação Transumância e Natureza (ATN) produz e comercializa azeite.
O seu principal objectivo é gerir o habitat de algumas das espécies mais importantes da Reserva da Faia Brava, mantendo um mosaico de diferentes culturas.
Para conservar as águias de bonneli ou as águias reais que existem nas suas propriedades é preciso garantir condições favoráveis para outras espécies que lhes servem de alimento, sobretudo o coelho.
Por outro lado as oliveiras, produzindo azeitonas no Inverno, dão alimento numa altura em que muitas plantas estão sem folha e sem fruto.
Essa é a razão principal para a ATN se interessar por esta produção, investindo nela e vendendo o azeite para pagar o trabalho de gestão do habitat e libertar um pequeno valor para comprar mais terrenos para a conservação.
A opção é sua:
usar manteiga resulta quase sempre em paisagens monótonas de produção intensiva de cereais, usados nas rações para alimentar gado que não sai dos seus estábulos, muitas vezes do outro lado do mundo;
usar azeite, sobretudo este azeite, é construir paisagens com muito mais que oliveiras, é criar espaços onde sabe que as águias podem viver sem risco de morrerem à fome.

Pão
Massa de azeite
Ingredientes:
500 gr de farinha
20 gr de sêmola grossa
15 gr de fermento fresco
10 gr de sal
50 gr de azeite Faia Brava
320 gr de água (320 ml, mas se pesar é mais fiável)
Pré-aqueça o forno a 250 C. Misture a farinha e a sêmola e esfregue-as com o fermento, com a ajuda dos dedos, como se estivesse preparando umas migas. Junte o sal, o azeite e a água, e continue a amassar e virando a massa inúmeras vezes para que incorpore o máximo de ar.

Focaccia com sal e alecrim
1 massa de azeite depois de repousar 1 hora
5 colheres de sopa de azeite
6 hastes de alecrim
Flor de sal
Preparação:
Estender a massa sobre uma placa de forno pincelada com azeite. Espalhe o restante azeite sobre a massa e com a ajuda dos dedos estique a massa do centro para as extremidades da placa, sem a levantar ou retirar, cubra com um pano e deixe repousar num lugar ameno, ao abrigo de correntes de ar, durante 45 minutos. Volte a pressionar a massa com as pontas dos dedos e deixe repousar mais 30 minutos. Retires as folhas de alecrim das hastes e espalhe homogeneamente sobre a massa, salpique também com a flor de sal e em seguida leve ao forno previamente aquecido. Abaixe a temperatura para os 220C e deixe cozer por 25 a 30 minutos, até atingir uma cor castanha/dourada. Retire do forno e transfira para uma superfície neutra para arrefecer pincelando com um pouco mais de azeite enquanto está quente.
henrique pereira dos santos, com receitas de António Alexandre

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

O gosto da biodiversidade (publicidade)

Declaração de interesses: sou colaborador remunerado da ATN e sou em grande parte responsável pela concepção e execução deste programa específico da associação

Este é o primeiro de uma série de posts sobre o projecto "O gosto da Biodiversidade" cuja primeira realização concreta será nos dias 26, 27 e 28 de Fevereiro no Cascais Shopping.
O projecto tem dois objectivos essenciais: levar as pessoas a olharem para o seu prato do ponto de vista da sustentabilidade; divulgar a ATN e a Faia Brava, nomeadamente as suas opções de gestão para a biodiversidade.
Os posts serão constituídos por um texto de enquadramento que relaciona um produto com questões de sustentabilidade, seguido de uma receita que usa esse produto. As receitas são concebidas pelo Chef António Alexandre, que fará as sessões de live cooking e degustação que são parte essencial do projecto .

A Associação Transumância e Natureza não produz o seu próprio mel.
Fá-lo-á um dia porque a sua produção é uma das eficientes formas de valorizar os matos e a sua floração surpreendente.
Grande parte da diversidade que existe na natureza está nos insectos. A sua importância nos ecossistemas vai da polinização das flores até ao seu papel na alimentação de morcegos, noitibós ou abelharucos, um dos pássaros mais bonitos que encontramos em Portugal.
Pontos de água, recuperação de matas e linhas de água degradadas por anos de uso excessivo, uso de animais na gestão de habitats, em cujos excrementos muitos insectos (e também aves) se alimentam, estrumação e tratamentos sem recurso a produtos químicos, estão entre as medidas de gestão adoptadas adoptadas na Faia Brava para proteger os invertebrados.
A opção é sua:
usar açúcar refinado de cana resulta quase sempre em paisagens monótonas de produção intensiva em países tropicais;
usar o mel produzido nos matos de tomilho ou alecrim é construir paisagens com diversidade e criar espaços onde muitas outras espécies de insectos podem viver e prestar-nos serviços que muitas vezes nem imaginamos.

Pêra recheada com queijo de cabra e mel
Ingredientes
2 peras médias
1 colher de sopa de sumo de limão
100 gr de queijo de ovelha
100 gr de manteiga amolecida
8 a 10 folhas de manjericão ou poejo
1 colher de sopa de mel
Sal e pimenta a gosto
2 colheres de sopa de flocos de aveia
Preparação:
Descascar as peras e pô-las a cozer em água com 1 colher de sopa de sumo de limão, durante aproximadamente 4 a 6 minutos. A água deverá ser suficiente para cobrir as peras. Esmigalhar o queijo, misturá-lo homogeneamente com a manteiga e temperar com uma pitada de sal, pimenta e as folhas de manjericão ou poejo picadas. Retirar e escorrer as peras, cortando-as a seguir em rodelas da grossura de um dedo. Barrar todas elas com a massa de queijo e sobrepor em camadas. Espalhar em fio o mel sobre as peras. Tostar os flocos de aveia numa frigideira sem gordura, e polvilhar decorativamente sobre as peras.

henrique pereira dos santos

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

As rolhas vistas por um produtor de cortiça

A discussão sobre o uso das rolhas, que é mais que uma discussão sobre rolhas sendo sobretudo uma discussão sobre a integração da sustentabilidade nas decisões empresariais e nas decisões de consumo, tem neste post mais um desenvolvimento, desta vez por António Posser de Andrade:
"É inevitável deduzir que Miguel Champalimaud (MC) achou a minha resposta ao seu texto inicial insuficientemente estruturada para merecer a sua resposta.
Não estranhei, mas noto esta sua postura pois recebi algumas centenas de mensagens de apoio que tinham como denominador comum o facto de essa minha resposta estar bem fundamentada e bem estruturada. Enfim, é uma opinião que devo respeitar, mas tenho pena, pois devo admitir que custou-me muito tentar estruturar uma resposta a umas afirmações tão tendenciosas (para já não falar das perguntas) como as que Miguel Champalimaud proferiu.
Mas, como me incluiu na lista de endereços no seu segundo texto endereçado ao Sr. Arquitecto Henrique Pereira dos Santos decidi gastar mais algum tempo, apesar de com pouca esperança de mudar o “fundamentalismo” e o claro “engajamento” das suas opiniões; mas com o intuito claríssimo e prioritário de não deixar que a mesma mentira repetida muitas vezes passe a ser considerada, por alguém menos conhecedor do assunto, uma verdade.
Assim, continua a “luta”.
Após período extenso de reflexão claramente concluo que a falta de resposta do MC aos meus argumentos demonstra que Miguel Champalimaud realmente não quer debate nenhum pois, caso o quisesse, teria:
1- Respondido directamente ao que escrevi e não apenas colocado o meu nome em cc numa sua suposta resposta ao Sr. Arq. Henrique Pereira dos Santos.
2- Enviado essa sua suposta resposta ao correcto endereço de mail do Sr. Arq. Henrique Pereira dos Santos e não para um endereço de mail da Quinta da Marinha; que creio seja pertença do próprio Miguel Champalimaud ou da sua Quinta da Marinha (IMCEAMAILTO-as1075017+40sapo+2Ept@quintadamarinha.pt).
(Vai sempre a tempo de reenvia-lo para o correcto as1075017arroubasapo.pt, como se pode muito bem ver no correio electrónico que originalmente recebeu do Sr. Arquitecto.)
Fundamenta também esta minha convicção a certeza de que o MC já percebeu que está desactualizado ou simplesmente desconhece o que se passa na questão dos vedantes para vinho, em particular e, no sector da cortiça, em geral.
Pode-se deduzir isso pelas enormes confusões que faz em assuntos concretos, por ele próprio levantados, como por exemplo no que diz respeito às declarações do crítico Robert Parker. Note-se inclusive que, até o seu enólogo, pasme-se, não alinha pelas "convicções" do MC pois em recente entrevista a uma estação de televisão nacional refere (mal) em 5% os vinhos afectados com “sabor a rolha”. Afinal em que ficamos? Parker (que na primeira carta de MC era o seu primeiro e principal trunfo) afinal afirma que são menos de 1%, o enólogo da casa Montez Champalimaud fala de 5% e o MC brinda-nos com …. 15%. Oops, com certeza uma pequena gafe; sem querer, claro.
Ao mesmo tempo MC, que se auto-proclama um defensor da modernidade, demonstra estar bastante desactualizado com notícias realmente modernas sobre o sector e o produto que acusa de ser "passado"; tal como se pode ver ao menosprezar ou desconhecer o facto já mencionado no meu texto anterior sobre os vinhos da Nova Zelândia da marca "Nobilo", que são líderes nos EUA exactamente porque se diferenciaram da concorrência ao adoptar a nossa velha e antiga rolha de cortiça como seu vedante de eleição.
Mas tenho novidades para o MC sobre para onde sopram os ventos da modernidade. Agora, sobre o mercado Europeu e especificamente o Inglês:
http://www.guardian.co.uk/environment/2009/dec/31/sainsburys-corks
Ainda há tão pouco tempo a Inglaterra e as suas maiores cadeias de distribuição eram a ponta da lança das tampas de rosca de alumínio provenientes dos novos vinhos produzidos na sua Commonwealth. Parece que afinal as coisas estão a mudar. Boas notícias para Portugal sem dúvida. Para o MC? Ele é que sabe.
Especificamente sobre a putativa réplica do MC, a que ele me deu acesso, gostaria somente de dizer algumas coisas, pois os inúmeros argumentos apresentados não resistem a uma análise minimamente atenta. No interesse da rapidez da leitura e porque creio que já todos percebemos que os argumentos do MC não são de “quem quer discutir, argumentar e ver os ventos da História, mas antes de alguém engajado (sic)”, apenas noto que:
1- Uma análise do ciclo de vida dos diferentes vedantes e elaborado pela Price WaterhouseCoopers para um fabricante de rolhas, por acaso, até inclui o impacto ambiental de uma cápsula de PVC. Para ver onde a “modernidade”de MC nos levaria a todos, relembro que o vedante utilizado no Qt. do Côtto emite 24 vezes mais CO2 que a rolha de cortiça MAIS a cápsula, sendo que e como complemento a este dado informo que a existência do montado de sobro (só) em Portugal é responsável pela retenção ANUAL de 5 milhões de toneladas de CO2, conforme estudo especifico elaborado pelo ISA (Instituto Superior de Agronomia).
2- As ONG’s, goste-se ou não delas, são claras quando dizem que no mundo existem 100 000 empregos que dependem da cortiça. Trabalharão quase todos na mesma empresa? A verdade é que apenas a Associação de Cortiça de Portugal conta com centenas de empresas que são parte de um tecido empresarial que existe em vários países do mundo. Existe um líder na indústria? Claro, mas que indústria de sucesso na história do mundo não tem um líder?
3- Há empresas de cortiça que têm mais de metade das suas necessidades energéticas cobertas por biomassa, material obviamente renovável. Em algumas unidades essa % pode chegar aos 80%. Que “discute” realmente MC quando decide ignorar repetidamente factos como estes? Quanto à emissão de águas “lixiviadas” (sic) não sei se o adjectivo alguma vez existiu; mas há mais de uma década que não se usa cloro no processo produtivo da cortiça. Obviamente que MC deve seguir o seu próprio conselho: “visite-se uma moderna fábrica de cortiça com olhos de ver;” e se não o conseguir, tem sempre a opção de ver na internet “de forma exaustiva o moderno processo produtivo de uma rolha de cortiça”. E, imagine-se, até há jornalistas que se “atrevem”. Em http://www.wineanorak.com/corks_part1.htm está todo o processo descrito por alguém tem um doutoramento, é membro da Association of British Science Writers e que ganhou vários prémios pelos seus artigos e livros já publicados.
4- Sobre as referencias que MC faz a latas de atum, latas de cerveja e redbull e as suas considerações sobre a terra do Sobreiro e o estado de espírito daqueles que lá vivem, realmente não vou responder nem comentar, pois não o poderia fazer sem ser trocista ou ofensivo e a educação recebida, que prezo, impedem-me de o fazer. Mas deixo aqui um pequeno filme que espero ajude a desanuviar os espíritos. Até porque parece que o título tem destinatário próprio:
http://www.savemiguel.com/
5- Discutidas e argumentadas estas questões, abordemos, por último, “os ventos da História” e a afirmação de MC que o alumínio e o petróleo são os responsáveis pelo bem-estar da humanidade. Claro que para aquela parte da Humanidade que fica pior quando lhe poluem os rios e lhe retiram ar saudável para respirarem, essa afirmação poderá soar estranha. Para os que beneficiaram do petróleo e da enorme destruição causada pelas minas a céu aberto de onde se extraem os componentes do alumínio, os ventos da história já começaram a mudar, pois a sua consciência assim o dita.
É que até os economicistas sabem que uma performance positiva não é garantia de lucros futuros. O que parte da Humanidade já compreende, em números que não auspiciam nada de bom para os Quintas do Côtto deste mundo, é que não podemos continuar como no passado. Criar mecanismos de progresso económico e social sem que isso implique paisagens “inóspitas e com balanço negativo para a biodiversidade” é o que nos trazem esses “ventos da História”. E felizmente que assim é, porque sabemos que esses ventos são como as vinhas; há que semeá-los com cuidado ou os resultados serão diferentes do esperado.
Conclusão:
É minha convicção que:
- O MC não quer debate e sim uma salvadora publicidade para os seus vinhos.
- Está desactualizado e muito mal informado sobre vedantes para vinho e sobre o sector da cortiça.
- Está completamente desactualizado sobre a dinâmica evolução do mercado do vinho engarrafado e as tendências dos consumidores.
- Está contra que se descubra uma “mina de ouro” (???) em Portugal preferindo que elas existam em outros Países (provavelmente porque não é sua).
- Prefere continuar a produzir os seus vinhos com as suas tampas de alumínio mesmo sabendo que essa sua atitude, somada a de outros que pensam e são como ele, só poderá levar a um mundo ambientalmente exaurido e destruído onde as gerações vindouras, à custa destes irresponsáveis comportamentos, é que sofrerão e pagarão esta obsessiva corrida ao lucro.
- Está completamente a borrifar-se para o impacto social, económico e ambiental que o desaparecimento do montado de sobro traria a Portugal.
- Noto todavia com muito agrado duas coisas nestes textos do MC:
A- Que todas as acusações às rolhas de cortiça, implícitas no primeiro texto do MC, reduziram-se finalmente a uma defesa, no mínimo infantil, sobre a utilização das cápsulas de estanho e o fútil “não sou o único” referindo-se a um outro produtor. É caso para se dizer que, verdadeiramente, a montanha pariu um rato.
B- A enorme preocupação demonstrada pelo MC em baixar o máximo possível o preço dos seus produtos para possibilitar uma mais fácil aquisição do mesmo pelos seus clientes. Anotei e conto, quem sabe um dia, utilizar essa “generosidade”, quando pretender comprar um lote na Quinta da Marinha. Depois informarei a todos dos resultados obtidos.
Com estas palavras encerro a minha participação neste debate de ideias que se desejava construtivo; para que o fosse, era necessário que os seus intervenientes também o fossem. De minha parte dei o meu melhor mas parece-me, sinceramente, que este debate (como alguns vinhos que utilizam o screwcap) está a ficar “reduzido” ou “oxidado”, que são os termos com que os utilizadores das tampas de rosca de alumínio empregam para classificar vinhos com problemas causados, exactamente, pelo seu vedante de eleição, o screwcap.
Agradecido pela atenção que me deram,
António Posser de Andrade
Produtor Florestal"

quinta-feira, janeiro 28, 2010

"Hesito por momentos e uma amargura me submerge inconsolável"

Ler hoje o Público, depois de ter escrito o post de ontem, poderia ter-me dado alguma satisfação decorrente de aparentemente não ter dito muitas asneiras numa área que não é a minha.
Mas não, foi um nó na garganta que foi crescendo.
O défice que se reduz com as receitas extraordinárias das concessões das barragens (e o movimento ambientalista a falar de património natural importante que desaparece, a discutir a racionalidade económica de investir em produzir mais em vez investir em ser mais eficiente, mas a deixar de lado a questão essencial da opção política pelo endividamento) e venda de património (explicitamente edifícios, terrenos, habitações e outros bens de investimento).
A dívida, com juros a crescer nos próximos anos, das obras não essenciais muitas vezes contestadas pelo movimento ambientalista apelidado de inimigo do desenvolvimento pelos que prometiam o paraíso na Terra através de Alqueva (mais 11% da verbas do PRODER para afundar neste lago), auto-estradas para desencravar o interior (encravado também pelo desvio dos 11% das verbas do PRODER gastas em Alqueva), Pólis e outras coisas.
Discussões sobre o excesso de construção na Matinha e o destino dos hospitais de Lisboa, com o Estado central a pedinchar 9,5 hectares de terreno às autarquias, como se a localização de um novo hospital fosse uma questão de disponibilidade de terrenos em abstracto e não de necessidade de pessoas concretas.
O pior ano da procura na aviação comercial em mais de cinquenta anos, que não levanta dúvidas aos que se recusam a discutir a proposta de manter a Portela e ir crescendo noutros lados à medida das necessidades, como há muito propõe a generalidade do movimento ambientalista, porque o futuro só será risonho com mais uma obra fundamental e estruturante. Provavelmente porque isso pode não ser do interesse da TAP e o Estado precisa do dinheiro da sua privatização, em mais uma demonstração da captura do Estado pelos interesses sectoriais.
A empresa que fazia os despejos que cortaram a CREL por semanas e que ao mesmo tempo construía e pagava uma estrada para a Câmara Municipal da Amadora (a quem com certeza falta o dinheiro para fazer as estradas necessárias nos sítios adequados).
Mas o que verdadeiramente me arrumou foi ver o gráfico que reproduzo acima e ver como os efémeros ocupantes do poder negociaram as concessões das estradas de forma a que até 2013 as contas sejam baixinhas e simpáticas e depois das eleições que se farão nesse ano quem as ganhar (provavelmente por falta de comparência dos adversários) que resolva a súbita e incompreensível subida das rendas, que liquidarão qualquer hipótese do Estado decidir do destino dos nossos impostos durante muito tempo.
Nessa altura será inútil votar porque não há liberdade para decidir: quem quer que seja o incumbente só terá como alternativas pagar as dívidas das obras dos outros (se tiver com que), independentemente de cumprirem os objectivos para que foram construídas ou abrir falência.
No fundo deixámos de nos preocupar em viver com o que temos e alguma coisa que herdámos (isto é, o que sobrou da riqueza que antes de nós foi criada) e passámos a usar os recursos dos nossos filhos prometendo-lhes que com o que lhes tiramos hoje lhes vamos deixar uma herança fabulosa.
Com este passe de mágica livramo-nos da responsabilidade dos riscos que assumimos, empurrando o risco para os nossos filhos, o que aliás é muito conveniente porque eles não podem protestar.
Escolhi uns versos de Jorge de Sena para título e fui simplesmente verificar como o desespero e a angústia podem apesar de tudo ser tão bonitos. Especialmente quando a música ouvimo-la nós mas o desespero é o dos outros.
Infelizmente parece ser exactamente o contrário do que nos espera daqui a poucos anos.
henrique pereira dos santos

quarta-feira, janeiro 27, 2010

A ambiente e as contas do Estado


A cada novo Orçamento de Estado procura-se uma análise ambiental.
Infelizmente essa análise costuma partir de dois princípios que estão por demonstrar:
  1. o Estado é o grande actor em matéria ambiental;
  2. o carácter ambiental do Estado pode ser aferido pela dimensão e conteúdo das rubricas estritamente ambientais.
Há muito tempo que penso que a abordagem da generalidade do movimento ambientalista ao processo de decisão pública é deficiente.
Comecei a ter mais consciência desse facto na discussão sobre as razões que levaram Cavaco Silva a optar pela ponte do Montijo em detrimento da ponte do Barreiro (uma decisão ambiental e territorialmente completamente errada).
A generalidade do movimento ambientalista protestou contra os interesses obscuros e coisas que tal. Eu procurei argumentar que a questão decorria da falência progressiva do Estado português (na altura não usei esta ideia de forma explícita, mas o que disse na altura é para mim enquadrável neste processo).
O que estava em causa era a necessidade que o Governo sentia de fazer a obra, mas ao mesmo tempo não agravar o défice, razão pela qual aquela ponte foi a primeira feita em project finance (que agora se identifica melhor como parcerias público privadas). Nesse tipo de projectos o risco é uma questão central e a certeza (técnica e de tráfego) associada à construção da ponte no Montijo (exclusivamente rodoviária) era muito maior que em relação à ponte (rodo-ferroviária) do Barreiro.
Mais tarde tentei por diversas vezes influenciar posições ambientalistas sobre projectos, nomeadamente de estradas, por via da discussão da sua fundamentação económica (incluindo as delirantes previsões de tráfego em que muitas se baseiam).
E repetidamente tenho chamado a atenção para o facto da opção por parcerias publico privadas depender cada vez menos do value for money que da necessidade política de obra sem agravamento do défice (na realidade só se justifica fazer parcerias publico privadas quando a eficiência da gestão privada de um projecto é superior ao custo suplementar do crédito, por via do risco menor do Estado, da remuneração dos capitais e por aí fora. Para isso acontecer todo o risco tem de estar do lado do privado porque é esse risco que o leva a ser o mais eficiente possível na aplicação dos recursos).
Ora o que tem acontecido é que nós fazemos parcerias publico privadas por razões políticas e orçamentais, sem que daí resulte outra coisa que não seja o aumento da capacidade de fazer obra (uma questão politicamente importante) porque atiramos com o pagamento para as calendas (quem vier atrás que apague a luz).
Não se pense que este processo não tem efeitos reais na nossa capacidade de decidir sobre a qualidade do nosso quotidiano.
Só para dar um exemplo, o garrote do endividamento que liquida toda a liberdade de escolha no investimento público, traduz-se no facto do Estado prescindir de usar os seus bens imobiliários para garantir qualidade do espaço urbano, transformando-os no que a cidade precisa, para, pelo contrário, passar a patacos, os quartéis nas melhores localizações, os hospitais que abandona, as escolas de que não precisa, as lisnaves, as siderurgias, as cufs que tem nas mãos.
A fraude do Pólis, um programa de especulação urbana disfarçado de qualificação ambiental é, desse ponto de vista, paradigmático.
Por isso o Estado se entretém a vender licença, isto é, autorizações em sítios e circunstâncias que não o aconselhariam, com o argumento do desenvolvimento económico.
Desse ponto de vista, este Orçamento do Estado é tenebroso para a política ambiental do país, mesmo que tenha benefícios fiscais para os vidros duplos e para o isolamento dos telhados, que é bom, sem dúvida, mas é muito menos que dar um chouriço em troca de uma vara de porcos inteira.
A dívida do Estado é a maior ameaça ambiental que o país tem.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, janeiro 21, 2010

A avó do Eduardo


Neste post, Eduardo F. fez um comentário muito interessante:
"E não há dúvida que o pão que a minha avó materna fazia, com o trigo que ela ajudava a semear, na terra previamente arada com a ajuda do macho em terra de sequeiro e que ela própria depois ceifava, pão cuja massa ela mesma amassava à luz da lamparina de azeite, no forno de lenha que ela própria apanhava, era incomparavelmente melhor que qualquer sucedâneo hoje existente.Os seus netos adoravam o pão que fazia. Eu era um deles. Era, não haja dúvidas, um pão ambientalmente sustentável.Tenho, naturalmente, uma nostalgia especial por aquele pão (e filhó, e folar!) - oh, como gostaria de comer um bocado agora mesmo! -, mas ainda bem que aos meus pais e à minha geração não coube sorte igual à da minha avó. Tudo farei para que o mesmo continue a acontecer aos meus filhos."
O primeiro comentário é de que é muito interessante esta ideia maniqueísta de que temos de optar pelo que existe agora ou pelo que existiu antes. Nem por uma vez Eduardo F. parece vislumbrar duas hipóteses alternativas a estas: o que existe hoje ser impossível de manter; o que virá amanhã de diferente poder não ir no sentido do que já existiu. Ou dito de outra forma: o futuro é mesmo incerto e a única certeza é a de que não será apenas a projecção do passado.
O segundo aspecto interessante é a ideia de que a miséria (ou, sendo menos radical, a frugalidade) é sempre sustentável. Nada de mais incerto. Tudo se poderia passar exactamente como o descrito e o passado ter sido insustentável, bastando para isso que a lavoura fosse feita nos sítios errados, com as técnicas erradas, que o consumo de lenha estivesse acima da capacidade de reposição natural (situação frequente em muitos países pobres e que, a espaços, terá acontecido em algumas zonas de Portugal no tempo da avó do Eduardo), etc..
Terceiro e mais interessante: a avó do Eduardo só podia competir no mercado pelo preço, porque ninguém valorizava o que resultava do seu esforço, mas hoje seria possível que Eduardo estivesse disposto a pagar a diferenciação do produto, remunerando de forma totalmente diferente o trabalho de quem hoje esteja disposto a fazer de forma diferente. Sim, é um nicho de mercado muito pequeno, mas para o produtor que não pode competir pelo preço porque as suas condições naturais (ou sociais, mas apesar de tudo estas podem resolver-se de outra maneira) não lhe permitem ter elevadas produtividades, ter o Eduardo disposto a pagar a elevada diferenciação pode ser a diferença entre persistir ou desistir (off topic, desistir nas nossas condições não significa parar, significa evoluir de forma diferente, por exemplo, com um padrão de fogo socialmente muito mais complicado).
Quarto aspecto interessante: no longo prazo o preço da energia tenderá a subir. Isso vai implicar a reformulação da economia, beneficiando a produção que incorpora menos energia e prejudicando a que incorpora mais energia. Significa isto que vamos todos retornar ao modelo de produção da avó do Eduardo? De maneira nenhuma, hoje sabemos mais do que sabíamos sobre como produzir diminuindo a intensidade energética (os romanos já conheciam o moinho hidráulico mas nunca o usaram de forma extensa porque o trabalho escravo era um entrave à sua expansão, que só se deu na Idade Média quando a escassez de braços para a produção criou as condições para integrar totalmente esta inovação no processo produtivo).
Sendo assim, o que resultará desse processo?
O futuro.
Mesmo que algumas pessoas queiram ficar agarradas a um passado de grandezas reais e imaginárias que se tornaram entretanto impossiveis de sustentar.
Há tantos exemplos na história sobre o futuro dos reaccionários (sem juízos de valor, reaccionários no sentido etimológico, os que reagem à mudança).
henrique pereira dos santos

quarta-feira, janeiro 20, 2010

Rolhas

Chegou ao meu email esta carta de um produtor florestal ainda sobre a história das rolhas e tampas de rosca no vinho.
Achei que valia a pena retomar o assunto enquanto espero uma resposta de Miguel Champalimaud à carta que lhe escrevi.
henrique pereira dos santos

"Pela Felipa Arantes Pedroso que é uma amiga comum recebi um texto redigido pelo Miguel Champalimaud sobre Screw Top / Rolhas de Cortiça / Quinta do Cottô, que defende algumas posições técnicas assumidas pela casa vinícola Montez Champalimaud a nível da adopção de vedantes para os seus vinhos. Pareceu-me contudo a mim, essencialmente pelo tipo de argumentação empregue, que o texto acima de tudo demonstra muito mais uma curiosa forma de pensar e estar na vida da pessoa física em questão.
Pede o Miguel Champalimaud debate, respostas e comentários para animar o País mas, será que o que o subscritor do documento pretende não é tão-somente polémica e propaganda grátis que o ajudem a escoar o seu produto que, pelo que se diz, tem vindo a ter uma significativa queda nas suas vendas tanto no mercado Nacional como no Internacional?
Como entretanto ninguém lhe respondeu apesar dos seus apelos, o que eventualmente seria o mais sensato a fazer-se, achei por bem ser eu a dizer algumas coisas para que as pessoas, de uma maneira geral, não ficassem com uma única visão da questão, que ainda por cima na versão Miguel Champalimaud, no meu ponto de vista, se apresenta incompleta, distorcida, tendenciosa e desactualizada.
Mesmo para quem possa defender que “à excepção da honra, tudo se vende” não será possível negar que, sem verdade, a honra sai sempre menorizada; e a discussão sobre a cortiça precisa de mais verdade.
Assim, vamos lá:
Em primeiro lugar gostaria de dizer, para aqueles que não me conhecem, que sou Português, tenho mais de 50 anos, sou Produtor Florestal (cortiça inclusive), pertenço a uma família que há 6 gerações está neste negócio e que me considero razoavelmente informado sobre a questão que o MC levanta. Nunca organizei, apoiei ou participei em qualquer boicote organizado á compra de vinhos com tampas de rosca de alumínio mas entendo perfeitamente todos aqueles que o façam. Faço-o particularmente e pelo que sei, muitos outros (e cada vez mais), sem estarem engajados em nenhum movimento organizado, também o fazem.
A razão porque o faço? Simples. Por que carga de água iria privilegiar um produto sem fronteira, poluidor, que não traz nenhuma riqueza a Portugal e aos Portugueses e que ainda por cima corta os dedos ao ser utilizado quando, em Portugal, existe um produto que faz melhor a sua função, é natural, reciclável, amigo do ambiente e que gera uma riqueza enorme para o meu País. Só se fosse doido.
Em segundo lugar é importante que seja também dito que na sua missiva e em alguns pontos (poucos) o MC tem razão. Dentro destes destaco a sua menção á passividade e mesmo irresponsabilidade dos produtores de cortiça que pelo seu individualismo nunca quiseram assumir a sua cota parte na defesa do sector em que estão inseridos. Mas mesmo com essa atitude Portugal graças ao Grupo Amorim (e é bom que se diga isso) é líder mundial neste sector e se eventualmente as repartições dos proveitos e das responsabilidades desta situação podem ser questionáveis não é menos verdade que por exactamente existir essa situação os próximos anos estão garantidos para toda a fileira da cortiça. É essa a situação também nos vinhos da casa vinícola Montez Champalimaud? Espero que sim sinceramente pois não desejo gratuitamente mal a ninguém e muito menos a um Produtor de vinhos Português.
O MC para justificar as suas decisões aponta as suas baterias ao “bando” com especial ênfase no problema do TCA/sabor a rolha.
Começava então exactamente por ai.
A- Facto número 1: Tem a ver com o crítico de vinhos número 1: Robert Parker.
MC, que diz ser “a favor da modernidade”, poderia ter lido as últimas declarações de R Parker no seu blog, uma forma moderna de obter informação actualizada. Assim, em vez de cometer o erro de repetir afirmações feitas em 2004, poderia ter acesso às declarações do mês passado em que Robert Parker diz que “the tiny percentage of corked bottles (TCA) confirms what I have been seeing for the last 3-4 years...that industry has awakened following the decline in cork quality…less then 1% of corked bottles”. As palavras de Robert Parker, na primeira pessoa, estão disponíveis para o mundo moderno em:
http://dat.erobertparker.com/bboard/showthread.php?t=209945.
Caso as opiniões de Robert Parker deixem, a partir de agora, de ser uma referência útil para o Miguel Champalimaud, afirmações semelhantes também têm sido proferidas por pessoas tão relevantes para o vinho como Stephen Spurrier, Dr Christian Butzke, Dr Jamie Goode, David Denton e, pasme-se, o próprio Australian Wine Research Institute. Tenho a certeza que o MC por mais que procure não os encontrará numa lista de “gente da indústria corticeira” ou numa lista de”gente da Pátria”; mas, para o MC, parece que a verdade não se deve intrometer no meio de um mau argumento. É pena.
B- Facto número 2 tem a ver com a opinião de MC que elementos do processo produtivo de vedantes para vinho serão quimicamente instáveis ou inapropriados para o seu contacto com produtos alimentares. Podemos preferir ignorar o parecer favorável da Food and Drug Administration dos Estados Unidos sobre estes produtos usados pela cortiça. Mas isso não implicaria apenas escamotear o parecer de uma autoridade como a FDA; seria invalidar toda a indústria farmacêutica que o próprio MC, na sua carta, parece reter como paradigma. Mas talvez não se trate aqui de um caso de incoerência. De facto, tendo em conta as inúmeras questões médicas recentemente levantadas sobre componentes plásticos, também usados nos vedantes de rosca dos vinhos Quinta do Cottô, talvez valha a pena consultar o que tem sido escrito por meios de informação como Beverage Daily que em:
http://www.beveragedaily.com/Publications/Food-Beverage-Nutrition/FoodProductionDaily.com/Quality-Safety/BPA-causes-reproductive-health-defects-at-levels-currently-considered-safe-study/?c=YtUctU%2B%2Fv6ErwLhvSIOGzQ%3D%3D&utm_source=newsletter_daily&utm_medium=email&utm_campaign=Newsletter%2BDaily
dá conta do trabalho da North Carolina State University sobre o possível impacto na saúde pública de ingredientes utilizados em material para contacto com produtos alimentares. Além disso e bem ao estilo da argumentação que o MC utiliza podemos sempre dizer que não precisamos ir tão longe e basta atentar para as manchetes dos jornais e das Tv´s Portuguesas de ontem que noticiaram com grande alarde a interrupção do fornecimento de água a Évora por a mesma conter resíduos exagerados de Alumínio (não é o mesmo material das tampas de rosca do MC?) e que é muitíssimo perigoso para a saúde pública.
C- O terceiro facto prende-se com a “ideia” do MC que screwcaps significam modernidade, que a sociedade e as caves empobrecem por causa da cortiça e que as rolhas de cortiça são mais caras que os screwcaps (“esquecendo-se” é claro que ambas os famílias de produtos tem especificações diferentes e dentro desses parâmetros, preços diferentes).
Não haverá, aqui, necessidade de recorrer aos peritos estrangeiros que o MC parece favorecer quando discute a cortiça. Assim, deixemos de lado as opiniões do Forest Stewardship Council, do WWF, da RainForest Alliance e de milhares de cientistas internacionais sobre o significado de um futuro sem sustentabilidade ambiental e social. Imagino ser difícil para o MC que viu todo o sucesso alcançado pelo seu Tio António nos anos 50, 60 e 70 do século passado com enormes e poluentes fábricas siderúrgicas (e não só), começar agora a considerar que não pode haver futuro sem sustentabilidade e equilíbrio ambiental. É bom que o MC reconheça que todo o sucesso alcançado pelo seu Tio não foi pelo tipo de fábricas e produtos que teve e sim por ter sido um homem extremamente inteligente, um visionário e um enorme empreendedor e é bom não confundir o tipo de polémica que ele criou com este tipo de polémica.
Talvez não seja necessário relembrar que a fabricação de alumínio, como aquele usado nos vedantes artificiais dos vinhos do MC, constitui o processo industrial que mais energia consome em todo o mundo e que, por exemplo, o Governo da Noruega boicota as acções da maior empresa produtora de screwcaps por esta violar os princípios éticos de investimento do maior fundo soberano da Europa. Mas podemos preferir ler o artigo da Bloomberg News sobre o impacto de outra empresa de alumínio na floresta tropical da Amazónia e perguntar que tipo de modernidade seria criada se todos seguíssemos as “ideias” de MC. Exercício assustador mas fácil se consultarmos:
http://www.bloomberg.com/news/marketsmag/mm_0909_story3.html
D- Quanto à “ideia” de M Champalimaud que a cortiça pode contribuir para o empobrecimento da sociedade e da indústria do vinho, por tão manifestamente inane, valerá a pena analisar alguns factos que, por tão óbvios, imploram a questão: Têm noção o MC do peso do sector da cortiça no PIB Nacional? Tem noção o MC do valor das exportações anuais Portuguesas do sector da cortiça? Tem noção o MC do valor que o Estado Português arrecada em Impostos com as actividades ligadas á cortiça? Tem noção o MC da quantidade de empregos directos e indirectos que estão ligados a este sector? Sabe o MC que um dos trabalhos agrícolas mais bem pagos do mundo, pela sua especialização, existe em Portugal, exactamente na extracção da cortiça do Sobreiro? Sabe o MC que, à medição de riqueza monetária convêm também somar a riqueza derivada de uma biodiversidade única no mundo? Sabe o MC que sem sobreiros o problema da desertificação não deixaria o país mais rico? Sabe porventura o MC que os preços médios de vinho são mais altos nas garrafas vedadas com cortiça natural? E sabe também o MC que os preços absolutos mais altos do mundo são alcançados por garrafas que têm rolha de cortiça?
Mas afinal o que é que sabe o MC? Será que a sugestão dele é que toda esta riqueza criada em Portugal seja abandonada e entregue nas mãos de uma multinacional do Alumínio que hoje está aqui e amanha noutro qualquer lugar do mundo em troca de subsídios e de mão-de-obra barata?
E- Exemplo óbvio é a série de 21 questões colocadas na carta de M Champalimaud e, das quais, gostaria de destacar algumas.
- “a água mineral (…) há muito deixou de usar cortiça”. Por acaso, a água mineral mais cara do mundo até usa cortiça. Inovadora, moderna, bom gosto? Não sei, mas decidam vendo o produto e o preço (ah, essa questão 2.15…) em http://www.blingh2o.com/
- “ a cerveja há muito que deixou de usar cortiça (…).” Não só se vendem milhões de rolhas todos os anos para cerveja, como este mês uma marca portuguesa de cerveja lançou um produto com rolha de cortiça. E, a propósito, a cerveja mais cara do mundo também usa rolha de cortiça. Denominada Vintage Nº2, custa 250 euros a garrafa e é produzida pela Carlsberg. Empobrecedora, a cortiça? Só se comprar toda a produção desta cerveja ao preço de retalho….
- “(…) 75% das mulheres (…) têm dificuldade em abrir uma garrafa de vinho usando um saca-rolhas”. Com este tipo de afirmações sexistas e misóginas, não admira que MC se refira à “gente da retaliação e do boicote”. E a grande maioria dessa “gente” devem ser as mulheres da “Pátria” que acham que este tipo de atitudes não é “a favor da modernidade”.
Pergunto eu: E que tal incluir o numero crescente de queixas apresentadas por cortes nas mãos provenientes exactamente das folhas de alumínio afiadas de que é feito a tampa de rosca?
- “Porque é que na indústria da construção não se usa (sic) em Portugal e no mundo, a cortiça como isolante?” Eu uso e sei de outros que usam (ex: cadeia mundial de lojas Ghant) e se os meios de informação nacionais dão eco do reconhecimento do Museu Guggenheim em relação à utilização da cortiça como material de construção, assume-se que o MC é daqueles que herdou uma televisão e esta permanece (ah, essa questão 2.19…) dentro de um móvel que está sempre fechado?
Se Portugal, todos os anos, fabrica e exporta milhões e milhões de euros de material para construção em cortiça e um líder do tecido empresarial nacional nunca ouviu falar desse facto, sugiro vivamente que marque uma reunião com o Instituto Nacional de Estatística?
- “Quando vai comprar uma garrafa de vinho fá-lo na expectativa de comer a rolha?” Aplicando o mesmo raciocínio ao facto de o vinho também vir dentro de uma garrafa de vidro, poderemos deduzir que o próximo Grande Escolha irá adoptar uma lata de alumínio tipo Coca-Cola, com “easy-open” e tudo. Boa, vai com certeza ser um sucesso de vendas.
Pergunta-se ainda ao MC se quando se compra o vinho tem-se a expectativa que ele esteja deficientemente selado? Ou esteja oxidado? Ou mesmo se têm a expectativa de cortar os dedos no processo da abertura da garrafa? E o produtor de vinho terá a expectativa de que as suas garrafas vão verter, que o vinho vai ficar oxidado e que vai cortar os dedos dos seus clientes?
É que já muitas vezes aconteceu e foi amplamente divulgado (como ao “PORCO” do Francis Ford Coppola; http://www.bloomberg.com/apps/news?pid=email_en&sid=aMtOOCYDuqeU) mas acredito que este tipo de argumentos não interessa ao MC trazer para aqui.
- “um produtor paga mais dinheiro por uma rolha de qualidade do que recebe pela venda (…). Alguns dos produtores de vinho com mais êxito no mundo usam rolhas de nova geração com custos semelhantes ao de um screwcap. Nobilo, marca da maior empresa de vinhos do mundo, é o vinho branco neozelandês mais vendido nos EUA; há alguns meses mudou de screwcap para cortiça, como reportado pela britânica Decanter. Como não se chega a número 1 de nada tomando decisões operacionalmente ineficazes e financeiramente ineficientes, a Constellation não o teria feito se isso significasse perda de competitividade ou não fosse um factor de diferenciação positivo.
Preocupa-me de sobremaneira este ponto da dissertação do MC pois os seus argumentos parecem indicar que acredita piamente que mais de 90% dos produtores de vinho engarrafados (e entre eles, sem duvida, os produtores dos considerados melhores vinhos do mundo) não fazem a menor ideia de como é que se deve vedar as suas garrafas de vinho. Sugere o MC que ninguém sabe o que é que está a fazer e que só ele é que sabe? Preocupante.
Finalmente, sendo eu também daqueles que acreditam que “recusar o progresso científico de nada serve” gostaria de terminar chamando a atenção de M Champalimaud para o que a ciência, hoje em dia, tem a dizer sobre vinhos e vedantes. Tal seria claro se tivesse lido os estudos publicados em 2006, 2007 e 2008 em revistas científicas como o Journal of Agriculture and Food Chemistry dos EUA, que prova que a rolha não é “apenas uma matéria subsidiária” do vinho. A rolha é parte integrante de um processo de ingresso de oxigénio considerado fundamental. Artigos do Dr. Jamie Goode publicados em revistas norte-americanas e britânicas (por exemplo, Harpers; Dezembro 2006, Reino Unido) traduzem a ciência para os amantes do vinho. Mas se 2006 ainda é demasiado perto no tempo, uma leitura sobre as opiniões de Pasteur em 1863 sobre o impacto positivo do oxigénio no vinho terão já, porventura, uma difusão significativa entre o grande público.
Termino lembrando que, para produtores florestais e industriais, pouco relevância tem que algumas caves decidam promover o seu vinho com artifícios publicitários focados não no produto, mas sim na “novidade” do tipo de obturador adoptado. Pensei que o MC tinha dito e acreditava que o vedante era “apenas uma matéria subsidiária”.
Parece-me que o MC apesar de ser um amante da modernidade até aqui está desactualizado pois inúmeras caves australianas já o fazem há anos e, pelas notícias dos últimos dois anos, já ninguém aponta esse mercado vinícola como modelo de negócio a seguir ou exemplo de futuro. As implicações e consequências técnicas dessa decisão são, realmente, discutidas não na praça pública mas em fóruns técnicos especializados. Quanto às implicações junto do consumidor, essa soberana “gente do produto 100% natural”, continua a preferir a cortiça em todos e cada um dos mercados onde se vende vinho. E está disposta a, cada vez mais, valorizar o natural, o orgânico e o genuíno. Nos EUA, mercado fundamental para a nossa economia, o consumo deste tipo de produtos duplicou de 2003 a 2008 e já representa mais de 16 mil milhões de dólares.
Pareceria, pois, não apenas prudente mas também “moderno” tomar decisões baseado no que se sabe hoje e não no que parecia certo há anos atrás.
Respeito intrinsecamente todas as decisões do Miguel Champalimaud nas suas opções empresariais e desejo-lhe até sucesso, sinceramente é-me indiferente. O que não posso de maneira nenhuma aceitar é que alguém, seja quem for, só porque de alguma maneira se sente na necessidade de justificar ou promover o que quer que seja venha dar conhecimento público de notícias falsas, tendenciosas e desactualizadas, tentando condicionar comportamentos, sobre um produto e um assunto que merece respeito de todos nós porque a todos nós pertence e toca.
Com a esperança de humildemente ter contribuído para o esclarecimento do assunto.
António Posser de Andrade
Produtor Florestal"

segunda-feira, janeiro 18, 2010

Até pode ser que seja verdade...


"Manter-nos vivos, modelar a paisagem, produzir mais, circular, tudo isso são actividades consumidoras de energia, quer no momento inicial em que abrimos uma clareira, uma estrada ou construímos mais uma casa, quer depois, para usar e manter em bom estado o que tende sempre para a ruína e o desaparecimento.
O que distingue a “mão invisível” que conduzia a intervenção tradicional no território da “mão invisível” que conduz a intervenção moderna é a imperfeição da integração do custo energético resultante da actual energia a pataco.
...
Pode parecer estranha a referência a energia a pataco num tempo em que se fala de energia cara, mas essa estranheza apenas resulta do que se usa como referência base. Os preços da energia actual, mesmo com as suas grandes oscilações, são ainda incomparavelmente mais baixos que no tempo em que 30 000 homens abriam em onze anos um canal de drenagem na Roma imperial."
henrique pereira dos santos

sábado, janeiro 16, 2010

Malthus e as alterações climáticas


Sem grande pretensão de rigor eu diria que o movimento ambientalista tem três grandes linhas ideológicas:
as dos pais de yellowstone, desenvolvidas por outros até à deep ecology, isto é, uma linha ideológica de comunhão com a natureza, independentemente da sua utilidade para o homem;
as dos filhos de Rachel Carson, isto é, a linha ideológica que resulta da defesa da saúde (estendida também à saúde dos sistemas naturais) em função de agressões concretas, como poluentes, reduções de habitats, perseguição directa de espécies;
e as dos malthusianos, nos quais mais ou menos me incluo, isto é, dos que intuem que existem limites para o crescimento e para o uso de recursos não renováveis e portanto pretendem governar a expectativa de escassez antes que a escassez nos governe a nós.
Como está explícito neste post, esta perspectiva malthusiana tem uma dificuldade de base: é que a expectativa de escassez altera o uso dos recursos e portanto tende a antecipar economicamente a escassez, evitando-a.
As correntes ambientalistas mais alarmistas são aquelas que repetem o erro de Malthus: projectam no futuro tendências do passado, sem ter em atenção que essas tendências provocam alterações de trajectória que invalidam a sua simples extrapolação linear, e é por isso provavel que os piores cenários nunca se verifiquem.
No fundo estas tendências mais alarmistas esquecem Camões "outra mudança faz de mor espanto/ que não se muda já como soía".
Tradicionalmente os optimistas da economia apontam para este erro de Malthus para invalidar a ideia de que existe um limite, chamando a atenção para este fenómeno de deslocação do limite em função de novos desenvolvimentos não antecipáveis num determinado momento, como é o caso do novo avanço tecnológico que dispensou a tracção das carroças por cavalos.
O debate das alterações climáticas tem-me mostrado uma coisa curiosa: é ver uma quantidade razoável destes optimistas do futuro desconhecido a usarem exactamente a mesma lógica de Malthus, mas agora em benefício da defesa do modelo de economia que conhecem.
Isto é, quando se apela a uma economia menos assente no carbono, as projecções do futuro de quem se opõe as estas restrições, partem do princípio de que tudo se manteria igual, excepto a restrição de carbono, esquecendo a força de transformação económica que, provavelmente, nos levaria para uma economia que não é nem a que conhecemos, nem a que conseguimos vislumbrar a partir da simples projecção do que seria esta economia com menos carbono.
E por isso os cenários catastróficos de pobreza que alguns traçam a partir das restrições resultantes da diminuição da emissão de gases com efeito de estufa podem estar tão errados como os montes de excrementos de cavalo previstos por Malthus.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, janeiro 14, 2010

Alimentação e sustentabilidade



A relação entre alimentação e a sustentabilidade é tão forte como a da energia. Aliás nem seria de esperar outra coisa sendo a alimentação apenas um detalhe particular da questão da energia.
Esta é uma das áreas que mais me interessam actualmente, desenvolvi para a ATN um programa em parceria com o Chef António Alexandre exactamente chamado "O gosto da biodiversidade" e que espero que tenha realizações concretas dentro de relativamente pouco tempo.
Lembrei-me disto quando ontem vinha para casa, de metro, e resolvi passar por um supermercado. Havia uns camarões em promoção e resolvi comprar um quarto de quilo (sim, um quarto de quilo) porque sabia que tinha um arroz branco de sobra com o qual poderia facilmente fazer o almoço das minhas três meninas que saem para o trabalho de manhã, acrescentando um bocado de tomate, uns legumes e dando destino a um parte da mayonaise que tinha feito (há uns anos, e garanto que a história é verdadeira, ouvi duas miúdas já meias adolescentes a conversar num supermercado onde tinham ido comprar mayonaise. E uma dizia para a outra que lhe tinham dito que se podia fazer mayonaise em casa, mas a outra recusava-se a acreditar).
Claro que da dita salada de camarão me sobraram umas cabeças e cascas, não muitas é certo. Fervi-as algum tempo numa pouca de água, deixei reduzir para um terço, e o resultado está ali à espera que logo faça um molho branco onde substituirei parte do leite por esta água de camarão coada num chinês, para por por cima de uma base de puré em que vou substituir a manteiga por azeite, pôr um bocado de pescada cozida e desfeita por cima (duas ou três postas vão dar seguramente para umas dez refeições, ou melhor, para refeições para dez pessoas) e o dito molho que espero que retenha um bocado do gosto do camarão, tudo no forno (provavelmente um bocado de queijo por cima a gratinar).
Se eu fosse bom cozinheiro poderia depois discutir que tal o resultado, mas como não sou escrevo este post só para dizer que, por exemplo, reduzir o consumo de carne e peixe, aproveitar os restos, usar azeite em vez de manteiga, usar menos alimentos processados não me parece um esforço brutal e uma ameaça ao nosso modo de vida.
E no entanto é isto que se discute quando se discutem alterações climáticas e as opções que temos disponiveis para correr menos riscos.
Não se trata de definir o que cada um deve ou não comer, trata-se de ter consciência dos efeitos das opções que fazemos, livre e individualmente.
henrique pereira dos santos

terça-feira, janeiro 12, 2010

Dizem que o problema é a falta de recursos


Recebi hoje a seguinte comunicação da Associação de Pais da Escola de um dos meus filhos:
"As aulas na Escola dos nossos Filhos foram interrompidas pelo dia de hoje por determinação da Direcção. A Associação de Pais foi de imediato contactada pela Direcção, que nos quis explicar o sucedido.
Com o agravamento do estado do tempo e com as fortes chuvas desta manhã começou a entrar água pelas janelas de várias salas de aula. Nos patamares e escadas, que não têm parede estanque para a rua, mas sim uma divisória em rede metálica (total ou parcialmente), a chuva entrou e molhou abundantemente áreas de passagem, tornando difícil e mesmo perigosa a circulação em várias áreas do edifício.
A Direcção da Escola, os Funcionários e Professores tomaram todos os cuidados para que os Alunos, ao saírem das salas de aula, circulassem com a segurança possível nestas circunstâncias, contudo as condições levaram ... a tomar a decisão de encerrar as aulas pelo dia de hoje. A Escola e os vários serviços continuam abertos.
A Parque Escolar está neste momento da Escola tomando medidas para a resolução do problema - esperamos que em definitivo! - pelo que amanhã as aulas funcionam normalmente."
Não se pense que a escola em causa é uma escola velha com grandes problemas de manutenção, não, é uma destas novas que foram objecto de investimentos substanciais na sua total remodelação.
Já na lista de discussão associada a este blog se discutiram em algumas alturas as opções de investimento deste programa de remodelação de escolas, seja pelo aparentemente desnecessário abate de árvores, seja porque esta remodelação das escolas não foi aproveitada para introduzir uma sólida lógica de eficiência energética e, inclusivamente, em alguns casos, criaram-se situações onde só é possível funcionar com ar condicionado, para cuja operação e manutenção falta depois dinheiro às escolas.
Tenho estado várias vezes para fazer aqui posts sobre o facto de sempre que caem três pingos de água lá virem as notícias de inundações, nomeadamente no Marquês de Pombal, que aqui há tempos esteve interdito ao trânsito uma hora por essa razão. E já agora, do Público de hoje: "Chegou-se a pensar que o rio Douro tinha galgado as margens mas, afinal, a inundação da marginal de Vila Nova de Gaia foi provocada pela chuva intensa que entupiu algumas sarjetas, segundo explicou ao PÚBLICO Artur Mendes, dos bombeiros sapadores da zona.".
Santa paciência, a limitação de emissões em Portugal pode sair muito caro, mas tenho as maiores dúvidas que saia mais caro que a falta de juízo e inteligência no uso dos dinheiros públicos.
Senhores Presidentes de Câmara, Senhor Primeiro Ministro, por favor, deixem lá os grandes projectos, a marca da vossa efémera passagem pelo poder e resolvam os problemas comezinhos do quotidiano das pessoas, começando por lhes permitir que vos expliquem quais são os problemas que precisam de ser resolvidos, como por exemplo, a limpeza das sargetas, a manutenção das caleiras e coisas assim.
E que tal aproveitar a recuperação do parque escolar e hospitalar para os pôr a precisar de consumir menos energia para um maior grau de conforto? E perguntar aos professores o que era bom resolver em cada escola?
Talvez seja preciso um bocadinho mais de dinheiro, mas verdadeiramente não é esse o problema: a questão é que temos sido muito económicos no uso da inteligência.
E é com certeza um problema colectivo: como é que alguém se lembra de projectar, aprovar o projecto, lançar a obra, construir e usar uma escola que não conta com dias de chuva intensa?
henrique pereira dos santos

quinta-feira, janeiro 07, 2010

Perplexidades de um ignorante

Um dia destes à conversa com João César das Neves vi este gráfico que representa o preço do petróleo a preços de 2008 (ou seja, limpo do efeito da inflação).
Acho o gráfico muito interessante, acho interessante que João César das Neves (se bem interpreto a conversa) não veja no gráfico qualquer aumento do preço do petróleo, apenas volatilidade (eu não sei contrapôr, a volatilidade é indiscutível, se desde o contra-choque petrolífero de 1986 a tendência é de estabilidade volátil ou se é de aumento suave acho que não se pode dizer com segurança a partir deste gráfico).
Mas este gráfico relaciona-se com outra ideia muito difundida nos meios nuclearistas, que em grande medida coincidem com os opositores das renováveis (há uns poucos que não são nem contra nem a favor de renováveis, limitam-se a discutir a racionalidade económica de as tratar excepcionalmente no tarifário): a energia cara tem custos económicos insuportáveis.
O exemplo que é dado para o efeito negativo das renováveis é a Dinamarca, que tem o custo de produção mais alto da Europa (dizem, não vou verificar).
E daí? Não é a Dinamarca muito mais rica que muitos outros que produzem electricidade a preços mais baixos?
Alguém conhece um estudo concreto que relacione o custo de produção da electricidade num país com o seu desempenho económico?
henrique pereira dos santos

sábado, janeiro 02, 2010

O DDT, a malária e os adolescentes inconsequentes


A propósito das alterações climáticas, um comentador anónimo (ou se se preferir, um comentador que usa um pseudónimo) resolveu fazer um violento ataque a Rachel Carson e à irresponsabilidade dos ambientalistas, que acusa de criminosos.
O nível da argumentação e a violência do ataque merecem resposta, sobretudo porque pessoas bem intencionadas mas sem tempo para verificar o que se sabe sobre o assunto podem ficar seduzidas pela segurança das afirmações feitas, confundido preconceitos com factos.
"Objectivamente a interdição de uso do DDT matou +50 milhões de pessoas" diz-se, com absoluta segurança. (ver aqui a perfeita desmontagem desta estupidez)
Não sei qual é a fonte para esta afirmação tão taxativa, nem sei como se faz a contabilidade, sobretudo sabendo que o DDT foi proibido em muitos países mas continuou a ser usado em muitos outros, em especial naqueles onde a malária (ou paludismo) é endémica e ataca mais fortemente, até porque as restrições ao seu uso sempre incluíram excepções para o controlo de doenças.
Nem sei como se chega a conclusões destas sabendo que um dos problemas principais do uso de pesticidas como o DDT é a bioacumulação ao longo da cadeia trófica, que tem efeitos especialmente graves nos predadores, muitos deles predadores dos mosquitos veículos de malária.
Uma coisa é discutir seriamente qual é a utilidade do DDT no controlo da malária, discutir os custos e benefícios do seu uso apesar dos efeitos secundários, discutir os mecanismos alternativos de controlo da malária, discutir o desenvolvimento de resistências ao DDT nas populações de mosquitos e por aí fora (um link equilibrado para a discussão).
Outra coisa é agir como um adolescente inconsequente, esquecer os efeitos de longo prazo do DTT, considerar que é possível erradicar a malária matando todas as populações de mosquitos que lhe servem de veículo.
Esta ideia de interferir nas cadeias tróficas de forma drástica tem sido trágica e ao longo da história causou desastres ambientais de que resultaram milhões de mortes, como no mais que conhecido caso chinês com o controlo dos pássaros para aumentar as culturas, ou, em muito menor escala, na secagem das zonas húmidas, quer para as reconverter para a agricultura, quer exactamente para diminuir as sezões (outro dos nomes dados ao paludismo e malária).
Querer resolver problemas complexos, num mundo complexo, com ideias simples é muitas vezes desastroso.
Acusar de criminoso quem simplesmente se limita a pôr em cima da mesa as limitações dessas ideias simples, querendo levar essas pessoas a tribunal em vez de demonstrar onde estão erradas é infame e ultrapassa o direito à asneira de que todos somos detentores.
henrique pereira dos santos
Adenda: Deixei de responder ao comentarista que fez este ataque de baixo nível sobre o DDT quando percebi que as suas referências sobre as alterações climáticas eram risiveis, sendo o seu valor inversamente proporcional à arrogância das suas certezas e à agressividade face a quem se limita a pensar de forma diferente. Para se perceber melhor a indignação que me fez escrever este post aconselho a leitura integral do artigo da Wikipedia em inglês sobre o DDT, com dezenas de referências bibliográficas, discutindo equilibradamente a sua relação com o controlo da malária, bem como todo o processo que levou à proibição do seu uso na agricultura (e nunca foi banido no combate ao vector da malária, ao contrário do que foi afirmado). Este blog preza a liberdade de expressão e o contraditório, mas o que foi dito sobre Rachel Carson e o movimento ambientalista a propósito do DDT é de facto inaceitável, não por ser uma opinião divergente sobre o DDT mas por, à falta de factos, se usar uma mentira evidente com o único objectivo de atacar quem pensa de maneira diferente.

sexta-feira, janeiro 01, 2010

E se o almoço inclui o vinho


Lisboa, 1 de Janeiro de 2010
Caro Miguel Champalimaud,
Li a sua resposta a algumas reacções à campanha sobre as tampas de rosca.
Deixe-me em primeiro lugar dizer que gostei da sua frontalidade e clareza. E espero que possamos manter esse registo onde diferenças são diferenças, ditas de forma clara, sem que, por isso, possam ser entendidas como ataques pessoais.
Na sua classificação de grandes tipos de reacionários (no sentido em que reagiram à campanha, não mais que isso) eu estarei no grupo D. A gente da retaliação e boicote, etc, etc..
Sinto-me mal classificado neste grupo. É que boicote, retaliação e etc., etc., não são a mesma coisa. Eu sou do boicote, no sentido em que não compro vinhos com tampa de rosca, mas não estou a retaliar coisa nenhuma e nem sei o que é etc.,etc..
As razões pelas quais compro ou não os seus vinhos são direitos que tenho enquanto seu potencial cliente. Se não compro porque não gosto do rótulo, ou não gosto do preço, não estou a a retaliar. Se compro porque o vinho é bom, ou porque fico bem visto pela minha namorada, não estou a retaliar os seus concorrentes.
Estou apenas na categoria dos que boicotam tampas de rosca.
E o que gostava era de lhe explicar as minhas razões, sendo que para isso vou primeiro dizer-lhe com o que estou ou não de acordo na sua carta, e depois então passo às minhas razões, porque me parece que transparece na sua carta algum preconceito em relação a alguns grupos dos seus clientes potenciais, como é o meu caso.
É verdade que o meu potencial como seu cliente é pequeno porque não tenho dinheiro para comprar vinhos seus com mais frequência, mas isso é um detalhe que em qualquer altura da vida pode ser alterado.
“Eu, MIGUEL CHAMPALIMAUD, digo:
“Sou a favor da inovação, da qualidade e modernidade do vinho”;”
Penso que é difícil discordar da frase em si, o que acontece é que chamamos inovação, qualidade e modernidade a coisas diferentes, mas veremos se assim é mais para a frente.
“ “sou a favor da verdade achando que chegou a altura de assumirmos, ao nível da indústria-vinícula, o que há mais de 40 anos, por razões óbvias, se usa em todas as universidades e ou centros de investigação vinícola, os screwtops/tampasderosca, único sistema vedante que garante eficazmente o não contágio do vinho que se encontra na garrafa, por produtos aromas e sabores que lhe são estranhos”;”
Vou dar por adquirida esta afirmação que não posso verificar. Tenho lido coisas diferentes, nomeadamente quanto ao comportamento do vinho ao longo do tempo, mas acredito que saberá muito mais que eu sobre isto.
“ “sou a favor da eficácia e produtividade e contra as falácias e os preconceitos que só defendem e servem aqueles que estão instalados à custa do bem-estar e pobreza de terceiros”;”
É também difícil discordar desta frase, o que já é mais difícil é perceber por que razão aqui está, neste contexto. É que, como em todas as mudanças, há ganhadores e perdedores, e portanto usar tampas de rosca ou rolhas de cortiça implicam diferentes ganhadores e perdedores e consequentemente diferentes pobres. Duvido é que um sistema conduza à pobreza para quase todos e outro à riqueza para todos.
“ “numa garrafa de vinho, a rolha é apenas uma matéria subsidiária, um vedante que deveria preservar o vinho que a garrafa contém e nunca arruiná-lo”;”
Sim, isso é absolutamente verdade. O que não é verdade é que a cortiça tenha provado ser um mau vedante até hoje. Tem problemas, com certeza, mas parece-me excessivo dizer que um vedante que tem provado nos últimos duzentos anos (antes disso o seu uso para este efeito é residual) arruina o vinho. Por outro lado as tampas de rosca ainda não passaram o teste do tempo. Mas independentemente dessa discussão, e dando de barato que as coisas são inteiramente como descreve, a discussão sobre os efeitos globais do uso de materiais em qualquer processo produtivo não se esgotam na sua eficácia para esse processo em concreto. Tem um bom exemplo num sector que conhece bem, o dos pesticidas, em que a eficácia da sua aplicação para a resolução de um problema concreto é analisada em confronto com os seus efeitos secundários em aspectos não directamente ligados ao processo produtivo. Espero que esteja aberto a esta discussão, como estão as empresas mais dinâmicas e modernas do mundo.
“ “sou a favor dos ventos da História, recusar o progresso científico e tecnológico de nada serve, nem serviu então àqueles que, no seu tempo, foram a favor da destruição das máquinas a vapor”.”
O problema de entrar com os ventos da história nesta discussão é que só se sabem exactamente quais são e como se comportam esses ventos muito depois dos factos que eles influenciaram. Pelo menos da minha parte a minha recusa em comprar vinho com tampas de rosca não tem nada com a recusa do progresso científico e tecnológico, bem pelo contrário. É exactamente por estar preocupado com um progresso científico e tecnológico orientado para a sustentabilidade que me parece preocupante o retrocesso que me parece constituir o abandono de uso de materiais com fortes impactos positivos na sustentabilidade por soluções que se encaixam num modelo económico assente no esgotamento de recursos não renováveis.
“1.1 A gente da indústria corticeira é a única responsável pelas dificuldades com que se debate a rolha de cortiça e os produtores de cortiça. Ao não investirem há muitos anos na qualidade e fiabilidade do produto e aumentando desmesuradamente os preços das rolhas, abriram espaço aos novos vedantes nomeadamente às screwtops/tampasderosca.”
Estou genericamente de acordo consigo. Mas a questão neste caso não é o que faz a indústria corticeira mas a sua empresa. E a sua empresa prefere optar por uma solução fácil e barata, ainda que com implicações globais negativas, a optar por soluções que têm impactos globais positivos.
“1.4 A gente da retaliação e boicote, não representam mais do que a reacção de um grupo de pessoas com falta de informação e ou a mando e no interesse de terceiros que, na falta de argumentos sólidos para atacarem o moderno sistema dos screwtops/tampade rosca e defenderem o antiquado sistema de rolha de cortiça com o seu elevado deficit de fiabilidade/qualidade e custo 5 a 9 vezes mais elevado que o screwtops/tampaderosca, fazem consciente ou inconscientemente, o jogo de quem, ao abrigo de um quase monopólio e permanente abuso de uma posição dominante, usa e abusa da indústria vinícola nacional e internacional, enriquecendo ilicitamente à custa do empobrecimento daquela.”
Supreende-me que me diga que estou a mando de terceiros ou que sou um ignorante sem sequer me conhecer. Ignorante, aceito, a mando de terceiros parece-me excessivo. Retiremos portanto o processo de intenções e discutamos o que cada um de nós sabe sobre o assunto para ver se avançamos qualquer coisa e, no meu caso, se percebo melhor esta sua afirmação tão taxativa.
O que sei sobre o assunto é que a base dos vedantes sintécticos são materiais não renováveis, com fortes incorporações energéticas que implicam grandes emissões de gases com efeito de estufa. São totalmente dependentes de um recurso relativamente escasso e cujo o preço é extremamente volátil e se estima que possa vir a subir ao longo do tempo (pese embora a incerteza associada à volatilidade dos seus preços). Sobre estas afirmações tem objecções? Precisa de referências bibliográficas? Penso que conseguirmos perceber no que concordamos ou discordamos neste ponto ajudaria a racionalizar a discussão.
A base dos vedantes de cortiça (que, como diz muito bem, tem incorporado outros componentes com cada vez maior importância) é um produto renovável, com baixa incorporação energética (quando falo em incorporação energética estou a falar de combustiveis fósseis, bem entendido, já que a incorporação da energia solar através da fotossíntese é evidentemente relevante), e com uma capacidade de captação de carbono muito apreciável e compensadora de emissões com efeito de estufa.
Acresce que nesta comparação há diferenças substanciais entre as paisagens produzidas a partir da extração de petróleo e alumínio, por exemplo, e as paisagens produzidas a partir da produção de cortiça, sendo as primeiras inóspitas e com balanços negativos de biodiversidade e as segundas, pelo contrário, com um balanço muito positivo de biodiversidade.
Estas são as razões pelas quais boicoto o vinho com tampas de rosca e prefiro a utilização de cortiça (não apenas no vinho, bem entendido, os meus cartões de visita em vez de serem em papel são em cortiça, por exemplo).
Nada me liga ao sector da cortiça, e as minhas razões são as de cima.
Quer discuti-las, procurar ver onde está modernidade e os ventos da história? Por mim estou inteiramente aberto a esta discussão consigo, com a mesma clareza e frontalidade da sua carta que tenho vindo a seguir.
Repare que embora não estando completamente de acordo com alguns dos comentários específicos que se seguem na sua carta (por exemplo, parece-me excessivo chamar mão de obra penosa em casa ao tirar de uma rolha e confesso que já me cortei mais vezes com tampas de rosca do que me magoei a usar bons saca-rolhas) reconheco-lhe razão em muitos deles: o preço, a facilidade no uso, algumas das razões para o abandono da cortiça em muitos usos, etc..
E isso são com certeza dados da questão que precisam de discussão e resolução, estando nós de acordo em relação à antiga passividade da indústria da cortiça face aos problemas do sector, incluindo a forte posição dominante de algumas empresas que as fez perder alguma atenção aos seus clientes.
Tal como me parece que é relevante contar com os 30% do mercado que é sensível aos aspectos ambientais do seu consumo.
Não me parece é que varrer de uma penada para fora da discussão os aspectos de sustentabilidade e biodiversidade seja uma atitude de empresa moderna, inovadora e focada no cliente.
Com os melhores cumprimentos
henrique pereira dos santos
PS Como penso que a discussão assumiu uma forma mais ou menos pública, irei publicar esta carta no blog onde escrevo (a sua carta original já lá está reproduzida). Se quiser usar o nosso blog para também veicular os seus pontos de vista nesta discussão sinta-se nosso convidado e teremos todo o gosto nisso.