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quinta-feira, março 31, 2011

quinta-feira, março 24, 2011

O paraíso natural de Chernobyl

Já por várias vezes tenho referido a extraordinária recuperação natural da zona de exclusão de Chernobyl.
Isso foi até usado num comentário pró-nuclear como sendo a demonstração de que a radiação não é um problema de maior (dentro da linha de argumentação pró-nuclear que pretende apenas reduzir afectação a morte por radiação directa, uma desonestidade imensa).
A recuperação que está a transformar a zona de exclusão de Chernobyl num paraíso para a conservação, sendo um facto e um facto positivo para a conservação, carece de alguns comentários de enquadramento.
O primeiro é o de que recuperação de sistemas e afectação de indivíduos (tal como nos impactos dos eólicos nas aves, tal como a caça, tal como os fogos) são duas coisas totalmente distintas. Os sistemas estão a recuperar do ponto de vista natural ao mesmo tempo que muitos indivíduos têm mal-formações e outros tipos de afectação. Se estas mal-formações ou afectações várias em indivíduos de raposa, lobo, urso ou outra espécie qualquer, são-me iguais ao litro, já a afectação de pessoas não é. Esta é uma distinção essencial.
O segundo comentário prende-se com a tolice de se pretender medir a afectação com base nos dois mortos por exposição directa a radiações muito elevadas num pequeno espaço de tempo. Chernobyl criou cerca de duzentos mil refugiados e destruiu (não no sentido físico, mas no sentido social) quase duzentas comunidades hoje quase desertas (algumas pessoas voltaram, as crianças estão proibidas). Estamos pois longe de poder medir a afectação provocada por Chernobyl às pessoas que comprovadamente morreram por exposição a elevados níveis de radiações num curto espaço de tempo. Este foi o preço da criação do paraíso natural. Dizer que existe um paraíso natural como benefício marginal de um prejuízo maior não pode ser entendido como inexistência ou minimização do prejuízo.
O terceiro comentário é sobre um aspecto em que a argumentação pró-nuclear está cheia de razão: a radiação não cria desertos por centenas de anos, nem pode ser confundida com um processo destrutivo. É um processo transformador, com ganhadores e perdedores. Os sistemas naturais absorvem bem os efeitos da radiação, os indivíduos é que são o problema. Ou mais precisamente, o risco para os indivíduos é que é um problema. É no passo seguinte que a argumentação pró-nuclear perde o pé: pretende reduzir este risco e as suas consequências sociais, a meras questões estatísticas, desvalorizando os indivíduos em concreto (mesmo que estatisticamente irrelevantes) e desvalorizando o medo social de uma ameaça invisível, inodora, incolor de que é difícil alguém defender-se por si só. Esta desvalorização atira sempre este medo para o domínio da irracionalidade, mas tendo, como tem, componentes de irracionalidade, o facto é que é tudo menos irracional.
O quarto comentário é uma evidência: as consequências para o património natural de um acidente como Chernobyl são incomparavelmente mais pequenas que o uso quotidiano que fazemos desse património natural em actividades aparentemente tão pouco impactantes como a agricultura, a exploração florestal e a pastorícia.
Se me perguntarem se no futuro a zona de exclusão de Chernobyl deve voltar ao que foi antes do acidente eu tenderei a dizer que não, que estando os custos da exclusão já saldados, mais vale reter a mais-valia de uma enorme área de não gestão, como tem defendido o Miguel Araújo, inicialmente com a minha oposição, hoje com a minha concordância (divergências existem no modo, tempo e lugar como, mas para aqui isso é irrelevante).
henrique pereira dos santos

quarta-feira, março 23, 2011

Paciência de Santos


A tónica da energia barata como condição de desenvolvimento está presente em vários dos comentários de pessoas pró nuclear aos posts anteriores.
Quando se faz notar que não há relação entre índice de desenvolvimento humano e localização do nuclear, a resposta é que não têm nuclear mas têm petróleo.
Aqui ficam então aqui os três mapas: dos reactores nucleares (o primeiro), dos países que produzem petróleo (o segundo) e do índice de desenvolvimento humano.
Duas notas.
1) Não existe correlação perfeita dos três mapas.
2) Existe uma coincidência entre largas áreas do mundo e áreas de concentração de reactores nucleares (não existindo a coincidência inversa, isto é, de áreas de ocorrência de reactores e áreas mais desenvolvidas). Se me fosse possível ter um índice de desenvolvimento humano para os anos 40 (anterior à emergência da energia nuclear), esse mapa coincidiria em grande parte com as áreas com maiores índices de desenvolvimento actual. Ou seja, a dianteira do processo de desenvolvimento dos países da América do Norte e da Europa (pelo menos desses) é anterior à emergência do nuclear. A haver correlação entre desenvolvimento e localização de reactores nucleares a relação é inversa da que é referida pelas pessoas pró-nuclear: é por serem países desenvolvidos e ricos, fortemente consumidores de energia, que estes países construíram reactores nucleares e não a que se pretende, que são ricos por têm reactores nucleares.
E o que é importante é que na sua enorme maioria, estes países pararam posteriormente essa construção e não pararam o processo de desenvolvimento.
Que a energia barata, globalmente barata, influenciou o processo de desenvolvimento dos últimos cem anos, está toda a gente de acordo.
Penso que também existe um acordo genérico no sentido em que pode haver elevados padrões de desenvolvimento local ou regional não assentes em energia nuclear ou produção de petróleo(olhar bem para o mapa do índice de desenvolvimento e verificar os inúmeros exemplos de países que souberam fazê-lo).
Onde existe divergência é em dois pontos:
a) que essa seja a condição de desenvolvimento nos próximos cem anos;
b) que ainda que seja, o nuclear consiga garantir preços competitivos face às alternativas, sobretudo à medida que é obrigado a internalizar questões que nos anos de ouro desta indústria foram passados para a sociedade (resíduos, descomissionamento, risco financeiro, responsabilidade civil, garantias cada vez maiores de resistência a acontecimentos extremos e por aí fora).
henrique pereira dos santos

terça-feira, março 22, 2011

Cantos de sereia

Tem sido muito curiosa a argumentação dos nuclearistas (uma designação apenas com valor denotativo, sem nenhuma conotação negativa, que qualifica quem defende a energia nuclear).
Essencialmente tem duas linhas, com variações dentro da primeira (a segunda não tem variações porque é um mantra sem qualquer conteúdo):
1) O que mede o risco é o número de mortes;
2) Sem centrais nucleares o desenvolvimento não existe.
Não vou perder tempo com o segundo de tal forma a realidade o desmente (nem o desenvolvimento depende do preço da energia, como o demonstram todos os países miseráveis que têm preços irrisórios de energia e os países ricos com preços elevados da energia; nem o nuclear é claramente mais barato que nenhuma das alternativas, sendo muito mais caro que algumas delas, com a melhoria da eficiência energética à cabeça).
Mas vale a pena levar o raciocínio baseado no número de mortes até ao seu corolário.
Não morreu ninguém em Fukushima directamente atingido pela radiação.
Note-se que este argumento é um argumento curioso que nos permite dizer que se alguém morrer num incêndio num depósito de gasolina não morreu directamente por beber gasolina, mas apenas porque houve um fogo.
É um argumento que tem o seu esplendor nas afirmações recorrentes de que a radiação é uma coisa natural, portanto não é boa nem má.
Conclui-se portanto que o que matou Sócrates (o legítimo, o verdadeiro) não foi a cicuta, que sendo um produto natural de uma planta não pode ser boa nem má, mas a ignorância de que estava a beber um produto natural, numa demonstração do efeito placebo ao contrário.
Como toda a gente sabe, há um conjunto de trabalhadores que lidam com radiações, e um conjunto de edifícios onde se produzem radiações de diferentes tipos, que apenas por estupidez e ignorância gastam rios de dinheiro em especificações técnicas de contenção das radiações e em procedimentos que evitem a exposição excessiva dos trabalhadores às radiações excessivas.
O mais curioso deste argumento é que não tendo morrido ninguém em Fukushima, e sendo esse o principal critério de medição de perigosidade e risco, então não se passou nada em Fukushima, a não ser a demonstração de que a indústria nuclear é tão segura que mesmo nas excepcionais condições que se verificaram, não houve qualquer problema.
No fim de usarem esta argumentação de forma sistemática, pedem-nos que confiemos no rigor da informação transmitida para lhes passarmos umas autorizações para fazer umas centrais, porque o problema do desenvolvimento em Portugal, como toda a gente sabe, é não haver centrais nucleares.
Se seguíssemos o exemplo do Paquistão, da Argentina, da Arménia, da Roménia estaríamos muito mais desenvolvidos, como acontece nestes países que, entre outros, nos deveriam servir de exemplo.
Pelo contrário, como seguimos o exemplo da Áustria, da Austrália, da Nova Zelândia, da Noruega (estes três últimos são o top 3 do índice de desenvolvimento humano, mas toda a gente sabe que esse índice é feito por ferozes militantes da defesa dos passarinhos com o único objectivo de tentar esvaziar a evidência de relação entre energia nuclear e desenvolvimento humano), nunca saíremos da cepa torta como eles.
henrique pereira dos santos

domingo, março 13, 2011

A questão essencial sobre o nuclear

O Gonçalo Elias levanta questões razoáveis e sensatas sobre o preço da energia, a propósito do meu post anterior sobre a energia nuclear.
Mas as questões de preço parecem-me laterais ao problema essencial da energia nuclear que é posto de forma muito clara com o acidente no Japão: os imponderáveis existem.
A questão essencial pode ser posta nestes termos:
Quando foi Chernobil, eram reactores obsoletos, num país em transição e más prácticas. Quando foi Three Mile Islands, foi uma sequência de erros humanos que nunca se repeteriam até porque se tinham aprendido as lições. Agora foi num país que funciona bem, leva a segurança a sério e percebe de tecnologia e gestão.
Simplesmente aconteceu o imponderável.
É certo que pode uma barragem rebentar, podem ser vertidos acidentalmente milhares de litros de efluentes químicos letais, mas tudo isso, por grandes que sejam as consequências, são relativamente contidas no tempo e no espaço.
Ora com a radioactividade não é assim. Se no espaço ainda se pode dizer que é relativamente contido o impacto, já no tempo a coisa é bem mais complicada. Repare-se como os grandes acidentes químicos afectaram milhares de pessoas (e milhares de hectares também, por vezes) mas nada que se assemelhe à área de exclusão, por tempo indefinido, que resulta de Chernobil (aliás fantástica como santuário de conservação da natureza).
Em cerca de cinquenta anos são três os acidentes desta magnitude.
Vale a pena discutir o preço do KW quando do outro lado da balança está um risco de baixíssima probabilidade, é certo, mas com o nível de impacto que poderia ter tido este acidente no Japão?
Eu acho que não.
henrique pereira dos santos
PS evidentemente nem respondo ao argumento de que o risco já existe, portanto tanto faz o número de reactores em funcionamento porque embora em goste de discutir, mesmo ideias ou pontos de vista aparentemente absurdos, há um mínimo de racionalidade que deve estar presente na discussão

sábado, março 12, 2011

E sendo assim...

imagem retirada daqui
E como se contabilizam estes riscos na economia da energia.
Não se trata de discutir os estragos em concreto nesta central, que felizmente parecem afastar-se dos piores cenários, trata-se, isso sim, de discutir se o risco associado compensa os ganhos eventuais no preço da energia.
Por mim mantenho a posição que tenho há muito sobre a energia nuclear: não vale a pena discutir quanto custa, nem se o grau de probabilidade de correr tudo mal é ínfimo.
O efeito possível de um evento de probabilidade a tender para o zero é de tal forma gigantesco que não vejo razão para correr esse risco.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, maio 03, 2010

Já passamos o pico do petróleo, em 2008, alerta Dr. Michael Lardelli


Não podemos mais dar ao luxo de se sentar em redor discutindo se passou ou não o pico da produção de petróleo. Nós não podemos esperar, complacentemente, por sinais dos preços para estimular o desenvolvimento de fontes alternativas de energia, dado que os preços do petróleo vão oscilar descontroladamente. Toda vez que a economia tenta crescer, a procura por petróleo vai exceder a oferta, fazendo com que o preço do petróleo suba drasticamente.

Artigo completo aqui

Entretanto a central nuclear
Cattenom, França registou 4 incidentes em menos de 30 dias

Leitura recomendada

O Pico de (quase) tudo

terça-feira, abril 27, 2010

Pois canté!

Devo estar muito velho.
A enorme maioria das pessoas que conheço e que sabem o significado da expressão que uso no título do post conhecem-na apenas do excelente disco do Grupo de Acção Cultural Vozes na Luta, um dos melhores disco de música portuguesa que conheço (podem dar aqui um salto, sobretudo os mais novos). Entretanto uma notícia de ontem diz que os discos vão ser reeditados em CD. Um grande abraço a quem o fizer, só num país de tontos seria possível estes discos ficarem eternamente proscritos da rádio.
Mas de facto eu ainda ouvi usar a expressão em conversas correntes, da mesma forma que ainda conheci bastante gente que distinguia o ch do x apesar de serem analfabetos que nunca aprenderam a ler nada (Intchada morreu a tua avó, respondiam, quando um urbanita resolvia dizer entchada por ouvir dizer satchola). Hoje penso que já é difícil ouvir usar pois canté e distinguir na fala o ch do x.
Ouço com alguma frequência o dito disco, que me fez lembrar a história da água de Alqueva que o Ecotretas conta para justificar a irracionalidade da bombagem nas barragens.
Foi quando o José Mário Branco, num evidente tom de troça, mas sempre com a qualidade inultrapassável que o caracteriza, canta (a partir de certa altura ajudado pelo coro):
"tanta propaganda na telefonia
a falar da grande crise da energia
com tanto desempregado quem diria
fala o aldrabão
e ri-se o patrão
isto inté que há-de mudar um dia
pois canté!"
Não que eu esteja a chamar aldrabão ao Ecotretas (hesitei em transcrever essa parte) mas pelo mesma lógica de raciocínio do GAC em 1975: como pode haver crise de energia se há tanto desempregado. Ou na versão moderna, para quê fazer eólicas se a água de Alqueva é despejada sem ser turbinada.
Diz o Ecotretas que dois terços da água de Alqueva foi desperdiçada (ver aqui).
Comecemos por uns dados simples:
no primeiro trimestre de 2010 a energia usada em bombagem em barragens foi de 94 GWh. Acontece que no mesmo período de 2009 foram usados 148GWh, isto é, bastante mais. Nos mesmos períodos a energia eólica produzida foi de 2,8 TWh em 2010 e 1,7 TWh em 2009. Ou seja, apesar de uma produção eólica muito maior, houve muito menos bombagem no primeiro trimestre de 2010 em relação a 2009.
Poder-se-á argumentar que isso se deve ao facto das albufeiras estarem cheias e por isso não ser razoável bombar, o que justificaria a exportação a preço zero da energia produzida a mais, que o distribuidor está obrigado a comprar aos produtores eólicos mesmo que não tenha mercado para essa energia. Mas o que não se pode dizer é que a bombagem é feita porque há eólica a mais, porque parece evidente a falta de nexo de causalidade entre a produção eólica e a necessidade de bombagem (a fantástica teoria de Pinto de Sá sobre a coincidência entre chuva e vento está mais relacionado com bobagens que com bombagens).
Em qualquer caso parece-me fantasioso argumentar com a energia potencial não turbinada em Alqueva porque todos sabemos que ninguém dimensiona os equipamentos para turbinar caudais que são excepcionalmente elevados, seria completamente irracional porque implicaria usar essa potência num número ínfimo de dias, sendo pois impossível de obter retorno para o investimento.
A lógica da turbinagem não tem nada com a dimensão física da energia produzida (não vale a pena discutir em Wh) mas sim com a dimensão económica da coisa (ou seja, só faz sentido discutir em euros).
Comprar energia barata em horas de vazio para produzir menos energia, mas nas horas de maior consumo, faz sentido se o aumento de preço compensar a diminuição da quantidade física.
Parece-me um conceito rudimentar o mercado da energia que até um ignorante como eu é capaz de perceber e explicar.
É por isso que não entendo por que razão o Ecotretas, sempre preocupado com a dimensão económica do mercado da energia (e bem) de repente resolve discutir esta questão evitando discutir a sua racionalidade económica.
Parece o actual governo a discutir as renováveis apenas nos aspectos físicos ou na diminuição das importações, esquecendo-se de discutir os aspectos económicos associados aos preços, a uma política incompreensível de intervenção administrativa no preço e esquecendo a coluna dos custos em que incorremos para ter a poupança que é referida como um bem em si.
Eu, que não tenho biblioteca, continuo convencido de que ganhávamos todos em introduzir racionalidade na discussão em vez de querermos esmagar o adversário para facilitar a dominância deste ou daquele modelo de produção de electricidade.
Entre outras razões porque o problema da electricidade é um problema relativamente menor na política energética do país.
Adenda: a bombagem, ao repôr energia potencial no sistema a partir das horas de vazio, permite que a potência instalada para responder aos picos possa ser menor, aspecto que não sei se será despiciendo do ponto de vista económico e ambiental
henrique pereira dos santos

quarta-feira, abril 21, 2010

E porque não um cluster de cientistas portugueses produzirem um contra-manifesto?

Rui Curado Silva, investigador no Departamento de Física da Universidade de Coimbra, identificou um documento difundido por mais de 400 investigadores do clima franceses denunciando a falta de ética científica dos niilistas do clima. Diz ainda que a reacção dos climatólogos franceses vem ao encontro do apelo lançado pelo editorial de Março da revista Nature em que se alerta a comunidade científica de que a estratégia de não resposta aos niilistas para não dar visibilidade a protagonismos individuais pseudo-científicos ter tido como resultado a ocupação do espaço mediático por estes indivíduos [fonte]

Foto: Central de Biomassa de Mortágua

1. para evitar que uma vez mais senhores como Henrique Neto, que na TV vem defender a política energética de Salazar (!!) e o primado das barragens - e Carlos Pimenta desmentiu-o e bem informando que os preços das energias por via hídrica são mais baixos porque não contabilizam o carbono e quanto às tecnologias, Portugal tem neste momento vantagens tecnológicas;

2. para aliviar e não atribuir excessivas responsabilidades às associações ambientalistas;

3. para retirar espaço de mediatização de saudosistas do fascismo, niilistas climáticos nacionais e dos defensores de mais barragens e nuclear;

Pergunto porque não um grupo de 100 ou mais cientistas do clima, energias, da mobilidade e economistas pós-carbono nacionais produzam um manifesto? Uma boa base de partida é a postagem do Henrique Santos ou eventualmente outra que possa surgir.

sexta-feira, abril 09, 2010

A posição da QUERCUS sobre política energética

Sem grandes comentários, para além de notar a moderação e sensatez que por vezes tem faltado nesta matéria a parte do movimento ambientalista, reconhecendo que a complexidade real do problema obriga a olhar para o assunto de cabeça aberta. Tenho pena que a questão dos preços reais não seja mais clara.
"Política energética:
É possível um caminho com menos barragens e sem nuclear
A Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza reconhece as energias renováveis como uma peça fundamental para uma aposta energética sólida em Portugal e defende um debate claro e sério sobre a forma diversificada de produção de energia (mix energético) mais conveniente para o nosso país a médio (2020) e longo prazo (2050).
A Quercus considera que as prioridades do governo não estão correctamente ordenadas nesta área, pelo que em primeiro lugar deveria estar a redução de consumo e eficiência energética, seguida das energias renováveis e, por fim, a mobilidade sustentável. A associação reconhece que há muito por clarificar na área das energias renováveis em termos de investimento, formulação e garantia de preços de venda à rede.É prioritário um investimento forte na redução do consumo de energia e na eficiência energética, que não deve ser deixada para segundo plano, como aconteceu até aqui. Mantendo a tendência actual de crescimento do consumo energético, não vai ser possível cumprir o objectivo de redução anual do mesmo em 1% até 2016.A aposta nas energias renováveis é uma aposta também na independência energética do país. A subsidiação das energias renováveis é uma realidade, mas também é ainda mais avultado o investimento nos combustíveis fósseis e na investigação nuclear.No âmbito da estratégia europeia energia-clima, Portugal tem a obrigação de produzir 31% da energia final consumida por fontes de energias renováveis. Esta é uma meta legal que terá de ser cumprida.Dar prioridade às energias renováveis é também essencial para promover a independência energética do país, que a energia nuclear não assegura. Mais ainda, é igualmente uma forma de incentivar o desenvolvimento tecnológico nacional mais vantajosa do que quaisquer modelos de produção energética centralizada e em grande escala.Neste momento, o governo aposta sobretudo na potência instalada de energia renovável pela grande hídrica, que no entender da Quercus deve ser revista, já que o peso da energia hídrica tem vindo a diminuir em relação ao crescente contributo da energia eólica na produção de electricidade.Em paralelo, a Quercus ressalva ainda outros pontos que carecem de revisão, no quadro da política energética apresentada recentemente:- Rever a política de eficiência energética para que Portugal tenha condições para cumprir as suas obrigações comunitárias e conseguir efectivamente reduzir o consumo de energia e melhorar a intensidade energética;- Analisar a capacidade total de potência instalada prevista, que pode promover o aumento de consumo e fazer fracassar na política de eficiência energética;- Clarificar a capacidade de armazenamento de energia eólica das dez novas barragens previstas no Plano Nacional de Barragens com Elevado Potencial Hidroeléctrico.Lisboa, 7 de Abril de 2010A Direcção Nacional daQuercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza"
henrique pereira dos santos

Política energética ou política de produção de energia?

Nos posts anteriores transcrevi as posições mais audiveis sobre o "manifesto para uma nova política energética": as dos subscritores do manifesto, e as dos mais directamente visados, os produtores de energia renovável.
Haverá razões de parta a parte, como é natural neste tipo de situações, mas vale a pena reter o que me parece que deveria ser um ponto de vista ambiental sobre a discussão.
1) Não faz sentido reduzir a política energética a uma discussão sobre produção de electricidade, não só porque a electricidade representa uma fracção relativamente pequena do consumo energético, como mesmo no campo da electricidade há um enorme espaço de racionalização do seu uso que não passa pela discussão sobre as formas de produção;
2) É muito desagradável a sensação de meias verdades contidas nos documentos, neste caso, é justo dizê-lo, mas do lado dos subscritores do manifesto que do lado da APREN;
3) A mais grave dessas meias verdades é a que envolve a discussão sobre o défice tarifário: não é verdade que o défice tarifário resulte da política de renováveis, embora seja verdade que a sua dimensão resulta, em parte, da diferença do preço de custo de produção e do preço de mercado. Ora essa decisão é uma opção política totalmente errada dos Governos fortemente influenciada pela ideia de que a energia tem de ser barata. Do ponto de vista ambiental é preciso ser claro e dizer que a energia deve ter o preço que resultar da sua produção e que os preços elevados de energia reduzem o desperdício, sendo por isso favoráveis do ponto de vista ambiental. O facto de isso ter implicações económicas (não necessariamente e sempre negativas), e sociais deve ser ponderado no conjunto dos valores sociais em presença e não deve levar à ideia de que o preço baixo se deve sobrepôr a todas as outras considerações;
4) Alguns dos pressupostos do manifesto são confrangedoramente frágeis tecnicamente (como a história não demonstrada e com peso real não avaliado da coincidência entre chuva e vento, por exemplo). Mais grave que isso, alguns são deliberadamente torcidos. Por exemplo, no site do manifesto estão os três estudos sobre a perda de emrpegos decorrentes das renováveis, sem que ao mesmo tempo os subscritores do manifesto tenham a hombridade de lhes juntar as críticas mtodológicas feitas. A resposta a uma pergunta sobre esta matéria (há críticas metodológicas mas não há alteração das conclusões) é manifestamente de quem não leu os documentos ou está de má-fé, já que as críticas metodológicas invalidam por completo os estudos citados, desde a sua base. As críticas podem estar erradas, é razoável contestá-las, o que não é razoável é manter as conclusões sem contestar críticas que pura e simplesmente invalidam a totalidade do estudo;
5) O facto dos subscritores do manifesto omitirem que os três estudos têm a mesma origem de financiamento, que é um fundo com agenda política, mereceria esclarecimento: ou não é verdade que assim seja e estamos perante três estudos totalmente autónomos (o que não é crível dadas as suas similitudes metodológicas, incluindo inovações não suportadas por nenhuma verificação empírica) ou é mesmo de má-fé que estamos a falar;
6) Seria normal que a APREN fosse mais explícita nalgumas das suas afirmações, nomeadamente quanto à formação do preço, o que não acontece, usando aliás a mesma lógica de parcialidade dos estudos citados no relatório que encomendou à Deloitte, como uma previsão de criação de emprego verdadeiramente delirante;
7) Do mesmo modo é completamente inaceitável que se fale de poupança na redução de consumos de petróleo sem que se refira o custo das alternativas. Poupança resulta do saldo da redução de consumos mais aumento de custo de produção alternativa e não é razoável usar apenas a coluna do haver, sem usar a coluna do dever. A APREN e o Governo contribuem para a mistificação e obscurecimento da discussão ao insistir nesta meia verdade;
8) A poupança energética (de electricidade e dos outros consumos de energia, que são aliás a maioria), a eficiência energética, a água quente solar e outras soluções parcdiais corrrem o risco de ficarem completamente submersas nesta discussão entre modelos de produção de electricidade, com forte prejuízo para a definição (e afectação de recursos) para uma verdadeira política energética.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, abril 08, 2010

A crítica ao manifesto pelos principais visados


Na sequência deste post, aqui fica algum contraditório da associação de produtores de energias renováveis.
"ESCLARECIMENTO
Lisboa, 7 de Abril de 2010 – A APREN - Associação Portuguesa de Energias Renováveis, criada em 1988, reunindo cerca de sessenta empresas responsáveis pela promoção de energias renováveis para a produção de electricidade, perante o “Manifesto por uma nova política energética em Portugal”, entende ser seu dever contribuir para o esclarecimento de alguns pontos que, conquanto subscritos por eminentes figuras dos meios económico e financeiro, reflectem, no mínimo, desconhecimento de aspectos essenciais da problemática energética do nosso tempo. Neste âmbito, a APREN esclarece que:
1. Sem questionar a relevância da discussão das questões energéticas, tão significativas para o desenvolvimento, quando analisadas tanto do lado da oferta como da procura e na óptica da eficiência energética e do contributo dos cidadãos, rejeita o pressuposto da consideração negativa que o Manifesto faz da aposta de Portugal nas Energias Renováveis ao longo da última década.
2. Ao optar pela aposta nas Energias Renováveis, Portugal não fez mais que assumir as suas obrigações no quadro da política energética da União Europeia, que definiu três metas para 2020: aumentar em 20% a eficiência no uso da energia, aumentar de 8% para 20% a parte das energias renováveis no consumo final de energia e diminuir em 20% as emissões de gases de efeito de estufa.
3. A política do Governo de prosseguir nesta via deixa claro que, muito embora tenha havido nos últimos anos porventura um défice no discurso e debate sobre as políticas energéticas, existe um caminho traçado que se projecta em 2020 e para além disso.
4. Num quadro de serena implementação de uma política energética traçada e mantida por sucessivos Governos ao longo de uma década, cujas lacunas e insuficiências apenas importa colmatar e superar, é totalmente desprovida de sentido uma abordagem como a que se faz no Manifesto, que ignora obsessivamente os aspectos positivos sem oferecer alternativa – que não existe de facto - com reflexos imediatos ou sequer no curto prazo.
5. A APREN considera que o debate sobre a Política Energética Nacional deve ter por base uma análise técnica e económica rigorosa, isenta e suportada em informação cabal e bem documentada. Infelizmente, o Manifesto não assenta nestes princípios e, portanto, não serve para esse efeito.
6. A APREN não deixará de contribuir, como o tem vindo a fazer até aqui, com elementos documentais que demonstrem os erros, aproximações e omissões do Manifesto. Declarando-se, assim, sempre disponível para analisar e discutir a problemática da produção da electricidade, de forma séria e completa, sem temer confrontos no quadro de uma visão global da Política Energética Nacional.
7. Entretanto e atendendo à dimensão de algumas afirmações erróneas do Manifesto já conhecidas, a APREN não pode deixar de afirmar, com pena e desalento, que é falso:
- Que o preço pago pela electricidade de origem eólica é três vezes o preço do mercado. Em 2008 o preço médio pago pela electricidade de origem eólica foi de 94,7 Euros por cada MWh[1] enquanto a média ponderada do preço da energia eléctrica no OMEL (na zona portuguesa), para o mesmo ano, foi de 72,18 €/MWh[2]. É omissa a referência a que o preço pago à energia eólica para novos projectos tenderá a ser muito inferior à tarifa anterior e já o é para os parques eólicos do concurso mais recente, que têm uma tarifa garantida inferior a 70€/MWh[3];
- Afirmar que o desenvolvimento das energias renováveis não teve impacto na dependência do
país das energias fósseis. A APREN relembra que em 1999 apenas 31% da electricidade produzida em Portugal provinha de fontes de energia renováveis contra 69% de origem fóssil
(com um IPH de 0,68, ano seco) e, em 2009, a percentagem de electricidade de origem renovável foi de 46% contra 54% de origem fóssil (com um IPH de 0,77, ano seco);
- Atribuir às energias renováveis a responsabilidade do défice tarifário. Ao deixar entender que o actual défice corresponde ao sobrecusto das energias renováveis, o Manifesto não se exime à
suspeita de ma fé.
[1] Fonte: ERSE, Informação sobre Produção em Regime Especial (PRE) em Portugal Continental - Dados actualizados a Fevereiro de 2010
[2] Fonte: ERSE, Informação sobre Produção em Regime Especial (PRE) em Portugal Continental - Dados actualizados a Março de 2009
[3] O que tem implicações na redução do preço médio da energia eólica que, em 2009, observou já o início de uma curva que se projecta como descendente, assumindo o valor de 93,7 €/MWh "

henrique pereira dos santos

O manifesto

O manifesto que comentei aqui foi ontem apresentado em conferência de imprensa.
Como num comentário ao post se falava nas quatro horas da tarde, acabei por perder a dita apresentação, que foi perto do meio dia.
Publico agora um resumo do que se passou, feito por quem tem obrigação profissional de relatar objectivamente o evento. Pese embora essa obrigação, não deixa de ser um relato informal que pode ter erros ou omissões.
Farei de seguida um segundo post com a crítica da APREN.
Quando tiver tempo farei a minha leitura destes dois posts.
O manifesto pode ser lido no site indicado no texto sobre a conferência de imprensa.
Esperamos com isto contribuir para um debate sobre política energética, numa perspectiva ambiental.
Mas reconheça-se desde já que discutir política energética, sobretudo do ponto de vista ambiental, não é apenas discutir formas de produção, posição em que se situam quer os promotores do manifesto, quer a APREN, afunilando um debate que eu gostaria de ver mais aberto.
"Resumo conferência de imprensa apresentação do
“Manifesto por uma nova política energética em Portugal”
Data: 7 de Abril de 2010
Local: Associação Comercial de Lisboa
Duração: das 12h15 às 14h00
Presentes: aproximadamente 30 pessoas; cerca de 10 jornalistas e a restante assistência era praticamente constituída por signatários do estudo. Na mesa estava o Eng. Mira Amaral, Prof. Pinto de Sá, Prof. Clemente Pedro Nunes e Dr. João Duque
Ordem de Trabalhos: Inicialmente o Eng. Mira Amaral leu o manifesto, acrescentando alguns esclarecimentos sobre algumas questões. Depois o Eng. Mira Amaral leu também o resumo dos 3 estudos de referência. De seguida os restantes três elementos da mesa deram a sua opinião e por fim foram respondidas perguntas dos jornalistas
Endereço do site do Manifesto: http://energiaparaportugal.com/
Resumo:
Introdução
Mira Amaral (MA) referiu que quando chegou ao Governo já tinha conhecimento nas matérias de energia ao contrário de outros
Foram recebidos esta manhã pelo Secretário de Estado da Energia (o Ministro da Economia não pode estar presente como previsto)
O Manifesto foi entregue ao chefe da casa civil e foi pedida uma audiência ao Presidente da República
Vai também ser solicitada uma audiência aos partidos políticos
O Manifesto foi lido na íntegra. Os pontos mais desenvolvidos foram;
É pago um preço fixo á electricidade renovável quer se precise dela ou não o que não faz sentido numa economia de mercado
As eólicas precisam sempre de equipamento suplementar. Quando estão a produzir à noite necessitam da bombagem hidroeléctrica. De dia necessitam das centrais térmicas em stand by para compensar a intermitência da produção
Quando o regulador quis aumentar o preço da electricidade o Governo desautorizou-o e “escondeu-se” atrás do défice tarifário
O estudo do BPI sobre as finanças públicas portuguesas não contabiliza a dívida pública do défice tarifário
O défice tarifário foi de 2.000 milhões de euros e o PIB português é de cerca de 160.000 milhões de euros
A perda de rendimento da bombagem hidroeléctrica é cerca de 25%
Potência instalada é diferente de energia produzida (depende da disponibilidade) mas o que passa nos jornais é só a potência
As novas barragens não vão reduzir as importações de petróleo
Questiona os comentários do artigo do Eng. Jorge Vasconcelos porque é necessário passar de valores de energia para valores económicos - €
Há um excesso de entusiasmo nos 43% de electricidade renovável. Segundo os dados da DGEG a incorporação de energias renováveis na energia primária é de apenas 2,11%. Este é um valor importantíssimo que deveria sair nos jornais
Foram apresentados os três estudos internacionais e analisado o resumo executivo de cada um deles.
O Dr. Mira Amaral afirmou estar surpreendido com os resultados dos países mais avançados que estão patentes nesses mesmos estudos.
Sobre o estudo Alemão acrescentou que é de espantar que o contributo da electricidade de origem fotovoltaica seja tão insignificante sendo esta a mais subsidiada e sendo a Alemanha um país que produz painéis solares PV. Acrescenta que o esquema alemão não dá nenhum incentivo para inovação e desenvolvimento tecnológico
Sobre o estudo espanhol MA citou o Dr. Inacio de Galan, presidente da Iberdrola que disse que a tecnologia solar é um produto financeiro e não uma solução tecnológica. O estudo também refere que o Ministro da Economia (se não me engano não me lembro qual o ministério) vai reduzir os prémios às energias renováveis para aumentar a competitividade da economia espanhola
Intervenção de Clemente Pedro Nunes:
Fez uma retrospectiva das políticas energéticas referindo que o último plano estratégico de Porugal foi em 83/84 quando se decidiu que a diversificação do petróleo seria recorrendo a carvão e Gás Natural. Apenas a assinatura do Protocolo de Quioto em 2001 impediu a construção de mais centrais a carvão e passámos a ddefender as energias renováveis com consequências gravíssimas para a competitividade com países como China e Índia sem restrições climáticas
Ultrapassar as limitações tecnológicas injectando dinheiros públicos é um erro grave. Seseguir as modas (alusão às energias renováveis) põe em causa a competitividade económica e pode colocar em causa as exportações portuguesas.
Referência ao facto de serem os consumidores a pagarem a diferença de preço / custo, dando como exemplo a diferença de preço da micro geração solar.
Questiona o porquê de certas tecnologias serem privilegiadas.
A biomassa devia ser mais apoiada, pois é produto nacional e produz quando necessário, daí não se perceber a razão de ser o plano mais atrasado.
Biocombustíveis também deviam ser mais apoiados, não há legislação clara para o futuro
A tarifa italiana de biomassa é superior à nossa da eólica para o preço do consumidor.
Intervenção de Pinto de Sá (demasiado técnica os jornalistas estavam claramente sem interesse):
Explicação da evolução tecnológica nos países que primeiro adoptaram as renováveis.
Países que compreenderam estar a subsidiar indústria chinesa e não nacional.
Portugal não tem muita experiência nestas tecnologias e já não vamos a tempo de criar mercado porque já está saturado.
Explicação sobre intermitência e falta de controlo da energia eólica e solar, exaltando a necessidade de backup e as desvantagens técnicas e económicas que daí advêm.
Excesso de produção dificulta a exportação, sendo que Espanha tem esse mesmo problema e daí o preço ser nulo.
Solução de combinação hídrica e eólica nunca foi testada, nem devidamente investigada, em particular quando existem a simultaneidade da produção eólica e albufeiras cheias.
Intervenção João Duque:
Foco no défice tarifário: não se deve subsidiar ineficiência em massa ainda por cima considerando o “imposto” das renováveis, correspondente à dívida do défice tarifário.
Analisou o recente relatório de contas da EDP e verificou que o défice tarifário foi considerado com um activo da EDP. Uma tranche de 1600 milhões de euros já foi titularizada – responsabilidade dos consumidores no pagamento desta dívida, se não formos nós são as gerações futuras
Única forma de reduzir o défice é aumentar o preço da electricidade ou diminuir os custos da sua produção. Dever-se-ia primar pela segunda opção mas receia que a actual política energética nacional não o esteja a fazer.
Perguntas dos jornalistas:
· Jornal de Negócios
o Esclarecer a diferença do valor dos 2,11% referidos no documento e os 43%
o Como correu audiência com Secretário de Estado
o Qual a solução/alternativa?
· Ana Suspiro, i
o Qual a % do défice tarifário atribuída às renováveis
o Qual a ligação com o PSD
· Lurdes Ferreira, Público
o Diz-se que a competitividade das empresas é afectada mas não são elas que pagam o sobrecusto
o Quais as metas do grupo em termos de preço e I&D
o Se a estratégia actual não resolve o problema da dependência energética qual a solução
o Porque é que o grupo não teve em consideração as respostas que rebatem os estudos apresentados
· Marina Conceição, Diário Económico
o Qual a opinião do grupo sobre a energia nuclear (pergunta final feita apenas depois de terem sido respondidas todas as outras)
Respostas a perguntas de jornalistas:
· [MA] Diferença entre os 43% e o 2,11% referido no Manifesto. Um é energia total primária outro é electricidade – referida a questão do ano hidráulico médio mal calculado.
· [MA] Resultado da audiência de hoje com o Carlos Zorrinho – Foi uma conversa cordial e ele prometeu ler os documentos. Subscritores do Manifesto já têm experiência no resultado dos Manifestos em Portugal, sendo que a primeira reacção normal é de ignorar mas depois como aconteceu em outros casos (Exemplo do Aeroporto na OTA) acabam por ganhar a razão.
· [MA]Reiteraram que o grupo não tem conotações políticas.
· [MA] Todas as alternativas devem ser consideradas, sem tabus não têm ainda uma resposta.
· [MA] A subsidiação cruzada para desviar os sobrecustos vai ser uma bola de neve, vai extravasar para os consumidores domésticos, para as empresas e depois para os contribuintes.
· [MA] Não há metas para R&D nem a definição de preços foi considerada devido à falta de tempo, duvidando que mesmo o Governo saiba responder a estas questões.
· [CPN] O gás utilizado para back up das renováveis também é pago.
· [CPN] Investimento na fotovoltaica é suicídio não há previsões de melhorias nos próximos 20 anos (creio que se referia a melhorias de eficiência)
· [CPN] O plano anterior do governo fazia referência ao carvão limpo. Entretanto foi substituído por capacidade adicional de renováveis ou que também é um erro
· [CPN] Os consumidores em BTN não são só os domésticos também as PMEs e por isso estas também pagam o sobrecusto
· [PS] Só conhece a crítica do estudo espanhol pelo NREL. Está bem feita e incide sobre aspectos metodológicos mas não invalida as conclusões
· [MA] É possível que a eólica atinja brevemente a grid parity e entre a mercado mas a fotovoltaica vai continuar a precisar de subsídios
· [MA] Em 2010 devido à descida dos preços do petróleo o preço da electricidade também podia ter diminuído o que não aconteceu porque foi pago parte do défice tarifário. No fundo as térmicas contribuíram para poupanças que não puderam ser internalizadas
· [CPN] Segundo dados da ERSE o sobrecusto das renováveis em 2009 foi de 900 milhões de euros, 80% do qual referente às renováveis priveligiadas. Biomassa e biocombustíveis não são devidamente apoiadas
· [MA] sobre a pergunta do nuclear – Não houve capacidade de analisar tudo. O problema analisado foi só eólicas e fotovoltaicas que é grave enquanto não entrarem com o preço da rede. O que não aceitam é condicionamento de qualquer opinião. Não têm um gabinete de estudos e portanto não se podem substituir à obrigação dos partidos e pagar estudos dos próprios bolsos"
henrique pereira dos santos

domingo, abril 04, 2010

As contas não são neutras

Escolhi esta imagem para explicar aos comentadores do post anterior sobre o tema que sei bem (como qualquer pessoa) distinguir chaminés industriais de centrais nucleares e que a oposição ao nuclear não precisa de imagens falsas ou deturpadas, basta-lhe informação rigorosa sobre custos e riscos

Pinto de Sá tem um blog que tem sido muito citado a propósito da política energética, sobretudo no que diz respeito à contabilidade dessa política energética.
Eu fui durante algum tempo um frequentador desse blog, porque é um blog tecnicamente sólido numa matéria em que sou apenas um curioso.
Deixei de o frequentar por Pinto de Sá detestar o contraditório e considerar insultos coisas corriqueiras (muito menos graves do que diz dos outros), considerando inaceitáveis coisas como começar um comentário por “pelo contrário” para assinalar a discordância sobre o post. Para além de pura e simplesmente não publicar coisas razoáveis e educadas apenas porque o contrariam.
Mas o retorno da discussão do nuclear via manifesto “Por uma nova Política energética”, que põe a tónica no custo da energia (esquecendo todos os outros aspectos da política energética), aplanando caminho para a argumentação “o nuclear é barato” leva-me a chamar a atenção para alguns aspectos que a mim, ignorante e não técnico do assunto, me causam perplexidade nas contas de Pinto de Sá que, mercê da agressividade da sua argumentação aliada a uma férrea eliminação do contraditório no seu blog, passam como contas certas e indiscutiveis.
Corro pois o risco de dizer muitas asneiras, mas é o risco de participação cívica de quem recusa a tecnocracia de que o blog “a ciência não é neutra” faz permanentemente a apologia.
Comecemos pelo post onde Pinto de Sá faz uma revisão da matéria dada. Nos comentários, que Pinto de Sá procura imediatamente condicionar dizendo que não devia publicar mas publica para poder dar mais umas lições, é evidente um dos problemas de Pinto de Sá: a escolha criteriosa de informação orientada pelas conclusões a que se pretende chegar.
Por exemplo, Pinto de Sá diz no post que o reforço de potência não produz mais energia e explica tecnicamente porquê. Está tudo certo, excepto que a explicação técnica só é válida para situações em que a potência instalada já não deixa água por turbinar (nos comentários Pinto de Sá reconhece esta limitação de raciocínio, mas o relevante é notar como sabendo isso de princípio, Pinto de Sá tentou passar a ideia de que o reforço de potência não permite aumento de produção. Já em posts anteriores havia comentários chamando a atenção de Pinto de Sá sobre este aspecto mas isso não o impede de truncar informação para melhor convencer os incautos).
Uma segunda limitação deste raciocínio é o de que produzir em horas de cheio não é o mesmo que produzir em horas de vazio e, consequentemente, se o reforço de potência (mesmo nas situações em que a potência instalada anteriormente não deixava água por turbinar) permitir turbinar água mais rapidamente (produzindo mais energia em menos tempo), isso significa que permite aumentar a água usada para produzir energia em horas de cheio e, consequentemente, aumentar a variação de volume das albufeiras o que implica, aumentar a capacidade de encaixe no vazio (na cascata do Douro são apenas algumas horas, mas essas horas podem ser o necessário para adequar melhor a produção ao consumo).
No caso das barragens com capacidade de armazenamento, isso permite de facto produzir mais em alturas de abundância de água, e permite uma melhor gestão de reservas.
A que preço?, é a pergunta certa de Pinto de Sá. É uma pergunta a que convém dar resposta, sem dúvida, mas não vale a pena dá-la de forma a esconder parte da informação.
Outro aspecto constantemente esquecido nas contas de Pinto de Sá é a variabilidade interanual dos nossos recursos hídricos. Parte do armazenamento feito em barragens justifica-se com a necessidade de dar resposta a anos de baixa pluviosidade, matéria de que Pinto de Sá foge como o diabo da cruz (pelo menos que eu tenha visto).
Grande parte dos raciocínios que vi são desenvolvidos com base neste ano hidrológico, claramente fora do padrão.
A correlação estatística entre vento e precipitação de que Pinto de Sá fala (note-se que os comentários de Pinto de Sá neste post são incompreensíveis para quem não saiba que as minhas objecções da altura, depois de publicadas em tempo, foram apagadas, como Estaline apagou Trotsky na célebre fotografia), e da qual saberá tanto como eu porque não é climatologista e usa dados do Norte da Europa para a fundamentar (um erro primário que ninguém faz a não ser por ignorância ou má-fé), é um exemplo de argumento “vale tudo” usado por Pinto de Sá para defender a sua dama. A fundamentação para a afirmação é quase nenhuma, mas mesmo que exista a tal correlação ela só tem efeitos em anos (e provavelmente dias) excepcionais, como este ano hidrológico, em que as albufeiras têm estado 20 a 30 pontos percentuais de armazenamento acima da média. O que Pinto de Sá sabe perfeitamente (até por estar dito nos comentários convenientemente apagados) mas não quer que os seus leitores saibam.
E por fim, mesmo que as contas sobre o impacto nulo da produção de electricidade estejam certas, por razões que desconheço Pinto de Sá abstem-se de fazer as contas ao impacto de ter disponibilidade em horas de cheio, aproveitando horas de vazio.
Mas o mais interessante da forma como são feitas as contas por Pinto de Sá é a longa citação que vou fazer de um dos seus posts, onde fica bem claro que o conceito de energia nuclear barata é um conceito que se baseia no velho princípio capitalista de privatizar os lucros e socializar os prejuízos (neste caso, os imensos custos aqui imputados ao Estado e, consequentemente, retirados das contas do preço da energia nuclear).
E tudo assente num hipotético renascimento nuclear, cujos sinais tardam em aparecer, infelizmente (e digo infelizmente porque seria bom para todos que o nuclear tivesse conseguido resolver os problemas de base de que padece desde que apareceu a prometer amanhãs que cantam, sem nunca os conseguir concretizar):
“15. Portugal precisa de energia eléctrica barata de fontes controláveis, sem aumento de emissões de CO2, sem políticas perigosas para as liberdades cívicas e com a máxima criação de riqueza nacional sustentável. Em particular, a opção nuclear tem de ser cuidadosa e antecipadamente preparada.De tudo o que foi analisado nos pontos anteriores, resulta evidente a necessidade de Portugal considerar seriamente a opção nuclear como estratégia energética e económica, dada a sua controlabilidade, não emissão de CO2 e baixo custo da energia gerada.Não se trata, porém e no imediato, de considerar a compra de uma central nuclear, com a mesma irresponsabilidade e ausência de planeamento com que foi feita a importação de equipamentos de energias renováveis, mas sim e apenas de iniciar a preparação de uma possível futura opção nesse sentido.Dado o conjunto de aspectos a considerar, é necessária uma estrutura organizativa que coordene esses aspectos. E, dados os longos tempos a envolver nas acções e eventuais investimentos associadas, a actividade dessa estrutura não deverá obedecer aos horizontes temporais de calendários eleitorais. Por esta razão, é necessário que a sua criação resulte de um pacto de regime que garanta uma maioria de apoio parlamentar permanente, e é também imperioso que a sua chefia tenha uma independência imaculada de outros interesses que não os nacionais, sendo por isso recomendável que a sua nomeação requeira a anuência da Presidência da República, podendo a atribuição de funções militares de prevenção e segurança facilitar essa tutela Presidencial. Vale a pena recordar, aliás, que a Junta de Energia Nuclear criada há mais de 50 anos dependia directamente de Salazar, e não do Governo de ocasião. Aliás, o aqui proposto é a refundação de uma Junta como essa, para iniciar a preparação de uma possível opção nuclear!Esta Nova Junta da Energia Nuclear deverá dispor de uma Comissão Executiva com pelo menos 3 membros, e constituir um Conselho Consultivo onde estejam representados reconhecidos peritos das áreas relevantes e com um leque de sensibilidades ideológicas diversificado, que garanta o escrutínio e a transparência de todas as actividades desenvolvidas. As actividades prioritárias da Comissão Executiva, a terminar no prazo de um ano, deverão incluir:a) A recolha e análise de todos os estudos parcelares realizados no passado sobre a opção nuclear para Portugal;b) A constituição de uma equipa interdisciplinar de técnicos de primeira qualidade, cobrindo nomeadamente os aspectos das engenharias civil, mecânica, de controlo e automação, a Física nuclear tecnológica, a Geologia, as Finanças e as Seguranças civil e militar;c) A identificação das normas internacionais, das necessidades de recursos técnicos especializados futuros e dos projectos em curso ou lançamento noutros países.Numa segunda etapa, esta Nova Junta deverá preparar, num prazo adicional de 4 a 5 anos, já com a equipa técnica de alta qualidade criada na 1ª etapa e uma definição de objectivos mais precisa:1) O estudo das opções tecnológicas e comerciais disponíveis internacionalmente;2) O estudos dos possíveis modelos de financiamento;3) As normas técnicas nacionais, em harmonia com as internacionais existentes e em particular as europeias, detalhadas e precisas, a aplicar nos projectos de centrais;4) A formação dos recursos humanos necessários ao acompanhamento e fiscalização de obras;5) A pré-selecção de locais apropriados;6) A definição das actividades económicas sustentáveis para as quais se possa associar a máxima incorporação nacional, da preparação do combustível ao tratamento de resíduos, passando pelo aproveitamento dos jazigos nacionais de Urânio;7) As colaborações internacionais desejáveis, técnicas, económicas e de segurança;8) A preparação de um Caderno de Encargos rigoroso para uma Central Nuclear.9) O debate público aberto e esclarecedor das opções em apreço.Finda esta preparação, que se iniciada já poderia estar concluída em 2015 ou 2016, o país estaria em condições de decidir se avançaria ou não para a construção de uma Central nuclear. Até lá muita coisa evoluirá no domínio das opções internacionais de energia nuclear, dando tempo a que se venha a aproveitar a experiência alheia. Se por volta de 2015 ou 2016 se tiver efectivamente verificado o renascimento do Nuclear, Portugal estará em condições de fazer a opção correspondente, podendo vir a ter a sua primeira central a tempo de substituir a de carvão em Sines, dentro de uma década. Se não for essa a evolução que ocorrer, também não terá sido grande a perda incorrida nesta preparação - afinal o país custeou por mais de 50 anos uma Junta de Energia Nuclear de que não retirou qualquer préstimo!A ausência da preparação desta opção é que poderá ser trágica!”

Extraordinário. Realmente, como defende o manifesto, o melhor é alguém independente fazer o estudo técnico-económico das opções energéticas, porque se as contas forem deixadas ao pessoal do nuclear o resultado está definido à partida.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, abril 02, 2010

Manifesto nuclear



Aqui pode ser lido integralmente um manifesto sobre uma "nova política energética".
E é bom que seja lido e discutido.
A mensagem explícita central do manifesto é esta:
"Todas as estratégias de saída da crise se baseiam na necessidade de aumento da competitividade empresarial, que o custo da energia irá prejudicar."
É uma mensagem clara, linear e apelativa. Mas onde está prejudicar, deveria estar afectar, ou condicionar. Primeiro por uma questão simples de português: o custo em si não prejudica ou beneficia o que quer que seja, neste caso, por exemplo, um custo baixo da energia não prejudica a competitividade. Segundo porque mesmo que se subentenda custo alto, onde está apenas custo, não é líquido que o custo alto da energia prejudique a economia.
Basta dar um salto aqui e verificar como o preço da gasolina, per si, tem pouca relação com o desempenho económico dos países e, a sentir-se alguma relação olhando para o gráfico, o que vemos vagamente é os países com preços mais altos tenderem a ter também melhor desempenho económico.
Já várias vezes tenho aqui citado o artigo "Green and competitive" de Michael Porter e Class van der Linde para explicar que a pressão que o custo de um factor impõe a um processo produtivo, se adequadamente sentida por todos os que competem nesse mercado, tem um efeito de racionalização no seu uso que se traduz quer em maior inovação, quer em maior competividade, quer em poupança (racionalização e eficiência) no uso do recurso.
Quer isto dizer que é indiferente o preço da energia? Seguramente não estou a dizer isso e já várias vezes escrevi aqui contra a política energética deste Governo, exactamente por não avaliar convenientemente esse custo e não o tornar tão claro e explícito quanto possível. O custo alto da energia é um problema, mas não é um drama insolúvel para a economia. Dependendo da forma como é gertido, pode ter efeitos positivos ou negativos. Ou melhor, terá sempre efeitos positivos e negativos, mas o seu balanço pode ser mais positivo ou mais negativo.
Esclarecida esta questão, vejamos então ao que vem o dito manifesto.
Os oitos pontos em que está dividido o manifesto são críticas à política de produção de renováveis. Críticas essas que partilho em grande parte, como tenho escrito por aqui.
Mas o que gostaria era mesmo de perceber em que consiste a nova política energética que o manifesto promete em título. Vejamos então o grande final do manifesto:
"Assim, os signatários consideram fundamental exigir uma avaliação técnica e económica, independente e credível, da política energética nacional, de forma a ter em conta todas as alternativas energéticas actualmente disponíveis, com o objectivo inequívoco de reduzir os preços da energia com que são confrontados os cidadãos e as empresas, a par de garantir uma maior segurança energética e uma verdadeira redução do défice da balança comercial."
Ora batatas.
Tanta coisa, tanta gente importante, tanto cérebro de excepção para pedir que uma avaliação técnica e económica da política energética inclua o nuclear, sem que as colunas vertebrais que suportam os ditos cérebros tenham tido sequer a hombridade e coragem de o dizer de forma clara.
Sobre eficência energética? Zero. Sobre racionalização de consumos? Zero? Sobre política de transportes, nomeadamente de transportes públicos? Zero. Sobre água quente solar? Zero.
O objectivo da política energética é reduzir o seu preço? Têm mesmo a certeza que é isso? Mesmo que essa redução de preço implique maior ineficiência, como qualquer dos subscritores da área da economia e da gestão tem obrigação de saber?
E já agora, porque não pedem uma política para o sector financeiro cujo objectivo seja diminuir o preço dos serviços financeiros e do dinheiro?
E também uma política social que tenha como objectivo reduzir o custo do trabalho?
Eu que não sei tanto como tanto engenheiro e tanto economista que se manifesta pensei que o objectivo da política energética era abastecer o país de forma eficiente, competitiva e resiliente às alterações bruscas em que o mercado da energia é fértil (hoje o preço do barril de petróleo está ligeiramente acima dos 80 dólares e o euro tem vindo a desvalorizar-se face ao dólar, dois factores que concorrem para que o preço de mercado da energia eólica se aproxime rapidamente do preço administrativo estabelecido. Quem diria).
Mas eu concordo com o manifesto: é precisa uma boa avaliação técnica e económica da política energética. É ridículo chamar a isso uma nova política energética, mas é um passo para lá chegar. E espero que se inclua o nuclear nessa análise. Mas que no preço do nuclear estejam incluídos todos os seus custos reais, como o custo da investigação, que tem sido suportada pelos Estados, o custo de desmantelamento, que tem sido passado para as sociedades, o custo dos riscos associados, que tem sido omitido porque ninguém segura os riscos a não ser os Estados, o custo da resolução do problema dos resíduos, que tem sido chutado para as gerações futuras, e por aí fora. E que nessa análise se inclua o custo da poupança, da eficiência energética, da água quente solar, dos transportes públicos e por aí fora.
Pena é se continuarmos entre a propaganda delirante do Governo nesta matéria e manifestos nucleares disfarçados de cordeiros pascais.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, janeiro 07, 2010

Perplexidades de um ignorante

Um dia destes à conversa com João César das Neves vi este gráfico que representa o preço do petróleo a preços de 2008 (ou seja, limpo do efeito da inflação).
Acho o gráfico muito interessante, acho interessante que João César das Neves (se bem interpreto a conversa) não veja no gráfico qualquer aumento do preço do petróleo, apenas volatilidade (eu não sei contrapôr, a volatilidade é indiscutível, se desde o contra-choque petrolífero de 1986 a tendência é de estabilidade volátil ou se é de aumento suave acho que não se pode dizer com segurança a partir deste gráfico).
Mas este gráfico relaciona-se com outra ideia muito difundida nos meios nuclearistas, que em grande medida coincidem com os opositores das renováveis (há uns poucos que não são nem contra nem a favor de renováveis, limitam-se a discutir a racionalidade económica de as tratar excepcionalmente no tarifário): a energia cara tem custos económicos insuportáveis.
O exemplo que é dado para o efeito negativo das renováveis é a Dinamarca, que tem o custo de produção mais alto da Europa (dizem, não vou verificar).
E daí? Não é a Dinamarca muito mais rica que muitos outros que produzem electricidade a preços mais baixos?
Alguém conhece um estudo concreto que relacione o custo de produção da electricidade num país com o seu desempenho económico?
henrique pereira dos santos

sexta-feira, junho 19, 2009

Nuclear: A solução inconveniente

O meu colega e amigo Barry Brook tem opiniões fortes a respeito da energia nuclear. Pessoalmente, continuo a achar que o risco não se mede apenas pela probabilidade de um evento deletério acontecer mas também pela magnitude dos impactes desse evento mesmo que improváveis. Apesar de tudo, é bom estar informado dos argumentos contrários, sobretudo quando vêm de pessoas com reconhecida indepêndencia de espírito. Aconselho, assim, a leitura do artigo "Nuking green myths" que ele escreveu na revista on-line "The Australian".

domingo, janeiro 11, 2009

Nuclear (assim) não, obrigado!


Central Nuclear de Ascó

O El País de 31 de Dezembro de 2008, noticiava que as centrais nucleares de Ascó e de Vandellòs, em Tarragona (Espanha), estiveram paradas 114 dias em 2008, devido a avarias, incidentes e erros. O custo económico dessas falhas foi estimado em 60 minhões de euros.
Os ecologistas afirmam que estas paragens são reveladoras de fragilidades nos sistemas de segurança daquelas centrais. Por outro lado, A ANAV, o consórcio da Iberdrola e da Endesa que gere ambas as centrais afirma exactamente o contrário, ou seja, que sempre se previligia a segurança sobre a produção.
O El País, realça ainda que um dos incidentes ocorridos em Ascó, em Novembro de 2007, foi originado por falhas humanas e implicaram fugas naquela central. A sua ocultação pelas entidades gestoras, até Abril de 2008, valeu multas pesadas, superiores a 30 milhões de euros. Esta fuga provocou grande preocupação na Catalunha.
Não tendo eu, à partida, uma posição contra (nem a favor) a exploração da energia nuclear, impressiona-me que, em Espanha, exista um bom punhado de centrais nucleares (ver mapa, aqui), com todos os riscos associados, sem que nós tenhamos tido o direito de opinar sobre isso, sem que tenhamos qualquer benefício energético/económico, mas obrigatoriamente prontos a pagar a factura ambiental de um eventual acidente.
Gonçalo Rosa

terça-feira, julho 11, 2006

Afaste, afaste o seu dedal

Lá dizia Gustave Le Bon a respeito da psicologia das multidões: quando entram em euforia passam a acreditar em qualquer sofisma, por absurdo que seja. Ora, aproveitando a euforia anti-ambientalista dos últimos dias uma importante figura da nossa política decidiu entusiasmar os portugueses pelas centrais nucleares, incutindo-lhes tranquilidade perante o risco a elas inerente. Num debate organizado pelo CDS, o vice-presidente do partido proferiu sem qualquer pudor esta extraordinária afirmação:

"Num quilo de resíduos radioactivos, 97% é reciclável. Dá um dedal de material radioactivo."

...e pelo que consta na reportagem ninguém na plateia esclareceu o preclaro orador quanto a pesos e medidas, nem desmascarou o sofisma. Como pôde o palestrante minimizar os riscos, argumentando que um quilo de resíduos resulta em um centímetro cúbico de material radioactivo, quando em Goiânia bastou um volume aproximado para provocar um dos maiores acidentes nucleares da História, segundo a Agência Atómica Internacional?

Por que motivo obnubilou o essencial, não enunciando a quantidade de curies emitidos por cada um desses centímetros cúbicos, e não a multiplicou pelo número deles a serem produzidos em Portugal caso vingue a central nuclear?

O perpicaz autor da frase, Dr. Sampaio Nunes, foi em tempos Secretário de Estado da Ciência e Inovação e director da Direcção-Geral de Energia da Comissão Europeia. Na qualidade de ex-ocupante de semelhantes cargos governamentais, tinha a obrigação de não confundir unidades de medida de massa com unidades de volume e unidades de radioactividade, sobretudo num discurso público supostamente pedagógico.

Mas nem só de vida política se deve fazer uma carreira, asseveram-nos os ideólogos liberais. Deve-se ser empreendedor, prosperar no mercado sem a interferência nefasta do Estado. Por isso, e num gesto de grande coerência nas suas opiniões políticas e técnicas, o liberal Dr. Sampaio Nunes defendeu neste encontro as centrais nucleares com a mesma vêemencia com que noutras ocasiões tem defendido projectos nucleares na qualidade de sócio da empresa energética de Patrick Monteiro de Barros.

A peculiar coerência do político-empresário Sampaio Nunes mantêm-se também na questão dos combustíveis fósseis. O entusiasmo com que vende ao Estado centrais nucleares "amigas" do Protocolo de Quioto é tão ardente quanto o entusiasmo com que vende ao mesmo estado refinarias de combustíveis violadoras do dito Protocolo. Dê por onde der, este empresário quer à viva força que os contribuintes portugueses comprem os seus produtos; pena que este probo negócio seja dificultado pelos ambientalistas...

segunda-feira, maio 22, 2006

Um nuclear referendo

A ideia de realizar um referendo sobre a opção nuclear em Portugal, proposta pelo antigo ministro Mira Amaral (o tal do «petróleo verde», que agora arde todos os Verões...) seria peregrina e estúpida se não fosse o caso de lhe estar subjacente uma clara intenção de manipulação. Há questões que não são referendáveis e a questão nuclear é um paradigma. E isto sobretudo porque uma decisão tomada hoje teria repercussões dentro de 10, 20, 30 ou mais anos. Ou seja, os maiores impactes passariam para a geração seguinte; aquela que obviamente não tinha votado no referendo. Seria a mesma coisa que decidir referendar os impostos ou os salários; referendar a dívida pública, de tal modo que daqui a 50 anos quem aqui estivesse que se safasse...

Além disso, uma questão desta natureza torna-se difícil de ser decidida quando a esmagadora maioria da população pouco ou nada sabe sobre energia nuclear. E no meio das vantagens e desvantagens que lhe estão subjacente, claro está que do lado dos que estão a favor se encontram poderosos e ricos lobbies que inundariam o país com hossanas às centrais nucleares.

Por fim, mesmo que se aceitasse um referendo, que tipo de pergunta se faria? Bastaria perguntar: aceita a construção de uma central nuclear em Portugal? Ou convinha indicar a localização? E mesmo que 100% da população da zona onde estaria prevista a central nuclear votasse contra, mas a maioria da população portuguesa votasse a favor, o que se faria? Construía-se à mesma a central nuclear?

Por mim, a avançar-se com esta ideia, a pergunta somente poderia ser esta: Aceita a construção de uma central nuclear em Portugal, qualquer que seja a sua localização geográfica? Somente assim se estaria a jogar limpo. De uma outra forma, é arriscar passar um cheque em branco...