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quinta-feira, abril 22, 2010

O manifesto da energia no seu labirinto

Não vou transcrever integralmente o artigo de Mira Amaral sobre o manifesto para uma nova política energética que pode ser lido aqui.
Mas há coisas que gostaria de comentar.

"por isso eu e um conjunto de colegas Professores do IST começámos a preparar um texto que foi depois alargado a outros subscritores.Trata-se dum exercício de cidadania de pessoas conscientes, responsáveis, com grande competência técnica e económica,"
É completamente despropositado o uso de argumentos de autoridade deste tipo. E uma enorme demonstração de fraqueza e fanfarronice.
"devido ao medo de retaliações, tivemos pessoas que acabaram por desistir de subscrever o Manifesto…"
Mira Amaral acha que pessoas que têm medo de retaliações (quais? a quem? por quem?) por terem opinião em matéria de energia fazem falta no seu manifesto?
"Nós consideramos até que a biomassa e os biocombustíveis são o parente pobre da política (?) energética actual."
Cá se está outra vez a confundir política energética com política de produção de energia. O parente pobre desta política é mesmo a poupança, a eficiência e o uso de inteligência para diminuir consumos mantendo qualidade de vida (o solar térmico é talvez o mais emblemático dos parentes pobres, a par com a política de transportes de raiz ambiental). Mas no contexto actual vir dizer que os biocombustiveis são o parente pobre da política energética faz sentido para quem uma vez classificou o eucalipto como o petróleo de Portugal.
"O Manifesto não tratava da energia nuclear. Limitava-se a pedir que fosse feito um exercício de Planeamento Energético a Médio-Longo Prazo, normal em qualquer país civilizado, no qual se considerassem todas as formas de energia.Mas o Governo, o poderoso lóbi eólico e alguns jornalistas vieram logo usar o papão do nuclear para tentarem condicionar a discussão sobre os excessos eólico e fotovoltaico."
Não percebo. Mas o manifesto era sobre uma nova política energética ou era sobre os excessos eólico e fotovoltaico?
"A energia eólica é intermitente e volátil, e por isso a potência instalada apenas é aproveitada 25% do tempo para produzir energia."
Basta saber que o sistema tem de ser dimensionado para os picos, que existem em períodos curtos, para perceber que qualquer que seja a forma escolhida de produção de electricidade a capacidade instalada só vai ser usada em percentagens muito pequenas do que poderia. Não conheço solução para isto. Suponho que Mira Amaral também não.
"Essa volatilidade faz que durante a noite muitas vezes há vento e energia produzida em excesso em relação às necessidades de consumo e por isso vai-se acumular essa energia em centrais de bombagem. Ou vendemo-la a Espanha a preço zero, tendo nós, os consumidores, pago a mesma a um preço elevadíssimo, ou como aconteceu no Alqueva em Dezembro passado o excesso de produção alimentou bombagens na central do Alqueva para depois esta ter de abrir as comportas e deixar vazar sem préstimo essa água, e com ela a energia armazenada (e bem paga) por nós!"
Esta falácia tem vindo a ser repetida vezes sem conta sem que nem por uma única vez alguém diga qual a percentagem de energia vendida a preço zero, nem quanta energia potencial se perdeu com a abertura das comportas de Alqueva (que é determinada pela quantidade de chuva e não pela bombagem entretanto feita, pelo menos em quantidade significativa).
"Durante o dia, muitas vezes não há vento quando precisamos de energia e por isso lá têm que entrar em apoio à falta de vento as centrais térmicas de custos fixos elevados, como as de gás natural."
O uso de meias verdades é das formas mais insidiosas de mentir. Que as centrais têm de existir no mix e que têm produções base abaixo das quais não devem ser levadas, de acordo, mas Mira Amaral omite, e só pode ser deliberadamente face aos pergaminhos académicos que apresente no artigo, que esse é em grande medida o papel da hídrica: disponibilizar em muito curto espaço de tempo energia para satisfazer os picos (por isso a hídrica ainda trabalha uma percentagem de horas menor que a eólica, penso que por volta dos 9%, mas corrijam-me por favor que não sei porque tenho este número na cabeça).
"passar na nossa rede de 3.500 MW para 8.500 MW da eólica é um manifesto exagero que só tornará a electricidade cada vez mais cara."
Duas meias verdades numa afirmação tão curtinha: os novos contratos de eólicas são a preços mais baixos que os primeiros e, mais importante, tornam a electricidade mais cara ao actual preço do petróleo (aliás, ao actual preço do petróleo é quase ela por ela), que pode variar, coisa que não acontece com o preço da eólica. Quem acredita que o petróleo nos próximos quinze anos vai manter-se nestes preços, com certeza achará isto estúpido. Quem achar que não sabe e mais vale, dentro de limites razoáveis, ter alternativas, acha isto defensável.
"Tudo isto consubstancia um desvario e uma irracionalidade económica que todos já estamos a pagar, e que já é bem visível com o famoso défice tarifário, que terá um efeito bola de neve."
Se em relação ao fotovoltaico partilho parte das opiniões expressas por Mira Amaral, já em relação a esta conclusão não posso deixar de assinalar que é completamente abusiva: o défice tarifário existe porque o Governo adoptou uma política de tarifas estúpida, não real e que isenta as empresas do esforço de racionalização que o aumento de preço aconselharia. Isso é completamente independente da política de produção de energia.
"o total conjunto da rubrica "Eólica, Geotérmica e Fotovoltaica" em 2008 representou apenas 2,11% do consumo total de energia primária em Portugal, tendo-se mantido a dependência energética em redor de 83% ao longo dos últimos dez anos."
É muita desonestidade junta. Primeiro retira-se a hídrica das renováveis e depois inclui-se os 75% do consumo de energia que não são electricidade. Nem que 100% da electricidade fosse de origem renovável o dependência energética diminuiria muito porque 75% do consumo energético não dizem respeito ao uso de electricidade. Para quê ser desoneste se se está convencido da razão?
E já agora, em que é que consiste a tal nova política energética alternativa a esta?
henrique pereira dos santos

quarta-feira, abril 21, 2010

E porque não um cluster de cientistas portugueses produzirem um contra-manifesto?

Rui Curado Silva, investigador no Departamento de Física da Universidade de Coimbra, identificou um documento difundido por mais de 400 investigadores do clima franceses denunciando a falta de ética científica dos niilistas do clima. Diz ainda que a reacção dos climatólogos franceses vem ao encontro do apelo lançado pelo editorial de Março da revista Nature em que se alerta a comunidade científica de que a estratégia de não resposta aos niilistas para não dar visibilidade a protagonismos individuais pseudo-científicos ter tido como resultado a ocupação do espaço mediático por estes indivíduos [fonte]

Foto: Central de Biomassa de Mortágua

1. para evitar que uma vez mais senhores como Henrique Neto, que na TV vem defender a política energética de Salazar (!!) e o primado das barragens - e Carlos Pimenta desmentiu-o e bem informando que os preços das energias por via hídrica são mais baixos porque não contabilizam o carbono e quanto às tecnologias, Portugal tem neste momento vantagens tecnológicas;

2. para aliviar e não atribuir excessivas responsabilidades às associações ambientalistas;

3. para retirar espaço de mediatização de saudosistas do fascismo, niilistas climáticos nacionais e dos defensores de mais barragens e nuclear;

Pergunto porque não um grupo de 100 ou mais cientistas do clima, energias, da mobilidade e economistas pós-carbono nacionais produzam um manifesto? Uma boa base de partida é a postagem do Henrique Santos ou eventualmente outra que possa surgir.

sexta-feira, abril 09, 2010

A posição da QUERCUS sobre política energética

Sem grandes comentários, para além de notar a moderação e sensatez que por vezes tem faltado nesta matéria a parte do movimento ambientalista, reconhecendo que a complexidade real do problema obriga a olhar para o assunto de cabeça aberta. Tenho pena que a questão dos preços reais não seja mais clara.
"Política energética:
É possível um caminho com menos barragens e sem nuclear
A Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza reconhece as energias renováveis como uma peça fundamental para uma aposta energética sólida em Portugal e defende um debate claro e sério sobre a forma diversificada de produção de energia (mix energético) mais conveniente para o nosso país a médio (2020) e longo prazo (2050).
A Quercus considera que as prioridades do governo não estão correctamente ordenadas nesta área, pelo que em primeiro lugar deveria estar a redução de consumo e eficiência energética, seguida das energias renováveis e, por fim, a mobilidade sustentável. A associação reconhece que há muito por clarificar na área das energias renováveis em termos de investimento, formulação e garantia de preços de venda à rede.É prioritário um investimento forte na redução do consumo de energia e na eficiência energética, que não deve ser deixada para segundo plano, como aconteceu até aqui. Mantendo a tendência actual de crescimento do consumo energético, não vai ser possível cumprir o objectivo de redução anual do mesmo em 1% até 2016.A aposta nas energias renováveis é uma aposta também na independência energética do país. A subsidiação das energias renováveis é uma realidade, mas também é ainda mais avultado o investimento nos combustíveis fósseis e na investigação nuclear.No âmbito da estratégia europeia energia-clima, Portugal tem a obrigação de produzir 31% da energia final consumida por fontes de energias renováveis. Esta é uma meta legal que terá de ser cumprida.Dar prioridade às energias renováveis é também essencial para promover a independência energética do país, que a energia nuclear não assegura. Mais ainda, é igualmente uma forma de incentivar o desenvolvimento tecnológico nacional mais vantajosa do que quaisquer modelos de produção energética centralizada e em grande escala.Neste momento, o governo aposta sobretudo na potência instalada de energia renovável pela grande hídrica, que no entender da Quercus deve ser revista, já que o peso da energia hídrica tem vindo a diminuir em relação ao crescente contributo da energia eólica na produção de electricidade.Em paralelo, a Quercus ressalva ainda outros pontos que carecem de revisão, no quadro da política energética apresentada recentemente:- Rever a política de eficiência energética para que Portugal tenha condições para cumprir as suas obrigações comunitárias e conseguir efectivamente reduzir o consumo de energia e melhorar a intensidade energética;- Analisar a capacidade total de potência instalada prevista, que pode promover o aumento de consumo e fazer fracassar na política de eficiência energética;- Clarificar a capacidade de armazenamento de energia eólica das dez novas barragens previstas no Plano Nacional de Barragens com Elevado Potencial Hidroeléctrico.Lisboa, 7 de Abril de 2010A Direcção Nacional daQuercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza"
henrique pereira dos santos

Política energética ou política de produção de energia?

Nos posts anteriores transcrevi as posições mais audiveis sobre o "manifesto para uma nova política energética": as dos subscritores do manifesto, e as dos mais directamente visados, os produtores de energia renovável.
Haverá razões de parta a parte, como é natural neste tipo de situações, mas vale a pena reter o que me parece que deveria ser um ponto de vista ambiental sobre a discussão.
1) Não faz sentido reduzir a política energética a uma discussão sobre produção de electricidade, não só porque a electricidade representa uma fracção relativamente pequena do consumo energético, como mesmo no campo da electricidade há um enorme espaço de racionalização do seu uso que não passa pela discussão sobre as formas de produção;
2) É muito desagradável a sensação de meias verdades contidas nos documentos, neste caso, é justo dizê-lo, mas do lado dos subscritores do manifesto que do lado da APREN;
3) A mais grave dessas meias verdades é a que envolve a discussão sobre o défice tarifário: não é verdade que o défice tarifário resulte da política de renováveis, embora seja verdade que a sua dimensão resulta, em parte, da diferença do preço de custo de produção e do preço de mercado. Ora essa decisão é uma opção política totalmente errada dos Governos fortemente influenciada pela ideia de que a energia tem de ser barata. Do ponto de vista ambiental é preciso ser claro e dizer que a energia deve ter o preço que resultar da sua produção e que os preços elevados de energia reduzem o desperdício, sendo por isso favoráveis do ponto de vista ambiental. O facto de isso ter implicações económicas (não necessariamente e sempre negativas), e sociais deve ser ponderado no conjunto dos valores sociais em presença e não deve levar à ideia de que o preço baixo se deve sobrepôr a todas as outras considerações;
4) Alguns dos pressupostos do manifesto são confrangedoramente frágeis tecnicamente (como a história não demonstrada e com peso real não avaliado da coincidência entre chuva e vento, por exemplo). Mais grave que isso, alguns são deliberadamente torcidos. Por exemplo, no site do manifesto estão os três estudos sobre a perda de emrpegos decorrentes das renováveis, sem que ao mesmo tempo os subscritores do manifesto tenham a hombridade de lhes juntar as críticas mtodológicas feitas. A resposta a uma pergunta sobre esta matéria (há críticas metodológicas mas não há alteração das conclusões) é manifestamente de quem não leu os documentos ou está de má-fé, já que as críticas metodológicas invalidam por completo os estudos citados, desde a sua base. As críticas podem estar erradas, é razoável contestá-las, o que não é razoável é manter as conclusões sem contestar críticas que pura e simplesmente invalidam a totalidade do estudo;
5) O facto dos subscritores do manifesto omitirem que os três estudos têm a mesma origem de financiamento, que é um fundo com agenda política, mereceria esclarecimento: ou não é verdade que assim seja e estamos perante três estudos totalmente autónomos (o que não é crível dadas as suas similitudes metodológicas, incluindo inovações não suportadas por nenhuma verificação empírica) ou é mesmo de má-fé que estamos a falar;
6) Seria normal que a APREN fosse mais explícita nalgumas das suas afirmações, nomeadamente quanto à formação do preço, o que não acontece, usando aliás a mesma lógica de parcialidade dos estudos citados no relatório que encomendou à Deloitte, como uma previsão de criação de emprego verdadeiramente delirante;
7) Do mesmo modo é completamente inaceitável que se fale de poupança na redução de consumos de petróleo sem que se refira o custo das alternativas. Poupança resulta do saldo da redução de consumos mais aumento de custo de produção alternativa e não é razoável usar apenas a coluna do haver, sem usar a coluna do dever. A APREN e o Governo contribuem para a mistificação e obscurecimento da discussão ao insistir nesta meia verdade;
8) A poupança energética (de electricidade e dos outros consumos de energia, que são aliás a maioria), a eficiência energética, a água quente solar e outras soluções parcdiais corrrem o risco de ficarem completamente submersas nesta discussão entre modelos de produção de electricidade, com forte prejuízo para a definição (e afectação de recursos) para uma verdadeira política energética.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, abril 08, 2010

A crítica ao manifesto pelos principais visados


Na sequência deste post, aqui fica algum contraditório da associação de produtores de energias renováveis.
"ESCLARECIMENTO
Lisboa, 7 de Abril de 2010 – A APREN - Associação Portuguesa de Energias Renováveis, criada em 1988, reunindo cerca de sessenta empresas responsáveis pela promoção de energias renováveis para a produção de electricidade, perante o “Manifesto por uma nova política energética em Portugal”, entende ser seu dever contribuir para o esclarecimento de alguns pontos que, conquanto subscritos por eminentes figuras dos meios económico e financeiro, reflectem, no mínimo, desconhecimento de aspectos essenciais da problemática energética do nosso tempo. Neste âmbito, a APREN esclarece que:
1. Sem questionar a relevância da discussão das questões energéticas, tão significativas para o desenvolvimento, quando analisadas tanto do lado da oferta como da procura e na óptica da eficiência energética e do contributo dos cidadãos, rejeita o pressuposto da consideração negativa que o Manifesto faz da aposta de Portugal nas Energias Renováveis ao longo da última década.
2. Ao optar pela aposta nas Energias Renováveis, Portugal não fez mais que assumir as suas obrigações no quadro da política energética da União Europeia, que definiu três metas para 2020: aumentar em 20% a eficiência no uso da energia, aumentar de 8% para 20% a parte das energias renováveis no consumo final de energia e diminuir em 20% as emissões de gases de efeito de estufa.
3. A política do Governo de prosseguir nesta via deixa claro que, muito embora tenha havido nos últimos anos porventura um défice no discurso e debate sobre as políticas energéticas, existe um caminho traçado que se projecta em 2020 e para além disso.
4. Num quadro de serena implementação de uma política energética traçada e mantida por sucessivos Governos ao longo de uma década, cujas lacunas e insuficiências apenas importa colmatar e superar, é totalmente desprovida de sentido uma abordagem como a que se faz no Manifesto, que ignora obsessivamente os aspectos positivos sem oferecer alternativa – que não existe de facto - com reflexos imediatos ou sequer no curto prazo.
5. A APREN considera que o debate sobre a Política Energética Nacional deve ter por base uma análise técnica e económica rigorosa, isenta e suportada em informação cabal e bem documentada. Infelizmente, o Manifesto não assenta nestes princípios e, portanto, não serve para esse efeito.
6. A APREN não deixará de contribuir, como o tem vindo a fazer até aqui, com elementos documentais que demonstrem os erros, aproximações e omissões do Manifesto. Declarando-se, assim, sempre disponível para analisar e discutir a problemática da produção da electricidade, de forma séria e completa, sem temer confrontos no quadro de uma visão global da Política Energética Nacional.
7. Entretanto e atendendo à dimensão de algumas afirmações erróneas do Manifesto já conhecidas, a APREN não pode deixar de afirmar, com pena e desalento, que é falso:
- Que o preço pago pela electricidade de origem eólica é três vezes o preço do mercado. Em 2008 o preço médio pago pela electricidade de origem eólica foi de 94,7 Euros por cada MWh[1] enquanto a média ponderada do preço da energia eléctrica no OMEL (na zona portuguesa), para o mesmo ano, foi de 72,18 €/MWh[2]. É omissa a referência a que o preço pago à energia eólica para novos projectos tenderá a ser muito inferior à tarifa anterior e já o é para os parques eólicos do concurso mais recente, que têm uma tarifa garantida inferior a 70€/MWh[3];
- Afirmar que o desenvolvimento das energias renováveis não teve impacto na dependência do
país das energias fósseis. A APREN relembra que em 1999 apenas 31% da electricidade produzida em Portugal provinha de fontes de energia renováveis contra 69% de origem fóssil
(com um IPH de 0,68, ano seco) e, em 2009, a percentagem de electricidade de origem renovável foi de 46% contra 54% de origem fóssil (com um IPH de 0,77, ano seco);
- Atribuir às energias renováveis a responsabilidade do défice tarifário. Ao deixar entender que o actual défice corresponde ao sobrecusto das energias renováveis, o Manifesto não se exime à
suspeita de ma fé.
[1] Fonte: ERSE, Informação sobre Produção em Regime Especial (PRE) em Portugal Continental - Dados actualizados a Fevereiro de 2010
[2] Fonte: ERSE, Informação sobre Produção em Regime Especial (PRE) em Portugal Continental - Dados actualizados a Março de 2009
[3] O que tem implicações na redução do preço médio da energia eólica que, em 2009, observou já o início de uma curva que se projecta como descendente, assumindo o valor de 93,7 €/MWh "

henrique pereira dos santos

O manifesto

O manifesto que comentei aqui foi ontem apresentado em conferência de imprensa.
Como num comentário ao post se falava nas quatro horas da tarde, acabei por perder a dita apresentação, que foi perto do meio dia.
Publico agora um resumo do que se passou, feito por quem tem obrigação profissional de relatar objectivamente o evento. Pese embora essa obrigação, não deixa de ser um relato informal que pode ter erros ou omissões.
Farei de seguida um segundo post com a crítica da APREN.
Quando tiver tempo farei a minha leitura destes dois posts.
O manifesto pode ser lido no site indicado no texto sobre a conferência de imprensa.
Esperamos com isto contribuir para um debate sobre política energética, numa perspectiva ambiental.
Mas reconheça-se desde já que discutir política energética, sobretudo do ponto de vista ambiental, não é apenas discutir formas de produção, posição em que se situam quer os promotores do manifesto, quer a APREN, afunilando um debate que eu gostaria de ver mais aberto.
"Resumo conferência de imprensa apresentação do
“Manifesto por uma nova política energética em Portugal”
Data: 7 de Abril de 2010
Local: Associação Comercial de Lisboa
Duração: das 12h15 às 14h00
Presentes: aproximadamente 30 pessoas; cerca de 10 jornalistas e a restante assistência era praticamente constituída por signatários do estudo. Na mesa estava o Eng. Mira Amaral, Prof. Pinto de Sá, Prof. Clemente Pedro Nunes e Dr. João Duque
Ordem de Trabalhos: Inicialmente o Eng. Mira Amaral leu o manifesto, acrescentando alguns esclarecimentos sobre algumas questões. Depois o Eng. Mira Amaral leu também o resumo dos 3 estudos de referência. De seguida os restantes três elementos da mesa deram a sua opinião e por fim foram respondidas perguntas dos jornalistas
Endereço do site do Manifesto: http://energiaparaportugal.com/
Resumo:
Introdução
Mira Amaral (MA) referiu que quando chegou ao Governo já tinha conhecimento nas matérias de energia ao contrário de outros
Foram recebidos esta manhã pelo Secretário de Estado da Energia (o Ministro da Economia não pode estar presente como previsto)
O Manifesto foi entregue ao chefe da casa civil e foi pedida uma audiência ao Presidente da República
Vai também ser solicitada uma audiência aos partidos políticos
O Manifesto foi lido na íntegra. Os pontos mais desenvolvidos foram;
É pago um preço fixo á electricidade renovável quer se precise dela ou não o que não faz sentido numa economia de mercado
As eólicas precisam sempre de equipamento suplementar. Quando estão a produzir à noite necessitam da bombagem hidroeléctrica. De dia necessitam das centrais térmicas em stand by para compensar a intermitência da produção
Quando o regulador quis aumentar o preço da electricidade o Governo desautorizou-o e “escondeu-se” atrás do défice tarifário
O estudo do BPI sobre as finanças públicas portuguesas não contabiliza a dívida pública do défice tarifário
O défice tarifário foi de 2.000 milhões de euros e o PIB português é de cerca de 160.000 milhões de euros
A perda de rendimento da bombagem hidroeléctrica é cerca de 25%
Potência instalada é diferente de energia produzida (depende da disponibilidade) mas o que passa nos jornais é só a potência
As novas barragens não vão reduzir as importações de petróleo
Questiona os comentários do artigo do Eng. Jorge Vasconcelos porque é necessário passar de valores de energia para valores económicos - €
Há um excesso de entusiasmo nos 43% de electricidade renovável. Segundo os dados da DGEG a incorporação de energias renováveis na energia primária é de apenas 2,11%. Este é um valor importantíssimo que deveria sair nos jornais
Foram apresentados os três estudos internacionais e analisado o resumo executivo de cada um deles.
O Dr. Mira Amaral afirmou estar surpreendido com os resultados dos países mais avançados que estão patentes nesses mesmos estudos.
Sobre o estudo Alemão acrescentou que é de espantar que o contributo da electricidade de origem fotovoltaica seja tão insignificante sendo esta a mais subsidiada e sendo a Alemanha um país que produz painéis solares PV. Acrescenta que o esquema alemão não dá nenhum incentivo para inovação e desenvolvimento tecnológico
Sobre o estudo espanhol MA citou o Dr. Inacio de Galan, presidente da Iberdrola que disse que a tecnologia solar é um produto financeiro e não uma solução tecnológica. O estudo também refere que o Ministro da Economia (se não me engano não me lembro qual o ministério) vai reduzir os prémios às energias renováveis para aumentar a competitividade da economia espanhola
Intervenção de Clemente Pedro Nunes:
Fez uma retrospectiva das políticas energéticas referindo que o último plano estratégico de Porugal foi em 83/84 quando se decidiu que a diversificação do petróleo seria recorrendo a carvão e Gás Natural. Apenas a assinatura do Protocolo de Quioto em 2001 impediu a construção de mais centrais a carvão e passámos a ddefender as energias renováveis com consequências gravíssimas para a competitividade com países como China e Índia sem restrições climáticas
Ultrapassar as limitações tecnológicas injectando dinheiros públicos é um erro grave. Seseguir as modas (alusão às energias renováveis) põe em causa a competitividade económica e pode colocar em causa as exportações portuguesas.
Referência ao facto de serem os consumidores a pagarem a diferença de preço / custo, dando como exemplo a diferença de preço da micro geração solar.
Questiona o porquê de certas tecnologias serem privilegiadas.
A biomassa devia ser mais apoiada, pois é produto nacional e produz quando necessário, daí não se perceber a razão de ser o plano mais atrasado.
Biocombustíveis também deviam ser mais apoiados, não há legislação clara para o futuro
A tarifa italiana de biomassa é superior à nossa da eólica para o preço do consumidor.
Intervenção de Pinto de Sá (demasiado técnica os jornalistas estavam claramente sem interesse):
Explicação da evolução tecnológica nos países que primeiro adoptaram as renováveis.
Países que compreenderam estar a subsidiar indústria chinesa e não nacional.
Portugal não tem muita experiência nestas tecnologias e já não vamos a tempo de criar mercado porque já está saturado.
Explicação sobre intermitência e falta de controlo da energia eólica e solar, exaltando a necessidade de backup e as desvantagens técnicas e económicas que daí advêm.
Excesso de produção dificulta a exportação, sendo que Espanha tem esse mesmo problema e daí o preço ser nulo.
Solução de combinação hídrica e eólica nunca foi testada, nem devidamente investigada, em particular quando existem a simultaneidade da produção eólica e albufeiras cheias.
Intervenção João Duque:
Foco no défice tarifário: não se deve subsidiar ineficiência em massa ainda por cima considerando o “imposto” das renováveis, correspondente à dívida do défice tarifário.
Analisou o recente relatório de contas da EDP e verificou que o défice tarifário foi considerado com um activo da EDP. Uma tranche de 1600 milhões de euros já foi titularizada – responsabilidade dos consumidores no pagamento desta dívida, se não formos nós são as gerações futuras
Única forma de reduzir o défice é aumentar o preço da electricidade ou diminuir os custos da sua produção. Dever-se-ia primar pela segunda opção mas receia que a actual política energética nacional não o esteja a fazer.
Perguntas dos jornalistas:
· Jornal de Negócios
o Esclarecer a diferença do valor dos 2,11% referidos no documento e os 43%
o Como correu audiência com Secretário de Estado
o Qual a solução/alternativa?
· Ana Suspiro, i
o Qual a % do défice tarifário atribuída às renováveis
o Qual a ligação com o PSD
· Lurdes Ferreira, Público
o Diz-se que a competitividade das empresas é afectada mas não são elas que pagam o sobrecusto
o Quais as metas do grupo em termos de preço e I&D
o Se a estratégia actual não resolve o problema da dependência energética qual a solução
o Porque é que o grupo não teve em consideração as respostas que rebatem os estudos apresentados
· Marina Conceição, Diário Económico
o Qual a opinião do grupo sobre a energia nuclear (pergunta final feita apenas depois de terem sido respondidas todas as outras)
Respostas a perguntas de jornalistas:
· [MA] Diferença entre os 43% e o 2,11% referido no Manifesto. Um é energia total primária outro é electricidade – referida a questão do ano hidráulico médio mal calculado.
· [MA] Resultado da audiência de hoje com o Carlos Zorrinho – Foi uma conversa cordial e ele prometeu ler os documentos. Subscritores do Manifesto já têm experiência no resultado dos Manifestos em Portugal, sendo que a primeira reacção normal é de ignorar mas depois como aconteceu em outros casos (Exemplo do Aeroporto na OTA) acabam por ganhar a razão.
· [MA]Reiteraram que o grupo não tem conotações políticas.
· [MA] Todas as alternativas devem ser consideradas, sem tabus não têm ainda uma resposta.
· [MA] A subsidiação cruzada para desviar os sobrecustos vai ser uma bola de neve, vai extravasar para os consumidores domésticos, para as empresas e depois para os contribuintes.
· [MA] Não há metas para R&D nem a definição de preços foi considerada devido à falta de tempo, duvidando que mesmo o Governo saiba responder a estas questões.
· [CPN] O gás utilizado para back up das renováveis também é pago.
· [CPN] Investimento na fotovoltaica é suicídio não há previsões de melhorias nos próximos 20 anos (creio que se referia a melhorias de eficiência)
· [CPN] O plano anterior do governo fazia referência ao carvão limpo. Entretanto foi substituído por capacidade adicional de renováveis ou que também é um erro
· [CPN] Os consumidores em BTN não são só os domésticos também as PMEs e por isso estas também pagam o sobrecusto
· [PS] Só conhece a crítica do estudo espanhol pelo NREL. Está bem feita e incide sobre aspectos metodológicos mas não invalida as conclusões
· [MA] É possível que a eólica atinja brevemente a grid parity e entre a mercado mas a fotovoltaica vai continuar a precisar de subsídios
· [MA] Em 2010 devido à descida dos preços do petróleo o preço da electricidade também podia ter diminuído o que não aconteceu porque foi pago parte do défice tarifário. No fundo as térmicas contribuíram para poupanças que não puderam ser internalizadas
· [CPN] Segundo dados da ERSE o sobrecusto das renováveis em 2009 foi de 900 milhões de euros, 80% do qual referente às renováveis priveligiadas. Biomassa e biocombustíveis não são devidamente apoiadas
· [MA] sobre a pergunta do nuclear – Não houve capacidade de analisar tudo. O problema analisado foi só eólicas e fotovoltaicas que é grave enquanto não entrarem com o preço da rede. O que não aceitam é condicionamento de qualquer opinião. Não têm um gabinete de estudos e portanto não se podem substituir à obrigação dos partidos e pagar estudos dos próprios bolsos"
henrique pereira dos santos

quarta-feira, abril 07, 2010

80 dólares

Há tempos, bastantes tempos, numa discussão sobre um artigo de um economista que contestava os preços das tarifas para as renováveis, veio à baila o preço de 80 dólares por barril de petróleo como sendo mais ou menos o limiar de competitividade da eólica com outras fontes clássicas de produção de eletricidade.
O dito economista riu-se, disse que o futuro a Deus pertence, mas propôs-se fazer um acordo comigo: ele pagar-me-ia a diferença entre os 80 dólares e o preço diário do barril de petróleo sempre que fosse mais alto, eu pagaria a diferença sempre que fosse mais baixo.
Como não tenho reservas para jogar no casino (e os preços dos combustiveis têm alguma proximidade com a roleta) acabámos a jogar o jogo virtualmente.
Com os problemas da economia mundial dos últimos tempos eu estaria hoje falido (felizmente é tudo virtual) mas sempre que a maré muda (mesmo contra mim) mando um mail a lembrar a aposta.
De maneira geral recebo um mail de volta sempre que assinalo que os preços cairam abaixo dos 80 dólares, "por lembrar o acerto de uma previsão económica, coisa rara em mim" como me responde o meu parceiro de jogatana. Esta semana mandei um mail, finalmente, a lembrar que desde a semana passada estou de novo a ganhar dinheiro (virtual, infelizmente).
Coincidência, a capa da economist que me chegou ao correio na mesma altura é a que reproduzo acima. A verificar-se alguma retoma, suspeito que vou ganhar algum dinheiro virtual durante uns tempos.
Sempre dá para amenizar, moralmente, o preço real dos alimentos que se seguirá.
O que vale é que estes prognósticos só costumam ser seguros quando são feitos no fim do jogo.

Adenda
O pessoal do nuclear percebe de economia. Sabe que para atacar a competitividade da eólica lhe convém não esperar muito, antes que o petróleo demonstre que talvez, dentro de alguns limites, não seja tudo uma parvoíce de aldrabões que conseguem capturar o Estado
henrique pereira dos santos

domingo, abril 04, 2010

As contas não são neutras

Escolhi esta imagem para explicar aos comentadores do post anterior sobre o tema que sei bem (como qualquer pessoa) distinguir chaminés industriais de centrais nucleares e que a oposição ao nuclear não precisa de imagens falsas ou deturpadas, basta-lhe informação rigorosa sobre custos e riscos

Pinto de Sá tem um blog que tem sido muito citado a propósito da política energética, sobretudo no que diz respeito à contabilidade dessa política energética.
Eu fui durante algum tempo um frequentador desse blog, porque é um blog tecnicamente sólido numa matéria em que sou apenas um curioso.
Deixei de o frequentar por Pinto de Sá detestar o contraditório e considerar insultos coisas corriqueiras (muito menos graves do que diz dos outros), considerando inaceitáveis coisas como começar um comentário por “pelo contrário” para assinalar a discordância sobre o post. Para além de pura e simplesmente não publicar coisas razoáveis e educadas apenas porque o contrariam.
Mas o retorno da discussão do nuclear via manifesto “Por uma nova Política energética”, que põe a tónica no custo da energia (esquecendo todos os outros aspectos da política energética), aplanando caminho para a argumentação “o nuclear é barato” leva-me a chamar a atenção para alguns aspectos que a mim, ignorante e não técnico do assunto, me causam perplexidade nas contas de Pinto de Sá que, mercê da agressividade da sua argumentação aliada a uma férrea eliminação do contraditório no seu blog, passam como contas certas e indiscutiveis.
Corro pois o risco de dizer muitas asneiras, mas é o risco de participação cívica de quem recusa a tecnocracia de que o blog “a ciência não é neutra” faz permanentemente a apologia.
Comecemos pelo post onde Pinto de Sá faz uma revisão da matéria dada. Nos comentários, que Pinto de Sá procura imediatamente condicionar dizendo que não devia publicar mas publica para poder dar mais umas lições, é evidente um dos problemas de Pinto de Sá: a escolha criteriosa de informação orientada pelas conclusões a que se pretende chegar.
Por exemplo, Pinto de Sá diz no post que o reforço de potência não produz mais energia e explica tecnicamente porquê. Está tudo certo, excepto que a explicação técnica só é válida para situações em que a potência instalada já não deixa água por turbinar (nos comentários Pinto de Sá reconhece esta limitação de raciocínio, mas o relevante é notar como sabendo isso de princípio, Pinto de Sá tentou passar a ideia de que o reforço de potência não permite aumento de produção. Já em posts anteriores havia comentários chamando a atenção de Pinto de Sá sobre este aspecto mas isso não o impede de truncar informação para melhor convencer os incautos).
Uma segunda limitação deste raciocínio é o de que produzir em horas de cheio não é o mesmo que produzir em horas de vazio e, consequentemente, se o reforço de potência (mesmo nas situações em que a potência instalada anteriormente não deixava água por turbinar) permitir turbinar água mais rapidamente (produzindo mais energia em menos tempo), isso significa que permite aumentar a água usada para produzir energia em horas de cheio e, consequentemente, aumentar a variação de volume das albufeiras o que implica, aumentar a capacidade de encaixe no vazio (na cascata do Douro são apenas algumas horas, mas essas horas podem ser o necessário para adequar melhor a produção ao consumo).
No caso das barragens com capacidade de armazenamento, isso permite de facto produzir mais em alturas de abundância de água, e permite uma melhor gestão de reservas.
A que preço?, é a pergunta certa de Pinto de Sá. É uma pergunta a que convém dar resposta, sem dúvida, mas não vale a pena dá-la de forma a esconder parte da informação.
Outro aspecto constantemente esquecido nas contas de Pinto de Sá é a variabilidade interanual dos nossos recursos hídricos. Parte do armazenamento feito em barragens justifica-se com a necessidade de dar resposta a anos de baixa pluviosidade, matéria de que Pinto de Sá foge como o diabo da cruz (pelo menos que eu tenha visto).
Grande parte dos raciocínios que vi são desenvolvidos com base neste ano hidrológico, claramente fora do padrão.
A correlação estatística entre vento e precipitação de que Pinto de Sá fala (note-se que os comentários de Pinto de Sá neste post são incompreensíveis para quem não saiba que as minhas objecções da altura, depois de publicadas em tempo, foram apagadas, como Estaline apagou Trotsky na célebre fotografia), e da qual saberá tanto como eu porque não é climatologista e usa dados do Norte da Europa para a fundamentar (um erro primário que ninguém faz a não ser por ignorância ou má-fé), é um exemplo de argumento “vale tudo” usado por Pinto de Sá para defender a sua dama. A fundamentação para a afirmação é quase nenhuma, mas mesmo que exista a tal correlação ela só tem efeitos em anos (e provavelmente dias) excepcionais, como este ano hidrológico, em que as albufeiras têm estado 20 a 30 pontos percentuais de armazenamento acima da média. O que Pinto de Sá sabe perfeitamente (até por estar dito nos comentários convenientemente apagados) mas não quer que os seus leitores saibam.
E por fim, mesmo que as contas sobre o impacto nulo da produção de electricidade estejam certas, por razões que desconheço Pinto de Sá abstem-se de fazer as contas ao impacto de ter disponibilidade em horas de cheio, aproveitando horas de vazio.
Mas o mais interessante da forma como são feitas as contas por Pinto de Sá é a longa citação que vou fazer de um dos seus posts, onde fica bem claro que o conceito de energia nuclear barata é um conceito que se baseia no velho princípio capitalista de privatizar os lucros e socializar os prejuízos (neste caso, os imensos custos aqui imputados ao Estado e, consequentemente, retirados das contas do preço da energia nuclear).
E tudo assente num hipotético renascimento nuclear, cujos sinais tardam em aparecer, infelizmente (e digo infelizmente porque seria bom para todos que o nuclear tivesse conseguido resolver os problemas de base de que padece desde que apareceu a prometer amanhãs que cantam, sem nunca os conseguir concretizar):
“15. Portugal precisa de energia eléctrica barata de fontes controláveis, sem aumento de emissões de CO2, sem políticas perigosas para as liberdades cívicas e com a máxima criação de riqueza nacional sustentável. Em particular, a opção nuclear tem de ser cuidadosa e antecipadamente preparada.De tudo o que foi analisado nos pontos anteriores, resulta evidente a necessidade de Portugal considerar seriamente a opção nuclear como estratégia energética e económica, dada a sua controlabilidade, não emissão de CO2 e baixo custo da energia gerada.Não se trata, porém e no imediato, de considerar a compra de uma central nuclear, com a mesma irresponsabilidade e ausência de planeamento com que foi feita a importação de equipamentos de energias renováveis, mas sim e apenas de iniciar a preparação de uma possível futura opção nesse sentido.Dado o conjunto de aspectos a considerar, é necessária uma estrutura organizativa que coordene esses aspectos. E, dados os longos tempos a envolver nas acções e eventuais investimentos associadas, a actividade dessa estrutura não deverá obedecer aos horizontes temporais de calendários eleitorais. Por esta razão, é necessário que a sua criação resulte de um pacto de regime que garanta uma maioria de apoio parlamentar permanente, e é também imperioso que a sua chefia tenha uma independência imaculada de outros interesses que não os nacionais, sendo por isso recomendável que a sua nomeação requeira a anuência da Presidência da República, podendo a atribuição de funções militares de prevenção e segurança facilitar essa tutela Presidencial. Vale a pena recordar, aliás, que a Junta de Energia Nuclear criada há mais de 50 anos dependia directamente de Salazar, e não do Governo de ocasião. Aliás, o aqui proposto é a refundação de uma Junta como essa, para iniciar a preparação de uma possível opção nuclear!Esta Nova Junta da Energia Nuclear deverá dispor de uma Comissão Executiva com pelo menos 3 membros, e constituir um Conselho Consultivo onde estejam representados reconhecidos peritos das áreas relevantes e com um leque de sensibilidades ideológicas diversificado, que garanta o escrutínio e a transparência de todas as actividades desenvolvidas. As actividades prioritárias da Comissão Executiva, a terminar no prazo de um ano, deverão incluir:a) A recolha e análise de todos os estudos parcelares realizados no passado sobre a opção nuclear para Portugal;b) A constituição de uma equipa interdisciplinar de técnicos de primeira qualidade, cobrindo nomeadamente os aspectos das engenharias civil, mecânica, de controlo e automação, a Física nuclear tecnológica, a Geologia, as Finanças e as Seguranças civil e militar;c) A identificação das normas internacionais, das necessidades de recursos técnicos especializados futuros e dos projectos em curso ou lançamento noutros países.Numa segunda etapa, esta Nova Junta deverá preparar, num prazo adicional de 4 a 5 anos, já com a equipa técnica de alta qualidade criada na 1ª etapa e uma definição de objectivos mais precisa:1) O estudo das opções tecnológicas e comerciais disponíveis internacionalmente;2) O estudos dos possíveis modelos de financiamento;3) As normas técnicas nacionais, em harmonia com as internacionais existentes e em particular as europeias, detalhadas e precisas, a aplicar nos projectos de centrais;4) A formação dos recursos humanos necessários ao acompanhamento e fiscalização de obras;5) A pré-selecção de locais apropriados;6) A definição das actividades económicas sustentáveis para as quais se possa associar a máxima incorporação nacional, da preparação do combustível ao tratamento de resíduos, passando pelo aproveitamento dos jazigos nacionais de Urânio;7) As colaborações internacionais desejáveis, técnicas, económicas e de segurança;8) A preparação de um Caderno de Encargos rigoroso para uma Central Nuclear.9) O debate público aberto e esclarecedor das opções em apreço.Finda esta preparação, que se iniciada já poderia estar concluída em 2015 ou 2016, o país estaria em condições de decidir se avançaria ou não para a construção de uma Central nuclear. Até lá muita coisa evoluirá no domínio das opções internacionais de energia nuclear, dando tempo a que se venha a aproveitar a experiência alheia. Se por volta de 2015 ou 2016 se tiver efectivamente verificado o renascimento do Nuclear, Portugal estará em condições de fazer a opção correspondente, podendo vir a ter a sua primeira central a tempo de substituir a de carvão em Sines, dentro de uma década. Se não for essa a evolução que ocorrer, também não terá sido grande a perda incorrida nesta preparação - afinal o país custeou por mais de 50 anos uma Junta de Energia Nuclear de que não retirou qualquer préstimo!A ausência da preparação desta opção é que poderá ser trágica!”

Extraordinário. Realmente, como defende o manifesto, o melhor é alguém independente fazer o estudo técnico-económico das opções energéticas, porque se as contas forem deixadas ao pessoal do nuclear o resultado está definido à partida.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, abril 02, 2010

Manifesto nuclear



Aqui pode ser lido integralmente um manifesto sobre uma "nova política energética".
E é bom que seja lido e discutido.
A mensagem explícita central do manifesto é esta:
"Todas as estratégias de saída da crise se baseiam na necessidade de aumento da competitividade empresarial, que o custo da energia irá prejudicar."
É uma mensagem clara, linear e apelativa. Mas onde está prejudicar, deveria estar afectar, ou condicionar. Primeiro por uma questão simples de português: o custo em si não prejudica ou beneficia o que quer que seja, neste caso, por exemplo, um custo baixo da energia não prejudica a competitividade. Segundo porque mesmo que se subentenda custo alto, onde está apenas custo, não é líquido que o custo alto da energia prejudique a economia.
Basta dar um salto aqui e verificar como o preço da gasolina, per si, tem pouca relação com o desempenho económico dos países e, a sentir-se alguma relação olhando para o gráfico, o que vemos vagamente é os países com preços mais altos tenderem a ter também melhor desempenho económico.
Já várias vezes tenho aqui citado o artigo "Green and competitive" de Michael Porter e Class van der Linde para explicar que a pressão que o custo de um factor impõe a um processo produtivo, se adequadamente sentida por todos os que competem nesse mercado, tem um efeito de racionalização no seu uso que se traduz quer em maior inovação, quer em maior competividade, quer em poupança (racionalização e eficiência) no uso do recurso.
Quer isto dizer que é indiferente o preço da energia? Seguramente não estou a dizer isso e já várias vezes escrevi aqui contra a política energética deste Governo, exactamente por não avaliar convenientemente esse custo e não o tornar tão claro e explícito quanto possível. O custo alto da energia é um problema, mas não é um drama insolúvel para a economia. Dependendo da forma como é gertido, pode ter efeitos positivos ou negativos. Ou melhor, terá sempre efeitos positivos e negativos, mas o seu balanço pode ser mais positivo ou mais negativo.
Esclarecida esta questão, vejamos então ao que vem o dito manifesto.
Os oitos pontos em que está dividido o manifesto são críticas à política de produção de renováveis. Críticas essas que partilho em grande parte, como tenho escrito por aqui.
Mas o que gostaria era mesmo de perceber em que consiste a nova política energética que o manifesto promete em título. Vejamos então o grande final do manifesto:
"Assim, os signatários consideram fundamental exigir uma avaliação técnica e económica, independente e credível, da política energética nacional, de forma a ter em conta todas as alternativas energéticas actualmente disponíveis, com o objectivo inequívoco de reduzir os preços da energia com que são confrontados os cidadãos e as empresas, a par de garantir uma maior segurança energética e uma verdadeira redução do défice da balança comercial."
Ora batatas.
Tanta coisa, tanta gente importante, tanto cérebro de excepção para pedir que uma avaliação técnica e económica da política energética inclua o nuclear, sem que as colunas vertebrais que suportam os ditos cérebros tenham tido sequer a hombridade e coragem de o dizer de forma clara.
Sobre eficência energética? Zero. Sobre racionalização de consumos? Zero? Sobre política de transportes, nomeadamente de transportes públicos? Zero. Sobre água quente solar? Zero.
O objectivo da política energética é reduzir o seu preço? Têm mesmo a certeza que é isso? Mesmo que essa redução de preço implique maior ineficiência, como qualquer dos subscritores da área da economia e da gestão tem obrigação de saber?
E já agora, porque não pedem uma política para o sector financeiro cujo objectivo seja diminuir o preço dos serviços financeiros e do dinheiro?
E também uma política social que tenha como objectivo reduzir o custo do trabalho?
Eu que não sei tanto como tanto engenheiro e tanto economista que se manifesta pensei que o objectivo da política energética era abastecer o país de forma eficiente, competitiva e resiliente às alterações bruscas em que o mercado da energia é fértil (hoje o preço do barril de petróleo está ligeiramente acima dos 80 dólares e o euro tem vindo a desvalorizar-se face ao dólar, dois factores que concorrem para que o preço de mercado da energia eólica se aproxime rapidamente do preço administrativo estabelecido. Quem diria).
Mas eu concordo com o manifesto: é precisa uma boa avaliação técnica e económica da política energética. É ridículo chamar a isso uma nova política energética, mas é um passo para lá chegar. E espero que se inclua o nuclear nessa análise. Mas que no preço do nuclear estejam incluídos todos os seus custos reais, como o custo da investigação, que tem sido suportada pelos Estados, o custo de desmantelamento, que tem sido passado para as sociedades, o custo dos riscos associados, que tem sido omitido porque ninguém segura os riscos a não ser os Estados, o custo da resolução do problema dos resíduos, que tem sido chutado para as gerações futuras, e por aí fora. E que nessa análise se inclua o custo da poupança, da eficiência energética, da água quente solar, dos transportes públicos e por aí fora.
Pena é se continuarmos entre a propaganda delirante do Governo nesta matéria e manifestos nucleares disfarçados de cordeiros pascais.
henrique pereira dos santos

quarta-feira, março 17, 2010

A energia e o movimento ambientalista

Imagem do site da EDP, esses malandros

Na sequência deste post, e comentários subsequentes, resolvi hoje dar uma volta pelos sites das três principais ONGA nacionais (a propósito de um comentário sobre o plural de Onga existe consenso no sentido do apóstrofo no plural onga's estar inequivocamente errado, existe alguma dúvida sobre ONGA não tem plural porque é uma sigla, ou se o tem por já ser um acrónimo, penso eu).
Ontem foi apresentada pelo Governo a Estratégia Nacional da Energia 2020 e seria por isso natural que perante uma das mais relevantes questões ambientais que temos pela frente houvesse opinião estruturada por parte do movimento ambientalista.
No Geota o último comunicado da associação que se encontra no seu site diz que o GEOTA fará parte do Júri do concurso das sete maravilhas naturais de Portugal. Tanto quanto me apercebi, não existe nada no site referente à estratégia nacional de energia.
Na LPN o último comunicado que existe diz que a LPN se associa à iniciativa "Plante uma árvore" da representação permanente da Comissão Europeia em Portugal. Esta iniciativa, que a mim me parece meritória nas intenções e processos, tem sido criticada pelo uso de espécies exóticas nas acções de vários parceiros (não o caso da LPN, mas vale a pena ver com que se entretem a LPN a propósito da biodiversidade), para além da estranha bizarria da autoridade nacional para a biodiversidade não fazer parte dos parceiros na iniciativa. Tanto quanto me apercebi, não existe nada no site referente à estratégia nacional de energia.
A QUERCUS tem posição sobre a estratégia nacional para a energia nos próximos dez anos. Está aqui a posição para quem a queira ler sem intermediários.
E vale a pena ler. A ideia principal está naturalmente no título que a QUERCUS dá ao comunicado: "um bom começo, mas contradições nas prioridades".
Importam-se de repetir? Um bom começo? Começo, ao fim de não sei quantos anos de decisões?
Lembro-me de quando o Governo anterior tomou a decisão de contrariar o regulador, não aumentando o preço da electricidade para resolver o défice tarifário, ter perguntado a um dos principais dirigentes da QUERCUS, e directamente envolvido nesta matéria, se a QUERCUS não tinha posição sobre isso. A resposta é que era uma questão de mercearia, não fazia sentido a QUERCUS envolver-se nisso. Verifico que de facto é assim que a QUERCUS pensa: o preço, o tarifário e esses pormenores, que traduziriam o princípio básico do utlizador pagador, estão ausentes da posição da QUERCUS. Não são por isso uma questão central para a QUERCUS (aparentemente o desenvolvimento sustentável, para a QUERCUS, não inclui o pilar da economia). Registo que a QUERCUS pretende discutir uma estratégia de energia omitindo a discussão dos preços.
O lead do comunicado, tirando a primeira parte que não interessa nada, reza assim:
"A Quercus considera que a referida estratégia continua a não criar um novo paradigma de coerência das políticas governamentais em matéria de energia, na medida em que as políticas dos últimos anos continuam a ser muito contraditórias, com investimentos programados nos transportes, principal área da nossa dependência energética."
Ou seja, a QUERCUS está a dizer que a política do Governo é incoerente, mas isso não a coíbe de a classificar como um bom começo. A quadradatura do círculo no seu esplendor, que retrata bem o comunicado emitido pela QUERCUS como procurarei fazer notar e que é de facto a marca de água da QUERCUS nas suas posições públicas há muito: criticar sim, em questões pontuais até fortemente e com acções jurídicas, mas nunca em caso algum dizer alto e bom som, com a clareza que seria exigível, que este Governo é o maior embuste ambiental que se possa imaginar.
Dizer que esta política energética não tem nada de ambiental, é apenas filha da falência do Estado e do desespero financeiro que obriga o Estado a empenhar os recursos naturais numa política suicidária de captação de investimento, isso a QUERCUS nunca fará nas actuais circunstâncias.
O que a QUERCUS faz é tocar e fugir, brincar permanente ao gato e ao rato da crítica, neste comunicado.
"Muitas das áreas abrangidas têm sido parte de planos e intenções anteriores, sem que Portugal tenha conseguido cumprir objectivos iniciais (ex. água quente solar e biomassa), e principalmente tenha visto reduzir de forma continuada o seu consumo de electricidade e a sua intensidade energética (indicador nunca referido durante todos os discursos da apresentação)".
Ou seja, a QUERCUS diz que o mais provável é ser tudo aldrabice, mas isso não a coíbe de considerar a estratégia um bom começo.
O melhor é que depois de passar esta medalha de aldrabice ao Governo (este e os anteriores), refere como o primeiro aspecto positivo:
"- Metas apresentadas em diferentes áreas (redução da dependência externa dos combustíveis fósseis; aumento das energias renováveis, aumento do emprego, e aumento do peso do PIB associado ao sector energético) são significativas, bem como a identificação da área da energia como crucial para o desenvolvimento sustentável do país;".
Ou seja, o que o Governo diz não é para levar a sério e o mais positivo da estratégia é o que o Governo diz, mesmo não sendo para levar a sério. Pergunto na minha ingenuidade: se os planos e intenções anteriores demonstram a sua inutilidade, como podem ser metas e coisas que tal ser consideradas como elementos positivos da estratégia?
Coerente com o seu princípio de que os preços são questões de mercearia, a QUERCUS afirma como segundo aspecto positivo:
"- Aumento em dez vezes da potência a instalar para produção de electricidade renovável de origem solar;"
Extraordinário, depois de considerar que a água quente solar é um bom exemplo de como as intenções ambientais do Governo não são para levar a sério, a QUERCUS acha bem que a estratégia opte por aumentar em dez vezes a produção eléctrica de energia solar que é, por enquanto, ruinosa. Não seria normal a QUERCUS dizer que o Governo se devia deixar de parvoíces com a produção eléctrica solar enquanto não levasse ao limite as potencialidades da água quente solar?
O terceiro aspecto positivo é a recusa da energia nuclear, que não vale a pena comentar. Não porque o assunto não seja importante, mas porque considerar positivo que não esteja em cima da mesa o que o Governo (e já agora, quase toda a oposição) sempre disse que não deveria estar, não deixa de ser sintomático.
O primeiro dos aspectos negativos:
"- Prioridade maior às energias renováveis em relação à redução de consumos e eficiência energética (quer no conteúdos das medidas apresentadas, quer em investimento previsto);"
Finalmente de acordo com a QUERCUS. Mas, pergunto eu, não é este aspecto negativo, por si só a demonstração de que o que está em causa nesta estratégia não tem nada, mas rigorosamente nada, de preocupação ambiental. Não é esta a pedra de toque que separa uma estratégia energética de base ambiental de uma estratégia energética de captação de investimento à custa da justificação moral ambiental que torna politicamente aceitável um tarifário que todos pagaremos em ineficiência e desemprego, sem ganhos ambientais reais?
"- Os investimentos em energias renováveis arriscam-se a ser demasiado extensos e a agravar fortemente os conflitos com o ambiente, nomeadamente através de barragens e eólicas onde as áreas disponíveis são cada vez menores."
Ou seja, a QUERCUS considera entre os aspectos positivos as metas estabelecidas para as energias renováveis, mas considera nos aspectos negativos o excesso de investimento nas duas principais e mais competetivas fontes de energia renovável. Resumindo, o que quer afinal a QUERCUS? Não quer discutir os preços e os custos, não quer o nuclear (eu também não), não quer barragens nem eólicas em excesso (faltaria definir o que é o excesso mas a QUERCUS depois pensa nisso) e quer aumentar dez vezes o eléctrico solar (a mais irracional das apostas de produção a partir de fontes renováveis, neste momento), querendo ainda melhorias de eficiência (eu também) embora não explique bem como.
O ponto seguinte mostra bem a vocação actual da QUERCUS para o contorcionismo:
"- No sector dos transportes, nomeadamente o papel do transporte colectivo, esteve completamente ausente. A prioridade foi para o automóvel eléctrico que apesar das suas inegáveis virtudes ambientais deverá ser apenas um eixo de uma política mobilidade que não está a funcionar (veja-se as Autoridades Metropolitanas de Transportes), bem como um visão integrada em termos de ordenamento do território. A redução da necessidade de utilização do transporte individual é fundamental para as famílias portuguesas reduzirem custos e o país reduzir a sua dependência energética;"
Tal como no primeiro ponto, esta é mais uma demonstração cabal da falta de perspectiva ambiental nesta estratégia. Mas ainda assim a QUERCUS ganha ânimo para incluir uma frase sobre as "inegáveis virtudes ambientais" do carro eléctrico? Inegáveis? Depois de se criticar a aposta nas barragens e eólicas? Depois de querer pôr a tónica na redução de consumos ainda se consegue vislumbrar inegáveis virtudes ambientais no carro eléctrico? Tudo isso no mesmo parágrafo em que "en passant" se diz, como se de coisa menor se tratasse, que os transportes colectivos estão ausentes da estratégia?
E por fim, num tique próprio da QUERCUS, o comunicado acaba com uma conversa de comadres sobre os meandros internos do Governo, dizendo que o ambiente vai ceder à economia. Francamente, acham que é mesmo uma questão importante? Se há coisa que Sócrates tem feito bem é manter a consistência interna dos seus Governos, e eu também acho que assim deve ser. Não há políticas do Ambiente e da Economia, há políticas do Governo. Não é o ambiente que vai ceder, é o Primeiro Ministro que define essa política.
Seria pedir muito à QUERCUS que explicitasse de forma clara e inequívoca que esta estratégia corresponde à opção política do Primeiro Ministro:
empolar artificialmente o investimento no sector da energia durante o próximo ciclo eleitoral, justificar enganadoramente essa opção com razões ambientais, as quais na verdade estão completamente ausentes das suas preocupações políticas, e deixar a factura a pagar em competitividade, desemprego e dívida nacional para quem vier depois.
Meus caros dirigentes do movimento ambientalista,
podem com certeza acusar-me pela enésima vez de eu ser anti-onga, mas francamente, quando numa questão ambiental estratégica como é a energia, a LPN e o GEOTA dormem placidamente, e a QUERCUS faz um dos mais indecorosos exercícios de contorcionismo político que tenho vito em matéria ambiental eu respondo-vos que se há alguém que está de facto a matar as ONGA são vocês, não sou eu.
Mesmo que estejam, como creio que na maioria estarão, cheios de boas intenções.
henrique pereira dos santos

terça-feira, março 16, 2010

O trigo e o petróleo

Em 1916 António de Oliveira Salazar publicou a sua tese "A questão cerealífera. O trigo", que não li mas um dia lerei. O que li foram alguns comentários sobre o que pensava em 1916 o académico Oliveira Salazar. Aparentemente pensava que o país não era particularmente vocacionado para a produção de trigo e que a sua agricultura se deveria orientar, a prazo, para "culturas hortícolas e pomícolas, isto é, para a produção de legumes, frutas, flores, videiras e oliveiras", para citar a leitura que dele faz Pedro Lains.
Mas, e a questão não é irrelevante, isso seria a prazo, porque no imediato havia problemas estruturais na agricultura que a impediam de cumprir a sua vocação e um défice alimentar que seria preciso colmatar por razões estratégicas.
Terá sido por isso que o político Oliveira Salazar, mais tarde, cerca de 1930, reforça o regime de protecção da produção de trigo.
Lembrei-me disto quando li hoje no jornal o Ministro Vieira da Silva a fazer umas contas à poupança de petróleo no sector energético:
"Prevemos aumentar para 8 600 MW de capacidade instalada para a hídrica, 8 500 MW de eólica e atingir os 1 500 MW de solar de todas as dimensões (térmico e fotovoltaico). Este mix significa uma poupança/ ano de cerca de trinta milhões de barris de petróleo equivalente, mais ou menos 2 000 milhões de euros, a preço de hoje."
A jornalista que o entrevista, da secção de política ou de economia, com certeza, não lhe faz as perguntas que seria razoável esperar:

1) Porque se fala em capacidade instalada em vez de energia produzida expectável?

2) Como é que o solar térmico entra na produção de electriccidade?

3) A que preço fica a dita poupança em barris de petróleo no sobrecusto do tarifário de electricidade e em custo de oportunidade para os investimentos necessários a essa poupança.

Salazar, muito melhor economista e político que a maioria dos que por aí andam (sem que isso signifique qualquer concessão em relação às suas opções políticas, muito piores que as de muitos dos que por aí andam), não justificaria economicamente, que eu saiba, a campanha do trigo, mas sim com a soberania da nação.
Se o que se pretende é justificar economicamente a política energética do Governo seria bom começar por deixar de lado a propaganda e avaliar realmente a questão tal como ela é, com todas as suas virtudes e defeitos.
Na prática o Governo está empenhado numa campanha do trigo (neste caso substituído por petróleo), com custos económicos e ambientais que escamoteia permanentemente.
Do outro lado existe também uma campanha de sinal inverso, que pretende que todo o sobrecusto actual de produção de electricidade a partir de renováveis é injustificado e economicamente ineficiente, e que conclui sempre que a solução está na energia nuclear.
Os preços do petróleo são demasiado voláteis e incorporam mal o longo prazo e as suas externalidades ambientais negativas para que se ponham de lado todas as formas de apoio à produção alternativa de electricidade a partir de fontes renováveis, para já não falar da eficiência energética cujo principal motor será, com certeza, o facto do consumidor suportar preços reais de produção e não preços martelados politicamente (incluindo o preço da água de Alqueva, por exemplo, completamente irrealista do ponto de vista dos custos de disponibilização aos utilizadores).
Não é possível a produção responder de imediato às condições instantâneas de mercado, pelo que haverá sempre alguma ineficiência aceitável para que possamos garantir a capacidade de resposta numa situação de escalada dos preços do petróleo e outros combustiveis fósseis (que, ao contrário do que pretendem os nuclearistas, influenciará também os preços da electricidade produzida pelo nuclear).
Clarificar economicamente a política de produção de electricidade é pois uma questão central para a racionalidade das decisões.
Olhar para os efeitos negativos da campanha do trigo talvez nos ajude a perceber os riscos destas campanhas patrióticas de poupança de barris de petróleo, a um preço que se esconde na propaganda.
É que poupar cem euros de petróleo porque gastei 300 a construir um sistema alternativo de abastecimento de electricidade não é a coisa mais economicamente racional. Embora possa haver outras razões, não económicas, como era o caso da soberania nacional defendida por Salazar a propósito do trigo. O que de qualquer modo o levou a desvalorizar os efeitos na fertilidade dos solos decorrentes da opção política tomada, que agravaram os problemas estruturais da produção agrícola por muitos anos (mesmo que inicialmente disfarçados pelo crescimento exponencial do uso de adubos).
Havendo razões não estritamente de economia de curto prazo, e eu acho que há algumas, convém explicitá-las e pôr-lhe o preço bem à vista, deixando às pessoas a possibilidade de escolher o que querem para o seu futuro.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, janeiro 25, 2010

Fabricar caro ou importar barato?

neste post me tinha referido ao facto da importação de electricidade implicar menos custos que a sua produção a partir de eólicas (em rigor com quase todas as outras fontes também, em grande parte do dia), pelo menos aos níveis actuais dos preços de petróleo.
Acho que vale a pena discutir isso, clarificar isso, não embarcar na propaganda de que se pouparam não sei quantos milhões em importações quando de facto se gastou mais para produzir a mesma quantidade de energia.
Mas também acho que vale a pena combater a ideia do outro extremo de que se está perante um absurdo mais que demonstrado e coisas que tal, como faz o ciência não é neutra.
Há um preço, convém defini-lo com clareza, trocamo-lo por um almoço e o que temos a discutir é se o almoço vale o preço, com racionalidade e frontalidade.
A demonstração (pelo menos é assim que o seu autor lhe chama) do absurdo eólico é feita com base em preços de uma situação concreta que o autor extrapola com base em inferências mais que duvidosas, usando correlações climáticas escandinavas, por exemplo, usando dias concretos para tirar ilações gerais e coisas do género.
Não pretendo demonstrar que o autor da demonstração está errado.
Só pretendo expor dúvidas sobre os seus cálculos, deixando aqui dois gráficos e uma figura: o primeiro gráfico compara a situação demonstrativa usada (um dia concreto, a azul) com a média dos preços ao longo do ano (para ver a sua representatividade), o segundo dá uma visão dos preços spot de todo ano de 2009 e mais uns dias de 2010 (os dias mais próximos estão à esquerda, como a situação dita representativa, o dia 1 de Janeiro de 2009 está à direita) para se ter a noção do que representa a situação que se pretende demonstrativa e a figura mostra a situação das albufeiras em Dezembro de 2009, que se pretende que seja demonstrativa da tal situação absurda, quando na verdade está bastante acima da média.
Volto a repetir, são dúvidas de ignorante.




henrique pereira dos santos

domingo, janeiro 24, 2010

Neutro, seguramente não, ciência, talvez



O blog nuclearista A ciência não é neutra é um blog a que vou de vez em quando aprender umas coisas.

Vou menos do que iria se não tivesse alguma dificuldade em lidar com pessoas que insultam os outros com a maior das facilidades mas demonstram uma hiper-sensibilidade à menor crítica que lhes seja feita.

Como acontece com a generalidade dos nuclearistas, a crítica às energias renováveis é uma constante. É uma crítica muitas vezes justa, e partilho com aquele blog alguma apreensão pela ideia instalada de tudo o que é renovável é bom e o que é preciso é andar (talvez por ouvir no fundo dessa argumentação o eco do para Angola em força que a pátria não se discute, agora substituído por renováveis).

Também acho que é preciso discutir o preço dessa política e tenho poucas dúvidas de que na sua base não está qualquer preocupação ambiental mas sim o facto das renováveis serem um meio fácil de captar investimento sem aumentar o défice. E embora com algum prejuízo da competitividade, a política compensa porque isso da competividade é coisa mais difícil de dar por ela e pode sempre dizer-se que são os empresários que são maus.

Mas o conjunto de posts sobre o facto de pontualmente se estar a produzir energia a um preço de 9 cents o kWh e a entregar de graça a Espanha merece alguns comentários de um ignorante como eu, que não comento lá no sítio dada a tendência do dono do blog se sentir insultado por dá cá aquela palha.

O essencial da questão é que em algumas alturas chove muito, venta muito e há pouco consumo. Nessas alturas, como o comprador está obrigado a comprar toda a electricidade eólica produzida, ele é obrigado a entregá-la em qualquer lado. Como não há consumo suficiente em Portugal, entrega ao lado. Mas como ao lado estão com o mesmo problema, e não precisam da energia, aceitam-na, mas de graça.

Onde começam as minhas perplexidades?

Em primeiro lugar no facto do autor do blog deixar entender que toda essa energia está a ser produzida a 9 cents por kWh, o que me parece que não será bem assim porque aqui estará incluída alguma energia produzida de outra forma (hídrica, por exemplo).

Depois, porque daria a impressão de que durante todo o tempo em que isso acontece a exportação seria a custo zero (enfim, num post mais à frente lá se fala da exportação em horas de cheio, que será a 5 cents, e há pelo meio um diagrama que mostra variações diárias).

Também não percebo por que razão se escolhe como diagrama demonstrativo um que diz respeito a um Domingo.

E tenho ainda dificuldade em perceber como se tiram conclusões gerais de uma situação particular (todos os dias há produção de muitos outros bens que não se vendem, desde bilhetes de avião, a quartos de hotel a outros menos perecíveis, como bananas), em vez de se fazer a análise global da questão.

Reparo ainda, que com certeza por distracção, quando se demonstra a correlação entre precipitação e vento se esquece a frase final do gráfico: essa correlação é particularmente verdadeira para barragens sem albufeira. Claro que pegar em correlações climáticas escandinavas e aplicá-las em Portugal é um detalhe, no meio disto tudo, incluindo essa coisa da irregularidade das chuvas nas nossas condições, que faz com que haja muitos anos em que faz vento, chove, mas ainda assim muitas albufeiras (que muitas vezes são de regularização inter-anual) estão muito menos que cheias.

Enfim, estou de acordo na necessidade de discutir o preço da política das renováveis (nomeadamente face à apatia perante a eficiência energética), estou de acordo na necessidade de introduzir racionalidade económica e etc..

Mas quando vejo tantas coisas a levantar-me dúvidas sobre a forma como um nuclearista lida com as renováveis fico com a sensação de que talvez as renováveis sejam mais competitivas do que parece à primeira vista, sobretudo face ao nuclear.

Mas isto é um ignorante a falar, claro.

henrique pereira dos santos

quinta-feira, janeiro 07, 2010

Perplexidades de um ignorante

Um dia destes à conversa com João César das Neves vi este gráfico que representa o preço do petróleo a preços de 2008 (ou seja, limpo do efeito da inflação).
Acho o gráfico muito interessante, acho interessante que João César das Neves (se bem interpreto a conversa) não veja no gráfico qualquer aumento do preço do petróleo, apenas volatilidade (eu não sei contrapôr, a volatilidade é indiscutível, se desde o contra-choque petrolífero de 1986 a tendência é de estabilidade volátil ou se é de aumento suave acho que não se pode dizer com segurança a partir deste gráfico).
Mas este gráfico relaciona-se com outra ideia muito difundida nos meios nuclearistas, que em grande medida coincidem com os opositores das renováveis (há uns poucos que não são nem contra nem a favor de renováveis, limitam-se a discutir a racionalidade económica de as tratar excepcionalmente no tarifário): a energia cara tem custos económicos insuportáveis.
O exemplo que é dado para o efeito negativo das renováveis é a Dinamarca, que tem o custo de produção mais alto da Europa (dizem, não vou verificar).
E daí? Não é a Dinamarca muito mais rica que muitos outros que produzem electricidade a preços mais baixos?
Alguém conhece um estudo concreto que relacione o custo de produção da electricidade num país com o seu desempenho económico?
henrique pereira dos santos

quinta-feira, dezembro 31, 2009

É bom saber bem o preço do almoço


Estive a ler dois estudos da APREN: um sobre os benefícios das energias renováveis (impacto económico, impacto no emprego e impacto ambiental) e outro sobre a tarifa aplicada a estas energias.
Não sou especialista e confesso que fiquei com algumas dúvidas sobre a forma como o assunto é tratado, dúvidas essas que gostaria de partilhar.
A primeira opção que me faz confusão é a do estudo sobre os benefícios das energias renováveis incluir toda a grande hídrica, o que complica toda a análise, sem que se percebam as vantagens de discutir a grande hídrica neste contexto.
Só para dar um exemplo de como a análise se complica com esta opção, basta pensar nos impactos ambientais. No estudo apenas se discutem emissões, o que pode ser uma opção aproximada da realidade para a eólica, ou a fotovoltaica, cujos impactos ambientais directos são razoavelmente escassos. Mas para o fazer para a grande hídrica seria necessário entrar em linha de conta, por exemplo, com os impactos das barragens na linha de costa e no déficit de sedimentos, ou com os seus pesados impactos na biodiversidade, matérias em que o estudo nem sequer toca.
Da mesma forma, toda a discussão económica se complica porque a grande hídrica não tem tarifas especiais e existe desde meados do século XX, o que significa que muito do que se diga sobre o seu impacto económico é quase história.
Mas adiante, tentando fugir dos problemas que esta opção introduz.
No estudo é feito um cálculo da redução das importações que é bastante estranho. Em primeiro lugar apenas contabiliza as importações evitadas mas não as induzidas pelo investimento em renováveis (que as há, evidentemente, em tecnologias, equipamentos, energia, etc.). E depois contabiliza o valor das importações evitadas mas não explica a que preço. Por exemplo, com o estudo sobre a tarifa, em que não entra a grande hídrica, ficamos a saber que para poupar 290 milhões de euros em importações gastamos 662 milhões. É um conceito de poupança um pouco estranho, mesmo tendo em atenção que se está a substituir uma importação por uma produção interna.
Outra das coisas interessantes é que apesar da produção ter aumentado substancialmente, o peso das renováveis no consumo mantém-se estável, ou seja, o crescimento da produção de renováveis não tem servido para substituir consumos de combustiveis fósseis (e em todos os estudos se fala sempre apenas da electricidade quando no consumo energético a electricidade é apenas uma parte e nem sequer a maior) mas simplesmente para manter o mesmo grau de cobertura dos consumos, o que quer dizer que o crescimento do consumo (de electricidade, a situação é bem pior se incluirmos os outros consumos energéticos) anula grande parte da vantagem ambiental do crescimento da produção de renováveis.
O mais difícil de aceitar para mim é a análise do impacto macro-económico. A verdade é que o estudo não entra em linha de conta com o aumento do custo da energia na competitividade dos nossos produtos transacionáveis (quer na exportação, quer no confronto com produtos importados), o que não seria grave porque a maior parte do sobrecusto da produção de renováveis assenta nos consumidores não industriais, contra toda a lógica de uma política de eficiência energética. Mas, o que já me parece pouco compreensível, não entra também em linha de conta com o efeito da perda de rendimento nas classes médias induzido pelo sobrecusto do preço de electricidade induzido pelas renováveis (0,008 por Kwh em 2008, um pouco mais de 5% da factura eléctrica de cada consumidor, mas este foi um ano especialmente favorável, com o petróleo a preços muito altos. Em anos normais esse sobrecusto aumenta, provavelmente até aos 15%).
O cálculo da redução da dependência energética não é feito com base nos saldos de importação e exportação, mas apenas com base nos valores de energia produzida que é considerada integralmente como produção de substituição de importações, o que pode nem sempre ser verdade. Visto as centrais termo-eléctricas terem de manter uma produção mínima (que é relevante) muita da energia eólica produzida irá substituir a produção hidro-eléctrica. Dir-se-á que em qualquer caso isso se traduz num maior armazenamento a usar noutras alturas. Sim, poderá acontecer, mas na cascata do Douro, em que não há capacidade de armazenamento, não é bem assim. Ou seja, o estudo parece demasiado simplista nalguns aspectos relacionados com a redução da dependência energética (não discutindo sequer se vale a pena assumir como intrinsecamente boa essa redução, matéria em que os economistas não estão todos de acordo).
Note-se, em qualquer caso, que como nas renováveis se incluíram todas as hídricas, alguns destes factores actuam há cinquenta anos, se que se vislumbre bem de que forma reduziram a dependência energética de Portugal e o seu crónico endividamento.
Com tudo isto não quero dizer que não há razões para investir em renováveis, que as há, dentro de limites razoáveis.
O quero realçar é que não é escondendo o preço do almoço que se consegue almoçar com a melhor relação qualidade preço.
O preço de ter renováveis deveria, pelo contrário, ser bem explícito e evidente. Ao fazê-lo talvez começasse a poder comparar-se com os custos das várias alternativas, incluindo os custos de redução de consumos e de investimento em eficiência energética.
Pode ser que assim surgissem nestes estudos indicações sobre o custo e benefício da água quente solar. É escandaloso o uso de tarifas astronómicas para pagar electricidade em centrais fotovoltaicas ao mesmo tempo que a água quente solar continua a ter o apoio que lhe foi dado no programa absurdo que foi montado este ano.
Não resisto a referir que se a poupança de energia com a água quente solar fosse paga ao preço do Kwh fotovoltaico, o país rapidamente estaria a instalar paineis solares térmicos em todos os cantos e esquinas, com benefícios económicos e ambientais muito mais relevantes. É que nas contas da água quente solar as análises de custo/ benefício as poupanças são valorizadas pela tarifa final ao consumidor (consideremos por exemplo a tarifa de 0,13 euros por Kwh), o que implica o retorno do investimento na casa dos sete/ oito anos. Acontece que a tarifa de compra da electricidade solar fotovoltaica anda acima dos 0,30 euros pro Kwh (corrijam-me os dados por favor). Ou seja, calculando a energia poupada por painel de solar térmico, uniformizando-a em Kwh, e aplicando a valorização assim obtida aos estudos de custo/ benefício da instalação de paineis solares térmicos, o tempo de retorno do investimento seria pelo menos duas vezes menor. Se esse benefício que hoje existe ao tarifário fotovoltaico fosse transformado num subsídio à compra de painéis solares térmicos (digamos, a energia poupada em cinco anos, por exemplo), mesmo que se lhe juntasse o custo financeiro associado a antecipar todo o benefício de cinco anos para o momento da compra (por forma a evitar a ilusão financeira que leva as pessoas a optar por comprar mais barato agora, gastando mais a vida toda), era bem provável que o investimento em paineis solares térmicos explodisse e a poupança assim conseguida continuasse a ter efeitos económicos positivos no resto da vida útil dos painéis, em vez de pesar na conta da electricidade de todos durante pelo menos quinze anos, como acontece com a actual tarifa do fotovoltaico.
O mesmo se poderia dizer da poupança induzida por soluções mais eficientes energeticamente, quer nos edifícios, quer na produção.
Repito, para que não existam dúvidas, que sou fortemente favorável à produção de electricidade a partir de fontes renováveis. Mas não embarco em cenários cor de rosa em que os benefícios são empolados e os custos varridos para debaixo do tapete.
Com tudo o que tem sido feito para produzir a partir de fontes renováveis a importação de produtos petrolíferos continua a aumentar porque a política energética portuguesa é desastrosa, ambiental e economicamente.
Entre outras razões porque se foge da discussão económica do assunto, substituindo-a por uma propaganda agressiva sobre a produção de electricidade a partir de fontes de energia renováveis. Um exemplo típico de como boas intenções ambientais podem ser manipuladas para justificar opções económicas provavelmente erradas.
Os estudos da APREN, que tanto quanto sei irão ser disponibilizados no seu site, são instrumentos importantes para esta discussão, em especial o estudo sobre a tarifa e as razões que justificam a tarifa especial da eólica (em rigor, eu ainda não percebi o que justifica a tarifa especial da fotovoltaica tão elevada) que me parece bem mais sólido que o estudo da Deloitte sobre os benefícios da produção de energia a partir de fontes renováveis, quanto a mim excessivamente cor de rosa e omitindo questões demasiado relevantes.
henrique pereira dos santos

domingo, dezembro 27, 2009

"A linguagem é uma fonte de mal-entendidos"


Jorge Oliveira num comentário ao post anterior:
"O que não posso fazer é classificar o CO2 como poluente, quando sei que não é, acreditar que o CO2 tem todas as responsabilidades por ondas de calor e vagas de frio, por chuvas torrenciais e secas, por tudo e pelo seu contrário, e, em consequência, aceitar fechar as centrais térmicas convencionais porque emitem CO2, fechar as nucleares, que não emitem CO2 mas de que os ambientalistas não gostam e depois esperar calmamente que as ventoínhas me facultem a energia eléctrica de que necessito, a preços descabelados, que estão a dar origem a um défice tarifário descomunal que os meus filhos vão ter de pagar, e desta forma aniquilar o meu nível de vida, o dos meus filhos e netos e demais descendência. Acha que é isto que quer para os seus filhos?"
Discutir este parágrafo parece-me particularmente instrutivo.
Em primeiro lugar, notem-se as certezas firmes onde quem mais tem estudado o assunto fala em probabilidades e evidências parcelares, isto é, mantém dúvidas: o papel do CO2 no sistema climático.
Mas mais que isto, note-se depois a orientação política que decorre destas duas atitudes: quem tem dúvidas sobre esse papel prefere acentuar essas dúvidas, desenhar cenários e discutir os custos e os benefícos das diferentes soluções possiveis em cada cenário, procurando gerir o risco inerente à incerteza (veja-se, por exemplo, Lomborg e o consenso de Copenhaga) e Jorge Oliveira, da segurança das suas certezas, opta por eliminar o risco de se enganar em processos especialmente complexos como são os que comandam o clima.
A partir daqui o parágrafo descarrila e assume algumas coisas como factos e fundamento da sua posição política que convém revisitar.
"acreditar que o CO2 tem todas as responsabilidades por ondas de calor e vagas de frio, por chuvas torrenciais e secas, por tudo e pelo seu contrário".
O curioso é que Jorge Oliveira prefere argumentar contra o argumentário de idiotas ignorantes em vez de discutir o que diz quem produz conhecimento no tema. É que quem produz conhecimento sobre a matéria não diz nada disto. Diz simplesmente que o CO2 induz alterações no padrão natural de variação climática, sendo que os padrões se estudam com séries longas de dados e nenhum fenómeno particular (o que inclui toda a meteorologia) pode ser explicado com recurso ao CO2. Ou seja, para evitar discutir o padrão, que poderia introduzir dúvidas onde Jorge Oliveira tem a segurança das certezas, obrigando a discutir os riscos inerentes a essas dúvidas, Jorge Oliveira prefere dizer um lugar comum consensual: o CO2 não pode ser usado para explicar fenómenos meteorológicos pontuais.
"aceitar fechar as centrais térmicas convencionais porque emitem CO2".
Jorge Oliveira prefere fintar a discussão sobre as centrais térmicas convencionais, começando por não fazer as distinções que devem ser feitas, quanto à origem dos combustiveis e quanto à sua obsolescência para evitar discutir o custo/ benefício de cada decisão sobre cada central. É que as centrais a carvão com tecnologias antigas são efectivamente muito poluentes e não apenas por causa do CO2 (sobretudo se se tiver em conta todo o ciclo produtivo desde a mina à electricidade) e portanto pode muito bem acontecer que a sua substituição por outros combustiveis e outras tecnologias, mesmo que térmicas, tenham custos razoáveis para o benefício espectável, mesmo sem ter em atenção o CO2.
"fechar as nucleares, que não emitem CO2 mas de que os ambientalistas não gostam".
Depende dos ambientalistas, há os que gostam e os que não gostam, mas o problema é que são as pessoas comuns que não gostam: ninguém aceita ter uma central nuclear ao seu lado (experimente propor uma central nuclear no parque Eduardo VII e verá a reacção das pessoas). E isso não é uma questão de gosto, é uma questão de percepção de risco. Há uma tendência para as pessoas treinadas em confiar nas tecnologias desvalorizarem os riscos associados, mas felizmente nas democracias não são so técnicos que tomam as decisões, são os políticos. E digo felizmente porque o que não faltam são exemplos históricos de desastres provocados pelas certezas dos técnicos (com certeza, também existem avanços positivos gloriosos, mas é por isso que a decisão deve ser de natureza política e não técnica, para que as pessoas comuns as possam discutir).
"depois esperar calmamente que as ventoínhas me facultem a energia eléctrica de que necessito".
Não sei se por vontade se por distracção Jorge Oliveira distorce os argumentos dos que defendem opções políticas diferentes das suas. Não conheço ninguém que defenda uma produção de energia exclusivamente assente em ventoínhas, nem conheço nenhum ambientalista (não estou aqui a incluir a propaganda do anterior e actual Governo, que tem muito pouco de ambientalista na sua origem) que defenda que o problema da energia se resolve produzindo cada vez mais energia, mesmo que renovável. Jorge Oliveira com certeza, quando o calor da discussão tiver desaparecido, reconhecerá que a grande maioria do movimento ambientalista defende em primeiro lugar uma diminuição da intensidade energética (e como sabe várias das mais avançadas economias do mundo têm conseguido bons resultados na matéria, o que não é o caso de Portugal e Espanha, por exemplo) e, complementarmente, um aumento da produção de energias renováveis. O programa é pois bem diferente, e é isso que vale a pena discutir, não vale a pena protestar com um programa que só existe nas fantasias de alguns (nos quais se inclui, infelizmente, José Sócrates).
"depois esperar calmamente que as ventoínhas me facultem a energia eléctrica ..., a preços descabelados, que estão a dar origem a um défice tarifário descomunal que os meus filhos vão ter de pagar, e desta forma aniquilar o meu nível de vida, o dos meus filhos e netos e demais descendência".
Na realidade foi esta frase que me levou a escrever este post. Porque esta frase corresponde a atribuir ao movimento ambientalista uma política que é por ele contestada (quanto a mim, deveria sê-lo de forma mais firme e audível, já fiz alguns posts criticando o movimento ambientalista pelo seu low profile nesta discussão). Veja-se a minha posição aqui e aqui. Ou a posição de Pedro Martins Barata aqui. Se há coisa em que praticamente todo o movimento ambientalista está de acordo é na necessidade dos preços da energia reflectirem os custos directos e indirectos do seu uso, o que hoje não acontece em muitos combustiveis fósseis. Isso implica energia mais cara e não a criação de défices tarifários que têm muito pouca relação com as energias renováveis porque correspondem a uma opção populista e desastrosa do anterior e actual Governo em manter artificialmente baixos os preços ao consumidor (tal como em Espanha). Uma parte virá de não reflectir na tarifa ao consumidor o preço real das renováveis, é certo, mas uma outra grande parte decorre de outras parcelas de formação do preço que os Governos entendem não reflectir no preço final do consumidor (e em particular do consumidor da indústria). Esta é uma opção errada dos Governos que vai exactamente ao arrepio de toda a lógica de gestão energética sustentável: fazer reflectir no preço ao consumidor todos os custos reais, directos ou indirectos, associados ao seu uso.
Isto implica provavelmente menos rendimento hoje para quase todos nós? Sim, provavelmente sim, mas não vale a pena meter aqui filhos e netos, porque estes perdem de facto com a política de preços artificialmente baixos da energia hoje mas é bem possível que ganhem com preços reais no consumidor.
Por isso, caro Jorge Oliveira, se a sua preocupação são os filhos e os netos, o melhor mesmo é juntar-se ao movimento ambientalista na defesa de preços reais para a energia (e, já agora, também para a água, em vez dos preços políticos, por exemplo, para a água de Alqueva).
Aliás estou convencido que se quiser olhar com atenção para as posições ambientalistas mais sustentadas (que nem sempre coincidem com as mais audiveis) estou convencido de que ainda acaba do nosso lado, preocupado com a herança que vamos deixar aos que por aí estão para vir.
henrique pereira dos santos