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terça-feira, janeiro 05, 2010

Eólicas, aves, impactes positivos?

Muito se tem falado sobre os impactes dos parques eólicos sobre a avifauna, em especial os negativos. Embora aceite que em zonas de elevada densidade de aves possa existir impactes sobre este grupo faunístico, reconheço que a meu ver, existem outras estruturas e actividades antrópicas bem mais impactantes que muitas vezes são negligenciadas ou subvalorizadas.

Após os trabalhos de recuperação paisagísticas dos taludes de um recente parque eólico construído na Serra de Montemuro, que terminaram a finais de Abril, este parque eólico entrou em pleno funcionamento em início de Maio. Enquanto fazia prospecção de mortalidade desse parque eólico em finais de Maio, um casal de Monticola saxatilis (merlo-das-rochas) chamou-me a tenção pela frenética actividade que desenvolviam no entorno de um dos aerogeradores. Bastaram 10 minutos sentado encima de uma rocha para descobrir que este casal de melro-da-rocha, tinha escolhido o talude deste aerogerador para nidificar, aparentemente com sucesso verificado pelos 3 juvenis voadores, observados nas imediações passado mais ou menos um mês.

Estranho este casal de merlo-das-rochas ter escolhido um local de nidificação onde 2-3 semanas antes se encontravam gruas, camiões e até uma retroescavadora envolvida na recuperação e modelação do talude onde nidificara e estar situado a escassos 5 metros de um aerogerador.

Será que para este casal de Monticola saxatilis a construção do PE teve um impacte positivo?



sábado, outubro 31, 2009

Lobo ao Sul do Douro

Fotografia de dejectos presumivelmente de lobo tirada a 02/09/2009 num dos parques e eólicos do Montemuro
"O Publico publicou a 14 de Outubro de 2009 uma notícia intitulada “Alcateia de lobo ibérico ameaçada por parque eólico”, onde entre outras coisas se podia ler:
“O principal é a ‘Ribeira dos Cubos’, onde foi confirmada reprodução em Agosto de 2008, sendo considerado o local mais importante para a conservação da alcateia. A ‘Corga do Redondelo’ é o centro de actividade secundário, tendo sido local de reprodução em anos anteriores até que um incêndio, em Agosto de 2005, destruiu a vegetação e a zona deixou de ter condições para albergar a alcateia com as suas crias. Para os investigadores, a protecção destes dois centros de actividade é prioritária, já que se trata de zonas importantes para a preservação do lobo na Serra de Leomil.”
Embora concorde com o com grande parte das coisas que são ditas nesta notícia, nomeadamente a importância desta alcateia a Sul do Douro e a importância de salvaguardar os centros de maior actividade, além de esta alcateia ter potencial para fornecer um input genético em alcateias confinantes (e.g. Alcateia do Montemuro e Alcateia da Lapa) ou até mesmo para todo o núcleo populacional Arada/Trancoso.

Não obstante, a serem verdade as informações dadas nesta notícia sobre a localização dos centros de maior actividade, as quais poderão ser perfeitamente suficientes para quem tiver más intenções (que normalmente são pessoas com grande conhecimento e experiência de campo), não posso deixar de repudiar a publicação destas informações, até pelas notícias de lobos mortos dessa zona nos últimos anos.
Esta alcateia sofre do “pecado original” de estar isolada, naturalmente a Norte pelo Rio Douro, a Sul pelo Rio Paiva e indisponibilidade de habitat (quer para a espécie quer para os suas presas), a Este pelo tipo de ocupação de solos, resta-lhe uma única orientação, a de Oeste, contudo entre esta alcateia e a de Montemuro (alcateia confinante), existe uma Auto-estrada que poderá representar um obstáculo para a dispersão de indivíduos, em especial para os Sub-adultos (e do que li na noticia, esta alcateia é bastante produtiva).Assim caso sejam verificados impactes significativos sobre esta alcateia pela construção deste empreendimento, seria interessante que as pessoas com responsabilidade sobre a matéria, reflectissem sobre medidas de compensação direccionadas para o aumento da permeabilidade da Auto-estrada, ou mesmo na criação de uma Área Protegida Privada, visto esta Alcateia não se encontrar inserida nenhuma Área Classificada.

Paulo Barros"

segunda-feira, março 30, 2009

Parabéns



Sendo eu acusado, compreensível mas injustamente, de ser contra as ONGs venho aqui dar os parabéns a comunicado irrepreensível do GEOTA que cito:

"Nota de Imprensa
Promoção da Energia Solar Térmica em Portugal:
Aposta indispensável na Economia e na Eficiência Energéticas!
Lisboa, 26 de Março de 2009
O GEOTA tem estado atento ao desenvolvimento do mercado da energia solar térmica em Portugal e do seu importante papel na promoção da redução da factura energética nacional bem como na redução das emissões de Dióxido de Carbono para a atmosfera.
Conseguir o objectivo de instalar um metro quadrado de colector solar térmico por cada pessoa é possível e terá um impacto significativo na economia Portuguesa a vários níveis, como sejam:
• Redução de cerca de 20% do consumo de electricidade (10 TWh/ano, ou seja 10 mil milhões de quiloWatthora em cada ano);
• Redução de cerca de 4% do consumo global de energia em Portugal, com a consequente redução da factura energética externa de montante similar;
• Fomento de um negócio superior a 300 milhões de euros anuais para a instalação anual de cerca de 800 mil metro quadrado de colectores solares térmicos eficientes;
• Redução nas emissões de Dióxido de Carbono em cerca de 4 milhões de toneladas, considerando que iria substituir igualitariamente, quer a electricidade, quer o gás;
• Criação de milhares de postos de trabalho distribuídos pelo País.
No entanto, no ano de 2007 instalaram-se pouco menos que 50 mil metro quadrado de colectores solares térmicos e no ano de 2008 ainda não se atingiram os 100 mil metro quadrado instalado. O mercado, portanto, pode ser multiplicado por um factor de dez face ao existente.
Para que tal seja possível, os passos a dar têm de ser seguros e bem orientados. Assim, em primeiro lugar, o Estado, que detém quase metade da economia tem de dar o exemplo utilizando energia solar em todos os locais onde tal é possível e desejável a começar por estabelecimentos com ocupação diária integral, incluindo fins-de-semana e férias (24h/24h, 365 dias no ano), tais como:
• Hospitais;
• Quartéis militares, postos da GNR e PSP, etc.;
• Estabelecimentos prisionais;
• Escolas com internato anual;
• Complexos desportivos Municipais e Centrais com utilização anual;
Em segundo lugar devem ser apoiadas instituições da sociedade civil, nomeadamente IPSS, com
serviço de funcionamento contínuo, tais como:
• Lares da Terceira Idade;
• Hospitais e hospitais de retaguarda sem fins lucrativos;
• Complexos desportivos com utilização anual, nomeadamente de clubes e associações.
Em terceiro lugar deve ser promovida a instalação de energia solar térmica em complexos privados com e sem fins lucrativos com utilização anual (24h/24h, 365 dias no ano), nomeadamente hotéis e serviços similares. O sistema actual de amortização acelerada em sede de IRC é já um bom incentivo.
Em quarto lugar deve ser dada prioridade aos condomínios e propriedade horizontal onde moram mais de 50% dos Portugueses e que não devem ficar de fora dos benefícios da energia solar térmica. Ainda nada foi feito em Portugal neste sector de grande potencial da energia solar térmica, quer a nível técnico, quer legislativo, quer muito menos a nível de incentivos económicos e financeiros.
Em quinto lugar vem a promoção ao nível dos utilizadores individuais, em moradias.
O Governo começou pelo fim, dizendo que “O sol quando nasce é para todos”. Como acima se vê, é só para alguns e este não dá o exemplo utilizando energia solar nos locais em que a utilização da energia solar tem um uso mais eficiente e pleno.
Também a legislação sobre a certificação energética de edifícios, de climatização e do seu comportamento térmico, ao permitir que a energia solar térmica compense a eventual falta de qualidade na envolvente térmica do mesmo edifício é um incentivo ao desperdício, pois é sabido que a eficiência energética é muito mais económica do que qualquer outra forma de energia.
A única forma de utilização da energia que é sustentável é a da energia que se poupa, pois não é necessário transformá-la, nem transportá-la nem utilizá-la. Por isso, é a única forma verdadeiramente “limpa” de usar a energia."

Parabéns ao GEOTA que pelos vistos não foi nos cantos de sereia da inacreditável política energética em vigor, nomeadamente quanto ao solar térmico, que é uma verdadeira intrujice.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, março 02, 2009

Ainda os painéis solares


Esta notícia do Público dá mais detalhes e já estive no site de um dos bancos envolvidos a ver o que está incluído no pacote e verifiquei que a "chave na mão" apenas existe para as moradias.
Considerando que o incentivo só dura um ano e que vai desestruturar a oferta por que razão foi esta a solução escolhida para incentivar o uso de água quente solar.
Mais uma vez só me ocorre uma explicação: o Estado incentiva vendendo licença.
Tal como acontece nas energias renováveis, em que tarifas mais altas permitem que os privados invistam, criando-se assim actividade económica qapoiada pelo Estado sem que o orçamento de Estado se ressinta, também aqui suspeito que o incentivo não é integralmente assumido pelo Estado mas aborvido num desconto que os fabricantes fazem por serem incluídos no programa e dessa forma arrasarem por completo a concorrência, para além de garantirem mercado com as despesas de promoção e venda a correrem por conta do Estado.
Não tendo qualquer dúvida da bondade de assumir a água quente solar como a mais prioritária das políticas energéticas de produção, excluindo portanto a eficiência energética que está a montante, parece-me que esta opção é boa para o Governo, é boa para alguns fabricantes mas vai sair muito cara aos cidadãos mais tarde.
E é pena.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Uma proposta para o aquecimento solar



Por estes dias foi anunciado um tremendo apoio do Governo ao desenvolvimento da água quente solar.
Não quero discutir esse apoio sem saber exactamente em que consiste mas para já o que aparentemente circula por aí significa que o Governo escolhe, através dos bancos (ou os bancos através do Governo, não percebi) dois fornecedores de paineis solares a quem concede uma vantagem competitiva leonina (exige um desconto significativo mas paga o suficiente para que o consumidor final pague metade do que pagará na concorrência) durante um ano.
Eu que moro num prédio naturalmente puz-me a olhar para a minha situação para tentar perceber se poderia aproveitar este autêntico bodo aos pobres que me permitiria ter água quente sem pagar a partir do terceiro ou quarto ano.
De uma discussão na lista Ambio retirei a candura da resposta às minhas preocupações: desde que os condóminos estejam de acordo, não há nenhum impedimento a que os moradores em prédios beneficiem da medida.
O prédio tem alguns anos, tem casas compradas e outras arrendadas, tem gente sozinha e sem filhos e gente com filhos, gente com dinheiro e gente remediada, gente complicada e gente simples. O trivial nestas situações.
O que seria então preciso para que estas pessoas normais se pusessem todas de acordo?
Que as vantagens económicas sejam muito evidentes ajuda muito: todos gostam de ter mais dinheiro que menos, esse é um ponto forte para garantir um acordo num grupo heterogéneo.
Mas para materializar esta vantagem, e materializá-la com rapidez suficiente para aproveitar uma vantagem que durará apenas nove meses é preciso ser muito claro.
O benefício inclui compra e instalação de paineis. Não sei, em qualquer caso, se os cinquenta por cento menos incluem qualquer instalação ou se apenas instalações standard.
Suponho que em relação ao preço dos painéis o peso relativo de instalar tubos para abastecer seis andares de água quante seja maior que numa moradia mas não tenho a certeza.
Admito então que o projecto resolverá o assunto. Projecto? Não sei também se está incluído no benefício ou não, mas estou a ver que metade do tempo disponível ainda pode desaparecer com o projecto.
Mas resolvidas estas questões começa a discussão dura com os meus condóminos: quem paga o quê?
Os que são donos e têm arrendatários não querem saber do assunto, que um paga e outro beneficia. Os arrendatários poderão estar interessados, mas não querem pagar benfeitorias em casas de terceiros. E os que gastam pouca água acham que não se justifica pagarem o mesmo e beneficiar menos.
Acho que vou ter muito trabalho diplomático antes de ver o assunto resolvido.
E no entanto grande parte da questão poderia ser ultrapassada doutra forma: a administração do prédio faria o investimento e venderia a água quente aos condóminos, pagando cada um na proporção que consumisse.
Era tão mais simples.
Espero que esteja contemplado esta possibilidade na medida agora aprovada e estou convencido de que estará porque confio que foram feitos estudos sérios para tomar as opções mais correctas e não gastar ingloriamente os recursos públicos.
Tanto mais que passado este apoio de um ano, desestruturada a oferta e coutado o mercado para as duas empresas escolhidas tenho ideia de que os anos seguintes serão mais complicados que os anteriores para quem queira instalar paineis solares para ter água quente.
Talvez importar venha a ser uma solução interessante para o consumidor (para o país é que é mais duvidoso, mas isso é um problema para resolver na próxima legislatura).
henrique pereira dos santos

domingo, fevereiro 15, 2009

Perplexidades de um ignorante sobre política energética



O recente anúncio de que o Governo iria conceder um benefício para a instalação de água quente solar reforçou as minhas perplexidades sobre a política energética que está a ser seguida, quer de um ponto de vista ambiental, quer de um ponto de vista económico.
Sou bastante ignorante nestas matérias e admito por isso que me expliquem que tudo o que vou dizer não faz sentido (e já agora, alguém que me explique em concreto o que foi anunciado porque ainda não percebi).
Este governo tem vindo a anunciar urbi et orbi a sua aposta ambiental na política energética falando bastas vezes no crescimento da produção de electricidade a partir de fontes renováveis.
O que me tem intrigado é o facto dessa alma ambiental da política energética não se reflectir nas decisões sobre o preço da electricidade e sobretudo a falta de vontade manifesta de ter programas consistentes na primeira das prioridades ambientais de uma política energética: aumentar a eficiência, reduzir o consumo.
A questão dos preços é visível nas decisões que culminaram no afastamento do anterior presidente da ERSE na sequência da sua defesa de aumentos dos preços da electricidade fortes para resolver o déficit tarifário e a questão da eficiência pode ser vista em muitas coisas, nomeadamente na ausência de qualquer esforço sério por parte do Estado na redução dos seus consumos e sobretudo na questão da água quente solar.
Basta ver que não existe qualquer programa sério de rapidamente ter as escolas, os hospitais e os quartéis com água quente solar.
O que poderá então justificar esta contradição da alma ambiental da política energética?
A explicação que encontrei parece-me fazer algum sentido: o investimento na produção de energias renováveis é facilmente feito por privados, desde que o Estado fixe administrativamente tarifas de venda à rede interessantes.
Ou seja, desde que os preços de compra da electricidade, garantidos por vários anos, atinjam determinados níveis é possível ter investimento privado (portanto, sem agravamento do déficit público) a dinamizar a economia e ao mesmo tempo uma imagem ambiental politicamente interessante.
Aparentemente trata-se de uma estratégia em que todos ganham.
O problema surge na fixação do preço ao consumidor, que deveria reflectir o facto de estarmos a produzir electricidade mais cara a partir de várias destas fontes renováveis.
Nesse momento a alma ambiental do Governo desaparece e fixam-se preços administrativamente mais baixos que os que reflectem a política de apoio às renováveis, o que tem como consequência o aumento do déficit tarifário que alguém no futuro pagará.
Mas ainda assim as renováveis puxam alguma coisa o tarifário para cima, o que significa que a nossa economia pagará a energia mais cara em consequência da aposta nas renováveis, gerida administrativamente com um sistema de tarifários de compra e venda que acaba por constituir um sistema de imposto que diminui competividade (no fundo estamos a retirar recursos à economia para os aplicar nos produtores de energias renováveis).
Para se ter uma ideia, o preço médio por MWh em 2007 e 2008 terá andado pelos poucos mais de 50 euros no mercado de electricidade mas o preço a partir das renováveis andará por volta dos 95 euros, tendo a hídrica em regime especial um preço que ronda os 88/ 89 euros e a fotovoltaica, no outro extremo, na ordem dos 330 euros (mais de seis vezes o preço de mercado). Dados coligidos no site da ERSE.
Acontece ainda que estes preços são contratados para o longo prazo (naturalmente nenhum investidor correria o risco, com esta diferença de preço, de confiar no mercado) o que significa que a aposta na produção de energias renováveis se reflectirá na competitividade da nossa economia durante bastantes anos.
Se o preço do petróleo subir sustentadamente, bem vão as coisas e a perda de competitividade não é complicada. Mas se, como acontece agora, os preços não subirem de forma sustentada nos próximos vinte anos, ou se subirem para níveis moderados, a perda de competividade poderá ser grande.
Devo dizer que não tenho dúvidas de que por muitas razões ambientais e de sustentabilidade me parece essencial aceitar uma política de produção de energias renováveis, mesmo que tal signifique uma espécie de imposto encoberto para a economia.
Dentro de limites razoáveis bem entendido. O que significa reflectir integralmente este custo no tarifário, com os custos políticos daí decorrentes. Fazer o que o actual governo tem feito e apenas empurrar para o futuro o problema, é vender gato por lebre, agravando o problema na medida em que os agentes económicos não farão o que seria racional se o preço reflectisse o verdadeiro custo desta política: poupar aumentando a eficiência e, por essa via, compensar a perda de competitividade induzida pelo tarifário da energia.
E é aqui que entronca a segunda contradição do Governo nesta matéria: o seu fraco interesse na poupança, na melhoria da eficiência e em políticas sérias e poderosas de expansão da água quente solar (entre outras, esta é talvez a mais emblemática).
A água quente solar é muitíssimo mais interessante que a produção de electricidade a partir de energias renováveis porque implica um investimento que se paga pela poupança de energia, ou seja, induz competitividade para o futuro.
Se assim é, por que razão não é esta uma trave mestra da política energética do Governo?
A mim parece-me que é tudo uma questão de uma gestão eleitoral do déficit público.
É que pôr as famílias ou as grandes instalações do Estado a colocar paineis solares implica incentivos directos com efeito sobre o déficit, isto é, implica escolhas na despesa do Estado.
Ao contrário da produção de electricidade a partir de fontes renováveis onde o investimento é privado e o custo social pode ser disfarçado num tarifário energético pouco claro para o público, o investimento em água quente solar implica mobilizar recursos do Estado e o benefício social é mais difuso (mas não menos importante) e é tanto mais importante quanto se reflecte no futuro. Politicamente os custos são imediatos e os benefícios futuros.
À semelhança de outras apostas políticas do actual governo (como por exemplo a da mobilização do investimento no turismo à custa da especulação em terrenos com elevado valor natural, ou o do investimento em infra-estruturas com pagamentos diferidos no tempo através de parcerias público-privadas) o padrão parece ser o de empurrar o custo das políticas actuais para os meus filhos, permitindo uma gestão imediata dos seus benefícios favorável a quem tem de ganhar as próximas eleições.
Eu não quero que eles me venham a cobrar amanhã a colaboração neste modelo de políticas públicas, mesmo que seja por omissão e por ter ficado calado.
henrique pereira dos santos

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Energias alternativas


(publicado na revista FreeSurf)
O editor ligou-me: “por esta passou, mas os textos não podem ter mais de 3000 caracteres”.
Uma maneira de me dizer que me tinham contratado (com um pagamento régio, diga-se) para escrever sobre ambiente que para falar de surf havia quem soubesse do assunto.
Resolvi então concentrar-me na energia.
A energia é a principal questão ambiental. Dela decorrem quase todas as outras.
Do ponto de vista ambiental o melhor é mesmo deixar a energia ficar cara.
Aumentar o preço do petróleo faz mais pelo ambiente que todas as campanhas de sensibilização e todas as polícias do ambiente juntas.
O petróleo sobe? Vamos de comboio. O petróleo sobe? Reduzimos o bife a dias de festa e comemos arroz com feijão. O petróleo sobe? Combinamos surfar juntos para levar menos carros. O petróleo sobe? Escolhemos melhor o sítio para construir a estrada evitando aterros e escavações. O petróleo sobe? Tomamos banhos mais curtos que é preciso poupar na energia. O petróleo sobe? As ondas aqui também não estão más e se calhar não compensa a viagem até outra praia.
O número de comportamentos que mudamos quando o petróleo sobe não tem fim.
E as energias alternativas tornam-se mais competitivas, porque não usam petróleo.
O sol para aquecer a água do banho (pode ligar-se às máquinas de lavar roupa e louça, com uma torneira misturadora, porque a maioria da energia gasta nessas máquinas é mesmo para aquecer a água).
O vento, que enche a paisagem de ventoínhas, para pena de muita gente e para gosto de muita outra. É muito curioso porque toda a gente está de acordo com a energia eólica e quase toda a gente está contra cada um dos geradores em concreto que lhe estão mais próximos.
O sol a produzir electricidade, ainda cara, mas que vai aparecendo porque é paga na produção com uma tarifa bastante mais alta que outras formas de produção (e acabamos por pagar na conta da electricidade, sem darmos muito por isso).
E poder-se-ia continuar a falar de novas e velhas energias alternativas, como a biomassa nas suas várias formas, incluindo a lenha para nos aquecermos e cozinharmos, ou mesmo a energia das ondas, que tão bem conhecem os leitores desta revista.
O problema é que algumas das tecnologias para a produção de energias renováveis (não falei de barragens para não azedar a discussão) são ainda caras ou, o que comercialmente é tão importante como isso, pouco fiáveis.
Com o petróleo mais caro vamos todos (ou quase todos) ficar um pouco mais pobres, comer menos coisas exóticas, viajar fisicamente um pouco menos e provavelmente um pouco mais virtualmente, demorar mais tempo a chegar, etc.
Nem tudo neste processo é perda porque trocar a salada de alface e tomate de todos os dias pela couve penca segada como para o caldo verde, aferventada e depois passada por um fundo de azeite onde alourou um alho cortado pode ser um enriquecimento e não uma perda resultante do facto de ser mais exigente energeticamente produzir alfaces que couves galegas.
O movimento slow food, que tem como objectivo opor-se ao fast food e à fast life será com certeza um dos grandes ganhadores da subida do petróleo e da relativa pobreza que daí poderá advir.
Espero que nessa altura os cafés de surfistas os esperem no pino do inverno com um belíssimo caldo verde em vez do sempiterno hamburguer com batatas fritas e outras coisas que acham mais de acordo com a suposta soul do surfer.
Garanto que para essa mudança se poderia usar o slogan que Fernando Pessoa, empregado de comércio com vários artigos escritos sobre marketing e poeta nas horas vagas, terá escrito para a coca-cola: “primeira estranha-se, depois entranha-se”.
henrique pereira dos santos

terça-feira, dezembro 09, 2008

Boas novas nas eólicas


Ao visitar a página do Publico, dou com a noticia “Investigadores espanhóis ultimam turbinas eólicas inteligentes para proteger as aves” . Pouco dado a euforias por apenas ter tido conhecimento deste “facto” por este jornal e por estarem estas turbinas ainda em fase de testes, não deixa de ser esta uma animadora noticia, que parece prometer conjugar a conservação de comunidades de aves e de morcegos com a necessidade de criação de novas fontes de energia.

domingo, dezembro 02, 2007

As contas do Programa Nacional de Barragens

Pasmado com as afirmações do Ministro do Ambiente, no Público, resolvi ler os relatórios que constam do "Programa Nacional de Barragens com Elevado Potencial Hidroeléctrico" com intuito de procurar entender as razões que justificam a construção das 10 novas barragens. Surpreendentemente o meu pasmo não diminuiu.

Os dados hidrológicos utilizados para justificar a necessidade de construção de 10 novas barragens e assim aumentar a potencia actual instalada de 5000 MB para 7000 MB consistem em séries hidrológicas observadas e em nenhum momento se consideram os modelos sobre disponibilidades hídricas futuras!

Ou seja, ainda que existam previsões que apontem para reduções de 20% da capacidade de produção de energia hidroeléctrica até 2020, que estas previsões estejam reconhecidas pelo Governo Português (Portugal subscreve os relatórios do IPCC) e que os dados produzidos pelos modelos hidrológicos estejam disponíveis, a equipa que produziu o relatório resolveu, inexplicavelmente, assumir um cenário sem alterações climáticas para justificar a necessidade de investimentos hidroeléctricos futuros.

Isto quer dizer que, qualquer que seja o investimento necessário para construir as referidas barragens, haverá que descontar 20% de rentabilidade até 2020, 20-30% até 2050 e 50% até 2070. Os 7000 MW de potencia instalada prevista pelo relatório, com a construção de mais 10 barragens, serão, possivelmente, 3500 MB em 2070; menos dos que os 5000 MB actuais!

Será um investimento razoável no quadro dos recursos limitados de que dispomos? Não parece.

Se o Governo está seriamente preocupado com a questão energética terá, obrigatoriamente, de chumbar este relatório e solicitar um relatório com valores corrigidos pelo efeito da redução de disponibilidade hídrica num contexto de alterações climáticas.

Terá também, à luz destes valores corrigidos, oferecer uma comparação que falta e que se impõe para justificar qualquer que seja a opção energética que Portugal deverá adoptar no futuro, i.e., uma análise rigorosa e ampla de alternativas.

Visto que uma das justificações centrais para a construção das novas barragens é permitir o armazenamento de energia eólica nos picos de produção de energia eólica, que coincidem com picos de baixo consumo, importa clarificar em que medida não se consegue obter a necessária capacidade de armazenamento com a reconversão de barragens existentes. No caso da resposta ser negativa (ou parcialmente negativa pois nalguns casos estas reconversões já estão a ser planificadas) importa analisar com rigor quais seriam as barragens imprescindíveis para as necessidades de armazenamento de energia eólica.

Existem poucos elementos que suportem a ideia de que o investimento em 10 novas barragens para produção de energia hidroeléctrica seja uma aposta racional. Fica por justificar a necessidade de construção de novas barragens para armazenamento de energia eólica. Façam-se as contas de novo, com simulações hidrológicas realistas e estude-se, de forma rigorosa, a viabilidade de alternativas designadamente a energia solar que, como se sabe, será um recurso abundante num Portugal cada vez mais quente.

Há muitas perguntas que ficam por responder com o relatório produzido e é preocupante constatar que decisões tão importantes, como seja a construção de 10 barragens novas num País tão pequeno como o nosso, sejam suportadas por estudos que partem de pressupostos errados.

A miopia de Nunes Correia?

Uma das conclusões do IV relatório do IPCC é de que o potencial hidro-eléctrico da Europa será reduzido nas próximas décadas, i.e., por cada euro gasto em investimentos hidro-eléctricos o retorno económico será menor:

"The hydropower potential of Europe is expected to decline on average by 6% but by 20 to 50% around the Mediterranean by the 2070s (capítulo 12, p. 543)

É, pois, de estranhar que a grande aposta do Governo em termos energéticos, consista num "Plano Nacional de Barragens com Elevado Potencial Hidroeléctrico", onde se prevê a construção de 10 novas barragens para, segundo valores oficiais, "assegurar valores de potência instalada adicional na ordem dos 2000 MW, para que Portugal atinja em 2020 uma capacidade hidroeléctrica superior a 7000 MW".

Interrogado sobre a pertinência deste plano, o actual Ministro do Ambiente, Nunes Correia, responde a um jornalista do Público da seguinte forma:

"A percepção global, por parte dos especialistas na matéria, é a de que [haverá] um regime de maior incerteza climática, onde pode haver mais secas, e mais frequentes, mas intercaladas por períodos de grande pluviosidade. Criar reservas de armazenamento de água é a primeira resposta a isso. É claro que havendo mais secas, mais temperatura, há mais evapotranspiração, também há maiores perdas."

Como a resposta é omissa de argumentos energéticos (e essa é supostamente a razão para a construção das barragens) o jornalista insiste: "E há menos produção de electricidade..."

A que se segue a segunda parte da resposta do Ministro: "Mas a questão essencial não é essa. É o extremar do clima. Há mais secas e há mais cheias. As barragens são justamente a resposta à irregularidade do clima. As barragens são uma resposta à alteração climática."

Portanto ficamos a saber que o essencial do "Plano Nacional de Barragens com Elevado Potencial Hidroeléctrico" não é a produção de energia eléctrica mas sim a constituição de reservas de água.

Outro aspecto curioso da entrevista do Ministro é a afirmação de que estas barragens serão pagas com fundos privados: "Quem vai fazer essas barragens não é o Estado. Vão ser investidores privados.", diz o Ministro.

Ora se, como apontam as projecções do IPCC, a capacidade de produção de energia hidro-eléctrica irá reduzir-se em 23% até 2020, 20-30% até 2050, e 50% até 2070, sendo que o interesse fundamental destas barragens, segundo as palavras do ministro, é a constituição de reservas de água (um objectivo de interesse público mas de duvidoso interesse económico) é lícito perguntar:

- Porque estariam aos investidores privados interessados em investir em tal negócio?

- Estamos a falar de investimentos privados ou de obras privadas patrocinadas pelo Estado?

- Se é verdade que são os investidores privados a suportar a totalidade dos custos da construção destas barragens, qual é o verdadeiro negócio por trás destes empreendimentos?

Há qualquer coisa que não bate certo na argumentação do Ministro mas é certo que o impacte ambiental destas barragens será grande. Também parece ser certo que as alterações climáticas estão a ser usadas, uma vez mais, como argumento para justificar obras muito pouco amigas para o ambiente.

terça-feira, julho 10, 2007

Agrocombustíveis?


A seu tempo o tema da produção de combustíveis através da actividade agrícola terá de ser desenvolvido neste blogue (em tempos escrevemos um texto que pode se lido aqui). O debate está lançado e promete ficar para durar.

Entretanto valerá a pena notar que o termo biocombustíveis começa, gradualmente, a ser substituído por um termo mais apropriado e menos equívoco: agrocombustíveis.

O jornal "Público" escreveu uma pequena nota sobre o assunto:

08.07.2007 - Os receios que a aposta nos biocombustíveis está a levantar em muitos quadrantes está a levar a que se comece a adoptar uma mudança na sua designação. É que "bio" significa vida e "os biocombustíveis podem estar a destruir vida", acusam os seus críticos. Para separar águas, há já quem tenha optado por se referir aos combustíveis feitos a partir de material vegetal "agrocombustíveis", uma vez que têm origem na agricultura. Em França [e no Brasil, nota do blogue], a designação já vingou, mas o movimento está a espalhar-se e a palavra começa a surgir em documentos oficiais, aquietando quem considera que o papel "verde" atribuído a estes produtos não é cumprido.

Fotografia (campo de cana de açucar) de Gerald Oskoboiny

domingo, julho 08, 2007

Hilary Clinton: Visão sobre energias limpas

A visão pragmática de Clinton contrasta com as vistas curtas de Bush. Tempos interessantes os que nos esperam.

quarta-feira, outubro 11, 2006

Biodiesel e etanol – Qual a melhor opção?

Os elevados preços dos combustíveis fósseis têm estimulado a procura de alternativas, designadamente no domínio dos combustíveis para os transportes. Uma alternativa que está cada vez mais em voga é o uso de combustíveis biológicos (biofueis).

No entanto, a viabilidade destes combustíveis é contingente da ponderação de quatro aspectos:

1. Os ganhos energéticos líquidos (energia produzida por comparação com a energia consumida na produção) devem ser importantes.

2. Os impactes ambientais devem ser reduzidos, designadamente no que diz respeito as emissões de CO2.

3. O custo de produção da energia deve ser competitivo face aos valores de mercado.

4. A utilização do solo agrícola deve ser parcimonioso em relação às necessidades de utilização de solo para produção de alimentos.

O Brasil há muito que utiliza o etanol como alternativa aos combustíveis fósseis. No entanto, existe uma tendência generalizada para a utilização de biodiesel, produzido com grãos de soja.

Qual destas opções é preferível?

Um grupo de investigadores da Universidade de Minnesota resolveu abordar esta questão, num estudo publicado em julho deste ano na revista PNAS. As conclusões sugerem que:

1. O etanol produz um excedente de 25% de energia em relação à energia investida na sua produção. Este valor é de 93% para o biodiesel.

2. A produção de biodiesel requer, respectivamente, 1.0%, 8.3%, e 13% do azoto, fósforo, e pesticidas utilizados para a produção de etanol. O biodiesel reduz em 41% as emissões de gases de estufa associadas aos combustíveis fósseis enquanto que o etanol reduz as emissões em apenas 12%.

Estes dados fornecem duas indicações importantes. Primeiro que a produção de combustíveis biológicos pode dar ganhos energéticos líquidos. Segundo que a produção de biodiesel se pode configurar interessante por comparação com o etanol.

De acordo com os autores deste estudo as vantagens ambientais do biodiesel estão associados ao facto de (i) a produção de soja ser menos exigente do ponto de vista energético do que a produção de milho; e (ii) a produção de energia proveniente da soja ser mais eficiente que a produção de energia com base no etanol. Obviamente que as conclusões em (i) poderão não ser generalizáveis pois a produtividade agrícola depende de condições de solo e clima que variam geograficamente (o estudo utilizou dados de produção agrícola nos EUA).

No entanto os investigadores reconhecem que um dos problemas dos biofueis é o facto de competirem pela utilização do solo agrícola com a agricultura destinada à produção de alimento. Por exemplo, se os EUA utilizassem toda a sua produção de soja e milho para produzir biofueis resolveriam apenas 12% de exigência de gasolina e 6% de exigência de diesel.

domingo, abril 30, 2006

Ideias trágicas para o mundo rural

Pode Portugal prescindir de 60% do seu território? Poderão os Portugueses viver num território que paulatinamente se vai abandonando? Serão os problemas do mundo rural matéria de preocupação exclusiva dos agricultores? Vejamos o que poderá acontecer a partir de três ideias trágicas que se instalam como se fossem evidências inevitáveis.

A confusão entre subsídio à produção e o pagamento de serviços

Os subsídios à produção agrícola e florestal estão sob fogo cerrado de críticas, seja por razões de racionalidade no uso dos recursos, seja porque o apoio à produção agrícola dos países ricos é um factor de empobrecimento e perda de competitividade da agricultura dos países pobres.

Questão diferente é a do pagamento de serviços ambientais dificilmente comercializáveis, que é de justiça que as comunidades urbanas e industriais paguem às comunidades rurais que os prestam.

A confusão entre estas duas componentes, que coexistem na Política Agrícola Comum (PAC), tem favorecido uma visão excessivamente centrada nos subsídios à produção e na promoção de uma agricultura orientada para o mercado. Em segundo plano fica a PAC que remunera os serviços sociais e ambientais prestados pelas actividades agrícolas.

Porém, num país em que apenas vinte por cento do território é competitivo do ponto de vista agrícola, a preocupação excessiva com a competitividade pode traduzir-se no abandono dos restantes 70 a 80% do território. Aqui reduz-se o controlo social, abandonam-se escolas, postos de saúde, caminhos de ferro, mecanismos de autoridade do Estado e de coesão social, largando ao fogo incontrolado uma grande parte do território nacional.

A floresta como alternativa de gestão para o território

Uma ideia em voga é a de que a floresta se poderá substituir à agricultura onde esta não é competitiva. Todavia os fogos que ciclicamente se têm observado em Portugal suscitam dúvidas legítimas sobre a viabilidade de tal ideia. Para alguns, a solução passa por melhorias nas organização e gestão das propriedades, uma melhor adequação da escala dos empreendimentos, e a utilização de novas técnicas e conhecimentos.

Será, em parte. Mas as empresas florestais mais organizadas da fileira do papel, com propriedades de dimensão adequada e trabalhando com as melhores técnicas e com as mais produtivas das espécies florestais, têm vindo a abandonar grande parte da sua área de produção, concentrando-se nas plantações mais produtivas.

Esta opção, que decorre da globalização dos mercados, da consequente estabilização dos preços e dos crescentes custos de gestão face ao risco de incêndio, deve ser interpretada como um aviso à navegação. É possível que a floresta não seja uma panaceia para os cerca de 80% de território Português que não possuem vocação agrícola.

É tentador pensar que diminuindo o risco de incêndio se alteram os dados do problema e se cria um ciclo virtuoso de crescente rentabilidade que induzirá novos investimentos na floresta.

Porém é pouco provável que tal aconteça apenas a partir de uma agricultura e silvicultura competitivas e remuneradas apenas pelos bens comercializáveis.

Vejamos. A ideia é a de que uma melhor organização na prevenção e combate aos incêndios – com base no fogo controlado e na redução de combustível por via de centrais de produção de energia a partir dos resíduos florestais – conduzirá a uma redução progressiva do risco de incêndio no território nacional.

No entanto, a capacidade de produção de matos do nosso País, bem como a capacidade de os fazer arder nos dias de vento Leste do nosso Verão, são factores que não controlamos e que são inerentes à nossa posição geográfica entre o Mediterrâneo e o Atlântico. Se a competitividade dos povoamentos florestais passa pela diminuição de combustíveis por via da recolha para combustão em centrais eléctricas, também é verdade que falta evidência de que o aproveitamento dos matos seja compatível com a viabilidade económica destas centrais.

Por exemplo, a central de Mortágua trabalha com cerca de 2% de matos. O preço a pagar pelos matos, compatível com a manutenção da rentabilidade das centrais, é cerca de metade do custo da sua remoção; e o baixo poder calórico dos matos em relação ao seu volume impede a sua utilização extensiva como combustível destas centrais. Acresce que o apodrecimento dos matos é muito rápido, o que coloca problemas de armazenamento irresolúveis.

Inevitavelmente, as centrais terão uma percentagem largamente maioritária de outras fontes de biomassa como combustível.

Noutros países este tipo de centrais estão a ser usadas como complemento de uma exploração silvícola rentável.

Em resumo, as centrais podem minimizar os custos de remoção dos resíduos da exploração florestal, o que é bom, mas não parece ser adequado contar com elas como incentivo para remoções significativas dos matos que, inevitavelmente, se continuarão a acumular nas áreas onde a exploração florestal não é competitiva.

A questão será então: podem os 20% de competitividade agrícola e os 20% de competitividade florestal suportar um mundo rural viável, que ajude a fazer de Portugal um país equilibrado?

A especialização produtiva e espacial

Os especialistas de fileiras e “clusters” segmentam e partem as várias funções produtivas que durante centenas de anos se articularam para permitir ocupar esta terra madrasta.

Geralmente a partir dos casos de sucesso das unidades produtivas centradas na especialização, ocupando territórios como o Douro vinhateiro, os olivais de Moura ou de Vila Flor, a bacia leiteira de Vila do Conde, os laranjais do Algarve e um ou outro regadio horto-frutícola idealizam-se cenários de futuro para uma agricultura e silviculturas modernas e competitivas.

Nada disso está errado. Pelo contrário, os territórios onde estas opções são possíveis representam poderosas locomotivas para o mundo rural.

Mas a especialização das actividades produtivas conduz ao beco sem saída os 60% do território onde esta não é possível por falta de um produto dominante que seja simultaneamente competitivo no mercado global.

Há quem advogue a valorização de produtos marginais, como os cogumelos, as denominações de origem, as aromáticas e medicinais, etc. Ainda que permitindo uma desejável diversificação de mercados é pouco provável que um número alargado de explorações sejam viáveis só com esse suporte.

Opções que nos dizem respeito

É com a falta de remuneração de serviços ambientais prestados, com a falta de uma floresta viável onde se consomem milhões de euros em cada quadro comunitário de apoio e com a especialização produtiva do território que se consuma a tragédia de um mundo rural pobre, sem recursos, sem gente e sem futuro.

Essa é a tragédia dos nossos fogos, a tragédia das nossas matas, a tragédia da maioria do nosso território que não parece fazer parte do país.

E no entanto dominamos a técnica milenar de limpar matos, produzindo em vez de gastar, a partir de dois sistemas dominantes:

  • Uma agricultura rica de regadio, com forte incorporação de matéria orgânica roçada nas bouças;

  • Uma pastorícia extensiva que se integra numa agricultura marginal e de baixo rendimento.

Partindo destes dois sistemas, construímos milhares de variações incluindo os montados do Sul, os castinçais e soutos do Nordeste, o modelo campo/ bouça do Noroeste. De tudo isto dizemos que são modelos não competitivos.

E até são. Sobretudo se continuarmos sem remunerar convenientemente os serviços ambientais por eles prestados, designadamente a gestão dos ciclos da água e nutrientes; a gestão do fogo; a produção de biodiversidade e, recorde-se, a acumulação de um dos mais sólidos activos do turismo de qualidade: a paisagem e um mundo rural vivo e criativo.

Quanto aceitamos gastar a melhorar estes sistemas ou a pagar os serviços não comercializáveis que prestam?

Por que razão é anátema pagar o valor justo pela utilização dos matos como estrume, mas é razoável elevar tarifas para suportar centrais eléctricas?

Por que razão é anátema pagar a biodiversidade mantida por algumas técnicas de pastoreio mas é normal financiar florestações?

Por que razão é obrigatório cortar os matos em determinados circunstâncias mas é um absurdo admitir que esse trabalho seja apoiado pelas cabras directamente financiadas para a prestação desse serviço?

Por que razão prescindimos da pastorícia, máquina de remoção de matos, sabendo-se que produzem cabritos em vez de gastar petróleo como fazem outros sistemas de remoção de matos?

Por que razão desistimos de pensar o futuro a partir do passado e eliminamos a possibilidade de investir na modernização da pastorícia?

Que território queremos deixar a quem virá atrás de nós?

Haverá com certeza muitas respostas para estas e outras perguntas mas a realidade teima em nos confrontar a triste evolução do mundo rural nas últimas décadas.

Tememos que essa realidade teime em não desaparecer com políticas de apoio às fileiras competitivas que esquecem a produção de serviços dos ecossistemas, deixando 60% do território de Portugal entregue ao vento Leste.

Henrique Pereira dos Santos, arquitecto paisagista
Carlos Aguiar, engenheiro agrónomo
Miguel Araújo, geógrafo

Fotografia de Sergio Rodrigues

terça-feira, abril 11, 2006

Os mitos e falácias da energia

Por Pedro Martins Barata
Presidente da Euronatura - Centro para o Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável


Este artigo pretende, de uma forma algo pretensiosa (e pela soberba desde já me penitencio), expor o que considero ser mitos e falácias no discurso de muitos intervenientes no debate público sobre a energia em Portugal.

Uma primeira ressalva: como ambientalista que sou, as minha posições reflectem muitos dos possíveis preconceitos que essa posição política (e eu acho mesmo que ser ambientalista é tomar uma posição política) acarreta. Na medida do possível, contudo, tento distanciar-me o mais possível de muitas posições que outros reputariam como fundamentalistas, sejam elas “anti-nucleares” ou anti-renováveis” ou “pró-outra-coisa qualquer”. A meu ver, o debate sobre a energia em Portugal padece sempre do mesmo problema: o facilitismo de quem não quer pensar, mas antes gosta de se ater a “slogans”, sejam eles “Nuclear? Não, obrigado” ou outros. Acontece que, por exemplo, não acho que o nuclear sirva para Portugal (seja na forma de fissão ou na forma de fusão), mas baseio essa minha ideia em argumentos que nem sempre são coincidentes com muitos ambientalistas. Acima de tudo, não concordo com argumentos, como os de que o nuclear seria uma experiência “anti-natural” ou a de que a existência de resíduos sem alternativa de tratamento inviabilizam a sua utilização.

Uma política energética inteligente terá de conciliar múltiplos interesses - económicos, sociais, ambientais – e dificilmente se pode basear em ideias simplistas como: “a solução para o problema energético é (a fusão nuclear, a fissão nuclear/a energia das marés/a eficiência energética/a maior penetração das renováveis) “take your pick”). O problema é demasiado complexo para que qualquer uma destas potenciais soluções possam ser colocadas como “silver bullet”. Esse é o pior problema neste debate, comum, aliás, a muitos outros – o da simplificação extrema das decisões e a noção perversa, denotadora de um positivismo novecentista, de que existe um “fix” para o nosso problema. Só quando percebermos colectivamente que não existem fixes, e que os problemas da ineficiência energética, da dependência em relação ao exterior ou das emissões de dióxido de carbono não são compagináveis com esse tratamento, é que poderemos avançar.

Assim sendo, em seguida apresento algumas das ideias-chave que aparecem na imprensa e no debate público, muitas vezes sem substância.

Sobre o nuclear
“O nuclear é positivo para o clima”

Um dos principais estandartes para o renascimento do interesse na energia nuclear é o de que esta seria amiga do clima (já que, para ser amiga do ambiente, teria que ter resolvido de forma convincente a questão dos resíduos, do desmantelamento das centrais, e a eterna questão da segurança). Sem dúvida que, confrontados com a enormidade do desafio do protocolo de Quioto e, sobretudo, das reduções que efectivamente serão necessárias para alterarmos significativamente a trajectória das concentrações atmosféricas futuras de gases com efeito de estufa, o nuclear ganha algum encanto. Contudo, é necessário atentar que a energia nuclear não é inteiramente “carbon friendly”. Na verdade, só o seria se concentrássemos a nossa atenção na fase de produção energética na central. É certo que a geração nuclear não gera directamente quaisquer emissões de gases com efeito de estufa. Contudo, o ciclo de vida do urânio não compreende apenas a fase de geração de energia: o urânio tem que ser minado, enriquecido e armazenado seguramente. Qualquer uma dessas fases gera emissões de gases com efeito de estufa. Se fizermos contudo a comparação entre ciclos de vida, incluindo no ciclo de vida do nuclear também a mineração do urânio, o seu enriquecimento e o seu transporte, atingimos facilmente números da mesma ordem de grandeza que o ciclo de vida do gás natural. Um estudo recente e citado, entre outros, pela indústria nuclear, refere que o ciclo de vida de uma central alemã (com ligeiras variações adaptável para a realidade portuguesa) produz cerca de 35 g/kwh de produção, o que compara desfavoravelmente com praticamente quase todas as formas de produção em co-geração e produção renovável. Na verdade, mesmo a produção em ciclo combinado a gás natural parece ser favorecida por uma análise completa dos seus efeitos climáticos, quando comparada com a energia nuclear. O “ganho climático” não é, só por si, compensador. Uma possível defesa seria então que o urânio pode sempre ser importado, pelo que a nossa posição relativa enquanto emissor de gases com efeito de estufa seria melhorada. Para além do claro problema ético, acresce que, com esse argumento, desaparece uma das principais razões apontadas para a introdução do nuclear em Portugal – o seu contributo para a segurança energética é exactamente a nossa reserva de urânio, e a possibilidade de contribuir para a nossa independência energética.

“O nuclear melhora a nossa situação de dependência energética”

Aqui, é preciso reiterar algo que, de tão óbvio, não se percebe porque não é tão facilmente entendido por vários comentadores, que persistem no erro: o problema de dependência petrolífera em Portugal é, na sua enorme maioria, um problema de dependência em relação às formas não-eléctricas de energia. Na verdade, Portugal, apesar do acréscimo substancial do consumo de electricidade que se tem verificado nos últimos anos, e da ausência quase absoluta de políticas de gestão da procura de electricidade, é facilmente exportador de electricidade, tendo até uma percentagem de electricidade de fonte renovável razoavelmente significativa. A dependência, no que ao sector eléctrico diz respeito, centra-se essencialmente na importação de combustível, essencialmente carvão e crescentemente gás natural, para o funcionamento das centrais térmicas. O petróleo já quase não faz parte do “mix energético” do sector eléctrico (embora presente na co-geração e nas duas últimas resistentes centrais térmicas a fuelóleo.

Assim, a nossa dependência do petróleo no sector eléctrico é essencialmente, neste momento, fruto das condições contratuais que regem a importação do gás natural, e que são essencialmente a indexação do preço do gás natural importado a um cabaz de preços de petróleos. Mesmo assim, essa indexação tem o mérito de amortecer, para o sector eléctrico, as subidas e descidas do preço do petróleo.

Em última análise, a dependência energética portuguesa no sector eléctrico será sobretudo melhorada com a diversificação das fontes de gás natural (proporcionada em grande medida pelo terminal de GNL de Sines), a diversificação de fontes de energia, incluindo as renováveis, e o incremento das ligações eléctricas com Espanha, tornando o sistema eléctrico mais resiliente. Acresce ainda a possibilidade de melhorar a performance da rede eléctrica e, “last but not least”, o incremento da eficiência energética na utilização. Todos estes caminhos são possíveis, desejáveis e estão de alguma forma a ser concretizados, pelo que uma aposta no nuclear tendo como motivo principal a independência energética é efectivamente um “non-starter”.

Acresce ainda que as reservas de urânio do país, repetidamente classificadas como significativas, não o são se tivermos em conta as necessidades em urânio de uma só central nuclear. Se assumirmos, por exemplo, que Nisa tem 2000 toneladas de urânio utilizável (dados da WISE), a um ritmo de exploração de 200 toneladas/ano para uma central tradicional de 1000 MW, teremos urânio para 10 anos de exploração, no mais importante filão nacional!

Resta a questão do consumo energético não-eléctrico. Aí, a independência energética é uma miragem impossível: as necessidades crescentes energéticas no sector dos transportes só podem ser colmatadas, no estado actual tecnológico, com o consumo de derivados do petróleo. Aqui, ainda mais do que no caso do sector eléctrico, o nuclear é um absoluto “non sequitur”.

“O nuclear é competitivo e não necessita de subsídios”

Este é um dos mitos que se pretende incutir na actual discussão sobre o papel da indústria nuclear nos dias de hoje. Essencialmente, o argumento é o seguinte: com a actual estrutura de custos e com a internalização dos custos climáticos (através do mercado de emissões europeu), o nuclear é já hoje uma tecnologia concorrencial, sem necessitar de apoio estatal.

Aliás, o paralelo é muitas vezes estabelecido, pelos seus proponentes, com as energias renováveis que, na sua maioria, recebem subsídios avultados através do apoio ao investimento e a criação de uma tarifa especial para a electricidade. Os custos dessa política seriam incomportáveis a prazo, argumenta-se, pois que, na sua maioria, estas tecnologias nunca serão viáveis senão num prazo de décadas.

O argumento em causa é totalmente falacioso.

Diga-se em primeiro lugar, que existe alguma verdade na alegação de que as industrias renováveis podem estar a receber um subsídio desproporcionado aos seus benefícios sociais: pode inclusivamente ser o caso da energia eólica, onde a tarifa tem levado a uma verdadeira corrida à construção de aerogeradores. Convém contudo sublinhar que, mesmo no esquema generoso que existe em Portugal, há limites: o subsídio não prevalece para sempre, sendo diminuído ao longo do ciclo de vida do aerogerador. Acresce ainda que o custo de investimento em Portugal na indústria em causa tem sido agravado por vários constrangimentos, entre os quais o licenciamento ambiental, que penalizam o investimento em causa. Seria preferível provavelmente baixar a tarifa e facilitar o licenciamento, dentro de limites de razoabilidade.

O nuclear, argumenta-se portanto, é livre de subsídios. Nada pode estar mais longe da verdade. Para começar, a I&D em energia nuclear tem sido subsidiada, mesmo em Portugal, em valores que nada tem a ver com a I&D em eficiência energética, tecnologias de transmissão ou energias renováveis, mesmo tendo em conta que Portugal, como não nos cansamos de ouvir, é especialmente dotado para algumas tecnologias renováveis.

Em segundo lugar, toda a electricidade nuclear tem sido suportada, ao longo dos anos, por condições absolutamente vantajosas no tratamento da responsabilidade civil. Ao contrário de qualquer investidor tradicional, as empresas detentoras de centrais nucleares têm, ao abrigo de convenções internacionais, limites objectivos ao volume de compensações a atribuir em caso de acidente nuclear. Este tratamento invulgar (semelhante ao tratamento jurídico dos acidentes marítimos com derrames de óleo) foi inicialmente invocado como uma forma de colmatar a impossibilidade, pelo mercado segurador, de calcular correctamente o risco envolvido na construção e operação de centrais nucleares. Essa protecção, que nos Estados Unidos é conhecida como “Price-Anderson Act”, existe desde 1947. Seria portanto de esperar que a indústria nuclear pudesse já hoje apresentar o seu “track record” e sujeitar-se à apreciação do mercado segurador. Qual a razão por que não o faz? Porque sabe que o mercado segurador muito provavelmente não seguraria a grande maioria dos desenhos de centrais em causa. Este subsídio americano, repetidamente concedido através de autorizações do Congresso, foi recentemente revalidado pela Administração Bush. Mas mesmo o libertário “Cato Institute” advoga a sua revogação. Na Europa, as Convenções de Paris e de Bruxelas têm essencialmente o mesmo efeito. Muitos investigadores suspeitam que, na ausência dessas Convenções e do subsídio imenso que podem co-substanciar, a energia nuclear europeia não seria comercialmente viável.

A última prova deste argumento da viabilidade comercial do nuclear vem do recente projecto privado finlandês (TVO) de construção de uma central nuclear (a única em construção na Europa, após uma “seca” de 20 anos). Argumenta-se repetidamente que se trata de um projecto integralmente privado, que não recebe subsídios para a sua construção e que não terá tratamento preferencial no mercado eléctrico finlandês. O site dos promotores da central é: www.tvo.fi e as suas “claims” podem ser vistas em http://news.bbc.co.uk/1/hi/scotland/4683248.stm.

Contudo, uma visão mais fina do projecto revela que:

- um dos promotores, a empresa AREVA, subsidiária nuclear da EDF, recebeu uma garantia estatal francesa através da agência de crédito COFACE, no valor de 610 milhões de euros;

- a agência de crédito à exportação SEK, pública, concedeu cerca de 100 milhões de euros de financiamento, abaixo da taxa de mercado;

- o consórcio bancário que financiou a operação inclui um banco público alemão, e a taxa de juro utilizada é claramente abaixo da taxa de juro de mercado; e a taxa foi concedida, mesmo tendo em conta o baixo “rating” de crédito da TVO;

- Decorre neste momento uma queixa por violação do direito comunitário em matéria de ajuda de Estado, sobre a qual a Comissão ainda não se pronunciou. Seja como for, para o projecto privado, “exemplo” de como o sector privado pode construir e operar uma central nuclear sem subsídios, este parece um verdadeiro contra-exemplo de como se pode mascarar subsidiação sob formas mais inocentes.

* * *

A história dos subsídios ao nuclear é enorme. Segundo a OCDE, nenhuma fonte de energia foi tão beneficiada. A energia nuclear foi inclusive, mais beneficiada, nos seus estados iniciais, do que as energias renováveis estão a ser neste momento. Portugal pode neste momento escolher entre uma tecnologia altamente subsidiada, de rentabilidade duvidosa em mercado liberalizado, e outras tecnologias ao seu dispor, que ainda merecem subsidiação, no seu estado actual.

“O risco de uma central nuclear é aceitável em Portugal; afinal, já temos centrais aqui mesmo ao pé de nós, sem ter os benefícios”

Este argumento é, em boa verdade, falacioso e francamente…tolo. Resume-se este argumento a dizer que, dado que o que interessa é o acréscimo marginal de risco com a construção e operação de uma central nuclear, o facto de termos centrais nucleares em operação razoavelmente perto da fronteira significaria que o aumento seria mínimo. O argumento é errado, não na sua lógica, mas porque assume que a gama de riscos envolvidos é:

- Facilmente mensurável;
- Directamente proporcional à distância.

Não cabe aqui fazer uma análise de risco, mas parece óbvio perceber que, na sua maioria, os riscos de dispersão atmosférica têm a ver com regimes de ventos, natureza e densidade dos contaminantes em causa, impactes ambientais em causa, etc; que um dos riscos mais comuns tem a ver com contaminação radioactiva das águas de arrefecimento, o qual depende, entre outros, do caudal dos rios em causa… A simplificação de tudo isto em relação a um único descritor é claramente “not warranted”. Basta pensar, por exemplo, que no caso da dispersão atmosférica, o regime de ventos predominante na Península afasta do nosso território, na maioria dos casos, os poluentes atmosféricos; ou que, no caso da poluição das águas, uma central nuclear portuguesa teria certamente impactes significativamente mais altos do que uma central nuclear espanhola, apenas porque os troços nacionais dos nossos rios (se estivesse em causa uma central localizada junto a um rio) não são provavelmente suficientemente compridos para permitir a diluição dos contaminantes.

Sobre o petróleo
“Vai acabar – estamos a chegar ao fim da era do petróleo”

Este é um mito bastante mais duradouro do que poderia parecer à primeira vista: as primeiras previsões sobre o fim do petróleo são já dos anos 70 e contudo continuamos a ver, ler e ouvir o mesmo argumento: as reservas estão a esgotar-se. A verdade é que, embora as reservas de petróleo conhecidas e economicamente viáveis aos preços recentes estejam a esgotar-se, e em particular as reservas americanas e europeias pareçam estar a esgotar-se, os “neo-malthusianos” têm repetidamente minimizado o papel que a subida de preços tem no fomento da investigação tecnológica e consequentemente na viabilidade dos depósitos mais difíceis. Um caso claro do que actualmente está a acontecer: os “oil shales” do Canadá, até recentemente inviáveis, com o preço do barril de petróleo a 20 dólares, são hoje o objectivo de uma corrida ao “ouro negro” nas planícies do estado de Alberta. Se as intenções de investimento se concretizarem, o Canadá poderá vir a ser um dos maiores produtores de petróleo e talvez até o segundo maior fornecedor de petróleo para os Estados Unidos. Obviamente, existe um limite para este processo de crescente sofisticação na obtenção de petróleo. Esse limite, conhecido nos modelos de economia como “backstop technology” determinará efectivamente a transição para outras formas de energia, e não o esgotamento das reservas. O mundo terá saído da era do petróleo, muito antes de se esgotar o petróleo. Como disse em tempos o xeque Yamani, ministro do petróleo da Arábia Saudita, “a Idade da Pedra não acabou por falta de pedra”.

Sobre as energias renováveis
"As energias renováveis são/ não são comercialmente competitivas"

Dependendo do lugar na barricada, existem duas opiniões sobre o custo das renováveis: a de que estas não são comercialmente rentáveis, pelo que os subsídios de que usufruem deveriam ser terminados; e a de que as energias renováveis são ou irão ser comercialmente rentáveis, pelo que a sua subsidiação justifica-se como forma de ultrapassar os constrangimentos que o mercado lhes impõe.

Na maior parte dos casos, a energia renovável para produção de electricidade é ainda hoje, não comercialmente rentável, a preços inteiramente livres, pelo que a sua subsidiação só se justifica se tiver em linha de conta co-benefícios que advém a curto e médio prazo, da sua utilização. Em alguns casos, esses co-benefícios são claros, e alguns estão repercutidos (se calhar, até de forma excessiva) na estrutura da tarifa eléctrica que é concedida às energias renováveis, como é o caso da contribuição da energia renovável para a diminuição das emissões de gases com efeito de estufa (inexplicavelmente, um caso de dupla subsidiação, dada a inclusão da produção eléctrica no mercado de emissões). Noutros casos, é duvidoso que a subsidiação das energias renováveis contemple todas as barreiras ao seu desenvolvimento, face às energias fósseis. É o caso, por exemplo, da escandalosa distribuição dos dinheiros concedidos em Portugal à investigação e desenvolvimento em diferentes formas de energia, onde as renováveis só recentemente têm lugar de destaque e, onde, de forma inexplicável, predomina, em Portugal, a investigação sobre a energia nuclear.

Sobre os preços da electricidade / energia
“Os preços da electricidade são caros em Portugal”

Ao longo dos últimos anos, a indústria portuguesa, através dos seus representantes, vem clamando por uma intervenção estatal nos preços da electricidade, claramente mais altos em Portugal do que em Espanha, o que atentaria contra a concorrência espanhola.

Infelizmente, o Governo decidiu atender aos desejos da indústria, compreendendo as suas razões.

A Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos tem, contudo, uma publicação curiosa, de seu nome “Comparação Internacional dos Preços da Energia Eléctrica a 1 de Janeiro de 2005”, onde é possível ler o seguinte: “Em média, considerando a estrutura de consumos estimada para Portugal, os preços em Portugal, são 7,2% inferiores aos preços praticados em Espanha. Considerando a estrutura de clientes, os preços para usos industriais, situaram-se 5,3% abaixo dos de Espanha”, isto para os preços com impostos. Com a diferença da taxa de IVA sobre a electricidade entre Portugal (5%) e Espanha (16%), os preços isentos de IVA (aqueles que são relevantes para a indústria, eram, à data de Janeiro de 2005, e em média, considerando a estrutura de consumos, 0,9% acima dos de Espanha. Ponderando os preços pela estrutura de clientes, estes situam-se 2,6% acima dos de Espanha. É caso para dizer que este não é de certeza o factor mais relevante de falta de competitividade. Acresce ainda que apenas para três classes de clientes industriais, correspondentes a cerca de 55%, o preço em Portugal era superior (embora, em abono da verdade, uma destas classes incorpora os maiores consumidores industriais).

Por último, tudo isto tem por base os clientes do sistema regulado. Resta acrescentar que, para muitos clientes industriais, os benefícios do sistema liberalizado já funcionam: os putativos menores custos de produção eléctrica em Espanha, a existir, podem ser usufruídos pelos maiores consumidores industriais portugueses.

E contudo, persiste a ideia de um défice de competitividade entre consumidores industriais portugueses e espanhóis. E na base disso, facilitou-se a subsidiação cruzada entre consumidores domésticos e industriais. Atente-se agora no mesmo documento: nele está patente o preço mais alto em Portugal (e que aliás poderia ser ainda mais alto, caso o IVA fosse imposto à mesma taxa que no resto da Europa). A verdade, nua e crua, é que os consumidores domésticos portugueses, embora protegidos de maiores aumentos de preços por uma portaria que limitava os aumentos à taxa de inflação (Índice dos Preços no Consumidor) eram, efectivamente, os consumidores que tinham custos mais altos com a electricidade. Mas, e no interesse da competitividade, são estes que vão agora subsidiar os industriais para que estes tenham preços de electricidade apenas marginalmente mais baixos do que os de Espanha. E viva o empreendedorismo!

“A liberalização do mercado eléctrico vai fazer baixar os preços da electricidade”

Um dos argumentos avançados para a liberalização da electricidade é a ideia implícita de que os ganhos de eficiência são tais, que os preços da electricidade não poderão senão baixar. Há aliás argumentos ambientalistas de que isso, só por si, justifica a posição à liberalização do mercado – menor custo implica menor incentivo à poupança e portanto, maiores consumos, donde maiores emissões.

Em primeiro lugar, é preciso perceber que a criação de um mercado de electricidade tem em conta múltiplas opções para o desenho e configuração do mercado, e que a liberalização “à espanhola” pouco tem a haver com a liberalização “à inglesa” e ainda menos com a liberalização californiana. Existe uma diversidade de soluções de liberalização, pelo que é difícil defender uma tese geral sobre os mercados liberalizados de electricidade.

Em segundo lugar, o mercado, por muito eficiente que seja (e a maioria dos mercados eléctricos são notoriamente ineficientes) não podem falsear os dados de base sobre os custos de produção. Ou seja, a menos que haja intervenção estatal (ou comportamento predatório), os custos de produção de electricidade fixam o limiar mínimo para os preços que vigorarão no mercado. Esses custos de produção variam com uma quantidade enorme de factores (p.ex. pluviosidade) e é difícil, embora possível, prever o que o mercado fará. O que é certo é que, em relação à situação actual, em que as tarifas no consumidor final são reguladas, i.e. calculadas pelo regulador em função de informação dada pelos produtores sobre os custos que podem ser “levados à tarifa”, não é possível determinar se os preços futuros num mercado liberalizado serão necessariamente mais baixos. Pode até ser, caso a regulação seja boa (como é o caso em Portugal), os preços num mercado sejam efectivamente mais voláteis e potencialmente mais altos do que na situação actual. Acresce que, se o mercado for ineficiente (caso notório de Espanha), os preços serão claramente mais altos. As promessas feitas por políticos sobre os benefícios do MIBEL neste âmbito são, por isso, e apenas, “wishful thinking”.

Sobre o hidrogénio
“O hidrogénio é a próxima fonte de energia”

Outra falácia típica dos jornalistas menos experientes na área da energia: o hidrogénio não é uma fonte de energia, visto que ele não existe, na sua forma natural, numa forma utilizável para a conversão em energia eléctrica. A grande vantagem dos processos de hidrogénio reside na possibilidade de, obtido o hidrogénio a partir de qualquer uma das fontes tradicionais (hidrocarbonetos ou nuclear) ou renováveis (solar, eólica), este poder ser utilizável em processos não-poluentes de produção de energia em dispositivos conhecidos como “células de combustível”.

O importante a reter, contudo, é que, dada a indisponibilidade do hidrogénio na sua forma natural, o hidrogénio tem que ser produzido a partir de outros compostos que o incorporem (um processo conhecido como “reformação”). A reformação pode ser feita através da decomposição do metano, da gasolina, ou mesmo da água, mas esse processo, bem como o transporte e armazenamento do hidrogénio são ainda complexos e terão de, a prazo, ser objecto de padronização. De qualquer forma, o mais provável é que uma transição para uma economia de hidrogénio passe pela utilização, em fases intermédias, de processos de reformação a partir de hidrocarbonetos, pelo que o hidrogénio, só a prazo poderá ajudar efectivamente à segurança no abastecimento energético. O hidrogénio poderá ainda ter um efeito a médio prazo na viabilização de algumas fontes intermitentes de electricidade (éolica, por exemplo), constituindo-se como tecnologia de armazenamento de electricidade.

Sobre a independência energética
"O gás natural piorou/melhorou a nossa dependência energética"

O gás natural foi apresentado aos portugueses como o projecto que iria decididamente melhorar a situação de dependência energética do país em relação ao petróleo, fonte primária mais importante do país. Aliás, já o investimento em centrais a carvão (Pego) na década de 80, foi justificado pelo aumento da nossa dependência tendo em linha de conta a vulnerabilidade revelada por Portugal face aos choques de 1973 e 1979.

Assim sendo, pareceria que o gás natural, e a sua penetração rapidíssima no sistema energético português, teria cumprido a sua missão de diminuir a dependência energética do país. Mas eis que, subitamente, e para justificar outros investimentos energéticos em Portugal, se defende agora que o país está sobre-dependente em relação ao gás natural. Argumenta-se agora, por exemplo, com o risco político de instabilidade na Argélia (como se essa instabilidade fosse de agora, e não tivesse havido uma guerra civil durante todo o período em que Portugal teve como único importador a Argélia).

O estado da independência energética depende essencialmente do modo como a definirmos, pelo que precisamos de clarificar: se por independência queremos falar de controle sobre a matéria prima e produção, então nem mesmo o nuclear está a salvo, e apenas teríamos potencial na área das renováveis. Mas esse desiderato corresponde ao ideal do regime autárcico, corporizado entre nós pelo regime salazarista, ou noutras paragens, por exemplo, pelo ideal do senhor Ceausescu. Se, pelo contrário, reconhecermos que nunca será possível sermos autárcicos em energia, então colocaremos a questão noutros moldes, nomeadamente: como pode o País assegurar, sem grandes quebras, a energia primária útil de que necessita para as suas actividades. Se o fizermos dessa forma, algumas coisas parecem de repente mais claras: o que importa é diversificar o risco de quebra de fornecimento de qualquer um dos combustíveis, por forma a que, qualquer que seja o “abalo” que exista numa parte do mundo, ele seja compensado por outras fontes de energia. Aqui estamos muito perto da ideia de gestão de risco de carteira, tão cara aos analistas financeiros: por cada Joule que estou dependente de uma fonte arriscada, devo programar a compra de Joules de outras fontes com menos risco. Nessa óptica, o mais valioso instrumento para assegurar a nossa dependência energética (mas que quase ninguém cita), foi a construção do terminal de regaseificação de gás natural de Sines, possibilitando a importação de outras paragens, bem como a ligação em Espanha da nossa rede à rede transeuropeia. E o que verdadeiramente aumentaria as nossas posições relativas face ao exterior, seria a multiplicação das possibilidades de trocas de gás (como com a electricidade) com Espanha e França. Ou seja – a criação do mercado europeu de gás. Muito mais importante aliás, do que a eterna reconfiguração empresarial do sector. Infelizmente, fala-se mais em Portugal da privatização da Galp, ou do perigo da Iberdrola, do que do problema real do abastecimento e reserva de gás. Esses assuntos não vendem jornais, nem mostram os nossos empresários no seu melhor.