Dirigir um exército grande é igual a dirigir uma tropa pequena: é uma questão de comando rígido e imparcial." (Sun Tzu, "A arte da Guerra").
Blogue de Reflexão sobre Ambiente e Sociedade
imagem retirada do site do promotor, que vale a visita
A imagem do sítio da plataforma, tirada do site da QUERCUS, bem demonstrativa da adequação do sítio à construção de armazéns

in Expreso, 13 de Abril de 2010
A Galp propôs aos seus funcionários um aumento de 1,5 por cento. Os trabalhadores vão fazer uma greve. O presidente do conselho de Administração, Ferreira de Oliveira, acusou os trabalhadores de "falta de solidariedade para com o futuro da empresa".
Alguns dados:
1 - Ferreira de Oliveira recebeu, em 2009 , quase 1,6 milhões de euros, dos quais mais de um milhão em salários, 267 mil em PPR, quase 237 mil euros de prémios de desempenho (mais de 600 mil em 2008) e 62 mil para as suas despesas de deslocação e renda de casa. É um dos gestores mais bem pagos deste país.
2 - Os sete administradores da empresa (ex-ministros Fernando Gomes e Murteira Nabo incluídos) receberam 4,148 milhões de euros. Mais subsídio de renda de casa ou de deslocação, no valor de três mil euros mensais. Os 13 administradores não executivos receberam 2,148 milhões de euros. Entre os administradores não executivos está José António Marques Gonçalves, antigo CEO da petrolífera, que levou para casa uma remuneração total de 626 mil euros, incluindo 106 mil de PPR e 94 mil de bónus. No total, os 20 gestores embolsaram 6,2 milhões de euros, 2,9% dos lucros da companhia.
3 - Os trabalhadores pedem um aumento de 2,8 por cento no mínimo de 55 euros. Perante estas exigências de aumento, a administração que recebe estes salários diz que, tendo sido estes dois últimos dois anos "de crise", elas são "impossíveis de satisfazer".
4 - A Galp não está em dificuldades. Os lucros ascenderam, no ano passado, a 213 milhões de euros. No ano anterior foram de 478 milhões de euros. A empresa vai distribuir dividendos pelos accionistas. Mas ao contrário do que tem acontecido nos últimos cinco anos os trabalhadores ficam de fora. "Não é possível distribuir resultados que não alcançámos", diz Ferreira de Oliveira, que, tal como o resto da administração, não deixou de receber o seu prémio pelos resultados que não alcançou.
Os factos comentam-se a si mesmos. Por isso, ficam apenas umas notas:
A administração que suga (com uma grande contribuição do seu CEO) quase três por cento dos lucros de uma das maiores empresas nacionais acusa os trabalhadores de falta de solidariedade por quererem um aumento de 2,8 por cento. E que a greve "não defende os interesses nem de curto nem de longo prazo dos que trabalham e muito menos dos que aspiram a vir a trabalhar" na Galp.
De facto, ex-ministros pensarão duas vezes em escolher aquela empresa para dar conforto à sua reforma se os trabalhadores receberem 2,8 por cento de aumento. De facto, um futuro CEO que precise de receber mais de sessenta mil euros para pagar a sua renda de casa e deslocações (que um milhão nem dá para as despesas) pensará duas vezes antes de aceitar o cargo se os funcionários que menos recebem tiverem um aumento de 55 euros mensais. De facto, gestores que recebem prémios por "resultados não alcançados" não aceitarão dirigir uma empresa que distribui dividendos quando os lucros baixam.
A ganância destes trabalhadores desmoraliza qualquer homem de negócios mais empenhado. Assim este País não vai para a frente. A ver se os trabalhadores da Galp percebem: todos temos de fazer sacrifícios.





Respondendo a uma solicitação do secretariado da Conselho da Europa para a Convenção de Berna (sobre vida selvagem e habitats naturais na Europa), elaborei um relatório sobre os desafios das áreas protegidas Europeias face às alterações climáticas globais. Quem estiver interessado em consultar o relatório poderá fazê-lo aqui.
Mas há resultados e convém, como diz o Rodrigo, difundi-los (há mais que os aqui listados, mas são reuniões, workshops e acções de sensibilização onde não consta que tenha estado nenhum lince que pudesse ter enriquecido os workshops):
Perguntar-se-á por que razão estou aqui a escrever sobre um projecto da LPN quando no título disse que ia escrever sobre o Estado e a conservação do lince. Porque este projecto é explicitamente parte da estratégia do Estado para a conservação do lince.
Pode seguir-se este link mas ninguém terá paciência para ler o que lá está. É o plano de acção para a conservação do lince ibérico.
E fazem bem, para não ter bem a consciência do que o Estado Português anda a fazer com os nossos impostos, evitando assim úlceras e AVCs. Para se ter uma ideia, só na quarta página de seis é que se começa a falar de conservação in situ e começando com esta frase: "O matagal mediterrânico tem vindo a desaparecer progressivamente ao longo dos últimos anos.".
Não se acreditaria se não estivesse escrito do Diário da República (e sinceramente deve haver uma explicação para esta frase, uma definição especiosa de matagal mediterrânico que o distinga do mato que todos os dias cresce livre dos agricultores e do gado que o combateram dia após dia nos últimos séculos). Mas quando mais à frente se diz taxativamente "muitas das áreas de ocorrência potencial do lince-ibérico encontram-se em propriedades particulares, dependendo a sua conservação da gestão aí efectuada. Neste contexto, torna-se fundamental a iniciativa dos proprietários, produtores e gestores, seja directamente, seja através de parcerias e contratualização." percebe-se definitivamente a coisa: o plano foi escrito em Fátima e alguém acredita que a Divina Providência o fará executar, porque doutra forma nunca se compreenderia que o Estado estivesse convencido de que o seu êxito depende inteiramente da iniciativa dos proprietários e, pelo contrário, teria imediatamente definido que medidas iriam ser tomadas, por quem e com que recursos (por exemplo, os existentes no PRODER) para conduzir as opções dos proprietários, que é o que fazem os Estados que não tendo Fátima são obrigados a desenhar políticas sem contar com milagres.
O mesmo Estado tem montada uma infra-estrutura de reprodução em cativeiro, sem que, tanto quanto sei porque a informação é escassa, as pessoas que sabe que são necessárias pelo menos nos próximos cinco anos sejam contratadas por concurso público, com contratos claros pelo tempo em que vão ser necessárias, como faz qualquer Estado que não acredita em milagres. O nosso Estado, devoto profundo da Senhora de Fátima, pelo contrário, contrata com base em processos obscuros, com vínculos precários (eventualmente ilegais, como bem reconheceu o Sr. Eng. Sócrates quando na campanha eleitoral garantiu que ia resolver o problema dos recibos verdes que já tinha sido resolvido pelo Sr. Eng. Guterres) porque embora a conservação do lince seja uma prioridade, parece que alguém se esqueceu de dizer isso ao Sr. Ministro das Finanças.
O mesmo Estado aliás vai usar o dinheiro do PRODER em Alqueva e outros regadios porque acredita que assim crescerá o matagal mediterrânico e os coelhos, não sendo por isso preciso dinheiro para convencer os proprietários rurais a usar as suas propriedades de acordo com as necessidades de gestão que decorrem da vontade de recuperação do lince ibérico. Parece que alguém se esqueceu de dizer também ao Sr. Ministro da Agricultura que a conservação do lince era prioritária e portanto ele esqueceu-se de mobilizar os recursos reais do PRODER, assumindo-se que uns projectitos demonstrativos financiados pelo LIFE e a boa vontade dos caçadores eram suficientes, com a ajuda da Divina Providência, para aumentar consistentemente as densidades de coelho em Portugal.
Enfim, provavelmente isto é mesmo, só pessimismo. Mas eu tenho desculpa: vivi alguns anos perto de Fátima e percebi que se a Senhora deixou crescer o caos urbanístico que existe à volta do seu santuário era provavelmente porque dela era o reino dos Céus, e cá na terra nós que trepássemos se queríamos bolota.
Provavelmente é só aí que reside a minha discordância em relação ao Estado português nesta matéria. Afinal é tudo uma questão de fé.
henrique pereira dos santos