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terça-feira, fevereiro 14, 2006

É necessário desfazer fábulas para discutir problemas sérios


















Imagem da laurisilva nos Açores (Flores). Foto gentilemente cedida por Joaquin Hortal

Se há algo que caracteriza o espírito deste blogue é a convicção de que as questões ambientais devem ser discutidas com base na racionalidade e no rigor.

Alguns pretendem enfatizar alternativas de cariz ideológico no debate ambiental. Esta perspectiva contrasta com uma visão, essencialmente pragmática, que procura identificar os problemas de forma objectiva e encontrar soluções socialmente aceitáveis. Esta visão pragmática assenta nos seguintes pressupostos: 1) o direito [e desejo] a usufruir de um bom ambiente é transversal a toda a sociedade; e 2) este direito [desejo] insere-se numa concepção alargada de “bem estar” onde o qualidade do ambiente e da economia não são indissociáveis.

Estou convicto que uma das condições essenciais para a realização de um debate maduro sobre questões ambientais é que o ponto de partida, o diagnóstico dos problemas, seja realista e fundamentado. O contrário, um diagnóstico distorcido por visões emotivas ou ideologicamente marcadas, será dificilmente partilhado por um espectro alargado da sociedade tendo ainda o condão de gerar antagonismos numa fase de debate demasiado precoce para que de aí saiam soluções úteis. Julgo que o texto do Dr. Jorge Paiva, que aqui se reproduz, é exemplo deste tipo de textos que pouco úteis.

O artigo é estruturado de forma a transmitir a ideia de que os incêndios decorrem da política de eucaliptização levada a cabo em Portugal entre os anos 70-90. Todavia, como é demonstrado pelo artigo de Luís Silva Reis e explicado de forma substantiva pelo Paulo Fernandes, os povoamentos de eucalipto ardem pouco relativamente aos povoamentos de pinheiro bravo. Isto apesar da elevada inflamabilidade do eucalipto. Logo, se o objectivo do artigo de Jorge Paiva era discutir os incêndios e suas causas existe lapso de lógica no enquadramento do problema (se os povoamentos de eucalipto ardem pouco não serão estes que estarão na raiz dos incêndios em Portugal) que revela que a ideologia (neste caso a aversão ao eucalipto) se sobrepõe à análise fria e racional do problema.

É patente que no artigo se valoriza a capacidade de contar uma estória em detrimento do rigor sobre a História. Por exemplo, afirma-se que a floresta antiga de loureiros, a laurisilva, desapareceu no final da ultima glaciação (20 mil anos) e não no final do Terciário (1.8 milhões de anos) como se defende na literatura especializada. Aliás o próprio autor do texto, em fóruns de menor audiência, reconhece explicita, ou implicitamente, este facto. Também se refere que a paisagem glaciar de Portugal se aproximou da Taiga (floresta de coníferas do norte da Europa), quando se sabe que esta se aproximava mais da estepe arbustiva. Proclama-se também que o Pinheiro bravo é uma espécie exótica quando se sabe hoje (ver artigo de Carlos Aguiar) que a espécie é nativa de Portugal. Existem duas interpretações possíveis sobre estas imprecisões técnicas. A primeira é que são lapsos. A segunda é que são “licenças literárias” para melhor contar uma estória cuja eficácia depende do grau de emoção que despertar nos leitores.

A questão essencial não é se o eucalipto está na origem do fenómeno dos incêndios em Portugal (parece ser óbvio que não está), nem se o eucalipto é árvore a abater (postura pouco produtiva). O importante é discutir o tipo de paisagem e estrutura económica que queremos para a floresta em Portugal. Penso que o contributo de Paulo Canaveira é útil para o debate (e original pois não é todos os dias que os técnicos de empresas de celulose entabulam diálogo aberto e horizontal com ambientalistas) ainda que seja importante analisar as causas que subjazem a eucaliptização indiscriminada que ocorreu nos anos 70-90 para melhor entender a situação actual, de moderação no discurso, das empresas de celulose.

Segundo o Paulo Canaveira verificaram-se “erros” económicos pois plantaram-se eucaliptos em áreas marginais para o crescimento das espécies. É verdade mas também é verdade que a política das celuloses não era a de maximizar a produtividade (toneladas por hectare) mas a produção (toneladas). Uma lógica idêntica, aliás, à da campanha do trigo do Estado Novo. Por outro lado o problema da eucaliptização, no contexto ambiental, não se resume a plantações em áreas marginais para a produção do eucalipto. Existe um problema de coincidência entre terrenos disponíveis para plantações (áreas pouco produtivas do ponto de vista agrícola) e áreas de elevado valor para a conservação. Num País cuja cobertura de áreas classificadas para a conservação excede os 21% do território, pode-se dizer que existe um enquadramento legal de base para disciplinar o zonamento da actividade florestal. Um enquadramento que era menos forte quando as empresas de celulose arrasaram a Serra d’Ossa, partes da Serra da Malcata e muitas outras áreas residuais para o Lince Ibérico. Noutros Países, onde as leis ambientais são menos estritas, as empresas de celulose continuam, como aliás não deixa de ser natural, de reger-se por critérios de racionalidade económica pura. Por exemplo, numa visita recente ao Brasil pude observar áreas de mata atlântica (um dos sistemas florestais mais ameaçados do mundo) a serem substituídas por plantações de eucalipto. Ou seja, a moderação do discurso é questão de contexto e isso tem de ser entendido para que a interacção com o sector industrial seja profícua.

De forma geral sou inequivocamente avesso a que áreas de valor para a conservação sejam transformadas em plantações sejam elas de eucalipto, pinheiro, ou outra espécie. Nestas áreas há que procurar trabalhar com o sistema existente tirando partido das valências económicas endógenas. Em Portugal tal rentabilização dos valores naturais tem sido difícil porque temos um tecido social pouco empreendedor que prefere, regra geral, soluções fáceis como a plantação de uma espécie cujo escoamento é assegurado por uma grande empresa. Por outro lado temos um público de utilizadores de paisagem que é pouco exigente em termos de qualidade. Noutros Países com tradições mais empreendedoras e graus de civilidade mais avançados (vide o sul de França) as regiões com valor natural, ou paisagístico, são exploradas economicamente pelos residentes locais sem que tais actividades atentem contra a “galinha dos ovos de ouro”.

Além da fraca capacidade empreendedora dos portugueses, não tem ajudado o facto de o movimento ambientalista se ter entrincheirado em posições que por vezes roçam o anti-desenvolvimento de actividades económicas em áreas de valor de conservação. A recente inversão de discurso ao nível do Instituto de Conservação da Natureza merece um aplauso prudente. Prudente porque temos pouca tradição na matéria e muitas das experiências de desenvolvimento económico têm ido no sentido da destruição de valores mais do que do seu aproveitamento sustentável (a Costa Alentejana e Vicentina é exemplo paradigmático dessa incapacidade de oferecer alternativas de baixo impacte). Mas vale a pena estar atendo e adoptar uma postura construtiva pois a alternativa a soluções económicas fáceis e destruidoras de valores naturais não é, na maior parte dos casos, a ausência de actividades económicas.

Além da questão do zonamento de actividades (um dos aspectos mais polémicos da eucaliptização) é importante discutir as práticas silvícolas adoptadas em plantações de eucalipto, mas também pinheiro, fora das áreas com valor de conservação. A adesão a sistemas de certificação de produtos florestais é o caminho a seguir e é fundamental que, mais do que atacar o eucalipto enquanto árvore, os ambientalistas nacionais não se alheiem destes processos participando, sempre que possível, na definição de critérios de certificação e fiscalização da sua aplicação no terreno.

terça-feira, janeiro 31, 2006

Pinheiro e eucalipto: caminhos para actualização de atitudes e posições no movimento ambientalista

Por Carlos Aguiar

Haverá pouca gente que sinta um misto de amizade, gratidão e admiração pelo Dr. Paiva tão profundo como eu. Além das qualidades humanas e da generosidade como activista pela causa ambiental, admiro no Dr. Paiva o saber botânico e o trabalho Científico que produziu, e produz, nesta ciência em Portugal (para quem não sabe, o Dr. Paiva é editor de alguns dos volumes da Flora Iberica, talvez a mais prestigiosa obra de taxonomia botânica Europeia pós Flora Europaea). Alguém tão perseguido pelos seus pares por delito de opinião como o Dr. Paiva entende que as suas posições públicas estão sujeitas a um escrutínio atento e cuidadoso. Além do mais, o Dr. Paiva sabe que a sua opinião conta e, por isso, escreve com um evidente intuito de estimular a discussão e de abanar as mentes. Como ambos recusamos o beija-mão das ideias dominantes, julgo seria incorrecto para com ele e para com os leitores deste blogue não assumir a minha discordância com algumas das suas opiniões.

O preâmbulo paleoecológico do artigo do Dr. Paiva foi já suficientemente dissecado [nota do blogue: este aspecto será abordado noutro "post"] . Por isso, vou focar a análise numa questão paralela ao texto do Dr. Paiva: é o pinheiro-bravo indígena de Portugal? Ser ou não ser autóctone faz toda a diferença porque condiciona a interpretação da acção dos serviços florestais durante o séc. XX. A informação paleoecológica disponível é peremptória, o Pinus pinaster é indígena de Portugal!


Durante grande parte do Holocénico co-existiram no território português dois ecótipos distintos: um litoral e outro continental. O ecótipo litoral é indígena, pelo menos, dos sistemas dunares a norte da Figueira da Foz e das paleodunas sadenses. O ecótipo continental foi extinto pelo Homem através da acção combinada do encurtamento do ciclo de recorrência dos fogos, sobrexploração e poluição genética. Este ecótipo ocupava solos delgados, sobretudo em encostas de grande declive; possivelmente alternava nos mesmos espaços com Querci, num ciclo controlado pelo fogo. Lamentavelmente, as arborizações feitas no interior do país foram realizadas com o ecótipo litoral (a maioria dos sementões portugueses estão nas matas nacionais do centro-oeste) daí as fraquíssimas taxas de crescimento nos territórios mais mediterrânico-continentais (algo que ninguém sabia no início do séc. XX).

Do ponto de vista técnico, as arborizações com Pinus estão correctamente justificadas no Plano de Povoamento Florestal (1938-1968) ou no "Reconhecimento dos baldios do continente", documentos, diga-se de enorme solidez e substância técnica. Está escrito que os Pinus actuariam como espécies pioneiras que, além de produzirem riqueza, abririam caminho aos Quercus e à reconstituição de fertilidades perdidas (reparem nos objectivos de emulação dos sistemas naturais). A ideologia subjacente aos planos de arborização era simples: produzir riqueza e restaurar a fertilidade do solo num país pobre, sobrepovoado e sem recursos naturais, profundamente degradado pelo Homem, de fraca aptidão agrícola e com uma enorme falta de matérias lenhosos. Os objectivos de produção de riqueza e de restauração ecológica foram cumpridos enquanto as premissas sociais dos planos de arborização i.e., as características dos sistemas sociais não se alteraram. No meu entender, é injusto apontar um dedo acusador aos idealizadores do Plano de Povoamento Florestal porque este dificilmente podiam prever que o fogo acabaria por atrasar os objectivos de criar um Portugal mais produtivo, e que seria o abandono a abrir caminho aos Querci. De facto, para já não falar nos sistemas de preços e no controlo estatal dos mercados, os sistemas sociais nas sociedades modernas mudam a um taxa francamente superior à duração do ciclo biológico das árvores: por isso é tão difícil planear a floresta.

A conclusão avançada pelo Dr. Paiva " ... pinhais e eucaliptais contínuos, os incêndios florestais tornaram-se não só frequentes, como também incontroláveis. Desta maneira, o nosso país tem já algumas montanhas transformadas em zonas desérticas" necessita de ser clarificada. Na realidade, as montanhas e outras áreas marginais onde o pinheiro (e o eucalipto) têm baixos crescimentos anuais e são pouco rendáveis, utilizando a metáfora do deserto, voltaram a ser o "deserto" que eram. Portanto, a crítica maior às arborização em áreas marginais, concretamente de montanha, tanto de Pinus como de Eucalyptus, não é uma hipotética degradação do território mais sim o enorme desperdício de recursos públicos e privados para tudo ficar na mesma, i.e., um mau investimento da riqueza num país pobre. Quando os erros começaram a ser percepcionados - e o movimento ecologistas foi essencial neste processo - as políticas públicas e os comportamentos demoraram demasiado tempo a mudar, em grande parte por causa o hábito nefasto, que nos caracteriza e persiste, de não fazermos contas e de nada monitorizarmos. As empresas de celuloses, após a mudança de uma lógica pública para uma lógica privada, aprenderam com o erro e rapidamente arrepiaram caminho: investiram em I&D e concentraram as suas actividades onde o eucalipto é rentável … e o mesmo pode acontecer com o pinheiro-bravo. Como os critérios de eficiência e eficácia económica, por atavismo ideológico, demorou (demora?) a impregnar ao Estado, as políticas estatais de arborização continuaram a propagar e a repetir os mesmos erros por muito tempo (até hoje?).

Agora vamos ao eucalipto. A questão que se põe é a seguinte: devemos repudiar a cultura do eucalipto? Esquecer a floresta de produção e dedicar os recursos públicos aos Querci? Começo por expor as minhas dúvidas. Alguém já estudou a taxas de rentabilidade associadas à produção de eucalipto? Por outras palavras, nas áreas onde o Eucalipto é rentável, e estas são cada vez menores com a expansão por exemplo do Eucalyptus grandis (e derivados híbridos) no Brasil, esta cultura compromete significativamente o seu uso futuro? Estamos a passar uma factura pesada para as gerações futuras? Vejamos. É maior o impacte (controlo) nos usos futuros da agricultura de eucaliptos, porque na realidade é isso que se trata (o eucalipto fertiliza-se e cuida-se como uma árvore de fruto), do que usos alternatives como sejam o cultivo de cereais, o corte tradicional de matos ou a produção de mato para arder, e a consequente exportação de nutrientes? Por exemplo, no médio-longo prazo, a hipotética produção de energia a partir de biomassa, defendida pelo actual governo, não será ambientalmente mais gravosa do que a produção de eucaliptos? Para onde irão as cinzas da oxidação das lenhas nas centrais de biomassa? Não bastaram já 5000 anos de "nutrient mining" nas paisagens portuguesas? Na realidade, o eucalipto é tão estranho aos ecossistemas portugueses como o milho, o trigo, o pessegueiro ou a amendoeira. O seu efeito simplificador (ou de substituição) das biocenoses autóctones não é maior do que um milheiral regado com um pivot ou um campo de cebolas numa maceira do Minho. As dificuldades em restaurar os espaços cultivados com eucalipto são bem menores do que num baldio queimado de 5 em 5 anos. Mais perguntas. Não é verdade que a fertilização do eucalipto garante a manutenção da fertilidade do solo de uma forma francamente mais eficiente do que os cereais extensivos "criados" à custa da mineralização da matéria orgânica? e que a cerealicultura deixa o solo bem mais exposto à erosão do que árvores e as toiças dispostas ao longo de curvas de nível? Nas áreas onde o eucalipto é rentável o efeito facilitador da agricultura de eucaliptos nos Querci não é maior do que os pomares macieiras ou aveleiras ou a cerealicultura? E recupero mais uma vez a velha questão: onde é maior o impacte da produção de uma tonelada de pasta de papel? No Minho ou na baixa fluminense? Mais; é ambientalmente mais vantajoso produzir uma tonelada de papel num sistema semi-intensivo ou extensivo (i.e. numa área de maior dimensão)? Portanto, partindo do princípio que o papel é indispensável, a bandeira ecologista nos dias de hoje não pode ser a mesma de há 20 anos atrás.


O movimento ecologista tem que lutar, sim, 1) pelo fim das transferências de riqueza, mediadas pelo estado, através de benefícios fiscais e subsídios, para as celuloses e para produtores florestais irresponsáveis; 2) pugnar por políticas e um planeamento florestal a escalas cartográficas cada vez mais pequenas, em que os custos de oportunidade dos usos sejam quantificados (e.g. substituição de bosques nascentes por monoculturas). A produção de riqueza com a agricultura de eucaliptos tem de ser real e as suas taxas de rentabilidade alteradas (provavelmente reduzidas), através da internalização das suas externalidades negativas (por exemplo, taxas sobre a redução na recarga dos aquíferos e sobre a erosão), mas também das suas externalidades positivas (fixação de carbono). Adicionalmente, é fundamental a internalização das externalidades positivas das folhosas (o que no entanto já tem sido parcialmente feito através dos apoios à florestação) e, para evitar enviesamentos, não esquecer a internalização das externalidades negativas de usos alternativos como a cerealicultura. Como há já alguns anos defendi na AMBIO os critérios de eficiência económica têm cada vez de estar mais próximos do pensamento ecologista.

No meu entender a crítica radical contra o eucalipto de hoje é, sobretudo, ideológica, e, por definição, não refutável. Consequentemente, por uma questão de honestidade científica, estou acordo com as posições do Paulo Canaveira. Não há que ter medo da transferência do eucalipto para antigas áreas agrícolas, pelo contrário! Esta modificação da geografia agro-florestal seria francamente favorável porque libertaria as áreas marginais para a conservação da Natureza e para a produção de bens e serviços que nos são indispensáveis (amenidades, ciclo da água, etc).

Agora, a luta do Dr. Paiva foi inútil? Não, de modo algum? Alertou para os perigos da conivência entre o poder político e as falsas promessas de riqueza. A sua luta foi sobretudo contra a ignorância, a incoerência e contra um estado amador e dominador: portanto, estou com ele.



Engenheiro Agrónomo , Escola Superior Agrária de Bragança

segunda-feira, janeiro 30, 2006

Eucalipto: O Dogma

Tendo o artigo de Jorge Paiva como mote seguir-se-ão alguns artigos, ou comentários, provenientes de pessoas que se manifestaram publicamente sobre o referido texto quando este foi divulgado na lista AMBIO. Sugere-se igualmente a leitura de um texto anterior, de Pedro Bingre, que ajuda a contextualizar o tema em foco. O primeiro destes textos que agora se publicam é de autoria de Paulo Canaveira. Espera-se que do saudável confronto de opiniões se contribua para aprofundar uma matéria que é do interesse generalizado de muitos os que lêem este blogue.


Por Paulo Canaveira

Nos anos 70/80 observou-se uma rápida alteração de paisagem. O eucalipto (na verdade várias espécies de eucaliptos) presente no nosso País há muitos anos subitamente passa de uma espécie ornamental e de produção de sombra para a ribalta da comunicação e da luta ambiental.

Porquê? Porque estava em curso uma (muito) rápida mudança da paisagem portuguesa com a expansão de plantações de eucalipto um pouco por todo o País. Na altura os promotores dessas arborizações acreditavam que o eucalipto poderia crescer igualmente bem em quase todas as condições do nosso território, bem como constituir-se como alternativa num contexto agrícola que apresentava os primeiros sinais de declínio. Por outro lado, o crescimento industrial dessa altura ditava uma pressão de arborização que assegurasse o abastecimento da matéria-prima em quantidade e qualidade suficientes.

O processo foi obviamente rápido demais e generalizado demais. É hoje notório que o eucalipto não é uma espécie que possa ser produzido em qualquer ponto do território. Existem várias situações que ilustram estas “tentativas falhadas” – vejam-se os eucaliptais em Mértola, por exemplo.

A reacção não se fez tardar e o movimento ecologista levantou-se contra esta dinâmica da paisagem. Motivavam-no justas preocupações com a qualidade do solo, consumo de água e redução de biodiversidade. Alguns dos projectos falhados alimentavam com argumentos esta luta e generalizou-se e cristalizou na sociedade portuguesa este conceito de “árvore demónio”, hoje aparentemente inatacável.

A par destes projectos falhados foram feitas muitas arborizações com um enorme sucesso produtivo. A capacidade de produção de fibra e a qualidade da fibra produzida não têm par com as espécies de árvores da flora nativa de Portugal.

Ainda assim, subsistiam dúvidas legítimas sobre o impacto ambiental do eucalipto que era necessário esclarecer. Isso motivou uma investigação e experimentação sem precedentes na história florestal (e agrícola) deste País. 20 anos dessa investigação mudaram muita coisa – desde as variedades de eucalipto utilizadas, às práticas de gestão “recomendadas” e postas em prática no terreno.

O que hoje observamos no território português, quando falamos de eucalipto, é uma mistura de projectos falhados, projectos com uma gestão amadora e projectos com uma gestão altamente sofisticada, apoiada na melhor ciência disponível. Por outra perspectiva, observamos projectos de eucalipto bem localizados (em termos edafo-climáticos) e projectos em locais que não suportam condições adequadas para esta espécie.

Faz sentido, na situação actual, falar dos benefícios ou malefícios do eucalipto? Eu acho sinceramente que não. A diabolização ou o endeusamento da espécie enquanto espécie não faz qualquer sentido técnico e científico.

A questão que coloca o debate na sua dimensão correcta, face à diversidade actual, é: em que condições é que o eucalipto (ou melhor dito a silvicultura do eucalipto) pode, com evidentes ganhos económicos e reduzido impacto ambiental, ser produzido?

Para que esta questão se possa debater é preciso não tratar o eucalipto como um dogma, mas sim tratar a cultura do eucalipto como um problema técnico e científico para resolver. Como com qualquer outro problema científico é preciso revisitar os pressupostos do suposto impacto ambiental e do suposto ganho produtivo e económico e perguntar:

1. À luz do conhecimento actual (muito diferente do ponto em que estávamos à 20 anos atrás) qual é o impacto do eucalipto sobre o solo, água e biodiversidade?

2. Este impacto é igual em todas as situações geográficas? E em todos os sistemas de gestão e práticas culturais?

3. É possível, para os impactos identificados como significativos, desenvolver, testar e implementar soluções de gestão que os reduzam ou anulem?

4. Em que condições (locais e práticas de gestão) é possível produzir eucalipto em quantidade e qualidade suficientes? Como controlar e optimizar os custos de gestão e exploração deste tipo de floresta para garantir um retorno aceitável para os proprietários?

5. Que questões não esclarecidas satisfatoriamente devem orientar a política científica em torno desta espécie?

O que me parece é que o movimento anti-eucalipto está confortavelmente sentado sobre o seu dogma da “árvore demónio” e a simples sugestão de que nem tudo no eucalipto é intrinsecamente mau é combatida com a insinuação de que os mentores dessa argumentação só podem ser comprados, corruptos ou de uma completa irresponsabilidade social.

Pessoalmente, não me revejo em nenhuma das categorias anteriores, e tento apenas manter a mente aberta e confrontar os prós e os contras de qualquer actividade humana – todas as têm.

O paradigma ambiental do montado de sobro (outro dogma nacional) não é inimputável do ponto de vista ambiental, tal como não o é nenhuma actividade de gestão de espaços naturais.

As diferenças de opinião são normais e saudáveis num País que se quer democrático, mas a opinião deve surgir sobre um contexto técnico e científico verdadeiramente sólido. As causas ambientais (ou as industriais), particularmente quando são justas, nada ganham com a manipulação, ampliação, generalização abusiva ou distorção de informação. Os balanços de opinião (informada) e, principalmente, o terreno médio construído a partir de posições inicialmente antagónicas, é o que podemos designar por “desenvolvimento sustentável”.

Felizmente, existem sinais encorajadores de movimentos ecologistas dispostos a questionarem-se e a alargar a sua visão do problema. Permitam-me que lhes sugira uma leitura de um texto do WWF, IUCN e CIFOR “Fast Wood Forestry – Miths and Realities” http://assets.panda.org/downloads/fastwood.pdf onde o movimento ecologista faz uma revisão dos mitos e realidades que rodeiam o debate sobre plantações.

Pela minha parte subscrevo este documento, até porque basicamente conclui que os impactos das plantações são altamente dependentes do contexto em que se desenvolvem, mais do que das espécies envolvidas. Reconhece também o importante papel das plantações na satisfação de necessidades humanas crescentes em produtos com origem florestal e nas vantagens relativas em utilizar plantações para este fim, face às outras opções, tipicamente provindas de florestas “naturais” ou de recursos não-renováveis.

Sejamos nós capazes em Portugal de revisitar os nossos dogmas e de construir um caminho económica, social e ambientalmente sustentável, digno de cidadãos preocupados e de indústrias responsáveis.


Engenheiro Florestal de interesses ambíguos: por um lado trabalho para indústria papeleira, por outro sou gestor de 200 ha de carvalhal e de 50 de galeria ripícola, de amieiros e freixos: tudo espécies "boas" e à prova de fogo - mas que já vi arder!

sábado, janeiro 28, 2006

Mitos climáticos errou


Num post intitulado “aquecimento global ridículo” o blogue mitos climáticos critica um estudo publicado recentemente na revista “Nature”:

Trata-se de um artigo cómico-científico sobre a influência do designado aquecimento global na extinção das rãs! O ridículo é tanto que há quem considere extinta, sim, a credibilidade científica da Nature quanto ao tema do aquecimento global”.

A base para tal critica baseia-se no facto de a revista ter, alegadamente, publicado um artigo rejeitado por um dos avaliadores independentes do estudo:

Um peer-reviewer, a quem os editores da revista tinham solicitado um parecer sobre a proposta de publicação do artigo, tinha aconselhado a não incluí-lo na “Nature”.

Ultrajado pela decisão da revista o avaliador teria publicado o resultado da sua avaliação num blogue climático. Na dita avaliação independente, lê-se:

I presume that you will not publish this paper for the many reasons given above. If it does appear in Nature in anything close to its present form, the credibility of your journal may be beyond repair”.

Confesso que ao ler este “post” fiquei preocupado. É que a prática de rejeição de artigos na revista “Nature” (assim como na “Science”) é extremamente dura. Em geral basta que um dos três revisores independentes, a quem a revista solicita parecer, seja francamente negativo para que o artigo seja rejeitado. Portanto, a ser verdade o que diz o “post” dos “mitos climáticos”, esta seria uma excepção legitimando as interpretações feitas no blogue.

Acontece que o que está escrito nos “mitos climáticos” não corresponde à verdade. O artigo em que se baseia o “post” inclui, de facto, uma crítica feroz ao artigo da revista “Nature”. Mas o alegado relatório de avaliação do artigo nunca foi solicitado pela revista “Nature” nem sequer a ela enviado. Se o articulista dos mitos climáticos tivesse lido com atenção o que o autor da crítica escreveu teria reparado nesta frase que antecede a dita avaliação:

As a concrete example, assume that Nature’s editors had sent me this manuscript for peer-review. Here’s what I would have responded”.

Repararam no uso do condicional "would"? Quer isto dizer que a alegada revisão independente não passa de uma encenação e que o processo de avaliação da revista “Nature” decorreu com normalidade. Logo a alegada falta de credibilidade da revista “Nature” não foi manchada como proclama o articulista dos Mitos Climáticos nesta frase, no minimo, apressada:

Pois apesar do aviso dado pelo revisor científico, o artigo foi mesmo publicado e a credibilidade da revista ficou manchada”.

A ciência climática está em processo de ebulição. Todas as semanas apresentam-se novos avanços e descobertas que contribuem para consolidar conhecimento e ajudar a compreender o funcionamento global do clima e sua relevância para os sistemas que dele dependem. Concordo que existem incertezas importantes associadas à teoria do efeito de estufa. Estou convicto de que é essencial existirem cépticos motivados para re-interpretar as observações climáticas à luz de paradigmas alternativos. Assim funciona a ciência. Assim avança o conhecimento. Mas não vale a pena transformar a batalha das interpretações num jogo de manipulação fácil de informação.

sábado, novembro 27, 2004

Fraude na conservação do Lobo Ibérico?



Esta semana fui surpreendido com uma notícia insólita. O Grupo Lobo (http://lobo.fc.ul.pt/), uma insuspeita ONG criada para conservar os Lobos, possui um Centro de Recuperação para o Lobo Ibérico (o CRLI) na Tapada de Mafra e procede a vasectomia dos machos alojados neste Centro. Para quem não sabe a vasectomia é uma operação que visa a esterilização dos organismos.

Os centros de recuperação de espécies animais ameaçados de extinção têm um papel internacionalmente reconhecido, designadamente pela “Society for Conservation Biology”. Estes estão integrados no que se convencionou chamar de conservação “ex-situ”, ou seja, o conjunto de práticas de conservação que recorrem à manutenção, fora do seu ambiente natural, de espécies animais e vegetais ameaçadas. Ver, por xemplo:

http://www.biodiv.org/programmes/cross-cutting/taxonomy/ex-situ.asp

O objectivo é assegurar a conservação de germoplasma e permitir, sempre que necessário e possível, a reintrodução, na natureza, de efectivos populacionais mantidos ou reproduzidos em cativeiro.

A importância da conservação ex-situ está consagrada na convenção para Diversidade Biológica que lhe dedica o seu artigo 9, onde defende:

"Each Contracting Party shall, as far as possible and as appropriate, and predominantly for the purpose of complementing in-situ measures:

"(a) Adopt measures for the ex-situ conservation of components of biological diversity, preferably in the country of origin of such components;

(b) Establish and maintain facilities for ex-situ conservation of and research on plants, animals and micro- organisms, preferably in the country of origin of genetic resources;

(c) Adopt measures for the recovery and rehabilitation of threatened species and for their reintroduction into their natural habitats under appropriate conditions;

(d) Regulate and manage collection of biological resources from natural habitats for ex-situ conservation purposes so as not to threaten ecosystems and in-situ populations of species, except where special temporary ex-situ measures are required under subparagraph (c) above; and

(e) Cooperate in providing financial and other support for ex-situ conservation outlined in subparagraphs (a) to (d) above and in the establishment and maintenance of ex- situ conservation facilities in developing countries."


Esta é a justificação universalmente aceite para a criação de centros como o CRLI e é seguramente beneficiando deste enquadramento que o CRLI obtém financiamentos públicos e privados. Outras justificações, como a componente educativa, são acessórias e complementares. De certa forma só são justificadas se, associada à exposição de animais ameaçados, estiver uma mensagem de esperança.

A prática da vasectomia, no alegado Centro de Recuperação do Lobo Ibérico, põe em causa a justificação mais elementar para a sua existência. Que razão para existir terá um Centro de Recuperação do Lobo que procede à esterilização dos machos impedindo assim a reprodução dos indivíduos captivos?

Estarão os financiadores deste Centro, nomeadamente os que procedem do Reino Unido, onde tais práticas são condenadas, cientes da irrelevância do seu investimento?

Estarão os apoiantes desta ONG a par da original estratégia de conservação adoptada?

Qual a posição e papel da agência nacional de conservacão, o ICN, perante esta matéria? Terá este instituto aprovado tal medida? Ou foi pura e simplesmente posto de parte no processo de decisão?

Explicações precisam-se.

Sem que estas sejam fornecidas e sejam satisfatórias é dificil defender outra coisa que não seja o eventual encerramento do CRLI.