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domingo, setembro 05, 2010

Gestão de combustiveis



Para quem passa o tempo a falar das dificuldades da gestão de combustiveis com animais, aqui fica um exemplo.
henrique pereira dos santos

quarta-feira, agosto 25, 2010

150 000 cabras, 48 milhões de euros

O projecto pelos seus promotores (ou pelo relato da sua apresentação que dele faz o jornal Cinco Quinas, porque no site dos promotores há dificuldade em ter acesso a informação mais detalhada, embora no primeiro jornal do Agrupamento Europeu de Cooperação Territorial, a páginas 8 e 9, se faça uma descrição genérica):
"O Director Geral do AECT Duero-Douro, José Luis Pascual Criado, pormenorizou as características do Projecto Self-Prevention. Segundo as suas palavras, além de actuar activamente para a prevenção de incêndios, o Projecto contribui para um modelo de desenvolvimento socioeconómico para todo o território do Agrupamento Europeu de Cooperação Territorial Duero-Douro.
Disse que o investimento em matéria de prevenção é necessário para terminar com o fogo, mas também é necessário o envolvimento dos habitantes. Defendeu o Self-Prevention como projecto social, territorial, para as pessoas que moram nele, gerando um plano de futuro a longo prazo.
...
Está-se a trabalhar no Projecto Self-Prevention a partir da base, ou seja, a prevenção de incêndios.
Este visa reintroduzir 150.000 cabeças de gado para que sejam os próprios animais os "limpadores naturais" dos campos agrícolas abandonados, matos e valetas, deixando livres de vegetação aquelas zonas de potencial perigo de incêndio.
O projecto irá implantar-se num território fronteiriço de Portugal e Espanha, num total de 9 mil Km2, com 125 mil habitantes, e envolverá 187 entidades públicas dos dois países.
Após o investimento inicial, calculado em perto de 49 milhões de euros, estima-se uma rentabilidade anual do projecto de 30 milhões de euros. Com este projecto estima-se a criação de 558 postos de trabalho especializado, até porque está prevista a criação de 12 queijarias, uma central de comercialização, dois matadouros, 15 lojas de venda de produtos, e uma plataforma logística de transporte e distribuição, para além de se acreditar em novas potencialidades turísticas da região.
Para a concretização do projecto espera-se agora a adesão dos agricultores, onde existe a influência deste projecto. Os agricultores que apostarem nesta iniciativa, por cada cabra que coloque no projecto, recebe uma acção, e os proprietários de terrenos recebem três acções por hectare. Os lucros obtidos serão repartidos, depois, pelos titulares de acções no projecto. Para já, do lado português, estão envolvidos os municípios de Vila Nova de Foz Côa, Figueira de Castelo Rodrigo, Almeida e Sabugal, tendo já sido demonstrada também a intenção do município de Manteigas em aderir ao projecto do AECT.
Este projecto estará articulado em torno duma empresa de participação pública e privada que optimizará a sua sustentabilidade económica na produção e comercialização de leite e derivados caprinos.
Por: Cinco Quinas"

Quem lê o que aqui e noutros lados escrevo sabe que eu não poderia deixar de subscrever as intenções deste projecto e ficar satisfeito de ver quase todos os jornais e sites de jornais de hoje a falar positivamente, e não como uma ideia impossível de operacionalizar, de um projecto que pretende ter 150 000 cabras para ajudar à gestão do fogo e à criação de riqueza e emprego no interior rural.
Mas ao mesmo tempo conheço demasiado bem esta lógica de captação de recursos, por entidades públicas que se juntam para fazer entidades privadas que apresentam projectos de candidaturas a ajudas públicas, que incluem muita infra-estruturação (lojas, queijarias, matadouros) e no fim se espera a adesão dos verdadeiros produtores.
Por mim preferia que fizessem um fundo de capital de risco para entrar no capital das empresas dos produtores até elas atingirem a velocidade de cruzeiro, vender a sua participação e partirem para outra.
48 milhões de euros em capital de risco já era relevante.
Assim, fico satisfeito com a difusão da ideia, espero e desejo que resulte, mas como contribuinte tremo só de olhar para a fotografia de topo deste post, que retrata os membros do Agrupamento Europeu de Cooperação Trans-fronteiriça, e pensar que é esta a base de gestão de um projecto de 48 milhões de euros entregues ao Estado por quem produz riqueza.
henrique pereira dos santos

terça-feira, agosto 24, 2010

Incendiários: muitos mas muito estúpidos

Quando por estes dias ruiu o conto de fadas sobre os fogos construído pelo Governo nestes últimos anos, de que o dispositivo tinha melhorado muito e por isso tinha descido a área ardida, como demonstravam não só os números globais como ainda a relação entre o número de fogos e a área ardida total, foi preciso rapidamente encontrar novas linhas de comunicação.
A tecla agora era que o dispositivo aguenta 250 ignições por dia (se não forem muito concentradas) mas Portugal tinha um enorme problema de ignições a que era impossível responder.
Esta linha de comunicação traduziu-se em variadíssimas notícias sobre incendiários, detenções e outras coisas que tal, culminando neste fim de semana com o Expresso a publicar uma entrevista com Gil Martins (de resto, interessante) titulada "A floresta não arde sozinha" e as quatro lamentáveis páginas do Público, totalmente governamentalizado nesta área, que incluem esta delicada subtileza de raciocínio de Manuel Carvalho "é certo que uma fatia importante dos fogos tem mão humana e criminosa, como atesta o facto de 38% das ignições acontecerem durante a noite" (aparentemente Manuel Carvalho nunca ouviu falar de ignições retardadas, mas isso é lógico para um jornalista que só acompanha o sector florestal há mais de dez anos).
Como corolário a Autoridade Nacional de Protecção Civil passou a incluir na informação diária não só o número de fogos, como também o número de fogos diurnos e o número de operações dos meios aéreos, para as pessos perceberem bem que está tudo bem do lado do dispositivo, mas não se pode governar este povo de pirómanos infrenes.
Ora foi com essa informação que construí o gráfico que se segue.

Principal conclusão?
Não só há muitos incendiários como são estúpidos como uma porta, porque a percentagem de ignições nocturnas dispara quando não há condições para grandes fogos (havendo inclusivamente previsão de chuva).
henrique pereira dos santos

domingo, agosto 22, 2010

Abandono, fogos e propriedade da terra

Macedo de Cavaleiros nos anos 20 (sec. XX). N.b. Serra de Bornes ao fundo, à direita, totalmente cultivada com cereais. A floresta entretanto reocupou o que era seu (imagem cedida por Manuel Cardoso).

Ao contrário do que muita gente pensará, a propriedade rústica teve, e tem, uma distribuição muito desigual no interior norte e centro de Portugal. O facto de senhores e criados e beberem o vinho da mesma malga e da comunidade de aldeia partilhar o forno de cozer o pão e o semental, não disfarça a subjugação das relações sociais no interior destas comunidades às estratégias de reprodução da desigualdade e do poder dos terratenentes. Conta-me quem o viveu de perto que as searas dos lavradores ricos eram sempre as primeiras a serem ceifadas e debulhadas. Como se um sino tocasse a rebate, rendeiros e pequenos agricultores abandonavam o que era seu para oferecer trabalho em troca de meia dúzia de tostões ou da protecção de quem detinha verdadeiramente o poder. Quando as colheitas eram fracas, as senhoras da casa grande, pelo Natal, num acto que de caridade tinha muito pouco, distribuíam presunto, azeite, farinha e batatas pelos mais precisados. O senhor sempre conseguia um emprego na câmara ou na guarda, em último caso de criado de lavoura, ou poupava do imposto de sangue as famílias mais depauperadas. Foram estes senhores quem no final da ditadura tentou a todo o custo estancar a fuga da mole de miseráveis sem terra que povoavam as nossas aldeias, com receio da escassez e do aumento do custo da mão-de-obra. Quando a fuga da miséria rebentou as fronteiras, o discurso do poder absorveu o fenómeno imigração, e era então o universalismo e desejo de aventura da “raça” portuguesa que nos impelia a sair.

Antes da entrada na CE os cereais pagavam bem (hoje o quilo do centeio, sem actualização monetária, vale metade do que valia há 25 anos atrás) e os lavradores ricos tiveram oportunidade de acumular capital e educar os filhos. Estes, por sua vez, aproveitaram a industrialização do país para se libertarem da terra e assumir profissões liberais ou integrar a administração pública e o sistema de ensino. A terra entretanto perdeu utilidade e passou a funcionar como um buffer financeiro. A memória dos dias de abundância, em que um sistema de preços garantido pelo Estado (que não incluia o centeio, diga-se) cobrava a ineficiência tecnológica da agricultura aos consumidores, marcou a primeira geração urbana de origem rural. Como o futuro a "Deus pertence" nunca se sabe se a terra virá a ser novamente necessária. Por outro lado, a terra abandonada não perde valor, ou pelo menos subsiste essa expectativa. Ao contrário do que acontece, por exemplo, na industria manufactureira, desinvestir nos meios de produção, neste caso na terra, não diminui a sua aptidão para produzir: o descanso é prática ancestral de reposição da fertilidade. O fogo também não é um problema: a censura social à escala da comunidade rural já não condiciona os usos da terra que põem em risco os haveres dos outros e o Estado, ou seja os contribuintes, encarrega-se de pagar a conta do combate aos incêndios. Não surpreende, portanto, que a esta geração, bem instalada na vida, não interesse ouvir falar em cadastro ou na fiscalidade da terra. Porém, sistematicamente ouço-os nos cafés da terra onde vivo a queixarem-se de que já não se produz riqueza em Portugal, que ninguém quer trabalhar - "pagam-se as jeiras a 30 euros/dia e ninguém apanha a azeitona" - e que o Estado só investe no litoral.

A "estrutura da propriedade" e a "tributação da propriedade agrícola" são duas forças motrizes fundamentais no abandono (e no fogo), muito mais importantes do que o fecho das escolas e a estrutura de subsídios. As coisas parecem estar a mudar. O BE prepara-se para avançar com um projecto de lei sobre bancos de terras (vd. aqui e aqui). Mas não chega. Além de um agravamento do IMI para castigar os proprietários de terra agrícola devoluta (suponho que seja esta a proposta do BE) é necessário avançar com um cadastro único, investir numa classificação de terras e rever a tabela de emolumentos do registo predial e de notariado. Não vejo outra forma de operacionalizar os bancos de terras e de estimular o desenvolvimento de um mercado da terra, de impulsionar a produção de riqueza no meio rural e, já agora, de acabar com privilégios de classe.

A título de curiosidade. O registo de um prédio rústico custa agora 250 euros, qualquer que seja a sua área. No minifúndio o registo pode custar mais do que a terra; juntar 20 pedaços de terra para construir um exploração agrícola não é raro e atinge a extraordinária quantia de 5000 euros. Mais uma vez o estado, para se financiar, pune um importante sector produtor de riqueza: a agricultura.

Carlos Aguiar

sábado, agosto 21, 2010

Fogos e conservação de Quirópteros II


Foto de Luís Braz.

Os incêndios florestais (e não só) são uma das ameaças para os morcegos, provocando a destruição directa do seu habitat em especial mas zonas de criação e alimentação. Contudo, a morte directa (ou indirecta) de indivíduos também acontecesse, é o caso deste Pipistrellus pipistrellus encontrado encima de uma pedra ao sol e desprotegido na Ribeira da Caniça (Seia) no dia seguinte a um grande incêndio. Como se pode observar na foto as partes de um morcego mais susceptíveis de sofrerem queimaduras são as asas, impedindo que o animal voe, e por conseguinte que se alimente, provocando a sua morte por desidratação ou desnutrição.

P.S. Infelizmente este morcego morreu a caminho do CERVAS.

sexta-feira, agosto 20, 2010

A presunção da inocência

Mal apertam um bocado os fogos, quase todos os governos, em Portugal ou noutro lado, tendem a sacar da conversa dos incendiários.
O Público pega hoje no assunto, titulando: "Fogo posto foi a causa de 22 por cento dos incêndios florestais".
Mas vejamos.
O SEPNA fez 3943 inquéritos de causas de incêndios este ano. Não é mau. Ficam mais de dez mil por investigar, mas partamos do princípio que é uma boa amostra.
De um terço dos fogos analisados não se consegue determinar a causa e fogos intencionais são os tais 22%.
E fala-se de detenções, suspeitos, alegados e presumiveis incendiários (que são pouco mais de vinte, este ano).
E condenações? O artigo nada diz, apenas diz que uns suspeitos apenas ficaram com termo de identidade e residência.
Apenas? Porquê apenas, se é apenas um suspeito, ou seja um presumível inocente?
É muito confuso.
É que só com o trabalho dos tribunais seria possível perceber se o que o SEPNA investiga é ou não fiável (ou será que na investigação destes crimes não há falhas).
A mim parece-me que o SEPNA está a chamar causa determinada a uma coisa que em outros países se chama causa provável (ou mesmo causa plausível, diria eu).
Que há incendiários não há menor dúvida. Mas quase todos os que são condenados são pessoas perturbadas ou agindo sob motivações fúteis ou no quadro da conflitualidade local, portanto mais ou menos facilmente identificáveis localmente.
Isso é suficiente para que mais de três mil fogos comecem com fogo posto e isso apenas resulte em pouco mais de 20 suspeitos?
Tenho dito várias vezes que me interessa pouco a maneira como os fogos começam porque o que me preocupa é saber por que razão não param.
Mas se querem desviar recursos para resolver um problema mal equacionado, eu acho bem discutir primeiro a equação.
henrique pereira dos santos

quarta-feira, agosto 18, 2010

A comunicação é perfeita...

... o problema está no produto.
Depois de um primeiro tiro de pólvora seca ("estamos a controlar tudo, com uma excepção") o Governo e a tecno-estrutura da Defesa da Floresta contra Incêndios encontraram neste gráfico a base perfeita para a sua comunicação sobre os fogos.
E usou esta base com maestria, introduzindo-lhe uma meia verdade, que é a forma mais perfeita de dizer mentiras.
O que fez o Governo?
Olhou para estes risquinhos às cores, cada um representando num ano o Índice de Severidade Meteorológica que pode ser visto com mais nitidez e detalhe neste relatório.
E ao olhar descobriu que de acordo com este índice o ano de 2010 estava mais ou menos no meio (no desenhinho é o risco azul escuro ligeiramente mais grosso). E descobriu também que não estava muito longe graficamente dos risquinhos de 2003 e 2005, que na memória colectiva representam as grandes catástrofes dos fogos (com razão).
Elaborou então uma história, errada nos pormenores, enganadora na essência mas tremendamente convincente e, acima de tudo, permitindo uma leitura favorável da eficiência do dispositivo de combate, desde que se repetisse a mesma história sem falhas muitas vezes.
O Governo ganhou assim a batalha da comunicação, tendo convencido os jornalistas que escrevem sobre o assunto e a generalidade do público de que as condições para o desenvolvimento dos fogos são basicamente as mesmas de 2003 e 2005 mas os resultados são francamente melhores (Mariana Oliveira, no Público, volta a insistir nesta tese na sua peça de hoje sobre os fogos, naturalmente por coincidência).
Mas para quem queira olhar para os factos e ver para além das histórias da carochinha fica aqui o meu contributo.
Em primeiro lugar convém ter a noção clara de que neste índice 2003, e já passados os primeiros quinze dias terriveis de Agosto, é o quarto ano em severidade meteorológica. Ficamos pois bastante seguros quanto à capacidade do índice traduzir o risco real de incêndio.
Se alguém ainda tiver dúvidas, será bom notar ainda que a distância que no gráfico vai de 2010 a 2005 é praticamente a mesma que vai de 2010 a 2007, um ano mais que benigno, que no total do ano apresenta uma área ardida de pouco mais de 30 000 hectares, e que em período homólogo até 15 de agosto apresenta pouco menos que seis mil hectares (grande parte da área ardida desse ano foi no Outono, num episódio de vento Leste que pôs muito nervoso o então Secretário de Estado por lhe estar a estragar as médias).
Portanto, repetindo, estamos esclarecidos quanto à capacidade do índice medir o verdadeiro risco meteorológico associado aos grandes fogos.
Se este índice servisse para mostrar a real severidade meteorológica (que não serve), então seria com 2009 (cerca de 26000 hectares ardidos até 15 de Agosto) que 2010 (cerca de 70000 hectares ardidos) deveria ser comparado, porque são os dois anos que têm valores semelhantes do índice (reafirmo, a área ardida é um péssimo indicador).
Mas o verdadeiro golpe de génio comunicacional do Governo consistiu exactamente em conseguir chamar sistematicamente a atenção para 2003 e 2005, com uma pequena mentira que é a de dizer que o índice é semelhante, o que nem de perto nem de longe é verdade, sabendo perfeitamente que ao olhar para linhas de um gráfico tão próximas ninguém com importância em matéria de comunicação iria perguntar o que significam as diferenças de valor do índice.
Uma vez inventada uma história com base num gráfico que não diz nada mas é convincente, é possível então fazer o seu desenvolvimento comparando os dados de área ardida com os piores anos, sem que ninguém pergunte por que razão se comparam os resultados com os piores anos e não com os objectivos definidos em Conselho de Ministros (menos de 100 000 hectares ano).
De uma penada o Governo muda o referencial para a avaliação de desempenho de 100 000 hectares/ ano para mais de 300 000 mil e eu é que sou acusado de ser desonesto, maldizente, ignorante, inculto, profeta do apocalipse, nojento e, pior que tudo, Miguel Sousa Tavares, por um adjunto do Governo simplesmente por dizer o que vou dizer agora e fundamentei antes:
o Governo e a tecno-estrutura da Defesa da Floresta contra Incêndios mentem despudoradamente por razões de pura propaganda.
O que me preocupa não é que mintam, o que me preocupa é que estas mentiras pretendem mascarar a necessidade de rever o modelo de gestão do fogo, reforçando o pilar da sustentabilidade económica do mundo rural, criando uma falsa ideia de sucesso que aponta para mais investimento no sistema de combate, para colmatar as pequenas imperfeições que ainda tem.
O post anterior do Henk (e o comentário do Carlos Aguiar) é claríssimo: o Governo que considera dispensável a defesa da infra-estrutura produtiva do mundo rural, nomeadamente os solos férteis (convém lembrar o inacreditável assassinato da Reserva Agrícola às mãos deste Governo, com o argumento de que a agricultura em Portugal é inviável), é o mesmo que se queixa das condições de combate aos fogos serem muito duras.
Como disse, a comunicação do Governo em matéria de fogos é perfeita e muito afinada, o problema é mesmo que o bom marketing não substitui a qualidade mínima do produto.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, agosto 16, 2010

Por que razão não tem ardido o pinhal interior?

Esta pergunta já motivou algumas trocas de argumentos nas caixas de comentários deste blog.
Para mim é a pergunta chave para testar os modelos de interpretação do fenómeno dos fogos em Portugal e, consequentemente, definir linhas de política de gestão de fogos consistentes.
Mariana Oliveira, na sua peça de Domingo que ecoa a perfeita estratégia de comunicação do Governo sobre esta época de fogos (e quando digo que ecoa não estou a dizer que Mariana Oliveira está a fazer um frete ao Governo, estou só a constatar um facto cujos fundamentos não discuto) diz no sub-título de um destaque:
"Valor económico poupa Pinhal Interior"
Para afirmar isto Mariana Oliveira (corrijo, embora peça principal seja de Mariana Oliveira, esta caixa sobre o pinhal é de Helena Geraldes) serve-se de alguns factos (nenhum deles directamente relacionado com o valor económico do Pinhal Interior) e de declarações de dois especialistas: Paulo Fernandes seguramente um especialista de fogo, e Helena Freitas, uma especialista de botânica (desconheço os seus trabalhos sobre fogo mas admito que existam. Este comentário não contém nenhuma crítica ao facto de se ouvirem outras pessoas que não os especialistas, é simplesmente o reflexo da minha perplexidade pela facilidade com que muitos jornalistas recorrem à autoridade de especialistas ao falar de um assunto, convidando especialistas que o são, sem dúvida, mas noutros assuntos).
Paulo Fernandes reafirma o que aqui tem dito e de que eu tenho discordado: a meteorologia não está a ajudar o Pinhal Interior. O Paulo tem a seu favor o facto de saber muito mais que eu do assunto e ter muito mais informação. Eu tenho a meu favor o atrevimento da ignorância e o facto de ter previsto que com as condições de vento que via nas previsões meteorológicas o Pinhal Interior não me parecia que fosse arder.
Quanto ao meu argumento há factos que o prejudicam: essas condições de vento só são relevantes na medida em que traduzem condições meteorológicas específicas, o que se deveria reflectir nos dados das observações meteorológicas, o que não me parece que esteja a acontecer.
Sigamos portanto a argumentação do Paulo Fernandes que parece ter mais razão que eu nesta discussão.
O Paulo fala sobretudo dos índices, não tanto dos elementos meteorológicos elementares (passe o pleonasmo). Ora os índices contêm em si uam interpretação dos fenómenos que valoriza uns elementos e desvaloriza outros. No caso em concreto vamos então admitir que os índices traduzem o risco de fogo e tentemos então explicar por que razão sendo eles mais altos não ardeu o Pinhal Interior.
Diz o Paulo, por interposta jornalista Mariana Oliveira (corrijo, Helena Geraldes):
"O investigador tirou as conclusões depois de analisar o número de ignições por cada 10 km quadrados a partir de Julho. Os distritos do Pinhal Interior, Castelo Branco e Santarém, tiveram apenas duas ignições cada. "Uma diferença enorme em relação a Aveiro, com 16 ignições", por exemplo. O Porto registou 79 ignições."
Confesso que fiquei surpreendido com esta argumentação do Paulo que repetidamente tem dito que não há qualquer relação entre área ardida e número de ignições.
E acho que esta argumentação não cola. Vejamos este gráfico que fiz:

Este gráfico contraria frontalmente a argumentação de Helena Freitas ao não identificar uma grande diferença de fogos por habitante do pinhal interior para o Norte:
"Ao contrário do que acontece no Norte, os concelhos do Pinhal Interior têm hoje a percepção do valor económico da floresta e criaram mecanismos de prevenção". A Região Centro tornou-se "a mais apetecível" para novos valores florestais, como por exemplo a biomassa, ao passo que o Norte enfrenta uma situação de "abandono [da floresta] gravíssima".
Independentemente de eu não perceber onde foi a Helena Freitas buscar a ideia de que em cinco anos a floresta do Pinhal Interior ficou muito mais bem gerida que a do Norte, com base aliás em dois não factos (não existe nenhuma utilização de biomassa séria na região e a floresta do Noroeste é muito mais lucrativa que a da generalidade do Pinhal Interior) e na impossibilidade de mudar estruturalmente uma floresta em cinco anos (para cuja verificação basta um passeio na região, pelas áreas ardidas em 2003), a verdade é que a relação das populações com as ignições não se mede no número de fogos por hectare, mas sim no número de fogos por habitante.
É essa a linha verde mais grossa do gráfico, que identifica uma clara anomalia em Viana do Castelo (o distrito que melhor traduz a zona que está a arder), um pico secundário em Vila Real mas com um nível semelhante de ignições por habitante em Braga, Porto e Viseu e um nível um pouco mais baixo no limite Sul da região que está a arder (Aveiro, Guarda e Castelo Branco) e depois níveis mais baixos.
Se alguém me conseguir explicar as diferenças entre os Minhotos do Norte e os do Sul que justifiquem a anomalia do número de fogos por habitante, eu dar-me-ei por vencido.
Até lá eu tenho de concluir, que tal como resulta da análise das variações diárias e etc., é na meteorologia que estão as diferenças.
Ontem, numa conversa telefónica com outro dos especialiastas do fogo em que eu tentava perceber melhor o que se está a passar, ouvi contar que um meteorologista tinha feito uma pergunta inteligente: se 97% dos fogos resultam de causas humanas, como se explica que se verifique uma tão grande associação aos factores meteorológicos? A resposta parece ser que o território está saturado de ignições, como diz o Paulo Fernandes no artigo que aqui comento, apenas para o Noroeste, mas penso que é válido para todo o território, pelo que nunca são factor limitante para os fogos. Os factores limitantes são de facto as condições meteorológicas.
O que nos conduz a uma questão: ou os índices não reflectem o verdadeiro risco meteorológico de incêndio (que é o meu ponto de vista, ainda que não tenha nada de mais consistente a apresentar em alternativa que não seja a direcção do vento), ou o número de ignições por habitante pode ser explicado por diferenças culturais e, consequentemente, se verifica mesmo noutras condições meteorológicas, hipótese que me parece absurda face aos dados existentes.
Resumindo: o Pinhal Interior não ardeu por estes dias porque condições de meteorológicas que não sei definir não se verificaram.
Corolário: quando entrar vento Leste a sério no Pinhal vai arder, se entretanto não ouver programas de gestão de combustiveis sérios, consistentes e alargados.
henrique pereira dos santos

domingo, agosto 15, 2010

Curiosidades IX


Daqui, via Gonçalo Elias.
A humidade atmosférica na Europa hoje às nove da manhã. Advinhem onde estão os teores mais baixos.
Acertou! Minho e Moscovo.
henrique pereira dos santos

Conversa de café em salão de chá

Raramente compro o Expresso. Mas ontem fi-lo e percebi, pela enésima vez, por que razão raramente o compro.
Um dos temas de fundo eram os fogos: uma reportagem, um editorial e um comentário de Fernando Madrinha. Os criminosos dos incendiários, a mais inútil maneira de discutir o assunto, era a trave mestra de todos os textos.
Comento aqui partes do texto de Fernando Madrinha porque é exemplar de como a conversa de café sobre fogos ganha facilmente carta de alforria para se passear em salões que a caucionam como coisa intelectualmente aceitável.
O texto chama-se "O fogo e o crime".
Tem por isso a vantagem de não enganar ninguém ao dizer logo ao que vem.
"Não se sabe quantos são ateados com intenção criminosa, embora suceda, como sempre, que muitos deflagram em vários pontos simultaneamente o que, só por si, indicia crime organizado".
O esplendor da conversa de café reflecte-se nesta frase. Fernando Madrinha esquece-se que a sua ideia de que muitos fogos deflagram em pontos simultâneos é de fontes de maneira geral muito pouco fiáveis (por exemplo, bombeiros em stress de combate ao fogo), esquece-se que as condições de propagação do fogo tem padrões locais muito marcados, o que facilita a ocorrência de fogos na mesma altura em locais muito próximos e esquece-se, finalmente, que um fogo que deflagra, mesmo em fase iniciais, pode provocar projecções de material incandescente que criam novos focos na proximidade. E esquecendo tudo isso tira uma conclusão definitiva cuja fundamentação é, na realidade, nenhuma. Mas vai mais longe e fala em criminalidade organizada, coisa que nenhuma investigação sobre fogos até hoje detectou. E nem se percebe para que é preciso organização para um indivíduo que queira deitar fogo num lado qualquer o faça em vários pontos com intervalos de poucos minutos. Ou seja, a ideia de crime organizado não está suportada em lado nenhum e a fundamentação apresentada é pueril.
"Metade que sejam os fogos postos - e basta ouvir os bombeiros para se perceber que esta é uma avaliação por defeito -". Um jornalista experimentado acha que bombeiros em stress de combate ao fogo são uma fonte mais fiável que a investigação específica e racional do fenómeno? Pelos vistos acha, o que é extraordinário. Provavelmente também acha que os taxistas são uma fonte muito mais fiável para discutir a criminalidade urbana que a investigação especializada.
Depois faz umas contas verdadeiramente delirantes: "teremos 3320 [fogos criminosos] em 20 dias. Agora repare-se: as autoridades detiveram 10 suspeitos, alguns deles já seus conhecidos. Cinco foram mandados em paz. Serão os outros cinco os autores dos 3320 fogos espalhados por dois terços do território nacional? Claro que não. Falta prender muito criminoso. E falta, sobretudo, descobrir os seus mandantes."
Insisto, isto que transcrevi não vem de um anónimo da caixa de comentários de um blog ou jornal, é mesmo escrito por um jornalista experiente e supostamente informado.
É só por isso que vou perder tempo a desmontar este parágrafo sem a menor aderência à realidade.
A teoria da conspiração mais básica começa na existência de uns mandantes que não se identificam, cujo móbil credível ninguém percebe qual seja e de cuja existência nunca nenhuma investigação séria identificou o mínimo traço. É exactamente assim que se discute futebol em qualquer tasco do país, mas com a vantagem de que todos sabem que ninguém está verdadeiramente a falar a sério. Depois fala-se em dois terços do país a arder quando o que está a arder é apenas uma faixa oblíqua entre Guarda e Coimbra e que exclui grande parte de trás-os-montes. Depois ignora-se esta diferenciação regional que deita por terra a teoria dos incendiários (ou será que se deslocam em grupo de uns anos para os outros, onde vai ardendo em diferentes regiões de acordo com diferentes condições meteorológicas?). E perante o absurdo de ter 3220 fogos para cinco incendiários em vez de concluir o óbvio, que é preciso procurar a explicação das ignições noutro lado, Fernando Madrinha força uma teoria conspirativa, que implica que há centenas de incendiàrios à solta associados numa ou várias organizações, teoria essa sempre desmentida pelas investigações e bem caracterizada neste post de Helena Matos, que se esqueceu das famosas teorias de Armando Vara, quando responsável pela área, que teimava em dizer que ardia sempre que havia eleições.
Por fim, o pormenor do costume: "velhíssimos fatores de desleixo - matas por limpar...".
É curioso como alguém que tem obrigação de ter um mínimo de informação engole a ideia de que os proprietários são desleixados com as matas e deixam-nas por limpar só porque sim.
Mas quem vê os fogos como um caso de polícia é natural que nunca tenha pensado na economia associada à gestão de combustíveis.
Por isso é natural que adopte uma conversa de café sem qualquer consistência e nenhuma aderência à realidade.
O grave disto é que este modelo mental está por todo o lado (é tão apelativo, tão fácil e tão desresponsabilizante), e já hoje é o Público a ceder à central de comunicação do Governo e a repetir que as condições são semelhantes às de 2003, concluindo que foi feito um grande trabalho que pode não ser perfeito mas que agora o que é preciso é aprofundá-lo (note-se bem como o conteúdo geral, incluindo do editorial do Público, é semelhante ao que um adjunto do Governo aqui disse nos comentários a este post há alguns dias. Quer isto dizer que foi o Governo que escreveu a peça do Público? Não, evidentemente, quer simplesmente dizer que o Governo definiu muito bem a linha de comunicação, todos os ministros a seguiram à risca, e que por muitas vezes repetida ganhou uma credibilidade insuspeitada. Apesar dos índices usados dizerem que 2003 foi um ano mau, mas nem foi o pior, o que diz bastante da sua aderência à realidade, para efeitos de identificação da dificuldade de extinção dos fogos, não nego a sua utilidade para outras utilizações).
Ou seja, para sairmos de onde estamos em matéria de fogos, a receita é melhorar a eficácia do combate e convencer as pessoas a fazer menos ignições, que é, de acordo com o que o Público diz que o Paulo Fernandes diz, o que está a resultar no Pinhal Interior.
Claro que quando vier um vento de Leste e o Pinhal Interior arder que nem um fósforo já ninguém se lembrará da lamentável peça feita hoje pelo Público e por Mariana Oliveira.
É que mesmo que tudo o que dizem fosse verdade, a supressão do fogo é a receita para o desastre.
É bom que quando ele vier, e um dia virá, volto a dizer, este ano é uma brincadeira de crianças comparado com o que acontecerá com uma semana de vento Leste típico (esta madrugada havia humidades atmosféricas acima dos 90% na área que tem estado a arder, mais que suficiente para que os combustiveis finos adquiram baixa combustibilidade por algumas horas, permitindo controlar os fogos quase todos com relativa facilidade), os senhores jornalistas responsabilizem quem quiserem entre os políticos, mas não se esqueçam das suas responsabilidades na criação de um ambiente favorável à adopção de políticas erradas.
henrique pereira dos santos

sábado, agosto 14, 2010

Ventos

Diz Pedro Vieira que a minha insistência no vento Leste é excessiva e que agora até já falo do vento Noroeste.
Diz o anónimo que cito no post anterior, que mais importante que a direcção do vento é a caracterização das massas de ar.
Eu falo no vento Leste porque é uma coisa simples de verificar e que funciona. Associado ao vento Leste estão de maneira geral massas de ar quentes e secas. Há outras circunstâncias em que acontece? Sim, claro, mas a questão é que quase sempre que estiver vento Leste, mesmo no Inverno, provavelmente teremos fogos.
Repare-se neste post de Maio. De uma situação de zero fogos (estava a chover) passamos em seis dias para mais de sessenta, porque apareceram imediatamente depois da chuva dois ou três dias de vento Leste.
Do mesmo modo nos últimos dias o que acontece é isto:

Partimos de 21 de Julho com 185 fogos, para termos um pico em 27 de Julho com 459 (esteve vento Leste em 26 e 27), depois baixa durante pouco mais de uma semana com um calor aflitivo, para subir com o vento leste que ocorreu em 6, 7 e 8, se não me engano, voltando a baixar durante o tal vento Noroeste, para agora ontem e hoje (hoje os fogos andarão pelos 440, veremos amanhã que a previsão tem mudado muito e parece que afinal vai ser o Nordeste que tem estado, excepto ao fim da tarde, que o tal Noroeste ajudará qualquer coisa) voltar a subir.

Note-se que na verdade tem estado um vento Nordeste que se aproxima um pouco do vento Leste mas não é o mesmo, não tem a mesma secura do típico vento Leste.

O vento Leste não é uma coisa que anula todas as outras circunstâncias, o vento Leste é como o sal das condições meteorológicas no que ao fogo diz respeito: espevita-lhe a inflamabilidade.

Portanto o que o Pedro diz sobre número de dias sem chuva e etc., claro que influencia, mas não se encontra uma reacção imediata em número de fogos e dificuldade de extinção como se encontra sempre com a entrada de vento Leste.

Ora é esta solidez na verificação empírica e a extrema facilidade deste indicador que faz com que eu defenda que devia ser usado de forma sistemática por toda a gente.
Haveria com certeza alturas em que o indicador daria informações erradas, mas seriam bem poucas face à utilidade das muitas em que funcionaria.
Para amanhã, se a tanto me ajudar o engenho e a arte, falarei dos fogos e da forma como esta semana foram tratados no Expresso.
henrique pereira dos santos

Resolver o problema ou andar melhorzinho?


Áreas ardidas até ontem. Falta a base geográfica (resolvido com a ajuda do Paulo Fernandes) mas imagine-se que os grandes fogos mais acima são dos do Gerês e Peneda, a meio mais a Norte no Alvão, o da Gralheira a meio Sul e a Estrela mais abaixo. Sei que a geografia não é muito forte em Portugal porque ouvi na rádio um locutor dizer que "a população de Vilar Soente tinha sido evacuada para a povoação do Mezio que era no sopé da serra do Gerês", sendo que Mezio não é povoação, e é uma portela (portanto na linha de alturas) que separa a serra da Peneda da serra do Soajo, que estão separadas da serra do Gerês pelo vale do Lima e pela serra Amarela
A indecorosa tentativa de colagem das condições meteorológicas deste ano às de 2003 para dizer que o dispositivo de combate está melhor (curiosamente, coisa que ninguém nega) tem sido a forma como o Governo tem tentado evitar a discussão política (não partidária, diga-se) sobre como gerir o problema dos fogos.
Mais tarde, que agora não tenho tempo, farei um post sobre o comentário de Pedro Vieira sobre os ventos, por agora transcrevo dois comentários suscitados pelo post anterior, por me parecerem muito úteis, com um pequeno comentário meu no fim.
Paulo Fernandes continua sempre atento ao que aqui se vai dizendo, corrigindo e melhorando muito a informação que aqui passa:
"Falta dizer que em 2003 a severidade foi média até aquela data no gráfico, depois começou tudo a arder no início de Agosto. Creio que no cômputo geral, e analisando a média à escala nacional, 2003 foi o 2º ano mais severo depois de 2005.É também importante referir que há uma dimensão da meteorologia do fogo que os índices de perigo não reflectem: em 2003 a instabilidade atmosférica foi brutal, o que gerou incêndios dominados pela convecção e com vida própria, e esteve associada a muita trovoada seca que causou incêndios enormes no Alto Alentejo e Ribatejo."
Um leitor anónimo faz um extenso comentário muito esclarecedor:
"Na minha opinião, tão importante como o vento é tudo o que se passou a nível de massas de ar. No início de Julho tivemos uma primeira entrada de ar africano quente e seco, e no final de Julho outra, dessa vez um misto de ar seco e quente do interior da própria península e africano também. Finalmente a semana passada tivemos mais uma entrada africana, as poeiras do Sahara chegaram até ao norte do país:http://www.meteopt.com/forum/meteorologia-geral/imagens-de-satelite-interessantes-3031-5.html#post223615Quando há dias atrás referia que eram uns poucos dias do ano que acabavam por gerar a maior parte dos incêndios importantes, eu penso que esses dias especiais estão intimamente associados a estas massas de ar quente e seco de origem africana, e que merecem portanto especial atenção. E julgo que assim será, até porque estão na origem das nossas ondas de calor.Em relação a 2003, penso que este ano não está ao nível desse, foi algo de raro e excepcional, talvez ao próximo do que se tem passado nas últimas semanas na Rússia por exemplo, e esperemos que não se repita nunca mais. De qualquer forma, não está propriamente a ser um ano meigo, antes pelo contrário. Não tenho todos os dados, mas julgo que apesar de Julho deste ano ter tido médias das máximas mais alta desde 1931, as mínimas penso que foram mais modestas. Em 2003 foi algo infernal, por exemplo a Amareleja esteve 17 dias seguidos com uma máxima >=40ºC, 24 dias >=35ºC ou 29 dias >=30ºC. Castelo Branco também foi infernal, quase todo interior centro e sul sobretudo. Em 2003 bateu-se o recorde nacional da temperatura, 47.3ºC na mesma Amareleja, este ano em Julho a mais alta foram 43ºC em Coruche em Julho e em Agosto até agora 42,3ºC na Amareleja. Mas como referi, penso que este ano não está nada meigo, talvez não seja tão evidente nos extremos, mas o seja nas médias. Será mais fácil perceber quando houver mais dados.Sobre as declarações dos políticos, bem, sempre foi assim, e é uma coisa reciproca. As populações e media acusam políticos, muitas vezes injustamente pois nestas alturas criticas por muito que se faça, não há volta a dar, e os políticos respondem por vezes coisas que podem não corresponder inteiramente à verdade. É um bocado do circo habitual destas tristes circunstâncias, nos anos em que as condições meteorológicas são meigas elogia-se os bons resultados, quando são adversas diz-se que a situação é radical.Pessoalmente até acho que as coisas estão de facto melhores hoje em dia a nível de organização, prontidão e formação do que estavam em 2003, mas eu olho para isto tudo de uma forma bastante critica pois não é na vertente da luta contra o incêndio que se tem que canalizar os esforços. Mas os erros do passado são tantos, que partilho um pouco a opinião do João Miranda do Blasfémias, com este tipo de floresta e a realidade social actual das mesmas, quanto mais incêndios se combatem hoje, mais biomassa acumulará para o ano em que as condições meteorológicas adversas surgem. E acabam sempre por surgir um dia, e nas alturas criticas por muitos meios que existam, o desfecho é sempre o mesmo. Sem medidas de fundo, estaremos eternamente neste ciclo. Provavelmente nem haverá solução para isto. Sobre a questão do vento "Suão" falada ontem, pois não sei, eu já tenho essa dúvida há imensos anos. Da adolescência recordo sempre o vento suão como o vento quente e seco de algumas noites de Verão que geralmente era sueste ou leste, mas não obrigatoriamente, as populações acabavam por chamar suão sempre ao vento seco e quente, mesmo que este viesse por exemplo de nordeste, embora esse fosse menos habitual. Mas posso estar enganado.Nos últimos anos tentei perceber a origem do nome, pois este à partida significaria "sul" como você refere, e tudo indica que de facto é mesmo isso. O Instituto de meteorologia no seu site diz:«Vento suão é a designação que habitualmente é dada em Portugal (em especial no sul) a um vento de sul ou sueste que transporta uma massa de ar quente e seco.»Do qual retenho o "quente e seco", que penso que é mesmo o mais importante, ou seja, será o vento associado às entradas de ar quente e seco proveniente do norte de África (e não associado a trovoadas como referiu, que esse é mais sudoeste), e no fundo é o tipo de situação sinóptica que tivemos algumas vezes nos últimos tempos, e que noutras partes do país acaba por corresponder a vento seco não necessariamente proveniente de sul, embora a massa de ar efectivamente o seja, bem como do interior da península quando ela consegue aquecer bem. A Madeira nos últimos dias também foi afectada por este tipo de massa de ar, lá chamam a isto o "Tempo de Leste", e curiosamente hoje tornou-se palco das chamas:http://www.meteopt.com/forum/seguimento-meteorologico/seguimento-incendios-2010-a-4567-14.html#post224414Julgo portanto que mais importante que o quadrante exacto do vento, as populações acabam por relacionar o vento mais ao quente e seco do que propriamente ao quadrante exactoTive esta discussão há poucos anos com uma pessoa, e ela até me disse que suão não era de "sul", mas de suor :-) Ahh, e para aumentar ainda mais a confusão, já vi um algarvio chamar suão ao característico vento norte :) que por vezes ocorre no litoral a sotavento das serras quando o vento de norte empurra o ar quente do Alentejo para sul, e este ar quente por efeito Foehn aquece e seca ainda mais, gerando uns característicos "bafos" bastante insuportáveis trazendo temperaturas por vezes surpreendentes a meio da manhã ou ao final da tarde.Já agora, como referiu, temos tido bastante vento nordeste e não tanto aquele leste ou sudeste que eu normalmente associo a estas situações de calor e incêndios, nas últimas semanas tem-me intrigado a razão porque houve tanta concentração de incêndios no noroeste do país, quando o mesmo vento, de nordeste e leste, também existia noutras regiões como o interior norte e centro. Não sei se é disparate, mas depois de pensar um pouco sobre o assunto, até foi por isso que descobri este blogue e reparei que falava também do vento nordeste e do facto dos incêndios estarem remetidos a uma região, dizia eu, pode também haver aqui um efeito Foehn, das serras espanholas e das portuguesas do noroeste do país, ou mesmo mais a sul como Montemuro, etc.O vento de nordeste que transportava ar já bastante seco ainda perde mais humidade e aquece a sotavento das serras:http://en.wikipedia.org/wiki/Foehn_windPor exemplo nesta estação meteorológica particular em Melgaço, é impressionante a baixa humidade da mesma nesta região (não é propriamente o Alentejo...) durante imensos dias com vento nordeste:http://www.wunderground.com/weatherstation/WXDailyHistory.asp?ID=IRNAMELG2&day=13&year=2010&month=8&graphspan=monthPeço desculpa pelo longo testamento, cumprimentos."
Há aspectos deste comentário que retomarei no post sobre os ventos que farei posteriormente, mas faço notar que a imagem que encima este post, e que de facto é estranha como geografia dos fogos deste ano (por favor imaginem o mapa da Península por baixo, que não consegui reproduzir tudo do site do EFFIS) é bastante explicada pelo efeito de Fohen referido.
Não conheço tão bem a geografia da Estrela para dizer que é o que se passa também ali, mas a verdade é que o essencial do que ardeu são vertentes Sul e Sueste (talvez até mais Sueste) de serras (Meio/ Soajo/ Vilar Soente, Vilarinho das Furnas, S. Cristovão/ Gralheira). Isso explica porque razão não ardeu também a Galiza e porque razão não ardeu o interior de Trás-os-Montes.
Por enquanto é uma explicação lógica, se é verdadeira ou não só pode verificar-se com análises de mais detalhe e, sobretudo, se se fizesse o que já propus noutros posts: uma investigação séria e detalhada das condições meteorológicas locais dos sítios onde está a arder mais em cada ano (suspeito que bastaria medir com rigor a humidade atmosférica).
Veja-se a distância intelectual entre quem anda a tentar compreender isto para encontrar soluções tecnicamente sustentadas para um problema difícil e complexo, e o pessoal que adoptou nos últimos dias um estribilho que todos conhecemos em Portugal: não sei qual é o problema, o médico até me disse que deve ser qualquer coisa nova, por isso ainda não sabe bem como resolver, mas o que sei é que desde que tomei estes comprimidos que a minha vizinha lá tinha, vou andando melhorzinho, obrigado.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, agosto 13, 2010

Opções políticas e maledicência


Há anos que teimo (e teimosia é um defeito que teimo em manter num grau exasperante) em meia dúzia de coisas sobre os fogos de Verão: a questão resulta de uma combinação extraordinária de acumulação de combustiveis e condições meteorológicas específicas, pelo que só uma economia consumidora de combustíveis pode obter resultados sustentáveis.
Coerentemente desvalorizo sistematicamente a discussão sobre o dispositivo de combate (até porque não sei nada do assunto) e discuto veementemente quer a fundamentação destas ideias, quer a necessidade de deslocar o foco da política de fogos da protecção civil para a economia do mundo rural.
Porque o fenómeno é muito complexo, há sempre dez explicações lógicas para cada facto (mas só uma que verdadeiramente estabelece as relações de causa/ efeito) o que torna esta discussão uma discussão muito circular.
E por isso me repito, repito e repito.
E também por isso procuro definir com clareza as relações de causa efeito para daí retirar conclusões.
Tudo isto é do puro domínio da opção política legítima.
Mas tem componentes técnicas que devem ser aprofundadas para que consigamos discutir.
Por exemplo, a situação hoje agravou-se, como seria de esperar, mas não tanto como eu estaria à espera. Na verdade o vento tem sido sobretudo de Nordeste e não um vento Leste típico.
Por isso encontramos temperaturas às quatro da tarde por volta dos trinta graus (em 2003 andavam mais perto dos quarenta), humidades em torno dos 30% (em 2003 eram bem abaixo desses trinta por cento). O vento é também muito diferente por estar agora em torno dos 10 Km/h (varia um bocado, claro) quando em 2003 andava quase sempre acima dos 30Km/ h.
Por isso é indecorosa a comparação feita primeiro por Rui Pereira, defendida num comentário a um post por Miguel Galante e hoje reafirmada por José Sócrates. Amanhã parece vir um novo agravamento, com condições mais típicas de vento Leste e no Domingo uma alteração de vento que dará aglum descanso antes de uma segunda outra vez mais complicada.
E digo-o porque acho que é assim e que é bom para a sociedade que as pessoas digam livremente o que pensam.
Mas curiosamente, na opinião de Miguel Galante, dizer isto é apenas sede de protagonismo (e se fosse, é ilegal? é imoral? é ilegítimo?), chama-me Miguel Sousa Tavares (que considero sem dúvida um insulto) e diz que o que eu defendo é pura maledicência, argumentando com uns índices construídos pelos serviços oficiais, que simplificam excessivamente a realidade, ao ponto de a tornar irreconhecível (2003, um ano de severidade meteorológica média, dizem eles). Não passa pelos vistos pela cabeça de Miguel Galante que quem acha uma coisa a defenda de forma sistemática, combativa e clara.
E no entanto, em matéria de fogos, o que está em causa para mim é uma mera questão de opção política: eu acho que o dinheiro dos contribuintes deveria ser aplicado na gestão de combustiveis e na protecção civil (no seu significado mais restrito de salvaguarda de pessoas e infra-estruturas, e não no seu significado alargado de protecção das florestas que é matéria que cabe aos produtores florestais) e não ser desbataratado em miragens sem grande sustentação como o "Portugal sem fogos".
Maledicência é procurar dar caneladas nos que pensam de maneira diferente para evitar que discutam política, não é apresentar opções políticas claras, como se procura fazer por aqui.
henrique pereira dos santos

Ainda o vento Noroeste

Mais uma fotografia do fogo de Lagoaça, de António Monteiro (a fotografia, não o fogo, naturalmente)
Paulo,
Depois da imagem fantástica que mandaste, mostrando como arde com o vento Noroeste, reparei que:
  • ontem o número de fogos diminuiu substancialmente (passou para pouco mais de 300, isto é, uma diminuição de cerca de 100, mais ou menos 25% em relação ao dia anterior, ou quase 40% face ao máximo do ano, que foi há quatro dias);
  • que grande parte dos fogos mais significativos vinham de dias anteriores, o que significa que nessas condições de vento Noroeste o dispositivo foi conseguindo apagar os ditos 309 fogos em fases nascentes, como preconiza o modelo de intervenção;
  • que hoje de manhã, com temperaturas que chegam a ser baixas e humidades altas às seis da manhã, apenas estão cinco fogos activos (dos quais apenas seis são dos tais mais significativos. Não há gralha minha, é a informação que consta do site da protecção civil. Foi mais para fazer uma piada porque entretanto foi corrigido e são 20 os fogos activos. Destes seis mais significativos, apenas 2 começaram ontem e hoje, isto é, nas tais condições de vento Noroeste que se fazem sentir há dois dias).
Devo dizer que estaria à espera de um começo de dia mais complicado, face às previsões. Estou à espera das observações posteriores às seis da manhã para ver se se confirmam as previsões de vento Leste no interior, sobretudo no Norte.
Ou seja, o tal vento Noroeste, se permitiu ainda um número de fogos importante e se manteve em actividade parte dos fogos que antes tinham atingido grandes perímetros (que é onde o sistema tem tido mais dificuldade em demonstrar a sua eficácia), demonstrou claramente que criou condições para que seja possível apagar os fogos em espaços de tempo razoavelmente curtos.
Veremos se se confirmam as previsões do vento que existem para hoje, Sábado, Domingo e Segunda e se elas trazem ou não o que caracteriza o agravamento da situação dos fogos: a dificuldade em parar o fogo.
Eu acho que sim, mas estou disponível para que a realidade (e não os índices) me demonstre que estou enganado.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, agosto 12, 2010

Não era mentira, era mesmo desonestidade

Miguel Galante diz num comentário a este post que eu deveria ter tento na língua porque me bastava ter ido aos relatórios quinzenais da AFN e verificar que é verdade que os índices destas semanas de Agosto são semelhantes aos de 2003.
Respondi à substância do comentário na respectiva caixa de comentários do post, mas venho aqui retratar-me: realmente não era de uma mentira que se tratava.
O quadro a que se refere Miguel Galante é o que está no fim do post e tem o seguinte comentário, do mesmo relatário:
"Comparativamente com os últimos 11 anos, conforme se verifica na figura 1, o valor acumulado do DSR no ano de 2010 mantém a tendência de um posicionamento intermédio entre os anos de maior severidade (2004, 2005 e 2006) e os anos de menor severidade (2000, 2007 e 2008)."
Afinal o Sr. Ministro tinha razão. Os índices deste ano são semelhantes aos de 2003.
Que culpa tem o Sr. Ministro que as pessoas não saibam que 2003 foi um ano de severidade média?
henrique pereira dos santos

O fogo na Península III

Este boneco, que aliás está longe de ser bom graficamente, é a terceira vez que o publico (aqui e aqui, vale a pena ver as discussões associadas e respectivas datas). Não o vou actualizar que tenho perdido muito tempo com isto, por isso acaba em 2006, no ano em que ardeu a Galiza.
Por muitos a Galiza era apontada como um exemplo de que era possível acabar com os fogos montando um sistema de combate fortemente profissionalizada, hierarquizado, caro e assente na doutrina da supressão dos fogos nascentes. Bastaram nove dias de vento Leste (fraco, sublinho bem o fraco) para as duas províncias do litoral da Galiza arderem e aparecerem as conversas do costume sobre incendiários e sobre a sua sofisticação cada vez maior, com uma poderosa organização e baboseiras destas (os incendiários e a sua poderosa organizaram, tudo o vento levou quando mudou de direcção e os fogos foram extintos).
Gostaria de explicitar que este mapa mostra as áreas ardidas por ano (durante seis anos). Aquele azul claro é o ano de 2003, que ardeu em Portugal, mas porque Espanha não tem unidade geográfica semelhante só marginalmente foi afectada (na mesma zona que em Portugal), o que serviu que nem uma luva aos demagogos para atribuir toda a responsabilidade ao Governo incumbente (que a tem, como os outros, mas não nos termos usados na altura). Em 2003 Monchique foi afectado também mas não exactamente na mesma altura dos grandes fogos de Agosto na região centro, foi um ano aziago de coincidências. Há um verde com os grandes incêndios do Algarve em 2004, e correspondentes na Andaluzia próxima. Há um cor de laranja, que se não me engano foi 2005, onde foi ardendo ao longo do ano, menos concentrado (como parece que está a acontecer este ano) mas afecta o interior de Portugal e prolonga-se para o reino de Leão. E há uma espécie de violeta (mais fucsia) que é 2006, onde arde a Galiza e um pouco o Minho que lhe está próximo.
O conjunto é impressionante e a concentação geográfica por anos notável.
O que está aqui em causa não são os diferentes sistemas de combate em Portugal e Espanha, o que está aqui em causa é a especificidade geográfica da fachada Atlântica da Península.
Ora é exactamente ao ignorar esta especificidade e imitar os modelos espanhois (e semelhantes) de supressão total dos fogos nascentes, que funciona dentro de determinados níveis de risco sistémico de fogo, mesmo se uma vez por outra sai do controlo, sem ao mesmo tempo atacar o problema da gestão de combustíveis de forma séria (há umas faixas de contenção que nunca funcionaram porque o território são também as pessoas e as economias em que vivem, coisa que os técnicos florestais com frequência ignoram) que vamos sendo conduzidos ao desastre com fogos, sempre que, como é frequente aqui como em mais lado nenhum na Europa, as condições meteorológicas são favoráveis à progressão do fogo.
O erro político não está em não conseguir apagar os fogos. Isso é uma inevitabilidade que resulta da natureza das coisas.
O erro político está em não levar isto a sério na política do mundo rural.
henrique pereira dos santos

O vento Noroeste

Pode clicar-se na imagem para aumentar, mas o melhor é mesmo seguir o link que está na palvra indicação, logo aqui em baixo
Paulo Fernandes dá a indicação num comentário do post anterior mas penso que vale a pena puxá-lo para aqui (enquanto o Paulo não se convence que o melhor seria aceitar o convite para se juntar a nós a escrever, mesmo que fosse só uma imagem destas de ano a ano).
Hoje o vento Noroeste parece-me que se intensificará (Paulo, ao olhar para o mapa espanhol que tem toda a Península, pareceu-me que este vento Noroeste, sobretudo mais a Norte e interior, que é o que está a arder, não vem directamente do mar, protanto com mais humidade, mas passou pelas Astúrias, numa curva relativamente suave, eventualmente com maior secura. Eu não percebo nada disto, podes confirmar?) mas para amanhã e até segunda (esteve previsto para começar hoje e acabar no Domingo, mas parece que a previsão foi alterada) entra mais um episódio de Vento Leste no Norte de Portugal.
De acordo com o que tenho defendido (e esta imagem do Paulo marca bem os limites da ideia) será este vento Leste o mais perigoso. Se assim for quer isto dizer que para lá de condições já de si dificeis, teremos condições ainda mais dramáticas.
henrique pereira dos santos

quarta-feira, agosto 11, 2010

Jornais e fogos

A dita mata do Cabril
Parte da responsabilidade do enviesamento social da ideia colectiva do problema dos fogos é da responsabilidade da comunicação social.
O exemplo do Público de hoje é um entre milhares que se poderiam escolher.
Começa da na capa: "mata do Gerês já arde desde Sábado".
Mas qual mata do Gerês?
É preciso ir ler então a notícia e é confrangedor perceber como quem escreve sobre o assunto não faz a menor ideia da geografia sobre a qual escreve.
Repare-se no lead da notícia (depois do título repetir o disparate da primeira página "Agora é a mata do Gerês que está a arder desde sábado"):
"Fogo que começou no Sábado em Vilarinho da Furna continua por controlar. Chamas aproximam-se das vilas do Gerês e do Soajo".
Vejamos.
Vilarinho da Furna é na encosta da serra Amarela da bacia hidrográfica do Càvado (ou se preferirem, do Homem, que é um afluente do Cávado). Tem a separá-la do Soajo toda a serra Amarela, o vale do Lima e ainda a encosta do rio Lima até à serra do Soajo (as designações variam, mas vamos usar esta). E tem a separá-la das termas do Gerês o vale do Homem (incluindo a albufeira de Vilarinho) e uma zona de alturas que separa o vale do Homem do vale da falha do Gerês. Seria portanto um incêndio de proporções bíblicas para cumprir o caderno de encargos descrito neste lead. E mesmo assim, poderia não estar a afectar nenhuma mata relevante do Parque Nacional da Peneda Gerês e andar sempre pelo mato (a mata de Albergaria, que não existe nenhuma mata do Gerês, está na transição entre a bacia hidrográfica do Homem e a da ribeira que passa no Gerês, mais a montante, à ilharga da serra do Gerês, a mata do Cabril fica a montante do Lindoso na encosta da serra Amarela contrária à de Vilarinho da Furna e a mata do Ramiscal, da bacia hidrográfica do Vez, está a quilómetros de distância. Há depois povoamentos em recuperação, nomeadamente nos vales da encosta de Vilarinho da Furna).
A notícia depois esclarece que afinal são três incêndios separados por vários quilómetros de distância (mais próximos o incêndio de Vilarinho/ S. João do Campo do da Calcedónia, os dois muito longe dos do Soajo e Mezio, porque afinal são quatro).
O jornalista, de uma ponte sobre um rio descreve "um cenário pintado de negro que é comum a quase todo o Parque Nacional". Como? Os fogos terão queimado, digamos, 50 000 hectares? É que o parque tem 70000 (grosso modo), portanto para este cenário ser comum a quase todo o parque devem ser milhares e milhares de hectares todos queimados.
A informação provisória do site da EFIIS, que penso que junta os dois fogos de Vilarinho e Calcedónia, fala em menos de 2000 hectares. É muito para um fogo claro, mas mesmo considerando que foi todo dentro do parque nacional (o que não é bem verdade) estamos a falar de menos de 3% da área do parque nacional. É a isso que se considera "um cenário pintado de negro que é comum a quase todo o Parque Nacional"?
O resto do artigo tem saltos geográficos estranhos (a mata do Cabril "estava quase totalmente cercada pelas chamas. Esta zona de protecção total do PNPG continuava, desde Domingo, ameaçada pelo fogo que começou em Vilarinho da Furna e que se mantinha incontrolado. A frente activa estava ontem, ao final do dia, bem próxima da aldeia de Ermida, já no distrito de Viana do Castelo.". Como? está em Cabril ou está na Ermida? Eu sei que visto num mapa parece mesmo ao lado, mas no terreno ainda vão mais de cinco quilómetros. Não é longe? Não, não é, mas para quem afirma que a mata do cabril está totalmente cercada de chamas, o que implica que o fogo está para o lado contrário da Ermida, é obra).
Já não falo da afirmação final sobre a mata dos Ramiscal ter ardido em 2006, afirmação mais que imprecisa (algumas zonas periféricas do Ramiscal arderam em 2006 e a mata está muito bem e recomenda-se, apesar do requiem que lhe fez o Miguel Dantas da Gama na altura e que o José Manuel Fernandes, acriticamente, ampliou num editorial do Público com mais emoção que razão).
Tudo isto são pequenas imprecisões, mas sempre, sempre no mesmo sentido: dramatizar, dramatizar, dramatizar (mesmo que pelo meio se diga que o fogo, junto ao emissor do Muro, é combatido por 55 bombeiros que não se aproximam da frente de fogo (e fazem bem) porque os carros não vão lá e o terreno é escarpado, pelo que o combate é feito de avião (que em qualquer fogo serve para apoiar o que se faz no terreno, não serve para substituir o combate terrestre)).
Um bom exemplo de como se criam ideias erradas na cabeça das pessoas: o Gerês ardeu, as matas estão em risco, está tudo preto, que enorme perda para o país.
Tudo ideias erradas, directamente apontadas à criação de emoções que impedem a discussão racional dos fogos, da sua gestão e da correcta afectação de meios à gestão do problema.
Valha-nos o Jornal de Notícias para dar conta do costumado bom senso de Humberto Rosa nesta matéria:
"Garantiu que as chamas ainda não atingiram a Mata de Cabril e explicou que esta, por ser composta, predominantemente, por folhosas não exige uma limpeza da mesma natureza das que se efectuam em área de árvores resinosas.
"Em 2006 houve um incêndio na mata do Rabiscal e muita gente disse, na altura, que se perdera a mata, mas não, ela sobreviveu", assinalou, frisando que "o mesmo pode suceder em Cabril, se o fogo lá chegar, pois há árvores de grande envergadura que podem sobreviver
". "
Adenda: por causa de uma pequena troca de argumentos no Blasfémias, reli o que escrevi em Maio sobre ignições. Achei que valeu a pena ter relido.
henrique pereira dos santos

terça-feira, agosto 10, 2010

Uma mentira inaceitável

Só agora li as declarações de Rui Pereira, Ministro da Administração Interna.
Eu sei que a situação está difícil mas a afirmação de que as condições que se vivem são idênticas às de 2003 é uma mentira que o Ministro não pode deixar de saber que é mentira e que é dita por puras razões de propaganda.
É uma mentira totalmente inaceitável por parte de um Governo que sempre tratou este assunto sobretudo como um pretexto para propaganda e que agora, vendo ruir o castelo de mentiras levantadas sobre o assunto, tenta esta fuga em frente:
"O ministro garantiu também que actualmente “o sistema de protecção civil é muito mais competente, eficiente e eficaz do que era há uns anos”, ressalvando que, em condições de severidade tão duras como em 2003 e o número de ignições idênticas, a área ardida é um décimo”."
O que é mentira não é a primeira parte das afirmações, de que o sistema está melhor. O que é mentira é atribuir a isso os bons resultados dos anos anteriores. E sobretudo querer agora intrujar toda a gente dizendo que as condições são as mesmas de 2003.
Não são e o ministro tem de saber que não são.
Um nojo.
henrique pereira dos santos

Há quem se esqueça

Este boneco mostra a produtividade primária na Península. Cores mais frias, maior produtividade.
henrique pereira dos santos