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quinta-feira, novembro 19, 2009

Curiosidades III

Glória Gonçalves divulgou a sua tese de mestrado ("Ordenamento e Áreas Urbanizadas Inundáveis:Uma Uma leitura histórico-geográfica entre 1900 a 2007 em Arcos de Valdevez e Ponte da Barca") na lista Ambio há já algum tempo (Setembro de 2009).
Porque a área geográfica me interessa e porque o tema também, perguntei como lhe poderia ter acesso.
Simpaticamente, e para leitura privada, foi-me cedida uma cópia digital não totalmente revista. Porque alguns mapas me interessaram, pedi os dados de base para fazer um gráfico que é inteiramente da minha responsabilidade e que é esse que está em cima.
A mancha a cheio, associada à escala da direita, é a evolução da população do Concelho de Arcos de Valdevez desde 1864 (os dados anteriores não incluíam o então concelho do Soajo e outras freguesias relevantes para o que eu queria, pelo que os excluí).
O que me interessa relevar:
1) Mesmo sendo os Arcos um concelho relativamente rico do ponto de vista agrícola (não tanto como Vila do Conde, por exemplo, mas bastante mais que Vimioso ou Estremoz, também para usar exemplos), há uma perda acentuada de população a partir do censo de 1970 (em rigor já há uma pequena perda no censo de 1960). Nada que não seja conhecido, com maiores ou menores amplitudes em quase todo o Portugal que não se inclua em áreas metropolitanas;
2) O que me interessa não é pois esta trivialidade bem conhecida, mas pôr em evidência que esta evolução da população concelhia esconde dinâmicas internas do Concelho substancialmente diferentes, traduzidas nas linhas a cores, relacionadas com a escala da esquerda;
3) A sede do Concelho, se traduzida pelas suas duas freguesias quase estritamente urbanas, segue um padrão semelhante ao do concelho (com excepção do censo de 1920, especulo eu que em consequência da gripe espanhola, mas é pura especulação), mas bastante mitigado, isto é, com perdas menores de população de 1960 para cá;
4) Mas em rigor este padrão não pode ser separado da evolução da linha que aparece como suburbana, para a tradução da qual escolhi a freguesia de Vila Fonche, em que o padrão difere substancialmente das restantes por esta freguesia ganhar população consistentemente desde o censo de 1981;
5) Isto significa que se a área urbana incluir as freguesias limítrofes (e nos Arcos as freguesias urbanas são mesmo muito pequenas e restritas ao casco urbano antigo e pouco mais) parece ser claro que não há grande perda de população na sede do Concelho (admitindo que há alguma);
6) Escolhi duas freguesias para ilustrar o que se passa nos vales mais ricos e, neste caso, situadas nas linhas de circulação mais urbana, entre Arcos, Barca e Ponte de Lima. E também aí vemos que o padrão de evolução é bastante amenizado em relação ao concelho considerado globalmente, com perdas suaves de população. Há num entanto um fenómeno que um gráfico de população residente não pode mostrar, que é a alteração das características das populações destas freguesias, próximas e com bons acessos a centros urbanos: grande parte da população que lá fica deixou de viver da agricultura, para viver ou da construção civil e indústria (que há alguma na zona) ou dos serviços na vila (bancários, professores, polícias, etc.). Do ponto de vista da evolução do território esta manutenção de população, com alteração da sua actividade, tem alguns efeitos próximos dos do abandono rural;
7) Escolhi duas freguesias da serra (Soajo e Miranda) para ilustrar de onde vem a quebra acentuada de população, que não merece muitos comentários de tal modo o gráfico é expressivo.
Que evolução futura poderemos esperar do que se vê.
Os centros urbanos, as vilas onde se funda o poder local (repare-se como o peso eleitoral da sede do Concelho se acentua de forma brutal face ao conjunto da população concelhia, crescendo cerca de 25% neste intervalo, de acordo com umas contas de merceeiro que aqui fiz), têm vindo a crescer com o abandono do seu hinterland.
Este crescimento faz-se sobretudo pelo aumento da cobertura dos serviços públicos, pelo investimento público em infra-estruturas, pela construção civil financiada quer por esta deslocação das aldeias para as vilas quer pelos recursos dos que se foram embora e pelas transferências da segurança social, incluindo alguns subsídios agrícolas que são na verdade apoios sociais disfarçados de apoio ao rendimento do agricultor.
Ora os serviços públicos estão em recuo (e estarão mais face ao endividamento do Estado), o ciclo de infra-estruturação tende a abrandar (porque o essencial está feito e porque o Estado está falido), o ciclo da renovação do alojamento está quase esgotado e os velhos, receptores das transferências sociais, vão morrendo.
Os orgulhosos concelhos que hoje proclamam a sua libertação da desvalorizada condição rural, por exemplo apoiando a remoção dos obstáculos à protecção do solo agrícola de que sempre dependeram e de que agora dizem não precisar, correm sérios riscos de perceber tarde de mais que depois das aldeias vazias não sobram razões para manter os núcleos urbanos que organizavam os mercados e serviços essenciais ao desenvolvimento da produção agrícola e pecuária.
henrique pereira dos santos

sábado, novembro 14, 2009

The good news show ou como a agricultura intensiva pode ajudar a salvar uma espécie criticamente em perigo

Foto de Francisco Calado tirado daqui.
O chasco-preto (Oenanthe leucura) é uma espécie classificada no Livro Vermelho de Vertebrados de Portugal como Criticamente em Perigo. No entanto, no IUCN Redlist, a espécie está classificada como "Least Concern". (Este fenómeno de grandes diferenças entre a classificação nacional no LVVP e a IUCN Redlist é muito frequente e deixa-me por vezes um pouco confuso, mas não é tópico deste post).

A ocorrência da espécie, outrora com uma ampla distribuição pelo interior do país, de norte a sul, é hoje confinada aos troços superiores do Douro e Tejo.

Na última edição (18/2008) da revista Airo, editada pela SPEA, foi publicado um artigo da autoria de Tiago Múrias et al., que relata um estudo sobre a ocorrência e nidificação do chasco-preto na região de Foz-Tua, na região demarcada de vinho do Douro. A espécie terá mostrado uma tendência de aumento da sua subpopulação na região estudada e, segundo o artigo, e passo a citar, "uma explicação para o aparente aumento da espécie na área é a de que a substituição das vinhas tradicionais por vinhas de tipo intensivo ou semi-intensivo promove condições para um aumento da disponibilidade alimentar (sobretudo fauna do solo) que, asociada á existência de numerosos e relativamente seguros potenciais locais de nidificação, favorece a expansão local do chasco-preto".

Ora e essa agora. Estávamos todos obrigados a acreditar que o grande mal em termos da biodiversidade é o abandono da agricultura tradicional, vem aí um estudo que mostra uma espécie às portas da extinção (pelo menos em Portugal) que tem nos suspeitos agricultores modernos um amigo que vem dar uma ajudinha ao simpático chasco-preto.

É o que eu chamo uma boa nóticia, para o chasco-preto e para mostrar que a realidade é sempre, sempre mais complexa que se quer fazer crer. E obrigado Tiago, pela objetividade do artigo e suas conclusões.

Henk feith

quarta-feira, novembro 04, 2009

Uma discussão interessante

Miguel Rodrigues, comentando este post, levanta três questões muito interessantes a que procurarei responder separadamente em três posts: 1) Porque há zonas de habitat favorável em que não há linces e há zonas de abundância de coelho em que também não há linces; 2) O que é uma ONG; 3) Como se produz a informação científica que enforma as políticas de conservação da natureza.
Mas antes de o fazer (quando tiver oportunidade) deixo aqui integralmente o comentário de Miguel Rodrigues, acrescentando-lhe eu alguns links que me parecem facilitar a vida a quem queira ter mais informação:

"Caro Henrique
Afinal sabe mais do que as muitas dezenas de investigadores de várias nacionalidades (não só portugueses e espanhóis) que estudaram esta questão. Gostava de o ver a explicar isso ao coordenador do Cat Specialist Group da IUCN, Urs Breitenmoser. Para lhe dar apenas um pequeno exemplo, falo-lhe do trabalho em que estive envolvido em 1996, juntamente com mais duas pessoas cuja competência e idoneidade considero inquestionáveis (http://www.pluridoc.com/Site/FrontOffice/default.aspxmodule=Files/FileDescription&ID=719&state=SH). É obvio que a regressão do coelho foi um dos principais factores que ditaram a quase extinção do lince. Mas é também óbvio que este não foi o único factor. É livre de pensar o que quiser mas deveria ser cuidadoso para não desinformar os seus leitores."(…)simplesmente isso não pode ser verdade porque há áreas imensas de habitat favorável ao lince, sem que o lince lá esteja" Quer fazer-me crer que não entende esta situação? Bem, aproveito para explicar aos leitores que não sejam técnicos destes assuntos. Os surtos de doenças, largamente agravados pela falta de habitat adequado e por alguma actividade cinegética mal gerida (havendo neste caso muitos exemplos negativos e outros tantos positivos) levaram ao desaparecimento do coelho. Isso quereria automaticamente dizer, na visão do Henrique, que todas as zonas com tamanho suficiente e com grande densidade de coelho deveriam, obrigatoriamente, estar a abarrotar de linces. Como este seria o único factor… Conheço muitas reservas de caça bem geridas que, possuem boas densidades de coelho, vou já lá ver quantos linces consigo encontrar.
Quando escrevo ou falo em português, muitas vezes refiro-me à nossa associação pelo nome da espécie em português, em vez do nome científico. Erro meu. O nome completo é SOS Lynx – Associação de Defesa da Fauna e da Flora. Como somos uma associação com poucas pessoas, que trabalham no pouco tempo livre que possuem, aplicamos esse tempo a trabalhar directamente para o nosso objectivo. A página reflecte isso mesmo. Como não a explorou bem, esclareço aos leitores que poderão lá encontrar muita informação e muito trabalho realizado na área da divulgação, área essa em que nos especializamos. Poderão consultar as publicações Lynxbrief ou os relatórios publicados sobre o lince e o coelho, alguns realizados a pedido da Comissão Europeia. Estes relatórios não se referem a trabalho científico de campo mas a compilações exaustivas e muitíssimo completas sobre os temas, juntando num só volume a informação mais relevante e que, até ao momento, se encontrava dispersa por muitas publicações e opiniões pessoais. Aconselharia ao Henrique que desse uma breve leitura a estes relatórios. Irá seguramente, como todos nós, aprender qualquer coisa. Acrescento que o relatório sobre o coelho foi uma das principais bases para que o IUCN Lagomorph Specialist Group reclassificasse esta espécie de Não Ameaçada a Quase Ameaçada nas áreas de distribuição natural (http://www.iucnredlist.org/apps/redlist/details/41291/0). O que não está na página é o trabalho de sensibilização e educação que temos levado a cabo e que estamos a tentar implementar de forma ainda mais consistente no futuro. Estamos na fase de tentar arranjar financiamento e apurar pormenores de operacionalização. Espero ter podido esclarecer-lhe, e aos leitores, estes pontos. Obrigado pela oportunidade.

Miguel Rodrigues"


Espero que o Miguel não se zangue de puxar para um post este comentário, o que me parece útil e de justiça, facilitando a discussão posterior, e espero que o SOS Lince não se importe que eu use o seu logotipo, como parece que acontece com outras associações com mau feitio.

henrique pereira dos santos

terça-feira, outubro 27, 2009

Uma proposta estimulante


Fui hoje ouvir duas conferências na Gulbenkian, uma do Miguel Araújo, previsivelmente interessante (e na verdade o motivo para ter lá ido) e outra de Lima Santos (e na verdade o motivo para ter esperado mais um bocado para me vir embora).
Fiz bem em ter ficado.
Lima Santos apresentou uma ideia em cuja viabilidade o próprio disse não acreditar mas que eu acho muito, muito estimulante.
Falava Lima Santos de um dos meus temas predilectos (alimentação e ambiente), identifica as alterações de dieta como mais perigosas ambientalmente que o aumento demográfico (por cada chinês ou indiano que muda de uma dieta tradicional para uma dieta americana, é como se nascessem três ou quatro novas pessoas do ponto de vista do consumo alimentar) e identifica o consumo de carne como o grande problema.
Eu teria duas observações de detalhe a fazer, uma quanto à necessidade de falar em consumo excessivo de carne por contraponto ao consumo de carne tout court, outra quanto à necessidade de separar a carne produzida a partir de rações feitas de cereais das outras carnes produzidas em terras impróprias para cereais. Mas isto são dois detalhes.
O interessante é a proposta de Lima Santos de criar uma taxa sobre os cereais usados no fabrico de rações, com o objecto de subir o preço da carne e diminuir o preço dos cereais para alimentação directa das pessoas.
As razões pelas quais Lima Santos não acredita na exequibilidade da proposta prendem-se com a oposição feroz que esta proposta teria dos produtores de cereais e dos produtores de carne, para além, naturalmente, dos produtores de rações.
Vejamos então como inverter a questão politicamente.
A primeira e mais fácil opção é a de introduzir a taxa progressivamente, isto é, criando um período de transição em que as taxas são baixas e vão crescendo. Isto permite suavizar o impacto inicial e dá tempo de adaptação aos agentes económicos.
Mas o fundamental é ver quem ganha e quem perde, para gerir apoios e oposições.
Perdem os produtores de cereais, os fabricantes de rações e os produtores de carne que usam rações porque todos eles perdem mercado com a subida do preço. E perdem os mais pobres que terão mais dificuldade em comprar carne.
Ganham os produtores de carne criada sem rações, ganham os produtores de todos od produtos que substituirão a carne (com os produtores de leguminosas, como feijão e grão, por exemplo), ganham os importadores de carne não sujeita ao mesmo imposto e ganha o Estado que arrecada a taxa.
Neste cenário o que é mais injusto é os pobres saírem perdedores, o Estado arrecadar mais uma taxa (neste caso, em rigor, um imposto) e o país perder competitividade global no sector.
Se para a questão do comércio internacional não vejo solução no quadro de uma economia aberta e comércio livre (mas o mesmo se passa com as renováveis, com implicações mais globais na competitividade do país, e isso não tem impedido a opção política de as apoiar), já para os outros problemas políticos parece-me fácil encontrar a solução: os recursos arrecadados com a taxa devem reverter para dois grandes destinatários: os pobres (admitindo mesmo que sejam entregues vales para a compra de carne, minimizando as perdas de mercado e melhorando a equidade) e os projectos de melhoria de eficiência e aumento da incorporação de alimentação não proveniente de cereais apresentados pelos produtores afectados.
Sim a proposta é de facto de difícil gestão política.
Mas é muito boa e eu não atiraria a toalha ao chão dizendo que é politicamente inaceitável porque tal como as portagens nas cidades, parece-me muito uma questão de detalhar a solução socialmente mais justa e economicamente eficiente.
Gostaria de ver o movimento ambientalista adoptar esta proposta.
henrique pereira dos santos

domingo, outubro 25, 2009

A conservação do lince ibérico

O Público de hoje tem uma longa notícia sobre conservação do lince, tendo como pretexto imediato a chegada amanhã do primeiro lince ao centro de reprodução do Algarve.
Há já alguns anos que vou acompanhando o que é feito para a conservação do lince, de maneira geral com bastantes dúvidas sobre a afectação de recursos que é feita com base na conservação do lince.
E lendo as notícias mantenho as minhas dúvidas.
Há bastantes anos tive várias discussões porque defendi que a reprodução em cativeiro não era prioritária, sendo um gasto de recursos brutal com pouco efeito real na conservação da espécie.
A situação progressivamente mais desesperada das populações de lince convenceu-me a mudar de posição e achar que era preciso ter um bom programa de reprodução em cativeiro, no mínimo como seguro de vida da espécie, quer ela se extinguisse ou não na natureza. O que não significa que ache a reprodução em cativeiro em Portugal prioritária mas admito que Portugal participe nesse esforço que é fortemente consumidor de recursos, e de resultados muito incertos.
As minhas dúvidas prendem-se com o meu desconhecimento do modelo de gestão do centro do Algarve (não sei quem paga, quanto paga e com que objectivos) mas sobretudo com as medidas de conservação in situ.
O conservação do lince depende inteiramente da conservação do coelho. Convém compreender bem o que se passou com estas populações de coelho para perceber a minha perplexidade quando ouço dizer, a propósito da conservação do lince, que a tranquilidade e a ausência de pessoas é uma condição favorável à sua recuperação.
No Mediterrâneo o coelho, animal de clareira como nós, co-evoluiu connosco, tornando-se, durante milhares de anos, um animal abundante com um grande peso não só na dieta humana como na de muitos outros predadores, com especial destaque para o lince de que é praticamente a única presa.
Poucos anos depois da introdução do primeiro vírus na Austrália com o objectivo de controlar as populações de coelho que são uma praga naquela zona do mundo, o vírus foi introduzido acidentalmente em França. Menos de cinco anos depois, mais de 90% da população de coelhos de França e Inglaterra tinha sido dizimada.
Para o Mediterrâneo e para a área de distribuição do lince não existem dados com a mesma precisão, mas é consensual a ideia de que há uma queda acentuada do número de coelhos, o seu desaparecimento, mesmo que temporário, de muitas zonas e, sobretudo, uma rarefacção brutal, com diminuições de densidade que tornam inviável a existência de populações de lince (seis a sete coelhos por hectare é considerado o limiar mínimo de densidade de coelhos para sustentar populações viáveis de lince, situação que em Portugal ocorre em muito poucos sítios, fortemente geridos com objectivos cinegéticos).
Nestas circunstâncias confesso que não percebo a preocupação com os matagais mediterrânicos (importantes para refúgio do lince e do coelho, mas incapazes de por si sustentarem elevadas densidades de coelho e, de qualquer maneira, em expansão face ao abandono agrícola) em vez de preocupações com a manutenção das clareiras que sempre foram mantidas pela agricultura e o gado, esses sim, em clara retracção.
Parece evidente, para quem tem consciência do custo de manter paisagens em estados de evolução iniciais, contrariando pois a tendência natural de evolução progressiva para matos e matas, com colmatação de clareiras, que não é com projectos parcelares de apoio temporário suportados em financiamentos elevadíssimos por hectare que se consegue manter o mosaico necessário à elevada densidade de coelhos em áreas muito vastas.
A única solução é encontrar economias que suportem esse trabalho diário de formiguinha que consiste em todos os dias contrariar a natureza. Não é por acaso que as últimas áreas onde encontramos linces na natureza correspondem a habitats particulares onde a rarefacção da vegetação é uma característica que resulta das condições naturais e não da longa interacção do homem com a natureza.
Essas economias podem ser antigas (a complementaridade de áreas agrícolas, pastagens pobres e matagais resultante de mão de obra intensiva, fogo e gado), com podem ser modernas (a actual gestão cinegética), como podem ser para lá de modernas (as economias assentes na criação de valor de mercado a partir da biodiversidade, seja pelo turismo, seja pela valorização de produtos, seja pela caça ao lince, seja pelo mercado das doações, etc.).
Para isso os estados da União Europeia dispõem de instrumentos: os instrumentos de financiamento do mundo rural.
É por isso que a frase mais significativa do artigo do Público me parece ser esta:
""As pessoas não têm nada contra o lince mas contra a falta de coordenação e de informação." Turíbio exemplifica que uma das exigências para a atribuição de subsídios da Política Agrícola Comum é não ter mato com mais de 50 centímetros de altura. "Consideram que está abandonado, por isso tenho que o cortar. Mas isso não ajuda à recuperação do lince"."
É isto, andamos a fazer marouços, pastagens que ninguém pasta, sensibilizações e rodriguinhos tais, ao mesmo tempo que os verdadeiros instrumentos de gestão de paisagem em larga escala trabalham ignorando olimpicamente a gestão da biodiversidade.
henrique pereira dos santos

terça-feira, outubro 06, 2009

Uma questão essencial sobre fogos


Henk Feith, no seu comentário a este post, diz: "Não te esqueças que esse objetivo (dos 100 mil) vem em resposta às situações catastróficas vividas em 2003 e 2005. A estratégia visava sobretudo evitar repetições delas.".
Henk faz este comentário no contexto de uma discussão sobre a estatística associada aos fogos, a que respondi nos comentários ao mesmo post.
Mas para lá da questão estatística vale a pena olhar com atenção para esta frase e perguntar:

a estratégia de gestão do fogo que o país adoptou visa ter o menor nível de área ardida anual possível para o tornar socialmente aceitável e compatível com a exploração económica do sector, ou visa evitar a repetição de situações excepcionais como as de 2003 (e, em menor grau, de 2005)?

Um ou outro objectivo não são indiferentes para a estratégia a adoptar e são mesmo contraditórios.
É que quanto mais eficientes formos no obectivo de ter todos os anos a menor área ardida possível, mais contribuímos para a criação de condições para a repetição de 2003.
Pelo menos enquanto as políticas de gestão de combustível se mantiverem no nível a que estamos.
E não vejo como possam ser alteradas, dadas as imensas áreas do território que estão em causa, se não passarmos do modelo de financiamento da produção agrícola e florestal que temos para um modelo de financiamento do mundo rural através do pagamento dos serviços ambientais prestados.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, agosto 14, 2009

O mundo rural é gerível em Portugal?


Sofia Loureiro dos Santos fez um post no simplex sobre o mundo rural e lembrei-me de lhe responder com um exemplo que era demasiado extenso para a caixa de comentários do dito blog.
Fiz por isso este post
Aqui fica o exemplo da forma como o Governo tem gerido o mundo rural.
No fim do Governo anterior, por sugestão de Moreira da Silva, então Secretário de Estado, o ICNB lançou um programa chamado "Escola na Natureza".
O objectivo era fazer com que todos os alunos do oitavo ano (+/- 130 000) passassem pelo menos três dias e duas noites em áreas protegidas em actividades pedagógicas com as suas escolas e professores.
Durante anos o programa vegetou na típica boa vontade portuguesa: era só uma noite porque era experimental, o ICNB pagava o alojamento e os monitores, as câmaras os transportes e as escolas (ou as famílias) levavam o que comer. O Ministério da Educação batia palmas.
Com isto conseguia-se que dos 130 000 meninos do 8º ano, entre 1000 a 2000 participassem anualmente (aliás em condições precárias).
O programa foi redesenhado (declaração de interesses: fui responsável pelo novo desenho): as escolas (ou as famílias) tinham de suportar integralmente os custos, as actividades eram feitos pelos professores, o tempo passava para duas noites, o ICNB geria o programa, negociava preços especiais para o programa (chegava aos cinco euros por noite e menos, por exemplo). Os alunos do apoio social não pagavam.
O ministério da educação opôs-se porque a existência de um pagamento era discriminatória (embora o programa anterior discriminasse 129 000 dos 130 000 alunos e os alunos do apoio social não pagassem no novo desenho do programa).
O ICNB lançou as bases do programa e instituições como a movijovem, que gere as pousadas da juventude e são do próprio Estado, nunca responderam aos pedidos insistentes para que fizessem preços especiais para um programa que lhes ia aumentar a ocupação das pousadas mais dificeis (as que estão fora das cidades) em alturas mortas (tempo lectivo e durante a semana).
O orçamento (que foi feito com valores por cima do que era possível obter em concreto) de movimentar os 130 000 meninos andava pelos 10 milhões de euros anuais, se não estou em erro.
Serão 260 000 dormidas, cerca de meio milhão de refeições em áreas maioritariamente rurais e de interior.
Facilmente as famílias financiariam cerca de cinco milhões anuais (40 euros por cabeça para transporte, alimentação e alojamento, três dias e duas noites).
Noutros países (de onde a ideia foi importada) este tipo de programas fazem parte do curriculum escolar e são obrigatórios, pagos pelas as escolas (complementarmente as famílias são chamadas a suportar parte dos custos)
Para além dos efeitos estritamente pedagógicos, para além dos efeitos de educação ambiental associados e de ligação ao património natural de Portugal, este programa era sem dúvida um poderoso instrumento de deslocar dinheiro do litoral (onde estão os alunos) para o interior (onde está a maioria das áreas protegidas).
O programa ajuda a viabilizar pequenos (ou médios ou grandes) projectos de alojamento, restauração e prestação de serviços. Para além disso permite estruturar a oferta de produtos locais (batatas e outras coisas que o sector desimportador produz) para dar resposta à procura gerada.
Não tenho dúvidas da enorme simpatia que o programa terá por parte de Humberto Rosa.
Mas tenho a sensação de que com a minha saída do ICNB (com o meu mau feitio e teimosia), o projecto andará a vegetar mais uns anos sem grandes efeitos na gestão do mundo rural.
Espero que me engane mas entretanto investe-se em coisas mais sexy, como banda larga, magalhães, nas estradas (só o erro de Jorge Coelho adjudicar estradas sem estudos de impacte ambiental tem um custo, numa das auto-estradas, que daria para pagar dez anos o projecto, sem qualquer contribuição das famílias), e noutras coisas que tal, à espera que as infra-estruturas criem riqueza.
O melhor é esperar sentado para evitar as varizes.
henrique pereira dos santos

domingo, agosto 09, 2009

Cabras, fogos e o admirável mundo das plantas

Em 1974, John Phillip Grime, actualmente professor emérito da Universidade de Sheffield, publicou um artigo seminal na revista Nature com o titulo "Vegetation classification by reference to strategies". Grime revelou que as plantas têm estratégias de vida diferenciadas que as permitem sobreviver num mundo de intensa competição por recursos escassos. As plantas foram agrupadas em três grupos, consoante as suas estratégias de vida: as ruderais, tolerantes ao "stress" e as competitivas.

As ruderais seriam as primeiras a colonizar um dado ambiente após uma perturbação como seja o fogo, o sobre-pastoreio, ou a "limpeza" da vegetação para actividades agrícolas ou florestais, etc. São, portanto, plantas que beneficiam de - e nalguns casos promovem - condições que favorecem as perturbações cíclicas no ambiente. Um exemplo conhecido é a esteva (Cistus ladanifer) que coloniza, em regime de quase monocultura, solos excessivamente pastoreados ou queimados do sul do País e que possui estratégias de vida que contribuem para aniquilar espécies competidoras. A esteva consegue este objectivo através da produção de uma substância (a cola nas suas folhas que se chama "labdano") que favorece a ignição do fogo, logo a manutenção de condições de perturbação que a beneficiam e que, quando depositada no solo, inibe o crescimento de outras plantas (um mecanismo semelhante ao do eucalipto).

As plantas tolerantes aos "stress" seriam as que suportam condições ambientais extremas, no limite do que é possível pela maior parte das plantas. São exemplo, os líquenes, as plantas tolerantes a ambientes salinos, de estrema aridez, etc.

As plantas competitivas seriam as que logram vingar em ambientes de intensa competição, característicos de ambientes biológicos complexos como sejam as florestas. Contrariamente às ruderais são plantas que beneficiam de condições de baixa perturbação e, como tal, possuem alguns mecanismos que inibem a propagação de perturbações. É o caso de muitas plantas que "ardem mal" (por exemplo os medronheiros, os lentiscos, as murtas, etc) e que beneficiam das condições criadas por comunidades estruturalmente complexas, como os bosques, que favorecem a existência de predadores de topo que reduzem a incidência de herbívoros e logo o risco de sobre-pastoreio.

Vêm estes considerandos a propósito dos inspirados posts do Henrique Pereira dos Santos sobre as aventuras e desventuras de Thomas. A tese defendida pelo Henrique é que a intensidade dos fogos em Portugal se deve em grande parte ao abandono dos campos e que a solução passaria por revalorizar estas actividades de modo a manter a sua função ecológica (e económica).

Naturalmente, não discordo da tese até porque parte do que o Henrique defende é factual. Porém, o raciocinio está incompleto pois não reconhece que a especial propensão dos campos abandonados para o fogo é resultado de um sistema de exploração da terra que criou condições para uma sobre-abundância de plantas ruderais que possuem estratégias para manter, em regime cíclico, as condições para aparecimento de grandes fogos.

Como se resolve o problema? Uma solução, implícita nas propostas do Henrique, é emular o sistema tradicional de exploração agro-pastoril do território. Caricaturizando, a ideia é que as cabras reduziriam a biomassa acumulada, logo a magnitude dos fogos. Sabemos, porém, que este é justamente o sistema que, após abandono, criou condições para a propagação de grandes fogos em Portugal. Portanto, é uma solução potencialmente paliativa, ou seja, uma solução que não resolve o problema de fundo (existência de condições que favorecem as plantas ruderais) mas que resolve o sintoma (excesso de ruderais) por via de uma actividade económica, o pastoreio, cuja rentabilidade - logo perenidade - depende de factores variados, alguns dos quais são externos.

Será a melhor solução? Certamente que é mais eficaz do que nada fazer e/ou simplesmente apagar fogos com meios cada vez mais avançados e caros. Mas outra solução seria gerir o território de uma maneira mais integrada e baseada num zonamento, de fina escala, sobre usos potenciais de cada parcela. Num cenário ideal, a gestão do território deveria limitar a pastorícia a áreas concretas, com baixo potencial para o desenvolvimento de florestas. As diferentes espécies de herbívoros (cabras, ovelhas, cavalos, etc) e as densidades dos mesmos deveriam ser cuidadosamente controladas e o objectivo de gestão da paisagem deveria incluir a criação de mosaicos de vegetação onde as plantas com características competitivas (florestais) tivessem um papel importante na limitação da propagação do fogo. Estamos a falar, em particular, de linhas de água, zonas de vale, vertentes suaves expostas a norte, etc.

Será utopia propor modelos de gestão do território baseados num zonamento por objectivos, que não sejam exclusivamente mercantilistas? Talvez este não seja o momento histórico para fazer propostas desta natureza mas não deixa de ser paradigmático que volvidos mais de 30 anos sobre a publicação dos influentes trabalhos de Grime, continuemos a pensar a gestão do território sem procurar entender o comportamento das plantas e sem entender que trabalhando com elas mais do que contra elas alcançaremos uma gestão mais sustentável dos recursos escassos que estão à nossa disposição.

O mundo rural e o papel higiénico preto


Antes de começar o episódio de vento Leste que a partir de amanhã ou depois submergirá o espaço mediático em labaredas (ainda que o vento se preveja fraco), lembrei-me de fazer mais um post sobre o outro mundo rural, o do não abandono, o que pode resistir ao fogo, como resistiu a quinta do Thomas quando pelas redondezas tudo era fogo.
Ao pensar no assunto apercebi-me de que a discussão sobre a competitividade do mundo rural foi durante muitos anos uma discussão sobre produtividade, ou mesmo sobre produção por hectare, ou produção sobre hora de trabalho, mas raramente uma discussão sobre valor criado.
Lentamente em algumas fileiras, o vinho, o azeite, para além da produtividade começou a discutir-se a criação de valor.
Quando José Roquete resolveu começar a vindimar as uvas brancas à noite para evitar grandes diferenças de temperaturas nas uvas até a adega do Esporão, não estava com certeza preocupado com a produtividade da operação mas com a diferença de valor que isso introduzia no seu vinho branco e que o mercado estava disposto a remunerar.
A mesma lógica têm algumas agro-industrias, como a dos laticínios, quando diversificam permanentemente os gostos dos yogurtes.
E a mesma lógica foi a da Renova ao criar o rolo de papel higiénico preto: uma pequena empresaa do sector (não à escala de Portugal, mas à escala global) tornou-se mundialmente conhecida, e acarinhada por muita gente, por ter a ousadia de olhar para o papel higiénico sem os limites que uniformizavam a produção mundial em torno do branco ou das cores claras e suaves. Uma das principais razões para a Renova ter sido capaz de fazer isto foi a consciência da sua pequenez no sector e a consciência de que nunca poderia competir com os gigantes do sector pelo preço, mas apenas pela diferenciação. Mesmo num produto que aparentemente não permitia grande diferenciação, como o papel higiénico.
É a mesma lógica que leva a Delta Cafés a fazer lotes de café a partir de cafés de mais de cinquenta proveniências, havendo alguns lotes com perto de dez cafés diferentes, ao contrário da meia dúzia de proveniências usadas pelos gigantes deste mercado.
Infelizmente as nossas políticas para o mundo rural foram sempre desenhadas por produtivistas, como é natural que sejam os homens da produção.
As nossas escolas de agricultura ensinam sobretudo a produzir, não ensinam a criar valor.
Por isso todos os nossos sistemas tradicionais de pequena produção diversificada, com forte integração de retalhos de terra agrícola e montes a perder de vistas foram considerados atavismos de que a modernização do país, e especificamente a modernização da produção agrícola, nos haveria de libertar, transformando-os em florestas.
Porque esses sistemas são inevitavelmente sistemas de baixa produção. Ironicamente, em muitos casos, mesmo para as florestas.
O mais que se tentou foi encontrar novas produções que substituissem as antigas, que à semelhança do azeite e do vinho fossem à partida reconhecidas no mercado como produtos susceptiveis de diferenciação e remuneração compatível com os elevados custos de produção.
Mas cabras, esterco e coisas que tal é que nunca seriam competitivos.
Ora o marketing, como dizia um dos directores de comunicação de uma das empresas que citei, é sobretudo informação e bom senso.
O que sabemos hoje é que o abandono dos nossos sistemas agrícolas tradicionais tem um custo elevadíssimo que se consome na paranoia dos fogos (e outros sintomas de falta de controlo social sobre o território).
É por isso de bom senso confrontar os riscos de abandono com os riscos de olhar para cada produtor como um criador de valor e não apenas um produtor de alimentos ou fibras.
Talvez fosse tempo de olhar para esses sistemas sem ser pela sua produtividade, que será sempre baixa face aos territórios com condições naturais de maior produção, mas pelo lado da criação de valor.
Se a única produção possível num determinado sítio é o mato, pois olhemos para o mato e para a forma de lhe acrescentar valor, em vez de teimarmos em querer produzir trigo porque temos um déficit de produção alimentar.
Se a partir desse mato formos eficientes na criação de valor, se conseguirmos valorizar no mercado o que ele tem de único (por si, ou porque o pintámos de preto), é bem possível que no fim do dia tenhamos ganho o suficiente para ir comprar a outro lado o trigo que nos faz falta.
E criar valor não é necessariamente produzir mais, é vender mais caro porque se incorpora mais valor.
Seja porque se integra a produção para vender produtos mais diferenciados (é difícil aumentar o valor das amoras, mas é possível criar uma compota diferenciada), seja porque se incorpora em marcas (e marcas são associações de ideias) outros valores mais intangiveis que a produção de bens (por exemplo, o azeite Faia Brava incorpora a ideia de que a compra de cada garrafa representa a compra de 50 metros quadrados de terreno para a conservação da biodiversidade).
O que implica ganhar competências em três matérias que as nossas escolas de agricultura e os nossos cursos de formação para agricultores de maneira geral tratam muito mal: 1) comunicação, 2) comunicação, 3) comunicação.
henrique pereira dos santos

sábado, agosto 08, 2009

Thomas e Tomás


Num comentário de Ana Paula Dias a este post (obrigado pela sua divulgação) diz-se:
"Quero eu dizer no fundo que a estrutura fundiária é, ainda, um problema que impede outros Tomás de fazerem o mesmo."
A questão da dimensão foi entretanto respondida pelo Jaime Pinto, mas mesmo que os trinta hectares fossem a área disponível inicial há outros aspectos bem mais importantes para que o Thomas faça coisas diferentes de Tomás.
Em primeiro lugar acho que há um problema de cultura.
Thomas é agricultor porque quer e tem orgulho em ser um pessoa que depende essencialmente de si próprio.
Tomás normalmente é agricultor porque não se conseguiu safar em mais nada e sente que falhou na vida.
Thomas é instruído, consulta regularmente a internet (por vezes levando o seu computador portátil para a serra quando sai com as cabras) à procura de melhorias para sua exploração (quando o visitei da última vez deu-me um artigo científico que tinha impresso sobre a contenção de cabras com um sistema mais eficiente que os pastores eléctricos que hoje usa).
Tomás normalmente tem uma formação deficiente.
Thomas é um cidadão do mundo que se relaciona com pessoas de todo o lado e usa a internet e organizações internacionais de voluntariado para disponibilizar a sua quinta aos outros.
Tomás é normalmente um cidadão da sua aldeia que às vezes vai à vila.
Thomas relaciona-se com o Estado numa posição de igualdade e conhecendo exactamente os seus direitos e obrigações de cidadão.
Tomás normalmente procura não ter complicações com o Estado para não prejudicar os apoios de que pode vir a precisar.
Thomas é um músico nas horas vagas e o engenheiro que concebe e monta o sistema de produção de electricidade que usa na sua quinta.
Tomás é muitas vezes um habilidoso do desenrascanço mas dificilmente lhe passaria pela cabeça que a electricidade pode ser produzida por si e não comprada à companhia e muito menos tem a formação para desenhar e construir o sistema.
Thomas toma as suas decisões de produção e comercialização reinventando o sistema tradicional de exploração de zonas pobres, com integração da produção agrícola e do monte, naturalmente adquirindo o gado miúdo uma posição preponderante na exploração.
Tomás está refém das modernices dos técnicos agrícolas que lhe dizem (e desenham os apoios ao mundo rural nessa perspectiva) que o modelo secular de integração campo/ monte é inviável e que o querem transformar ora num produtor de maçãs, ora num produtor de lúpulo, ora num produtor de kiwis, ora num produtor de mirtilo, de qualquer maneira um especialista e que abominam cabras e apoiam essa inovação recente em Portugal que é ser produtor florestal.
Poderia continuar mas o essencial parece-me dito: em Portugal ser agricultor (com excepção das grandes propriedades do Sul) é um acidente de percurso numa vida que nós todos consideramos falhada.
Seguramente em Portugal não é fácil ser Thomas sendo Tomás, embora seja possível. Entre outras razões porque sempre desenhámos as políticas para o mundo rural a partir de inovadores modelos académicos de exploração que pretendem liquidar o que existiu, que sempre considerámos uma atraso atávico do país, e raramente temos políticas desenhadas a partir da vontade de valorização dos modelos seculares existentes.
A novidade é que agora insistimos em fazer a vida negra ao Thomas porque ele não é Tomás e, apesar de todos as nossas certezas em contrário, ter uma vida digna numa exploração viável que contraria tudo o que as nossas escolas de agricultura nos andam a ensinar há anos.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, agosto 06, 2009

Em louvor de Thomas

Título alternativo roubado de Aquilino Ribeiro: "o melhor do país cheira a estábulo".

Thomas saindo com as cabras, vagamente visiveis no corte do caminho perto do canto superior esquerdo

Não sei se Thomas é um cidadão cumpridor, um pai de família exemplar, um homem totalmente íntegro e por aí fora. Não o conheço o suficiente.
Mas o que sei sobre ele e a sua circunstância é suficiente para fazer este post.
Thomas é um alemão que um dia, há mais de 25 anos, comprou trinta e poucos hectares de uma quinta perdida numa meia serra portuguesa, a maior parte de solo pobre e pouco produtivo e uma baixa agrícola com produtividades interessantes mas limitações importantes à mecanização .
Instalou-se e foi trabalhando, criou vários filhos a produzir com base em critérios que ele próprio escolheu: muita autonomia energética, produção biológica, criação extensiva de animais, sem rações industriais e venda local dos seus produtos (o principal dos quais, actualmente, é o queijo de cabra que vende na quinta e na feira de Góis).
Esta opção de independência e liberdade é necessariamente uma opção de trabalho duro e contínuo, de quem sobe todos os dias ao monte com as suas mais de cem cabras.
Mantém a sua preocupação de educar os filhos em escolas portuguesas, entre outras razões para garantir a sua integração e abrir-lhes as opções para o futuro, mantém a sua prática ocasional de músico amador, mantém um sistema de trabalho voluntário na quinta para quem quiser, como forma de ligação com o mundo, protesta com os eólicos que lhe puseram por perto mas reconhece que com isso ganhou uma banda larga bastante boa e um sinal de telemóvel excelente.
Ou seja, Thomas é um freak num dos sentidos originais do termo em inglês: um excêntrico, um não conformista, um homem da contracultura.
Só assim se compreende que tenha resistido tantos anos em Portugal a trabalhar e produzir no sector primário, dependendo sobretudo de si próprio, ou seja a fazer o que grande parte dos portugueses, e em especial as elites, consideram inviável.
Pois bem, Thomas está perto de desistir e voltar à sua Alemanha a que sempre se manteve ligado.
Em 2002 houve umas chuvadas e inundações na sua zona. O sistema de drenagem de uma estrada que passa a montante da linha de água que corta a sua propriedade ficou danificado e durante quatro anos Thomas insistiu com as autoridades locais (e outras) para que compusessem o que era um risco estúpido para a sua propriedade.
Em 2006 o anunciado acontece: o sistema de drenagem da estrada não resiste à chuva, forma uma primeira barragem e depois uma enxurrada que lhe corta a propriedade, levando grande parte dos muros de suporte de terras, atulhando poços, estragando alguns edifícios e equipamentos e etc..
E sobretudo causando uma enorme susto, seguido de uma não menos grande tristeza, aos que viviam na quinta.
E depois a corrosiva descrença no respeito dos poderes públicos em relação aos seus cidadãos.
Até hoje, apesar da evidente documentação sobre a responsabilidade das autoridades públicas, Thomas nunca foi ressarcido dos prejuízos e algumas das terras deixaram de produzir (uma parte porque deixou mesmo de existir como solo agrícola).
Uma das justificações mais curiosas é que o dinheiro da protecção civil já tinha sido todo gasto nos fogos, num concelho cuja psicose é limpar a serra à custa dos contribuintes. A situação não deixa de ser irónica: é que as mais de cem cabras do Thomas são o mais eficaz meio de gestão do fogo que existe nas redondezas, serviço pelo qual não recebe um tostão porque os dinheiros do mundo rural não distinguem cabras estabuladas de cabras em criação extensiva.
Mas a machadada final foi mesmo o fecho das escolas primárias na aldeia vizinha. Com os filhos mais velhos mais ou menos criados, Thomas tem agora mais duas crianças. E confronta-se com uma de duas opções: gastar todos os dias três horas a ir pô-las e buscar a Góis, ou mandá-las para a escola primária na camioneta que passa de manhã pelas seis e meia e regressa à noite por volta das oito e meia, em vez da opção anterior dos miúdos andarem vinte minutos a pé, sozinhos. Friso, para irem à escola primária.
Não é meu costume usar esta linguagem mas francamente um país que apenas deixa aos pais estas duas alternativas para levar os filhos à escola primária é um país de merda.
Não admira pois que pessoas como o Thomas acabem por deixar de conseguir viver por aqui, deixando os montes, os solos e etc., a serem geridos por sapadores florestais pagos com o dinheiro de contribuintes orgulhosos de se terem redimido de atavismos rurais.
No mesmo dia, a alguns quilómetros de distância, no mesmo concelho, a demonstração de como é usado o dinheiro do Fundo Florestal e dos contribuintes para a gestão do fogo. O adro da Igreja ficou um brinco e não arderá com certeza este ano
henrique pereira dos santos

quinta-feira, julho 30, 2009

Faia Brava

A imagem é da ATN, eventualmente do excelente fotógrafo de natureza que tem colaborado com a associação, o João Cosme, mas é enganadora porque uma das características centrais da reserva é a secura, mesmo se atravessada pelo rio Côa como aqui se vê

O projecto Faia Brava, da ATN, que é uma reserva natural privada, foi ontem notícia:

"Secretário de Estado visita projecto pioneiro de Área Protegida Privada em Figueira de Castelo Rodrigo29.07.2009Lusa (via Público/ Ecosfera)
O Secretário de Estado do Ambiente, Humberto Rosa, esteve ontem na Faia Brava (Figueira de Castelo Rodrigo), para conhecer a reserva que deu origem à primeira manifestação de interesse em classificar-se como Área Protegida Privada.
Com esta visita "passamos a ter um caso concreto com o qual dialogar, articular e ver quais as necessidades que esta nova figura - Área Protegida Privada - possa colocar", disse à Lusa Humberto Rosa na visita, que coincidiu com o Dia Nacional da Conservação da Natureza. A Associação de Transumância e Natureza (ATN), organização não governamental da área do ambiente, sediada em Figueira de Castelo Rodrigo, apresentou recentemente ao Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade (ICNB) um pedido de classificação da Faia Brava como área protegida privada, ao abrigo do Decreto-Lei n.º 142/2008, de 24 de Julho. "O classificativo em si não garante nenhum tipo de apoio financeiro, o que se trata é de um caso em que o privado e o Estado se põem de acordo sobre certas regras de gestão de uso e manutenção da natureza", explicou o secretário de Estado. "Temos vindo a buscar fontes diversas de financiar a conservação, e uma delas é o Fundo de Conservação da Natureza e Biodiversidade, que está previsto no regime jurídico da conservação, faltando-nos aprovar a portaria que regulamenta a gestão do fundo em concreto, mas que visa não dar recursos ao Estado, mas disponibilizar aos gestores activos da natureza uma forma de financiar essas actividades", acrescentou. "Esta visita veio demonstrar que não foi uma aposta vazia, porque corremos o risco de prever áreas protegidas privadas, sem ter nenhum privado com esse interesse", disse Humberto Rosa. "Queremos, por exemplo, que num Parque Natural, o privado possa ser estimulado, para além do uso do solo que faça, com um projecto adicional, financiando a gestão dos parques através de projectos privados", explicou. Segundo o secretário de Estado, o regulamento que suporta o decreto-lei das áreas protegidas privadas deverá ser concluído ainda nesta legislatura."

Fico muito satisfeito de que a ATN tenha conseguido chegar até aqui e haja áreas protegidas privadas, concretas, a aparecer. Se têm êxito ou não, será um assunto a ver mais tarde mas os quase seiscentos hectares adquiridos já para a conservação são seguramente uma boa base.

henrique pereira dos santos

Declaração de interesses: colaboro profissionalmente com a Associação Transumância e Natureza desde há alguns meses, embora todo o trabalho que foi feito até chegar ao ponto a que se refere a notícia não tenha a minha participação, pelo que nenhum mérito tenho no assunto. A motivação para o post não tem nada com esta actividade profissional mas com mais um exemplo, depois das áreas protegidas locais, das virtudes do novo regime jurídico da conservação, em que trabalhei quando estava no ICNB

quinta-feira, junho 18, 2009

O sector desimportador

"quem quer figos/ quem quer almoçar"

Com frequência vejo análises económicas que, olhando para os desiquilíbrios estruturais da nossa economia, concluem que só há possibilidade de não continuarmos a empobrecer alegremente: exportar mais para ter dinheiro para pagar o que importamos, já que temos um coeficiente de cobertura das importações pelas exportações a rondar os 65%.

Este tipo de análises tem levado a muitos programas de estímulo às exportações, incluindo apoios directos (hoje mais raros que noutras alturas), promoção do país e dos produtos do país fora de Portugal, contratos de investimento muito favoráveis e muitos outras medidas.

Não percebendo eu nada de economia o que para mim é mais estranho é ver o corropio de atenções dadas à anteriormente chamada maior exportadora nacional, Qimonda.

Tanto quanto percebi, o título de maior exportadora nacional, e o consequente desvelo de Governo e economistas para com a empresa, que se traduz em good will e apoios directos, é obtido apenas por uma das colunas do balanço e não pelo saldo, isto é, dado o funcionamento da empresa, a Qimonda deveria também ser uma das grandes importadoras nacionais. O que nunca consegui ver escrito era o saldo global exportações/ importações.

É curioso, mas não tenho ideia de ver nenhuma lista das maiores importadoras nacionais, como se as exportações fossem mérito de empresas concretas que merecem apoio e reconhecimento social mas as importações fossem abstracções estatísticas em sectores cuja responsabilidade já não é de empresas em concreto.

Tanto quanto percebo do que vou lendo importamos sobretudo energia, máquinas e aparelhos, carros e afins e produtos alimentares.

Assim sendo parecer-me-ia normal que os sectores "desimportadores" fossem tratados exactamente com o carinho e atenção dos sectores exportadores e as "empresas desimportadoras", como as empresas exportadoras.

Sendo a energia uma das nossas principais importações, a eficiência energética em primeiro lugar, a produção endógena em segundo, deveriam ser tratados nas palminhas. Se em relação à produção endógena ainda vamos tratando mais ou menos o sector (embora seja para mim incompreensível que muitas decisões sobre energia sejam tomadas pelos gestores do sistema energético como se fossem questões meramente técnicas de gestão da rede ou da produção e não questões de alta política da qual depende a nossa independência), a verdade é que a eficiência energética, um dos nossos sectores desimportadores com maior potencial, é tratado como um berloque chique que é preciso ter ("noblesse oblige") em vez de ser tratado pelo menos como a Qimonda, com visitas de ministros, começando pelo primeiro, reuniões com a AICEP, apoios, créditos e etc., como que mimamos as empresas exportadoras, muitas vezes mal porque o Estado se entretém a gastar os recursos para criar ou manter artificialmente ineficiência.

Um nota ao lado para chamar a atenção de uma observação frequente de João César das Neves: o uso dos recursos públicos é eticamente mais exigente porque se trata também do uso do dinheiro dos pobres.

Mas onde este esquecimento dos sectores desimportadores mais me faz confusão é na produção de alimentos.

Portugal tem naturalmente fragilidades grandes para a produção de alimentos e, dentro destes, de cereais. Isso é certo.
Mas isto não significa que tenhamos de aceitar a fatalidade da importação alimentar, sem olhar com a devida atenção para o seu potencial desimportador.

Suspeito que se fizermos um inquérito aos refeitórios das escolas do país (ou aos quartéis, ou aos hospitais, ou às fábricas) rapidamente chegaremos à conclusão de que se consome demasiada carne nestas refeições e que dentro dessa demasiada carne, a esmagadora maioria será de vaca ou porco. Concomitantemente veremos, em relação ao que era tradicional, uma desvalorização do feijão, do grão, das favas, das ervilhas, dos cozidos, caldeiradas e ensopados onde a carne desempenha uma papel complementar.

Em Portugal, importador crónico de cereais, isto é um absurdo, porque a carne de vaca e porco que produzimos é maioritariamente suportada em rações que, mesmo que produzidas em Portugal, o são com cereais importados, com uma eficiência alimentar reduzida (e um efeito cultural importante que depois se refecte na alimentação em casa e no que se pede nos restaurantes).
Pelo contrário, o borrego e o cabrito criam-se nas pastagens pobres de que temos abundância (o porco também mas não é o que é produzido assim que normalmente aparece nos refeitórios). Sim, é certo que o rendimento do trabalho nestas produções pode ser razoavelmente mais baixo que noutras produções, mas a questão está mais uma vez no efeito disto: para pagarmos os bifes temos de exportar mais, não importa como, e portanto desatamos a gastar recursos (muito provavelmente com alguma ineficiência) a apoiar os sectores exportadores.

Eu não sou economista, mas suspeito, intuo, que o saldo global seria bem melhor se olhássemos para os sectores desimportadores com atenção em vez de considerarmos a produtividade primária (com excepção das florestas que conseguimos associar a umas fábricas) como coisa de economias atrasadas.

Mas também suspeito que faço parte duma minoria conotada com o lado errado da história e da economia porque vejo sistematicamente a desvalorização do solo agrícola como recurso que é preciso defender das falhas de mercado que o tornam tão frágil no actual mercado.

henrique pereira dos santos

quarta-feira, junho 10, 2009

Rigor e sustentabilidade

Se um dia destes alguém vos disser que é bom para o mundo que deixem totalmente de comer carne porque os animais não nos pertencem e outras razões filosóficas, pois discutam e façam as vossas opções em sossego.
Se vos disserem que é melhor reduzir o consumo de carne e peixe por razões ambientais, pois acreditem ou verifiquem os dados e a sustentabilidade por certo agradecerá.
Mas se vos disserem que deixem totalmente de comer carne porque a sua produção pode sempre ser substituída pela produção de alimentos vegetais que dariam de comer a mais dez pessoas e que os gastos em água e energia são brutalmente elevados, limitem-se a mostrar-lhes fotografias como esta e peçam para vos explicar que alimentos se produziriam nestas condições mais eficientemente que a carne.
Do ponto de vista ambiental não há alimentos bons e maus, há diferentes formas de produção de qualquer alimento que podem ser sustentáveis ou insustentáveis.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, maio 25, 2009

Negócios e biodiversidade


"Prémio “Sustentabilidade do Sobreiro e da Biodiversidade Associada” – Entrevista com Paulo Bessa da Corticeira Amorim
Entrevistámos Paulo Bessa*, responsável pela Sustentabilidade Corporativa da Corticeira Amorim, sobre um prémio que pretende distinguir explorações que implementem práticas de gestão exemplares de áreas de sobreiro e da sua biodiversidade.
Financiado pela Corticeira Amorim, o Prémio “Sustentabilidade do Sobreiro e da Biodiversidade Associada” resulta de um acordo estabelecido entre esta entidade, o Instituto de Conservação da Natureza e da Biodiversidade (ICNB), a Autoridade Florestal Nacional, a associação Quercus e o WWF-World Wide Fund for Nature, destinando-se a premiar explorações que implementem medidas de gestão de áreas de sobreiro consideradas exemplares e que favoreçam a sua diversidade biológica. Numa altura em que as candidaturas a este Prémio se encontram abertas (as candidaturas podem ser submetidas até ao final de Junho de 2009), procurámos saber junto de Paulo Bessa*, responsável pela Sustentabilidade Corporativa da Corticeira Amorim, quais são os objectivos desta iniciativa e de que forma poderá contribuir para a conservação dos montados de sobro e da sua biodiversidade."


Porque o que é feito merece ser visto e escrutinado, aqui fica esta nota, que é exemplificativa do que significa em concreto a iniciativa Business and Biodiversity.
O encontro anual da iniciativa será neste dia 28, na Ordem dos Engenheiros, que na altura adere à iniciativa .
Durante o encontro serão apresentados os resultados de uma avaliação totalmente autónoma feita por uma equipa universitária que se interessou pelo assunto.

Fico então à espera dos comentários dos adversários da lógica de aproximação entre os negócios e a biodiversidade a explicar por que razão de princípio se deve ser contra o que aqui se relata.

henrique pereira dos santos

quinta-feira, maio 21, 2009

Quinta feira da espiga


Há anos que tenho esta cisma com a quinta feira da espiga: metade do país rural sai para o campo para celebrar a renovação permanente da vida e o movimento conservacionista assobia para o ar.
A quantidade de países onde hoje é feriado (como já foi em Portugal, depois trocado por outro feriado religioso mais próximo de uma lógica nacionalista, quando foi feita a concordata, se não me engano), a quantidade de municípios em Portugal onde hoje é feriado e nós, conservacionistas urbanos, a olhar para o dia de amanhã, dia internacional da Biodiversidade, que não diz nada a ninguém.
Eu acho isto uma demonstração de como o movimento conservacionista em Portugal é um movimento urbano, mais de computador e jornal que de pó nos sapatos.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, maio 15, 2009

Economias do absurdo

Quando os miúdos eram mais pequenos uma das minhas funções principais era ser motorista de meninos.
Com eles mais crescidos essa função quase desapareceu, mas de vez em quando ressurge.
Foi o caso um dia destes, e já que estava fora dos circuitos habituais, aproveitei para um dos meus programas turísticos preferidos em qualquer parte do mundo: ir ao mercado ver em que param as modas.
É curioso como os mercados e as feiras eram importantes, sendo fortemente regulamentados, pelo menos desde o império romano.
O que hoje se encontra nos nossos mercados municipais é confrangedor, com excepção de uma ou outra banca (como confrangedor é a limitação do mundo em que nos fechamos: espicaçado pelo balde de favas secas do senhor a quem comprei as ervilhas, óptimas, fui perceber, quando cheguei a casa, como se cozinhavam, para comprar da próxima vez que as encontrasse, o que hoje é raro. E só nessa altura descobri o que era a mulher da fava rica. Realmente é assombrosa a ignorância que carregamos sem dar por isso).
Compreende-se que há anos atrás os mercados municipais tivessem uma função essencialmente abastecedora, orientada para o acesso dos consumidores locais a produtos que tanto podiam ser locais como do outro lado do mundo.
Com a distribuição a pôr vários supermercados eficientes a cumprir essa função, apoiados em centrais de compras que esmagam, a favor do consumidor, a capacidade negocial dos pequenos produtores, que justificação existe para o que hoje são os mercados municipais, com espaços que são autênticas mercearias, com bancas de frutas e legumes a vender produtos das mais longínquas proveniências e abastecidos, muitas vezes, sem qualquer ligação aos produtores locais?
Os mercados são pagos com dinheiros dos contribuintes e, na sua maioria, não acredito que não sejam deficitários, apesar das taxas pagas pelos vendedores.
Ao mesmo tempo que em relação aos mercados se percebe mal a sua função actual (o que têm eles de diferente do supermercado ou da mercearia da esquina?), fazendo com que mercados no centro de Lisboa, em zonas de elevado poder de compra, como o do Rato, agonizem anos a fio por falta de razão que leve os consumidores a frequentá-los, os matadouros e os pequenos produtores de queijos, chouriços e etc., são fechados ou fortemente condicionados. A política higienista dominante em Portugal, sem qualquer ponderação de sustentabilidade ambiental e de racionalidade na proporção entre a regra (com frequência excessiva) e o bem que se pretende proteger (a saúde pública que ganharia com produtos de época e menos processamento industrial dos alimentos) é um entrave poderoso para os pequenos produtores e um instrumento de normalização no abastecimento do consumo.
Pergunto-me se os municípios não poderiam introduzir algumas condições na concessão de bancas nos mercados municipais que ajudassem a dar sustentabilidade ao país, a viabilizar a produção agrícola e artesanal dos seus concelhos, a aumentar o interesse turísitico dos mercados introduzindo-lhes diferenciação, aumentar o número de consumidores de produtos locais e ainda contribuir para uma linha de política económica que me parece tão importante como a do apoio às exportações: o apoio à substituição de importações, nomeadamente de alimentos.
Será assim tão complicado impôr aos concessionários das bancas que 5, 10, 20, 50% (tanto me faz numa primeira fase) dos produtos vendidos tenham origem num raio de 50kms (também tanto me faz se são 25 ou 75 kms) em volta do mercado? Com certeza não se pode impôr isso às bancas de peixe do mercado em Bragança, mas já são minudências de gestão.
A ideia central é a de que talvez faça sentido usar os mercados municipais para a intervenção não regulamentar, ou melhor, por regulamentação indirecta, na revitalização de economias locais e consumos mais sustentáveis.
Francamente custa-me ver em toda a Lisboa isto
para depois encontrar na mercearia mais próxima nêsperas espanholas, caríssimas, porque não há portuguesas.
Parece-me uma economia de absurdos que tem muito mais relações com o nosso empobrecimento colectivo do que parece à primeira vista.
Eu sei que as nossas tristes elites acham (apesar da lucidez de Aquilino, dizendo que o melhor do país cheira a estábulo) que o futuro radioso de Portugal é somente feito de grandes avenidas rasgadas em direcção ao mundo (sejam elas aeroportos, portos, linhas de caminho de ferro, Qimondas, IKEAs, Alquevas e resorts turísticos maravilhosos) e tudo o que seja falar sobre produzir batatas é reduzido imediatamente a um discurso passadista sobre o miserável país rural de antanho.
Mas a verdade é que por mais "carré de cordeiro com ratatouille" que seja o almoço, o cordeiro continua a nascer em campos que se estendem com verdura bela, vindo de "Ovelhas, que nela Vosso pasto tendes, De ervas vos mantendes" e o gratinado de batata continua a ser feito de batatas que podem muito bem ser estrumadas com a porcaria que faz a dita ovelha.
henrique pereira dos santos
PS E entretanto, no meio da ruína económica e social do nosso mundo rural, há uns quantos intelectuais que acham que o problema verdadeiramente importante é o dos seis terroríficos toiros, sendo menor o problema da sustentabilidade da economia de onde provêem os seis terroríficos toiros que abrilhantam a feira do melão

quinta-feira, abril 30, 2009

Evolução do número de sapadores



Estava eu posto em sossego, trabalhando num projecto que se localiza naquela Beira quase duriense, quase transmontana, de terra quente de azeite, amêndoas, vinho, cereal e ovelhas quando dou por mim a olhar para a evolução do efectivo pecuário de três freguesias.
E a lembrar-me que à medida que aumentamos os custos com sapadores para gerir combustível, deixamos que os sapadores que verdadeiramente gerem o combustível e que ainda nos pagam, em vez de receber, desapareçam.
Bem podemos multiplicar as equipas de sapadores, cuja função é gerir combustível destruindo valor, que não consigo acreditar que uma equipa, ou duas, ou três, por cada um dos concelhos destas freguesias, ou mesmo por cada freguesia (para o que naturalmente não há recursos) consigam substituir os mais de mil animais que todos os dias sem excepção, para além de gerir combustível, ainda o faziam criando valor nestas três freguesias.
Há quem ache que os dinheiros para o mundo rural são subsídios inaceitáveis. E muitos vezes são.
Mas também há muitos casos em que poderiam simplesmente uma forma de usar os recursos públicos para obter, de forma eficiente, serviços que o mercado remunera deficientemente.
E que hoje pagamos, ineficientemente, com língua de palmo.
henrique pereira dos santos

domingo, abril 05, 2009

ainda fogos

Apenas para dar conta do erro do meu post anterior sobre fogos onde previa uma diminuição do número de fogos após o fim do longo episódio de vento Leste. Na verdade vieram dois dias de ventos muito fortes que deram muito que fazer (os fogos são tanto mais complicados de apagar quanto o risco encarnado sobe mais na cixa preta do gráfico).
Mas depois lá veio a estabilização, apesar do longo período sem chuva.
A previsão para a semana que vem fala em chuva, aguaceiros, neve. Voltará tudo, nesta matéria, à plácida e constante fuga de gás: o conbustível vai-se acumulando todos os dias em mais de 70% do território à espera do dia favorável em que qualquer pequeno incidente inicia um fogo brutal.
No entretanto os dinheiros públicos para o mundo rural vão sendo canalizados para as fileiras competitivas (considerando competitivo o regadio que depende de preços políticos para a água, claro), distorcendo o mercado, em vez de servirem para remunerar os serviços ambientais que o mercado não paga, nos quais se inclui a gestão inteligente de combustíveis.

henrique pereira dos santos
PS Há alguma coisa de esquizofrénico em assentar a gestão dos dinheiros públicos para o mundo rural nas fileiras competitivas das nossa agricultura e, ao mesmo tempo, liquidar os meios de defesa dos seus principais factores de produção: hoje foi a reserva agrícola, amanhã será o sobreiro

terça-feira, março 24, 2009

Incêndios e áreas protegidas (ou razão e emoção II)

Os fogos no dia 21 de Março. Repare-se na direcção das plumas e, já agora, na dimensão destas fogueirinhas de Primavera (cortesia do Paulo Fernandes que me mandou a imagem)

Pedro Vieira tem uma série de posts sobre fogos e áreas protegidas aqui em que refere criticamente o facto das áreas protegidas arderem estatisticamente mais que o resto do território.
José Manuel Fernandes pergunta no editorial do Público de hoje "Custa a perceber como a serra do Gerês voltou a arder com tanta facilidade quando ainda estamos em Março. ... Perderam-se árvores centenárias e muito raras, apesar de as chamas não terem atingido o coração da zona mais preciosa ... exige-se um inquérito à forma como está a ser gerida aquela área protegida...".
O facto de arder estatisticamente mais nas áreas protegidas é normal e razoável, sobretudo neste caso em que os fogos estão quase todos concentrados a Norte do Douro, por uma razão: o que faz estas áreas serem protegidas é o que faz estas áreas arderem.
Como o Pedro Vieira demonstra no seu livro sobre os incêndios, há mais fogos nas áreas com mais gente (porque há mais factores de ignição) mas há mais área ardida onde há menos gente (porque há mais factores de acumulação de combustível).
É por isso normal e razoável que arda mais nas áreas protegidas.
Discussão diferente, e bem mais interessante, é se, dentro das áreas protegidas, arde o que devia arder e não arde o que não devia arder, mas essa discussão fica para outra altura.
Já o que diz José Manuel Fernandes, que além de ter mais informação que o comum dos cidadãos é biólogo de formação, me causa mais estranheza pela sua distorcidíssima noção da realidade.
Eu bem sei que desde a última alteração gráfica do Público o boletim meteorológico que lá se publica é uma porcaria. Uns bonecos que reproduzem os bonecos do Instituto de Meteorologia mas sem toda a outra informação que é proporcionada pelo IM, nem sequer a previsão descritiva.
Se José Manuel Fernandes tivesse perdido um bocadinho mais de tempo a olhar para a meteorologia não dizia que não se compreende porque arde, se estamos em Março. Teria visto com certeza humidades por volta dos 20%, mesmo às cinco da manhã pouco maiores. Teria visto velocidades do vento por volta do 20Kms/ hora (as rajadas teria de as ler descritas noutros lados, claro). Teria percebido que com dez dias de vento Leste (um interregno de dois dias que soube a pouco, para este efeito) o que arde é normal, seja em que época do ano for (já houve episódios destes em Dezembro, lembra o Paulo Fernandes o Outono de 2007, penso que em Novembro, com resultados semelhantes, tendo o Paulo o cuidado de sublinhar as diferenças, como sejam um longo período sem precipitação prévia ao episódio do Outono de 2007 em contraponto com as baixíssimas humidades atmosféricas deste episódio).
O que não é normal é ter helicópteros pesados a despejar água nestes fogos. O que não é normal é tentar apagar estes fogos sem razões sérias para isso (pessoas, casas, infra-estruturas ou valores naturais sensíveis ao fogo, por exemplo). O que não é normal é o circo, incluindo mediático, à roda do assunto, com referências a árvores centenárias e muito raras, que gostaria muito de confirmar se arderam e onde (aquelas encostas sempre arderam, com ciclos de fogo muito mais curtos e estão a recuperar exactamente porque o ciclo do fogo se alargou, dando origem a fogos mais violentos mas mais espaçados).
O que está a arder é o melhor que conseguimos fazer para evitar tragédias no Verão uma vez que nos demitimos de gerir devidamente o combustível que produzimos, criando emprego no mundo rural e garantindo um Portugal mais equilibrado económica e socialmente falando.
Se este episódio meteorológico estivesse a ocorrer em Agosto posso garantir que estaríamos perante uma verdadeira tragédia (não tanto do ponto de vista de conservação mas sobretudo do ponto de vista social e da afectação dos dinheiros públicos).
Há tantas razões sérias para fazer auditorias e inquéritos à gestão das áreas protegidas, por que razão escolher uma que é marginal para à gestão?
Querem fazer auditorias e inquéritos a propósito dos fogos?
Então que façam onde devem: aos dinheiros das políticas do mundo rural.
Perguntem ao Ministério da Agricultura por que razão o PRODER afunda 11% do seu orçamento em Alqueva e deixa no mato sem cão os pastores e o mundo rural das serras e das áreas marginais de produção. Perguntem porque apoia mais a produção intensiva de azeite que a produção de biodiversidade. Perguntem por que razão impuseram as alterações que impuseram ao Plano Sectorial da Rede Natura, incluindo o desaparecimento de todas as referências ao seu financiamento, que já eram o mínimo dos mínimos: a transcrição do que está nos regulamentos comunitários.
Não gostam de fogos, de todos os fogos? Eu não estou de acordo, mas se não gostam e querem arranjar responsáveis para a sua existência (para além de S. Pedro) então por favor dirijam-se ao Ministério da Agricultura, às políticas para o mundo rural e deixem em paz quem trabalha com as migalhas que sobram e ainda tem de explicar todos os dias, aos seus próprios dirigentes, que as migalhas para a biodiversidade não são dinheiro deitado fora.
henrique pereira dos santos
Adenda:
Aqui vai o gráfico actualizado. Os sinais hoje são pouco encorajadores: diminuição da humidade atmosférica outra vez, aumento do vento, concentração dos fogos nas serras do Norte, o que quer dizer inevitavelmente áreas protegidas (neste caso sobretudo gerês e um pouco de outras)