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segunda-feira, janeiro 04, 2010

Exemplar


Via O Insurgente, no qual estou proibido de fazer comentários, cheguei ao A Artede da Fuga, onde fiz alguns comentários.
Escolhi uma das mil possibilidades de análise de um link que Range o Dente, pavlovianamente, também já colocou nos comentários da Ambio.
O link em análise é este.
Deliberadamente a minha escolha é sobre uma questão lateral.
Mas para quem quiser olhar para uma questão de fundo (a questão das reconstruções climáticas a partir dos anéis de crescimento das árvores a que está associada a famosa frase "hide the decline"), pode comparar a argumentação pueril de John Costella para invalidar o uso dos anéis de crescimento no link em causa, quando comenta um email de 22 de Setembro de 1999 (estão por ordem cronológica), com o que é dito neste link (incluindo os comentários dos leitores e discussão subsequente).
Escolhi para demonstrar a forma como é feita esta análise os comentários a um mail de 22 de Novembro de 1996.
John Costella diz "Again, selling the public message—before the actual end of the calendar year—is of primary importance for these senior scientists. Jenkins goes on to explain how this “invented” data should be leaked". Para o demonstrar, cita: "We feed this selectively to Nick Nuttall (of the United Nations Environment Program) (who has had this in the past and seems now to expect special treatment) so that he can write an article for the silly season. We could also give this to Neville Nicholls (climate scientist at the Bureau of Meteorology Research Centre in Melbourne, Australia)?". Salto algumas coisas para citar a parte final da análise feita por John Costella: "In other words, Jenkins was more interested in getting “headline” numbers out to the general public, than in ensuring an impartial release of information to all members of the press at the same time.
If repeated in 2009, Jenkins’ actions could have rendered him liable to criminal prosecution for insider trading. However, given that we are here talking about 1996—before so many billions of dollars of decisions and market movements watched the unfolding climate change debate—we can put his actions down to mere expedience and naivete."
Penso que pouca gente fará o que eu fiz. Fui ler o mail original: http://assassinationscience.com/climategate/1/FOIA/mail/0848679780.txt
O que qualquer pessoa normal pode ler neste mail é a preocupação normal e legítima de Geoff Jenkins, head of climate change prediction at the Handley Centre for Climate Prediction and Research, part of the United Kingdom’s Meteorological Office (national weather service), no sentido de ter uma resposta à pressão dos média que, no fim do ano, querem ter balanços do ano anterior, mesmo que os dados ainda não estejam totalmente disponiveis (provavelmente ele chama a esse período de fim de ano, que acabámos de passar e no qual acabamos de ver todos os balanços na mesma altura, silly season).
E o que o mail faz é propor um método perfeitamente normal:
"1. By 20 Dec we will have land and sea data up to Nov 2. David (?) computes the December land anomaly based on 500hPa heights up to 20 Dec. 3. We assume that Dec SST anomaly is the same as Nov 4. We can therefore give a good estimate of 1996 global temps by 20 Dec 5. We feed this selectively to Nick Nuttall (who has had this in the past and seems now to expect special treatment) so that he can write an article for the silly season. We could also give this to Neville Nicholls?? 6. We explain that data is provisional and how the data has been created so early (ie the estimate for Dec) and also 7. We explain why the globe is 0.23k (or whatever the final figure is) cooler than 95 (NAO reversal, slight La Nina). Also that global annual avg is only accuirate to a few hundredths of a degree (we said this last year - can we be more exact, eg PS/MS 0.05K or is this to big??) 8. FROM NOW ON WE ANSWER NO MORE ENQUIRIES ABOUT 1996 GLOBAL TEMPS BUT EXPLAIN THAT IT WILL BE RELEASED IN JANUARY. 9. We relesae the final estimate on 20 Jan, with a joint UEA/MetO press release. It may not evoke any interest by then. 10. For questions after the release to Nuttall, (I late Dec, early Jan) we give the same answer as we gave him. Are you happy with this, or can you suggest something better (ie simpler)? I know it sound a bit cloak-and-dagger but its just meant to save time in the long run."
Pode questionar-se o tratamento dado a um jornalista (ou dois) em especial, pese embora a afirmação de que a qualquer outro pedido se enviará a mesma resposta que ao primeiro, mas de resto o procedimento para lidar com a pressão mediática é irreprensível: usar todos os dados possíveis de coligir em tempo útil, estimar o resultado para os poucos dias em que não será possível ter dados em tempo útil, vincar que se trata de uma estimativa explicando como foi obtida e remeter para os dados finais logo que possível.
Pois perante isto o Sr. John Costella consegue retirar três excertos do mail, embrulhá-los em interpretações completamente abusivas, e tirar conclusões de que os cientistas envolvidos "inventam" dados (com medo dos tribunais o Sr. John Costella tem o cuidado de pôr aspas nesta palavra crucial da sua análise)", e estão é preocupados em fazer cabeçalhos nas notícias, mesmo antes do fim do ano, o que evidentemente passou despercebido aos bloggers que o citam como fazendo uma excelente análise.
O que isto tem de miserável não é apanágio deste mail, fiz a experiência em vários outros e escolhi, deliberadamente, uma questão lateral para ilustrar a forma como o assunto tem vindo a ser tratado.
Que um físico teórico envolvido nas teorias da conspiração sobre o assassinato de Kenedy se entretenha a fazer isto, eu percebo, a fama é sempre boa para quem gosta do género.
Que pessoas inteligentes, de blogs supostamente racionalistas lhe façam vénias e classifiquem como excelente a sua análise do assunto é para mim um mistério.
henrique pereira dos santos

sábado, dezembro 19, 2009

Mitos Climáticos


Chamaram-me a atenção para uma interpelação que me teria sido feita aqui, no blog Mitos Climáticos.
Directo ao assunto, o que me é pedido tem pelo menos uma resposta aqui (é possível que procurando mais tempo encontrasse mais referências mas não vale a pena).
Quanto ao resto, confesso que tenho pouca paciência para o proselitismo e portanto raramente vou ao Mitos Climáticos, entre outras razões porque pior que o proselitismo em si mesmo é o proselitismo que foge do confronto de opinões e não admite contraditório como acontce no Mitos Climáticos (esta frase é uma boa ilustração: "Quanto ao facto de o MC não admitir comentários, trata-se de uma opção que, de forma alguma, pode ser criticada.").
Há no entanto um aspecto concreto em que Rui Moura tem razão: "Finalmente, a asserção de HPS de que “Usá-lo [a Rui Moura, autor do MC] como referência no debate não eleva o debate” constitui uma afirmação de mau gosto". É verdade, e devo desculpas por esta frase a Rui Moura.
Um comentário ao enorme enquadramento para tão pequena interpelação:
Rui Moura trunca o enquadramento da minha referência ao peer review para me acusar de obsessão com o peer review, como se fosse proibido ter opinião, acrescenta Rui Moura por outras palavras. Para quem ler o contexto, rapidamente percebe que se tratava de uma resposta a quem tinha usado Rui Moura como climatologista e caução científica. Ora uma opinão pode estar certa ou errada mas para ser ciência tem de seguir determinados critérios. Daí a minha referência. Seria aliás ridículo que eu, que nunca publiquei nada com peer review, tivesse alguma obsessão e usasse esse tipo de argumentos para desvalorizar a opinião, enquanto opinião. Evidentemente ninguém usa a minha opinião como caução científica e fazem muito bem. Onde fazem mal é achar que o que escreve Rui Moura no Mitos Climáticos é ciência. Não que seja melhor ou pior que a ciência, não que seja mais certo ou errado que a ciência, mas não é ciência.
henrique pereira dos santos

Climate Denial Crock of the Week - II

Climate Denial Crock of the Week - I

Um interessante exercício de desmistificação combinado com humor.

sábado, dezembro 12, 2009

Sobre a impossibilidade de validar modelos em ciências ambientais

Todos os anos, após um episódio frio ou chuvoso, ouvem-se vozes irónicas sobre a teoria do aquecimento global e suas causas. Não costumo prestar atenção a estes comentários mas esta semana o argumento assumiu proporções diferentes. Em parte, porque foi o Prof. Delgado Domingos que aparentou proferir tal raciocínio e de outra parte porque o exemplo não se resumia a um particular episódio meteorológico mas sim a um registo climático de uma década:

Aliás, apesar de as emissões de CO2eq terem aumentado acima do cenário mais pessimista do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) da ONU, desde 1998 que a temperatura global não aumenta.”

Na sequência da resposta do Prof. Delgado Domingos tornou-se claro que a frase teria sido proferida em  resposta ao discurso simplista de lado oposto (i.e., que um ano de calor valida a teoria do aquecimento global) mas é provável que alguns leitores tenham interpretado a frase como eu a interpretei, de forma incauta, quando a li: se as emissões de CO2eq continuam a aumentar e se os modelos existentes determinam que o aquecimento global se deve ao aumento de concentração de CO2eq, então a estabilidade climática da ultima década invalida os modelos existentes.

Ora, quando o debate sobre o futuro do clima do planeta chega a este ponto (e lendo alguns comentários a posts deste blogue vê-se que chega) vale a pena tecer algumas “doutas mas triviais considerações” (de carácter epistomológico). Para que nos entendamos, eu partilho da opinião Naomi Oreskes, Kristin Shrader-Frechette e Kenneth Belitz de que a completa validação de modelos em ciências ambientais não é possível. E porquê? Porque estes são sistemas abertos e como tal nenhum modelo representa a totalidade dos factores que afectam o sistema. Em teoria, apenas os modelos representando sistemas fechados, p.e., os que derivam de estruturas lógicas puramente formais (p.e., e matemática) podem ser formalmente validados. Abaixo segue um resumo da posição das autoras, num artigo da Science de 1994, com o qual concordo na íntegra:

Verification and validation of numerical models of natural systems is impossible. This is because natural systems are never closed and because model results are always nonunique. Models can be confirmed by the demonstration of agreement between observation and prediction, but confirmation is inherently partial. Complete confirmation is logically precluded by the fallacy of affirming the consequent and by incomplete access to natural phenomena. Models can only be evaluated in relative terms, and their predictive value is always open to question. The primary value of models is heuristic.”

Para que se entenda melhor o argumento imagine-se o seguinte exemplo (adaptado do referido artigo):

Eu afirmo que “se chover amanhã, ficarei em casa a preparar um artigo para o blogue”. Amanhã chove mas o leitor verificará que o artigo prometido não é publicado no blogue. A conclusão imediata é que a minha afirmação original era falsa. Acontece que, de facto, era minha intenção escrever o dito artigo para o blogue. Portanto a proposição era verdadeira. Mais tarde o leitor verificará que não escrevi o dito artigo porque morreu um familiar e tive de me ausentar para dar assistência à família. O leitor verificará que a minha proposição não era falsa mas incompleta. Ou seja, não tinha considerado a totalidade dos factores que podem afectar a minha disponibilidade para escrever artigos no blogue. Do mesmo modo, a conclusão que a minha proposição era falsa estava conceptualmente errada porque o sistema não era fechado.

Que isto dizer que os modelos representando sistemas abertos são inúteis? Ou que é impossível confirmar de algum modo a sua capacidade preditiva? A resposta é claramente, não. Imagine-se que a proposição acima referida é repetida 1000 vezes. É bem possível que o leitor seja gorado algumas vezes já que imponderáveis de vária ordem podem afastar-me do computador, impedindo-me de escrever artigos para o blogue em dias de chuva. Porém, se a chuva for uma variável importante para determinar a minha decisão de escrever artigos, é de esperar que a probabilidade de os escrever para o blogue aumente em dias chuvosos. Portando, repetindo a proposição 1000 vezes, obtém-se uma curva de probabilidades que indica um aumento de artigos publicados no blogue em dias chuvosos existindo, porém, casos em que dias de chuva não coincidem com a publicação de artigos.

A analogia é aplicável ao caso climático (ou qualquer caso em que se estabelecem modelos em sistemas abertos). Um século de concordância entre o aumento de CO2eq e aquecimento global não é invalidado por uma década de estabilidade pois a previsão de que existe uma relação entre uma variável e outra não exclui a possibilidade de que outros factores compliquem as dinâmicas climáticas.

A questão pode e deve também ser colocada de forma inversa: pode a proposta de um mecanismo, afectando um sistema aberto, ser validada por simples coincidência entre observação a previsão? A resposta é não, pois existe a possibilidade de que os mecanismos propostos sejam indirectos e estejam correlacionados com outros mecanismos directos não incluídos no modelo (“correlation does not imply causation”). Não obstante, as teorias ganham "pedigree" quando as previsões são confirmadas repetidas vezes e recorrendo a fontes de evidência independentes. Por exemplo, a selecção natural (sexual) interpretada como mecanismo de evolução das espécies foi documentada em milhares de ocasiões, recorrendo a uma panóplia de organismos, em níveis hierárquicos múltiplos, de modo que hoje existe um “body of evidence” suficientemente vasto para que seja razoável aceitar a robustez do poder preditivo desta teoria.

A teoria do aquecimento global contemporâneo é obviamente mais jovem e o sistema é mais complexo (no sentido de que nenhum mecanismo, considerado de forma isolada, tem poder preditivo). Por isso, se estivermos genuinamente interessados em entender os fenómenos em causa, é importante prestar atenção às múltiplas fontes de evidência e não só a uma em concreto. A discussão sobre métodos, eventuais erros e imprecisões em estudos concretos é fundamental mas a discussão pública sobre este tema não deve perder de vista a vastidão das evidências, a independência de muitas das suas fontes, e a congruência, apesar das incertezas e variabilidade, das observações com as previsões.

Se chover, darei em breve continuidade a este texto escrevendo sobre aspectos mais técnicos associados ao debate do “stick de hockey”

sexta-feira, dezembro 11, 2009

Escândalo Climático ou Escândalo Ecológico?

Como é que um simples cidadão, bastante ignorante em ciência de alta precisão que inclui modelos computacionais e estatísticos sofisticadíssimos sobre os quais os maiores peritos podem ter posições divergentes e até antagónicas, se há-de entender na batalha pública ardente sobre estes temas?
Afinal parece ser possível demonstrar «cientificamente» tudo e o seu contrário. Os cientistas, ou alguns deles, dirão que as posições adversas são «má ciência», mesmo que feita por cientistas e por instituições científicas. Como é que o pobre homem da rua há-de, ele, saber que lado da balança escolher?
Bicudo.
Quando nos colocamos num fio condutor histórico (de história contemporânea, entenda-se), talvez seja um pouco menos difícil.
O movimento ecológico moderno que remonta aos anos 1960 (e que veio muitas vezes a mostrar grandes zonas de contiguidade com o movimento ecológico anterior, de tipo mais conservacionista, que vinha de Muir a Leopold) afirmou-se na crítica das disfunções (que incluíam as poluições) introduzidas no ambiente natural e humano com a revolução industrial (ainda que se possam encontrar antecedentes históricos em épocas recuadas e até muito recuadas, ninguém seriamente negará que a escala e gravidade, com que esses fenómenos se tornaram evidentes no início da segunda metade do século XX, não têm medida comum com o passado).
Um dos fenómenos que então mais prendeu a atenção quer do público quer dos cientistas quer dos técnicos (e que não foi ainda inteiramente dominado, para usar um eufemismo) foi a poluição atmosférica, desde logo associada ao uso maciço da energia e à forma como esta era obtida: lenha, carvão e petróleo. Daí que os aspetos médicos e sanitários da poluição atmosférica desde logo evidenciassem vulnerabilidades no coração energético das sociedades modernas. Nessa fase inicial, as poluições eram uma das faces da moeda, sendo a outra o uso da energia, com aspetos peculiares como a questão dos limites quantitativos disponíveis. «Os limites do crescimento» descobertos no início dos anos 1970 eram, em boa parte e na parte mais decisiva, limites associados aos estoques possivelmente existentes de matérias primas energéticas.
Como, por outro lado, uma dessas matérias primas, o petróleo, era a coluna vertebral da indústria química, com as dezenas de milhares de produtos que iam sendo lançados no ambiente, a associação com os problemas derivados do consumo maciço de produtos químicos domésticos e do seu uso na agricultura e em geral na alimentação, tornou-se ela própria inevitável. E até a sua incidência no conservacionismo, tendo como bandeira A Primavera Silenciosa, de Rachel Carson, se tornou um elemento consensual e em relação ao qual os «negacionismos» teóricos pouco contam já, embora conte muito, sim, a resistência prática das inércias e interesses sociais, políticos e económicos implicados. E que permanece.
Na década de 1980 durante um bom par de anos foi a questão das chuvas ácidas a predominar (com desdobramentos diplomáticos importantes como o contencioso, ainda não sanado, entre o Reino Unidos e os países nórdicos, ou com a comoção nacional que causou num país com enorme peso na orientação da União Europeia em matéria de ambiente, a Alemanha, e sem ignorar as ambivalências que esse peso assumiu), questão essa mais uma vez associada a problemas relativos à poluição atmosférica e ao uso da energia, bem como à sanidade do ambiente natural e humano, com relevo para o estado das florestas no hemisfério norte.
Nos anos 1990, é a questão climática a assumir o papel de vedeta. No fundo, remete exatamente para as mesmas questões que vinham destes dois exemplos anteriores, são reencontrados os mesmos causadores de idênticas poluições e a questão energética reaparece sob novas formas. É certo que não tardou a que o lóbi pró-nuclear se apoderasse da questão sob pretexto de que as respetivas centrais não emitiriam os principais gases de efeito de estufa. É claro que para isso têm que negar outra evidência, e tem que se reconhecer que tiveram nisso algum êxito: a radioatividade é, também ela, um poluente do ar, das águas e dos solos, e o mais perigoso e duradouro deles todos. Daí que haja sempre que associar à questão climática a questão da sanidade global do ambiente humano e natural.
Mas denunciar essa operação oportunista não exige que se negue a continuidade e encadeamento das causas das disfunções e ameaças que vêm da poluição atmosféria, do uso da energia, da poluição química, às florestas e ao clima. No fundo, são basicamente sempre os mesmos fatores que estão implicados.
Podem criticar-se as soluções e as mistificações que rodearam cada uma dessas fases (na fase inicial com acento forte na antipoluição muitos acreditaram ingenuamente que o problema era apenas uma questão técnica, de mais filtros e mais chaminés), e, na fase climática, em especial a propaganda oportunista do nuclear e a desfocagem da visão ecológica mais global, que tem igualmente em conta, para além das emissões de gases com efeito de estufa, problemas que aparentemente não teriam que ver com isso (mas têm: na agricultura e na conservação da natureza, no turismo e no urbanismo, vamos sempre ter à questão fulcral da produção e do uso de energia).
É por isso útil relembrar que uma obsessão centrada no clima, e que não integre essa questão na situação ecológica mais vasta, contém perigos a que deve ser dada resposta pelos cidadãos e seus movimentos de opinião e ação. Criticar essa obsessão inclui criticar a obsessão dos que tentam mostrar que a questão climática é irrelevante ou que se reduz a um mero jogo de interesses ou a uma questão política no sentido pejorativo da palavra. Que há jogos de interesses e influências políticas nesse contexto, só um cego o negaria. Mas exercem-se em vários sentidos e direções, uns favoráveis outros desfavoráveis a quem pretenda uma via de saída da crise climática que seja também uma saída da crise ecológica.
As reservas de combustíveis fósseis são finitas, umas a mais curto prazo que outras. Mas podem durar ainda muito tempo e certamente que no curto prazo o seu uso não vai ser significativamente abandonado. Por isso a enorme batalha que se trava, quer pelo seu controlo, quer pela forma como deverão ser progressivamente subalternizados, urgência que começa a ser reconhecida por quase todos. E quem, nos anos 1960-70, o poderia dizer? Quem então o reconhecia era ainda uma pequeníssima minoria apodada de «alarmista» apodo que agora se usa por vezes para os que afirmam a realidade incontornável da origem antropogénica de um aquecimento global inegável. É certo que esta fase de reconhecimento mais generalizado contém também muitas confusões e mistificações e até por vezes retrocessos. Mas quem viveu esse muro de silêncio ou de desprezo há 35 anos dificilmente pode deixar de considerar que foi voltada uma página e que certas negações então correntes e arrogantes já só conseguem existir travestidas de zelo ambiental. De momento, esse travestimento é ele próprio um problema sério e real. Cabe-nos contribuir para restabelecer uma visão mais completa, coerente e fecunda da situação presente da humanidade em que a questão ambiental está destinada a tornar-se, cada vez mais, a questão central.
José Carlos Marques

Sweeney Todd, 11 de Setembro e Climategate



Há uns tempos atrás fui ao cinema ver Sweeney Todd: the demon barber of Fleet Street, um filme de Tim Burton, de 2007, adaptado de um musical da Broadway que relata a história de Benjamin Barker (interpretado brilhantemente por Johnny Depp), um barbeiro londrino, que vivia feliz com sua a mulher e filha. Um dia, um juiz interessou-se pela sua mulher e, sob falsas acusações, mandou prender Benjamin e exilá-lo para a Austrália.

Muitos anos mais tarde, de volta do seu exílio, Benjamin (agora sob o nome de Sweeney Todd), volta à antiga Londres do século XIX. O barbeiro envolve-se com Mrs. Lovett, uma torteira falida, sem dinheiro para comprar carne para fazer as suas tortas. Sweeney Todd decidido vingar-se do juiz, junta o “útil ao agradável” e começa, com as suas navalhas de prata, a preparar a macabra morte de quem o condenara. Para treino, “exagera” no corte das barbas dos seus clientes fornecendo carne à sua parceira. Depois de degolados, os corpos são aviados através de um túnel que liga a barbearia, no primeiro andar, à cozinha da tasca, no rés-do-chão. Lá em baixo, são descarnados e a carne picada. As tortas fazem grande sucesso.

*
No rescaldo do 11 de Setembro, surgiram teses conspirativas perversamente arquitectadas, que apontavam o dedo à administração Bush, acusando-a de fabricarem os atentados nos EUA. Tudo sustentado com factos ditos indesmentíveis feitos provas (algumas risivelmente amadoras) como a forma do buraco nas paredes do Pentágono, segundo os autores destas teses, em forma de míssil, ou ainda ao modo como o World Trade Center se desmoronou, sendo que, reflexos observáveis em imagens vídeo suportam a explicação de que estes seriam resultado explosões em sequência de bombas previamente colocadas a mando da Administração. De muito má memória, é certo, aquela administração era assim acusada de perpetrar crime tão hediondo contra o povo que a elege e que representam, como forma de justificar, na opinião pública americana e mundial, um desejado ataque ao Afeganistão. Mero exemplo de como de forma insana, completamente fantasiosa e impunemente se fabrica uma história.

*
Acerca do Climategate e bem antes de toda esta confusão de e-mails que vieram a público, um pequeno grupo de pessoas oferecia à opinião pública uma visão céptica sobre as alterações climáticas globais, suportada, em boa medida, por argumentos simplistas e que facilmente confundem a opinião pública. Depois, um conjunto de “crentes” (da existência duma enorme falácia que sustenta a teoria das Alterações Climáticas Globais e suas causas antropogénicas) - como me parece mais correcto designar porque a designação de “cépticos” é mais adequada aqueles que, com dados e factos científicos questionam honestamente as hipóteses e conclusões dos outros – acusando um sem número de investigadores e denunciando um tremendo e maquiavélico plano perpetrado por aqueles a mando de grandes interesses económicos. Estes crentes, motivados essencialmente por uma questão de fé, cega, quase religiosa, acirrados por tudo o que de mais válido a possa contradizer e aparentemente tão ignorantes nesta matéria como eu, armou cruzada e brindam o público com demonstrações inequívocas da aldrabice, como “um mês bastante mais frio que o habitual” e outras tontices do género, procurando abalroar trabalho científico com disparates e maledicência. Henrique Pereira dos Santos no seu O Elogio da Ignorância, sublinha bem este estranho orgulho que alguns assumem na sua ignorância, e que lhes permite não terem nenhum problema, sentindo-se à vontade para discutir com investigadores, contrapondo estudos científicos - que certamente podem (e devem) ser questionados caso necessário, com argumentação sólida - com as referidas tontices.

Ainda que acredite que a maioria das pessoas não vai atrás destas paranóias, a sociedade saliva por polémicas deste género, seja ficção honestamente assumida, como em Sweeney Todd, seja servida como a mais pura e dura das realidades, como nas teses conspirativas do 11 de Setembro e das Alterações Climáticas. Porque vende, a comunicação social publica numa lógica de trazer ao público não o que é realmente notícia, mas o que o público exige.

Confesso ter pouca tendência e paciência para teorias da conspiração e não tenho por onde acreditar viver num mundo onde uns servem de carne e outros comem as empadas, com um enorme bando de cientistas loucos e aldrabões pelo meio, que esfregam as mãos deleitados, tal como Sweeney Todd afiava as suas navalhas de prata em Fleet Street.

Gonçalo Rosa

Presunção de inocência e cultura democrática

Devo dizer que me choca a facilidade com que se julgam pessoas na comunicação social e nos blogues. A mínima suspeita converte-se rapidamente em julgamento público e passam-se anos até que se esclareça a verdade dos factos (quando se esclarece) mas entretanto imagem pública das pessoas é arrasada sem que seja possível redimi-la no caso de se provarem infundadas as suspeitas transformadas em acusações. O caso do "climategate" é um exemplo mas em Portugal, nos últimos anos, este procedimento lamentável tornou-se uma espécie de desporto nacional. Por isso li com grande interesse, esta manhã, o artigo de opinião da Gabriela Bravo Sanestanislao no jornal "El País". O contexto em que discute este problema é distinto mas as analogias são óbvias para quem as quiser entender. Deixo-vos aqui o link para leitura e reflexão.

terça-feira, dezembro 08, 2009

Climategate: Resposta de Delgado Domingos a Miguel Araújo

É com muito gosto que publico a resposta do Prof. Delgado Domingos ao meu comentário sobre o seu artigo no Expresso. O blogue da ambio sempre valorizou o debate de ideias, alicerçado em argumentos de substância e com contraditório pelo que é uma honra poder trasladar este importante debate, na primeira pessoa, para este fórum onde pessoas com convicções diferentes discutem temas ambientais com cordialidade e respeito. Como é natural discordo de algumas passagens deste artigo ainda que concorde com outras e a seu tempo entender-se-ão certamente melhor as diferenças e proximidades de posicionamento. Está, portanto, lançado o debate. O Prof. Delgado Domingos já manifestou disponibilidade em participar no mesmo desde que este se processe com cortesia. A minha sugestão é que os comentaristas dêem a cara pelas suas opiniões. Não há delitos de opinião em democracia e todos têm direito à dúvida e à asneira. Se preferirem manter o anonimato peço para que escrevem os comentários imaginando que o vosso nome é publicado. Ou seja, não escrevam nada que não fossem capazes de dizer de cara destapada. Se esta regra de ouro for cumprida, o debate será certamente útil, pedagógico e agradável. Nota: O título original deste texto era "Resposta à Crítica do Prof. Miguel Araújo" que eu alterei para melhor encaixar no estilo do blogue. Miguel Araújo
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Depois de ter afirmado que o Climategate era um “fait-divers”, esquecendo que só o poderia ser para quem sejam triviais as praticas do restrito numero de famosos cientistas no centro do escândalo agora tornado publico, o Prof.Miguel Araújo, numa atitude que agradeço e muito apreciei, comentou o meu artigo de opinião no Expresso , afirmando que a minha argumentação se centra em : “A - Defender que não existe evidência de que o clima esteja a mudar; B - Afirmar que os emails roubados demonstram uma fraude científica que compromete a credibilidade da ciência climática”.

O Prof.Miguel Araújo sabe que as limitações de espaço num artigo para o grande público nunca permitem a fundamentação adequada das afirmações feitas, sobretudo quando contrariam as ideias dominantes. Além disso, o artigo foi editado pelo jornal (com o meu acordo, embora sem revisão do editado), que neste caso adicionou os títulos e acrescentou uma figura e um parágrafo para que o leitor soubesse o que era o hockeystick. O próprio jornalista fez uma notícia resumindo o que, no seu entender, era mais importante. O que o resumo omite e a edição desvalorizou completamente foi a exigência de que se consultassem os meus textos fundamentais sobre o tema (a maioria disponíveis na minha página aqui, com destaque para este link e de que são parte integrante as referências aos trabalhos científicos que as fundamentam, nomeadamente muitas das que o IPCC (WGI) utilizou. Se o Prof.Miguel Araújo tivesse feito aquela consulta não teria sido tão afoito a sugerir a minha ignorância face ao que se infere ser o seu conhecimento.

Respondendo agora de acordo com os seus capítulos.

A-Não existe evidência de que o clima esteja a mudar.
Na sequencia do pertinente comentário de um leitor do seu blog, o Prof.Miguel Araújo alterou-o posteriormente para “Não existe evidência de que o clima esteja a mudar a nível global”.

Se o Prof.Miguel Araújo tivesse sido rigoroso na síntese do que escrevi teria alterado um pouco mais o titulo para: “Não existe evidência de que o clima esteja a mudar a nível global devido principalmente a emissões de CO2eq”.

O Prof.Miguel Araújo tece de seguida doutas mas triviais considerações sobre o que eu teria dito, mas não disse, acerca do IPCC e do furacão Katrina. Efectivamente, o meu texto refere-se ao que a maioria da comunicação social tem transmitido no seu afã alarmista, não ao que o IPCC ou cientistas credíveis tenham dito. Seja como for, reconhecer que o Katrina não é atribuível ao aquecimento global, como o IPCC faz e o Prof.Miguel Araújo vem lembrar, é reconhecer implicitamente que um desastre climático com aquela dimensão não é atribuído às emissões de CO2eq, o que corresponde a uma das teses centrais da minha posição. Afinal estamos de acordo !

A restante argumentação do Prof.Miguel Araújo exprime a confiança que os resultados dos modelos climáticos parecem inspirar a quem não domina em profundidade a fundamentação física e ainda menos a implementação computacional. Posso reivindicar, forçado mas sem falsa modéstia, e penso que sem grande contestação, que fui um dos pioneiros (há mais de 40 anos), pelo menos em Portugal, no desenvolvimento da hoje chamada Mecânica dos Fluidos Computacional, tal como fui eu que iniciei (há mais de 10 anos) a previsão numérica do tempo nas universidades portuguesas com a sua disponibilização diária e gratuita ao grande público (http://meteo.ist.utl.pt/ e http://meteo.ist.utl.pt/new). Os modelos climáticos mais citados são equivalentes a versões simplificadas dos que utilizo (AWRF e MM5, entre outros) para previsão e reconstrução de situações passadas. Posto isto, e como defensor que sempre fui e sou da utilização de modelos matemáticos como ferramenta imprescindível na compreensão dos fenómenos naturais, fico extremamente preocupado com o abuso que deles é feito e só pode levar ao seu descrédito com prejuízo para todos. Por isso, concordo inteiramente com o IPCC quando afirma :

«In climate research and modeling, we should recognize that we are dealing with a coupled non-linear chaotic system, and therefore that the long-term prediction of future climate states is not possibleIPCC, 2001: Climate Change 2001: The Scientific Basis. Contribution of Working Group I to the Third Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change[Houghton, J.T.,Y. Ding, D.J. Griggs, M. Noguer, P.J. van der Linden, X. Dai, K.Maskell, and C.A. Johnson (eds.)]. Cambridge University Press, Cambridge, United Kingdom and New York, NY, USA, 881pp., p. 774

E estou tambem de acordo com um email de Kevin Trenberth, divulgado pelo alegado whistleblower do CRU, com data de 12.10.2009 para Michael Mann em que afirma:

The fact is that we can’t account for the lack of warming at the moment and it is a travesty that we can’t. The CERES data published in the August BAMS 09 supplement on 2008 shows there should be even more warming: but the data are surely wrong.

o texto completo do email está aqui e deve ser consultado para evitar acusações de citação fora do contexto. Aliás, no email também refere intervenções suas anteriores sublinhando a necessidade de mais e melhores dados de observação, com o que estou inteiramente concordo.

A publicação que serviu de base à minha afirmação de não haver aquecimento desde 1998 é a mesmo a que Kevin Trenberth se refere e eu próprio já tinha citado num artigo para o Jornal de Negócios publicado em 3.11.2009. Aliás, encontra-se também no site oficial do MetOffice.

Considero Kevin Trenberth, lead author em praticamente todos os relatórios do WG1 do IPCC, um dos mais sérios e competentes cientistas em várias áreas da Ciências Físicas do Clima, razão porque aparece várias vezes citado em intervenções minhas anteriores. Devem-se a ele (ver Nature.com, Climate Feedback, 4.06.2007) as seguintes afirmações:

since the last IPCC report it is often stated that the science is settled or done and now is the time for action. In fact there are no predictions by IPCC at all. And there never have been”(...)

None of the models used by IPCC are initialized to the observed state and none of the climate states in the models correspond even remotely to the current observed climate”.

O Prof. Miguel Araújo sabe certamente que a formulação matemática fundamental dos modelos de previsão meteorológica/climáticos constitui um sistema de equações em derivadas parciais não lineares, cuja solução exige o conhecimento do estado inicial do sistema e os condições/forçamentos na fronteira. Na perspectiva clássica da Física Matemática Linear, aquele sistema representaria um “problema fisicamente mal posto” pois uma pequena perturbação no estado inicial ou nas condições fronteira seria susceptível de originar uma grande alteração na solução. No actual estado do conhecimento, aquelas equações estão na origem da descoberta do bem conhecido caos determinístico. Neste contexto, as citações acima poderiam ser o ponto de partida para uma esclarecedora discussão no âmbito da teoria dos sistemas não lineares e do que podemos esperar do tratamento estatístico do universo de soluções geradas substituindo o desconhecido estado inicial por valores aleatórios. O frágil significado físico da estatística daquelas soluções constitui o fundamento das tão invocadas probabilidades de catástrofe de que o IPCC fala e os políticos transformaram em certezas.

Como muito bem sabe, o único meio de obter soluções relevantes para aquelas equações é por métodos numéricos e utilizando computadores. Sabe também que estas soluções numéricas são sempre aproximadas (neste caso ao nível da Física e das próprias equações matemáticas). O que talvez saiba menos bem, embora para os reais praticantes de modelos seja trivial e discutido nas publicações especializadas, é que as simulações de longo prazo sofrem do problema, ainda não adequadamente resolvido da deriva (“drifting”) o que obriga a forçar (“constrain”) as soluções a gamas pré-definidas. Tratando-se de situações passadas em que são conhecidos valores observados, os tais forçamentos consistem em fazer aproximar o mais possível as soluções daqueles valores. Tratando-se do futuro, não existe validação experimental possível sem ser à posteriori e o critério é comparar modelos diferentes e concluir que são fiáveis se não derem resultados excessivamente diferentes. O excessivamente diferente é subjectivo. Actualmente, nenhum dos modelos é capaz de prever o El Niño, a PDO ou a NAO, entre outros fenómenos climáticos fundamentais e bem conhecidos. Mesmo querendo desconhecer este facto, já existem suficientes previsões feitas no passado que permitem aferir da confiança que devem merecer para o futuro. Uma das mais famosas foi a de James Hansen (agora tão falado acerca de Copenhaga) pois foi com base nelas que em 1988 fundamentou o alarme do desastre climático dentro de 20 anos se as emissões de CO2eq não fossem drasticamente reduzidas. 20 anos depois, em 2008, as emissões tinham excedido o pior cenário, mas o catastrófico aumento de temperatura não existiu( ver Christy, J.R.Written testimony to House Ways and Means Committee, 25 February 2009). Isso não impediu James Hansen de pedir o fracasso da Conferencia de Copenhaga por não ser suficientemente radical na abolição do carvão e das outras fontes de CO2eq, nem de pedir o julgamento por crimes contra a humanidade dos presidentes das companhias do carvão e das petrolíferas , nem de defender a desobediência civil, tal como não impediu a comunicação social que temos de dar o maior relevo a tudo quanto profetiza ou recomenda, enquanto faz tudo para que se esqueçam as suas previsões, profecias e recomendações passadas. Exagerando uma prática, também apontada ao recente Nobel da Economia Paul Krugman, as publicações estritamente científicas de Hansen são sérias e respeitadas, mesmo quando em total contradição com o que o seu activismo politico o leva a declarar para o grande público. Na sua faceta de puro cientista é de sublinhar a declaração feita (ver J.Hansen at the Climate Change Congress,”Global Risks,Challenges & Decisions”,Copenhagen, Denmark, March 11,2009) na reunião de cientistas realizada Março passado em Copenhaga como preparação para a Conferencia do Clima em Dezembro:

We do not have measurements of aerosols going back to the 1800 –we don´t even have global measurements today. Any measurements that exist incorporate both forcings and feedback. Aerosol effects on clouds are very uncertain". I didn´t know what forcings to use when we started our IPCC runs 4 years ago, so I went to my grand children and asked them ‘What is the Net forcing?’

A questão levantada por Hansen ‘What is the Net forcing?’ é honesta e profundamente esclarecedora para quem perceba bem o que os actuais modelos podem e não podem fazer. Os aerossóis, consoante a sua natureza e a altitude a que se encontram, tanto podem reforçar, como diminuir, o efeito do CO2eq , mesmo ignorando a sua influencia nas nuvens. Sem medidas globais, o “Net forcing” nem sequer é um palpite fundamentado para se tornar no parâmetro arbitrário que melhor reproduz períodos passados. Pela sua natureza, é diferente de modelo para modelo e tem que ser alterado consoante o período temporal que se quer reproduzir. Como o arrefecimento acentuado dos anos 40 era contrário aos modelos que previam aquecimento devido ao CO2eq, aumentou-se o peso dos aerossóis para fazer arrefecer e explicou-se que tal se devia ao maior uso do carvão e à poluição de uma indústria ainda sem controlo de emissões de poluentes atmosféricos. Como, a partir dos anos 80, foi necessário diminuir o seu peso porque houve aquecimento, explicou-se o resultado como sendo o efeito da legislação de combate à poluição atmosférica. O que se omitiu foi que, não havendo valores de observação, os valores escolhidos foram os que davam jeito. Em qualquer dos casos não se tratou de uma previsão, mas sim e quando muito de uma tentativa de explicação do que tinha sido observado. Como é evidente, estes modelos não têm capacidade para prever o futuro com a segurança suficiente para neles basear decisões políticas com as gigantescas implicações económicas e sociais das propostas dos alarmistas em Copenhaga.

Tendo em conta que todo o alarmismo referente ao aquecimento global devido a emissões de CO2eq tem como fundamento único os resultados dos modelos climáticos que o IPCC utilizou, ficaria profundamente reconhecido aos nossos colegas físicos, climatologistas, estatísticos, matemáticos, etc se me demonstrassem que as minhas reservas quanto à fiabilidade dos resultados dos actuais modelos climáticos não têm fundamento. Espero, naturalmente, que essa demonstração não seja a ladainha da mera citação do que outros disseram mas sim uma opinião própria baseada no seu domínio das áreas científicas relevantes.

Peço desculpa, Prof.Miguel Araújo, se fui tão longo, embora muito longe de ser exaustivo, na resposta ao que diz que eu afirmei e condensou em A-“Não existe evidência de que o clima esteja a mudar a nível global”. Na verdade, o que efectivamente afirmo é : “Existiu um aquecimento global nos últimos 150 anos que não excedeu 0.8ºC se os dados tomados como referencia pelo IPCC forem correctos. Na última década não houve aquecimento significativo face aos dados disponibilizados. Não existe evidência científica nem observacional sólida que permita afirmar ser aquele aquecimento devido, predominantemente, ao CO2eq. Existe uma influência directa da acção humana na alteração do clima, sobretudo observável e mensurável a nível local, resultante das alterações no uso do solo, tal como existe um agravamento dos efeitos de fenómenos climáticos devido ao modo como tem evoluído a ocupação do território pelas populações ”.

Acrescento ainda que um aumento de 0.8ºC não tem nada de preocupante, tal como sublinho o facto de os alarmistas exaltarem um aquecimento crescente baseado em observações, mas omitindo, quase sempre, que os 0.8ºC (possivelmente menos) abrangem mais de 150 anos.

É também importante sublinhar que a componente biótica, apesar da sua influencia no sistema climático ser um feedback reconhecidamente importante, é praticamente ignorada nos actuais modelos climáticos globais. Na verdade, a complexidade do sistema climático é demasiado elevada para que se justifique a presunção de que se conhecem todas as relações de causa-efeito que determinam os fenómenos observados e ainda menos a de que se sabem modelar e quantificar.

Reconhecer que se não sabe é um passo fundamental para se poder vir a saber.

Clarificado o que os actuais modelos climáticos podem e não podem fazer e reconhecido que não têm fiabilidade suficiente para neles basear politicas com tão gigantescas implicações, leva a perceber porque motivo o hockeystick se tornou politicamente tão importante e está no cerne do climategate. A extrordinária cruzada de promoção do hockeystick teve por finalidade convencer os políticos e a opinião pública de que o aquecimento global não teve precedente nos últimos 1000 anos pelo que, tendo tal aquecimento coincidido com o aumento antropogénico das emissões de CO2eq, só pode ter sido o aumento do CO2eq na atmosfera a sua causa determinante. Sublinhe-se que esta conclusão se baseia inteiramente na apresentação visual de uma correlação, seguidamente convertida numa relação de causa-efeito.

Este tipo de actuação lembra irresistivelmente a (pseudo) justificação/legitimação da guerra do Iraque devido à existência de armas de destruição maciça, cujas provas se garantiu existirem e que o actual presidente da UE até disse ter visto. O famoso consenso assim obtido foi quase unânime. As provas eram falsas, mas a verdade só emergiu muito tempo depois e após centenas de milhares de mortos, de indizível sofrimento humano e de milhões de milhões de recursos materiais destruídos.

A segunda síntese que o Prof. Miguel Araújo fez do que eu supostamente disse foi:
B - Os emails roubados demonstram a existência de uma fraude científica que compromete a credibilidade da ciência climática

O que escrevi foi:
“Em termos da comunidade científica, o Climategate é um dos maiores escândalos científicos da história, não só pelo modo como afecta a credibilidade pública da comunidade científica mas sobretudo pelas implicações económicas e politicas de que se reveste

E mais adiante:
“O comportamento escandaloso e intolerável de um grupo restrito de cientistas que atraiçoaram o que de melhor a Ciência tem (...)

O Prof.Miguel Araújo tresleu o que afirmei. Como se constata, não só não restringi a credibilidade pública à “ciência climática” como tive o cuidado de cingir o comportamento inadmissível e intolerável “a um grupo restrito de cientistas.

O Prof.Miguel Araújo afirma que confundi dois problemas distintos, mas a verdade é que na sua suposta identificação os confunde, o que dificulta a resposta. Comecemos pela minha afirmação de que o climategate afecta a credibilidade da comunidade científica. Trata-se, obviamente, de uma previsão que o tempo se encarregará de mostrar se foi ou não precipitada. Em meu entender, e no de muitos outros cientistas, a credibilidade da comunidade científica será tanto mais afectada quanto mais a dita comunidade se esforçar por ignorar/negar a existência de actos reprováveis, por parte do tal grupo restrito, que atentou (comprovadamente) não só contra a lei mas sobretudo contra princípios éticos fundamentais em Ciência. Esses princípios encontram-se nos códigos de conduta das melhores universidades e dos mais prestigiados centros de investigação. Para mim, este tipo de princípios não tem nada a ver nem com o que a lei diz ou pode dizer, pois também não fico à espera dos editoriais da Nature para julgar um comportamento face às documentadas provas públicas que já conheço. Extrapolando para o que passa em Portugal, não sou dos que afirmam e praticam que “a ética na república é a lei”, pois tal tornaria legitimo tudo que a lei, interpretada por um tribunal, não condena.

Em meu entender, a critica que o Prof.Miguel Araújo faz às minhas afirmações revelam que só agora despertou para o climategate e os seus antecedentes. O foco central do climategate foi a supressão de todo o período quente medieval que levou ao chamado hockeystick e à afirmação, que se tornou no ícone dos alarmistas, de que o aquecimento após o inicio da revolução industrial não tem precedente nos últimos 1000 anos e se deve à emissões de CO2eq. Questionado o fundamento dessa conclusão, os autores recusaram fornecer dados e algoritmos que permitissem verificar e reproduzir as suas conclusões. Esta recusa, a que a Nature avalisou é contrária a todo o espírito que deu credibilidade à ciência, e era além do mais ilegal o que motivou uma intervenção do Senado Americano para obrigar os autores a disponibilizar os dados. Na sua sequencia, a National Academy of Science (NAS) nomeou um painel, presidido pelo prestigiado e respeitado Prof. E. J. Wegman ( Presidente da Sociedade Americana de Estatística) que elaborou o famoso relatório Wegman (disponivel aqui) no qual se afirma, p 4 -5 que:

“In our further exploration of the social network of authorships in temperature reconstruction, we found that at least 43 authors have direct ties to Dr. Mann by virtue of coauthored papers with him. Our findings from this analysis suggest that authors in the area of paleoclimate studies are closely connected and thus ‘independent studies’ may not be as independent as they might appear on the surface. (…)


It is important to note the isolation of the paleoclimate community; even though they rely heavily on statistical methods they do not seem to be interacting with the statistical community. Additionally, we judge that the sharing of research materials, data and results was haphazardly and grudgingly done. In this case we judge that there was too much reliance on peer review, which was not necessarily independent. Moreover, the work has been sufficiently politicized that this community can hardly reassess their public positions without losing credibility. Overall, our committee believes that Mann’s assessments that the decade of the 1990s was the hottest decade of the millennium and that 1998 was the hottest year of the millennium cannot be supported by his analysis.

O relatório faz, além disso, recomendações específicas quanto a trabalhos futuros nesta área. O grupo de autores aqui citado figura proeminentemente nos ficheiros agora divulgados e o tempo mostrou que as recomendações do relatório foram por eles siste¬mati¬camente ignoradas. O resultado esperável ficou agora à vista.

Consequência (alegadamente) directa desta comprovada “scientific misconduct” foi a criação do blog http://www.realclimate.org/ para defesa das suas teses com o pretexto de divulgar a ciência climática entre os não especialistas. Com o tempo, transformou-se na bíblia dos alarmistas, como muitos exemplos o documentam, não só em blogs como na imprensa (entre nós, o Público é um notório exemplo).

O Wegman_Report é de 2006. A descrição e critica de todo o processo ( até ao presente), bem como a cópia ou link para os documentos mais importantes encontra-se no blog de Steve McIntyre, (http://www.climateaudit.org/?page_id=354). Como seria de esperar,

Steve McIntyre é um dos que mais aparece nos emails do climagate, como alguém a quem deve ser impedido, a todo o custo, o acesso aos dados e contra quem parecem ser justificadas todas as tentativas para o desacreditar cientificamente. Steve McIntyre limitou-se sempre e só a exigir algoritmos estatísticos fiáveis, dados de qualidade comprovável e resultados finais replicáveis. Aliás foi ele que esteve na base da intervenção do senado que motivou o painel presidido por Wegman, o qual lhe veio dar razão.

Para quem tiver um mínimo de prudência e de preocupações de objectividade a consulta regular de ambos os sites acima referidos é fundamental. Se o tivesse feito, o Prof.Miguel Araújo não teria sido tão imprudente e precipitado nas críticas que me fez.

A fraude propriamente dita está claramente explicada e documentada no artigo do American Thinker, “Understanding Climategate's Hidden Decline” acabado de sair e disponivel aqui. Um comentário muito pertinente a este artigo foi já feito pelo Eng.Rui Moura no seu blog http://mitos-climaticos.blogspot.com/.

A minha afirmação de que dados base da rede de estações meteorológicas que serve de referencia ao IPCC para aferir o aquecimento global tinha sido destruída não se baseia, como procura inferir o Prof.Miguel Araújo, numa afirmação dos emails, mas sim em declarações de Phill Jones ainda antes do climagate, as quais foram posteriormente objecto de comunicado oficial.

Conclusão
Descontadas as diferenças de estilo, de tom, de background cientifico e experiencia profissional, as minhas posições de fundo e as que o que Prof.Miguel Araújo defende talvez estejam muito mais próximas do que superficialmente poderia parecer. Na origem da aparente diferença está o primarismo com que expeditamente se classifica de negacionista ou céptico ignorante quem não perfilha o “consenso” de um desastre climático global e iminente devido às emissões de CO2eq, tendo como fundamento o hockeystick e os actuais modelos climáticos.

Confrange-me que, genericamente, o movimento ambientalista tenha também aderido a este primarismo reducionista sem se dar conta de que ao faze-lo sacrificou algumas das mais importantes causas por que se bateu e o credibilizaram para se transformar num avalizador de interesses que não domina. Justificar todos os meios e atropelos em nome duma mítica salvação da humanidade, pode ser uma ideologia, uma religião ou um dogma mas não é seguramente Ciência.

A minha intervenção nestes temas é motivada por convicções e conhecimentos científicos longamente sedimentados, tendo a consciência clara das suas implicações políticas. Não esperem por isso que dê prioridade a objectivos políticos em detrimento do que entendo ser o rigor científico e a minha responsabilidade social como engenheiro/cientista.

Nota: São meus os sublinhados e negritos em todas as transcrições

8 de Dezembro de 2009

José Delgado Domingos

2000-2009: A década mais quente desde 1850


É um relatório preliminar do "World Metereological Organization" mas vale a pena estar atento à actualização que for feita quando o ano acabar. Antevejo que, como se aludiu aqui e se discutiu em maior detalhe aqui a afirmação de que o clima estabilizou desde 1998 se encontrará desactualizada em breve:

Geneva, 8 December 2009 (WMO) – The year 2009 is likely to rank in the top 10 warmest on record since the beginning of instrumental climate records in 1850, according to data sources compiled by the World Meteorological Organization (WMO). The global combined sea surface and land surface air temperature for 2009 (January–October) is currently estimated at 0.44°C ± 0.11°C (0.79°F ± 0.20°F) above the 1961–1990 annual average of 14.00°C/57.2°F. The current nominal ranking of 2009, which does not account for uncertainties in the annual averages, places it as the fifth-warmest year. The decade of the 2000s (2000–2009) was warmer than the decade spanning the 1990s (1990–1999), which in turn was warmer than the 1980s (1980–1989). More complete data for the remainder of the year 2009 will be analysed at the beginning of 2010 to update the current assessment.

Ver notícia completa aqui

O elogio da ignorância


Eu sou um ignorante profundo em matéria de alterações climáticas. Esforço-me por ouvir com atenção os vários argumentos mas de uma discussão como a que se desenrola aqui e aqui devo perceber mais ou menos 10%.
Mas esses 10% são-me ainda assim muito úteis para formar a minha opinião de cidadão.
O que me faz confusão nesta discussão sobre o climagate que tenho estado a acompanhar desde que começou não é o grau de ignorância da grande maioria dos intervenientes (que está ao meu nível) mas a contumaz persistência e orgulho nessa ignorância.
De um comentário a este post:
"Escusa de me indicar as publicações científicas....Eu apenas quero ouvir a voz dos cépticos e até dos negacionistas como vocês lhes chamam fundamentada com a mesma profundidade analitica cientifica daquela que me é apresentada como verdade oficial.A “fuga de informação” ou o “ataque informático” que desvendou milhares de emails e documentos e o silêncio de uma boa parte tanto das publicações como dos mídia em geral deixa (ou deveria deixar) quem de boa fé tenta olhar para estas coisas.Não vale portanto disponibilizar informação tratada pelos mesmos, possivelmente, controlada pelos mesmos sob risco de cair numa redundância."
Do blog com a cobertura mais idiota do assunto (tirando os militantes como Mitos Climáticos coisas que tal que não contam porque há muito que demonstram que a realidade é apenas um detalhe que não deve pertubar as nossas ideias), uma das dezenas de citações que fazem sobre o assunto:
"Em matéria de aquecimento global, confesso-me agnóstico. Sei que no passado o clima aqueceu e arrefeceu (aquecimento medieval; idade do gelo do século XVI). Nada impede a ocorrência de um novo ciclo quente. Uma hipótese complementar seria a de que o actual (e presumível) aquecimento se deveria à actividade económica humana. Mais uma vez, é possível, graças à industrialização. Mas tudo isto são hipóteses, não verdades. A histeria em torno do aquecimento global não é científica. Nem todas as hipóteses científicas se transformam em verdades e todas as verdades são potencialmente provisórias. Não é possível ser tão peremptório sobre o aquecimento como se vê por aí nos jornais e na televisão. Se exceptuarmos quem trabalha directamente no estudo do clima, ninguém possui os instrumentos indispensáveis para uma avaliação independente. Acreditar ou não no aquecimento global é uma questão de fé. O filtro da comunidade científica deveria servir para nos tornarmos mais cépticos e não mais excitados. São episódios como este que questionam a sua credibilidade e esse papel."
Como digo, não é esta ignorância que me preocupa e que é mais ou menos igual à minha.
O que me espanta é mesmo o elogio dessa ignorância que por aí anda. A quantidade de pessoas felizes por só lerem coisas de um dos lados da discussão, por evitarem procurar informação que lhes permita perceber melhor em que consiste a discussão, por perceberem de que incerteza se fala e que grau de confiança podemos ter nas teorias (sim, a evolução darwinista também é só uma teoria inverificável) por só citarem fontes secundárias e comentários em vez de ir às fontes primárias e por assim conseguirem manter, sem qualquer beliscão, a sua posição ideológica de partida faz-me confusão.
Felizmente penso que o resultado final disto tudo se assemelhará ao que está a acontecer comigo: ao ser "obrigado" a ler mais que o que leria em condições normais, acabo mais próximo de reconhecer que o que se sabe e as evidências que existem são bastante mais e mais sólidas do que eu suporia. Os cépticos ou agnósticos sérios provavelmente também se vão aperceber de como a discussão científica e o escrutínio dos resultados tem sido duro e intenso e que só resiste o que realmente tem uma base minimamente consistente como hipótese científica.
Mas nem por isso fico mais próximo dos alarmistas, como os que escreveram e publicaram o lamentável editorial do Público de ontem, que usam e abusam de leituras imprudentes do que se sabe sobre alterações climáticas, dando argumentos aos que, justamente, lhes fazem notar as imprudências para, injustamente, atacar a fiabilidade da base científica em que se suporta a discussão política.
Porque é da discussão política que se trata em Copenhaga, não é da discussão científica.
henrique pereira dos santos

Ainda o pretenso Climategate - George Monbiot

Por não encontrar no blogue, eis a opinião de George Monbiot- autor do livro Calor: Como Impedir o Planeta de Arder-, escrita hoje mesmo

The Real Climate Scandal

By George Monbiot, published in the Guardian
8th December 2009

Shocked by the hacked emails? Wait till you see what the other side’s been up to.

When you survey the trail of wreckage left by the climate emails crisis, three things become clear. The first is the tendency of those who claim to be the champions of climate science to minimise their importance. Those who have most to lose if the science is wrong have perversely sought to justify the secretive and chummy ethos that some of the emails reveal. If science is not transparent and accountable, it’s not science.

I believe that all supporting data, codes and programmes should be made available as soon as an article is published in a peer-reviewed journal. That anyone should have to lodge a freedom of information request to obtain them is wrong. That the request should be turned down is worse. That a scientist suggests deleting material that might be covered by that request is unjustifiable. Everyone who values the scientific process should demand complete transparency, across all branches of science.

The second observation is the tendency of those who don’t give a fig about science to maximise their importance. The denial industry, which has no interest in establishing the truth about global warming, insists that these emails (which concern three or four scientists and just one or two lines of evidence) destroy the entire canon of climate science.

Even if you were to exclude every line of evidence which could possibly be disputed - the proxy records, the computer models, the complex science of clouds and ocean currents - the evidence for manmade global warming would still be unequivocal. You can see it in the measured temperature record, which goes back to 1850; in the shrinkage of glaciers and the thinning of sea ice; in the responses of wild animals and plants and the rapidly changing crop zones.

No other explanation for these shifts makes sense. Solar cycles have been out of synch with the temperature record for 40 years(1). The Milankovic cycle, which describes variations in the earth’s orbit, doesn’t explain it either. But the warming trend is closely correlated with the accumulation of heat-trapping gases in the atmosphere. The impact of these gases can be demonstrated in the laboratory. To assert that they do not have the same effect in the atmosphere, a novel and radical theory would be required. No such theory exists. The science is not fixed - no science ever is - but it is as firm as science can be. The evidence for manmade global warming remains as strong as the evidence linking smoking to lung cancer or HIV to AIDS.

The third observation is the contrast between the global scandal these emails have provoked and the muted response to 20 years of revelations about the propaganda planted by fossil fuel companies. I have placed on my website four case studies, each of which provides a shocking example of how the denial industry works(2).

Two of them are drawn from Climate Cover-Up, the fascinating, funny and beautifully-written new book by James Hoggan and Richard Littlemore(3). If every allegation it contained could not be traced back to leaked documents (I have checked all the sources), their findings would be unbelievable. Nothing exposed by the hacking of the Climatic Research Unit’s server is one tenth as bad as the least of these revelations.

When I use the term denial industry, I’m referring to those who are paid to say that manmade global warming isn’t happening. The great majority of people who believe this have not been paid: they have been duped. Reading Climate Cover-Up, you keep stumbling across familiar phrases and concepts, which you can see every day on the comment threads. The book shows that these memes were planted by PR companies and hired experts.

The first case study I’ve posted reveals how a coalition of US coal companies sought to persuade people that the science is uncertain. It listed the two social groups it was trying to reach: “Target 1: Older, less educated males”; “Target 2: Younger, lower-income women” and the methods by which it would reach them. One of its findings was that “members of the public feel more confident expressing opinions on others’ motivations and tactics than they do expressing opinions of scientific issues.”(4)

Remember this, next time you hear people claiming that climate scientists are only in it for the money, or that environmentalists are trying to create a communist world government: these ideas were devised and broadcast by energy companies. The people who inform me, apparently without irony, that “your article is an ad hominem attack, you four-eyed, big-nosed, commie sack of shit” or “you scaremongers will destroy the entire world economy and take us back to the Stone Age” are the unwitting recruits of campaigns they have never heard of.

The second case study reveals how Dr Patrick Michaels, one of a handful of climate change deniers with a qualification in climate science, has been lavishly paid by companies seeking to protect their profits from burning coal(5). As far as I can discover, none of the media outlets who use him as a commentator - including the Guardian - has disclosed this interest at the time of his appearance. Dr Michaels is one of many people commenting on climate change who presents himself as an independent expert while being secretly paid for his services by fossil fuel companies.

The third example shows how a list published by the Heartland Institute (which has been sponsored by Exxon) of 500 scientists “whose research contradicts man-made global warming scares”(6) turns out to be nothing of the kind: as soon as these scientists found out what the institute was saying about them, many angrily demanded that their names be removed. Twenty months later, they are still on the list. The fourth example shows how, during the Bush presidency, White House officials worked with oil companies to remove regulators they didn’t like, and doctor official documents about climate change.

In Climate Cover-Up, in Ross Gelbspan’s books The Heat is On and Boiling Point; in my book Heat and on the websites DeSmogBlog.com and exxonsecrets.org, you can find dozens of such examples. Together they expose a systematic, well-funded campaign to con the public. To judge by the comments you can read on this paper’s website, it has worked.

But people behind these campaigns know that their claims are untrue. One of the biggest was run by the Global Climate Coalition, which represented ExxonMobil, Shell, BP, the American Petroleum Institute and several big motor manufacturers. In 1995 the coalition’s own scientists reported that “the scientific basis for the Greenhouse Effect and the potential impact of human emissions of greenhouse gases such as CO2 on climate is well established and cannot be denied.”(7) The coalition hid this finding from the public, and spent millions of dollars seeking to persuade people that the opposite was true.

These people haven’t fooled themselves, but they might have fooled you. Who, among those of you who claim that climate scientists are liars and environmentalists are stooges, has thought it through for himself?

www.monbiot.com

References:

1. See, for example, the graph here: http://icecap.us/images/uploads/SolarCycleLengthandGlobalTemperatureAnomalies1.pdf

2. http://www.monbiot.com/archives/2009/12/07/case-studies/

3. James Hoggan and Richard Littlemore, 2009. Climate Cover-Up. Greystone Books, Vancouver.

4. www.aip.org/history/powerpoints/GlobalWarming_Oreskes.ppt

5. http://www.desmogblog.com/files/IREA-memo.pdf

6. http://www.heartland.org/custom/semod_policybot/pdf/21977.pdf

7. http://www.nytimes.com/2009/04/24/science/earth/24deny.html

domingo, dezembro 06, 2009

Climategate: Resposta a Delgado Domingos


Fotografia de Miguel Araújo (Svalbard, Árctico, Junho de 2009)

No dia 30 de Novembro de 2009, Delgado Domingos escreveu um artigo de opinião no jornal Expresso onde acusa os investigadores envolvidos na troca de correspondência electrónica, roubada aos servidores da CRU ("Climate Research Unit" da Universidade de East Anglia), de manipular dados para provar o aquecimento global considerando este alegado "climategate" como um dos maiores escândalos científicos da história. A argumentação de Delgado Domigos centra-se em: A - Defender que não existe evidência de que o clima esteja a mudar a nível global; B - Afirmar que os emails roubados demonstram uma fraude científica que compromete a credibilidade da ciência climática. No texto que se segue explicarei porque razão a argumentação de Delgado Domingos é equívoca e porque considero serem algumas das suas conclusões precipitadas.

A - Não existe evidência de que o clima esteja a mudar a nível global

Para consubstanciar esta ideia, Delgado Domingos recorre a dois exemplos. O primeiro é que a catástrofe de Nova Orleães não foi causada pelo aquecimento global. Esta é uma afirmação surpreendente. O professor Delgado Domingos sabe que não é possível isolar um evento meteorológico e atribuir-lhe uma tendência climática. Também sabe que a interpretação deste tipo de fenómenos se faz analisando séries temporais mais longas e interpretando-as à luz de teorias e modelos. Ou seja, qualquer afirmação sobre furacões e aquecimento global tem de decorrer da análise de séries temporais e da sua comparação com modelos que assumem interpretações alternativas dos mecanismos que governam o clima do planeta. Se é verdade que essas séries são escassas (no passado só se registavam eventos desta natureza quando causavam prejuízos em terra), também é verdade que a "US National Hurricane Center" analisa dados sistemáticos de furacões no Oceano Atlântico desde 1944. Finalmente, o professor Delgado Domingos deveria reconhecer que o IPCC não afirma que o furação de Nova Orleães se deve às alterações climáticas actuais. O que se afirma no relatório de 2007 (página 281, Capítulo "The Physical Basis") é que se estima que os furacões do atlântico poderão tornar-se "menos frequentes mas mais intensos": "General features include a poleward shift in storm track location, increased storm intensity, but a decrease in total storm numbers". 

O segundo exemplo é que a temperatura que, segundo os dados do "UK Met Office", terá estabilizado desde 1998. Para completar este argumento deveria ter sido referido que 1998 foi um ano particularmente quente devido ao efeito "El Niño" e que 2008 foi um ano particularmente frio devido ao efeito "La Niña". Ora todos sabemos que as projecções de tendências têm associadas a si uma variação inter-anual que é de carácter estocástico (melhor dizer, não se pode explicar à luz do conhecimento actual), e que escolher um ano quente para depois demonstrar uma evolução é negativa é certamente uma boa forma de produzir argumentos retóricos. A questão é se ajudará a compreender fenómenos complexos. Se é verdade que a estabilidade climática não pode ser inteiramente explicada pelos modelos actuais, também é verdade que simulações recentes demonstram ser prováveis ciclos de estabilidade climática seguidos de aumentos de temperatura e tudo indica que 2009 voltará a ser um ano quente. Delgado Domingos também se esqueceu de referir que, de acordo com os mesmos dados do "UK Met Office", os 10 anos mais quentes do registo climático moderno registaram-se desde 1997.

Portanto e passando ao lado de se ter optado por ignorar a bateria de dados independentes sobre alterações climáticas no artigo do Expresso (designadamente os que advém da observação de como o sistema biológico responde a ela), é claro que a argumentação apresentada é, além de incompleta, rebatível.

B - Os emails roubados demonstram a existência de uma fraude científica que compromete a credibilidade da ciência climática

Aqui Delgado Domingos parece misturar duas possibilidades distintas: a possibilidade de ter havido uma fraude que compromete a ciência climática no seu conjunto (a opinião veículada no artigo) e a possibilidade de que tenham havido comportamentos eventualmente reprováveis por parte um grupo restrito de climatólogos sem que isso tenha tido consequências práticas ou que, a ter, tenha tido consequências limitadas. A primeira interpretação é, no meu entender, abusiva e carece de demonstração. A segunda, está por comprovar e para isso foi nomeada uma comissão independente. Esta comissão analisará a totalidade da informação disponível e não só a que foi seleccionada e colocada fora do contexto para divulgação na internet.

Além desta aparente "confusão" sobre as eventuais implicações do alegado "climategate", que pode ter levado Delgado Domingos a empolar algumas das palavras usadas no artigo do Expresso, há factos que nos dão indícios de que a interpretação de Delgado Domingos tenha sido precipitada. Se não vejamos:

Delgado Domingos diz que houve uma tentativa de silenciar cientistas críticos, alterando "as regras de aceitação das publicações para consideração nos Relatórios do IPCC de modo a suprimir as críticas fundamentadas às suas conclusões". É verdade que, no calor do debate, dois artigos foram criticados (S. McIntyre and R. McKitrick Energy Environ. 14, 751–771; 2003 e W. Soon and S. Baliunas Clim. Res. 23, 89–110; 2003) e que se escreveu que estes deveriam ser erradicado do relatório do IPCC, mesmo que para isso fossem redefinidas as regras para inclusão de artigos no relatório do IPCC. As frases exactas terão sido: "I can't see either of these papers being in the next IPCC report" (diz Jones a Mann); "Kevin [Trenberth] and I will keep them out somehow - even if we have to redefine what the peer-review literature is"). Independentemente do que foi escrito nestes emails, em registo privado, o que interessa é o que foi feito. E o que foi feito é que ambos artigos foram referidos no relatório do IPCC pelo que não existe qualquer demonstração de fraude a este respeito.

Outro argumento utilizado para demonstrar a existência de uma fraude reside na sugestão de que os dados climáticos até 1960 terão sido destruídos. Aparentemente tal conclusão derivaria de uma frase de Phil Jones, num dos emails: "I think I'll delete the file rather than send to anyone". Mais uma vez, independentemente do que possa ter sido dito no contexto de discussões acaloradas estabelecidas entre colegas, em privado, a afirmação de que os dados foram destruídos já foi formalmente negada por Phil Jones (que será agora forçado a demonstrar que assim é na comissão de inquérito). A ser verdade que os dados tivessem sido suprimidos, seria obviamente gravíssimo. Porém, os dados continuariam a existir na sua fonte. Isto é, nos institutos que produzem os dados e os enviam ao CRU pelo que seria sempre possível voltar a juntá-los para reanalisar os dados.

No seu texto, Delgado Domingos faz outras afirmações excessivamente simplistas que comprometem a lógica do raciocínio apresentado. Por exemplo, numa passagem do artigo afirma que a "verdade [do aquecimento global actual] é incompatível com o Período Quente Medieval (em que as temperaturas foram iguais ou superiores às actuais apesar de não existirem emissões de CO2eq". Esta é uma afirmação provavelmente desactualizada. A verdade é que hoje se questiona que o Período Quente Medieval tenha sido um fenómeno global. Além do mais, é óbvio que o aquecimento actual é um período de aquecimento entre vários (ninguém o nega e o relatório do IPCC tem um capítulo inteiro sobre o assunto) e que no passado o planeta já foi exposto a temperaturas superiores às actuais. O último período com temperaturas superiores às actuais pode ter sido durante o último inter-glacial que ocorreu há cerca de 125.000 anos. Também é óbvio (e mais uma vez ninguém o nega) que o CO2eq é apenas um mecanismo, entre vários, a afectar a dinâmica climática do planeta. Neste contexto, interpreta-se mal que na sequência da constatação acima referida, Delgado Domingos afirme "Esconder ou suprimir estas constatações foram objectivos centrais da fraude científica agora conhecida".

Apesar das minhas profundas discordâncias com o tom, oportunidade e conteúdo do artigo de Delgado Domingos, há alguns pontos em que ambos partilhamos de pontos de vista comuns. Estes sintetizam-se numa das últimas frases do texto "Chame-se variabilidade climática ou alteração climática, os problemas de fundo da sustentabilidade ambiental permanecem e agravam-se pelo que devem ser atacados com determinação e realismo". Eu acrescentaria que uma excessiva focalização da actividade política sobre as ameaças das alterações climáticas pode ter efeitos contraproducentes (já está a ter, nalguns casos) na sustentabilidade global dos nossos recursos biológicos. É que alguns dos remédios apresentados para mitigar as alterações do clima e permitir a nossa adaptação aos mesmos têm efeitos negativos sobre o mundo vivo e sua capacidade de persistir num mundo em acelerada mudança. Este tema foi desenvolvido num artigo que pode ser lido aqui.

PS. Continuaremos a dar informação actualizada sobre o alegado "climategate". Para esse efeito criou-se uma etiqueta no blogue "climategate" que permitirá aos leitores interessados o acesso directo a todos os artigos que foram escritos e divulgados sobre o tema. Como complemento a este artigo de opinião sugere-se a leitura dos editoriais das revistas Nature, Science, New Scientist e The Economist. Ainda que com pontos de vista nem sempre coincidentes, estes textos oferecem uma visão equilibrada e informada do tema em apreço.

O que aconteceu ao aquecimento global?

Um dos argumentos reptidos esta semana, no auge do debate sobre o caso "climategate", como prova de que as alterações climáticas globais não existem, é que o registo global de temperaturas não indicia um aumento desde 1998. Vale a pena ler o que diz a revista Science na sua edição de 2 de Outubro de 2009.

What Happened to Global Warming? Scientists Say Just Wait a Bit

Richard A. Kerr

Adaptação da revista Science de um artigo de J. KNIGHT et al., BULL. AMER. METEOR. SOC., 90 (SUPPL.), S22--S23 (AUGUST 2009)

The blogosphere has been having a field day with global warming's apparent decade-long stagnation. Negotiators are working toward an international global warming agreement to be signed in Copenhagen in December, yet there hasn't been any warming for a decade. What's the point, bloggers ask?

Climate researchers are beginning to answer back in their preferred venue, the peer-reviewed literature. The pause in warming is real enough, but it's just temporary, they argue from their analyses. A natural swing in climate to the cool side has been holding greenhouse warming back, and such swings don't last forever. "In the end, global warming will prevail," says climate scientist Gavin Schmidt of NASA's Goddard Institute for Space Studies (GISS) in New York City.
The latest response from the climate community comes in State of the Climate in 2008, a special supplement to the current (August) issue of the Bulletin of the American Meteorological Society. Climate researcher Jeff Knight and eight colleagues at the Met Office Hadley Centre in Exeter, U.K., first establish that—at least in one leading temperature record—greenhouse warming has been stopped in its tracks for the past 10 years. In the HadCRUT3 temperature record, the world warmed by 0.07°C±0.07°C from 1999 through 2008, not the 0.20°C expected by the Intergovernmental Panel on Climate Change. Corrected for the natural temperature effects of El Niño and its sister climate event La Niña, the decade's trend is a perfectly flat 0.00°C.

So contrarian bloggers are right: There's been no increase in greenhouse warming lately. That result came as no surprise to Knight and his colleagues or, for that matter, to most climate scientists. But the Hadley Centre group took the next step, using climate modeling to try to quantify how unusual a 10-year warming pause might be. In 10 modeling runs of 21st century climate totaling 700 years worth of simulation, long-term warming proceeded about as expected: 2.0°C by the end of the century. But along the way in the 700 years of simulation, about 17 separate 10-year intervals had temperature trends resembling that of the past decade—that is, more or less flat.

From this result, the group concludes that the model can reproduce natural jostlings of the climate system—perhaps a shift in heat-carrying ocean currents—that can cool the world and hold off greenhouse warming for a decade. But natural climate variability in the model has its limits. Pauses as long as 15 years are rare in the simulations, and "we expect that [real-world] warming will resume in the next few years," the Hadley Centre group writes. And that resumption could come as a bit of a jolt, says Adam Scaife of the group, as the temperature catches up with the greenhouse gases added during the pause.

Pinning the pause on natural variability makes sense to most researchers. "That goes without saying," writes climate researcher Stefan Rahmstorf of Potsdam Institute for Climate Impact Research in Germany by e-mail. "We've made [that point] several times on RealClimate," a blog. Solar physicist Judith Lean of the Naval Research Laboratory in Washington, D.C., and climate modeler David Rind of GISS reached the same conclusion in a peer-reviewed 15 August paper in Geophysical Research Letters. They broke down recent temperature variation into components attributable to greenhouse gases, pollutant aerosols, volcanic aerosols, El Niño/La Niña, and solar variability. Combined, those influences explain all of the observed variability, by Lean and Rind's accounting. But unlike the Hadley Centre's model-based analysis, this assessment attributes a good deal of climate variability to variability in solar activity. That's because most models can't translate solar variability into climate variability the way the actual climate system can (Science, 28 August, p. 1058), Rind says.

Researchers may differ about exactly what's behind recent natural climate variability, but they agree that no sort of natural variability can hold off greenhouse warming much longer. "Our prediction is that if past is prologue, the solar component will turn around and lead to rapid warming in the next 5 years," says Rind. Climate modeler David Smith of the Hadley Centre, who was not involved in the State of the Climate analysis, says his group's climate model forecasts—made much the way weather forecasts are made—are still calling for warming to resume in the next few years as ocean influences reverse (Science, 10 August 2007, p. 746). Whether that's in time to boost climate negotiations is anyone's guess.

sexta-feira, dezembro 04, 2009

Nações Unidas investigam Climategate

O Painel das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (IPCC) vai iniciar uma investigação própria sobre as alegações de que os dados usados no relatório do IPCC foram truncados.

Rajendra Pachauri, "chairman" do IPCC disse à radio 4 da BBC que:

''We will certainly go into the whole lot and then we will take a position on it,''.

''We certainly don't want to brush anything under the carpet. This is a serious issue and we will look into it in detail.'

Notícia completa aqui

Climategate - A opinião da Science

Já publicámos a opinião da prestigiada revista Nature e agora deixamos a opinião da não menos importante revista Science.

Stolen E-mails Turn Up Heat on Climate Change Rhetoric

Eli Kintisch

The theft and unauthorized release last month of 1000 private e-mail messages from the servers of the Climatic Research Unit (CRU) at the University of East Anglia in the United Kingdom has provided a glimpse into the fractious world of climate science. The public airing of frank conversations among powerful scientists about sensitive topics such as possible holes in their data and the use of contrarian papers in major reports comes at a pivotal time for climate science, just days before a meeting of world leaders in Copenhagen.

The messages—whether hacked or released by a disgruntled insider—have raised thorny questions about the proper behavior of researchers who feel under siege for their science. How willing should they be to share their raw data with their staunchest critics? "It's very difficult to admit that your data are not as strong as you wish it were, especially if you know that will be used against you," says Nicholas Steneck, an expert on research integrity at the University of Michigan, Ann Arbor. And yet the "circle the wagons" mentality conveyed in numerous messages could inflict lasting "damage to the public credibility of climate research," warns climate scientist Judith Curry of the Georgia Institute of Technology in Atlanta.

But openness just leads to twisted interpretations, says NASA climate researcher Gavin Schmidt. "You can't have a spelling mistake in a paper without it being evidence on the floor of the Senate that the system is corrupt," says Schmidt.

Four e-mail exchanges have received most of the media attention. The first regards a research finding considered by most scientists as a canonical fact: that the globe warmed by roughly 0.7°C in the 20th century. That fact derives in large part from global temperature data recorded by stations on land and sea, as analyzed independently by groups at East Anglia, NASA, and the U.S. National Oceanic and Atmospheric Administration.

Referring to requests for climate data from critics, CRU Director Phil Jones wrote in 2005 that "I think I'll delete the file rather than send to anyone." In May 2009, Jones told Michael Mann of Pennsylvania State University, University Park, to "delete any emails" to a colleague about their work on the Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) report and to ask a third colleague to do the same. (Mann says he conveyed the message but deleted no messages himself.) Through a spokesperson, Jones declined an interview request. But in a statement he said that "no record" has been deleted amid a bombardment of "Freedom of Information requests." CRU acknowledged in August that it deleted old data on digital tapes to make space for a move.

A second message relates to a chapter in the 2007 IPCC report that Jones edited. In 2004, he suggested that two recent papers on temperature trends didn't deserve to be published in a peer-reviewed journal. "I can't see either of these papers being in the next IPCC report," he wrote Mann. "Kevin [Trenberth] and I will keep them out somehow - even if we have to redefine what the peer-review literature is." But Trenberth, of the National Center for Atmospheric Research in Boulder, Colorado, says the papers were indeed considered. Thomas Karl, director of the National Climatic Data Center in Asheville, North Carolina, an official reviewer for the chapter, says the IPCC's peer-review procedures "were sacrosanct." Both papers wound up being cited.

A third message is viewed by critics as an acknowledgement that global warming has ceased. "The fact is that we can't account for the lack of warming at the moment and it is a travesty that we can't," wrote Trenberth in October. Contrarians have noted the lack of record new highs in global temperature since 1998 (Science, 2 October, p. 28). But Trenberth was actually bemoaning something else. "The observing system we have is inadequate for tracking energy flow through the climate system," he observed, affecting the forecasting of year-to-year climate changes.

A fourth message, about assembling a diagram for a 1999 World Meteorological Organization report, has been misinterpreted, says Trenberth (see graphic). Scientists believe proxy data such as tree rings are valuable for reconstructing past climates, but certain tree-ring data became unreliable midway through the century. So scientists used proxy data for all but the final 40 years of the millennium before switching to instrumental data in 1961. "Reasonable people," writes Stephen McIntyre, a retired industry consultant and prominent blogger, might conclude that the decision not to show the divergence of the two data sets was "simply a trick" to avoid giving fuel to skeptics.

Whatever their meaning, the messages have emboldened opponents. Some are calling for congressional hearings and, possibly, lawsuits. Penn State says that it is "looking into" the matter, and the University of East Anglia has announced an investigation into the theft and contents of the e-mails.

Scientists know they will need every bit of credibility to defend their findings from future attacks. But Curry suggests that it would be better to bring the skeptics into the fold than to keep them out. That way, she says, the critics will "quickly run out of steam and become irrelevant."