segunda-feira, maio 28, 2012

À atenção do movimento ambientalista

Creio que já conhecerão esta notícia.
Da próxima que pensarem em se queixar da falta de cultura de participação dos portugueses, que não compreendem o vosso enorme esforço e dedicação ao bem comum, antes de falar releiam esta notícia: 37 mil voluntários, doações em crescendo e batendo recordes e zero queixas sobre falta de recursos.
Da próxima vez, para variar, queixem-se antes de não conseguirem o que outros conseguem: resposta e preocupação com problemas concretos de pessoas concretas, trabalho socialmente reconhecido por corresponder a problems reais de pessoas reais, transparência absoluta de contas, informação clara sobre a actividade da organização, organização e eficácia para a integração de voluntários que dão o que acham, e não o que vocês acham que é a obrigação e dever dos voluntários.
E, sobretudo, mais preocupação com os destinatários finais do trabalho das organizações que com os problemas dos funcionários (e outros beneficiários intermédios) das organizações.
Resolvam-se a mudar os princípios de actuação, que os portugueses, como quaisquer pessoas de bem em qualquer parte do mundo, corresponderão ao que for justo e orientado pelo bem comum.
Deixem de passar o tempo a explicar o que os outros poderiam fazer pelas vossas organizações e concentrem-se em fazer aquilo que efectivamente podem fazer pelos outros.
henrique pereira dos santos

sábado, maio 26, 2012

Bem perguntado

Gonçalo Elias perguntou hoje num comentário a este post: "Há dois anos escreveste isto: "Dentro de dois anos, graças às fortes obrigações dos promotores em matéria de monitorização, teremos uma ideia se foi uma boa ou má decisão autorizar este parque eólico." Será que nesta altura é possível chegar a alguma conclusão?"
É bom ter leitores assim.
O que sei sobre o processo é bastante menos do que sabia quando os relatórios de monitorização me chegavam às mãos, mas tanto quanto sei não foi identificado nenhuma problema sério para a conservação.
A confirmar-se isto, que só um escrúpulo intelectual afiado me leva a pôr no condicional, a decisão de licenciar o parque eólico terá sido a correcta (ou melhor, não terá tido efeitos negativos na conservação, porque poderia ter sido a correcta com a informação existente na altura e ter aparecido qualquer coisa inesperada e que desse mau resultado).
Obrigado Gonçalo, foi dos comentários deste blog que mais gostei de ler. Espero agora que se alguém tiver informação em contrário a traga para a podermos discutir.
henrique pereira dos santos

sábado, maio 19, 2012

A citizen science e os investigadores fascinados

Fantástica fotografia retirada daqui
Está em curso o Pé n'A Terra, organizado pelos parceiros, amigos e participantes no biodiversity4all.
E ontem foi o Dia Internacional do Fascínio das Plantas.
A minha contribuição para o Pé n'A Terra foi integrar um passeio que se iria fazer na quinta feira da espiga (o passado dia 17) na lógica de registo de biodiversidade e convidar o Francisco Barros para ir connosco e nos ajudar na identificação e registo de biodiversidade.
E quando há uma semana descobri que havia uma iniciativa concreta integrada neste dia internacional do fascínio das plantas sugeri (é certo, muito em cima da iniciativa) que no passeio de hoje da iniciativa se fizesse a ligação ao registo e disponibilização de informação (não sei o resultado).
Mas sei que nas inúmeras iniciativas do dia do fascínio das plantas há algumas com saídas de campo.
E calculo que de nenhuma dessas iniciativas resulte um registo democrático e aberto do que se observar (seja no biodiversity4all, seja na flora on, seja noutra base aberta qualquer).
O biodiversity4all tem neste momento cerca de 130 000 registos, e mantem-se o objectivo, difícil, de 250 000 no fim do ano. Seja ou não atingido este objectivo de 250 000 observações no fim de 2012, objectivo alcançável mas difícil, não parece absurdo pensar que num prazo de cinco anos existam nesta base cerca de meio milhão de observações.
Muitas dessas observações estarão noutras bases com quem se estabelecem canais de comunicação, como se está a tentar em relação a várias, e já existe em relação a poucas.
Mesmo assim há um conjunto de pessoas que se recusam a reconhecer o interesse do Biodiversity4all com o estafado argumento de que alguém que veja um falcão na sua varanda pode registar uma águia imperial.
É um argumento preguiçoso de quem não quer olhar para a forma como esse tipo de situações são tratadas e apenas conclui que pelo facto de ser possível um registo destes toda a base de dados não é de confiança.
O curioso, numa base com 130 000 observações, é que a alegação da sua falta de fiabilidade não se faz por via da demonstração de observações claramente erradas (que as haverá, com certeza) mas com base numa hipótese não verificada.
Há muita gente a esquecer-se de que nunca se perde o vínculo entre observação e observador, sendo possível investigar cada observação fora do normal através do contacto directo com o observador, com a sua história de observação, com os seus conhecimentos e por aí fora, permitindo limitar os efeitos de observações estranhas.
Ao mesmo tempo estas pessoas esquecem-se de que o biodiversity4all está na base da identificação de novas observações de espécies que não eram referidas há anos e mesmo na base da descrição de novas espécies para a ciência, por via do contacto de observadores de todo do sistema científico e bons naturalistas de campo.
Há até um investigador que se tem servido do biodiversity4all para a sua investigação, em especial usando observações e o contacto do observador para obter dados e identificar partes do território a inventariar, mas que não coloca uma única das suas observações na base porque alega que não tem credibilidade.
A explicação para esta desconfiança da academia encartada em relação à chamada citizen science é por um lado a deficiente compreensão das naturezas diferentes dos inventários científicos sistemáticos e dos registos aleatórios de massas, e por outro uma arrogância natural da academia, em Portugal, face ao comum dos mortais.
Penso que nada ilustra melhor isto que uma frase retirada do artigo de Amélia Loução que o Público hoje publica a propósito do Dia Internacional do Fascínio das Plantas: "Qual o motivo desta celebração a nível europeu ao (sic) qual inúmeros outros países da América Latina se juntaram? Precisamente para mostrar ao público em geral por que é que existem cientistas que se fascinam com as plantas, a sua beleza, o que nos proporcionam e nos possibilitam".
É isto. Há académicos, com grande responsabilidade na relação das pessoas comuns com a ciência, como é o caso, que acham que a capacidade de se fascinar com o mundo que nos rodeia é uma prerrogativa dos cientistas, arduamente obtida através do calvário dos graus académicos. E consequentemente acham que só dos cientistas se pode esperar uma observação e registo fiável do mundo.
Estão enganados, a fascinação pelo mundo é uma relação emocional ao alcance de qualquer pessoa. E qualquer amador se pode transformar na coisa amada por virtude de muito imaginar, não tendo mais que desejar por ter em si a parte desejada.
Na verdade estas celebrações deveriam, sobretudo, servir para mostrar aos cientistas em geral porque é que existem pessoas comuns que se fascinam com a biodiversidade.
E como perdemos, todos, com a prática, reiterada, das instituições científicas desvalorizarem os contributos das pessoas comuns para a ciência.
henrique pereira dos santos

sábado, maio 12, 2012

Viana Barreto


Morreu hoje.
A fotografia é o que se arranja, a fotografia de um homem discreto (no sentido actual e arcaico da palavra). Não sou dado a necrologias, mas neste caso abro uma excepção para um homem a quem Portugal deve muito mais do que alguma vez reconheceu.
Morreu um homem bom. Que a terra lhe seja leve.
henrique pereira dos santos

Pé n'a Terra


No ano passado a plataforma Biodiversity4all aproveitou o dia da terra para lançar uma iniciativa de visitas com registo de biodiversidade.
As visitas vão desde iniciativas comerciais (pré-existentes ou não), até passeios de amigos (pré-programados ou especificamente desenhados para este efeito).
Este ano a iniciativa repete-se no dia da Biodiversidade, ou melhor, desde 17 de Maio (quinta feira da espiga ou da Ascenção) até 27 de Maio, o Domingo seguinte ao dia da Biodiversidade.
Já estão no site da plataforma os calendários com as iniciativas já registadas. Mas ainda se vai muito a tempo de registar novas iniciativas (aliás, há várias iniciativas programadas que ainda não estão registadas).
Com cem mil registos no primeiro ano, com quase 130 mil neste momento e com um objectivo de 250 mil observações até ao fim do ano, estão largamente ultrapassadas as minhas esperanças iniciais, primeiro de 10 000 observações ao fim de cinco anos, depois das 25 mil observações ao fim de cinco anos de que falava em Dezembro de 2010.
Agora tenho falado em meio milhão de observações em cinco anos, que corresponde a manter-se o ritmo de 100 mil observações anuais.
O Pé na Terra é apenas uma das várias iniciativas com que se pretende fazer do registo democrático e acessível da biodiversidade uma coisa normal e vulgar de que todos beneficiamos.
Bem sei que em muita gente que poderia dar um bom e qualificado contributo para isto perduram fantasmas de registos de ursos pardos em Almeirim, por exemplo. Perduram esses fantasmas porque se demitiram de procurar analisar os mecanismos que a plataforma tem para lidar com esta possibilidade.
Por mim, em vez de andar atrás de fantasmas, vou participar, com o Francisco Barros, numa iniciativa meia comercial que celebra a quinta feira da espiga e a fecundidade da natureza pródiga que nos alimenta, através de um conceito que pode ser visto neste video.
Venham mais cinco, levar por diante mais iniciativas, ou para se juntar às iniciativas existentes, levando mais gente ao contacto com a natureza, ao hábito da identificação, à rotina do registo.
Sempre é mais útil que ficarmos escondidos por baixo dos lençóis com medo de fantasmas.
henrique pereira dos santos

terça-feira, maio 01, 2012

Duas excelentes exposições no MNHN


Estive este fim-de-semana no Museu Nacional de História Natural, onde visitei duas exposições sobre biodiversidade: "Piu - Um despertar para os sons da natureza" e "Presos no charco". Ambas as exposições são excelentes. A primeira introduz o conceito de paisagens acústicas e foi coordenada pelo Paulo Marques, um investigador em comunicação animal. Apresenta paisagens acústicas de vários pontos do país, e desenvolve a ideia de monitorização da biodiversidade a partir da monitorização destas paisagens acústicas ao longo dos anos. É uma excelente abordagem que me deixou a pensar em termos de generalização a nível global, na rede GEO BON que tenho vindo a desenvolver com outros colegas por esse mundo fora. Com um conjunto de "ninhos" interactivos o visitante é exposto à forma como as paisagens acústicas são compostas por diferentes sons, de vários animais e também de máquinas e actividades humanas.
A outra exposição debruça-se sobre a biodiversidade dos charcos temporários, e foi coordenada pela Maria José Caramujo, uma investigadora que tem estudado os crustáceos que habitam estes micro-habitats. É um mundo de mini e micro-organismos para o qual não estamos normalmente despertos, mas que é trazido para a nossa escala de uma forma cativante pela equipa da exposição. Ficamos a conhecer algumas das espécies mais comuns nestes habitats e também a forma como resistem à dissecação durante o Verão.
Vale a pena a visita.

Do risco e da inovação


Tenho uma ligação próxima ao projecto Biodiversity4all, por isso há muito sabia que isto estava em preparação. Mas só hoje, por acaso, verifiquei que já estava on-line.
Corresponde a um passo tecnicamente complexo e com riscos muito elevados de informação não tão precisa como gostariam os puristas.
Mas é um pequeno passo num caminho novo, possível pela colaboração da ALTRI e pela vontade de ir mais longe.
Às 125 000 observações de espécies podem agora ir-se juntando observações mais complexas.
Espero que não se concentrem nos problemas que daí advirão, que "são de todos e virão", parafraseando o Jorge de Sena sobre a morte, mas sim no que isto representa de inovação, de risco mas também de oportunidade.
Eu gosto de apoiar quem não se assusta com o risco, sem deixar de o conhecer e ponderar.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, abril 30, 2012

O retorno do urso a Portugal

Por infeliz coincidência os meus últimos posts que referem um possível avistamento relativamente recente de um urso nas serras do Parque Nacional foram contaminados pelo facto de ter andado um urso em Albergaria a ser filmado para um anúncio.
Daí alguns comentários cépticos sobre o assunto, traduzindo o cepticismo quanto à possibilidade de um regresso eminente do urso a Portugal.
Gostaria de fazer sobre isso alguns comentários.
1) O primeiro prende-se com uma sugestão de leitura para evitar a repetição ad aeternum da ideia, errada, de que o urso desapareceu de Portugal no século XVII (mais precisamente 1650), com base num texto de Baeta Neves;
2) O referido no artigo cuja leitura aconselho é suficientemente claro e sólido para que não haja dúvidas de que o urso existia em Portugal muito para cá do século XVII;
3) A leitura integral dos onze volumes das "Memórias arqueológicas-históricas do distrito de Bragança (1909-1947)" do Abade de Baçal, ali por volta de 1983, já me tinha convencido de que o urso, pelo menos em Trás-os-Montes, tinha permanecido em Portugal muito para cá do século XVII (quase trinta anos depois não sei exactamente em que ponto das memórias estão as referências ao urso, e como o meu relatório de estágio desapareceu sem deixar rasto, nem sequer tenho a possibilidade de ir ver se por acaso registei isso como deve ser);
4) Ainda recentemente, ao ler os forais dionisinos, fim do século XIII, da região de Vila Pouca de Aguiar (Documentação dionisina do concelho de Vila Pouca de Aguiar, Maria Olinda Rodrigues Santana, Mário José da Silva Mineiro, edições Colibri) lá aparecem os tributos das mãos de urso em quase todos, com excepção de um dos forais;
5) Note-se que o poderoso assoreamente do litoral entre o Espinho e S. Pedro de Moel, que se terá acentuado a partir do século X, estaria já, no fim do século XIII, bastante consolidado, o suficiente para que D. Diniz procurasse limitar os efeitos da invasão das areias com a florestação das dunas, como é do conhecimento geral. O que significa que uma parte muito importante do arroteamento e desflorestação de Portugal estaria já concretizado também, quando estes forais das serras do Norte continuam a referir tributos em mãos de urso. Claro que há muito arroteamento e desflorestação posterior ao fim do século XIII, mas convém repelir a ideia absurda de que o processo de substituição das matas por agricultura e pastagem é uma coisa mais ou menos recente;
6) O artigo cuja leitura recomendo no ponto 1) é muito claro na identificação de evidências de presença do urso na zona fronteiriça de Portugal, quer junto ao Parque Nacional, quer junto ao que é hoje do Parque Natural de Montezinho, na primeira metade do século XX;
7) Essa presença parece ser uma presença em clara perda, isto é, os restos de populações acossadas de urso, embora ainda com evidência de reprodução;
8) De então para cá essa presença desvaneceu-se, consistentemente com o pico de pressão sobre o território e o recuo máximo das formações vegetais para-climácicas que se verifica nos anos 50;
9) Mas desde o fim dos anos 50 há uma inversão de tendências, diminuindo a pressão sobre o território e assistindo-se a uma poderosa recuperação dos carvalhais, em especial na zona Noroeste da Península Ibérica, uma das zonas de maior produtividade primária da Europa;
10) Esta recuperação é particularmente visível a partir dos anos 80 do século XX, sendo hoje a matriz que condiciona a dinâmica de recuperação de um conjunto de espécies (lobo, corço, marta, esquilo, etc.) que beneficiam da mata, e da dinâmica de contenção de outras espécies (coelho, embora mais fortemente condicionada pelas doenças, águia real, provavelmente algumas cobras, perdiz, lebre, etc.) que beneficiam da clareira;
11) O urso é dos claros e mais evidentes beneficiários da recuperação dos carvalhais, estando hoje em expansão, admitindo-se que o isolamento actual seja uma situação atípica e pouco usual ao longo da história;
12) "Así, aunque el número de osas con oseznos aumenta paulatinamente y en los últimos diez años prácticamente se ha duplicado, el área reproductiva donde se localizan las hembras con oseznos no lo hace de igual manera y se expande mucho más lentamente por la filopatría de las osas, que tienden a formar agrupaciones matrilineales."
Duplicação em dez anos. Repito, duplicação em dez anos. Repito, duplicação em dez anos. Isto dito em 2005, mais coisa, menos coisa, sendo que daí para cá este processo se tem acentuado.
A minha conclusão é clara: os sorrisos irónicos que respondem a cada nova referência à eminência da chegada do urso a Portugal correm o risco de ficarem um bocado amarelos com o tempo.
E é bem possível que não venha assim tão longe esse dia.
É tempo de dizer que também reagi com sorrisos irónicos, mais ou menos, quando João Menezes, então Presidente do ICNB, defendeu, em círculo restrito, a assumpção da reintrodução do urso como bandeira forte do ICNB e da política de conservação em Portugal.
Hoje acho que ele tinha razão, antes do tempo, provavelmente, mas tinha razão.
henrique pereira dos santos

domingo, abril 29, 2012

Portugal, Luz e Sombra

Duarte Belo publicou recentemente o livro Portugal Luz e Sombra que recomendo vivamente (podem aproveitar a feira do livro).
Para abrir o apetite podem visitar o site do livro.
O que me interessa neste post é apenas fazer notar que quando alguém argumenta com as alterações de habitat para a diminuição do lince é com certeza por desconhecer o passado.
Olhem bem para a imagem, cliquem para ampliar e comparem a envolvente de Mértola dos anos 40 do século XX com o que é hoje.
É uma observação pontual e não sistemática? É. É consistente com o que se sabe de gestão da paisagem? É. É coerente com os dados estatísticos de uso do solo? É.
Prova alguma coisa? Não.
Mas indicia.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, abril 26, 2012

Avaliação de políticas de conservação


A discussão sobre conservação do lince dos últimos posts, que é, em muitos aspectos, semelhante à discussão sobre os fogos, interessa-me sobretudo enquanto gestor de recursos (tal como a discussão dos fogos).
E como gestor de recursos a questão não é a de saber se se conseguem obter resultados positivos mas sim se se conseguem obter resultados positivos com o mínimo de recursos possível.
Vejamos o que tem vindo a ser dito de algum tempo a esta parte: o lince está a recuperar porque houve 50 milhões de euros investidos mas ainda está numa situação de enorme fragilidade pelo que é fundamental manter estes níveis de financiamento.
Vejamos o que eu digo: o lince está a recuperar porque a população de coelho está a recuperar e a maior fragilidade que existe é a de que uma nova doença do coelho provoque nova regressão nas populações de coelho, situação em que é relativamente indiferente o que quer que se invista na conservação de lince in situ.
As duas interpretações da realidade são mais ou menos lógicas e mais ou menos compatíveis com a evidência empírica conhecida. Divergem em dois pontos essenciais: 1) a primeira interpretação diz que a recuperação de coelho resulta dos investimentos feitos; 2) a primeira interpretação diz que pode haver recuperação de coelho sem que isso se reflicta na conservação do lince porque não existem populações dadoras. A segunda interpretação contesta esta dois pontos.
Há portanto que procurar a informação empírica que existe para ir o mais longe possível na fixação de informação empírica que possa reduzir a amplitude das interpretações.
Comecemos por procurar estabelecer uma cronologia, o que é sempre útil em processos dinâmicos e complexos.
O que sabemos sobre a população de lince é que há um recuo ao longo do século XX (não sabemos grandes pormenores), em especial na segunda metade do século XX, que é muito acentuado a partir do fim dos anos 80 do século XX, havendo uma recuperação a partir de 2002 (mais ano menos ano).
O que sabemos sobre a população de coelho é que foi vítima de uma doença nos anos 50 que conduziu a uma redução da sua população entre 90 a 95% e que teve depois uma recuperação que foi de novo abruptamente cortada por outra doença no fim dos anos 80 do século XX, estando a recuperar mais ou menos desde os anos 2000 (mais ano, menos ano). Sobre esta dinâmica da população de coelho convém ter em atenção que embora exista muita literatura que relaciona esta dinâmica com alterações de uso do solo e com sobre-caça não há informação empírica que possa suportar qualquer ideia de alterações de população da ordem dos 90%, seguidas de recuperações, se não as doenças. Todos os outros factores não têm qualquer sobreposição cronológica com as variações de coelho.
Sabemos ainda que o primeiro life na andaluzia (é o que interessa para este efeito) é de 1994 a 1999, mas foi sobretudo de aquisição de conhecimento e sensibilização, portanto sem efeito real na recuperação quer do coelho, quer do lince. O segundo LIFE é aprovado, activo entre 2002 e 2006. Durante este projecto aumentou o número de linces em quase 50% e os territórios entre 25% e 30%. Mas também sabemos que em Castilla la Mancha, onde não houve projecto life nenhum, a população de coelhos e lince também aumentou substancialmente. Note-se que só na serra Morena o aumento de linces de 2003 para 2004 foi de 15%, sendo mais que duvidoso que se possa atribuir este crescimento, numa espécie como um mamífero do topo da cadeia trófica, a acções feitas no ano anterior. Acresce que em Doñana, onde o mesmo projecto LIFE foi executado, a população de linces aumentou razoavelmente de 2003 para 2004 (10%) mas diminui no ano seguinte (-5%). Ou seja, é muito difícil estabelecer uma relação directa entre a execução das acções de conservação e a dinâmica da espécie.
O life lince vem depois, seguindo basicamente os mesmos princípios.
Não é de estranhar que o efeito destes projectos seja razoavelmente marginal para a dinâmica das espécies. Basta notar que os cerca de 50 000 000 de euros, se fossem totalmente investidos em gestão de habitat, representariam cerca de 600 euros por hectare em dez anos, ou seja, cerca de 60 euros por hectare por ano, que é menos que o custo de uma gradagem. Ou seja, o investimento do projecto em gestão do terreno (e é evidente que a maioria do dinheiro não vai para essas actividades) é incomparavelmente mais pequeno que o investimento feito pela economia do território.
Em áreas extensas é natural que os factores económicos que gerem o território tenham incomparavelmente mais peso que qualquer política de conservação, que é sempre uma política supletiva, assente em recursos gerados noutro lado qualquer e transferidos via impostos ou filantropia.
Quer uma leitura cronológica, quer uma leitura de disponibilização de recursos apontam no sentido de que os efeitos positivos das políticas de fomento da espécie in situ são marginais para a sua dinâmica.
É por isso, porque os recursos serão sempre escassos e suplementares face às tendências socio-económicas, que é preciso ser muito rigoroso na discussão da utilidade de cada tostão em matéria de conservação.
Uma coisa é criar uma válvula de segurança mantendo em cativeiro uma população que em qualquer altura pode ser usada para uma reintrodução se se verificar uma situação limite como a que existia no fim dos anos 90, outra coisa, substancialmente diferente, é pretender manter um programa de reintroduções que manifestamente não é necessário neste momento.
As flutuações bruscas de populações que se reproduzem como coelhos não resultam de outros factores que não as doenças. É dos livros. Em prazos mais longos, alterações profundas de habitat podem ter efeitos semelhantes, mas raramente em espécies tão plásticas como coelhos ou lobos, que são espécies adaptadas e adaptáveis a diferentes condições de habitat. Note-se que ao longo do tempo, nos últimos milhares de anos, com óptimo climático medieval, com pequena idade do gelo, nunca a população de coelho se ressentiu das alterações climáticas da mesma forma que se ressentiu das epidemias (algumas delas, como se sabe, desenvolvidas em laboratório, coisa que hoje é mais difícil fazer).
É portanto razoável e sensato manter em cativeiro uma população de linces gerida para poder dar resposta a um eventual colapso das populações de coelho, que pode acontecer em qualquer altura. E os programas de reintrodução podem ter utilidade para acelerar o processo de recuperação quando a população de coelho recupera. Ou mesmo para iniciar a reintrodução se a espécie se extinguir na natureza, o que é possível.
O que não é razoável é continuar a investir milhões na recuperação de uma espécie que está a crescer a 10% ao ano com o argumento de que ainda é preciso andar a reintroduzir linces.
Ou seja, a longo prazo as duas linhas de trabalho para a conservação do lince são: 1) manter em cativeiro uma população que possa ser usada em situações limite; 2) fazer um seguimento epidemiológico das populações de coelho e actuar rapidamente na contenção dos estragos logo que uma uma nova epidemia se declare (como aliás fazemos com os humanos).
Ou dito de outra maneira, nunca desvalorizei os riscos associados a variações bruscas das populações, nem usei tendências de curto prazo para tirar conclusões de longo prazo, bem pelo contrário, tenho usado tendências de longo prazo para criticar as conclusões precipitadas de um monte de especialistas, nomeadamente os muitos que há dez anos ridicularizavam as afirmações que eu já então fazia (e não era o único, mas éramos muito poucos) prevendo que mal a população de coelho recuperasse a população de lince também o faria.
O difícil era perceber o que ia acontecer ao coelho.
Depois desta discussão toda do que me penitencio é da minha estupidez me ter impedido de perceber nessa altura, há dez anos e mais, que sendo a população de coelho atreita a doenças e a surtos epidémicos que provocam flutuações brutais nas suas densidades, o mais natural é que uma espécie que co-evolui com o coelho, como o lince, também tenha mecanismos adaptativos para esta realidade, que é o que parece demonstrar o crescimento extraordinário de 10% da população ao ano que a população de lince vem mostrando.
Se assim for, provavelmente já nos anos cinquenta e sessenta o lince terá tido uma regressão violenta da população, o que explica o baixíssimo número de caçadores que afirmam ter morto um lince nesses anos.
É uma hipótese que gostaria de testar. Se assim for os linces que se encontraram na Malcata, no Sado, em Mira, na serra de Aire, por alturas dos anos 80, não eram os restos de populações maiores mas, pelo contrário, eram os pontas-de-lança da recuperação que se estava a verificar e foi bruscamente interrompida com a pneumonia hemorrágica viral do coelho.
Anotemos então a previsão de ver linces na serra de Aire, em Monfurado e Cabrela, talvez nas dunas de Mira, num prazo de dez a quinze anos.
Escrito e assinado por mim, para nessa altura discutir quem faz análises ligeiras ou não.
Felizmente a minha reputação já não é grande coisa, de maneira que posso jogá-la assim ao poker.
henrique pereira dos santos

terça-feira, abril 24, 2012

Lince Ibérico: O valor da política de reintroduções

Não entrarei em grandes detalhes porque isto é trabalho em curso, não publicado, em colaboração com colegas das Universidades de Adelaide, de Stony Brook e do CSIC de Madrid e de Doñana mas fica uma figura que me parece ser relevante para esta discussão.

No eixo do X temos a linha do tempo e no eixo do y temos o número de populações de linces ibéricos (áreas mais ou menos isoladas com casais reprodutores). A linha azul representa um valor médio e as linhas vermelhas os intervalos de confiança com base em simulações. O primeiro gráfico mostra o número de populações de lince num cenário "business as usual" sem gestão do território (neste caso, gestão de populações de coelhos) e sem reintrodução de linces. O segundo gráfico mostra o mesmo mas com gestão de populações de coelhos que, não obstante, são episodicamente afetados por doenças. Os restantes gráficos representam cenários onde intervêm diferentes estratégias de reintrodução.

Naturalmente isto são resultados de modelos e não a realidade. É possível que as projeções sejam mais otimistas ou pessimistas que a realidade (as nossas projeções indicam que a extinção do lince seria eminente sem políticas de reprodução ex-situ e respetivas reintroduções) mas tudo leva a crer que a comparação entre cenários é robusta. Ou seja, a estratégia "do deixar andar" é menos efetiva que uma estratégia que envolva da gestão intensiva de coelhos e ambas estratégias são inferiores a uma estratégia que combine gestão de coelho com reintroduções.

PS. As projecções na figura são feitas com modelos espacialmente explícitos de PVA (Population Viability Analysis), incluindo interações do lince com populações de coelhos, dos coelhos com as suas respectivas doenças, com uso de solo atual e com projeções futuras de clima e de uso de solo que, no caso vertente, consideram  um aumento de disponibilidade de habitat para o lince na Península Ibérica (ainda que com tendência para degradação da qualidade de habitats no sul e melhoria destas condições no centro e norte). 

O doce e fácil reino do blá, blá, blá

Agradecendo ao Rodrigo o link directo para um site muito interessante sobre um projecto LIFE vale a pena olhar para o que se escreve:
"El lince ibérico es el felino más amenazado del planeta, debido a numerosas razones. En primer lugar, se trata de un especialista de hábitat y presa, por lo que alteraciones de éstos afectan muy negativamente en sus poblaciones. De hecho, una de las causas más importantes que ha llevado al lince ibérico al borde de la extinción ha sido la disminución de su principal presa, el conejo de monte, afectado por la introducción de dos enfermedades víricas: la mixomatosis en los años 50 y la enfermedad vírica hemorrágica del conejo en los años 80, que provocaron un descenso drástico superior al 80% de sus poblaciones. En segundo lugar, la transformación, fragmentación y destrucción de su hábitat (el monte mediterráneo), que acoge una elevada biodiversidad y cuya alteración también afecta a las poblaciones del conejo de monte. Además, otra de las amenazas ha sido la muerte originada por el ser humano, bien de manera involuntaria, como los atropellos, o intencionada, como el uso de técnicas ilegales y no selectivas de caza, furtivismo, uso de venenos, etc. Otra amenaza para las poblaciones de lince ibérico que está cobrando relevancia en los últimos años son las enfermedades. El lince ibérico es una especie con un gran riesgo sanitario (cuenta con escasos efectivos y poseen una alta densidad de individuos), por lo que la aparición de cualquier brote infeccioso se puede dispersar con facilidad y llevar a la extinción a la población local. A esto se une la baja variabilidad genética del lince que, entre otros efectos negativos, se asocia a una pérdida de respuesta del sistema inmune."
Felizmente as referências ao coelho vão-se impondo face ao discurso de há anos atrás, em que as outras ameaças eram apresentadas ao mesmo nível, ou mesmo acima da ameaça decorrente da regressão do coelho.
Mas o que vale a pena notar é o seguinte: nos anos angustiantes da regressão rápida do lince, desde o fim dos anos 80 (com a entrada da pneumonia hemorrágica viral nas populações de coelho), a conversa da destruição do habitat, da morte originada pelo ser humano e coisas que tal eram sistematicamente apresentadas como factores muito relevantes nessa regressão do Lince.
Note-se que as pessoas que usavam esses argumentos nunca se preocuparam muito em responder à perplexidade das poucas, muito poucas, pessoas que chamavam a atenção para duas coisas: 1) a evidência empírica da dinâmica das paisagens não autorizava a leitura que era feita sobre a alteração de habitats; 2) a alegação da existência dessas alterações, no sentido e magnitude descritas para explicar a dinâmica da população do lince, não eram suportadas em estudos específicos de consistentes de dinâmica de habitats.
Cerca de vinte e cinco a trinta anos passados, a dinâmica das populações alterou-se (e, curiosamente, isso reflecte-se pouco nos estatutos de ameaça das espécies em causa, porque os seus especialistas acham politicamente imprudente) mas não o discurso sobre as ameaças, com excepção do crescimento do peso relativo da regressão da população de coelho, que é uma evidência que entra pelos olhos do mais cego dos cegos.
Aparentemente ninguém se entretém a responder à pergunta óbvia: o que se alterou na dinâmica das ameaças (alteração de habitat, morte provocada pelo ser humano e por aí fora) que justifique a poderosa recuperação das populações de coelho e lince (e dos outros predadores de topo associados ao consumo de coelho)?.
Às tantas há um poderoso movimento de arroteamento, de regressão florestal, de diminuição da agricultura intensiva e aumento da agricultura extensiva, de diminuição da caça, de diminuição de atropleamentos e ninguém me informou de nada.
Talvez fosse tempo da biologia da conservação cuidar da sua credibilidade e deixar de aceitar como evidências meras alegações ideológicas sem evidência empírica só porque parecem lógicas e encaixam na ideia de que o homem está sempre no centro de todos os desequilíbrios ambientais.
henrique pereira dos santos

Registar, registar


É já no dia da biodiversidade
henrique pereira dos santos

segunda-feira, abril 23, 2012

Pequena explicação


Quando escrevi o último post resolvi não o fundamentar. Já escrevi vários posts sobre a conservação do lince, já manifestei a minha radical discordância em relação às estratégias adoptadas (tendo posteriormente suavizado as minhas objecções ( que não são técnicas, são de afectação de recursos) à conservação ex-situ, nomeadamente a cria em cativeiro,) e já insisti vezes sem conta na minha convicção de que o stress trófico é um driver de conservação muitíssimo mais relevante que a perseguição directa (incluindo venenos, estradas, barragens, etc.) para os grandes predadores.
Esta minha insistência nestes temas é entendida como uma vontade de ser do contra, mas isso não é verdade, pelo menos não é inteiramente verdade: 1) a teoria da evolução está do meu lado; 2) a evidência empírica de dinâmica da paisagem também. Note-se a quantidade de estudos que se referem a alterações de habitat sem nunca indicarem como fonte da alegação um único estudo sobre dinâmica de paisagens feito por quem faça do assunto o objecto da sua investigação.
Como a opacidade sobre a informação empírica existente sobre o que está a acontecer com as populações de lince ibérico é muita (não porque não exista, ela existe, tem é dificuldade em se tornar mais visível socialmente que os happenings de nascimento de crias em cativeiro), resolvi então ajudar quem quiser informar-se e maravilhar-se com a extraordinária capacidade da mãe natureza se estar nas tintas para o que dizem dele e seguir o seu rumo sem nos dar cavaco.
A população de linces da Andaluzia (que é quase o mesmo que dizer do Mundo, e já lá vamos ao quase) duplicou em menos dez anos, sendo natural que se esteja a assitir à aceleração da velocidade de recuperação, como prevê a teoria.
Apesar do linguajar politicamente correcto e de "nacionalismo" autonómico, a verdade é que quanto mais próxima é a informação, mais evidente se torna o que está a acontecer.
É certo que o mainstream comunicacional continua a falar de tendências populacionais regressivas, mas convenhamos que não será por muito mais tempo que será possível manter o discurso.
Não, não se trata de conversa de jornais, está documentado pela publicação de resultados científicos, mesmo já desde há quase cinco anos.
E o que se passa com o lince é simplesmente o que se está a passar com a águia imperial, a bonelli e todos os outros predadores de topo que gostam de coelho: a recuperação da população de coelho (como expectável na teoria) está a trazer de volta tempos de abundância.
Não se pense que sou eu que sou um optimista inveterado, mesmo os mais empedernidas alarmistas nestas matérias estão em festa com a informação existente.
Com o tempo este tipo de relatos serão vulgares e sairá reforçado o negócio de observação de linces, como já hoje é estável o negócio da observação de lobos.
Mas continuarei a combater ferozmente a história oficial desta quase extinção e recuperação, em especial a ideia que passa em muitos destes textos de que tudo isto resulta de projectos Life e coisas que tal. Não estou a dizer que tenham sido inúteis, embora esteja convencido de que foram muito pouco custo-efectivos.
Os milhões que se gastaram a mudar estradas, a alterar barragens e outras coisas que tais teriam sido provavelmente muito mais úteis se tivessem sido concentrados no problema que realmente existia: o controlo das pandemias de coelho.
E vou continuar a bater nesta tecla por uma razão simples: não há nenhuma razão para supor que amanhã não se abata uma nova praga sobre os coelhos. Nessa altura espero que seja possível rapidamente deixar de lado as histórias da carochinha sobre a sobre-caça, as estradas, as barragens e entrarmos directamente na resolução do problema.
E agora é simplesmente esperar que o Urso, que desapareceu de Portugal em meados do século XX e foi avistado de novo há muito pouco tempo, resolva também instalar-se, como é expectável. Seria bom que se compreendessem melhor os mecanismos destas idas e vindas para usar os recursos em coisas sérias em vez de se confundir a nuvem com Juno.
henrique pereira dos santos

domingo, abril 22, 2012

Cinco anos



É o tempo máximo que digo que o lince demorará a chegar a Portugal. Não um bicho tresmalhado, mas a confirmação da criação. É uma previsão temerária, mas fica feita e daqui a cinco anos verificaremos em que ponto estamos.
henrique pereira dos santos

terça-feira, abril 17, 2012

Estudo confirma aquecimento global

Um estudo parcialmente financiado por cépticos climáticos concluiu que o planeta está a aquecer. No link que se proporciona poderá ler uma entrevista a um dos principais autores do estudo que foi publicado na revista online e de acesso gratuíto Nature Climate Change.

quarta-feira, abril 11, 2012

A Maternidade Alfredo da Costa

Questão retórica: haverá alguém que ainda pense que o fecho da Maternidade Alfredo da Costa é apenas uma medida política de planeamento das infra-estruturas de saúde obstétrica em Lisboa? E será que a decisão seria diferente se a Maternidade não estivesse localizada em 1 ha de terreno no centro de Lisboa?
Só resta saber que autoridade tem o Esatado quando se comporta como o maior "pato bravo", sobretudo em época de aperto financeiro.

segunda-feira, abril 09, 2012

Roda viva


O desafio de Abril parece estar a ser um êxito.
Quando se convocam as pessoas elas aparecem. Umas vezes mais, outras vezes menos mas participam. 3 ou 4 por dia não é nada de especial para muita gente.
Obrigado, camaradas.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, abril 05, 2012

Viva a CP, viva a mobilidade sustentável

Sou um cliente muito assíduo dos comboios e faço muita propaganda do bom serviço que prestam. Tenho uma razoável tolerância ao mau serviço que às vezes também prestam e sempre que o comboio é uma alternativa razoável em tempo, opto pelo comboio, mesmo que existam camionetas com condições relativamente melhores de horário (e, às vezes, de conforto, como acontece na linha da Beira Baixa).
Mesmo quando saio da linha de serviço do comboio, em que a falta de flexibilidade do comboio o impede de ser competitivo, opto muitas vezes pelo excelente serviço comboio/ carro de aluguer. O preço é muito razoável, a distância percorrida a guiar muito menor e a flexibilidade entra por via do aluguer do carro se o que tenho a fazer não é em sítios servidos directamente pelo comboio. E o tempo de viagem bastante semelhante à alternativa de levar o carro desde a origem ao destino.
Acabei de receber uma carta que confesso que me deixou verdadeiramente contente por ser uma boa demonstração de respeito da CP pelos seus clientes, o que é um bom indicador de que vivemos num país civilizado.
Vamos ao que interessa:
"...as condições de compensação por motivo de atraso (se o motivo for imputável à CP) são as seguintes: 1) Reembolso de 50% do valor do bilhete, sempre que a duração da viagem exceda em 60 minutos o tempo de viagem estabelecido no horário; 2) Reembolso integral do bilhete sempre que a duração da viagem exceda em mais de 50% o tempo da viagem estabelecido no horário" (aplica-se o mais favorável se os dois forem aplicáveis).
Ora o que aconteceu foi que um dia em que tinha uma reunião em Évora, ainda não tinha partido o comboio e já tinha ultrapassado o horário de chegada. Reclamei o reembolso.
A CP concordou e vai mandar-me uma carta cheque de 12 euros.
Não fico rico com isso mas uma carta destas enriquece o país e a CP.
Os bons desempenhos e os sinais de civilidade devem ser propagandeados.
O próximo passo seria a CP ter bem escrito este direito de reembolso nestas condições em cada banco do comboio, porque suspeito que fui o único a reclamar e que os outros nem sabiam que tinham este direito de reembolso (já agora, reclamei também do picas. Não me quiz dar o impresso que eles têm sempre nos comboios para estas reclamações. Pedi-lhe então o impresso para fazer sugestões e reclamações e o pica esse já me deu, o que serviu perfeitamente porque é o mesmo do pedido de reembolso, que aliás entreguei na estação, que é da REFER, porque fiquei com a impressão de que o picas nunca mais trataria do assunto. Se calhar fui injusto com o picas, mas na estação deram-me um comprovativo de que tinha entregue a reclamação. Não tinha nenhuma expectativa mas a CP resolveu surpreender-me e dar-me uma lição de humildade. Obrigado CP. Pela lição e pelos 12 euros).
henrique pereira dos santos