terça-feira, julho 24, 2012

A QUERCUS e os EUCALYPTUS

Chamaram-me a atenção para este comunicado da QUERCUS com o título "Incêndios florestais", publicado hoje.
Depois de uma semana complicada em que ardeu bastante na Madeira  e muito no Caldeirão, neste último caso sobretudo esteval e sobro, a QUERCUS descobriu a pólvora, descobriu que o problema é "falta de ordenamento do território, escassos apoios ao sector florestal e expansão descontrolada do eucalipto".
Demorei a perceber, mas finalmente vi a luz: o jornal Público começou na sexta feira a vender videos dos Monty Python e a QUERCUS não é organização para se deixar abater  sem luta.
Vai daí avançou directamente para a concorrência, enfrentando os Monty Python no seu campo.
Ardem trinta mil hectares de área sem eucalipto? O problema é o eucalipto, como é óbvio, se a expansão do eucalipto fosse controlada, como defende a QUERCUS, provavelmente o Caldeirão estaria eucaliptado e não arderia.
Ardem 25 mil hectares de sobreiros e estevas? O problema é a falta de ordenamento, como é óbvio, porque se houvesse ordenamento, como defende a QUERCUS, o que lá estaria era estevas e sobreiros e não sobreiros e estevas que já prenunciavam este desfecho.
Ardem 25 mil hectares de sobreiro e esteva? O problema é a falta de apoios à floresta, como é óbvio, se houvesse apoios à floresta convenientes, como defende a QUERCUS, estaria tudo devidamente florestado com pinheiros e ter-se-ia evitado o problema.
E se dúvidas houvesse, a QUERCUS acaba com elas de forma exemplar: "Como é do conhecimento público, o Governo está a preparar nova legislação que pretende viabilizar a expansão desmedida da monocultura do eucalipto – uma árvore mais suscetível à propagação dos incêndios - e facilitar os abates de sobreiros e outras espécies de maior valor ecológico".
É exactamente isto sem tirar nem pôr: o problema destes incêndios florestais, em áreas de sobreiro e esteva, é uma futura lei sobre arborizações, que não altera a lei dos sobreiros e que vai permitir a expansão desmedida do eucalipto, que aliás já era o problema inicial detectado pela QUERCUS para explicar porque ardem 25 mil hectares em área de sobreiro e esteva, sem aptidão para o eucalipto.
Um comunicado superlativo e esclarecedor.
henrique pereira dos santos
Declaração de interesses: tenho um pequeno trabalho  com uma das empresas de celulose e rompi  a minha ligação de anos com a QUERCUS, desarriscando-me de sócio quando um Presidente da QUERCUS e a propriamente dita organização resolveram chamar-me mentiroso e outras coisas que tais, por eu ter contestado um parecer da QUERCUS que contestava o trabalho  dos meus colegas do ICNB, cujos fundamentos técnicos a QUERCUS sempre se recusou a ir verificar no terreno comigo.

Será maldição?


Aproveito para assinalar a morte recente de John Lord
Lá está o Governo a fazer asneiras em relação aos fogos.
"Num comunicado divulgado pela tutela, lê-se que o ministro Miguel Macedo assinou nesta segunda-feira um despacho em que pede “uma análise dos meios humanos e materiais envolvidos” no combate às chamas. O relatório – que não é um inquérito, nota o ministério – deverá conter também informação sobre as “fases de empenhamento” e o “grau de desempenho” daqueles meios e ainda sobre “eventuais dificuldades ou falhas na coordenação e avaliação dos meios envolvidos na operação, a cada momento”.
Lá no gabinete do Ministro que tutela a protecção civil não haverá mesmo ninguém com uma pálida ideia do que são fogos e das dezenas de relatórios que existem sobre o assunto que mais vírgula, menos vírgula, explicam as coisas?
Nos comentários a um post do Paulo Fernandes no facebook três pessoas em amena cavaqueira identificam imediatamente mais de dez documentos que serviriam para o que o Senhor Ministro quer saber.
Mas se não quiser perder muito tempo, basta ligar ao Zé Miguel Cardoso Pereira e ao Paulo Fernandes (a ordem é arbitrária) que em meia hora fica a saber tudo o que precisa.
Mas pelos vistos os jornalistas não têm mais que fazer que ouvir o Jaime Marta Soares a debitar dinossaurices iguais às que sempre debitou e que nunca serviram para nada a não ser pedir mais dinheiro e recursos para os bombeiros (com isso o orçamento da protecção civil passou de 30 milhões para 130 milhões e os resultados são essencialmente os mesmos. É natural, dizia o Paulo Fernandes que pelas contas dele seriam precisos 3000 canadairs para apagar este fogo recente do Caldeirão, ou seja, a margem de progresso continua a ser imensa do ponto dos vista dos meios necessários para apagar fogos).
Com treinos intensivos de fogos quase todos os anos o que poderá explicar a nossa incapacidade de aprender?
Será maldição?
henrique pereira dos santos

sexta-feira, julho 20, 2012

Dito em estrangeiro pode ser que se entenda

Meia dúzia de linhas, e chegam.
henrique pereira dos santos

E que tal irem lá fora ver se está a chover?


Há dois dias chegou este comentário a um post antigo, que tem muitos links que ainda hoje acho que vale a pena serem lidos enquanto o país arde e os papagaios papagueiam:
"Soube esta semana que infelizmente o Thomas regressou à Alemanha, através de amigos (também alemães) de uma queijaria com mais de 100 cabras em Pedrogão Grande.
Debatem-se com muitos dos mesmos problemas, e não conseguem que as pessoas que "toleram" os seus rebanhos, que beneficiam do controlo de mato para camas do gado, da poda de pinheiros para combustível, etc, façam contratos de comodato que lhes permitam atingir a área elegível para apoios que de momento não recebem, vivendo quase exclusivamente do queijo que vendem.
É pena"
Há dois dias que ouço gente a falar de fogos e incêndios, cheios de certezas, indignações e soluções. Onde está esta gente o resto do ano, quando não arde?
Que têm feito, que têm proposto, que recursos identificam para gerir os fogos, para além de pedirem mais recursos para o seu grupinho (seja o grupo das ZIFs, o grupinho da protecção civil, o grupinho da intervenção rápida, o grupinho do voluntariado generoso, o grupinho da aviação, o grupinho da floresta autóctone, o grupinho da sensibilização, o grupinho da investigação, o grupinho das cabras, etc., etc., etc..)
Valha-nos o bom senso e a lucidez do Paulo Fernandes: isto é uma questão de meteorologia e quanto aos dinheiros para resolver o problema, o que mais falta faz é avaliar para onde foram e com que resultados.
Faz mais falta a avaliação que a aviação, concordarei eu sem a menor reserva.
Parafraseando um famoso filósofo da escola de Paris, a ideia de acabar com os fogos é uma ideia de crianças, os fogos não se extinguem, os fogos gerem-se.
E para gerir os fogos é muito mais importante o esterco das cabras que o brilho das ideias infalíveis que crescem como cogumelos no calor destes fogos.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, julho 19, 2012

Arborizações e rearborizações

Um anónimo comenta:
"Além da questão da postura das ONG ambientais, a proposta em si não lhe merece análise? Numa altura em que estamos novamente sem soluções para o cadastro não acha que abdicar destes licenciamentos é desperdiçar uma boa fonte de informação que pelos vistos já há (finalmente)alguém encarregado de compilar?
Considero que há ainda muito espaço para a área de eucalipto crescer em Portugal, mas gostava de saber onde e como, em vez de dizer que sim por todo o lado. Pelo menos uma vez gostava de ouvir alguém do lado das
celuloses (não é o seu caso) dizer explicitamente onde é que acham que NÃO se deve/pode plantar. Na minha opinião a única coisa que falta à floresta portuguesa e aos seus donos, é uma carta de ordenamento florestal nacional, aplicável à escala municipal, que diga onde e como se planta e o quê, não me parece assim tão complicado, no máximo restringe a liberdade individual dos proprietários de fazerem asneiras. Muito mais simples e barato do que a metodologia actual de:
1-Licenciar mobilizações de solo pelas autarquias, que apesar de terem gabinetes técnicos pagos pelo seu amigo FFP, muitas vezes não sabem o que é uma ripagem ou licenciam "surribas" (não-técnica de mobilização de solo que consiste em "sachar" com uma retroescavadora) que é a forma usada pela esmagadora maioria dos proprietários, sem condicionantes. 2- Parecer da CCDR, em caso de REN ou RAN, cujas condicionantes não são fiscalizadas pelas autarquias e de forma mais ou menos simultânea com o parecer da AFN cujo parecer ao plano previsional recentemente exigido é invariavelmente positivo.
A questão não se resume à espécie a plantar, mas também à técnica de mobilização do solo, que tem efeitos potencialmente nefastos, ou não? quem fiscaliza se não há lugar à identificação do responsável? Vejo todos os dias situações que configuram ilegalidades a este nível (mobilizações), com esta lei, o que estamos a fazer é assumir que uma vez que não conseguimos fiscalizar legalizamos! tudo!
Termino só dizendo que já existe muito eucaliptal abandonado, improdutivo, e os seus donos investem tanto na sua reconversão como os donos do pinhal na sua condução, zero.
Espero sinceramente que mais alguém venha "atiçar este lume", salvo seja e que não venha vento leste."

A citação foi longa mas merece. É um bom comentário, cordato, razoável e com substância.
E sinto-me na obrigação de responder.
Na verdade escrevo cada vez menos aqui (e noutros lados) porque estou cansado de estar permanentemente a nadar contra a corrente. Talvez tenha nascido para salmão mas que cansa, cansa.
Se hoje fiz um segundo post sobre a discussão de ontem do regime de arborizações foi porque senti que tendo manifestado uma opinião tão crua e crítica tinha a obrigação de a fundamentar um bocado mais.
E se respondo a este comentário fazendo este post é porque também sinto a obrigação de explicar por que razão não escrevi nada sobre a proposta em si.
Ontem fiz uma curta intervenção na discussão apenas para dizer: 1) que não fazia sentido obrigar a autorização as florestações abaixo de cinco hectares nas áreas protegidas. Ou se entende (como é a minha opinião) que as autorizações para estas arborizações não são determinantes para a conservação dos valores, e nesse caso está-se a manter uma burocracia pouco útil, ou se entende que as autorizações são fundamentais e, nesse caso, dever-se-iam aplicar à rede natura e não às áreas protegidas; 2) que mais uma vez o Estado estava a promover a concorrência desleal da floresta aos seus usos alternativos, com a pastorícia à cabeça, por simplificar os procedimentos da floresta e manter o kafkiano Regime de Excercício da Actividade Pecuária que torna mais difícil uma cabra ir de uma aldeia para outra que eu ir daqui para Pequim.
E de facto não me parece que o diploma valha muito mais tempo perdido.
Penso que o diploma, tal como está, dificilmente passa num conselho de ministros de tal modo é frágil na articulação com o resto da legislação. À boa maneira de florestal despachado alguém achou que a boa técnica de fazer o diploma era decidir e depois dizer aos outros que se amanhassem. Se uma avaliação de impacte ambiental demora 90 dias, ou se a legislação do domínio hídrico prevê 45 dias para a emissão de um parecer, bastava que para as florestas ficasse dito que era tudo em trinta dias e os pareceres em 15 porque evidentemente a floresta não pode estar à espera dos outros valores sociais em presença.
Como se sabe a política florestal não é uma política social mas uma emanação divina e portanto não tem de prestar vassalagem a coisas sem importância como, por exemplo, o resto da legislação existente. E como os actores do sector batem palmas não se vê por que razão não deva ser o sector a definir as melhores regras para si mesmo.
Só que as florestas são uma coisa importante demais para serem entregues aos florestais e portanto julgo que o diploma, tal como está, dificilmente verá a luz do dia.
Mesmo que veja a luz do dia ele apenas servirá para facilitar a vida a quem gere bem os seus povoamentos: a indústria de celulose e meia dúzia de grandes proprietários, os únicos que ainda se preocupam em cumprir a legislação actual. E desse ponto de vista é positivo por acabar com uma discriminação negativa a quem melhor serve o sector (quando o pessoal do pinho e do mobiliário protestar nestas discussões apetece-me logo perguntar-lhes quantos hectares de pinho gere cada serração ou fábrica de móveis para garantir o abastecimento, como faz a celulose)
De resto a grande maioria dos intervenientes na floresta estar-se-ão nas tintas quer para o diploma actual quer para o que vier. E as suas decisões serão comandadas essencialmente por factores sócio-económicos.
Na minha pequena consultoria ao sector tenho afirmado, e reafirmado, que me faz confusão como a indústria de celulose, que gere apenas 150 mil hectares, se deixa enrolar pela incompetência de gestão da maioria dos outros 600 mil hectares de eucalipto (dos quais um décimo de cerca de dois ou três hectares são meus, sendo que sou o único dos dez irmãos que sabe minimamente onde são as estremas da propriedade, dividindo-se os outros entre os que não fazem a mínima ideia de como se vai à propriedade, os que têm uma ideia de como se lá vai mas não garantem que lá chegam e os que sabem lá chegar mas não fazem ideia das estremas).
A grande maioria do eucaliptal, tal como o resto da floresta em Portugal, é mal gerida, na melhor das hipóteses, ou não é gerida, na maior parte das vezes.
Ora isto não é nada que se resolva na lei.
Isto resolve-se no terreno, com instrumentos económicos (o principal dos quais a rentabilidade dos povoamentos, que integra a percepção de risco face ao fogo) e com capacidade técnica de extensão rural, próxima dos agentes. Devo dizer que não entendo a passividade das celuloses perante este problema, que poderiam ajudar a resolver e que os impacta negativamente de forma brutal, nomeadamente por via regulamentar, com legislação que responde mais aos fantasmas do movimento ambientalista e ruralista que à realidade da produção florestal.
Por isso discutir esta proposta de lei é para mim marginal.
Os turcos estão a trepar pelas muralhas e nós estamos a discutir uma lei de arborizações.
Serão precisos dez dias de vento Leste para toda a discussão se voltar a reposicionar.
Quanto tempo demorará até essa tragédia é matéria que me escapa.
Que seja precisa essa tragédia para finalmente haver um nova oportunidade para repôr a gestão florestal no seu lugar é uma tristeza que me acompanha.
henrique pereira dos santos

Dois exemplos


Da diatribe de ontem da LPN contra o eucalipto resolvi escolher dois exemplos para ilustrar razões que minam a credibilidade do movimento ambientalista.
1) A afirmação de que nas duas últimas décadas a área de Quercus faginea no Oeste teria diminuído em 40%. A afirmação veio embrulhada em ses e mas que diziam que enfim os dados não eram seguros e tal e coisa, mas mesmo assim valia a pena chamar a atenção para o facto. E a afirmação pretendia fazer uma ligação entre a expansão do eucalipto e a diminuição em 40% do Quercus Faginea no Oeste. Dei um salto na cadeira que me distraiu de ver a referência bibliográfica que teoricamente permite a alguém dizer uma barbaridade destas. Quando aterrei na cadeira voltei à minha posição de partida nestas coisas: o bárbaro podes ser tu, portanto o melhor é fazer uma verificação mínima da credibilidade da afirmação. A meu lado estava um dos melhores vigilantes que conheci no ICNB (e conheci-os muito bons), excelente naturalista, conhecedor profundo o Oeste onde hoje exerce a sua profissão de técnico florestal. Para além disso um ambientalista no sentido clássico do termo, que se envolve civicamente nos movimentos ambientais, embora de baixo perfil público. E um colaborador assíduo de trabalhos científicos onde a sua evidente qualidade de trabalho e a confiança nos seus dados é inquestionável para as mais respeitáveis academias que trabalham em biodiversidade e áreas conexas. E perguntei se havia a mais pequena hipótese da área de Quercus faginea ter diminuído 40% em vinte anos. Cautelosamente, conhecendo as minhas posições heterodoxas em matéria de conservação, respondeu-me que dependia de que vinte anos estávamos a falar. Indiquei que estavámos a falar dos últimos, ou dos últimos do século XX, por aí. A sua reacção foi a mesma que a minha: não, não é possível. Qualquer pessoa que ande no campo sabe que não, não é possível afirmar que a área de Quercus faginea diminuiu 40% em vinte anos. Qualquer botânico confirma facilmenter a improbabilidade disto. Que a academia se entetenha a levantar hipótese absurdas em artigos científicos, acho normal, um dos papéis da academia é exactamente o de questionar a certezas quotidianas. Mas que uma das principais ONGs, a que supostamente tem uma cultura de maior rigor científico nos seus pontos de vista, resolva assentar posições sociais em hipóteses académicas abstrusas serve para quê?;
2) Lá veio mais uma vez a tolice do eucalipto como invasor. Não há na academia e nos meios científicos qualquer peso consistente na afirmação de que o eucalipto pode ser invasor. Existe um grupo minúsculo de investigadores, mais conhecidos pela sua ligação ao movimento ambientalista que pelo seu trabalho académico, que põe essa hipótese desde há meia dúzia de anos. O facto do eucalipto estar em Portugal há cerca de 200 anos, de haver 750 000 hectares da espécie e de nunca ninguém ter identificado nenhuma evidência empírica de invasão de eucalipto não demove esse pequeno grupo de considerar que toda a academia, e toda a gente, está errada, chamando em sua defesa duas ou três referências bibliográficas que se citam mutuamente, sem que ninguém, até hoje, tenha produzido evidência empírica sobre a matéria. Sobre isto leiam-se estes dois posts onde se resume a discussão. Sendo este o cenário da discussão, o que ganha uma ONG em assumir como suas as posições ultra-minoritárias desse grupo sobre o assunto? Não se trata sequer de haver uma posição ultra-minoritária a que se reconhece solidez empírica, trata-se mesmo de um devaneio académico sem qualquer relevância na produção científica. O que ganha uma ONG em se apoiar em tão frágeis bases, só porque lhe servem para defender ideologicamente uma posição?
Dito de outra maneira, o que ganham as ONGs em andar à procura de informação que possa estar de acordo com as suas ideias em vez de andar à procura de informação que lhes permita ter ideias melhores?
henrique pereira dos santos

quarta-feira, julho 18, 2012

O especialista de serviço


Estive de manhã num seminário sobre o novo regime de arborizações (continuaria para a tarde mas eu já não fiquei).
Fez-me confusão a posição do representante da Liga para a Protecção da Natureza e doi-me o coração ver o movimento ambientalista ser esmagado da forma como vi.
O diploma em discussão não é mau de todo, má é a situação actual. O diploma tem aquela estranha cultura florestal que dificulta a sua relação com a sociedade, aquela estranha jactância de julgar dispensáveis todos os sectores da sociedade que, de uma forma ou outra, inevitavelmente se cruzam com as florestas. Por exemplo, a conservação e a pastorícia são desconsideradas como elementos da decisão florestal, são tratadas como empecilhos que atrapalham o futuro radioso das florestas que por direito divino pertence aos florestais.
Até aqui nada de novo e não perderia tempo a escrever sobre o assunto.
A discussão do diploma tem afunilado em torno do eucalipto. Os maiores especialistas do assunto têm-se pronunciado de forma clara e fundamentada.
O movimento ambientalista resolveu alinhar pelo mesmo diapasão.
E o que vi hoje é de cortar o coração a quem, como eu, faz parte do movimento ambientalista.
Um movimento ambientalista igualzinho aos dos anos 80, sem ter aprendido nada, a dizer as maiores barbaridades sobre eucliptos, baseados em artigos científicos de outro mundo, e afirmando orgulhosamente que a discussão em cima da mesa era essencialmente uma discussão ideológica.
Do outro lado, serena e fundamentada, uma indústria de celulose que aprendeu muito desde os anos 80, que estudou, que mudou procedimentos, que melhorou a gestão, que incorporou as questões ambientais nos seus procedimentos e que, naturalmente, arrasou por completo, tecnicamente, os discurso demagógico e primário da LPN.
Poderia ter sido simplesmente um dia mau para o movimento ambientalista, nada que o tempo, o estudo e o esforço não resolvesse.
Era bom que assim fosse.
Só o que o que ali se passou é apenas o resultado de um problema de fundo: as organizações ambientalistas mais vocais, as que mais facilmente se fazem ouvir no espaço público, estão capturadas pelas franjas mais radicais da academia.
As posições das associações não resultam de discussões técnicas entre diferentes sensibilidades e formações dos seus sócios mas simplesmente das idiossincrasias do especialista de serviço em cada momento, que de maneira geral toma conta de um determinado assunto.
Se alguma das associações ambientalistas de repente passasse a alinhar as suas posições sobre fogos por aquilo que vou dizendo, eu acharia muito mal. Certas ou erradas (evidentemente eu acho que estão certas, mas a minha opinião é irrelevante) as minhas posições sobre a matéria são demasiadamente controversas para que possam ser aceites como posição oficial de qualquer associação que teria sempre dezenas de sócios a discordar, legitimamente, de mim.
A solução não é substituir um especialista por outro.
O que falta nas associações é democracia, debate, exigência, contraditório.
Por isso vão definhando lentamente como seitas que não representam ninguém nem intervêem na realidade.
Limitam-se a repetir, ideologicamente, chavões atrás de chavões, como na discussão do eucalipto e da florestação.
É pena, porque bem era preciso um movimento ambientalista forte, tecnicamente sustentado, para que tenhamos melhores regras e mais bem aplicadas.
Declaração de interesses: tenho um pequeno trabalho remunerado para uma das celuloses. Também tenho trabalhos, aliás maiores, para ONGs, mas suponho que isso não interesse nada como declaração de interesses.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, julho 16, 2012

Um lado solar

Estava com intenções de escrever sobre o artigo que hoje o Público dedica à legislação sobre arborizações, centrado no facto de mais uma vez se ignorar por completo a produção de gado em pastagens pobres. Quem ler as quatro páginas iniciais do Público pensa que ou se floresta ou se deixa improdutivo (eles chamam-lhe inculto, mas eu não sei o que isso seja quando se dsicutem ocupações do solo). Na discussão sobre o eventual uso de terrenos pobres dentro de perímetros de rega, lá se esquece a possibilidade de produção de gado miúdo em vez da florestação, como pretende a indústria de celulose.
E faria com certeza uma nota sobre o divórcio cada vez maior entre os papas do ambientalismo, entricheirados nas suas certezas, e a realidade. Citaria a citação emblemática atribuída pelo jornalista a Eugénio Sequeira: "como se sabe que a exploração do pinho não paga sequer a limpeza dos matos, é de recear que, com as facilidades de arborização e rearborização que a proposta de lei concede, se criem manchas contínuas de eucalipto". Traduzindo, é preciso impôr legalmente que os proprietários mantenham uma cultura ruinosa como forma de garantir uma exploração racional dos recursos. É isto, não é?
Seria com certeza mais um post soturno sobre o estado do debate público em Portugal.
Mas felizmente quando abri o meu mail uma alma caridosa tinha-me mandado o link que me vai permitir fazer antes um post luminoso sobre coisas bonitas feitas por uma arquitecta paisagista que, a julgar pela reportagem, parece carregada de bom senso:

domingo, julho 15, 2012

Provocação


Na verdade a provocação não é minha. Eu acho a provocação interessante, embora a questão seja colocada de forma um pouco simplista.
henrique pereira dos santos

quarta-feira, julho 11, 2012

Cristas e Janus

A Sr. Ministra da Agricultura deve estar preocupada pela alteração da política agrícola comum que irão prejudicar os produtores de leite (claro que vão beneficiar muitos produtores de outras coisas, mas isso não parece interessar os jornalistas que se interessam pelo assunto). A Sr. Ministra do Ambiente deve exultar com mais este passo no sentido da sustentabilidade, que passa pela redução de consumo de carne e lacticínios (e já agora, com a concorrência desleal que estas produções fazem a outras produções com conteúdos ambientais mais positivos). Suspeito que a Sr. Ministra da Agricultura tem consciência do primeiro parágrafo. Suspeito que a Sr.ª Ministra do Ambiente não tem consciência do segundo. henrique pereira dos santos

domingo, junho 24, 2012

Um post em causa própria


Tenho com frequência criticado o movimento associativo, em especial de carácter ambiental, mas hoje venho aqui falar da generosidade de duas associações.
Estou completamente envolvido neste projecto, mesmo que formalmente o seu promotor seja a Desafio das Letras, que é uma empresa com quem colaboro muito frequentemente.
O projecto resume-se facilmente: a Desafio das Letras, entre outras coisas, gere programas de visitação. Por uma série de coincidências felizes, começou a ensaiar a inclusão de pessoas com dificuldades de locomoção nos seus passeios. Não se tratava de desenhar passeios para pessoas com deficiência, mas sim de incluir algumas dessas pessoas nos seus passeios normais, sem preocupação de usar caminhos acessíveis. O projecto resume-se pois a comprar o equipamento que permita esta inclusão.
Depois dos primeiros ensaios, a Desafio das Letras encontrou o equipamento que lhe permitia oferecer essa opção. O princípio de não cobrar mais pelos passeios a pessoas com deficiência e, pelo contrário, reduzir em 50% o custo para um acompanhante, torna completamente impossível o retorno financeiro da compra do equipamento. Numas contas rápidas, e considerando um custo do equipamento de 2600 euros e uma inscrição de 20 euros por passeio, seria preciso realizar 130 passeios (admitindo que todo o valor da inscrição é lucro líquido, o que está longe de ser verdade) para pagar o equipamento. Ao ritmo a que são feitos os passeios pela Desafio das Letras, admitindo que em todos eles haveria utilização do equipamento, eram precisos mais de cinco anos para o pagar. Estava fora de causa fazer o investimento numa base estritamente financeira.
Acontece que nos primeiros ensaios, usando equipamentos públicos cedidos pela autarquia da Lousã que tem uma forte política de acessibilidade, participou uma das minhas irmãs que, evidentemente, conheço há décadas. Quando lhe telefonei a saber como tinha corrido, perguntei-lhe se o percurso era interessante. A resposta, vinda de uma pessoa que conheço há décadas, foi para mim absolutamente surpreendente: "não tenho termo de referência porque nunca tinha andado por matas e campos agrícolas sem ser nas estradas normais por onde passa um carro". Eu não tinha consciência de que todo esse mundo tinha estado vedado, até esse dia, à minha irmã. Se já tinha simpatia pela ideia, fiquei rendido.
Do conjunto de coincidências que ocorreram resultou a ideia de recorrer ao "crowdfunding", financiamento pela multidão, que é um sistema em crescimento no mundo. Já escrevi no blog sobre este sistema, aqui e aqui, pelo menos. O primeiro projecto que cito teve êxito, o segundo não.
Ora o que me interessa aqui referir é que nestes sistemas de crowdfunding há sempre recompensas oferecidas pelo apoio dado ao projecto, rescompensas essas definidas pelos promotores.
No caso deste projecto uma das recompensas, para quem queira apoiar com 250 euros (o apoio pode ser só um euro, as recompensas é que variam em função do montante), é a organização de um passeio experience nature, da desafio das letras, especificamente para o apoiante.
Duas associações ambientais resolveram ao mesmo tempo ser solidárias e contribuir para as suas próprias actividades: contribuíram com 250 euros (em fase de formalização) e vão disponibilizar passeios aos seus sócios e apoiantes (pagos ou não é uma opção das respectivas associações), com conteúdos especificamente desenvolvidos para dar resposta aos objectivos das associações.
Só posso estar contente com o movimento ambientalista que foi solidário com esta ideia de abrir as portas do campo a muita gente "que tem dificuldade em pôr um pé à frente do outro".
henrique pereira dos santos

terça-feira, junho 19, 2012

Valorização de serviços ambientais


Declaração de interesses: estou a colaborar, de forma remunerada, neste projecto, sendo o seu gestor operacional. Uma sugestão para participação num seminário que pretende juntar projectos em execução sobre o papel dos pequenos ruminantes na gestão de combustíveis. Dos projectos convidados não constam só fantásticas demonstrações da utilidade da técnica, mas também decepções. O objectivo é exactamente discutir o que se passa na prática em relação a isto.
Workshop “Caprinos na Gestão Agro-Florestal”
6 de Julho de 2012
Programa
9:00 Início
9:30 Sessão de abertura Presidente da Câmara Municipal de Vila Pouca de Aguiar* Diretor Regional de Agricultura e Pescas do Norte* Chefe da Unidade de Gestão Barroso Padrela* Presidente da Direção da AGUIARFLORESTA
9:45 «Pastoreio na prevenção de incêndios: O que Sabemos», Paulo Fernandes, UTAD
10.15 «O Regime de Exercício da Actividade Pecuária, a movimentação de animais» Ana Paula Figueiras, DGV*
10:45 Pausa
11:00 «Caprigest, Pastoreio Controlado», Paulo Tomé, Caprigest
11:30 «O projeto de Piodão», Cristina Melo, Silviconsultores*
12:00 Debate
13:00 Almoço livre
14:30 «O rebanho Comunitário na Gestão de Habitats na Serra dos Candeeiros», António Frazão, Terra Chã
15:00 «Gestão de pastoreio na ZIF de Jales», AguiarFloresta
15:30 Debate
16:30 Encerramento
* Sujeito a confirmação
Preço inscrição: 10 € - o preço não inclui almoço Prazo para Inscrições: Inscrição prévia obrigatória Informações e inscrições: AGUIARFLORESTA E.N. 2 - Centro de Camionagem - loja 4 5450-011 Vila Pouca de Aguiar Telf: 259 417 634 E-mail: biodiversidde@aguiarfloresta.org
henrique pereira dos santos

domingo, junho 10, 2012

Da memória II

Este post (e respectivos links), são apenas uma pequena parte de uma discussão que há dois anos e picos se travou neste blog. Essencialmente a discussão opunha duas teses sobre a conservação do Lince: os que entendiam que a retracção do lince se devia essencialmente às doenças do coelho e, consequentemente, concluíam que quando as populações de coelho recuperassem o lince recuperaria; e os que entendiam que havia muitas outras razões para a retracção do lince, em especial uma diminuição da qualidade do habitat, e que sem um conjunto alargado de intervenções (desde a sensibilização à promoção do matagal mediterrânico) o lince não recuperaria. Dois anos e picos depois a discussão continua a opôr os dois campos: os primeiros insistem que o aumento das populações de lince (triplicou em dez anos, cresce dez por cento ao ano) resulta directamente das populações de coelho se adaptarem às doenças que os dizimaram, como seria expectável com base na ecologia teórica; os segundos dizem que sim, que o lince está a recuperar, que o coelho também, mas isso resulta das acções de conservação. É bom lembrar isto para ver qual o ponto de vista que previu correctamente a evolução da situação e qual o ponto de vista que foi adaptando a explicação aos factos posteriores. henrique pereira dos santos

sexta-feira, junho 08, 2012

Da memória


É útil ir registando e de vez em quando consultar os arquivos. Neste caso era claro quem estava do lado do catastrofismo e da dramatização e quem pretendia pôr as coisas em contexto, para lhe dar a importância que têm.
Vale a pena lembrar que hoje, provavelmente, teremos mais de 15 casais de águia imperial a nidicar em Portugal, apesar dos factos que deram origem ao post citado.
henrique pereira dos santos

terça-feira, junho 05, 2012

Dia mundial do ambiente


Ontem estive num seminário muito interessante que o João Nunes organiza para os seus alunos do primeiro ano, e abre a toda a gente que queira ir (ainda vão a tempo, hoje e amanhã o seminário continua).
E ouvi: Oeiras tem cerca de seis milhões de litros de águas residuais, que são colectadas, elevadas para um super colector, transportadas, tratadas e despejadas no mar, ali para os lados Guia, depois de Cascais. Oeiras receberá da chuva outros seis milhões de litros de água, que se escoa em direcção ao mar. Oeiras importa 4 milhões de litros de água de Castelo de Bode, água colectada, tratada e transportada, para regar os seus jardins públicos.
Naturalmente isto multiplicar-se-á por todas as nossas cidades.
Não sei se já tinha dito, hoje é o dia mundial do ambiente.
É sempre útil celebrá-lo com uma demonstração prática e clara de sustentabilidade.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, maio 28, 2012

À atenção do movimento ambientalista

Creio que já conhecerão esta notícia.
Da próxima que pensarem em se queixar da falta de cultura de participação dos portugueses, que não compreendem o vosso enorme esforço e dedicação ao bem comum, antes de falar releiam esta notícia: 37 mil voluntários, doações em crescendo e batendo recordes e zero queixas sobre falta de recursos.
Da próxima vez, para variar, queixem-se antes de não conseguirem o que outros conseguem: resposta e preocupação com problemas concretos de pessoas concretas, trabalho socialmente reconhecido por corresponder a problems reais de pessoas reais, transparência absoluta de contas, informação clara sobre a actividade da organização, organização e eficácia para a integração de voluntários que dão o que acham, e não o que vocês acham que é a obrigação e dever dos voluntários.
E, sobretudo, mais preocupação com os destinatários finais do trabalho das organizações que com os problemas dos funcionários (e outros beneficiários intermédios) das organizações.
Resolvam-se a mudar os princípios de actuação, que os portugueses, como quaisquer pessoas de bem em qualquer parte do mundo, corresponderão ao que for justo e orientado pelo bem comum.
Deixem de passar o tempo a explicar o que os outros poderiam fazer pelas vossas organizações e concentrem-se em fazer aquilo que efectivamente podem fazer pelos outros.
henrique pereira dos santos

sábado, maio 26, 2012

Bem perguntado

Gonçalo Elias perguntou hoje num comentário a este post: "Há dois anos escreveste isto: "Dentro de dois anos, graças às fortes obrigações dos promotores em matéria de monitorização, teremos uma ideia se foi uma boa ou má decisão autorizar este parque eólico." Será que nesta altura é possível chegar a alguma conclusão?"
É bom ter leitores assim.
O que sei sobre o processo é bastante menos do que sabia quando os relatórios de monitorização me chegavam às mãos, mas tanto quanto sei não foi identificado nenhuma problema sério para a conservação.
A confirmar-se isto, que só um escrúpulo intelectual afiado me leva a pôr no condicional, a decisão de licenciar o parque eólico terá sido a correcta (ou melhor, não terá tido efeitos negativos na conservação, porque poderia ter sido a correcta com a informação existente na altura e ter aparecido qualquer coisa inesperada e que desse mau resultado).
Obrigado Gonçalo, foi dos comentários deste blog que mais gostei de ler. Espero agora que se alguém tiver informação em contrário a traga para a podermos discutir.
henrique pereira dos santos

sábado, maio 19, 2012

A citizen science e os investigadores fascinados

Fantástica fotografia retirada daqui
Está em curso o Pé n'A Terra, organizado pelos parceiros, amigos e participantes no biodiversity4all.
E ontem foi o Dia Internacional do Fascínio das Plantas.
A minha contribuição para o Pé n'A Terra foi integrar um passeio que se iria fazer na quinta feira da espiga (o passado dia 17) na lógica de registo de biodiversidade e convidar o Francisco Barros para ir connosco e nos ajudar na identificação e registo de biodiversidade.
E quando há uma semana descobri que havia uma iniciativa concreta integrada neste dia internacional do fascínio das plantas sugeri (é certo, muito em cima da iniciativa) que no passeio de hoje da iniciativa se fizesse a ligação ao registo e disponibilização de informação (não sei o resultado).
Mas sei que nas inúmeras iniciativas do dia do fascínio das plantas há algumas com saídas de campo.
E calculo que de nenhuma dessas iniciativas resulte um registo democrático e aberto do que se observar (seja no biodiversity4all, seja na flora on, seja noutra base aberta qualquer).
O biodiversity4all tem neste momento cerca de 130 000 registos, e mantem-se o objectivo, difícil, de 250 000 no fim do ano. Seja ou não atingido este objectivo de 250 000 observações no fim de 2012, objectivo alcançável mas difícil, não parece absurdo pensar que num prazo de cinco anos existam nesta base cerca de meio milhão de observações.
Muitas dessas observações estarão noutras bases com quem se estabelecem canais de comunicação, como se está a tentar em relação a várias, e já existe em relação a poucas.
Mesmo assim há um conjunto de pessoas que se recusam a reconhecer o interesse do Biodiversity4all com o estafado argumento de que alguém que veja um falcão na sua varanda pode registar uma águia imperial.
É um argumento preguiçoso de quem não quer olhar para a forma como esse tipo de situações são tratadas e apenas conclui que pelo facto de ser possível um registo destes toda a base de dados não é de confiança.
O curioso, numa base com 130 000 observações, é que a alegação da sua falta de fiabilidade não se faz por via da demonstração de observações claramente erradas (que as haverá, com certeza) mas com base numa hipótese não verificada.
Há muita gente a esquecer-se de que nunca se perde o vínculo entre observação e observador, sendo possível investigar cada observação fora do normal através do contacto directo com o observador, com a sua história de observação, com os seus conhecimentos e por aí fora, permitindo limitar os efeitos de observações estranhas.
Ao mesmo tempo estas pessoas esquecem-se de que o biodiversity4all está na base da identificação de novas observações de espécies que não eram referidas há anos e mesmo na base da descrição de novas espécies para a ciência, por via do contacto de observadores de todo do sistema científico e bons naturalistas de campo.
Há até um investigador que se tem servido do biodiversity4all para a sua investigação, em especial usando observações e o contacto do observador para obter dados e identificar partes do território a inventariar, mas que não coloca uma única das suas observações na base porque alega que não tem credibilidade.
A explicação para esta desconfiança da academia encartada em relação à chamada citizen science é por um lado a deficiente compreensão das naturezas diferentes dos inventários científicos sistemáticos e dos registos aleatórios de massas, e por outro uma arrogância natural da academia, em Portugal, face ao comum dos mortais.
Penso que nada ilustra melhor isto que uma frase retirada do artigo de Amélia Loução que o Público hoje publica a propósito do Dia Internacional do Fascínio das Plantas: "Qual o motivo desta celebração a nível europeu ao (sic) qual inúmeros outros países da América Latina se juntaram? Precisamente para mostrar ao público em geral por que é que existem cientistas que se fascinam com as plantas, a sua beleza, o que nos proporcionam e nos possibilitam".
É isto. Há académicos, com grande responsabilidade na relação das pessoas comuns com a ciência, como é o caso, que acham que a capacidade de se fascinar com o mundo que nos rodeia é uma prerrogativa dos cientistas, arduamente obtida através do calvário dos graus académicos. E consequentemente acham que só dos cientistas se pode esperar uma observação e registo fiável do mundo.
Estão enganados, a fascinação pelo mundo é uma relação emocional ao alcance de qualquer pessoa. E qualquer amador se pode transformar na coisa amada por virtude de muito imaginar, não tendo mais que desejar por ter em si a parte desejada.
Na verdade estas celebrações deveriam, sobretudo, servir para mostrar aos cientistas em geral porque é que existem pessoas comuns que se fascinam com a biodiversidade.
E como perdemos, todos, com a prática, reiterada, das instituições científicas desvalorizarem os contributos das pessoas comuns para a ciência.
henrique pereira dos santos

sábado, maio 12, 2012

Viana Barreto


Morreu hoje.
A fotografia é o que se arranja, a fotografia de um homem discreto (no sentido actual e arcaico da palavra). Não sou dado a necrologias, mas neste caso abro uma excepção para um homem a quem Portugal deve muito mais do que alguma vez reconheceu.
Morreu um homem bom. Que a terra lhe seja leve.
henrique pereira dos santos