quarta-feira, agosto 29, 2012

Os lobos da Alemanha


"In the late 18th century the wolf was eliminated from Germany due to organized persecution. Since then single wolves immigrated, rarely but regularly, to eastern Germany, but none succeeded in establishing a new population until they were placed under legal protection in the whole of Germany in 1990. It took ten more years until the first reproduction of wolves could be recorded in the Muskau heath in north eastern Saxony. From that point the wolves in Germany reared pups every year and the population started growing"
Isto está escrito num artigo científico de uma revista muito qualificada e com peer review. E aparentemente toda a gente acha normal.
A região é "Characterised by large former and still operating opencast coal mines...". "By establishing in this area the wolves recolonised exactly the region where the last eastern German wolves were extirpated in the 18th century. After the first reproduction in the year 2000 in the Muskau heath, a second pack established in 2005, henceforward every year at least one more new pack could be confirmed. In the year 2009 six packs and one territorial pair of wolves without offspring occupied about 2500km2".
A ver se entendo: o lobo desaparece da Alemanha no fim do século XVIII, exactamente na mesma região onde reaparece no século XXI, fazendo parte da mesma população que existe na Polónia (e que nunca se extinguiu), numa região de minas de carvão e a razão da recolonização não é a expansão da população dadora e a alteração de habitat proporcionada pelo fecho de inúmeras minas de carvão, abertas a partir do século XVIII, mas uma protecção legal estabelecida 10 anos antes?
Pois, pode ser que sim.
Terão com certeza razão.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, agosto 23, 2012

Mais uma cortesia do Paulo Fernandes...


... com quem tive uma interessante discussão sobre prioridades na política de gestão de fogos, na caixa de comentários do post sobre ignições.
"The choice is not whether or not these forests burn. The choice is how they burn.

sábado, agosto 18, 2012

Eucaliptos nórdicos


Eucalyptus nitens numa plantação serrana no norte de Portugal
Numa monumental gaffe, o comentador televisivo (não o chamaria jornalista) Miguel Sousa Tavares, ao serviço da SIC, concluiu de forma brilhante que, com a proposta de alteração da legislação que regulamenta projetos de florestação de espécies de rápido crescimento, Portugal correria sérios riscos de ter mais eucaliptos que os países nórdicos (ou algo semelhante, porque não consegui verificar com exatidão a frase, uma vez que a gravação do programa foi tirada de imediato do site da SIC após alguém se ter apercebido da asneira proferida pelo menino bonito da estação).

Não é preciso explicar que os eucaliptos não se dão em climas nórdicos. No entanto, esta questão levanta uma interrogação interessante: e se dessem? Nas recorrentes discussões que tenho com as mais diversas pessoas sobre os eucaliptos na floresta e sociedade Portuguesas, está latente a ideia, sobretudo nas pessoas mais críticas à presença desta espécie no nosso País, que a sua presença é sinal de terceiromundismo que, supostamente, caracteriza a política pública e privada florestal em Portugal (opinião que não partilho, como será evidente).

Acontece que, também nos países nórdicos (que começam, para mim, a norte dos Pireneus), a utilização de espécies exóticas é prática corrente, tanto por parte dos serviços públicos como por proprietários privados. Espécies como Pseudotsuga menziesii, Larix kaempferi, Picea alba e P. sitchensisAbies grandis, Pinus nigra e outras do mesmo género, Quercus rubra, Robinia pseudoacacia, Populus das mais diversas espécies e seus híbridos são plantadas, sempre que estas espécies oferecem boas perspetivas da sua valorização. Curiosamente, esta questão não é alvo da caça à bruxa que assistimos cá em Portugal em relação aos eucaliptos. Com o pragmatismo característico dos nórdicos, a questão é colocada na perspetiva da função principal de uma certa área florestal: se sua função é de produção florestal, então há-de-se escolher as melhores espécies em relação a esse objetivo, sem dogmas nem preconceitos. Por isso já assisti, por exemplo nos Países Baixos donde sou natural, à eliminação de Pseudotsugas numa área de conservação e a sua plantação logo ao lado, onde foi atribuída a função de produção.

Voltando à interrogação inicial: e se os eucaliptos se dessem por lá? Eu não tenho a mínima dúvida que, tal como cá, os países nórdicos recorriam à plantação de eucaliptos. Só não o fazem porque os eucaliptos não se dão por essas terras! Por enquanto, porque nas serras de Escócia já foram plantados eucaliptais da espécie Eucalyptus nitens, mais resistente ao frio que o "nosso" Eucalyptus globulus (como a foto acima comprova, tal como o post aqui), na perspetiva de constituirem possíveis culturas energéticas.

Henk Feith
Declaração de interessa: trabalho para ALTRI, grupo que integra a fileira da indústria de celulose. No entanto, as opiniões aqui expressas o são a título pessoal.

quinta-feira, agosto 09, 2012

Seis anos


Nos dias em que o único projecto turístico de Alqueva que tinha avançado parece ter batido na parede da falta de crédito (os outros projectos todos nunca saíram do papel), pondo fim (provisório, sempre provisório, em Portugal o fim de um projecto nunca é definitivo) a uma quimera longamente alimentada pelos Governos anteriores, por uma AICEP arrogante e autista e por não sei quantos funcionários públicos que se esqueceram de que o seu compromisso de fidelidade é com a lei e com os cidadãos e não com os Governos, a quem apenas devem lealdade.
Nos dias em que esse único projecto se afunda em questões de financiamento.
Nestes dias tenho muito orgulho, verdadeiramente orgulho, por há seis anos ter escrito este post, cuja releitura, à luz do que hoje sabemos, recomendo vivamente, incluindo a discussão nos comentários.
Mas verdadeiramente preferia ter-me enganado e o futuro demonstrar que só tinha dito disparates.
henrique pereira dos santos

terça-feira, agosto 07, 2012

Crowdfunding e movimento ambiental

Aqui e ali tenho apoiado projectos que estão a procurar financiar-se via crowdfunding.
A ideia do crowdfunding é-me bastante cara, gosto de projectos em que pessoas ou organizações se apresentam de peito aberto e cara descoberta a procurar suscitar apoio social. E tenho colaborado sobretudo com uma das plataformas a operar em Portugal a PPL
Já foi uma rapariga fazer investigação para Madagáscar, estive directamente envolvido num projecto para aumentar a acessibilidade ao mundo rural e ao património natural, faltam 18% (525 euros) e dois dias para melhorar a monitorização de cetáceos em S. Tomé e Príncipe, alguns projectos com componentes de educação ambiental já foram financiados e agora voltam à carga com o seu crescimento, e começou agora um pequeno projecto para a Faia Brava.
Para além desta plataforma, que conheço melhor, outra plataforma estritamente ambiental, ligada a uma plataforma generalista americana, lançou também dois projectos, qualquer dos dois bastante grande, sendo mesmo enorme o dos lobos.
Naturalmente há quem critique e há também quem ache que o crowdfunding é um maná que cai do Céu.
Com a experiência que vou tendo na matéria parece-me que vale a pena fazer dois comentários:
1) Quem se dispuser a vir a terreiro pedir às pessoas não pode estranhar que essa exposição provoque críticas. Por exemplo, pode haver quem ache, e o diga, que o projecto dos lobos não é um projecto de conservação, ou que eventualmente o será apenas por via indirecta da educação ambiental e da investigação. Independentemente de ser assim ou não é preciso ter consciência de que críticas justas e injustas vêem directamente com o processo. Quem quer entrar nele deve saber que, por exemplo, há pessoas que não compreendem que se façam doações a empresas (como foi o caso do projecto em que estive envolvido e que cito acima) e que o melhor é estar preparado para dar respostas razoáveis. Certas ou erradas, cada um julgará por si, mas respostas às questões que forem sendo colocadas parece-me o mínimo de respeito pelos outros a quem estamos a pedir dinheiro;
2) O Crowdfunding não é pau para toda a obra e vai ser o fim dos problemas financeiros das ONGAs. Nada mais errado. É preciso ter bons projectos, dirigidos ao que as pessoas sentem como problemas reais, pelo menos o suficiente para motivar uma doação. O que implica transparência e prestação de contas, alguma dela encerrada em perguntas injustas.
Espero que mais projectos ambientais vão aparecendo, pode ser que assim as associações se voltem a focar no público.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, agosto 03, 2012

O frisson não é muito...

.. mas ainda assim vale a pena trazer aqui esta cortesia para os cépticos da influência humana nas alterações climáticas.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, julho 30, 2012

Já me falta a paciência para a conversa da redução das ignições

O gráfico não é brilhante, mas quem quiser pode ver o original nos relatórios da AFN (ou clicar no gráfico que já fica bastante visível).
O que me interessa é contestar veementemente a ideia de que a redução de ignições é uma questão importante na gestão do fogo em Portugal.
O gráfico tem o número de ocorrência no eixo dos XX e a área ardida no eixo dos YY. Cada ponto represente a combinação das duas variáveis para cada ano.
Em torno das vinte mil ignições temos quatro anos (2004, 2006, 2007 e 2010) mas as áreas ardidas variam entre cerca de 33 mil hectares (2007) e mais de 130 mil, uma variação  do simples para mais do triplo.
Em torno das 26 mil ignições temos cinco anos (2001, 2002, 2003, 2009 e 2011) com variações da área ardida entre os 73 mil hectares de 2011 e os 420 mil de 2003.
Alguém me explica como com evidências destas nos relatórios oficiais ainda se ouve permanentemente a conversa de que para gerir racionalmente o fogo em Portugal é fundamental diminuir as ignições?
henrique pereira dos santos

quarta-feira, julho 25, 2012

A capa de gelo e neve da Gronelândia derreteu?

 

Ouço esta manhã na TSF que a capa de gelo e neve da Gronelândia derreteu. Leio no Público uma notícia que diz: "A capa de gelo e neve que cobre a Gronelândia derreteu este mês, naquele que é um fenómeno já considerado como extraordinário. A área sem gelo saltou de 40% para 97% em apenas quatro dias.". Lá mais para a frente a notícia já refere que se trata apenas da superfície dessa capa (que tem mais de 2 km de espessura)... Mas penso que para muitos que ouviram na rádio ou leram pela rama, ficaram com uma ideia completamente errada. Era bom haver mais rigor na comunicação de ciência.

Henrique Miguel Pereira