quarta-feira, julho 25, 2012

A capa de gelo e neve da Gronelândia derreteu?

 

Ouço esta manhã na TSF que a capa de gelo e neve da Gronelândia derreteu. Leio no Público uma notícia que diz: "A capa de gelo e neve que cobre a Gronelândia derreteu este mês, naquele que é um fenómeno já considerado como extraordinário. A área sem gelo saltou de 40% para 97% em apenas quatro dias.". Lá mais para a frente a notícia já refere que se trata apenas da superfície dessa capa (que tem mais de 2 km de espessura)... Mas penso que para muitos que ouviram na rádio ou leram pela rama, ficaram com uma ideia completamente errada. Era bom haver mais rigor na comunicação de ciência.

Henrique Miguel Pereira

terça-feira, julho 24, 2012

A QUERCUS e os EUCALYPTUS

Chamaram-me a atenção para este comunicado da QUERCUS com o título "Incêndios florestais", publicado hoje.
Depois de uma semana complicada em que ardeu bastante na Madeira  e muito no Caldeirão, neste último caso sobretudo esteval e sobro, a QUERCUS descobriu a pólvora, descobriu que o problema é "falta de ordenamento do território, escassos apoios ao sector florestal e expansão descontrolada do eucalipto".
Demorei a perceber, mas finalmente vi a luz: o jornal Público começou na sexta feira a vender videos dos Monty Python e a QUERCUS não é organização para se deixar abater  sem luta.
Vai daí avançou directamente para a concorrência, enfrentando os Monty Python no seu campo.
Ardem trinta mil hectares de área sem eucalipto? O problema é o eucalipto, como é óbvio, se a expansão do eucalipto fosse controlada, como defende a QUERCUS, provavelmente o Caldeirão estaria eucaliptado e não arderia.
Ardem 25 mil hectares de sobreiros e estevas? O problema é a falta de ordenamento, como é óbvio, porque se houvesse ordenamento, como defende a QUERCUS, o que lá estaria era estevas e sobreiros e não sobreiros e estevas que já prenunciavam este desfecho.
Ardem 25 mil hectares de sobreiro e esteva? O problema é a falta de apoios à floresta, como é óbvio, se houvesse apoios à floresta convenientes, como defende a QUERCUS, estaria tudo devidamente florestado com pinheiros e ter-se-ia evitado o problema.
E se dúvidas houvesse, a QUERCUS acaba com elas de forma exemplar: "Como é do conhecimento público, o Governo está a preparar nova legislação que pretende viabilizar a expansão desmedida da monocultura do eucalipto – uma árvore mais suscetível à propagação dos incêndios - e facilitar os abates de sobreiros e outras espécies de maior valor ecológico".
É exactamente isto sem tirar nem pôr: o problema destes incêndios florestais, em áreas de sobreiro e esteva, é uma futura lei sobre arborizações, que não altera a lei dos sobreiros e que vai permitir a expansão desmedida do eucalipto, que aliás já era o problema inicial detectado pela QUERCUS para explicar porque ardem 25 mil hectares em área de sobreiro e esteva, sem aptidão para o eucalipto.
Um comunicado superlativo e esclarecedor.
henrique pereira dos santos
Declaração de interesses: tenho um pequeno trabalho  com uma das empresas de celulose e rompi  a minha ligação de anos com a QUERCUS, desarriscando-me de sócio quando um Presidente da QUERCUS e a propriamente dita organização resolveram chamar-me mentiroso e outras coisas que tais, por eu ter contestado um parecer da QUERCUS que contestava o trabalho  dos meus colegas do ICNB, cujos fundamentos técnicos a QUERCUS sempre se recusou a ir verificar no terreno comigo.

Será maldição?


Aproveito para assinalar a morte recente de John Lord
Lá está o Governo a fazer asneiras em relação aos fogos.
"Num comunicado divulgado pela tutela, lê-se que o ministro Miguel Macedo assinou nesta segunda-feira um despacho em que pede “uma análise dos meios humanos e materiais envolvidos” no combate às chamas. O relatório – que não é um inquérito, nota o ministério – deverá conter também informação sobre as “fases de empenhamento” e o “grau de desempenho” daqueles meios e ainda sobre “eventuais dificuldades ou falhas na coordenação e avaliação dos meios envolvidos na operação, a cada momento”.
Lá no gabinete do Ministro que tutela a protecção civil não haverá mesmo ninguém com uma pálida ideia do que são fogos e das dezenas de relatórios que existem sobre o assunto que mais vírgula, menos vírgula, explicam as coisas?
Nos comentários a um post do Paulo Fernandes no facebook três pessoas em amena cavaqueira identificam imediatamente mais de dez documentos que serviriam para o que o Senhor Ministro quer saber.
Mas se não quiser perder muito tempo, basta ligar ao Zé Miguel Cardoso Pereira e ao Paulo Fernandes (a ordem é arbitrária) que em meia hora fica a saber tudo o que precisa.
Mas pelos vistos os jornalistas não têm mais que fazer que ouvir o Jaime Marta Soares a debitar dinossaurices iguais às que sempre debitou e que nunca serviram para nada a não ser pedir mais dinheiro e recursos para os bombeiros (com isso o orçamento da protecção civil passou de 30 milhões para 130 milhões e os resultados são essencialmente os mesmos. É natural, dizia o Paulo Fernandes que pelas contas dele seriam precisos 3000 canadairs para apagar este fogo recente do Caldeirão, ou seja, a margem de progresso continua a ser imensa do ponto dos vista dos meios necessários para apagar fogos).
Com treinos intensivos de fogos quase todos os anos o que poderá explicar a nossa incapacidade de aprender?
Será maldição?
henrique pereira dos santos

sexta-feira, julho 20, 2012

Dito em estrangeiro pode ser que se entenda

Meia dúzia de linhas, e chegam.
henrique pereira dos santos

E que tal irem lá fora ver se está a chover?


Há dois dias chegou este comentário a um post antigo, que tem muitos links que ainda hoje acho que vale a pena serem lidos enquanto o país arde e os papagaios papagueiam:
"Soube esta semana que infelizmente o Thomas regressou à Alemanha, através de amigos (também alemães) de uma queijaria com mais de 100 cabras em Pedrogão Grande.
Debatem-se com muitos dos mesmos problemas, e não conseguem que as pessoas que "toleram" os seus rebanhos, que beneficiam do controlo de mato para camas do gado, da poda de pinheiros para combustível, etc, façam contratos de comodato que lhes permitam atingir a área elegível para apoios que de momento não recebem, vivendo quase exclusivamente do queijo que vendem.
É pena"
Há dois dias que ouço gente a falar de fogos e incêndios, cheios de certezas, indignações e soluções. Onde está esta gente o resto do ano, quando não arde?
Que têm feito, que têm proposto, que recursos identificam para gerir os fogos, para além de pedirem mais recursos para o seu grupinho (seja o grupo das ZIFs, o grupinho da protecção civil, o grupinho da intervenção rápida, o grupinho do voluntariado generoso, o grupinho da aviação, o grupinho da floresta autóctone, o grupinho da sensibilização, o grupinho da investigação, o grupinho das cabras, etc., etc., etc..)
Valha-nos o bom senso e a lucidez do Paulo Fernandes: isto é uma questão de meteorologia e quanto aos dinheiros para resolver o problema, o que mais falta faz é avaliar para onde foram e com que resultados.
Faz mais falta a avaliação que a aviação, concordarei eu sem a menor reserva.
Parafraseando um famoso filósofo da escola de Paris, a ideia de acabar com os fogos é uma ideia de crianças, os fogos não se extinguem, os fogos gerem-se.
E para gerir os fogos é muito mais importante o esterco das cabras que o brilho das ideias infalíveis que crescem como cogumelos no calor destes fogos.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, julho 19, 2012

Arborizações e rearborizações

Um anónimo comenta:
"Além da questão da postura das ONG ambientais, a proposta em si não lhe merece análise? Numa altura em que estamos novamente sem soluções para o cadastro não acha que abdicar destes licenciamentos é desperdiçar uma boa fonte de informação que pelos vistos já há (finalmente)alguém encarregado de compilar?
Considero que há ainda muito espaço para a área de eucalipto crescer em Portugal, mas gostava de saber onde e como, em vez de dizer que sim por todo o lado. Pelo menos uma vez gostava de ouvir alguém do lado das
celuloses (não é o seu caso) dizer explicitamente onde é que acham que NÃO se deve/pode plantar. Na minha opinião a única coisa que falta à floresta portuguesa e aos seus donos, é uma carta de ordenamento florestal nacional, aplicável à escala municipal, que diga onde e como se planta e o quê, não me parece assim tão complicado, no máximo restringe a liberdade individual dos proprietários de fazerem asneiras. Muito mais simples e barato do que a metodologia actual de:
1-Licenciar mobilizações de solo pelas autarquias, que apesar de terem gabinetes técnicos pagos pelo seu amigo FFP, muitas vezes não sabem o que é uma ripagem ou licenciam "surribas" (não-técnica de mobilização de solo que consiste em "sachar" com uma retroescavadora) que é a forma usada pela esmagadora maioria dos proprietários, sem condicionantes. 2- Parecer da CCDR, em caso de REN ou RAN, cujas condicionantes não são fiscalizadas pelas autarquias e de forma mais ou menos simultânea com o parecer da AFN cujo parecer ao plano previsional recentemente exigido é invariavelmente positivo.
A questão não se resume à espécie a plantar, mas também à técnica de mobilização do solo, que tem efeitos potencialmente nefastos, ou não? quem fiscaliza se não há lugar à identificação do responsável? Vejo todos os dias situações que configuram ilegalidades a este nível (mobilizações), com esta lei, o que estamos a fazer é assumir que uma vez que não conseguimos fiscalizar legalizamos! tudo!
Termino só dizendo que já existe muito eucaliptal abandonado, improdutivo, e os seus donos investem tanto na sua reconversão como os donos do pinhal na sua condução, zero.
Espero sinceramente que mais alguém venha "atiçar este lume", salvo seja e que não venha vento leste."

A citação foi longa mas merece. É um bom comentário, cordato, razoável e com substância.
E sinto-me na obrigação de responder.
Na verdade escrevo cada vez menos aqui (e noutros lados) porque estou cansado de estar permanentemente a nadar contra a corrente. Talvez tenha nascido para salmão mas que cansa, cansa.
Se hoje fiz um segundo post sobre a discussão de ontem do regime de arborizações foi porque senti que tendo manifestado uma opinião tão crua e crítica tinha a obrigação de a fundamentar um bocado mais.
E se respondo a este comentário fazendo este post é porque também sinto a obrigação de explicar por que razão não escrevi nada sobre a proposta em si.
Ontem fiz uma curta intervenção na discussão apenas para dizer: 1) que não fazia sentido obrigar a autorização as florestações abaixo de cinco hectares nas áreas protegidas. Ou se entende (como é a minha opinião) que as autorizações para estas arborizações não são determinantes para a conservação dos valores, e nesse caso está-se a manter uma burocracia pouco útil, ou se entende que as autorizações são fundamentais e, nesse caso, dever-se-iam aplicar à rede natura e não às áreas protegidas; 2) que mais uma vez o Estado estava a promover a concorrência desleal da floresta aos seus usos alternativos, com a pastorícia à cabeça, por simplificar os procedimentos da floresta e manter o kafkiano Regime de Excercício da Actividade Pecuária que torna mais difícil uma cabra ir de uma aldeia para outra que eu ir daqui para Pequim.
E de facto não me parece que o diploma valha muito mais tempo perdido.
Penso que o diploma, tal como está, dificilmente passa num conselho de ministros de tal modo é frágil na articulação com o resto da legislação. À boa maneira de florestal despachado alguém achou que a boa técnica de fazer o diploma era decidir e depois dizer aos outros que se amanhassem. Se uma avaliação de impacte ambiental demora 90 dias, ou se a legislação do domínio hídrico prevê 45 dias para a emissão de um parecer, bastava que para as florestas ficasse dito que era tudo em trinta dias e os pareceres em 15 porque evidentemente a floresta não pode estar à espera dos outros valores sociais em presença.
Como se sabe a política florestal não é uma política social mas uma emanação divina e portanto não tem de prestar vassalagem a coisas sem importância como, por exemplo, o resto da legislação existente. E como os actores do sector batem palmas não se vê por que razão não deva ser o sector a definir as melhores regras para si mesmo.
Só que as florestas são uma coisa importante demais para serem entregues aos florestais e portanto julgo que o diploma, tal como está, dificilmente verá a luz do dia.
Mesmo que veja a luz do dia ele apenas servirá para facilitar a vida a quem gere bem os seus povoamentos: a indústria de celulose e meia dúzia de grandes proprietários, os únicos que ainda se preocupam em cumprir a legislação actual. E desse ponto de vista é positivo por acabar com uma discriminação negativa a quem melhor serve o sector (quando o pessoal do pinho e do mobiliário protestar nestas discussões apetece-me logo perguntar-lhes quantos hectares de pinho gere cada serração ou fábrica de móveis para garantir o abastecimento, como faz a celulose)
De resto a grande maioria dos intervenientes na floresta estar-se-ão nas tintas quer para o diploma actual quer para o que vier. E as suas decisões serão comandadas essencialmente por factores sócio-económicos.
Na minha pequena consultoria ao sector tenho afirmado, e reafirmado, que me faz confusão como a indústria de celulose, que gere apenas 150 mil hectares, se deixa enrolar pela incompetência de gestão da maioria dos outros 600 mil hectares de eucalipto (dos quais um décimo de cerca de dois ou três hectares são meus, sendo que sou o único dos dez irmãos que sabe minimamente onde são as estremas da propriedade, dividindo-se os outros entre os que não fazem a mínima ideia de como se vai à propriedade, os que têm uma ideia de como se lá vai mas não garantem que lá chegam e os que sabem lá chegar mas não fazem ideia das estremas).
A grande maioria do eucaliptal, tal como o resto da floresta em Portugal, é mal gerida, na melhor das hipóteses, ou não é gerida, na maior parte das vezes.
Ora isto não é nada que se resolva na lei.
Isto resolve-se no terreno, com instrumentos económicos (o principal dos quais a rentabilidade dos povoamentos, que integra a percepção de risco face ao fogo) e com capacidade técnica de extensão rural, próxima dos agentes. Devo dizer que não entendo a passividade das celuloses perante este problema, que poderiam ajudar a resolver e que os impacta negativamente de forma brutal, nomeadamente por via regulamentar, com legislação que responde mais aos fantasmas do movimento ambientalista e ruralista que à realidade da produção florestal.
Por isso discutir esta proposta de lei é para mim marginal.
Os turcos estão a trepar pelas muralhas e nós estamos a discutir uma lei de arborizações.
Serão precisos dez dias de vento Leste para toda a discussão se voltar a reposicionar.
Quanto tempo demorará até essa tragédia é matéria que me escapa.
Que seja precisa essa tragédia para finalmente haver um nova oportunidade para repôr a gestão florestal no seu lugar é uma tristeza que me acompanha.
henrique pereira dos santos

Dois exemplos


Da diatribe de ontem da LPN contra o eucalipto resolvi escolher dois exemplos para ilustrar razões que minam a credibilidade do movimento ambientalista.
1) A afirmação de que nas duas últimas décadas a área de Quercus faginea no Oeste teria diminuído em 40%. A afirmação veio embrulhada em ses e mas que diziam que enfim os dados não eram seguros e tal e coisa, mas mesmo assim valia a pena chamar a atenção para o facto. E a afirmação pretendia fazer uma ligação entre a expansão do eucalipto e a diminuição em 40% do Quercus Faginea no Oeste. Dei um salto na cadeira que me distraiu de ver a referência bibliográfica que teoricamente permite a alguém dizer uma barbaridade destas. Quando aterrei na cadeira voltei à minha posição de partida nestas coisas: o bárbaro podes ser tu, portanto o melhor é fazer uma verificação mínima da credibilidade da afirmação. A meu lado estava um dos melhores vigilantes que conheci no ICNB (e conheci-os muito bons), excelente naturalista, conhecedor profundo o Oeste onde hoje exerce a sua profissão de técnico florestal. Para além disso um ambientalista no sentido clássico do termo, que se envolve civicamente nos movimentos ambientais, embora de baixo perfil público. E um colaborador assíduo de trabalhos científicos onde a sua evidente qualidade de trabalho e a confiança nos seus dados é inquestionável para as mais respeitáveis academias que trabalham em biodiversidade e áreas conexas. E perguntei se havia a mais pequena hipótese da área de Quercus faginea ter diminuído 40% em vinte anos. Cautelosamente, conhecendo as minhas posições heterodoxas em matéria de conservação, respondeu-me que dependia de que vinte anos estávamos a falar. Indiquei que estavámos a falar dos últimos, ou dos últimos do século XX, por aí. A sua reacção foi a mesma que a minha: não, não é possível. Qualquer pessoa que ande no campo sabe que não, não é possível afirmar que a área de Quercus faginea diminuiu 40% em vinte anos. Qualquer botânico confirma facilmenter a improbabilidade disto. Que a academia se entetenha a levantar hipótese absurdas em artigos científicos, acho normal, um dos papéis da academia é exactamente o de questionar a certezas quotidianas. Mas que uma das principais ONGs, a que supostamente tem uma cultura de maior rigor científico nos seus pontos de vista, resolva assentar posições sociais em hipóteses académicas abstrusas serve para quê?;
2) Lá veio mais uma vez a tolice do eucalipto como invasor. Não há na academia e nos meios científicos qualquer peso consistente na afirmação de que o eucalipto pode ser invasor. Existe um grupo minúsculo de investigadores, mais conhecidos pela sua ligação ao movimento ambientalista que pelo seu trabalho académico, que põe essa hipótese desde há meia dúzia de anos. O facto do eucalipto estar em Portugal há cerca de 200 anos, de haver 750 000 hectares da espécie e de nunca ninguém ter identificado nenhuma evidência empírica de invasão de eucalipto não demove esse pequeno grupo de considerar que toda a academia, e toda a gente, está errada, chamando em sua defesa duas ou três referências bibliográficas que se citam mutuamente, sem que ninguém, até hoje, tenha produzido evidência empírica sobre a matéria. Sobre isto leiam-se estes dois posts onde se resume a discussão. Sendo este o cenário da discussão, o que ganha uma ONG em assumir como suas as posições ultra-minoritárias desse grupo sobre o assunto? Não se trata sequer de haver uma posição ultra-minoritária a que se reconhece solidez empírica, trata-se mesmo de um devaneio académico sem qualquer relevância na produção científica. O que ganha uma ONG em se apoiar em tão frágeis bases, só porque lhe servem para defender ideologicamente uma posição?
Dito de outra maneira, o que ganham as ONGs em andar à procura de informação que possa estar de acordo com as suas ideias em vez de andar à procura de informação que lhes permita ter ideias melhores?
henrique pereira dos santos

quarta-feira, julho 18, 2012

O especialista de serviço


Estive de manhã num seminário sobre o novo regime de arborizações (continuaria para a tarde mas eu já não fiquei).
Fez-me confusão a posição do representante da Liga para a Protecção da Natureza e doi-me o coração ver o movimento ambientalista ser esmagado da forma como vi.
O diploma em discussão não é mau de todo, má é a situação actual. O diploma tem aquela estranha cultura florestal que dificulta a sua relação com a sociedade, aquela estranha jactância de julgar dispensáveis todos os sectores da sociedade que, de uma forma ou outra, inevitavelmente se cruzam com as florestas. Por exemplo, a conservação e a pastorícia são desconsideradas como elementos da decisão florestal, são tratadas como empecilhos que atrapalham o futuro radioso das florestas que por direito divino pertence aos florestais.
Até aqui nada de novo e não perderia tempo a escrever sobre o assunto.
A discussão do diploma tem afunilado em torno do eucalipto. Os maiores especialistas do assunto têm-se pronunciado de forma clara e fundamentada.
O movimento ambientalista resolveu alinhar pelo mesmo diapasão.
E o que vi hoje é de cortar o coração a quem, como eu, faz parte do movimento ambientalista.
Um movimento ambientalista igualzinho aos dos anos 80, sem ter aprendido nada, a dizer as maiores barbaridades sobre eucliptos, baseados em artigos científicos de outro mundo, e afirmando orgulhosamente que a discussão em cima da mesa era essencialmente uma discussão ideológica.
Do outro lado, serena e fundamentada, uma indústria de celulose que aprendeu muito desde os anos 80, que estudou, que mudou procedimentos, que melhorou a gestão, que incorporou as questões ambientais nos seus procedimentos e que, naturalmente, arrasou por completo, tecnicamente, os discurso demagógico e primário da LPN.
Poderia ter sido simplesmente um dia mau para o movimento ambientalista, nada que o tempo, o estudo e o esforço não resolvesse.
Era bom que assim fosse.
Só o que o que ali se passou é apenas o resultado de um problema de fundo: as organizações ambientalistas mais vocais, as que mais facilmente se fazem ouvir no espaço público, estão capturadas pelas franjas mais radicais da academia.
As posições das associações não resultam de discussões técnicas entre diferentes sensibilidades e formações dos seus sócios mas simplesmente das idiossincrasias do especialista de serviço em cada momento, que de maneira geral toma conta de um determinado assunto.
Se alguma das associações ambientalistas de repente passasse a alinhar as suas posições sobre fogos por aquilo que vou dizendo, eu acharia muito mal. Certas ou erradas (evidentemente eu acho que estão certas, mas a minha opinião é irrelevante) as minhas posições sobre a matéria são demasiadamente controversas para que possam ser aceites como posição oficial de qualquer associação que teria sempre dezenas de sócios a discordar, legitimamente, de mim.
A solução não é substituir um especialista por outro.
O que falta nas associações é democracia, debate, exigência, contraditório.
Por isso vão definhando lentamente como seitas que não representam ninguém nem intervêem na realidade.
Limitam-se a repetir, ideologicamente, chavões atrás de chavões, como na discussão do eucalipto e da florestação.
É pena, porque bem era preciso um movimento ambientalista forte, tecnicamente sustentado, para que tenhamos melhores regras e mais bem aplicadas.
Declaração de interesses: tenho um pequeno trabalho remunerado para uma das celuloses. Também tenho trabalhos, aliás maiores, para ONGs, mas suponho que isso não interesse nada como declaração de interesses.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, julho 16, 2012

Um lado solar

Estava com intenções de escrever sobre o artigo que hoje o Público dedica à legislação sobre arborizações, centrado no facto de mais uma vez se ignorar por completo a produção de gado em pastagens pobres. Quem ler as quatro páginas iniciais do Público pensa que ou se floresta ou se deixa improdutivo (eles chamam-lhe inculto, mas eu não sei o que isso seja quando se dsicutem ocupações do solo). Na discussão sobre o eventual uso de terrenos pobres dentro de perímetros de rega, lá se esquece a possibilidade de produção de gado miúdo em vez da florestação, como pretende a indústria de celulose.
E faria com certeza uma nota sobre o divórcio cada vez maior entre os papas do ambientalismo, entricheirados nas suas certezas, e a realidade. Citaria a citação emblemática atribuída pelo jornalista a Eugénio Sequeira: "como se sabe que a exploração do pinho não paga sequer a limpeza dos matos, é de recear que, com as facilidades de arborização e rearborização que a proposta de lei concede, se criem manchas contínuas de eucalipto". Traduzindo, é preciso impôr legalmente que os proprietários mantenham uma cultura ruinosa como forma de garantir uma exploração racional dos recursos. É isto, não é?
Seria com certeza mais um post soturno sobre o estado do debate público em Portugal.
Mas felizmente quando abri o meu mail uma alma caridosa tinha-me mandado o link que me vai permitir fazer antes um post luminoso sobre coisas bonitas feitas por uma arquitecta paisagista que, a julgar pela reportagem, parece carregada de bom senso:

domingo, julho 15, 2012

Provocação


Na verdade a provocação não é minha. Eu acho a provocação interessante, embora a questão seja colocada de forma um pouco simplista.
henrique pereira dos santos

quarta-feira, julho 11, 2012

Cristas e Janus

A Sr. Ministra da Agricultura deve estar preocupada pela alteração da política agrícola comum que irão prejudicar os produtores de leite (claro que vão beneficiar muitos produtores de outras coisas, mas isso não parece interessar os jornalistas que se interessam pelo assunto). A Sr. Ministra do Ambiente deve exultar com mais este passo no sentido da sustentabilidade, que passa pela redução de consumo de carne e lacticínios (e já agora, com a concorrência desleal que estas produções fazem a outras produções com conteúdos ambientais mais positivos). Suspeito que a Sr. Ministra da Agricultura tem consciência do primeiro parágrafo. Suspeito que a Sr.ª Ministra do Ambiente não tem consciência do segundo. henrique pereira dos santos