sábado, outubro 27, 2012

Novas histórias do lobo mau


Um dia um pastor, a quem a idade ia já pesando, lembrou-se de declarar mais uma cabra para subsídio.
"Mais cabra, menos cabra, a eles tanto lhes dá, e a mim sempre me ajuda a passar a velhice".
Com o tempo a passar, foi aumentando o negócio: o rebanho ia diminuindo no campo e aumentando no subsídio.
"Mais cabra, menos cabra, que mais dá?".
Vendendo uns cabritos aqui, comendo umas chanfanas acolá, e rebanho ia minguando, mas o dinheirito ia sempre aumentando, que no papel o rebanho  prosperava e "eles" pagavam, que bem tinham com quê.
Um dia veio uma inspecção e perguntou-lhe pelas 200 cabras. Aqui estão vinte e uma, mas ali para cima, lá pelo monte, andam aquase duzentas, que algumas até me esqueço de as meter ao subsídio.
Mas quê, o homem da inspecção queria vê-las, tinha de registar os números dos brincos, e sem isso não recebia o dinheiro da inspecção.
O pastor coçou a cabeça, foi à adega ao presunto, trouxe um caneco valente, e sentou-se a conversar com o inspector, dizendo-lhe que esperasse que as cabras já tornavam para baixo.
Vai da broa, vai do presunto, o caneco ora vazava ora enchia, mas o raio do homem que não se calava com os números dos brincos.
O vinhito não era mau, mas já se vê, uma espécie de verde, que ali era mais para o frio, era difícil ter mais de sete de grau, os homens até lhe chegavam bem, mas a coisa não se resolvia.
"As cabras já vão chegando, eu pelo menos já vejo umas quarenta, mas esta cabeça já não está tão boa como quando chegou, volto daqui a dias para ver as outras cabras, por agora vou-me embora que me parecem os números todos turvos."
O pastor dava voltas e voltas na cama para saber como resolver o assunto.
Ele bem sabia onde andavam as cabras, nos tachos e panelas deste e daquele e o problema é que ainda lhe pediam que voltasse a entregar o dinheirinho que estava gasto.
A mulher, farta de o ver às voltas a dizer que se ia desgraçar, sempre lhe disse: "és sempre o mesmo cabeça no ar, deixa-me dormir sossegada, diz ao homem que o lobo te levou os animais na semana passada".
E foi assim, depois do sono dos justos, que o homem passou os dias seguintes a dizer em tudo quanto era aldeia e vila, que andavam feras no monte a roubar-lhe os animais.
Não sei o que me deu para escrever esta história completamente absurda.
Só se foi este post do melhor surrealismo que tenho lido em Portugal desde o António Maria Lisboa.
henrique pereira dos santos

quarta-feira, outubro 17, 2012

Asneira grossa


Este governo, tal como o anterior, parece apostado em desvalorizar o regulador e tomar a opção de estabelecer preços políticos para a electricidade.
Na verdade o pequeno aumento da electricidade não significa que se pague menos, significa que se paga diferido e com juros (uma boa metáfora do país).
E tal como critiquei o Governo anterior, e o movimento ambientalista que ficou calado com esta obsessão pelos preços baixos da electricidade, critico este Governo, e o movimento ambientalista que ficar calado, por esta opção anti-sustentabilidade que consiste em dar o estímulo errado para a eficiência energética ao mesmo tempo que se cria mais dívida no défice tarifário.
Não estou de acordo e não me conformo. Com o Governo, e com o movimento ambientalista que temos.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, outubro 15, 2012

Olha, uma boa ideia.

Imagem vinda daqui
O lançamento oficial parece que é daqui a três dias.
O coordenador é o meu Professor de biologia dos primeiros anos da universidade, dos poucos de que me lembro com absoluta clareza, sem que isso tenha qualquer relação com o facto de conhecer o filho, anos mais tarde, mas apenas com a qualidade do ensino.
henrique pereira dos santos
PS Enquanto o mundo pula e avança, produzindo coisas sempre prometidas (quer o que falo no post, quer a flora-on, quer o naturdata, quer o biodiversity4all, etc., etc.), o SIPNAT há dez anos que vai ficar fantástico e disponível nos próximos seis meses.

quinta-feira, outubro 11, 2012

Gerir paisagens é comer inteligentemente

“Alimentação e Biodiversidade”
19 Outubro 2012
Auditório da Santa Casa da Misericórdia
Vila Pouca de Aguiar
Programa
9.30 Sessão de Abertura
10.00 O Fundo EDP de biodiversidade, balanço de cinco anos de existência.
10.20 "Estratégias de patrimonialização alimentar. Do fumeiro do Barroso à salicórnia de Lavos", Daniela Araújo
10.40 “Alimentação e fertilidade do solo”, Carlos Aguiar
11.00 Pausa e prova de produtos locais
11.30 "Dinâmica e criatividade jovem a favor da valorização do território" – João Ministro, “Projeto Querença”
11.50 “Valorização da Multifuncionalidade e Dinâmica dos Soutos e suas Paisagens”, Anabela Doreta, Agroaguiar
12.10 Debate
13.00 Almoço com base na produção local, incluído na inscrição
14.30 “Cuidar o meio ambiente tem um sabor: Queixos do Xures", António da Cunha, Pastor Galego
14.50 “Segredos com sabores de ortiga e cogumelos”, Manuel Paraíso, Confraria da Ortiga
15.10 “A TerriuS e o papel da produção na preservação e valorização do ecossistema da Serra de S. Mamede – Marvão”, Rita Martins, TerriuS
15.30 Debate
16.30 Pausa e prova de produtos locais
17.00 Apresentação da componente de valorização de produtos do projeto da AguiarFloresta, Henrique Pereira dos Santos
17.30 Encerramento
Informações e inscrições:
AGUIARFLORESTA - Telf: 259 417 634 - E-mail: biodiversidade@aguiarfloresta.org

quarta-feira, outubro 10, 2012

Vale a pena pensar nisso


Uma empresa de celulose celebra alegremente o seu registo mil na maior (e a única não dedicada a grupos específicos, sendo mesmo a única que tem trabalhado a possibilidade de registo de habitats e não apenas de espécies) base de dados de biodiversidade que existe em Portugal.
Ao mesmo tempo grande parte da academia e das associações de conservação teimam em estar ausentes destas bases de dados. E quando têm bases de dados de grupos específicos resistem a encontrar os mecanismos de partilha de dados entre as diferentes bases existentes.
Não deixo de me perguntar que diabo de relação a academia e as associações mantêm com a sociedade e com as pessoas comuns.
henrique pereira dos santos

quarta-feira, setembro 26, 2012

(Mais uma) Reflexão sobre o mundo rural

Em nome do Carlos Aguiar que se esqueceu dos códigos:
Nos últimos dez anos assisti, aqui no nordeste, a um lento, mas crescente, retorno à ruralidade. São o neto de agricultor, a segunda geração na cidade – ou o urbano desenraizado, regra geral reformado sem chegar aos sessenta, eventualmente mais jovem com um trabalho compatível, ou um cultor de estilos alternativos de vida com mesada garantida do pai. Muitos, influenciados pelo bucolismo queirosiano, pelos fundadores da ecologia profunda ou, simplesmente, enganados por recordações de juventude que o tempo branqueou e elevou a elemento identificador, venderam os haveres da cidade e desbarataram a poupança e a herança na restauração de uma casa esbarrocada. Os não herdeiros arriscaram uma compra às cegas, sobrevalorizada pela ânsia de ter, porque, nas aldeias, assim como não há mercado da terra, também o não há do barracão ou do palheiro.
A ilusão é fácil de resumir. Na grande cidade ninguém se conhece: cada um por si, dizem-me. Ensimesmadas, nos transportes públicos, as gentes pisam-se, resmungam, suam, e roçam-se com aspereza. A crise reprime, os grafitis oprimem. O susto do puxão, da faca de ponta e mola condiciona o comportamento. O progresso, a mais perigosa das ideias da modernidade, está em causa. Não há espaço, nem oportunidades. A cidade pesa. No campo, nada disso: resiste a liberdade da porta aberta e dos laços de vizinhança, a entre-ajuda, a troca direta, o bicho que vem comer à mão, as vistas largas, a floresta que se expande, e a horta, o símbolo maior da auto-suficiência, que liberta das volatilidades do mercado e das ameaças das depressão económica. No campo não é preciso ouvir notícias, e tomar decisões que determinam uma vida. Os dias fluem sem grandes oscilações, e sem perigo. Será?
Anteontem aprendi um conceito interessante: capital-social, assim se chama, ensinou-mo um amigo das sociologias. Embora não seja consensual – como raramente o é qualquer conceito de humanidades ou ecologia – será uma espécie de medida das interações (conexões) no interior de uma determinada rede social, por exemplo de uma comunidade de aldeia. Quanto maior o capital-social, quanto mais as pessoas interagirem umas com as outras, menor a desconfiança, a conflitualidade e a agressão, mais propício o ambiente social para a cooperação,  a troca comercial, o investimento, a inovação, o melhoramento e o bem-estar. Se o capital-social é isto, então as nossas aldeias estão socialmente descapitalizadas.
Nas aldeias do interior sobram os velhos e os desadaptados. Os poucos que praticam uma agricultura comercial têm muitas vezes as famílias na sede de concelho, e vivem demasiado ocupados para investir em laços sociais sem retorno. Ninguém depende de ninguém: o estado, apesar de tudo, oferece melhores cuidados na doença e a pensão cobre a utilidade da entre-ajuda. Os direitos de propriedade são cada vez mais difíceis de defender. Há pouca gente, mas os marcos movem-se. Desaparecem as cebolas na horta e as máquinas agrícolas no telheiro. Sucedem-se os roubos de habitações. Desaparece o ouro, a joia e a galinha. A GNR abalou para a vila e a insegurança apressa. O baldio, teimosamente regulado por uma lei que já em 1975 versava uma sociedade extinta, é devassado, diminuído e as suas rendas desaparecem sem rasto. O ressentimento, a desconfiança e o azedume acumulam-se. Crescem os conflitos com posses, confrontações e heranças. Quando não, explodem em crime. Os “novos colonizadores” ou vivem protegidos no seu pequeno grupo, isolados das tricas de aldeia, ou rapidamente amargam no arrependimento.
A sociedade camponesa exaltada pelos Jorges Dias acabou. Sobrou um pastiche meio cidade, meio campo, decadente, triste e improdutivo. Mas que ninguém se atreva a por em causa os direitos dos terratenentes ausentes (a maioria): do médico, do doutor em leis, do professor, do polícia ou do funcionário de repartição. A terra agrícola tem esta coisa: o abandono aumenta a sua fertilidade, e quanto menos lembrada menos impostos paga.  Depois o estado está sempre disponível para apagar os incêndios, a defender as elites e não faz perguntas.
A aldeia nasceu como uma unidade de autossuficiência, uma nave que sulcava o mar de pobreza e opressão que caracteriza as sociedades malthusianas. Nas sociedades industriais atuais a aldeia é um resíduo histórico, uma forma desatualizada de uso e ocupação do espaço. A pequena vila rodeada de uma constelação de explorações agrícolas, mais ou menos agregadas em comunidades de explorações agrícolas, prontas a responder aos sinais do mercado tem muito mais futuro, pelo menos no curto médio-prazo. As aldeias retêm ainda gente a mais, e estas políticas de transferências de recurso do litoral para as zonas de desfavorecidas do interior são contraproducentes, de tão ineficazes e ineficientes.
Carlos Aguiar

segunda-feira, setembro 24, 2012

Futuro incerto para a conservação do Lince


O futuro para a conservação de qualquer espécie é incerto.
Mais ainda o de uma espécie especialista noutra espécie com variações bruscas de população, com enorme capacidade de se reproduzir, formando colónias e muito atreita a epidemias várias.
O Lince levou uma grande sova com as duas grandes epidemias dos coelhos do século XX.
E desde o princípio do século XXI, mais ano, menos, ano, recupera à velocidade estonteante de 10% ao ano, tendo bem mais que duplicado a população.
Já me tinham falado disto, mas o Pedro Cardia explica mais demoradamente num comentário a um post mais antigo do blog:
"Olá,
Acabo de assistir a uma palestra que me alarmou e deprimiu, tendo em conta os potenciais efeitos na conservação aqui na Península Ibérica.
Segundo os dados que apresentou o orador (ver abaixo, p.f.) a distribuição geográfica dos casos confirmados (em coelhos de produção) já é muito grande e causa aproximadamente 50% de mortalidade em adultos e, crucialmente, também nas crias.
Maus tempos se avizinham, novamente, para a conservação do Lince (e não só...)?
Pedro Cardia
"An emerging RHDV variant causing mortalities in young rabbits Francisco Parra (Biotechnology Institute of Asturias, Universidad de Oviedo, Spain)
Outbreaks of RHD in young rabbits on previously vaccinated farms have led to the identification of an RHDV variant on the Iberian Peninsula. This apparently reemerging virus is genetically related to apathogenic rabbit caliciviruses. The virions are antigenicaly distinguishable from classic RHDV (genogroup I) and show an altered hemagglutination pattern and tissue tropism with respect to classic RHDV isolates. The commercial inactivated vaccines do not confer sufficient protection against the new RHDV variant and improved anti-virus strategies will be required to avoid the spread of this re-emerging pathogen of rabbits."
Francisco Parra is full Professor of Biochemistry and Molecular Biology and Director of the Biotechnology Institute of Asturias at the Universidad de Oviedo (Spain). His main research is devoted to the study of the molecular mechanisms, diagnostic and vaccine design against virus and parasite pathogens relevant for human or animal health. For more than 20 years he has been particularly involved in studies concerning rabbit hemorrhagic disease virus. His research group has contributed to the first description of the causative agent of RHD, the development of recombinant vaccines and the first three dimensional structure of a calicivirus RNA dependent RNA polymerase."
henrique pereira dos santos, publicitando um comentário  muito relevante de Pedro Cardia.

sábado, setembro 22, 2012

¿Por qué?



Depois de ler este frase: “Não foram, no entanto, colocados dispositivos GPS nestas águias pesqueiras, como acontece num projeto semelhante a decorrer em Espanha.” nesta notícia águias-pesqueiras.
Lembrei-me do Zé e perguntei: mas porque?!

quinta-feira, setembro 20, 2012

"Todo o luxo é uma espécie de degradação"


Tinha acabado de almoçar os restos de uma sopa, que tinha feito para aproveitar os restos, as peles, as espinhas e a cabeça de um peixe, deitando-os por cima de uns quadradinhos de pão que passei numa frigideira com azeite quando dei com o segundo post do Filipe Nunes Vicente da série que em boa altura começou.
Acompanhei o almoço com um copo de vinho branco. Ainda não cheguei à austeridade de Augusto, imperador romano, justamente elogiado por Suetónio pela sua frugalidade, que se manifestava, por exemplo, pela moderação do consumo de vinho, quase sempre baptizado com água, como era comum nessa altura.
Costume que aliás perdurou, como verifiquei no último passeio que fizemos às minas romanas de três minas, em nos serviram um refresco de mel e água (pode-se acrescentar umas gotas de limão, mas não fazem falta). E que me explicaram depois que também se bebia traçado com vinho tinto, era o que davam de beber aos ceifeiros do centeio, para lhes dar força, para lhes tirar a sede no trabalho duro ao sol do Verão das serras, sem que ficassem imprestáveis para o trabalho.
O meu convívio com o António Alexandre tem-me aproximado de uma cozinha mais próxima da terra, o que significa também mais aproveitadora, nomeadamente das partes menos nobres dos animais e plantas, a que António Alexandre sabe dar uma sofisticação que me falta (infelizmente, mas os pezinhos de coentrada que experimentei fazer pela primeira vez estavam bastante palatáveis).
Por tudo isto, no encontro entre o meu almoço de restos e os posts de Filipe Nunes Vicente, lembrei-me da citação de Eugénio de Andrade do título (de memória, não garanto o rigor de cada letra, mas está numa entrevista publicada num livrinho que comprei, já com um autógrafo de Eugénio de Andrade em que só reparei quando cheguei a casa, numa altura em que já era um poeta conhecido, mas não era ainda um monumento nacional).
E lembrei-me deste post de David Justino.
Na verdade incomoda-me não ver no movimento ambientalista ninguém levantar a voz para dizer, de forma clara, provavelmente incómoda para quem o disser, que a austeridade é uma virtude, defeito é a pobreza, a miséria e a fome.
Incomoda-me que ninguém, no movimento ambientalista, diga de forma clara que a defesa do consumo pelo consumo, que tem sido a receita constante para sairmos da crise, é inadmissível.
Que é bom a travagem no sector da construção, excessivo e predatório em Portugal, que é bom que as pessoas reorientem as suas prioridades de consumo, como aliás sempre defendeu, em teoria, o movimento ambientalista.
Incomoda-me que ninguém diga que austeridade não é problema, desemprego sim.
Uma coisa é fazer o maior esforço possível para remediar ou evitar as consequências sociais negativas de uma mudança estrutural na produção e consumo do país, outra coisa é apoiar o esforço reaccionário que está a ser feito para retomar um caminho completamente insustentável de consumo e que o movimento ambientalista não se cansou de denunciar (a situação financeira só reflecte o que o movimento ambientalista disse sobre o consumo excessivo que nos estava a conduzir pelo mundo alienante da insustentabilidade).
Meus caros, é tempo das pessoas que defendem a sustentabilidade dizerem com clareza que a austeridade é mais sustentável que o luxo.
E  que o luxo é sempre uma espécie de degradação.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, setembro 10, 2012

Fiquei satisfeito

Este é o Chef com quem o Luís Jordão e eu trabalhamos em projectos que juntam alimentação, gestão da paisagem e da biodiversidade.
Fiquei satisfeito em saber que no universo dos quase 400 hoteis em todo o mundo, da cadeia Marriott (hotéis de quatro e cinco estrelas), o António Alexandre ganhou o prémio de chef do ano de 2011.
Uma boa razão para os que ainda não o conhecem aparecerem nas nossas oficinas de cozinha, em que se come muito bem, se aprende muito de cozinha útil no dia a dia e se estabelecem relações com a gestão da paisagem.
É por estas e por outras que quando alguém se mostra muito preocupado com os fogos eu pergunto sempre quando comeu o último cabrito.
henrique pereira dos santos

quarta-feira, setembro 05, 2012

ONGs e fogo: um caso ignorância militante


Comecemos pelo título. Ali em cima não está escrito "as ongs" mas apenas "ongs". A razão é simples: insisto que o movimento ambientalista é bastante mais vasto que as direcções das ongs mais vocais, e que há muitas ongs em Portugal para além das que vivem dos jornais. Resumindo, este post critica duas posições concretas de duas ONGs, não critica genericamente as ONGs, como às vezes me dizem que faço.
Este post resulta de duas posições recentes de duas ONGs: esta, da QUERCUS e este texto, aparentemente vindo directamente dos estúdios da Walt Disney, da LPN.
O da QUERCUS tem pouco interesse, insere-se na esperteza saloia de aproveitar todos os pretextos para dar rédea solta aos traumas de alguns militantes influentes da QUERCUS em relação aos eucaliptos.
Os momentos iniciais da QUERCUS, e o crescimento rápido da associação, foram feitos em torno da luta contra a eucaliptização do país dos anos 80 e foram perfeitamente justificados face ao que então se passava na matéria, face aos modelos de gestão adoptados pelas celuloses e administração florestal e face ao conhecimento que então havia sobre o assunto.
Mas a persistência das mesmas posições face aos eucaliptos, melhor dizendo, a transferência das mesmas posições face à eucaliptização para o eucalipto, trinta anos depois, revelam um reaccionarismo que não tem correspondência do lado dos produtores.
Os produtores, em especial os tecnicamente mais evoluídos, de que se destacam as celuloses, souberam aprender com os erros e, por pressão do mercado, em especial via certificação (a QUERCUS opõem-se ferozmente à certificação ambiental de plantações de eucaliptos), mudaram de modelos de gestão e têm hoje uma postura muito mais moderna e aberta que tinham então.
A QUERCUS não, cristalizou em posições trogloditas sobre a exploração de eucalipto, sendo que hoje, ao contrário do que acontecia nos anos 80, quase não tem apoio na academia e nos meios científicos que estudam a matéria por ser impossível encontrar fundamento técnico e científico para as posições da QUERCUS na matéria.
É aqui que entronca a proposta delirante de "travar" a expansão de eucaliptos nas áreas ardidas durante uma década. É uma proposta tecnicamente inexequível (a QUERCUS aparentemente esquece regras básicas que condicionam a dinâmica da vegetação após fogo), um duplo castigo para os proprietários (que evidentemente se estarão nas tintas para o que quer a QUERCUS e continuarão a gerir a regeneração natural das suas propriedades em função do que lhes parecer melhor) e sem qualquer fundamento em problemas de conservação identificáveis, já que a maior parte da área que arde tem matos, exactamente porque ninguém achou interessante, até hoje, alterar esse uso para um uso florestal.
A mim, que desde muito cedo me envolvi na actividade da QUERCUS, que a apoiei em muitas alturas (como faço quando me pedem, e não faço mais porque a QUERCUS não tem interesse nas propostas que fui fazendo, mesmo as que são do estrito campo do voluntariado) e que defendo um movimento ambientalista forte, entristece-me ver organizações como a QUERCUS presa pelos fantasmas ideológicos de meia dúzia de pessoas.
Tomemos agora o texto poético da LPN, que traduz também uma ideologia sem fundamento racional, filha da ignorância militante.
A LPN fala de um fogo de há meia dúzia de dias. Mas, sem qualquer avaliação, já concluiu que se perdeu imensa biodiversidade, que se perdeu uma das melhores áreas de bosque Mediterrânico (a maíuscula é da LPN, não minha) da serra e muitas espécies perderam as suas casas (grande Walt Disney, quase 50 anos depois da tua morte ainda chegas tão fundo no cérebro de tanta gente). E acrescenta que "Pelo tempo que a natureza leva a recuperar o que em tão poucos dias se perdeu, muitos habitantes locais jamais voltarão a ver a Serra como sempre a conheceram".
Hoje, e antes da próxima Primavera, nem a LPN, nem eu, nem ninguém, pode dizer com alguma segurança o que foi ou não foi afectado, porque isso depende essencialmente da reacção dos organismos vivos, em especial plantas, que lá estão neste momento (quer os muitos indivíduos de plantas que não morreram, mesmo que a sua parte aérea tenha sido queimada, quer as muitas sementes que terão agora uma melhor oportunidade para se transformarem em novos indivíduos).
Que diabo, neste caso nem é preciso estudar muito, basta dar dois passos para o lado e ver o resto da serra que ardeu em 2004. E se forem pessoas muito novinhas que acham que antes dos fogos aquilo eram uns sobreirais imensos, maduros, complexos, com 500 anos, que leiam qualquer coisinha, são só meia dúzia de cliques na net. Que peçam a pessoas que habitualmente colaboram com a LPN e que são os responsáveis pelas avaliações após fogo que lhes expliquem as taxas de sobrevivência dos sobreiros em torno dos 80%.
Que vão verificar que é exactamente nas melhores manchas de matas e matos mediterrânicos que a regeneração se dá com mais sucesso, com mais força e com mais rapidez.
E se ficarem espantados e quiserem saber por que é assim, estudem um bocadinho de dinâmica da vegetação após fogo, concentrem-se na disponibilização do fósforo nas cinzas dos fogos e o seu papel na regeneração natural.
E se quiserem, comprem uns livrinhos com fotografias nos alfarrabistas e olhem para a serra dos anos vinte (vejam por exemplo o catálogo feito para a exposição portuguesa em Sevilha, 1929) que tem uma fotografia (um cliché, como se dizia na altura) fabulosa da serra, nua, nua, nua como dificilmente se vê a terra, como constatou Caetano Veloso quando estava preso.
A militância é, em si mesma, uma coisa boa. Mas aplicada à ignorância não dá grandes resultados.
O problema é que são textos assim, pessoas assim, organizações assim que contribuem para o miserável nível técnico da discussão sobre os fogos.
O que fatalmente conduz a políticas igualmente miseráveis, quando avaliadas pelos seus resultados, mas sumptuárias, quando avaliadas pelos meios disponibilizados pelos contribuintes.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, setembro 03, 2012

ATN


Declaração de interesses: retomarei, a 1 de Outubro, a minha colaboração profissional com a Associação Transumância e Natureza, a gestora da primeira área protegida privada portuguesa e, provavelmente, a segunda maior (depois da Liga para a Protecção da Natureza) proprietária privada de terrenos estritamente consagrados à conservação da natureza em Portugal. Não estou a considerar os proprietários de terrenos que visam a actividade económica e que consagram uma percentagem à conservação.
Para assinalar o retomar da minha colaboração com esta associação gostaria de chamar a atenção para o projecto de crowdfunding que tem a correr, faltando 28 dias para o seu fim.
É um projecto pequeno, orientado para resolver um problema pontual e que vale a pena apoiar: não sendo pelo projecto em si, que seja pelas recompensas oferecidas.
Uma sugestão para quem tenha cinco euros disponíveis e os queira ver gastos a fazer crescer o único projecto privado de conservação que tem como orientação dominante o controlo directo do território para obter resultados em matéria de biodiversidade, mantendo um crescimento consistente da área que é propriedade da associação, tendo recentemente passado dos anteriores cerca de seiscentos hectares para cerca de 800, por aquisição de mais uma quinta limítrofe da reserva.
henrique pereira dos santos

quarta-feira, agosto 29, 2012

Os lobos da Alemanha


"In the late 18th century the wolf was eliminated from Germany due to organized persecution. Since then single wolves immigrated, rarely but regularly, to eastern Germany, but none succeeded in establishing a new population until they were placed under legal protection in the whole of Germany in 1990. It took ten more years until the first reproduction of wolves could be recorded in the Muskau heath in north eastern Saxony. From that point the wolves in Germany reared pups every year and the population started growing"
Isto está escrito num artigo científico de uma revista muito qualificada e com peer review. E aparentemente toda a gente acha normal.
A região é "Characterised by large former and still operating opencast coal mines...". "By establishing in this area the wolves recolonised exactly the region where the last eastern German wolves were extirpated in the 18th century. After the first reproduction in the year 2000 in the Muskau heath, a second pack established in 2005, henceforward every year at least one more new pack could be confirmed. In the year 2009 six packs and one territorial pair of wolves without offspring occupied about 2500km2".
A ver se entendo: o lobo desaparece da Alemanha no fim do século XVIII, exactamente na mesma região onde reaparece no século XXI, fazendo parte da mesma população que existe na Polónia (e que nunca se extinguiu), numa região de minas de carvão e a razão da recolonização não é a expansão da população dadora e a alteração de habitat proporcionada pelo fecho de inúmeras minas de carvão, abertas a partir do século XVIII, mas uma protecção legal estabelecida 10 anos antes?
Pois, pode ser que sim.
Terão com certeza razão.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, agosto 23, 2012

Mais uma cortesia do Paulo Fernandes...


... com quem tive uma interessante discussão sobre prioridades na política de gestão de fogos, na caixa de comentários do post sobre ignições.
"The choice is not whether or not these forests burn. The choice is how they burn.

sábado, agosto 18, 2012

Eucaliptos nórdicos


Eucalyptus nitens numa plantação serrana no norte de Portugal
Numa monumental gaffe, o comentador televisivo (não o chamaria jornalista) Miguel Sousa Tavares, ao serviço da SIC, concluiu de forma brilhante que, com a proposta de alteração da legislação que regulamenta projetos de florestação de espécies de rápido crescimento, Portugal correria sérios riscos de ter mais eucaliptos que os países nórdicos (ou algo semelhante, porque não consegui verificar com exatidão a frase, uma vez que a gravação do programa foi tirada de imediato do site da SIC após alguém se ter apercebido da asneira proferida pelo menino bonito da estação).

Não é preciso explicar que os eucaliptos não se dão em climas nórdicos. No entanto, esta questão levanta uma interrogação interessante: e se dessem? Nas recorrentes discussões que tenho com as mais diversas pessoas sobre os eucaliptos na floresta e sociedade Portuguesas, está latente a ideia, sobretudo nas pessoas mais críticas à presença desta espécie no nosso País, que a sua presença é sinal de terceiromundismo que, supostamente, caracteriza a política pública e privada florestal em Portugal (opinião que não partilho, como será evidente).

Acontece que, também nos países nórdicos (que começam, para mim, a norte dos Pireneus), a utilização de espécies exóticas é prática corrente, tanto por parte dos serviços públicos como por proprietários privados. Espécies como Pseudotsuga menziesii, Larix kaempferi, Picea alba e P. sitchensisAbies grandis, Pinus nigra e outras do mesmo género, Quercus rubra, Robinia pseudoacacia, Populus das mais diversas espécies e seus híbridos são plantadas, sempre que estas espécies oferecem boas perspetivas da sua valorização. Curiosamente, esta questão não é alvo da caça à bruxa que assistimos cá em Portugal em relação aos eucaliptos. Com o pragmatismo característico dos nórdicos, a questão é colocada na perspetiva da função principal de uma certa área florestal: se sua função é de produção florestal, então há-de-se escolher as melhores espécies em relação a esse objetivo, sem dogmas nem preconceitos. Por isso já assisti, por exemplo nos Países Baixos donde sou natural, à eliminação de Pseudotsugas numa área de conservação e a sua plantação logo ao lado, onde foi atribuída a função de produção.

Voltando à interrogação inicial: e se os eucaliptos se dessem por lá? Eu não tenho a mínima dúvida que, tal como cá, os países nórdicos recorriam à plantação de eucaliptos. Só não o fazem porque os eucaliptos não se dão por essas terras! Por enquanto, porque nas serras de Escócia já foram plantados eucaliptais da espécie Eucalyptus nitens, mais resistente ao frio que o "nosso" Eucalyptus globulus (como a foto acima comprova, tal como o post aqui), na perspetiva de constituirem possíveis culturas energéticas.

Henk Feith
Declaração de interessa: trabalho para ALTRI, grupo que integra a fileira da indústria de celulose. No entanto, as opiniões aqui expressas o são a título pessoal.

quinta-feira, agosto 09, 2012

Seis anos


Nos dias em que o único projecto turístico de Alqueva que tinha avançado parece ter batido na parede da falta de crédito (os outros projectos todos nunca saíram do papel), pondo fim (provisório, sempre provisório, em Portugal o fim de um projecto nunca é definitivo) a uma quimera longamente alimentada pelos Governos anteriores, por uma AICEP arrogante e autista e por não sei quantos funcionários públicos que se esqueceram de que o seu compromisso de fidelidade é com a lei e com os cidadãos e não com os Governos, a quem apenas devem lealdade.
Nos dias em que esse único projecto se afunda em questões de financiamento.
Nestes dias tenho muito orgulho, verdadeiramente orgulho, por há seis anos ter escrito este post, cuja releitura, à luz do que hoje sabemos, recomendo vivamente, incluindo a discussão nos comentários.
Mas verdadeiramente preferia ter-me enganado e o futuro demonstrar que só tinha dito disparates.
henrique pereira dos santos

terça-feira, agosto 07, 2012

Crowdfunding e movimento ambiental

Aqui e ali tenho apoiado projectos que estão a procurar financiar-se via crowdfunding.
A ideia do crowdfunding é-me bastante cara, gosto de projectos em que pessoas ou organizações se apresentam de peito aberto e cara descoberta a procurar suscitar apoio social. E tenho colaborado sobretudo com uma das plataformas a operar em Portugal a PPL
Já foi uma rapariga fazer investigação para Madagáscar, estive directamente envolvido num projecto para aumentar a acessibilidade ao mundo rural e ao património natural, faltam 18% (525 euros) e dois dias para melhorar a monitorização de cetáceos em S. Tomé e Príncipe, alguns projectos com componentes de educação ambiental já foram financiados e agora voltam à carga com o seu crescimento, e começou agora um pequeno projecto para a Faia Brava.
Para além desta plataforma, que conheço melhor, outra plataforma estritamente ambiental, ligada a uma plataforma generalista americana, lançou também dois projectos, qualquer dos dois bastante grande, sendo mesmo enorme o dos lobos.
Naturalmente há quem critique e há também quem ache que o crowdfunding é um maná que cai do Céu.
Com a experiência que vou tendo na matéria parece-me que vale a pena fazer dois comentários:
1) Quem se dispuser a vir a terreiro pedir às pessoas não pode estranhar que essa exposição provoque críticas. Por exemplo, pode haver quem ache, e o diga, que o projecto dos lobos não é um projecto de conservação, ou que eventualmente o será apenas por via indirecta da educação ambiental e da investigação. Independentemente de ser assim ou não é preciso ter consciência de que críticas justas e injustas vêem directamente com o processo. Quem quer entrar nele deve saber que, por exemplo, há pessoas que não compreendem que se façam doações a empresas (como foi o caso do projecto em que estive envolvido e que cito acima) e que o melhor é estar preparado para dar respostas razoáveis. Certas ou erradas, cada um julgará por si, mas respostas às questões que forem sendo colocadas parece-me o mínimo de respeito pelos outros a quem estamos a pedir dinheiro;
2) O Crowdfunding não é pau para toda a obra e vai ser o fim dos problemas financeiros das ONGAs. Nada mais errado. É preciso ter bons projectos, dirigidos ao que as pessoas sentem como problemas reais, pelo menos o suficiente para motivar uma doação. O que implica transparência e prestação de contas, alguma dela encerrada em perguntas injustas.
Espero que mais projectos ambientais vão aparecendo, pode ser que assim as associações se voltem a focar no público.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, agosto 03, 2012

O frisson não é muito...

.. mas ainda assim vale a pena trazer aqui esta cortesia para os cépticos da influência humana nas alterações climáticas.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, julho 30, 2012

Já me falta a paciência para a conversa da redução das ignições

O gráfico não é brilhante, mas quem quiser pode ver o original nos relatórios da AFN (ou clicar no gráfico que já fica bastante visível).
O que me interessa é contestar veementemente a ideia de que a redução de ignições é uma questão importante na gestão do fogo em Portugal.
O gráfico tem o número de ocorrência no eixo dos XX e a área ardida no eixo dos YY. Cada ponto represente a combinação das duas variáveis para cada ano.
Em torno das vinte mil ignições temos quatro anos (2004, 2006, 2007 e 2010) mas as áreas ardidas variam entre cerca de 33 mil hectares (2007) e mais de 130 mil, uma variação  do simples para mais do triplo.
Em torno das 26 mil ignições temos cinco anos (2001, 2002, 2003, 2009 e 2011) com variações da área ardida entre os 73 mil hectares de 2011 e os 420 mil de 2003.
Alguém me explica como com evidências destas nos relatórios oficiais ainda se ouve permanentemente a conversa de que para gerir racionalmente o fogo em Portugal é fundamental diminuir as ignições?
henrique pereira dos santos

quarta-feira, julho 25, 2012

A capa de gelo e neve da Gronelândia derreteu?

 

Ouço esta manhã na TSF que a capa de gelo e neve da Gronelândia derreteu. Leio no Público uma notícia que diz: "A capa de gelo e neve que cobre a Gronelândia derreteu este mês, naquele que é um fenómeno já considerado como extraordinário. A área sem gelo saltou de 40% para 97% em apenas quatro dias.". Lá mais para a frente a notícia já refere que se trata apenas da superfície dessa capa (que tem mais de 2 km de espessura)... Mas penso que para muitos que ouviram na rádio ou leram pela rama, ficaram com uma ideia completamente errada. Era bom haver mais rigor na comunicação de ciência.

Henrique Miguel Pereira