quinta-feira, dezembro 06, 2012

As elites e o ordenamento do território

Uns pobres de espírito que desconhecem o mundo maravilhoso do licenciamento zero e da ausência de REN na decisão de ocupação do território a queixarem-se de terem caído uns pingos de água em vez de glorificarem os maravilhosos ganhos económicos previamente obtidos
Ao passar à porta de um café vi Ribeiro Telles sentado a ler os jornais do dia.
Quem tem lido o que escrevo sabe que, de maneira geral, onde estiver Ribeiro Telles eu estarei na oposição.
Mas nunca confundi as minhas divergências de opinião com a genuína simpatia que tenho por Ribeiro Telles pelo que, apesar do tempo contado, entrei no café e fiquei por ali dez minutos a conversar sobre o projecto da Faia Brava ou sobre o que estamos a fazer em Vila Pouca de Aguiar com o controlo de combustíveis através do pastoreio dirigido.
Como sempre a curiosidade de Ribeiro Telles, as perguntas que faz, o interesse pelo que desconhece é cativante e saí dali, atrasado (coisa que me incomoda profundamente) mas a achar que tinha valido a pena.
Vem isto a propósito da coincidência de ter ouvido, ao princípio da tarde do mesmo dia, uma intervenção de José Gomes Ferreira para uma plateia de empresários e gestores.
No meio de muitas certezas sobre economia e um ataque cerrado aos banqueiros (cai sempre bem em qualquer demagogo que se preze e é uma constante de todas as épocas de crise, não deixando eu de me lembrar a queima de Jacques de Molay para resolver os problemas financeiros de Filipe, o Belo) aparece um tópico sobre a RAN e a REN, como uma questão magna para libertar a economia nacional.
José Gomes Ferreira não é uma pessoa qualquer, desinformada e que lê o Correio da Manhã no café da esquina. É inegavelmente um membro das elites portuguesas.
O que ele disse, aliás, não se afasta muito do que têm sido posições dominantes das elites satisfeitinhas consigo próprias e distantes da curiosidade e interesse em ouvir de Ribeiro Telles (outro membro das elites em Portugal, claro, mas frequentemente desalinhado do pensamento dominante).
É inacreditável a quantidade de asneiras sobre ordenamento do território ditas por José Gomes Ferreira. Falo de asneiras factuais, não falo de opiniões, que dariam mais meia dúzia de posts.
José Gomes Ferreira diz que os PDMs foram feitos para integrar 90% em RAN e REN e deixar apenas 10% para a urbanização, de modo as que os lobbies (financiados pelos bancos, sempre os maus da fita) pudessem especular com o preço dos terrenos devido à escassez de oferta.
A quantidade de informação factual errada nesta tese é impressionante, mas não satisfeito José Gomes Ferreira continua, argumentando que se os PDMs previssem 50% de RAN e REN e 50% para a urbanização se acabaria com o poder dos funcionários que prejudicam os empresários com os seus pareceres (uma versão soft da tese da máfia verde já aqui tratada várias vezes) e a economia poderia prosperar, defendendo uma coisa chamada licenciamento zero.
Resumindo, José Gomes Ferreira não sabe que o uso urbano, em qualquer país normal, não passa dos 3% (talvez na Holanda seja um pouco acima, não sei), não sabe que os PDM em Portugal prevêem duplicar a área construída (um aumento de 100% não chega para travar a especulação provocada pela escassez com uma população estagnada?), não sabe que talvez a Alpiarça tenha 90% do concelho em RAN e REN, e até talvez haja um ou outro concelho onde isso aconteça (eu tenho as minhas dúvidas de que, a existirem, eles sejam mais de meia dúzia) mas que a generalidade dos concelhos em Portugal têm muito menos de 90% da sua área m RAN e REN, não sabe que há mais mundo que RAN e REN e urbanização nos zonamentos dos planos, não sabe que o negócio não é especular em 10% do território por escassez de oferta de terreno urbanizável, mas sim comprar terreno não urbanizável e conseguir as decisões administrativas para o tornar urbanizável, de maneira geral com base em argumentos semelhantes (mas falsos, na maioria das vezes) aos de José Gomes Ferreira, não conhece as ineficiências de uma localização dispersa da habitação, indústria e equipamentos, desconhece os custos para os contribuintes em investimento estrutural e operação do fornecimento de bens básicos, como esgotos, água, electricidade, correio, transportes, etc., etc., etc..
E não sabe também das ineficiências estúpidas a que estas conversas de treta das elites sobre estas matérias têm conduzido, como à inefável plataforma logística de Castanheira do Ribatejo, que continua vazia, apesar dos investimentos privados imensos (dívida privada, falta de crédito, sufoco financeiro, imparidades bancárias nos activos imobiliários, alguém saberá de onde virão estes problemas?) e, até agora, inúteis, e investimentos públicos absurdos em acessibilidades e isenção de taxas (dívida pública, austeridade, crowding out, será que alguém saberá de onde vêm estes problemas).
Mas acima de tudo, José Gomes Ferreira aceita ter opiniões definitivas sobre esta matéria sem que até hoje exista um único estudo que demonstre a influência negativa da RAN e da REN na economia do país, embora exista abundância evidente do preço a que nos está a ficar o recente peso excessivo do sector da construção na economia do país, em grande parte à custa destes jeitinhos de ajustar as regras ao sector, em vez de ajustar o sector às regras, bem dos custos sociais que nos estão a ser cobrados pelo ajustamento que consiste em reduzir o peso da construção e afins dos seus 30% da economia para os saudáveis 6 a 7% a que teremos de chegar.
E estamos a falar de uma pessoa que tem obrigação de estar especialmente bem informada.
Imaginemos o que vai na cabeça de pessoas com informação média, filtrada por estas elites bem informadas.
Estamos feitos.
henrique pereira dos santos

sábado, dezembro 01, 2012

Redes de anónimos


Há quem já tenha percebido que neste momento sou responsável pela gestão da ATN, Associação Transumância e Natureza, que gere a Reserva da Faia Brava, a primeira área protegida privada de Portugal.
A ATN tem muitas coisas a correr, incluindo neste momento uns cabazes de Natal com produtos locais que ajudam a financiar os projectos de conservação (todo o que existe em curso na associação é anterior ao meu trabalho, não tenho  por isso qualquer responsabilidade ou mérito no que está a ser feito e já estava antes).
Como acontece em associações pequenas e com orçamentos apertados, vai-se fazendo o que nos parece útil, o que faz com que de vez em quando eu assuma funções de marçano, carregando uns sacos de coisas para pessoas que em Lisboa apoiam a ATN.
Num destes dias, na entrega de uma encomenda, falam-me de outro projecto, de que já tinha ouvido falar, o Re-Food.
E pronto, é a minha vez de vos sugerir que contribuam para um projecto tão inteligente e útil como discreto: se quiserem transferir qualquer coisa para este NIB (0036 0000 9910 5880 0342 2) o que transferirem vai para a compra de uma (ou duas) bicicletas de carga que ajudam na distribuição das refeições.
Um projecto solidário, feito por voluntários que fazem uma actividade simples: vão, de bicicleta, buscar refeições onde elas sobram (restaurantes e que tais) e entregar onde fazem falta.
É uma boa idea e um passo no caminho da sustentabilidade.
henrique pereira dos santos

Flora-on


"Classificar objectos é uma prerrogativa humana baseada na capacidade da mente de conceptualizar e reconhecer a presença de propriedades similares em objectos individuais." Para W. Quine, o autor desta frase, classificar é inato. A diversidade de objectos, seres vivos ou comportamentos com os quais convivemos é incognoscível sem uma taxonomia. Classificar exige rótulos, que são, em si, uma expressão sintética de um conjunto de propriedades. Classificar é, portanto, indissociável de rotular: como dizem os bascos,  "só existe o que tem nome". Classifica-se porque o ato de classificar é adaptativo. 
Para agir informadamente e com sucesso sobre a realidade é necessário: 1) torcê-la, reduzi-la, simplificá-la para caber num sistema de classificação; 2) dominar a sua taxonomia. Assim é com tudo, e com as plantas. Para conservar plantas e as suas socializações (a vegetação) é preciso dominar a sua taxonomia, do mesmo modo que para cozinhar comida vegetariana é necessário conhecer os legumes, ou para gerir adequadamente uma pastagem identificar as suas leguminosas.
As plantas alimentam-nos, curam-nos e envenenam-nos. Interagir com os seres vivos faz-nos felizes. Classificar plantas deve ser importante, mesmo. Por isso a botânica como ciência começou por ser taxonómica. E por certo éramos já botânicos profissionais quando deambulávamos sem destino, no limiar da extinção, nas margens do lago Turkana.
Se a sistemática botânica é importante então seria expectável que o sistema público de ensino (a todos os níveis), ou os institutos de conservação da natureza liderassem o seu ensino e difusão. Algo semelhante ao que se reclama para o sistema público de radiodifusão, não é assim? Informação livre regulada pelo estado!!! Mas, não. Cada vez se ensina menos o fundamental, e mais o assessório, o ultraespecializado de escassa utilidade prática, que embota a nossa capacidade agir sobre o mundo. Na escola aprende-se tudo sobre OGM's.  Enxofradelas desconexas e sem convicção sobre como maltratratamos o mundo são o prato do dia. Na biologia desce-se ao pormenor da estrutura e função dos organitos, dos mecanismos moleculares da célula, da bioquímica da respiração e da fotossíntese contabilizada ao átomo, mas nada ou muito pouco de botânica clássica. Do mesmo modo gastam-se horas com fitorremediação (uma técnica de escassa utilidade, Darwin explica porquê) ou a falar de algas para produzir combustíveis (explicando como se fertilizam com CO2 mas omitindo o fósforo), mas nada sobre o mais importante ramo da botânica aplicada: a agricultura. Aqui, em Portugal, e no mundo fora.
Felizmente a sociedade civil quer lá saber de ideias e grupos dominantes. Livres dos sistemas de reprodução social que colonizam o estado (e que bem se identificam na educação!), das ideias feitas dos pensadores da educação, dos licenciados disto e daquilo, de quem vence o concurso de catedrático, dos Lysenkos e dos comissários, teimam em seguir o seu caminho, e viver a sua liberdade.
Por isso admiro tanto o projecto Flora-on (www.flora-on.pt). Informação livre, democrática para todos sobre uma coisa muito importante: as plantas. Quem sabe e quer contribuir,contribui. Quem não quer, não consegue estragar. Sem subsídios ou concursos públicos, a utilidade social do Flora-on cresce de dia para dia. São estas coisas que me dão esperança.

quarta-feira, novembro 28, 2012

Greenwashing?


Tenho sido muitas vezes acusado de fazer ou defender o greenwashing de algumas empresas a propósito do meu apoio a algumas das suas acções, ou por não alinhar no mainstream que postula que os interesses económicos são por definição inimigos da resolução dos problemas ambientais.
Agora ao ler isto perguntei-me o que o distingue de tantas outras acções consideradas como greenwashing.
Será mesmo o conteúdo do projecto ou simplesmente a diferença está em escolher os parceiros certos?
henrique pereira dos santos

domingo, novembro 18, 2012

Stakeholder engagement - um exemplo prático

Imagem obtida aqui
Conforme a Wikipédia: Stakeholder engagement is the process by which an organisation involves people who may be affected by the decisions it makes or can influence the implementation of its decisions. They may support or oppose the decisions, be influential in the organisation or within the community in which it operates, holds relevant official positions or be affected in the long term. Ver mais aqui.

Em Portugal, o envolvimento de partes interessadas ainda é um assunto relativamente desconhecido; no entanto, em certas áreas começa a entrar na agenda dos conselhos de administração. A área de gestão florestal é muito propícia para implementar iniciativas de envolvimento de partes interessadas e os processos de certificação florestal têm sido um dos motores destas iniciativas.

Surgiu agora um exemplo prático de envolvimento de partes interessadas: a empresa Altri Florestal lançou recentemente um projeto de envolvimento, em que oferece a possibilidade a organizações interessadas, no sentido mais lato possível, de estabelecer uma parceria na gestão da biodiversidade de duas propriedades florestal no SIC da Serra de Monchique.

Trata-se de duas propriedades, no total de cerca de 90 hectares, ocupadas por vegetação mediterrânica típica da serra, com dominância de medronhais e urzais, mas também com formações interessantes e relativamente raras, como os adelfeirais de Rhododendron ponticum subsp. roboris. A zona é de ocorrência habitual da águia de Bonelli e tem condições muito favoráveis para o lince-ibérico.

O que se pretende nesta iniciativa é ceder a gestão destas propriedades a uma entidade com mais conhecimento e mais vocação para estas áreas de conservação. A parceria permite por um lado dar uma nova dinámica à gestão das propriedades em causa, como por outro lado partilhar experiência e conhecimento entre as duas organizações envolvidas na parceria.

A Altri Florestal abriu um processo de concurso público para a apresentação de propostas para a gestão das propriedades, aberto a qualquer entidade com ambição para assumir a gestão de propriedades florestais. Para tal, é preciso descarregar o caderno de encargos através do blogue da empresa e elaborar a proposta. Depois de analizadas as propostas recebidas, será escolhida a proposta mais interessante em termos de gestão dos valores de biodiversidade e natureza.

Henk Feith
Responsável para gestão florestal da Altri Florestal

domingo, novembro 11, 2012

A tal senhora...


Amanhã a chancelera Angela Merkel visita Portugal.

Nada me leva contra a chancelera nem tenho particular simpatia pela corrente política que representa. Reconheço-a como uma das pessoas mais poderosas do mundo e provavelmente a mais poderosa de Europa. Para mim é mais uma numa longa lista de estadistas que criaram em formaram a Europa que temos hoje em dia, com todos os seus defeitos e virtudes.

Mas o que me estranhou sempre foi o curioso hábito dos adversários políticos, maioritariamente de esquerda, de a tratar por "a senhora Merkel". A senhora... Sem entrar em piadas bacocas sobre a eventual falta de beleza física da chancelera, pouca relevante para a função que cumpre, nunca entendi essa mania de referir, invariavelmente, o facto da chancelera ser uma "senhora".

Não me lembro de ter ouvido falar em "o senhor Cameron", "o senhor Hollande", "o senhor Rutte" ou "o senhor Passos Coelho". Então porquê "a senhora Merkel"? Muito mais, porque a forma como normalmente é exprimida o adjetivo "senhora" (basta ouvir a eurodeputada Ana Gomes da PS a bradar contra "a senhora") transpira desprezo e rejeição, que, embora entenda-se como uma rejeição da política da chancelera, rapidamente contamina o adjetivo. Aparentemente, é factor agravante que a política alemã (europeia?), supostamente nefasta para o povo Português, seja representada por uma mulher em vez de um homem, e que motiva os seus adversários políticos a referir a torto e direito o género da chancelera.

Ser obrigado a abandonar a festa despesista que reinou durante 2 décadas em Portugal é doloroso, mas aparentemente o facto de o abandono ser imposto por uma mulher fera ainda mais o orgulho latino, mesmo o orgulho esquerdista. Pois é, a emancipação é um estado mental difícil de adquirir...

Chancelera Merkel, seja bem-vinda a Portugal, país acolhedor e tolerante, apesar da surda gritaria de uma minoria.

domingo, novembro 04, 2012

Viva a privataria- Portugal experiência e palco do maior roubo à sua gente

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Nem imaginam o desgaste continuado enfrentando cara a cara cada pessoa com quem convivo neste País tão pequeno e tão "dividido", "centralizado" e "cego". Antes havia os fóruns por email, que aliviava esse desconforto e assim "cada" um lia e (re)agia consoante a sua consciência. Os seminários, congressos ainda são sumidouros de conhecimento, mas cujo impacto social esbarra na legislação, nas incoerências políticas, jogos de números e partidarização das ciências. A ciência também ela própria é vítima e actriz de mudanças muito grandes em pouco tempo, em particular as TIC. Os mercados e marketing encarregam-se de mistificar a Ciência produzida e cometem-se erros gravíssimos na segurança alimentar, na biodiversidade, etc. As redes sociais deram uma maior ajuda, mas continua a faltar muito o trabalho de terreno e o que sucede a esta abstenção, cegueira e olhar para o seu umbigo é caminho para os poderosos, num ápice, passarem a ditar as nossas vidas. Os partidos e as sedes locais fragilizam-se. As assembleias municipais são fantasmas. Vai pouca gente. Os movimentos ambientalistas acusam desgaste. A manipulação é enorme. Há muita vaidade, egoísmos, oportunistas. Todos gostam de dizer "esta foi ideia minha", "eis a minha obra", ou então "o que faz este texto aqui sobre austeridade na página dos amantes da horta/ amantes das bicicletas/ amantes das florestas?" em vez de se colocarem verdadeiramente ao serviço da bondade, paz e sustentabilidade. Oxalá muita gente pensasse assim: "Eu não me rebaixo a uma alemã qualquer!" e nisso creio que muitos que me estão a ler estarão em completo acordo!
Época de uns vermes forbianos e de milhões/biliões de pessoas boas e, em certa forma, inocentes. Inclusive os próprios alemães.


Ler/ divulgar/ (re) agir: A CARTA À ALEMANHA

Esta senhora Merkel vai ganhar €23.000 mensais, e quer que nós tenhamos mais 5 anos de austeridade. Não somos números em folhas de excell nem meros telecomandados. 

Temos que enterrar este neo-liberalismo e colocá-lo no Museu dos Horrores o quanto antes! [fonte texto BioTerra]

sábado, novembro 03, 2012

Acções de erradicação de eucaliptos?


"A acção será feita por voluntários e por todas as equipas ECOs-Locais que queiram participar, com a orientação de técnicos da LPN. A actividade consistem na erradicação de plantas invasoras (acácias e eucaliptos). O objectivo será o de todos os voluntários contribuírem para a preservação e desenvolvimento das espécies autóctones e do ecossistema associado."
Este parágrafo vem directamente do último boletim electrónico da Liga para a Protecção da Natureza.
Uma associação séria, que se dá ao respeito, não permite que uma palavra a mais num parêntesis destrua credibilidade em vez de criar valor.
É incompreensível o acrescento dos eucaliptos como invasora a erradicar:
1) Não existe consenso científico sobre a classificação do eucalipto como invasora (pelo contrário, existe quase consenso em não considerar o eucalipto como invasora e um pequeno grupo de investigadores que questiona, legitimamente, esse quase consenso);
2) Ainda que o eucalipto se considere uma invasora, a sua erradicação não tem qualquer dificuldade (as celuloses têm-no feito em centenas de hectares em que recuaram na produção de eucalipto, pelas mais variadas razões);
3) Misturar um problema gravíssimo e difícil como o controlo das acácias com uma birra ideológica como a erradicação do eucalipto só desvaloriza o problema das acácias, sem nenhum ganho para o combate à expansão do eucalipto.
E aqui estamos, num movimento ambientalista preso em fantasmas, sem consistência estratégico e refém das agendas dos seus activistas que infelizmente têm pouca relação com os problemas ambientais da sociedade portuguesa.
henrique pereira dos santos

sábado, outubro 27, 2012

Novas histórias do lobo mau


Um dia um pastor, a quem a idade ia já pesando, lembrou-se de declarar mais uma cabra para subsídio.
"Mais cabra, menos cabra, a eles tanto lhes dá, e a mim sempre me ajuda a passar a velhice".
Com o tempo a passar, foi aumentando o negócio: o rebanho ia diminuindo no campo e aumentando no subsídio.
"Mais cabra, menos cabra, que mais dá?".
Vendendo uns cabritos aqui, comendo umas chanfanas acolá, e rebanho ia minguando, mas o dinheirito ia sempre aumentando, que no papel o rebanho  prosperava e "eles" pagavam, que bem tinham com quê.
Um dia veio uma inspecção e perguntou-lhe pelas 200 cabras. Aqui estão vinte e uma, mas ali para cima, lá pelo monte, andam aquase duzentas, que algumas até me esqueço de as meter ao subsídio.
Mas quê, o homem da inspecção queria vê-las, tinha de registar os números dos brincos, e sem isso não recebia o dinheiro da inspecção.
O pastor coçou a cabeça, foi à adega ao presunto, trouxe um caneco valente, e sentou-se a conversar com o inspector, dizendo-lhe que esperasse que as cabras já tornavam para baixo.
Vai da broa, vai do presunto, o caneco ora vazava ora enchia, mas o raio do homem que não se calava com os números dos brincos.
O vinhito não era mau, mas já se vê, uma espécie de verde, que ali era mais para o frio, era difícil ter mais de sete de grau, os homens até lhe chegavam bem, mas a coisa não se resolvia.
"As cabras já vão chegando, eu pelo menos já vejo umas quarenta, mas esta cabeça já não está tão boa como quando chegou, volto daqui a dias para ver as outras cabras, por agora vou-me embora que me parecem os números todos turvos."
O pastor dava voltas e voltas na cama para saber como resolver o assunto.
Ele bem sabia onde andavam as cabras, nos tachos e panelas deste e daquele e o problema é que ainda lhe pediam que voltasse a entregar o dinheirinho que estava gasto.
A mulher, farta de o ver às voltas a dizer que se ia desgraçar, sempre lhe disse: "és sempre o mesmo cabeça no ar, deixa-me dormir sossegada, diz ao homem que o lobo te levou os animais na semana passada".
E foi assim, depois do sono dos justos, que o homem passou os dias seguintes a dizer em tudo quanto era aldeia e vila, que andavam feras no monte a roubar-lhe os animais.
Não sei o que me deu para escrever esta história completamente absurda.
Só se foi este post do melhor surrealismo que tenho lido em Portugal desde o António Maria Lisboa.
henrique pereira dos santos

quarta-feira, outubro 17, 2012

Asneira grossa


Este governo, tal como o anterior, parece apostado em desvalorizar o regulador e tomar a opção de estabelecer preços políticos para a electricidade.
Na verdade o pequeno aumento da electricidade não significa que se pague menos, significa que se paga diferido e com juros (uma boa metáfora do país).
E tal como critiquei o Governo anterior, e o movimento ambientalista que ficou calado com esta obsessão pelos preços baixos da electricidade, critico este Governo, e o movimento ambientalista que ficar calado, por esta opção anti-sustentabilidade que consiste em dar o estímulo errado para a eficiência energética ao mesmo tempo que se cria mais dívida no défice tarifário.
Não estou de acordo e não me conformo. Com o Governo, e com o movimento ambientalista que temos.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, outubro 15, 2012

Olha, uma boa ideia.

Imagem vinda daqui
O lançamento oficial parece que é daqui a três dias.
O coordenador é o meu Professor de biologia dos primeiros anos da universidade, dos poucos de que me lembro com absoluta clareza, sem que isso tenha qualquer relação com o facto de conhecer o filho, anos mais tarde, mas apenas com a qualidade do ensino.
henrique pereira dos santos
PS Enquanto o mundo pula e avança, produzindo coisas sempre prometidas (quer o que falo no post, quer a flora-on, quer o naturdata, quer o biodiversity4all, etc., etc.), o SIPNAT há dez anos que vai ficar fantástico e disponível nos próximos seis meses.

quinta-feira, outubro 11, 2012

Gerir paisagens é comer inteligentemente

“Alimentação e Biodiversidade”
19 Outubro 2012
Auditório da Santa Casa da Misericórdia
Vila Pouca de Aguiar
Programa
9.30 Sessão de Abertura
10.00 O Fundo EDP de biodiversidade, balanço de cinco anos de existência.
10.20 "Estratégias de patrimonialização alimentar. Do fumeiro do Barroso à salicórnia de Lavos", Daniela Araújo
10.40 “Alimentação e fertilidade do solo”, Carlos Aguiar
11.00 Pausa e prova de produtos locais
11.30 "Dinâmica e criatividade jovem a favor da valorização do território" – João Ministro, “Projeto Querença”
11.50 “Valorização da Multifuncionalidade e Dinâmica dos Soutos e suas Paisagens”, Anabela Doreta, Agroaguiar
12.10 Debate
13.00 Almoço com base na produção local, incluído na inscrição
14.30 “Cuidar o meio ambiente tem um sabor: Queixos do Xures", António da Cunha, Pastor Galego
14.50 “Segredos com sabores de ortiga e cogumelos”, Manuel Paraíso, Confraria da Ortiga
15.10 “A TerriuS e o papel da produção na preservação e valorização do ecossistema da Serra de S. Mamede – Marvão”, Rita Martins, TerriuS
15.30 Debate
16.30 Pausa e prova de produtos locais
17.00 Apresentação da componente de valorização de produtos do projeto da AguiarFloresta, Henrique Pereira dos Santos
17.30 Encerramento
Informações e inscrições:
AGUIARFLORESTA - Telf: 259 417 634 - E-mail: biodiversidade@aguiarfloresta.org

quarta-feira, outubro 10, 2012

Vale a pena pensar nisso


Uma empresa de celulose celebra alegremente o seu registo mil na maior (e a única não dedicada a grupos específicos, sendo mesmo a única que tem trabalhado a possibilidade de registo de habitats e não apenas de espécies) base de dados de biodiversidade que existe em Portugal.
Ao mesmo tempo grande parte da academia e das associações de conservação teimam em estar ausentes destas bases de dados. E quando têm bases de dados de grupos específicos resistem a encontrar os mecanismos de partilha de dados entre as diferentes bases existentes.
Não deixo de me perguntar que diabo de relação a academia e as associações mantêm com a sociedade e com as pessoas comuns.
henrique pereira dos santos

quarta-feira, setembro 26, 2012

(Mais uma) Reflexão sobre o mundo rural

Em nome do Carlos Aguiar que se esqueceu dos códigos:
Nos últimos dez anos assisti, aqui no nordeste, a um lento, mas crescente, retorno à ruralidade. São o neto de agricultor, a segunda geração na cidade – ou o urbano desenraizado, regra geral reformado sem chegar aos sessenta, eventualmente mais jovem com um trabalho compatível, ou um cultor de estilos alternativos de vida com mesada garantida do pai. Muitos, influenciados pelo bucolismo queirosiano, pelos fundadores da ecologia profunda ou, simplesmente, enganados por recordações de juventude que o tempo branqueou e elevou a elemento identificador, venderam os haveres da cidade e desbarataram a poupança e a herança na restauração de uma casa esbarrocada. Os não herdeiros arriscaram uma compra às cegas, sobrevalorizada pela ânsia de ter, porque, nas aldeias, assim como não há mercado da terra, também o não há do barracão ou do palheiro.
A ilusão é fácil de resumir. Na grande cidade ninguém se conhece: cada um por si, dizem-me. Ensimesmadas, nos transportes públicos, as gentes pisam-se, resmungam, suam, e roçam-se com aspereza. A crise reprime, os grafitis oprimem. O susto do puxão, da faca de ponta e mola condiciona o comportamento. O progresso, a mais perigosa das ideias da modernidade, está em causa. Não há espaço, nem oportunidades. A cidade pesa. No campo, nada disso: resiste a liberdade da porta aberta e dos laços de vizinhança, a entre-ajuda, a troca direta, o bicho que vem comer à mão, as vistas largas, a floresta que se expande, e a horta, o símbolo maior da auto-suficiência, que liberta das volatilidades do mercado e das ameaças das depressão económica. No campo não é preciso ouvir notícias, e tomar decisões que determinam uma vida. Os dias fluem sem grandes oscilações, e sem perigo. Será?
Anteontem aprendi um conceito interessante: capital-social, assim se chama, ensinou-mo um amigo das sociologias. Embora não seja consensual – como raramente o é qualquer conceito de humanidades ou ecologia – será uma espécie de medida das interações (conexões) no interior de uma determinada rede social, por exemplo de uma comunidade de aldeia. Quanto maior o capital-social, quanto mais as pessoas interagirem umas com as outras, menor a desconfiança, a conflitualidade e a agressão, mais propício o ambiente social para a cooperação,  a troca comercial, o investimento, a inovação, o melhoramento e o bem-estar. Se o capital-social é isto, então as nossas aldeias estão socialmente descapitalizadas.
Nas aldeias do interior sobram os velhos e os desadaptados. Os poucos que praticam uma agricultura comercial têm muitas vezes as famílias na sede de concelho, e vivem demasiado ocupados para investir em laços sociais sem retorno. Ninguém depende de ninguém: o estado, apesar de tudo, oferece melhores cuidados na doença e a pensão cobre a utilidade da entre-ajuda. Os direitos de propriedade são cada vez mais difíceis de defender. Há pouca gente, mas os marcos movem-se. Desaparecem as cebolas na horta e as máquinas agrícolas no telheiro. Sucedem-se os roubos de habitações. Desaparece o ouro, a joia e a galinha. A GNR abalou para a vila e a insegurança apressa. O baldio, teimosamente regulado por uma lei que já em 1975 versava uma sociedade extinta, é devassado, diminuído e as suas rendas desaparecem sem rasto. O ressentimento, a desconfiança e o azedume acumulam-se. Crescem os conflitos com posses, confrontações e heranças. Quando não, explodem em crime. Os “novos colonizadores” ou vivem protegidos no seu pequeno grupo, isolados das tricas de aldeia, ou rapidamente amargam no arrependimento.
A sociedade camponesa exaltada pelos Jorges Dias acabou. Sobrou um pastiche meio cidade, meio campo, decadente, triste e improdutivo. Mas que ninguém se atreva a por em causa os direitos dos terratenentes ausentes (a maioria): do médico, do doutor em leis, do professor, do polícia ou do funcionário de repartição. A terra agrícola tem esta coisa: o abandono aumenta a sua fertilidade, e quanto menos lembrada menos impostos paga.  Depois o estado está sempre disponível para apagar os incêndios, a defender as elites e não faz perguntas.
A aldeia nasceu como uma unidade de autossuficiência, uma nave que sulcava o mar de pobreza e opressão que caracteriza as sociedades malthusianas. Nas sociedades industriais atuais a aldeia é um resíduo histórico, uma forma desatualizada de uso e ocupação do espaço. A pequena vila rodeada de uma constelação de explorações agrícolas, mais ou menos agregadas em comunidades de explorações agrícolas, prontas a responder aos sinais do mercado tem muito mais futuro, pelo menos no curto médio-prazo. As aldeias retêm ainda gente a mais, e estas políticas de transferências de recurso do litoral para as zonas de desfavorecidas do interior são contraproducentes, de tão ineficazes e ineficientes.
Carlos Aguiar

segunda-feira, setembro 24, 2012

Futuro incerto para a conservação do Lince


O futuro para a conservação de qualquer espécie é incerto.
Mais ainda o de uma espécie especialista noutra espécie com variações bruscas de população, com enorme capacidade de se reproduzir, formando colónias e muito atreita a epidemias várias.
O Lince levou uma grande sova com as duas grandes epidemias dos coelhos do século XX.
E desde o princípio do século XXI, mais ano, menos, ano, recupera à velocidade estonteante de 10% ao ano, tendo bem mais que duplicado a população.
Já me tinham falado disto, mas o Pedro Cardia explica mais demoradamente num comentário a um post mais antigo do blog:
"Olá,
Acabo de assistir a uma palestra que me alarmou e deprimiu, tendo em conta os potenciais efeitos na conservação aqui na Península Ibérica.
Segundo os dados que apresentou o orador (ver abaixo, p.f.) a distribuição geográfica dos casos confirmados (em coelhos de produção) já é muito grande e causa aproximadamente 50% de mortalidade em adultos e, crucialmente, também nas crias.
Maus tempos se avizinham, novamente, para a conservação do Lince (e não só...)?
Pedro Cardia
"An emerging RHDV variant causing mortalities in young rabbits Francisco Parra (Biotechnology Institute of Asturias, Universidad de Oviedo, Spain)
Outbreaks of RHD in young rabbits on previously vaccinated farms have led to the identification of an RHDV variant on the Iberian Peninsula. This apparently reemerging virus is genetically related to apathogenic rabbit caliciviruses. The virions are antigenicaly distinguishable from classic RHDV (genogroup I) and show an altered hemagglutination pattern and tissue tropism with respect to classic RHDV isolates. The commercial inactivated vaccines do not confer sufficient protection against the new RHDV variant and improved anti-virus strategies will be required to avoid the spread of this re-emerging pathogen of rabbits."
Francisco Parra is full Professor of Biochemistry and Molecular Biology and Director of the Biotechnology Institute of Asturias at the Universidad de Oviedo (Spain). His main research is devoted to the study of the molecular mechanisms, diagnostic and vaccine design against virus and parasite pathogens relevant for human or animal health. For more than 20 years he has been particularly involved in studies concerning rabbit hemorrhagic disease virus. His research group has contributed to the first description of the causative agent of RHD, the development of recombinant vaccines and the first three dimensional structure of a calicivirus RNA dependent RNA polymerase."
henrique pereira dos santos, publicitando um comentário  muito relevante de Pedro Cardia.

sábado, setembro 22, 2012

¿Por qué?



Depois de ler este frase: “Não foram, no entanto, colocados dispositivos GPS nestas águias pesqueiras, como acontece num projeto semelhante a decorrer em Espanha.” nesta notícia águias-pesqueiras.
Lembrei-me do Zé e perguntei: mas porque?!

quinta-feira, setembro 20, 2012

"Todo o luxo é uma espécie de degradação"


Tinha acabado de almoçar os restos de uma sopa, que tinha feito para aproveitar os restos, as peles, as espinhas e a cabeça de um peixe, deitando-os por cima de uns quadradinhos de pão que passei numa frigideira com azeite quando dei com o segundo post do Filipe Nunes Vicente da série que em boa altura começou.
Acompanhei o almoço com um copo de vinho branco. Ainda não cheguei à austeridade de Augusto, imperador romano, justamente elogiado por Suetónio pela sua frugalidade, que se manifestava, por exemplo, pela moderação do consumo de vinho, quase sempre baptizado com água, como era comum nessa altura.
Costume que aliás perdurou, como verifiquei no último passeio que fizemos às minas romanas de três minas, em nos serviram um refresco de mel e água (pode-se acrescentar umas gotas de limão, mas não fazem falta). E que me explicaram depois que também se bebia traçado com vinho tinto, era o que davam de beber aos ceifeiros do centeio, para lhes dar força, para lhes tirar a sede no trabalho duro ao sol do Verão das serras, sem que ficassem imprestáveis para o trabalho.
O meu convívio com o António Alexandre tem-me aproximado de uma cozinha mais próxima da terra, o que significa também mais aproveitadora, nomeadamente das partes menos nobres dos animais e plantas, a que António Alexandre sabe dar uma sofisticação que me falta (infelizmente, mas os pezinhos de coentrada que experimentei fazer pela primeira vez estavam bastante palatáveis).
Por tudo isto, no encontro entre o meu almoço de restos e os posts de Filipe Nunes Vicente, lembrei-me da citação de Eugénio de Andrade do título (de memória, não garanto o rigor de cada letra, mas está numa entrevista publicada num livrinho que comprei, já com um autógrafo de Eugénio de Andrade em que só reparei quando cheguei a casa, numa altura em que já era um poeta conhecido, mas não era ainda um monumento nacional).
E lembrei-me deste post de David Justino.
Na verdade incomoda-me não ver no movimento ambientalista ninguém levantar a voz para dizer, de forma clara, provavelmente incómoda para quem o disser, que a austeridade é uma virtude, defeito é a pobreza, a miséria e a fome.
Incomoda-me que ninguém, no movimento ambientalista, diga de forma clara que a defesa do consumo pelo consumo, que tem sido a receita constante para sairmos da crise, é inadmissível.
Que é bom a travagem no sector da construção, excessivo e predatório em Portugal, que é bom que as pessoas reorientem as suas prioridades de consumo, como aliás sempre defendeu, em teoria, o movimento ambientalista.
Incomoda-me que ninguém diga que austeridade não é problema, desemprego sim.
Uma coisa é fazer o maior esforço possível para remediar ou evitar as consequências sociais negativas de uma mudança estrutural na produção e consumo do país, outra coisa é apoiar o esforço reaccionário que está a ser feito para retomar um caminho completamente insustentável de consumo e que o movimento ambientalista não se cansou de denunciar (a situação financeira só reflecte o que o movimento ambientalista disse sobre o consumo excessivo que nos estava a conduzir pelo mundo alienante da insustentabilidade).
Meus caros, é tempo das pessoas que defendem a sustentabilidade dizerem com clareza que a austeridade é mais sustentável que o luxo.
E  que o luxo é sempre uma espécie de degradação.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, setembro 10, 2012

Fiquei satisfeito

Este é o Chef com quem o Luís Jordão e eu trabalhamos em projectos que juntam alimentação, gestão da paisagem e da biodiversidade.
Fiquei satisfeito em saber que no universo dos quase 400 hoteis em todo o mundo, da cadeia Marriott (hotéis de quatro e cinco estrelas), o António Alexandre ganhou o prémio de chef do ano de 2011.
Uma boa razão para os que ainda não o conhecem aparecerem nas nossas oficinas de cozinha, em que se come muito bem, se aprende muito de cozinha útil no dia a dia e se estabelecem relações com a gestão da paisagem.
É por estas e por outras que quando alguém se mostra muito preocupado com os fogos eu pergunto sempre quando comeu o último cabrito.
henrique pereira dos santos

quarta-feira, setembro 05, 2012

ONGs e fogo: um caso ignorância militante


Comecemos pelo título. Ali em cima não está escrito "as ongs" mas apenas "ongs". A razão é simples: insisto que o movimento ambientalista é bastante mais vasto que as direcções das ongs mais vocais, e que há muitas ongs em Portugal para além das que vivem dos jornais. Resumindo, este post critica duas posições concretas de duas ONGs, não critica genericamente as ONGs, como às vezes me dizem que faço.
Este post resulta de duas posições recentes de duas ONGs: esta, da QUERCUS e este texto, aparentemente vindo directamente dos estúdios da Walt Disney, da LPN.
O da QUERCUS tem pouco interesse, insere-se na esperteza saloia de aproveitar todos os pretextos para dar rédea solta aos traumas de alguns militantes influentes da QUERCUS em relação aos eucaliptos.
Os momentos iniciais da QUERCUS, e o crescimento rápido da associação, foram feitos em torno da luta contra a eucaliptização do país dos anos 80 e foram perfeitamente justificados face ao que então se passava na matéria, face aos modelos de gestão adoptados pelas celuloses e administração florestal e face ao conhecimento que então havia sobre o assunto.
Mas a persistência das mesmas posições face aos eucaliptos, melhor dizendo, a transferência das mesmas posições face à eucaliptização para o eucalipto, trinta anos depois, revelam um reaccionarismo que não tem correspondência do lado dos produtores.
Os produtores, em especial os tecnicamente mais evoluídos, de que se destacam as celuloses, souberam aprender com os erros e, por pressão do mercado, em especial via certificação (a QUERCUS opõem-se ferozmente à certificação ambiental de plantações de eucaliptos), mudaram de modelos de gestão e têm hoje uma postura muito mais moderna e aberta que tinham então.
A QUERCUS não, cristalizou em posições trogloditas sobre a exploração de eucalipto, sendo que hoje, ao contrário do que acontecia nos anos 80, quase não tem apoio na academia e nos meios científicos que estudam a matéria por ser impossível encontrar fundamento técnico e científico para as posições da QUERCUS na matéria.
É aqui que entronca a proposta delirante de "travar" a expansão de eucaliptos nas áreas ardidas durante uma década. É uma proposta tecnicamente inexequível (a QUERCUS aparentemente esquece regras básicas que condicionam a dinâmica da vegetação após fogo), um duplo castigo para os proprietários (que evidentemente se estarão nas tintas para o que quer a QUERCUS e continuarão a gerir a regeneração natural das suas propriedades em função do que lhes parecer melhor) e sem qualquer fundamento em problemas de conservação identificáveis, já que a maior parte da área que arde tem matos, exactamente porque ninguém achou interessante, até hoje, alterar esse uso para um uso florestal.
A mim, que desde muito cedo me envolvi na actividade da QUERCUS, que a apoiei em muitas alturas (como faço quando me pedem, e não faço mais porque a QUERCUS não tem interesse nas propostas que fui fazendo, mesmo as que são do estrito campo do voluntariado) e que defendo um movimento ambientalista forte, entristece-me ver organizações como a QUERCUS presa pelos fantasmas ideológicos de meia dúzia de pessoas.
Tomemos agora o texto poético da LPN, que traduz também uma ideologia sem fundamento racional, filha da ignorância militante.
A LPN fala de um fogo de há meia dúzia de dias. Mas, sem qualquer avaliação, já concluiu que se perdeu imensa biodiversidade, que se perdeu uma das melhores áreas de bosque Mediterrânico (a maíuscula é da LPN, não minha) da serra e muitas espécies perderam as suas casas (grande Walt Disney, quase 50 anos depois da tua morte ainda chegas tão fundo no cérebro de tanta gente). E acrescenta que "Pelo tempo que a natureza leva a recuperar o que em tão poucos dias se perdeu, muitos habitantes locais jamais voltarão a ver a Serra como sempre a conheceram".
Hoje, e antes da próxima Primavera, nem a LPN, nem eu, nem ninguém, pode dizer com alguma segurança o que foi ou não foi afectado, porque isso depende essencialmente da reacção dos organismos vivos, em especial plantas, que lá estão neste momento (quer os muitos indivíduos de plantas que não morreram, mesmo que a sua parte aérea tenha sido queimada, quer as muitas sementes que terão agora uma melhor oportunidade para se transformarem em novos indivíduos).
Que diabo, neste caso nem é preciso estudar muito, basta dar dois passos para o lado e ver o resto da serra que ardeu em 2004. E se forem pessoas muito novinhas que acham que antes dos fogos aquilo eram uns sobreirais imensos, maduros, complexos, com 500 anos, que leiam qualquer coisinha, são só meia dúzia de cliques na net. Que peçam a pessoas que habitualmente colaboram com a LPN e que são os responsáveis pelas avaliações após fogo que lhes expliquem as taxas de sobrevivência dos sobreiros em torno dos 80%.
Que vão verificar que é exactamente nas melhores manchas de matas e matos mediterrânicos que a regeneração se dá com mais sucesso, com mais força e com mais rapidez.
E se ficarem espantados e quiserem saber por que é assim, estudem um bocadinho de dinâmica da vegetação após fogo, concentrem-se na disponibilização do fósforo nas cinzas dos fogos e o seu papel na regeneração natural.
E se quiserem, comprem uns livrinhos com fotografias nos alfarrabistas e olhem para a serra dos anos vinte (vejam por exemplo o catálogo feito para a exposição portuguesa em Sevilha, 1929) que tem uma fotografia (um cliché, como se dizia na altura) fabulosa da serra, nua, nua, nua como dificilmente se vê a terra, como constatou Caetano Veloso quando estava preso.
A militância é, em si mesma, uma coisa boa. Mas aplicada à ignorância não dá grandes resultados.
O problema é que são textos assim, pessoas assim, organizações assim que contribuem para o miserável nível técnico da discussão sobre os fogos.
O que fatalmente conduz a políticas igualmente miseráveis, quando avaliadas pelos seus resultados, mas sumptuárias, quando avaliadas pelos meios disponibilizados pelos contribuintes.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, setembro 03, 2012

ATN


Declaração de interesses: retomarei, a 1 de Outubro, a minha colaboração profissional com a Associação Transumância e Natureza, a gestora da primeira área protegida privada portuguesa e, provavelmente, a segunda maior (depois da Liga para a Protecção da Natureza) proprietária privada de terrenos estritamente consagrados à conservação da natureza em Portugal. Não estou a considerar os proprietários de terrenos que visam a actividade económica e que consagram uma percentagem à conservação.
Para assinalar o retomar da minha colaboração com esta associação gostaria de chamar a atenção para o projecto de crowdfunding que tem a correr, faltando 28 dias para o seu fim.
É um projecto pequeno, orientado para resolver um problema pontual e que vale a pena apoiar: não sendo pelo projecto em si, que seja pelas recompensas oferecidas.
Uma sugestão para quem tenha cinco euros disponíveis e os queira ver gastos a fazer crescer o único projecto privado de conservação que tem como orientação dominante o controlo directo do território para obter resultados em matéria de biodiversidade, mantendo um crescimento consistente da área que é propriedade da associação, tendo recentemente passado dos anteriores cerca de seiscentos hectares para cerca de 800, por aquisição de mais uma quinta limítrofe da reserva.
henrique pereira dos santos