segunda-feira, março 04, 2013

O incompreensível desprezo pelo factos


Li este artigo, cujo título me chamou a atenção.
Helena Freitas é uma académica reconhecida e botânica de formação.
É por isso estranho o que escreve.
Vejamos:
Facto 1: "De acordo com a notícia, em 12 anos ardeu uma área correspondente a 38% do parque, o que é dramático.". Vamos admitir que estes 38% é a área ardida do PNPG em 12 anos. É dramático porquê? Não sabemos. Temos de ir lendo o resto do artigo para tentar perceber o que se pretende dizer com esta qualificação dramática.
Facto 2: "o aumento dos matos e a provável ocupação preferencial por esta tipologia de cobertura, uma vez que a ocorrência de fogos é cada vez maior.". Fonte? Uma notícia de jornal onde falam autarcas. A ocorrência de fogos é cada vez maior? É relativamente fácil verificar que ao aumento progressivo de área ardida (nos últimos 40 anos, com fortes variações inter-anuais) não corresponde um aumento do número de fogos e muito menos uma diminuição da área florestal. Há cada vez mais área de mato no Gerês? Gostava de ver os dados. E de ver de onde vêm as novas áreas de matos (a haver, do que duvido que tenha expressão significativa pela simples razão se várias vezes fiz análise de evolução da ocupação do solo e não encontrei esse padrão nos últimos anos. Sendo que os aumentos marginais da área de mato resultam mais do abandono agrícola que da diminuição da área florestada, em especial em áreas como o PNPG onde não existe dominância de pinhal bravo).
Facto 3: "Este é um facto incontornável na paisagem portuguesa: os ecossistemas florestais vão sendo substituídos por urzais, giestais e tojais ou formações naturais mistas de urzes, giestas, tojo e carqueja, conhecidos pela designação genérica de matos". Bom, aqui o problema é mais bicudo, porque se apresenta como facto incontornável uma coisa que simplesmente não é verdade. A área de ecossistemas florestais aumenta enormemente no último século e é razoavelmente estável nos últimos anos, sendo que o aumento eventual da área de matos se dá quando o saldo entre o abandono agrícola (que faz crescer os matos) e o aumento da área florestal (que faz diminuir os matos) é positivo. O facto incontornável simplesmente não existe e é facilmente verificável.
Facto 4: "Com as opções florestais das últimas décadas, parte dessas montanhas e muitas outras zonas do país estão hoje transformadas em imensos eucaliptais". Os eucaliptais não estão predominantemente situados em montanhas, nem há uma única das montanhas de Portugal (há algumas serras a menor cota) que tenha imensos eucaliptais, essencialmente porque o eucalipto dá-se mal com as geadas. O facto não existe, e é facilmente verificável.
Facto 5: " última fase desta degradação ecológica tem-se verificado com uma acentuada desertificação em muitas zonas de montanha e com a instalação progressiva de extensas manchas de acacial". Confesso que não quero acreditar que isto tenha sido escrito por quem é especialista em botânica. Não só as acácias não são dominantes em sistemas de montanha (embora existam invasões importantes em algumas zonas de menor altitude) como é um completo disparate dizer que que se verifica uma acentuada desertificação das zonas de montanha em Portugal, onde a recuperação da vegetação autóctone nunca terá sido tão pujante desde a última glaciação. É simplesmente incompreensível, para mim, que a cegueira ideológica leve tão longe a capacidade de uma académica negar a realidade verificável por qualquer pessoa.
Corolário: " É evidente que os fogos frequentes, a par de outras práticas que persistem, são factores que continuam a contribuir para a desertificação das nossas montanhas". Não Helena, não só não é evidente, como é falso que as nossas montanhas estejam em processo de desertificação, sendo que os fogos são exactamente o sintoma de recuperação que permite a acumulação de combustível que os alimenta.
O que é evidente é que qualificações académicas não defendem ninguém da cegueira ideológica.
É o respeito pelos factos que nos ajuda a não seguir simplesmente o mais fácil.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, fevereiro 28, 2013

Charcos com Vida


Há projetos que encantam logo à partida. A Lei dos números grandes nos ensina que, quando temos algo muito abundante que desperta a curiosidade de muita gente, temos material para um projeto de grande visibilidade. O Charcos com Vida é um deles.

Os charcos (ou ribeiras ou poços ou tanques ou qualquer outro ponto de água, natural ou artificial) são repletos de vida. Lembro-me, enquanto miúdo, de passar horas à beira de um "sloot" (canal de pequena dimensão nas lezírias neerlandesas) a admirar as rãs e que invariavelmente falhava ao tentar apanhá-las. Mais tarde, já integrado num grupo juvenil de estudo da natureza, e equipado com redes e chaves dicotómicas, apanhava libélulas, coleopteras e outros grupos de animais e não descansava até determinar as espécies. Nos tanques da quinta dos meus pais, admirava as aranhas subaquáticas, as alfaiates e o meu campeão, o escaravelho Dytiscus marginalis, brutal predador que terrorizava o tanque todo.

Hoje em dia, os charcos são um "spearpoint" na estratégia europeia da conservação da biodiversidade, com projetos um pouco por todo o continente europeu. Acontece que essa relevância conservacionista ganha uma dimensão extra nos paises com clima mediterrânico como (partes de) Portugal, onde os charcos são autênticos hotspots de biodiversidade e refúgios para inúmeras espécies que dependem deles para a sua sobrevivência.

Acontece que há charcos e outros pontos de água um pouco por todo o lado. Ninguém sabe com rigor quantos há em Portugal. O projeto Charcos com Vida procura preencher esse vazio através do Inventário de Charcos. É mais um exemplo de Citizen Science que permite a qualquer citadão contribuir para o aumento de conhecimento sobre um tema. Não é preciso conhecimento especializado, basta juntar curiosidade, vontade e um pouquinho de tempo para introduzir um charco, sim, aquele lá logo ao virar da esquina da sua casa.

O projeto Charcos com Vida já conta com uma série de parceiros e ele próprio é parceiro do projeto Biodiversity4All. Espero que estes projetos, tal como tantos outros que estão interligados, não o são exclusivamente pela intenção, mas que trabalhem em rede, com reais e constantes fluxos de informação entre eles. Espero que os levantamentos de espécies ao abrigo do Charcos com Vida acabem na base de dados da Bio4All e que os habitats aquáticos identificados no Bio4All acabem no Inventário de Charcos do Charcos com Vida. E por aí fora.

Outro dia, contei a um amigo a atração do meu filho por anfíbios (e outra bicharada, tudo menos aranhas) e ele respondeu-me que as crianças gostam de coisas nojentas. Respondi-lhe que se calhar elas ainda não "aprenderam" isso, de ser nojento quero dizer, e que simplesmente se deixam encantar pela bicharada. E sabe tão bem, uma pessoa adulta e responsável e respeitável e tal, sentir de vez em quando aquele "jazz" de miúdo, a espreitar o fundo de um tanque onde uma rã se escondeu por baixo de uma folha submersa.

Os conservacionistas não gostam de boas notícias


Mais um artigo no Público on-line.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, fevereiro 25, 2013

Carla Castelo

O exemplo acabado de que quando se quer, há sempre maneira de arranjar espaço para o que se gosta de fazer. henrique pereira dos santos

sexta-feira, fevereiro 22, 2013

Off topic...


... ou talvez não.
Recapitulando: Durante muitos anos Portugal viveu comprando mais que o que vendia, o que não seria grave se por qualquer motivo (por exemplo, remessas de emigrantes) entrasse dinheiro na mesma ordem de grandeza da diferença entre vendas e compras. A partir de certa altura Portugal passou a suportar essa diferença em dívida. De cada vez que alguém tentava inverter este rumo, o que implicaria vender mais (que em grande parte não está nas mãos dos governos) ou comprar menos (que tem custos políticos elevados), os sectores empregadores, com destaque para a construção (em sentido lato) erguiam-se em protesto, apoiados na inevitável subida da taxa de desemprego. Para resolver o desemprego os governos, com especial destaque para os do PS (a esquerda, esta, moderada, e a outra, imoderada, conseguiu pôr um inveterado esquerdista como eu a fazer campanha pela direita só para ver se se introduzia um mínimo de racionalidade na gestão da coisa pública) resolveram pedir mais dinheiro emprestado para fazer mais obras que iriam, um dia, melhorar o desempenho económico do país. A partir de certa altura eram as famílias, as empresas, os bancos e o governo a pedir dinheiro emprestado para manter uma ficção económica que se resolveria amanhã. No meio desta suave descida aos infernos, uma crise financeira mundial absorveu os abundantes meios financeiros que suportavam as dívidas de má qualidade (ou seja, as que dificilmente seriam um dia pagas, mas que se esperava que fossem sendo geridas) e Portugal foi confrontado com uma dificuldade grande de acesso a dinheiro que pagasse a diferença entre o que vendia e o que comprava. O que fez então o governo incumbente? Aprofundou o modelo económico anterior e, dementemente, endividou-se desesperadamente para suportar, pelo menos até à eleição seguinte, a ficção económica em curso, despejando a dívida que ia arrancando a ferros e a custos progressivamente maiores, sobre os sectores protegidos, em especial a inevitável construção civil que alimentava uma miríade de pequenos negócios ineficientes a jusante e montante, segurando artificialmente a taxa de desemprego. Até ao dia em que um golpe de Estado orquestrado pela banca (em risco de falência) e executado pelo seu ministro das finanças, obrigou o primeiro ministro de então a pedir a intervenção externa antes que a bolha do endividamento rebentasse descontroladamente, com um inevitável cortejo de falências, desestruturação do sistema financeiro, disparo do desemprego e miséria, muita miséria. Os representantes dos credores estabeleceram então um programa para resolver os desequilíbrios externos fundamentais (isto é, equilibrar compras e vendas) e, por essa via, criar confiança suficiente para que o dinheiro para gerir a dívida retornasse ao país. Inevitavelmente esse programa consistia em reduzir drasticamente a despesa do Estado e as compras ao exterior, visto que aumentar as vendas é um processo complexo que resulta essencialmente do desempenho das empresas. Inevitavelmente o sector da construção estoirou, o sector financeiro não estoirou porque foi amparado (o seu papel numa economia é equivalente ao papel do sistema circulatório num corpo, e se sobrevive a uma amputação de um braço, não se sobrevive à amputação do coração) e os milhares de negócios ineficientes a montante e jusante da construção faliram. A necessidade de resolver os problemas do sector financeiro obrigou a uma contracção brusca do crédito que acentuou os problemas das empresas no limiar da sustentabilidade. Inevitavelmente o desemprego disparou e o nível de rendimento baixou drasticamente, acentuando os problemas das empresas que viram os seus mercados contrair-se rapidamente. Acresce que as famílias, assustadas com o cenário que se desenhava, não reduziram o seu consumo apenas na proporção do rendimento disponível mas aumentaram essa redução para garantir a poupança, o que se facilitou o processo de reestruturação do sector financeiro e diminuiu a necessidade de endividamento, aumentou a retracção dos mercados das empresas. Surpreendentemente, o ajustamento externo foi muito mais rápido que o previsto, com as exportações a subirem mais que o previsto e as importações a diminuírem mais que o previsto, o que, se resolveu mais rapidamente os desequilíbrios estruturais, aumentou as dificuldades de financiamento do défice do Estado porque as exportações são menos taxadas que o consumo. Pois bem, três a quatro anos depois do início do processo de ajustamento (começou antes da tróica na economia, com as exportações a crescerem rapidamente, embora menos que as importações) hoje estão essencialmente resolvidos os desequilíbrios estruturais e está, no essencial, garantido o financiamento da economia. Ou seja, a questão essencial do programa de ajustamento financeiro está resolvida (embora precariamente, é certo). Podemos, portanto, desviar a prioridade e o foco da necessidade de assegurar o financiamento e evitar a bancarrota para a necessidade de reforçar o ajustamento com maior criação de riqueza, sem que isso signifique maior endividamento do Estado. O que conclui a oposição, os jornais e etc., sobre essa evidente viragem do governo e da tróica? Que é a demonstração do falhanço do programa e que os que disseram que isso do endividamento era um problema menos central que os de manter as taxas de desemprego baixas sempre estiveram certos, fazendo tábua raza das alterações estruturais que permitem a mudança de foco. É por isso, pela profunda estupidez e falta de seriedade que vejo nisto tudo que eu, esquerdista impenitente e com verdadeiro desprezo pela forma como Passos Coelho obteve o poder, sou obrigado a continuar a apoiar um governo de direita, dirigido por uma pessoa a quem não reconheço grandes qualidades, acolitado por outra a quem reconheço tantas qualidades como faltas de carácter, com ministros que não escolheria certamente para trabalhar comigo nem a distribuir panfletos, e, vá lá, com outros que aceitaria pacificamente, eventualmente gosto, como meus chefes. É simplesmente porque é um governo que fez o que precisava de ser feito, mesmo que o custo social seja, como é, muito elevado. Mas certamente muito menos elevado que manter o absurdo económico anterior, da mesma forma que por mais dramática que seja uma amputação (e é sempre) é infinitamente melhor que deixar lavrar a gangrena por falta de coragem para decidir sobre a amputação imprescindível.

quarta-feira, fevereiro 20, 2013

Não jogo mais à bola contigo


Ora aqui está mais um texto de opinião do Público Online.
E mais uma vez o mais interessante são os comentários: 1) Os factos são irrelevantes, o importante é descobrir a careca ao autor; 2) Aparentemente é normal e vulgar considerar-se que quem vende a sua força de trabalho, oferece a sua liberdade de pensamento como brinde.
henrique pereira dos santos

domingo, fevereiro 17, 2013

Feijoada completa


De vez em quando reproduzo aqui o que escrevo no Público on-line. Neste caso o mais interessante são os comentários. henrique pereira dos santos

sábado, fevereiro 16, 2013

O grande Elias


O Gonçalo Elias, a propósito da discussão do post anterior e do abate de um macho de águia imperial há algum tempo, relembra, e bem, o cadastro e as suas implicações jurídicas.
A coisa explica-se rapidamente: quando se discutiu o novo regime jurídico da conservação eu insisti em que se procurasse uma forma de dar valor jurídico (e, já agora, abertura, transparência e democraticidade) aos livros vermelhos.
Pedro Gama, o jurista que trabalhava no núcleo mais restrito de elaboração das propostas do regime jurídico, propôs uma solução que inicialmente me pôs de pé atrás mas da qual passei depois a ser o maior defensor: a elaboração de um cadastro dos valores naturais protegidos.
Esta ideia foi vezes sem conta confundida com um inventário dos valores naturais (o putativo SIPNAT, que há mais de dez anos vai ficar fantástico nos próximos seis meses) e a solução final do regime jurídico incorpora o cadastro e o inventário (SIPNAT, ou um primo qualquer).
Fora do núcleo mais restrito de elaboração do regime jurídico esta ideia do cadastro continuou a ser um objecto estranho em que ninguém pega, de tal maneira que ainda há coisa de um ano, numa discussão alargada com a nata dos botânicos de Portugal (e outros penduras como eu) ficou tudo muito espantado com a possibilidade de qualquer pessoa poder propôr a classificação de qualquer valor natural (as versões originais do regime jurídico eram mais liberais que as versões finais, mas enfim, faz parte do processo normal de consenso social onde quem decide é quem é eleito).
E depois do primeiro espanto, voltou tudo à mesma, à crítica do Estado que não adopta os instrumentos de protecção das espécies (que incluem a gradação das coimas em função do estatuto de ameaça, que pode ser alterado por proposta de qualquer pessoa, desde que cumpra um mecanismo democrático e aberto de decisão que inclui discussão pública dos estatutos de ameaça).
A verdade é que isso só depende de nós querermos ou não querermos exigir um cadastro que inclua a nossas propostas.
Mas tirando o Gonçalo Elias (eu estou cansado da guerra, cheio de dívidas e desisti de remar contra a maré) não vejo ninguém, indivíduos, académicos, associações, jornalistas , etc., a perguntar pelo cadastro.
Obrigado Gonçalo.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, fevereiro 14, 2013

Ano 2000


Um pequeno comentário de Miguel Pimenta sobre a águia real no Gerês (se bem percebi, ausente no ano 2000, mas com um ou dois casais actualmente na área), fez-me lembrar duas discussões com algum tempo:
Uma, referente ao abate do macho de um casal de Águia Imperial. O link remete para um post, que links para outros mais antigos onde como de costume a dramatização das desgraças futuras (o estado normal da conservação mainstream) aparece em todo o seu esplendor. E lembrei-me porque ao que me dizem, nidificaram 18 casais de imperiais em Portugal no ano passado;
A outra foi uma discussão grande com Miguel Araújo sobre o que estava a conduzir a recuperação dos linces desde o ano 2000: o investimento em conservação ou a rápida recuperação das populações de coelho (marginalmente afectada positivamente pelas acções de conservação). A recuperação de lince continua e desde 2000 para cá a população já triplicou (o post para que faço o link, permite ir andando para os outros da mesma discussão, quer do Miguel, quer meus, ou então pode procurar-se no blog pela palavra lince);
Ora é esta referência à ausência da águia real no Gerês no ano 2000, seguida da posterior recolonização remete de novo para a questão da recuperação do coelho, pese embora o facto da alteração de habitat que está a ocorrer ser desfavorável à águia real.
De vez em quando convém revisitar as previsões de uns e outros para aferir que modelos de interpretação se aproximam mais do verificado na realidade.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, janeiro 25, 2013

If you hold a stone


Seguindo a sugestão do Luís Lavoura, aqui fica o primeiro dos artigos que escrevi para o publico on line.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, janeiro 24, 2013

Outras palavras


Agora tenho escrito também por aqui.
henrique pereira dos santos

terça-feira, janeiro 15, 2013

Um agradecimento verdadeiro


O blog aventar promove umas votações sobre o melhor blog do ano em muitas categorias.
Não havendo a categoria de blogs ambientais, ainda assim tiveram a simpatia de integrar este blog na lista do blogs de ciência.
Apesar de este não ser um blog de ciência, apesar de estar moribundo (sendo optimista) e apesar da extensa lista de pessoas que teoricamente escrevem neste blog (alguns deles nunca tendo escrito um único texto, apesar de se terem comprometido a isso, a maior parte, onde me incluo, tendo deixado de escrever, uns neste blog, outros de escrever em blogs) que nem sequer saberão desta nomeação (como era o meu caso), o blog tem dois votos.
A esses dois fiéis moicanos o meu muito obrigado.
henrique pereira dos santos
PS Não costumo entrar em votações deste tipo, não é agora, para votar em mim, que vou quebrar esse hábito

quinta-feira, janeiro 03, 2013

Cabras, outra vez (e fogo, mais uma vez)

Um dos trabalhos em que estou envolvido e que mais prazer me dão (felizmente, para quem detesta trabalhar, como eu, tenho com frequência que trabalhar em coisas de que gosto) é o que tenho vindo a fazer para a Aguiar Floresta.
É um trabalho interessante de modelação da paisagem com objectivos económicos e de sustentabilidade que, sem surpresa, aponta para soluções ambientalmente interessantes.
Uma parte vem de trás, do que a Aguiar Floresta já faz há mais tempo, como o fogo controlado, que talvez se consiga fazer no fim desta semana e princípio da próxima, integrando-o quer no aumento da resiliência do território ao fogo, quer na potenciação dos efeitos benéficos do pastoreio tradicional que subsiste.
A outra parte, que depois de muitos avanços e recuos dá os primeiros passos concretos, com boas surpresas, é o pastoreio dirigido, que dá origem a estas duas fotografias.


A questão não é apenas afinar a técnica, é torná-la um instrumento económico competitivo, mas para isso é cedo.
Para já o gosto vem de verificar como realmente foi possível derrotar o mato, com pouco recursos a combustíveis fósseis, com menos mão de obra e com manutenção da matéria orgânica no local.
A comunicação é um aspecto fundamental a que dedicamos muita atenção como se pode ver nestes dois videos.


Estamos longe do objectivo, mas estamos um passo menos longe.
henrique pereira dos santos

terça-feira, janeiro 01, 2013

To Chile and back again


Projeto de florestação com Eucalyptus nitens - Nascimiento - IX Região
Tive a sorte de realizar uma viagem de estudo ao Chile com um colega meu. O objetivo era visitar empresas florestais da fileira de celulose chilenas e comparar práticas, dificuldades e soluções.

Chile é um país extraordinário. Em todos os sentidos. A sua geografia e geologia únicas, as condições fabulosas de produção primária em grande parte do seu território, proporcionadas por solos muito fertis e condições edafoclimáticas favoráveis.

A economia chilena, como muitas outras sulamericanas, tem tido crescimentos do PIB na casa do 5% ao longo dos últimos anos. O clima social de otimismo e confiança no futuro está presente em todo o lado. É notável como se vê sempre muitas pessoas a trabalhar, sejam em explorações agrícolas ou florestais, no comércio, nos hoteis e restauração, na construção.

Para nós, técnicos florestais Portugueses, custa sempre um pouco olhar para essa realidade.
Ficamos intimidados com as produções florestais que são conseguidas no Chile.
Ficamos admirados com a organização da fileira, com o professionalismo das empresas que atuam nela, tanto as da gestão florestal como as de serviços de exploração.
Ficamos espantados com a cultura omnipresente de saúde e segurança em trabalho.
Ficamos inspirados com a engenharia hidráulica, empregue por todo o lado na floresta.
Ficamos invejosos com a objetividade e espírito de apoio ao investimento florestal que os serviços florestais chilenos manifestam, ajudando o proprietário com a gestão do seu terreno.
Ficamos incrédulos com a simplicidade e eficácia da legislação florestal Chilena que, com base em meia dúzia de regras simples de conduta e boas práticas, baliza o espaço para o produtor florestal, deixando a este as decisões sobre onde investir e em quê, sem preconceitos ou pretenções moralistas sobre o que é bom ou o que deve ser. Desde que não se toca nos "bosques nativos", cartografados e protegidos integralmente, para o legislador chileno, tanto lhe faz o investimento ser em vinhas, pomares, pinhais, eucaliptais, morangueiros ou prados, isto é deixado ao critério do proprietário do terreno.

Verificámos que temos muitos desafios em comum. Desde as pragas da cultura, os incêndios florestais, as espécies exóticas invasoras, as condições de segurança no trabalho, as exigências da certificação florestal, os desafios do diálogo com as partes interessadas, as pressões de organizações de proteção ambiental, conciliar áreas de produção florestal com biodiversidade.

Observámos soluções semelhantes, desde a aposta no melhoramento genético das plantas, o reconhecimento da importância dos tratamentos culturais, a solidez técnica das operações, o aprofundar do diálogo com partes interessadas, o envolvimento de especialistas na procura das soluções.

Concluímos que estamos em portugal à frente em áreas como produção em talhadia, em projetos de conservação de natureza e biodiversidade, em luta integrada de pragas, em sistemas de informação e inventariação.

Foi muito bom. Agora, de regresso à realidade portuguesa, às vezes o Chile parece tão longe e tão irreal como a Neverland (a de Peter Pan, não a de Michael Jackson) ...

145 mil


Passo a passo.
Não é a única base de registo de observações, é uma pena que várias bases não conversem mais entre elas para as potenciar a todas e etc., mas 145 mil observações são 145 mil observações.
A seu tempo estas 145 mil serão 200 mil, depois 300 mil e daqui a uns anos um milhão de observações estarão disponíveis para quem as quiser usar da forma que as quiser usar.
Espero que nessa altura alguns observadores, que guardam as suas fantásticas observações em fantásticos cofres virtuais de acesso condicionado a iniciados percebam finalmente a utilidade da partilha franca e aberta.
Até lá é isto: uma observação hoje, outra amnhã e o projecto vai andando e fazendo o seu caminho.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, dezembro 28, 2012

Duas boas perpectivas de futuro

Ao ler o jornal reparei em duas boas notícias.
São apenas boas perspectivas de futuro.
Uma, a proposta da plataforma de Moreira da Silva de transferir taxação de trabalho para a emissão de CO2. Por mim prefiro a transferência da taxação do trabalho para o consumo de energia, é mais simples e mais universal, mas o princípio de diminuir a taxação do trabalho, aumentando a taxação do consumo (em especial do consumo de energia) parece-me uma bandeira que o movimento ambientalista nunca deveria deixar cair.
A segunda, a iniciativa da Câmara de Mação de lançar um projecto piloto de transport-on demand. Torço para que seja bem gerido e tenha bons resultados para que passe de experiência piloto de seis meses a modelo permanente de transporte público e que contagie aos poucos todos os outros municípios com territórios de baixa densidade. A exploração deste modelo de transporte público tem muito maiores probabilidades de sucesso a uma escala supra-municipal que a uma escala municipal, mas antes quem avance que ficarmos à espera de soluções ideiais.
Bom 2013
henrique pereira dos santos

quinta-feira, dezembro 06, 2012

As elites e o ordenamento do território

Uns pobres de espírito que desconhecem o mundo maravilhoso do licenciamento zero e da ausência de REN na decisão de ocupação do território a queixarem-se de terem caído uns pingos de água em vez de glorificarem os maravilhosos ganhos económicos previamente obtidos
Ao passar à porta de um café vi Ribeiro Telles sentado a ler os jornais do dia.
Quem tem lido o que escrevo sabe que, de maneira geral, onde estiver Ribeiro Telles eu estarei na oposição.
Mas nunca confundi as minhas divergências de opinião com a genuína simpatia que tenho por Ribeiro Telles pelo que, apesar do tempo contado, entrei no café e fiquei por ali dez minutos a conversar sobre o projecto da Faia Brava ou sobre o que estamos a fazer em Vila Pouca de Aguiar com o controlo de combustíveis através do pastoreio dirigido.
Como sempre a curiosidade de Ribeiro Telles, as perguntas que faz, o interesse pelo que desconhece é cativante e saí dali, atrasado (coisa que me incomoda profundamente) mas a achar que tinha valido a pena.
Vem isto a propósito da coincidência de ter ouvido, ao princípio da tarde do mesmo dia, uma intervenção de José Gomes Ferreira para uma plateia de empresários e gestores.
No meio de muitas certezas sobre economia e um ataque cerrado aos banqueiros (cai sempre bem em qualquer demagogo que se preze e é uma constante de todas as épocas de crise, não deixando eu de me lembrar a queima de Jacques de Molay para resolver os problemas financeiros de Filipe, o Belo) aparece um tópico sobre a RAN e a REN, como uma questão magna para libertar a economia nacional.
José Gomes Ferreira não é uma pessoa qualquer, desinformada e que lê o Correio da Manhã no café da esquina. É inegavelmente um membro das elites portuguesas.
O que ele disse, aliás, não se afasta muito do que têm sido posições dominantes das elites satisfeitinhas consigo próprias e distantes da curiosidade e interesse em ouvir de Ribeiro Telles (outro membro das elites em Portugal, claro, mas frequentemente desalinhado do pensamento dominante).
É inacreditável a quantidade de asneiras sobre ordenamento do território ditas por José Gomes Ferreira. Falo de asneiras factuais, não falo de opiniões, que dariam mais meia dúzia de posts.
José Gomes Ferreira diz que os PDMs foram feitos para integrar 90% em RAN e REN e deixar apenas 10% para a urbanização, de modo as que os lobbies (financiados pelos bancos, sempre os maus da fita) pudessem especular com o preço dos terrenos devido à escassez de oferta.
A quantidade de informação factual errada nesta tese é impressionante, mas não satisfeito José Gomes Ferreira continua, argumentando que se os PDMs previssem 50% de RAN e REN e 50% para a urbanização se acabaria com o poder dos funcionários que prejudicam os empresários com os seus pareceres (uma versão soft da tese da máfia verde já aqui tratada várias vezes) e a economia poderia prosperar, defendendo uma coisa chamada licenciamento zero.
Resumindo, José Gomes Ferreira não sabe que o uso urbano, em qualquer país normal, não passa dos 3% (talvez na Holanda seja um pouco acima, não sei), não sabe que os PDM em Portugal prevêem duplicar a área construída (um aumento de 100% não chega para travar a especulação provocada pela escassez com uma população estagnada?), não sabe que talvez a Alpiarça tenha 90% do concelho em RAN e REN, e até talvez haja um ou outro concelho onde isso aconteça (eu tenho as minhas dúvidas de que, a existirem, eles sejam mais de meia dúzia) mas que a generalidade dos concelhos em Portugal têm muito menos de 90% da sua área m RAN e REN, não sabe que há mais mundo que RAN e REN e urbanização nos zonamentos dos planos, não sabe que o negócio não é especular em 10% do território por escassez de oferta de terreno urbanizável, mas sim comprar terreno não urbanizável e conseguir as decisões administrativas para o tornar urbanizável, de maneira geral com base em argumentos semelhantes (mas falsos, na maioria das vezes) aos de José Gomes Ferreira, não conhece as ineficiências de uma localização dispersa da habitação, indústria e equipamentos, desconhece os custos para os contribuintes em investimento estrutural e operação do fornecimento de bens básicos, como esgotos, água, electricidade, correio, transportes, etc., etc., etc..
E não sabe também das ineficiências estúpidas a que estas conversas de treta das elites sobre estas matérias têm conduzido, como à inefável plataforma logística de Castanheira do Ribatejo, que continua vazia, apesar dos investimentos privados imensos (dívida privada, falta de crédito, sufoco financeiro, imparidades bancárias nos activos imobiliários, alguém saberá de onde virão estes problemas?) e, até agora, inúteis, e investimentos públicos absurdos em acessibilidades e isenção de taxas (dívida pública, austeridade, crowding out, será que alguém saberá de onde vêm estes problemas).
Mas acima de tudo, José Gomes Ferreira aceita ter opiniões definitivas sobre esta matéria sem que até hoje exista um único estudo que demonstre a influência negativa da RAN e da REN na economia do país, embora exista abundância evidente do preço a que nos está a ficar o recente peso excessivo do sector da construção na economia do país, em grande parte à custa destes jeitinhos de ajustar as regras ao sector, em vez de ajustar o sector às regras, bem dos custos sociais que nos estão a ser cobrados pelo ajustamento que consiste em reduzir o peso da construção e afins dos seus 30% da economia para os saudáveis 6 a 7% a que teremos de chegar.
E estamos a falar de uma pessoa que tem obrigação de estar especialmente bem informada.
Imaginemos o que vai na cabeça de pessoas com informação média, filtrada por estas elites bem informadas.
Estamos feitos.
henrique pereira dos santos

sábado, dezembro 01, 2012

Redes de anónimos


Há quem já tenha percebido que neste momento sou responsável pela gestão da ATN, Associação Transumância e Natureza, que gere a Reserva da Faia Brava, a primeira área protegida privada de Portugal.
A ATN tem muitas coisas a correr, incluindo neste momento uns cabazes de Natal com produtos locais que ajudam a financiar os projectos de conservação (todo o que existe em curso na associação é anterior ao meu trabalho, não tenho  por isso qualquer responsabilidade ou mérito no que está a ser feito e já estava antes).
Como acontece em associações pequenas e com orçamentos apertados, vai-se fazendo o que nos parece útil, o que faz com que de vez em quando eu assuma funções de marçano, carregando uns sacos de coisas para pessoas que em Lisboa apoiam a ATN.
Num destes dias, na entrega de uma encomenda, falam-me de outro projecto, de que já tinha ouvido falar, o Re-Food.
E pronto, é a minha vez de vos sugerir que contribuam para um projecto tão inteligente e útil como discreto: se quiserem transferir qualquer coisa para este NIB (0036 0000 9910 5880 0342 2) o que transferirem vai para a compra de uma (ou duas) bicicletas de carga que ajudam na distribuição das refeições.
Um projecto solidário, feito por voluntários que fazem uma actividade simples: vão, de bicicleta, buscar refeições onde elas sobram (restaurantes e que tais) e entregar onde fazem falta.
É uma boa idea e um passo no caminho da sustentabilidade.
henrique pereira dos santos

Flora-on


"Classificar objectos é uma prerrogativa humana baseada na capacidade da mente de conceptualizar e reconhecer a presença de propriedades similares em objectos individuais." Para W. Quine, o autor desta frase, classificar é inato. A diversidade de objectos, seres vivos ou comportamentos com os quais convivemos é incognoscível sem uma taxonomia. Classificar exige rótulos, que são, em si, uma expressão sintética de um conjunto de propriedades. Classificar é, portanto, indissociável de rotular: como dizem os bascos,  "só existe o que tem nome". Classifica-se porque o ato de classificar é adaptativo. 
Para agir informadamente e com sucesso sobre a realidade é necessário: 1) torcê-la, reduzi-la, simplificá-la para caber num sistema de classificação; 2) dominar a sua taxonomia. Assim é com tudo, e com as plantas. Para conservar plantas e as suas socializações (a vegetação) é preciso dominar a sua taxonomia, do mesmo modo que para cozinhar comida vegetariana é necessário conhecer os legumes, ou para gerir adequadamente uma pastagem identificar as suas leguminosas.
As plantas alimentam-nos, curam-nos e envenenam-nos. Interagir com os seres vivos faz-nos felizes. Classificar plantas deve ser importante, mesmo. Por isso a botânica como ciência começou por ser taxonómica. E por certo éramos já botânicos profissionais quando deambulávamos sem destino, no limiar da extinção, nas margens do lago Turkana.
Se a sistemática botânica é importante então seria expectável que o sistema público de ensino (a todos os níveis), ou os institutos de conservação da natureza liderassem o seu ensino e difusão. Algo semelhante ao que se reclama para o sistema público de radiodifusão, não é assim? Informação livre regulada pelo estado!!! Mas, não. Cada vez se ensina menos o fundamental, e mais o assessório, o ultraespecializado de escassa utilidade prática, que embota a nossa capacidade agir sobre o mundo. Na escola aprende-se tudo sobre OGM's.  Enxofradelas desconexas e sem convicção sobre como maltratratamos o mundo são o prato do dia. Na biologia desce-se ao pormenor da estrutura e função dos organitos, dos mecanismos moleculares da célula, da bioquímica da respiração e da fotossíntese contabilizada ao átomo, mas nada ou muito pouco de botânica clássica. Do mesmo modo gastam-se horas com fitorremediação (uma técnica de escassa utilidade, Darwin explica porquê) ou a falar de algas para produzir combustíveis (explicando como se fertilizam com CO2 mas omitindo o fósforo), mas nada sobre o mais importante ramo da botânica aplicada: a agricultura. Aqui, em Portugal, e no mundo fora.
Felizmente a sociedade civil quer lá saber de ideias e grupos dominantes. Livres dos sistemas de reprodução social que colonizam o estado (e que bem se identificam na educação!), das ideias feitas dos pensadores da educação, dos licenciados disto e daquilo, de quem vence o concurso de catedrático, dos Lysenkos e dos comissários, teimam em seguir o seu caminho, e viver a sua liberdade.
Por isso admiro tanto o projecto Flora-on (www.flora-on.pt). Informação livre, democrática para todos sobre uma coisa muito importante: as plantas. Quem sabe e quer contribuir,contribui. Quem não quer, não consegue estragar. Sem subsídios ou concursos públicos, a utilidade social do Flora-on cresce de dia para dia. São estas coisas que me dão esperança.