terça-feira, março 30, 2010

A peregrina ideia do Sudoeste como Parque Nacional


Por razões que desconheço a LPN resolveu lançar uma campanha para a "promoção" do Parque Natural do Sudoeste Alentejano a Parque Nacional.
Não vou perder tempo a procurar as razões que possam levar a este desvelo da LPN pelo Sudoeste porque há muito deixei de tentar entender a racionalidade das opções das grandes ONGAs em matéria de prioridades. Percebi que é porque sim, porque uma pessoa ou grupo tem um carinho especial por um assunto e isso chega para que toda uma organização se mobilize para tratar desse assunto.
Do que quero falar é mesmo da ideia peregrina de ter o Parque do Sudoeste classificado como Parque Nacional.
Um parque nacional é um sítio onde a mão do homem nunca pôs o pé.
É uma definição razoavelmente imprecisa e por isso cito a ideia legal: "Entende-se por «parque nacional» uma área que contenha maioritariamente amostras representativas de regiões naturais características, de paisagens naturais e humanizadas, de elementos de biodiversidade e de geossítios, com valor científico, ecológico ou educativo".
Esta é a versão consagrada na lei. Em versões anteriores deste diploma as coisas eram mais claras: " 1—Entende-se por parque nacional uma área terrestre do território nacional e/ou as áreas marinhas sujeitas a jurisdição nacional, incluídas na zona económica exclusiva e na plataforma continental que contenha um ou vários ecossistemas inalterados ou pouco alterados pela intervenção humana, integrando amostras representativas de regiões naturais características de paisagens naturais e humanizadas, de espécies vegetais e animais, de locais geomorfológicos ou de habitats de espécies com interesse ecológico, científico e educacional."
A retirada da ideia de inalteração dos ecossistemas vem aproximar a definição consagrada na lei da definiçao de parque natural.
Ainda assim a coisa clarifica-se nos seus objectivos (mesmo se imperfeitamente, com esta mania tão portuguesinha de ter medo de ser claro nas opções): "2 - A classificação de um parque nacional visa a protecção dos valores naturais existentes, conservando a integridade dos ecossistemas, tanto ao nível dos elementos constituintes como dos inerentes processos ecológicos". Só que depois fala-se em uso sustentável, necessidades de populações locais e etc., ao contrário de versões preliminares do diploma: "2—A classificação de um parque nacional tem por efeito possibilitar a adopção de medidas que permitam a protecção da integridade ecológica dos ecossistemas e que evitem a exploração ou ocupação intensiva dos recursos naturais.".
Há pois uma responsabilidade que não é da LPN, é do Governo, ao aproximar a definição de parque nacional da de parque natural (oferece-se um prémio surpresa a quem consiga, com base na lei actual, explicar direitinho e de forma clara em que é que no concreto é diferente uma definição da outra).
Só que o que está completamente errado é considerar que as classificações das áreas protegidas são medalhas de mérito (ser um parque nacional é mais importante que ser um parque natural) e não instrumentos jurídico-administrativos que apoiam a gestão de uma área com determinadas características.
Faz algum sentido classificar o Sudoeste, cheio de gente, de estradas e de actividade económica como parque nacional, uma figura que tendencialmente aponta para a ausência de uso extractivo?
Se já hoje a demagogia tem usado a figura da área protegida (com fortes responsabilidades para os seus gestores directos na colaboração da ideia de que as populações residentes têm sido prejudicadas com a área protegida, o que é desmentido por todos os dados económicos e sociais que se conhecem sobre a área) para chantagear o poder central e os contribuintes, imaginemos se um dia se classificasse, erradamente, a área como parque nacional.
Então é que ninguém se calaria com a ideia de que as populações locais estavam a ser tratados como índios.
Pretender resolver o défice de recursos do Sudoeste com campanhas destas é, na mais bondosa das interpretações, ingenuidade.
Já não falando na dúvida legítima sobre o efeito de aportar mais recursos à gestão desta área que é, no nosso sistema de áreas classificadas, das que mais recursos consomem com menos resultados positivos (a miserável qualidade da gestão desta área protegida anos a fio, desde há muitos anos, é bem mais responsável pelos falhanços da área protegida que a falta de recursos).
Enfim, o país em cacos, a biodiversidade em fanicos e a LPN a fazer campanhas para coisas absurdas.
No fundo a LPN acha que isto só se aguenta levando tudo na brincadeira.
henrique pereira dos santos

2 comentários:

  1. Na segunda metade da década de 70, tinha eu pouco mais de 10 anos, com o Parque Natural da Arrábida criado em 1976, lembro-me muito bem da distinção conignada em lei ou no espírito da classificaçao na altura e que acabou por prevalecer e sobre a qual não há quaquer menção no texto: num Parque Nacional deveria haver uma importante parcela da propriedade pertença do Estado; num Parque Natural, maioritariamente a propriedade era privada...

    ResponderEliminar
  2. como é que se pode pedir um parque nacional para o sudoeste alentejano e costa vincentina se nem conseguem fazer o controlo do parque natural?
    No PNRF (Ria Formosa) a falta de fiscalização é uma realidade e as construções de mansões de luxo na zona da quinta do lago do ancão e na Fuzeta a menos de 50 metros do preia-mar das aguas da ria são tantas que até arrepia,no Ancão até parte de um campo de golfe está construído dentro das aguas da ria.
    os esgotos sem tratamento para a ria são tantos que é dificil inumerá-los o veneno que as ETARS poente de Olhão e nascente de Faro,despejam para a ria em matéria de coliformes fecais é melhor nem falar pois metem medo.
    mas o director desse parque srº João alves diz que está tudo bem na Ria Formosa. Também não admira pois ele com o espaço de parques que tem para gerir era preciso viver 3 vidas para conhecer umapequena realidade do espaço que devia ser responsabvél.
    podem ler no blog Olhão livre a poluição existente na ria formosa e todas as agressões do betão na ria sendo favoirecidos por presidentes das Câmaras sem escruplos como consentimento do director dos sucessivos directores PNRF.sendo drº João Alves o ultimo deles,e parece que segue o mesmo caminho.

    ResponderEliminar

Comentários anónimos são permitidos sempre e quando os seus autores se abstiverem de usar este espaço para desenvolver argumentos de tipo "ad hominem". Comentários que não respeitem este princípio serão apagados ou, no caso do sistema de moderação de comentários estar em funcionamento, não publicados.

Os autores do blogue reservam-se ainda o direito de condicionar a publicação de comentários depropositados, insultuosos, ou provocadores mesmo quando assinados.