quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Falar do fogo quando chove


Todos os anos tenho feito pelo menos um post mais ou menos com o tema do título.

É cedo para caracterizar o ano que começou, mas já é bastante claro que pelo menos um mês e meio de chuva com alguma abundância e, sobretudo, bem distribuída ao longo do tempo, associada ao facto de haver uma quantidade apreciável de precipitação sob a forma de neve, muito favorável à recarga de aquíferos, à lenta disponibilização e à acumulação, permite supor que nos próximos meses haverá alguma humidade no solo e na vegetação, mesmo que depois ainda venha uma seca dos diabos.

É certo que as temperaturas baixas não favorecem o desenvolvimento vegetativo.

Por outro lado é bom não esquecer que depois de 2005 com problemas na dimensão dos fogos, 2006, 2007 e 2008 foram anos com muito pouca área ardida, isto é, com um saldo acumulação - retirada de combustíveis muito favorável à acumulação.

Os processos de gestão de combustíveis alternativos aos incêndios (corte, pastoreio e fogo controlado) não me parece que tenham compensado de maneira nenhuma este saldo fortemente positivo para o lado da acumulação pelas seguintes razões:


  • a área de corte de matos feita pelos sapadores flroestais não tem expressão em termos absolutos (é impossível que tenha) mas poderia ter funcionalmente se fosse muito estratégica e com dimensão apreciável. Tenho as maiores dúvidas de que tal aconteça, até pela "municipalização" das equipas de sapadores florestais que tenderão a ser usadas em função das prioridades autárquicas, que, salvo raras excepções, não incluem a gestão florestal (mesmo que incluam o combate aos fogos, que é matéria que não é para aqui chamada). Os outros mecanismos associados ao corte (as roças feitas pelos proprietários ou para as famosas centrais de biomassa desaparecidas de todo o discurso sobre a matéria, espero eu que por finalmente se ter percebido que para a gestão dos combustíveis são muito pouco úteis, só terão expressão nas grandes propriedades com gestão mais profissionalizada e rentável (em rigor a ordem está trocada) da floresta, ou nas zonas de minifúndio onde algumas, poucas, pessoas ainda usam matos de forma tradicional) não me parece que tenham expressão suficiente;

  • o pastoreio não me parece que esteja a aumentar significativamente (eu diria que está a diminuir lentamente) e o pastoreio orientado como técnica de gestão do fogo está em fase embrionária, e com limitadíssimas aplicações práticas;

  • o fogo controlado está francamente em expansão mas é ainda residual (duvido que em todo o país, e já contando queimadas de inverno, passe os 5 000 hectares quando temos mais de cinco milhões de hectares onde todos os dias se acumula combustível). Para além disso, com um ano como o que tem vindo a desenvolver-se, não se fazem fogos controlados (mas ainda é cedo, há tempo antes do Verão se as condições se alterarem, como é natural).

Significa isto que a um discurso oficial completamente delirante acerca da relação causa efeito entre as melhorias no combate e a diminuição da área ardida, corresponde uma realidade de acumulação de combustível que, em circunstâncias climáticas adversas, rebentará com qualquer sistema de combate aos fogos florestais.

Acompanhemos pois o ano com deslocações periódicas a Fátima, pedindo que Nossa Senhora interceda junto de S. Pedro, o único que nos pode ajudar a conter os efeitos negativos dos brutais incêndios que estamos a ajudar a alimentar com uma política de gestão do problema completamente demagógica e errada.

henrique pereira dos santos

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