segunda-feira, maio 18, 2009

trabalho de terceira

Vindimas no Douro, lá para meados do século XX (foto sacada daqui)

Do Jacarandá de António Barreto, colhi este texto:

Depois de despejadas as uvas nos lagares, os homens regressam às vinhas para recomeçar. Cada cesto tinha entre 60 e 70 quilos de uvas. A subir e a descer os montes e os socalcos, a caminhar em cima das pedras de xisto a arder, tudo isto com 30 ou 40 graus de calor e durante alguns quilómetros, era um enorme esforço! À noite, estes mesmos homens ainda iam fazer duas ou três horas de pisa de uvas, a pé, nos lagares. Todas estas imagens passaram para a literatura turística, sendo geralmente estes homens representados com um imenso sorriso! Pareciam levitar de prazer e folclore! Na verdade, tratava-se de um dos mais penosos trabalhos que se fez na agricultura de qualquer parte do mundo! Hoje, já quase não se repete esta cena. Os “cestos” são muitas vezes de plástico e com menos de trinta quilos. Entre as vinhas, tractores ou camionetas esperam pelas caixas, já não é necessário aquele calvário!

A extrema dureza do trabalho bem expressa neste texto e a falta de compensação económica que permitisse viver de forma minimamente digna, foram retirando a população activa dos nossos campos. E bem podia ser aquele texto sobre outras práticas agrícolas, pecuárias ou nas pescas. Primeiro, nas décadas de 1960 e 1970 com o desenvolvimento dos sectores secundário e terciário nos grandes centros urbanos do litoral do país, mais tarde, conscientemente engodados com subsídios comunitários que promoveram e promovem o abandono de boa parte das actividades de sector primário ou a sua reconversão em culturas, muitas de futuro questionável, fomos abandonando o campo. Viramos-lhe as costas. Ganhámos alergia à terra e pavor às formigas. Na prática, ser agricultor ou pescador cai manifestamente fora da velha expressão popular "todo o trabalho é digno".

Gonçalo Rosa

Sem comentários:

Enviar um comentário

Comentários anónimos são permitidos sempre e quando os seus autores se abstiverem de usar este espaço para desenvolver argumentos de tipo "ad hominem". Comentários que não respeitem este princípio serão apagados ou, no caso do sistema de moderação de comentários estar em funcionamento, não publicados.

Os autores do blogue reservam-se ainda o direito de condicionar a publicação de comentários depropositados, insultuosos, ou provocadores mesmo quando assinados.