sábado, maio 29, 2010

Prioridades

A primeira questão é: prioridades a que escala? E prioridades para quem?
Vou esquecer as prioridades a escalas muito globais: não tenho informação suficiente para ter uma opinião muito clara. O para quem veremos ao longo do post.
Do ponto de vista de conservação é em primeiro lugar preciso clarificar que a mudança é inerente aos processos naturais. E que essa mudança está em permanente mudança.
Portanto antes de mais é preciso perceber que variações para melhor ou pior em espécies ou sistemas são o normal. Excepcional é a estabilidade.
O que significa que o fundamental é olhar para os processos em detrimento da realidade em cada momento.
Em Portugal (aqui incluindo o que está para lá das fronteiras e se reflecte cá dentro), do ponto de vista expresso acima, é preciso olhar para as principais forças de modelação da paisagem e, a partir daí, perceber o que se vê em cada momento.
O que temos é um processo de razoável estabilidade demográfica, com forte expansão urbana e infra-estrutural, com abandono agrícola acentuado e com alteração da exploração da terra de sistemas mais intensivos para sistemas mais extensivos. Isto para a generalidade do território, com importantes excepções.
Daqui resulta uma contracção das clareiras e espaços abertos e uma recuperação notável da vegetação e dos sistemas naturais. O que significa uma maior dificuldade para as espécies que dependem do campo aberto e uma menor dificuldade para as que dependem da mata e de sistemas mais fechados.
Acresce que a pedra base dos sistemas tróficos existentes, o coelho, um animal de clareira, foi devastada por duas doenças brutais.
Este é o quadro que temos e do qual resulta que a primeira prioridade de conservação no país é recuperar as populações de coelho. A segunda, é manter a relação espaço aberto/ espaço fechado em níveis que permitam o refúgio das espécies dependentes do espaço aberto.
Significa que devem ser estas as prioridades das ONGAs?
Não, as ONGAs são grupos de interesse e as suas prioridades devem ser definidas em função do interesse dos seus sócios e não das prioridades de conservação do país.
Naturalmente uma ONGAs que resolve conservar a libelinha das bolinhas amarelas terá o número de sócios, e os recursos correspondentes, ao das pessoas que se interessam pela libelinha das bolinhas amarelas.
O que é grave é quando as ONGAs dizem que defendem a conservação em termos genéricos mas depois não sabem explicar por que razão na sua agenda este assunto está acima ou abaixo de outro (por exemplo nas vinte cinco espécies que a QUERCUS considera prioritárias é impossível saber por que razão a Leuzea longifolia, que nem sequer está especialmente ameaçada, está acima de muitas outras espécies da flora). E mais grave se torna quando com argumentos falaciosos capturam recursos públicos para as suas indiossincrasias.
O que leva a uma prioridade constante dos programas de conservação a todos os níveis, sobretudo tendo em atenção a mudança permanente: a correcta avaliação de resultados que permita uma gestão adaptativa.
E, pessoalmente, me leva a interessar-me mais pelas ONGAs que colocam no topo das suas prioridades a custódia sobre o território, isto é, a capacidade de tomar decisões de gestão sobre o território que assentam em compromissos de longo prazo apenas dependentes da vontade e dos recursos da organização.
Estamos longe disso. E eu tenho pena de que assim seja.
henrique pereira dos santos

3 comentários:

  1. Anónimo29/5/10

    Henrique, para alguém como tu normalmente tão focado no pragmatismo este texto resvala perigosamente para uma vertente mais filosófica e metafísica...

    A mim os comentários parece-me pertinentes, mas a montante desta discussão parece-me estar uma questão conceptual relacionado com aquilo que se espera do esforço concervacionista e que raramente vejo ser debatida com pés e cabeça.

    No limite a questão pode ser resumida à simples pergunta: "Qual a diferença entre um formigueiro e uma cidade?".

    Alexandre Vaz

    ResponderEliminar
  2. Henrique, Não vejo muito bem onde está a resposta à pergunta: prioridades para quem?

    Vejo que explicas o que julgas serem para ti as prioridades. Mas era aí que querias chegar?

    ResponderEliminar
  3. Miguel,
    Pensei que o texto era claro em identificar três níveis: o nacional, que deveria corresponder ao interesse público e consequente afectação de dinheiros públicos; o das organizações que trabalham no assunto e que deveria orientar a afectação de recursos das organizações; e o pessoal que explica as minhas próprias preferências.
    Procurar escrever textos curtos em pouco tempo tem estes riscos.
    henrique pereira dos santos

    ResponderEliminar

Comentários anónimos são permitidos sempre e quando os seus autores se abstiverem de usar este espaço para desenvolver argumentos de tipo "ad hominem". Comentários que não respeitem este princípio serão apagados ou, no caso do sistema de moderação de comentários estar em funcionamento, não publicados.

Os autores do blogue reservam-se ainda o direito de condicionar a publicação de comentários depropositados, insultuosos, ou provocadores mesmo quando assinados.