quarta-feira, janeiro 07, 2009

Perder dez para ganhar vinte


A partir de hoje e até ver deixei de ser funcionário do ICNB.
As razões para esta opção são várias:
gosto de mudar sempre, nem que seja para pior;
está chato trabalhar na função pública;
tenho dificuldade em encaixar-me no actual ICNB.
Aqui se pode ler uma espécie de programa do actual ICNB.
Não quero, nem devo fazer a análise crítica deste texto.
A minha clivagem pode talvez resumir-se neste parágrafo: “Se, ..., é necessário por vezes perder 10 para ganhar 20, em termos de valores, então que o façamos para salvaguardar que, mais tardar percamos tudo o resto, por ausência de actores ou pela sua resistência incompreendida.”
Conheço esta argumentação de anos a fio a procurar explicar que em matéria de conservação e biodiversidade as perdas são geralmente certas mas os ganhos são mais que incertos, sobretudo no longo prazo.
Sei como esta argumentação é sedutora para os decisores e agentes económicos.
Mas sei também como, por ser falaciosa, é liminarmente recusada pela Directiva Habitats que explicitamente refere que as medidas compensatórias (ou seja, o que permite ganhar vinte) não podem ser levadas em linha de conta na decisão de perder dez.
O que a Directiva Habitats explicita é que havendo a perda de dez, e sendo essa perda imprescindível por ausência de alternativa e corresponder a um interesse público sobreponível à política de conservação, então que se procure ao menos ganhar vinte através de medidas compensatórias, o que é bem diferente de defender a perda de dez para ganhar vinte no futuro.
Ao fim de anos a argumentar isto, muitas vezes numa situação difícil face à capacidade de sedução da ideia de compensação como mecanismo de harmonização de posições, de repente achei-me em sérios riscos de ser atingido por fogo amigo.
É possível, porque tudo é possível, que eu avalie mal a situação mas pelo sim pelo não achei que era tempo de admitir que estava como a Teresa Baptista, cansado da guerra.
E também por isso deixei de ser funcionário do ICNB por uns tempos, esperando sinceramente que eu esteja errado nos pressupostos da minha decisão.
henrique pereira dos santos

4 comentários:

  1. Caro Henrique,

    É caso para dizer... "bem vindo ao clube" :) e boa sorte para os novos desafios que terá pela frente.

    Ao longo dos últimos anos, habituei-me a ver funcionários do ICN (agora ICNB), sairem no instituto. E é pena, pois não só são, na maior parte dos casos, funcionários que representavam mais valias para a instituição, como saem manifestamente decepcionados com o "andar da carruagem".

    Goncalo

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  4. O discurso do actual Presidente do ICNB, conectado a este post, é, per si, uma boa base para novos posts.

    Se a forma é confusa e nebulosa o conteúdo é, no mínimo, preocupante, pois confunde a necessidade de envolver a sociedade nas questões relativas à Conservação da Natureza, com a desresponsabilização do ICNB e do Estado pela mesma.

    No referido texto, o Presitente do ICNB apresenta um suporte lógico que me desagrada profundamente, até a mim, acusado de ter visões neoliberais de algumas questões...

    Lamentável!

    Gonçalo Rosa

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