Segunda-feira, Fevereiro 06, 2012

Diz o roto ao nu

imagem de sérgio leitão roubada daqui
O Público tem, aos Domingos, uma secção que poderia ser uma boa ideia jornalística mas que o jornal resolve executar pela metade e, pior, da maneira menos inteligente.
A ideia consiste em pôr alguém a fazer uma pergunta a uma figura pública. A ideia seria boa se depois a dita figura pudesse responder. Mas não, o Público acha boa ideia fazer perguntas sem resposta. Acresce que ao escolher os perguntadores o Público tem critérios razoavelmente demagógicos.
O resultado é uma coisa com pouco interesse por serem apenas perguntas sem resposta, as mais das vezes perguntas retóricas em que quem pergunta não pretende na realidade perguntar nada mas apenas marcar a sua posição.
A pergunta deste Domingo era do Presidente da Câmara de Boticas para a Ministra da Justiça: "Como se podem dinamizar os territórios de baixa densidade populacional retirando-lhes serviços, acabando com a última réstia da sua soberania, que é a existência da Justiça, e obrigando as populações a terem de fazer justiça pelas próprias mãos?".
É arrepiante constatar que o Presidente da Câmara de Boticas acha que é a instalação de serviços do Estado central que pode suportar a dinamização de territórios de baixa densidade. Suponho aliás que o Presidente da Câmara de Boticas terá vindo a investir seriamente das escolas primárias das aldeias para as dinamizar.
Olhando para o leque de cursos profissionais disponibilizados em Boticas, verifica-se a lógica do costume: recepção e atendimento, contabilidade, informática, turismo rural e ambiental. Olhando para as apostas económicas, cá temos as contradições do costume: turismo, exploração de recursos geológicos, energia eólica e hídrica.
Olhando para os investimentos camarários, lá temos as vilas, o investimento nos bombeiros e por aí fora.
Eu também acho que o Estado central não pode prescindir do território, mas pergunto-me se o poder local pode prescindir da sua base produtiva que justifica os serviços.
Que tal ser menos assertivo na reivindicação do que os outros deveriam fazer e começar a pensar se as estratégias de gestão municipal não estarão, também elas, um pouco distantes da sua prioridade principal: criar emprego sustentável?
Ou dito de outra maneira, deixe lá de perguntar o que os contribuintes podem fazer pelo seu concelho e concentre-se na riqueza que o concelho pode trazer ao país.
henrique pereira dos santos

Sexta-feira, Fevereiro 03, 2012

Quinta-feira, Fevereiro 02, 2012

Quem quer casar com a carochinha?


Ora lá vem outra vez o anúncio "procura-se noivo" da energia nuclear. O padrinho que se procura é sem dúvida o Governo, mas o noivo que se pretende é mesmo o contribuinte.

E a conversa não muda: o problema são as renováveis, em especial a eólica, que estão a atirar com os preços da energia para o Céu e isso está a liquidar a nossa economia (e eu a concordar, claro, porque basta olhar para os países de energia mais barata, como a Líbia e afins, e para os de energia mais cara, como a Alemanha e afins, para perceber uma relação imediata entre preço da energia e desenvolvimento do país).

Como toda a boa mentira, o anúncio de casamento tem umas verdades à mistura, como seja o potencial da eficiência energética para a melhoria do desempenho do país, matéria a que o Governo anterior ligou raspas.

Depois tem coisas engraçadas, que é identificar o absurdo do apoio à co-geração não renovável e responsabilizar as renováveis intermitentes (leia-se eólicas, porque a hídrica não consideram intermitente, mesmo sabendo que com esta seca passa mesmo a intermitente, quer queiram, quer não queiram) pelos custos desse apoio pouco sensato e pouco inteligente dado à co-geração para a produção de electricidade para venda.

Mas tudo isto serve apenas para disfarçar o óbvio: a defesa da enrgia nuclear. Se é isso que querem, sejam homenzinhos, defendam-no sem problemas e sem truques contabilísticos, como sejam os de pretender que os custos de interesse geral vêm todos do problema da intermitência das eólicas e outros disparates do género.

henrique pereira dos santos



Segunda-feira, Janeiro 30, 2012

Os fogos e os jornais

O gráfico acima ilustra a previsão que tinha feito sobre o aumento de fogos com a entrada deste tempo mais ou menos de vento Leste. Não é um Leste muito típico, o vento tem variações o que quer dizer que a situação meteorológica não está muito estabilizada como a que se associa ao vento Leste típico.
Mas ainda assim há, de um dia para o outro, um aumento de quase 100% no número de fogos diários. E a passagem de número de bombeiros em actividade de valores na casa dos 50 a 100, para números na ordem dos 200 a 250.
Os números absolutos continuam modestos (40 fogos diários) e não há alarme social com estes fogos. São por isso, compreensivelmente, fogos mediaticamente inexistentes.
Mas é pena.
É pena porque os factos descritos são exactamente os mesmos (salvaguardando-se a escala) que existem no Verão e que põem todos os jornais a falar de incendiários. Umas vezes são os jornalistas, eles mesmos, a falar de incendiários, outras vezes amplificam as declarações de terceiros. Mas, como é natural, dificilmente conseguiriam ouvir hoje pessoas a apontar os incendiários como responsáveis pelo aumento súbito de fogos diários em cerca de 100% de um dia para outro.
O que colocaria a questão de uma forma clara: se não são as acções dos incendiários que justificam a subida súbita de 100% no número de fogos diários agora, por que razão se deverá aceitar essa explicação no Verão? E se agora, sem dramas, se responsabilizariam as condições meteorológicas, por que razão se resiste a usar a mesma explicação no Verão, tendo em atenção que, ao contrário dos incendiários, essa explicação é válida nas duas circunstâncias?
Eu sei que os fogos são um assunto complexo e controverso. E sei que as minhas ideias sobre o assunto não são necessariamente as certas. Mas também sei que a repetição mediática dos mesmos clichés de ano para ano deve muito à falta de estudo do assunto por grande parte dos jornalistas que tratam o tema (e também à enorme massa de pessoas, de responsáveis autárquicos a comandantes de bombeiros, fora muitos outros, que falam do assunto com certezas resultantes da sua proximidade ao fenómeno, sem consciência de que há coisas que se percebem melhor dando dois passos atrás para ver o quadro inteiro).
Isso tem importância? Tem, e muita.
Trabalhando há anos em políticas públicas, como é sempre a política de conservação, sei perfeitamente que o rumo dessas políticas está estreitamente ligado à percepção pública dos problemas.
Se uma fraude como a da biomassa florestal a produzir electricidade para resolver os fogos (o que é fraude é considerar isso um instrumento útil de controlo de combustíveis, não é existir produção de electricidade a partir de biomassa em algumas circunstâncias) existe e subsiste anos seguidos é porque existe uma convicção generalizada de que queimar mato em centrais para produzir electricidade é uma boa ideia. Essa convicção generalizada leva, nas democracias, os partidos a adoptar políticas públicas que respondam a essa convicção favorável. Ora aqui entraria o papel dos jornais e dos jornalistas no escrutínio da coisa. Não é ouvir uns que pensam assim e outros que pensam assado e já está o contraditório feito. É mesmo ir à procura do que se chama "hard data", ou seja dos factos concretos, verificáveis. Uma vez fixado isto, então sim, ouvir opiniões diferentes sobre esses factos.
Os incendiários, a conversa da falta de meios de combate, a importância dos aviões, a falácia da rapidez do primeiro ataque (a falácia não está em considerar errado fazer tudo por tudo para diminuir o tempo entre o alerta e o primeiro ataque, a falácia está em considerar que é possível montar um sistema assente nessa ideia, financeiramente suportável e que funcione nos dias em que há 300 fogos num só dia), a ideia de que é tudo uma questão de ordenamento florestal, a infantilidade de pensar que se resolve alguma coisa aplicando multas aos proprietários que não limpam o mato e muito mais são clichés mediáticos sobre o assunto que ano após ano se repetem na época de fogos. Enquanto um fenómeno interessante como os fogos de Inverno, que ajudam a fazer uma ideia mais clara do assunto que todos esses clichés, pura e simplesmente não existe mediaticamente.
Tudo isso concorre para as políticas erradas de gestão do fogo. Longe de mim dizer que essas políticas erradas são da responsabilidade dos jornalistas que não as escrutinam convenientemente, evidentemente não são, são da responsabilidade de quem as define e executa.
Mas um quarto poder muito centrado em questões formais, em fogos fátuos, em coisas espectaculares e em sensações, em detrimento do trabalho de escrutínio de fundo, ajuda a que essas políticas se mantenham, nos gastem os recursos e não apresentem resultados.
E é pena. Para além de nos ficar caro.
Grande parte do meu interesse em perceber como funcionam os jornais e se produzem as notícias vem daqui, da noção de como as suas fragilidades (que são as nossas, como sociedade) torna a vida tão fácil a quem define e executa más políticas públicas.
henrique pereira dos santos

Sexta-feira, Janeiro 27, 2012

De novo


Parece que teremos agora algum vento Leste. Este frio, esta secura.
O número de fogos vai subir, só espero que não os apaguem nesta altura. Proteger riqueza, com certeza (povoamentos comerciais, casas, infra-estruturas, por aí), mas deixem por favor estes fogos de Inverno prestar o enorme serviço de reduzir os combustíveis.
É que a ameaça de seca é séria. E este vento Leste no Verão é fatalmente o pai de fogos muito complicados se insistirmos em favorecer a acumulação de combustível em vez de aproveitar este serviço quase de borla que o vento Leste, no Inverno, nos presta.
henrique pereira dos santos

Quarta-feira, Janeiro 25, 2012

Má partilha

Saiu um dia destes a lei orgânica do Ministério da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território. Dizem as más línguas que o Ordenamento do Território, que manifestamente não existe na política deste governo nem dos anteriores, apenas está no nome do Ministério para evitar que este ficasse conhecido pelo acrónimo MAMA.
Confesso que, reconhecendo a importância das regras no condicionamento das decisões, acho sempre que as leis orgânicas são menos importantes do que parece (entre outras razões porque na prática quotidiana se lhes liga muito pouco).
Mas queria aqui deixar duas normas, uma que diz respeito às competências das Direcções Regionais de Agricultura (a primeira), e outra (a segunda) às do Instituto que junta conservação e florestas.

"i) Executar a nível regional, de acordo com as orientações funcionais emitidas pelos serviços centrais competentes em razão da matéria, a gestão das áreas classificadas e assegurar a conservação da natureza e a gestão sustentável de espécies, habitats naturais da flora e da fauna selvagens e de geo -sítios;

f) Assegurar a gestão da Rede Nacional de Áreas Protegidas e a implementação da Rede Natura 2000, em articulação com a Direcção -Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos, nos casos de áreas marinhas protegidas, e com a Agência Portuguesa do Ambiente, I. P., nos casos dos regimes relativos às espécies e habitats naturais protegidos;"

Se uma lei orgânica não atrapalhar é uma boa lei orgânica. Mas ao ler isto fiquei sem saber quem faz de facto a gestão das áreas classificadas, quer as protegidas, quer a rede natura (e outras). Ora estas confusões é que são a única coisa séria numa lei orgânica.

Eu gostaria de estar convencido de só ter percebido mal o que é claro para todos.

henrique pereira dos santos

Domingo, Janeiro 22, 2012

Os deputados e a sustentabilidade



Esta notícia aparece fazendo parte das tricas e tal. Essa parte não me interessa nada. O que me interessa é perceber que a Assembleia da República parte do princípio de que providenciar a deslocação de um deputado (no caso, uma deputada, para ser politicamente correcto) é preciso ou conduzir ou ser conduzido.
Suspeito que a administração da Assembleia da República só reconhece o táxi e o avião como transportes públicos.
Nunca consultaram os horários da CP ou dos autocarros para saberem que entre Lisboa e Guimarães os carros não são o único meio de transporte.
É pena que a Assembleia da República não tenha uma política de deslocações sustentável.
henrique pereira dos santos

Sábado, Janeiro 21, 2012

XIII Congresso Mundial de Sociologia Rural


É em Lisboa. E o prazo para entrega de resumos de comunicações passou para 31 de Janeiro. Eu acho que merece a pena pensar no assunto que diz respeito a muito mais gente que aos sociólogos rurais propriamente ditos.
henrique pereira dos santos

Quarta-feira, Janeiro 18, 2012

Boas notícias para a sustentabilidade


O trabalho jornalístico é mau, não só por dizer o contrário do que qualquer pessoa pode ler na ilustração, como por não fazer ressaltar a novidade dos lacticínios serem, pela primeira vez, ao que julgo, apontados como alimento a usar com moderação.
Cheguei a esta notícia via facebook do Artur Gil
henrique pereira dos santos

Terça-feira, Janeiro 17, 2012

O custo do abandono

Já por várias vezes tenho escrito sobre as vantagens e desvantagens do abandono agrícola que vemos todos os dias pelo campo fora.
Entre as maiores desvantagens está, para mim, a perda de controlo social do território. Uma coisa é a não gestão assumida, verificada, acompanhada e fiscalizada, outra é o abandono, a pura ausência de controlo social sobre o território.
O conjunto de notícias sobre os assaltos de cobre, combustíveis, baterias, peças de veículos, cortiça, azeitona, gado e etc., etc. e etc., são um dos sinais visíveis dessa perda de controlo social.
Este post do blog da Altri Florestal é outro desses sintomas que se traduzem em custos sociais, neste caso em custos ambientais (os custos económicos, neste caso, são negligenciáveis).
Vale a pena incluir estes custos na quantificação de perdas e ganhos do abandono.
henrique pereira dos santos

Sábado, Janeiro 14, 2012

A paisagem também é Tua



“Centremo-nos, por economia de argumentação, no Douro vinhateiro, património mundial.
As intervenções a que hoje atribuímos este estatuto patrimonial não podem, em qualquer análise, ser consideradas como intervenções de pequena escala e respeitadoras da paisagem pré-existente.
A sedimentação das intervenções que resulta de um tempo longo, apesar da escala de intervenção gigantesca, leva-nos a aceitar mais facilmente estas alterações que outras mais pequenas mas muito mais concentradas no tempo, como parques eólicos, barragens ou estradas.

Quer sejam florestações extensas, largas urbanizações, barragens, esporões, estradas, parques eólicos, cortes de árvores, todos nós, quando não directamente envolvidos, sentimos uma perda se, de repente, a paisagem que sempre nos pareceu imutável nos aparece alterada.” (escrito pelos inícios de 2009 e publicado em Do tempo e da paisagem, 2010)
Vem isto a propósito da discussão sobre a barragem do Tua e das suas implicações na classificação do Douro como património mundial.
Sei que estando extremadas as posições do conjunto de grupos de interesse com posições antagónicas sobre a construção da barragem, seria difícil ter racionalidade na discussão sobre a paisagem.
A paisagem do Tua é uma paisagem lindíssima, que conheço de muitas vezes ter lá passado, em especial de comboio. Nas 14 horas que a viagem demorava foi muito o tempo que passei a olhar, fascinado, aquela paisagem em ruínas.
A paisagem do Douro vinhateiro também a conheço. E olhar para essa paisagem, vibrante, cheia de actividade e com uma economia invejável, também me fascina.
Qualquer pessoa tem a percepção imediata e intuitiva da distância que vai da paisagem do Douro vinhateiro à paisagem do Tua, pelo que nem percebo como poderia a amputação do Tua ter qualquer influência na classificação do Douro.
O que digo acima não torna a paisagem do Tua irrelevante, que não é, mas recoloca o problema da sua relevância patrimonial num patamar bem mais útil que aquele em que tem estado nestes dias.
Conservar uma paisagem longamente intervencionada, como é a do vale do Tua, implica conservar os processos que a construíram e mantiveram. Esses processos estão hoje mortos ou moribundos, ao contrário do que se passa no Douro vinhateiro. As pessoas emigraram, os cereais de inverno desapareceram, o gado raramente se vê, os olivais estão abandonados, os amendoais fugidos e as hortas deixaram de ser fabricadas.
A opção não é pois entre conservar uma paisagem ou fazer uma barragem, mas uma escolha entre um processo de evolução comandado pelo abandono ou outro processo de evolução assente numa barragem.
Não tenho posição definida sobre a barragem do Tua, ao contrário do Sabor, que contesto. Mas gostaria de ver uma discussão séria e profunda sobre a paisagem do Tua, com base na sua história e no que se pode prever que seja o seu futuro, clarificando que valores sociais estão em jogo em cada uma das opções.
Infelizmente o que vejo é um mero posicionamento contra ou a favor da barragem, em que a paisagem não passa de mais um pretexto para marcar a posição de cada um.
A paisagem merecia bem mais que isso porque não é um cenário, é um património vivo, constantemente em mutação, que reflecte grande parte da nossa identidade.
henrique pereira dos santos

Sábado, Janeiro 07, 2012

O país vai de carrinho



Há já muito tempo que me interrogo se os serviços públicos devem ter estacionamento gratuito para os seus funcionários (quando estão em localizações com transportes públicos, claro) e tendo a achar que não, que essa benesse deve ser paga. Mas tenho dúvidas.
Já quanto a hospitais e coisas semelhantes tenho menos dúvidas: devem ter estacionamento pago para funcionários (aqui a dúvida mantém-se) e visitantes.
Hoje fui a um hospital privado, e paguei o estacionamento (o resto nem por isso, tem convenções que resultam numa prestação mais barata quer para o utilizador, quer para o meu sistema de saúde, ADSE).
Na verdade o estacionamento pago permitiria maior receita para os hospitais, mais justiça social e, o que justifica este post, maior estímulo à sustentabilidade e uso dos transportes públicos.
Não percebo por que razão esta prática não se generaliza.
henrique pereira dos santos

Quarta-feira, Janeiro 04, 2012

Contos da loucura normal



Li hoje uma notícia do Público sobre a diminuição de consumo de electricidade em 2011. A meio do que estava a ler fui ver quem era o jornalista que escrevia para ver se valia a pena continuar. Era o Ricardo Garcia, portanto li até ao fim, porque é um jornalista sério e rigoroso, o que quer dizer que o absurdo que estivesse a ler seria da responsabilidade das fontes e não falta de juízo do jornalista.
Mas mesmo assim, mesmo confiando no jornalista, fui às fontes confirmar que não havia lapso nas transcrições e lá estava:
Leio, releio, releio e ainda assim não acredito que a QUERCUS ache que o preço dos bens e serviços é uma variável exógena e não faz parte das políticas de gestão da procura eficiente. De certeza que a QUERCUS já ouviu falar do princípio do utilizador pagador e da tragédia dos comuns. De certeza.
Eu sei que a QUERCUS tem um namoro prolongado com o Estado e com as medidas administrativas e tem uma antipatia pelos mercados e pela liberdade de escolha, mas daí a concluir que a política de preços de bens essenciais como a energia é um pormenor sem dignidade política (como aliás me respondeu um dirigente da dita organização há anos quando, perplexo, o questionei sobre o silêncio da QUERCUS perante as medidas idiotas do Governo da altura que visavam manter artificialmente baixa a tarifa da electricidade), vai um passo de gigante.
Foi com certeza uma corrente de ar que baralhou momentaneamente as ideias de quem escreveu o comunicado.
Só pode ser isso.
henrique pereira dos santos

Domingo, Janeiro 01, 2012

Biodiversidade para todos

Há algum tempo a equipa do projecto Biodiversity4all estabeleceu um objectivo de 100 000 observações até ao fim de 2011.
Era um objectivo ambicioso. Mas atingido: mais de 104 000 observações em 31 de Dezembro.
Para 2012 estabeleceu-se um objectivo ainda mais ambicioso: 250 000 observações.
Gosto de quem não tem medo de desafios, mas é um objectivo verdadeiramente impossível com o "business as usual". Mas talvez possível mudando algumas coisas, por exemplo, com maior atenção da academia em relação ao projecto (ou do projecto em relação à academia, é sempre difícil estabelecer se se começa pelo ovo ou pela galinha).
Não há como tentar.
henrique pereira dos santos
PS Alguém perguntava se é uma fixação por números redondos. Não, é só estabelecer metas que estimulem o esforço das pessoas envolvidas. O essencial é mesmo que quanto maior for o número de observações, mais utilidade social tem esta plataforma.

Quinta-feira, Dezembro 22, 2011

O conservador contraditório




Ontem tive uma troca de argumentos com o Gonçalo Elias no Facebook sobre esta acção da EDP. Não é sobre essa troca de argumentos que quero escrever, mas sobre as intervenções de larga escala nas paisagens protegidas.
Inicialmente tinha sobre este tipo de matérias uma posição mais ou menos semelhante ao que em média se ouve por aí sobre esta intervenção.
É certo que já quando me tinham dito que a Clara Menéres teria pensado pintar o caracol que fez no Parque dos Candeeiros de cor-de-rosa, com um claro tom de chacota, me tinha parecido que talvez tivesse razão.
Mas foi sobretudo com os meus colegas do Porto, que me pediram colaboração na elaboração de um guia de boas práticas de integração paisagística de infraestruturas eléctricas que percebi que grande parte da minha posição nesta matéria era puro reaccionarismo.
Ser reaccionário não me incomoda por aí além, excepto quando me impede de ter ao cabeça ao contrário para ver também um pouco do lado do adversário, como diria o Sérgio Godinho. Verifiquei nesse trabalho que pelo mundo fora, mesmo no coração de áreas protegidas, há mais mundo do que eu conhecia em matéria de integração de infraestruturas na paisagem.
Claro que há o óbvio, fazer desaparecer a infraestrutura, há o menos óbvio, conseguir colocar a infraestrutura no contexto da paisagem mas há ainda o pesadelo: a infraestrutura que claramente se destaca da paisagem, por contraste irrenunciável e que é de tal maneira nova e estranha à sua envolvente que é sempre uma ruptura.
Aprendi com os meus colegas, e com os exemplos que me mostraram que nessas circunstâncias não há maneira de reduzir impactos, a única saída é prescindir da infraestrutura ou mudar a natureza do impacto. Olhar o touro nos olhos e simplesmente aceitar que já que temos de provocar uma ruptura, ao menos que valha a pena.
É nessa lógica que entroncam as intervenções de arte pública, como é o caso retratado neste video, e as intervenções de design industrial que criam valor cultural na intervenção.
A minha alma de conservador contraditório fica sempre como o tolo na ponte, sem saber para lado ir nestas circunstâncias, mas ao menos aprendi a não reagir às primeiras emoções, as que rejeitam sempre o que é novo e inseguro, e falta-me segurança e bagagem cultural para olhar para estas intervenções sem dúvidas.
Também sei que parte do ruído da discussão se prende com a mitificação do fundamento das áreas protegidas (por favor, antes de reagir a esta frase leiam isto), o que dificulta muito a gestão racional de áreas protegidas em Portugal.
Dito isto há uma coisa que não percebo: por que raio a EDP não fez o que se faz em países civilizados em que o espaço público é tratado como isso mesmo, público? Porque raio não lançou a EDP umas discussões públicas sobre as intervenções.
Eu sei, o país é assim, nem no Terreiro do Paço se lançaram concursos públicos para os projectos e continua a ser tabu discutir a criação de conforto naqueles quatro hectares desabrigados e sem sombras (sim, é o mesmo reaccionarismo perante as fachadas do Paço que impede a discussão racional da introdução de vegetação no terreiro do paço que impede a discussão racional do amarelo na paisagem do Estado Novo (como bem a caracteriza Teresa Andresen) do Douro Internacional), quanto mais discutir umas fragas perdidas atrás do sol posto.
Mas eu não me conformo com a falta de racionalidade nas discussões.
Como diria o Pinheiro de Azevedo a propósito de ser sequestrado, é uma coisa que me chateia, pá.


henrique pereira dos santos

Quarta-feira, Dezembro 21, 2011

Mais um Campo de Trabalho Científico (2ª fase)


No seguimento deste POST, aqui fica os seus resultados.
Aqui deixo a capa do relatório, onde consta uma foto que reflecte bem o espírito e o cansaço (saudável, reconfortante e de missão cumprida), deste tipo de trabalhos voluntário.

Domingo, Dezembro 18, 2011

Ribeiro Telles não tem razão




“É impressionante pensar que temos um modelo económico que exporta parafusos para importar pão”
Este é o lead de uma entrevista a Ribeiro Telles que o Público publica hoje. E é um bom resumo de muito do que Ribeiro Telles tem vindo a dizer nos últimos anos.
Ribeiro Telles é uma pessoa incontornável na história da minha profissão, que lhe deve muita da sua visibilidade. Mas a partir de meados dos anos setenta há uma alteração profunda que gostaria de realçar.
Até essa altura Ribeiro Telles é um entre uma dúzia (mais coisa, menos coisa) de arquitectos paisagistas que centram a sua actividade profissional numa base muito sólida que relaciona território, elementos naturais e cultura.
São um grupo de profissionais que trocam ideias, se apoiam, discutem, divergem, afirmam as suas individualidades, sempre, sempre com a mesma base conceptual, mas em permanente evolução. Têm nessa altura uma das visões mais lúcidas e modernas (se não, “a”) da relação do homem com o seu território, e sentem-se bem trabalhando planos de cidades (Dentinho, para Lourenço Marques, por exemplo), regiões (Barreto, Dentinho e Castelo Branco, para o Algarve, por exemplo), parques (Barreto e Ribeiro Telles, para a Gulbenkian, por exemplo) e jardins, dos maiores aos mais pequenos, dos públicos aos privados.
Nesse grupo todos são mais ou menos iguais, não há um primus inter pares, e, a haver, só poderia ser Caldeira Cabral. E todos se sentem mais ou menos à vontade para dizer o que pensam do trabalho uns dos outros, para utilizar o trabalho uns dos outros e para trabalhar uns com os outros.
A partir de meados dos anos setenta o estatuto de Ribeiro Telles altera-se, quer dentro da profissão, quer para fora da profissão. Dentro da profissão, então em crescimento rápido, Ribeiro Telles passa a estar rodeado de epígonos que o adulam mais que o criticam. Fora da profissão, mercê do envolvimento político e mediático de Ribeiro Telles que todos conhecemos, a sociedade descobre um pensamento novo sobre o território e a sociedade, atribuindo-o ao seu porta-voz mais visível e não a uma escola de pensamento que o vinha formulando há perto de cinquenta anos.
Só isso explica, por exemplo, que as constantes declarações de amor ao jardim da Gulbenkian (justas, aliás) sejam perfeitamente compatíveis com o mais profundo alheamento face à mutilação do jardim do tribunal de Rio Maior, onde se podem encontrar soluções originais posteriormente reinventadas na Gulbenkian, como os famosos quadrados de betão que fazem os caminhos da Gulbenkian, reinterpretando os quadrados que Dentinho tinha desenhado para a envolvente do tribunal de Rio Maior. Sacralizar uma obra de arte desprezando por inteiro parte das suas origens é próprio de quem não sabe e não conhece.
É assim que quase aos noventa anos, com a mesma frescura intelectual que sempre o caracterizou, Ribeiro Telles continua a sua intervenção no espaço público, mas infelizmente sem que os seus epígonos e aduladores o confrontem com algumas das ideias que expressa, discutindo-as pelo seu valor facial e não como oráculos.
A ideia que cito no início deste post é uma dessas ideias (há mais) que penso que o próprio Ribeiro Telles estaria mais disponível para discutir que a sua entourage.
Vender parafusos para comprar pão não é nenhuma novidade: há mais de duzentos anos que a Inglaterra o faz, seguramente quase há outro tanto o faz a Alemanha (de que a escola portuguesa de arquitectura paisagista é tributária), para não falar da Suíça, que não mantém a sua paisagem doutra maneira que não seja assim.
Mas vamos admitir que Ribeiro Telles teria razão neste ponto, estando assim de acordo com Salazar, o Partido Comunista Português e os indignados, três outras fontes sociais da ideia de soberania alimentar, traduzida na ideia de que o importante é produzirmos o pão que comemos porque é isso que nos garante a independência.
Salazar foi quem levou esta ideia mais longe na prática (não tanto na teoria, a que levantou sérias reservas em 1916 numa das teses que defendeu em Coimbra, ainda enquanto professor universitário). E não vejo como pudéssemos fugir da sua solução para esta ideia: campanha de apoio à produção agrícola, sobretudo cereais e regadio, com olival e vinho, forte apoio à pesca, à produção mineira e à florestação.
Salazar procurava alimentar cerca de sete milhões de portugueses nos anos 30, não os 10 milhões que agora somos, e ainda assim falhou. Ribeiro Telles é seguramente um adversário da campanha do trigo, tal como ela foi executada. E é também um adversário da florestação do Estado Novo. E é ainda desfavorável a uma agricultura assente na fertilização química. E é ainda um defensor das matas de carvalhos e outras para climácicas.
Só que produzirmos o nosso pão implica intensificação agrícola. E se se pretender que essa intensificação não assente nos adubos químicos, então implica também largas áreas desmatadas para colecção de nutrientes que suportem a fertilidade das terras de pão.
Visto que não somos suficientemente eficientes na produção de parafusos para sermos reconhecidos como uma potência económica nesse sector, demos um bocadinho mais de realismo ao argumento de Ribeiro Telles e substituamos parafusos por pasta de papel e papel, onde de facto temos uma posição forte, base de uma das nossas grandes exportações (e, de longe entre os grandes sectores exportadores, a que tem maior incorporação de riqueza endógena).
E o que acontece é que se deixássemos de produzir eucaliptos onde hoje os produzimos, substituindo a produção de pasta e papel por produção de pão, nós seríamos hoje incomparavelmente mais pobres, com salários de miséria na agricultura, com um pão caríssimo que os consumidores urbanos teriam de pagar, sem que a exportação de pasta e papel (ou parafusos) criasse a riqueza necessária para o fazer.
A questão é que somos eficientes a produzir pasta e papel, mais eficiente que muitos outros países no mundo, mas somos muito pouco eficientes a produzir pão, muito menos eficientes que outras regiões do globo, como o corn belt americano. Portanto estaríamos a abdicar de criar eficientemente riqueza que outros estão dispostos a pagar, para produzir o que outros estão dispostos a vender-nos a um preço mais baixo que aquele a que conseguimos produzir.
Se olharmos para uma das declinações desta ideia, sempre presente no discurso de Ribeiro Telles, que é a ideia peregrina de que a agricultura urbana é necessária para alimentar as cidades, rapidamente verificamos que é um pensamento reaccionário sem a lucidez e a modernidade da escola a que tanto Ribeiro Telles como eu pertencemos.
Ribeiro Telles defende, como eu, a existência de agricultura urbana. Mas justifica-a nos termos em que falava Caldeira Cabral quando a defendia pelos anos 40 ou 50 do século XX, como uma actividade social, já que em nenhum momento discute a economia associada à sua criação e manutenção. O que se modernizou foi uma linguagem justificadora, a da paisagem pós-moderna, onde não há urbano e não urbano, mas esta é uma língua de pau que não diz nada (ou, pelo menos, eu não percebo nada do que isso quer dizer).
Estou profundamente convencido de que se Ribeiro Telles se mantivesse no cadinho de cultura que fundou a profissão, onde o futuro se discutia solidamente com os pés na terra inter pares, provavelmente a justificação para a agricultura urbana há muito teria acompanhado os tempos e tinha mitigado as suas componentes sociais assentes na produção em quantidade para alimentar pessoas (componentes que existem e são limitadamente válidas) e se tinha afirmado na cidade por aquilo que é: uma função urbana de primeira grandeza, assente na procura de diferenciação alimentar e sustentabilidade na gestão do espaço público.
Parece ser uma discussão de lana caprina, mas não é. Michele Obama e a Rainha de Inglaterra fazem parte da campanha eat the view, que leva à criação de hortas integradas nos jardins das propriedades mais emblemáticas, como a Casa Branca ou Westminster. O que está em causa não é a dedicação de espaços marginais, das traseiras, da periferia, a extractos sociais de baixos rendimentos, o que está em causa é reconhecer que controlar o que se come numa cidade é um luxo urbano só ao alcance de muito poucos.
E que disponibilizar espaços para democratizar esse luxo é uma alternativa de gestão urbana que não pode confinar-se a uns sítios meios esconsos. O jardim da casa oficial do primeiro ministro em São Bento poderia bem ajudar quer o Sr. Primeiro Ministro, quer os Senhores Deputados a saber de onde vem o que comem e como foi produzido. Tal como o Palácio de Belém. Tal como o tabuleiro central do Parque Eduardo VII. E isso é um sinal de diferenciação assente na possibilidade de comer bem, não é, como antigamente, uma necessidade básica de ter horta para poder comer de qualquer maneira.
O papel da agricultura urbana não é alimentar as cidades (basta fazer meia dúzia de contas para perceber como a ideia é absurda) é sim competir com outras funções nobres das cidades na criação de verdadeira qualidade de vida para os seus habitantes, criando riqueza, criando diferenciação, criando valor que permita conter a ocupação de todo o espaço pela construção.
A minha homenagem a Ribeiro Telles é isto.
Não é adulá-lo aceitando acriticamente tudo o que diz, mas estimulando uma discussão em que sei que Ribeiro Telles entra mais facilmente que muitos dos que o rodeiam de forma acrítica.
A minha homenagem consiste em reconhecer em Ribeiro Telles a sua capacidade de evoluir rapidamente, adaptando ideias e conceitos ao que de novo foi encontrando pela vida, e estou convencido de que mantém essa capacidade, não merecendo que o tratem como se se incomodasse por meia dúzia de críticas de um impertinente qualquer.
(neste texto uso ideias para as quais contribuíram várias pessoas, claro, mas gostaria de realçar Carlos Aguiar e João César das Neves. Nenhum deles tem nenhuma responsabilidade no que eu aqui escrevi mas há coisas que só escrevi porque fui ouvindo o que me foram dizendo generosamente e apenas pelo gosto de ensinar)
henrique pereira dos santos

Sábado, Dezembro 17, 2011

Concursos perdidos

Estive hoje num evento da PROAP, muito provavelmente o maior e mais internacional gabinete de arquitectura paisagista de Portugal.
Uma sala para lá de cheia e uma pequena conversa à roda dos concursos perdidos, como introdução ao lançamento do livro anual do gabinete, neste caso "concursos perdidos/ lost competitions".
Tiro o chapéu ao João Nunes e ao Carlos Ribas por resolverem fazer isto, expor os concursos perdidos pelo gabinete ao longo destes anos.
É bom que haja quem tem a coragem de nos lembrar que o sucesso é a maior parte das vezes um mero intervalo numa sucessão de fracassos e que a arquitectura paisagista em Portugal está bem e recomenda-se, não vive de fantasmas do passado.
henrique pereira dos santos

Quarta-feira, Dezembro 14, 2011

Expansão agrícola e sustentabilidade

Vale a pena ler o artigo que acaba de sair na revista PNAS e cujo acesso é gratuíto:

Global food demand is increasing rapidly, as are the environmental impacts of agricultural expansion. Here, we project global demand for crop production in 2050 and evaluate the environmental impacts of alternative ways that this demand might be met. We find that per capita demand for crops, when measured as caloric or protein content of all crops combined, has been a similarly increasing function of per capita real income since 1960. This relationship forecasts a 100–110% increase in global crop demand from 2005 to 2050. Quantitative assessments show that the environmental impacts of meeting this demand depend on how global agriculture expands. If current trends of greater agricultural intensification in richer nations and greater land clearing (extensification) in poorer nations were to continue, ∼1 billion ha of land would be cleared globally by 2050, with CO2-C equivalent greenhouse gas emissions reaching ∼3 Gt y−1 and N use ∼250 Mt y−1 by then. In contrast, if 2050 crop demand was met by moderate intensification focused on existing croplands of underyielding nations, adaptation and transfer of high-yielding technologies to these croplands, and global technological improvements, our analyses forecast land clearing of only ∼0.2 billion ha, greenhouse gas emissions of ∼1 Gt y−1, and global N use of ∼225 Mt y−1. Efficient management practices could substantially lower nitrogen use. Attainment of high yields on existing croplands of underyielding nations is of great importance if global crop demand is to be met with minimal environmental impacts.                 

Quarta-feira, Dezembro 07, 2011

Ik zie ik zie wat jij niet ziet

Há uma brincadeira infantil na Holanda com o nome do título, que quer dizer mais ou menos "eu vejo eu vejo o que tu não vês", na qual uma criança olha em volta e nomeia uma característica de um objeto em que a outra terá de adivinhar o que está a ver. É giro, divertido e treina um olhar atento das crianças sobre o que as rodeia. Mas é um exercício interessante também para adultos, sobretudo quando estamos a olhar para uma paisagem. E muito revelador da perceção dessa mesma paisagem e revela muito sobre o quadro ético que condiciona essa perceção. Roubei a imagem acima da revista Fugas do jornal o Público da semana passada e é evidente que se trata do Douro vinhateiro, que por mera coincidência veio à discussão muito recentemente por causa da barragem de Tua. É curioso como o orgulho nacional é impulsionado sobretudo quando alguém de fora vem dizer que algo é muito valioso cá. Nada como um estrangeiro dizer-nos que o vale do Douro é muito bonito, o fado também, a comida excelente e do tempo então nem se fala. Já sabíamos, mas agora "é oficial"! Mas estou a desviar. Portanto vamos lá brincar: eu vejo eu vejo ... socalcos novinhos em folha e ripagens de alto a baixo! Agora adivinhem vocês o que estou a ver (na primeira vez não convém ser muito difícil, para não desencorajar). Henk Feith

Uma questão de arquitectura paisagista

Esta paisagem fui buscá-la aqui. É muito curioso que quando se escreve paisagem no google e se olha para as imagens encontradas o que se vê, na maioria dos casos, não são verdadeiramente paisagens, mas sim representações do paraíso, mesmo quando o veículo é uma paisagem real

O laboratório de fogos florestais publicou uma nota no seu facebook em que dá conta das conclusões do seu estudo sobre a eventual existência de progressos na prevenção e combate a incêndios em Portugal.
Sem surpresa, mas com solidez, a conclusão essencial é a de que apesar dos progressos numa série de factores, não há progressos na dimensão dos grandes incêndios e na área ardida.
E conclui: "Portanto, uma maior % da superfície ardida corresponde agora a fogos maiores, inevitavelmente com maiores impactes ambientais e socioeconómicos".
Tenderei a subscrever todo o texto, que me parece bastante consistente, mas não este parágrafo.
A razão é simples. Quem estuda os fogos, sejam os investigadores de origem florestal, sejam os de origem mais geográfica, como acontece na Universidade de Aveiro, tendem a estudar o que se passa depois de cada fogo. Na verdade perseguem os fogos para os estudar. Tendem assim a aumentar o seu conhecimento sobre os efeitos de cada fogo e é daí que concluem que fogos mais severos têm maiores impactos ambientais (maior quantidade de energia envolvida, maiores temperaturas atingidas, mais tempo de residência da frente de fogo, afectação mais profunda dos indivíduos e dos sistemas e por aí fora, como aliás se pode ler aqui).
Todos estes investigadores tendem pois a ser uma espécie de nómadas do fogo, caminhando atrás do seu objecto de estudo.
Ora eu, que não sei nada de economia, nem consta que tenha biblioteca, nunca publiquei nada de relevante sobre o fogo, isto é, nada de academicamente reconhecido como relevante sobre o assunto, como bem lembrou o Joaquim Sande Silva uma vez que tivemos por aqui uma discussão sobre a matéria.
E, no entanto, aqui e ali pedem-me para eu ir falar sobre o assunto em salas cheias de pessoas que publicam coisas academicamente relevantes sobre a matéria.
A melhor explicação que me deram para esses convites foi a de que o meu ponto de vista era um pouco diferente dos outros, porque olhava para a paisagem e não para os fogos.
Percebo hoje que essa é uma observação justa. Ao olhar para a frase que citei acima sobre os efeitos dos fogos severos dou-me conta, exactamente, de que a minha discordância decorre apenas do referencial usado, ou seja, do ponto de vista.
Na verdade não há qualquer dúvida de que os fogos severos são mais severos, isto é, mais impactantes. Quando o que me preocupa é saber o que acontece quando arde, o mais natural é ser levado a concluir o que o laboratório de fogos florestais da UTAD conclui.
Mas se deslocar o ponto de vista para a paisagem, isto é, se o que me preocupa é um pedaço de território e todo o processo da sua construção, o fogo é apenas mais um dos elementos que actuam sobre essa paisagem. Que, como todos os elementos de uma paisagem, só pode ser inteiramente compreendido sabendo de onde vem e para onde vai.
Se for esse o ponto de vista, e esse é o ponto de vista normal de um paisagista que não tenha frases feitas na cabeça do género "nos eucaliptais não se ouvem passarinhos", então o que verdadeiramente conta não é o efeito de cada fogo mas o efeito (e, já agora, a causa) do padrão de fogo.
E aí entronca a minha objecção à frase citada: fogos frequentes e pouco severos são sempre menos prejudiciais que fogos severos e menos frequentes?
Não estou convencido de que a resposta seja positiva, mas estou perfeitamente convencido de que a resposta se encontra mais facilmente reconhecendo a questão como sendo mais de arquitectura paisagista que de ciência do fogo.
Note-se que nada de corporativo está no parágrafo anterior: eu acho a paisagem uma coisa demasiado importante para ser entregue a paisagistas.
Não é pois uma defesa corporativa que me move no que escrevi (até porque a arquitectura paisagista corria o risco de ser varrida da discussão por falta de comparência na matéria) mas simplesmente o reconhecimento de que o ponto de vista que parte da paisagem está claramente sub-valorizado na gestão das paisagens.
Se mais paisagistas (não, não sou o único, há mais, mas continuam a ser poucos os que se exprimem no espaço público) se limitassem a expressar pontos de vista a partir daquilo que define a sua profissão, muitas das coisas que digo pareceriam menos estranhas e provocatórias porque seriam mais vulgarmente ouvidas.
henrique pereira dos santos

Domingo, Dezembro 04, 2011

Acerca da fusão do ICNB com a AFN

Tenho estado algo surpreendido com o silêncio nos meios ambientais sobre a planeada fusão do ICNB com a AFN. Vejo essa fusão com alguma preocupação, não tanto pelo princípio, mas pela forma como aparenta estar a ser feita. Penso há algum tempo que haveria vantagens se a gestão das áreas protegidas pelo ICNB integrasse também as competências que estão atribuídas à AFN: gestão da caça, gestão da pesca e gestão da floresta. Em teoria esta fusão permitirá essa integração, embora vá bastante mais longe pois todo território passa a ser abrangido. Poderá também permitir aumentar os parcos recursos financeiros do ICNB com as fontes de receita própria da AFN (Fundo Florestal Permanente, taxas de caça, venda de madeiras, entre outros).
Quais são então os perigos dessa fusão? Penso que uma questão essencial é qual irá ser o grau de paridade das estruturas herdadas da AFN e do ICNB. A área principal de intervenção da AFN teve o seu auge há algumas décadas, e o declínio dos Serviços Florestais tem sido marcado: de uma organização com uma força policial própria e brigadas de sapadores próprios passou-se a uma organização reduzida essencialmente ao corpo técnico. Esta redução foi excessiva, e veio acentuar o problema da gestão dos baldios, devolvidos fora de tempo a populações cada vez menos rurais, mas penso que em parte era inevitável. As competências do Estado são hoje menos no sector da produção florestal e mais nos serviços de regulação da floresta e da proteção da biodiversidade. É em parte por isso que o ICNB (ou o SNPRCN e o ICN) teve uma ascensão meteórica em termos de importância na sociedade portuguesa nas décadas de 80 e 90. O ICNB representa o futuro e a AFN o passado, estando ainda à procura de um novo papel num país com apenas 2% de área florestal do Estado contra 40% de média europeia (um problema gravíssimo que em vez de despoletar iniciativas no sentido de aumentar a floresta do Estado parece passar ao lado de quem ainda quer entregar estes 2% a parcerias publico-privadas...).
Não tenho a certeza que quem nos governa tenha estas noções bem claras. E mais preocupado fiquei ao ouvir recentemente o Secretário de Estado das Florestas, Daniel Campelo. Deduzi do seu discurso que se pretende devolver a conservação da natureza aos seus guardiões: os proprietários florestais e os agricultores. Eu defendo realmente que devemos premiar os melhores gestores florestais e os melhores empresários agrícolas pelos serviços de ecossistema que prestam à sociedade. Mas daí a assentar toda a política de gestão da biodiversidade na premissa de que são eles os guardiões da biodiversidade vai uma grande distância.
Mais preocupado fiquei quando soube que a fusão do ICNB e da AFN pretende integrar as suas estruturas de gestão de Áreas Classificadas nas Direcções Regionais de Agricultura. Se a fusão do ICNB e a AFN tem os seus prós (gestão mais integrada da biodiversidade nas Áreas Classificadas) e contras (filosofias de gestão do território muito diferentes, união de duas instituições que não estão bem de saúde), não consigo antever grandes vantagens nessa amalgama que passariam a ser as Direções Regionais de Agricultura.
No limite corremos o risco de recuar várias décadas na gestão da biodiversidade em Portugal: no tempo em que os serviços ecossistémicos de regulação e de suporte são cada vez mais valorizados, diluímos a sua gestão em organizações, Agricultura e Florestas, que historicamente enfatizaram os aspetos de produção. Um dos papeis que eu temo ver menosprezado é o da Comunicação e Educação Ambiental. O Estado investiu milhões de Euros em centros de interpretação das áreas protegidas pelo país fora. O que vai acontecer à gestão desse centros é uma incógnita, mas espero que não se virem para promover uma imagem idílica das tradições rurais, como no mapa de imagens regionais de Amorim Girão da década de 1940. Esse tempo já lá vai.

Henrique Miguel Pereira

Sexta-feira, Dezembro 02, 2011

Green and competitive

As pessoas que me ouvem aqui e ali, ou que me lêem aqui ou ali, sabem que cito com muita frequência o artigo de Michael Porter e Class van der Linde que tem o título deste post (sendo rigoroso, o post é que tem o título do artigo).
Cito sobretudo a conclusão de que restrições ambientais apontadas para os resultados e não para a forma de os atingir, em determinadas circunstâncias, constituem poderosos estímulos para a inovação e consequentes ganhos de competitividade.
Hoje recebi um mail simpático de Miguel Repas que constitui uma boa demonstração dessa ideia que pode ser verificada no desenvolvimento do processo do parque eólico do Barão de S. João.
Há naturais limitações de comunicação associadas às condições concretas em que se fala deste caso concreto que impedem, com certeza, a justa referência ao papel dos técnicos de AIA do ICNB que acompanharam o processo na concepção da solução adoptada.
Por isso aproveito a ausência destas limitações aqui neste blog para agradecer aos técnicos que com a sua sensatez, intransigência no essencial e flexibilidade na aceitação de soluções envolvendo riscos inerentes à inovação, criaram as condições para o desenvolvimento desta tecnologia aplicada à energia eólica.
E reforço a ideia de que o seu contributo para a concepção da solução usada foi muito para além do que é habitual na administração em Portugal (embora fosse habitual no acompanhamento dos processos de AIA naquela altura).
Foram vários (incluindo os que não estando directamente com este processo participaram nas discussões das soluções) e não quero cometer injustiças nomeando-os.
Eles saberão, tal como o Miguel Repas, o contributo enorme que deram para o que aqui se vê neste video se tenha tornado realidade.

henrique pereira dos santos

Domingo, Novembro 27, 2011

"Romance de um dia na estrada"


A madrugada outoniça foi num rendilhado mimoso, mesmo que disfarçado pelas nódoas urbanísticas e os rasgões das infra-estruturas fora da escala minhota.
O ataque ao anfiteatro de alturas responsável pela omnipresença da água e pela diferença de cota que permite o mais intenso regadio do país faz diminuir gradualmente a presença de nódoas e rasgões, ao mesmo tempo que o rendilhado se vai afundando nos vales, mais nítido e localizado, e os cabeços e encostas acolhem melhor a escala das infra-estruturas que encolhem o território.
O planalto da Lameira (alô, alô, Ilídio de Araújo) é a primeira amostra daquela economia do milho de média montanha, em que os animais ganham peso e os carvalhais subsistem melhor, por falta de terra que estrumar.
E depois a montanha russa de uma das zonas mais interessantes do país, tão interessante como pouco visitada, ali naqueles vales e alturas que começando no Marão acabam no Barroso, num mar de prados de lima e pastagens pobres intercaladas com a produção da melhor batata que se pode produzir no país, e onde o rendilhado minhoto da economia do milho ressuscita a cada vale mais fundo.
O viaduto junto do qual não consigo passar sem me rir para dentro das várias histórias que provoca: depois das pessoas insultarem os responsáveis pela loucura daquela obra eu costumo explicar o meu papel na sua génese e de como são ínvios os caminhos da avaliação de impacte ambiental e da gestão da biodiversidade.
A partir daí, descendo para o vale fértil que o viaduto atravessa, é um mundo diferente que se abre e que se acentua à medida que se volta a subir à procura do vale seguinte que nunca mais chega, da aldeia seguinte que nunca mais aparece, dando sentido ao tributo de mãos de urso previsto em vários forais que D. Diniz outorga na região.
É no coração desta terra de pouca gente que me cruzo com uma das mais interessantes paisagens desse dia de Outono: os soutos, castinçais e que tais que rodeam a aldeia da Padrela, na suas cores de gala, nos amarelos vivos e castanhos encarnados que pelo dia fora irei encontrar várias vezes, mas não na forma daquela quase monocultura da Padrela.
Carrazeda (carrascal?) marca quase o fim desta paisagem e sem mais transição que uma encosta que se desce num repente entra-se num mundo de oliveiras e olivais, contínuos, sempre diferentes e sempre iguais.
O resto da manhã foi à volta da albufeira que iria suportar o regadio que traria a riqueza sem fim à região, o regadio demonstrou ser uma miragem difícil de alcançar, e mais ainda o desenvolvimento da agro-indústria que iria criar valor sobre valor.
Mas ficou o recreio, o turismo, a conservação, uma albufeira cuja escala ainda lhe permite ser bonita, cheia de meandros que cortam a tristeza habitual das albufeiras, em especial das albufeiras que suportam a produção de electricidade criando uma margem desolada e inóspita.
Meia posta, um esparregado de nabiças, um copo de vinho, uma empregada antipaticamente eficiente e dez euros depois, é tempo de retomar caminho, por esse outro mundo onde o trigo e o centeio já foram reis, onde rebanhos de ovelhas e cabras, mais ovelhas que cabras, se casavam com olivais, amendoais e figueirais, sem que se percan de vista castanheiros, carvalhos e prados de lima, quando a qualquer passo se sobe qualquer coisa na estrada.
Tudo isso é interrompido pela varanda de Trás-os-Montes, a serra de Bornes (alô, alô, Robert de Moura), que se flanqueia numa estrada meia desolada, meia bonita, a meia encosta, que se debruça quase sem aviso sobre o milagre do vale da Vilariça, terra rica, quente e plana, com alguma água, que antecede os vinhedos do Douro.
E depois, depois dos vinhedos do Douro, os planaltos da Beira fria, de caos de blocos de granito, com a sombra da Estrela por perto e, sim, com castanheiros aqui e ali, mas mais frequentemente o tom derrotado do castanho dos carvalhos no Outono, a aproveitar a trégua do gado e do centeio deste fim de século demasiado rico para perder energias a fazer das pedras pão.
Só nas raras encostas em que o Sol de fim de tarde apanha os carvalhos de costas é que o castanho mortiço das folhas quase a cair ganha alguma vivacidade.
É tarde para um desvio para pastéis em Vouzela, nesse Lafões que é uma espécie de Minho incrustado na paisagem beirã, mas vale o resto do dia, o consolo de comprovar, mais uma vez, que Portugal é um país muito bonito.
E mais que isso, é muito bonito de muitas maneiras diferentes.
henrique pereira dos santos

Sexta-feira, Novembro 18, 2011

Seminário Floresta Autóctone

Vários participantes deste blog irão falar este fim-de-semana no Seminário sobre Floresta Autóctone organizado pelo Centro de Interpretação de Seia. Estou convencido que será uma discussão bem interessante. Informações sobre o programa e forma de inscrição estão disponíveis aqui.

Quarta-feira, Novembro 16, 2011

Carta Aberta para Isabel Tavares

Minha Senhora,
Comprei hoje o Jornal I estritamente por causa da sua manchete principal: "Ambiente. Negócios de milhões nas mãos da máfia verde".
Nas suas páginas 2 e 3, em grande destaque está uma coisa escrita por si que li, cada vez com mais estupefacção.
O que gostaria de lhe perguntar com esta carta é se dorme bem de noite. Se quando se olha ao espelho não cora de vergonha. Se consegue olhar as pessoas comuns olhos nos olhos depois de escrever, o que é o menos, e publicar, o que é extraordinário, coisas como isto que o I tem hoje nas suas páginas 2 e 3.
Eu sei, a vida está difícil para todos e talvez eu deva ter alguma moderação no juízo moral sobre o que li e, sobretudo, sobre a pessoa que o escreveu.
Peço desculpa, pois, desta primeira parte desta carta e sigo directamente para o que escreveu, lembrando-me de como as voltas da vida podem levar qualquer um a fazer coisas que em circunstâncias normais nunca acharia eticamente aceitáveis.
É verdade, todos temos fraquezas inexplicáveis e deveria ter-me lembrado disso antes de escrever o que escrevi sobre si.
Vamos então ao que escreveu.
O texto principal vem acompanhado de duas pérolas: uma espécie de entrevista ao Secretário de Estado do Ambiente (que o jornal destaca positivamente na sua última página exactamente por querer mexer no pântano que se pretende descrever no texto principal) em que anuncia o fim da Reserva Ecológica Nacional e outras minudências que dão cabo da economia, e quatro bolinhas seguidas de texto sobre casos concretos que demonstram o que está escrito no texto principal.
Transcrevo a primeira dessas bolinhas: "Um projecto de 20 milhões esteve parado seis meses porque o ICNB garantia a existência de um aquífero. Afinal, o aquífero era, na fotocópia, a marca da dobra do mapa original". Posso fazer-lhe algumas perguntas de algibeira? Quem lhe disse isso? O que disse o ICNB sobre o assunto? Que projecto era esse? Que razões levam um promotor a aguardar pacientemente seis meses sem verificar a causa da paragem? Consultou o processo?
O resto das coisas andam pelo mesmo rigor jornalístico e as perguntas poderiam multiplicar-se.
No texto principal apenas três pessoas são citadas (diz-se que porque os outros têm medo). Quem são as pessoas? O mesmo Secretário de Estado, um dos maiores e mais eficazes lobistas nacionais, Ângelo Correia (um reconhecido especialista nestas matérias já que presidiu à Comissão Parlamentar do Ambiente. Já agora, em que anos?) e Margarida Cancela de Abreu, atacada de forma baixa, anónima e sem direito a defender-se.
De resto existe um promotor estrangeiro (quem?), um promotor nacional que diz que pagou 200 mil euros por um EIA e 100 mil de taxas à APA (verificou a informação? Quem é o promotor? Qual é o projecto? A que dizem respeito as taxas? E são desse montante?) e coisas assim.
Bocas, nada mais que bocas que atingem terceiros que a Senhora achou dispensável ouvir. O ICNB (e seus funcionários), a QUERCUS, a LPN, Margarida Cancela de Abreu e por aí fora.
O melhor a Senhora guardou-o para o fim "Para Ângelo Correia, parte da solução passaria por uma separação clara entre o que são entidades como a Quercus ou Liga para a Protecção da Natureza e o Estado. Por outro lado, seria fundamental criar padrões standard sobre o que se pode ou não tolerar e deixar isso escrito e objectivado para que todos possam conhecer as regras".
Como? Terei lido bem? O poderoso, o fantástico, o conhecedor Ângelo Correia não consegue distinguir o Estado da QUERCUS e da LPN? E a Senhora compra isto? Porquê? Porque foi verificar situações de promiscuidade? Porque viu decisões tomadas com base nas opiniões destas ONGs (ou outras)? Porque foi estudar como se tomam as decisões? Porque foi avaliar quer as regras, quer a prática de decisão nesta matéria? Comparou, por exemplo, a promiscuidade de interesses nos processos PIN com outros processos? Foi verificar se nas decisões é mais fácil os promotores se fazerem ouvir ou o movimento ambientalista?
Francamente, acha normal o que escreveu?
Que existe tráfico de influências não tenho a menor dúvida (e muito menos terá Ângelo Correia).
Mas jornalismo não é isto, não é passar bocas idiotas de lobistas.
O Governo quer continuar a magníficia obra dos Governos Sócrates no desmantelamento da regulamentação de protecção de bens difusos, quer acabar com a REN na sequência da morte da RAN decretada por Sócrates e Jaime Silva?
Nada contra, há dezenas de alterações que eu próprio tenho em carteira para propôr, mas isso fará parte do processo normal e transparente do debate político.
O que lhe pergunto é o que tem a Senhora com essa agenda? A sua opinião dê-a onde entender e quando entender, livremente, mas não tente passar agendas de terceiros como se fossem notícias de jornal.
É que quando os transitórios donos do poder já de lá tiverem saído, a Senhora ainda terá de escrever para jornais. Jornais esses que as pessoas compram à procura de notícias.
Para propaganda, mais a mais rasca, como esta, bastam, para as pessoas comuns, os tempos de antena e coisas que tal.
Já agora, se quiser passar por este blog verá dezenas de textos meus criticando o movimento ambientalista, o tráfico de influências em matéria ambiental e a confusão entre associações e empresas de serviços. Aproveite que tem muita matéria para escrever sobre o assunto, com dados concretos que lhe permitem verificar a informação e assim deixa de depender de lobistas como Ângelo Correia, cuja miopia na matéria (directamente relacionada com os seus conhecidos interesses próprios) a conduzem a parvoíces como as que escreveu que, infelizmente para si, só a prejudicam.
As pessoas comuns não são autómatos estúpidos que engolem qualquer coisa só porque está escrita num jornal.
E quem lhe paga o ordenado, espero eu, são os seus leitores, não são os lobistas.
henrique pereira dos santos

Segunda-feira, Novembro 14, 2011

VII Congresso da SPEA



Há cerca de duas semanas tive a oportunidade de participar como orador convidado no VII Congresso da Sociedade para a Protecção e o Estudo das Aves. Fiquei verdadeiramente impressionado com a qualidade do trabalho que está a ser desenvolvido pela SPEA. Em pouco mais de 15 anos a SPEA tornou-se uma das principais ONGA's portuguesas. Conta com mais de 50 funcionários, e desenvolve trabalho nos Açores, Madeira e no Continente. Esse trabalho tem padrões de qualidade científica que se regem pelo que melhor se faz a nível internacional: as acções são desenvolvidas com objectivos de restauração ecológica bem definidos e são monitorizadas periodicamente. Mas para além do trabalho de restauração ecológica, a SPEA tem vindo a contribuir para melhorar o conhecimento sobre a avifauna em Portugal, seja através da publicações de atlas nacionais, regionais, ou apoiando a edição de guias de campo (o último, um guia da avifauna de Portugal, é um trabalho notável do Helder Costa). Em resumo, a SPEA é um exemplo notável do que é possível fazer quando se juntam as forças dos cidadãos-cientista com os cientistas profissionais e técnicos de conservação. E que melhor grupo para fazer isso do que as aves?

Sábado, Novembro 05, 2011

A professora tem sempre razão

Imagem obtido aqui



Passo a citar a matéria que o meu filho estudou recentemente, para a disciplina de Estudo do Meio, 4º ano da escola primária:

"Prevenção de incêndios

No nosso país, em especial nos últimos anos e durante os meses de Verão, as florestas têm vindo a ser destruídas pelos fogos.

A área florestal está a desaparecer e, com ela, o habitat de numerosas espécies de animais e de plantas.

Esta destruição leva à erosão dos solos e as graves alterações climatéricas."

Tanto disparate que andam a ensinar aos nossos filhos, desde o "nosso país" (não haverão fogos fora de Portugal? essa mania de falar sobre fenómenos globais como se fosse algo exclusivo "nosso"), "últimos anos" (meus caros editores de livros escolares, se fizessem o trabalho de casa como fazem os nossos filhos, não havíamos de aturar coisas destas), "durante os meses de Verão" (salvo a violação do novo acordo ortográfico, supostamente em vigor nos livros escolares, se calhar a única afirmação objetiva em todo o texto), passando pela banalidade da destruição das florestas pelo fogo (será demais pensar que os nossos educadores deviam explicar que o fogo modifica o percurso evolutivo da vegetação, podendo esta modificação ser contrária aos objetivos humanos em relação a esta mesma vegetação, mas que raramente a destroi de forma definitiva), que só se entende pela ideia dominante na educação ambiental que crianças com menos de 10 anos (e se calhar não só essas) só compreendem afirmações estilo tabloide, prosseguindo com o hilariante "a área florestal está a desaparecer" (já pensaram em consultar as estatísticas sobre o assunto, para não falar em ver bem o que é definida como "área florestal"), e o habitual blablabla das numerosas espécies. A relação entre fogos e erosão ainda dou de barato, mas volto a arrepiar com as graves alterações climatéricas, que servem de bogey man do século XXI.


Não sei porque, mas vêm-me à cabeça umas canções que Roger Waters compôs, relacionadas com uma parede e tal, já lá vão 30 anos ...

Henk Feith

Sexta-feira, Novembro 04, 2011

É triste não saber ler



Tenho usado frequentemente esta imagem como demonstração de que o número de fogos não tem correspondência com a área ardida: há muitos fogos onde há gente, há muita área ardida onde há continuidade de combustíveis, concluí eu.

Mas um dia destes o Henk Feith observou, mal olhou para o mapa, que falar da área ardida por concelho dizia menos do que poderia, porque naturalmente os grandes concelhos têm mais área ardida por serem maiores, dando imediatamente o exemplo de Abrantes e Sardoal, que neste mapa aparecem nas vizinhanças de extremos opostos da escala, com Sardoal com muito menos ára ardida que Abrantes.

Perplexo com o facto de andar há tanto tempo com esta evidência debaixo do nariz sem dar por ela (as evidências têm esta característica de com frequência só serem evidências depois de alguém as tornar evidentes), pedi ao José Miguel Cardoso Pereira os dados de área ardida entre 1975 e 2009, e em pouco tempo a Ana Sá preparou-me um excel com fracção de área ardida em cada concelho (que com frequência é maior que 1, sendo quase dois no concelho com maior fracção, porque nestes anos todos já ardeu mais que a área do concelho, isto é, a repetição de fogo na mesma área existe).

O resultado é este.

Agora tenho de ir refazer o que tenho andado a dizer, porque não sendo totalmente errado, também não é muito claro que se possam tirar conclusões tão directas dos dados.

É o que dá não saber ler, dizem-se mais asneiras que o que é razoável.

henrique pereira dos santos


Segunda-feira, Outubro 03, 2011

Liberdade de expressão e vacas sagradas

Imagem tirada daqui (vale a visita)


O movimento ambientalista, que historicamente chama tudo e mais alguma coisa a quem quer que tome decisões contrárias ao que os seus dirigentes entendem ser o bem comum (para poupar trabalho, tome-se como estudo de caso a decisão de localizar a ponte vasco da gama onde está hoje em vez do Barreiro, decisão que me parece errada, que contestei e combati, mas que nunca expliquei com interesses obscuros e corrupção, ao contrário do movimento ambientalista), tem uma extraordinária sensibilidade à crítica que é dirigida aos seus heróis, criando demasiadas vacas sagradas intocáveis.

Nem o exemplo do Otelo Saraiva de Carvalho, herói num determinado momento a quem devemos muito mais que qualquer vaca sagrada do movimento ambientalista, mas a quem hoje ninguém se lembraria de procurar impedir a crítica em memória do que fez naquele momento, faz muita gente desistir de pretender entronizar vacas sagradas desqualificando moralmente toda a crítica que lhes seja dirigida.

Há quem tente fazer o mesmo na minha profissão a uma das personalidades mais importantes para a afirmação da minha profissão e que critico com frequência, Gonçalo Ribeiro Telles. A vantagem neste caso é que a discussão é feita com o próprio Ribeiro Telles, e não com os seus epígonos, e Ribeiro Telles também não gosta de vacas sagradas e desce ao meu nível para dizer o que tem a dizer, ouvir o que eu entender dizer, e concordando ou não (de maneira geral não concorda) isso não afecta um milímetro a possibilidade de fazermos coisas conjuntamente quando estamos de acordo (por exemplo, grande parte da defesa da reserva agrícola). E a minha distância em relação a muitas das posições de Ribeiro Telles nunca afectou minimimamente o reconhecimento que faço da sua importância para a minha profissão e do papel que incontornavelmente terá na história da arquitectura paisagista em Portugal.

O que hoje aqui me traz são os tolinhos que, de maneira geral, acusam este blog de falta de democraticidade dizendo que apenas os seus autores (uma generalização abusiva, os seus autores são vários e na verdade este tipo de discussões são comigo, os outros não têm nada com isso) podem criticar quem entendem.

Para que não restem dúvidas, transcrevo o último comentário a este post, a que nunca respondi porque ser um chorrilho de disparates desconexos não assinados, mas a fazer-se de vítima de censura na última linha, como é frequente, mas como se vê, sem razão nenhuma (o comentário está lá, ninguém lhe ligou nenhum).

"Bem.. Depois de ler tamanha quantidade de disparates não sei se chore se ria!
Na verdade, se há aqui alguém que merece um prémio de empreendedorismo, esses alguém são o Sr. Henrique Santos e o Sr. Gonçalo Rosa, pela arte que manifestam na capacidade de, sincronizadamente, fazerem outros "empranharem pelos ouvidos" e de utilizar um discurso cínico, sarcástico, omisso e tendencioso. Que coisa linda!
Ora vejamos, o Arq. Henrique Santos, autor deste post (e do "puro veneno" que se lhe seguiu). Curiosamente, na altura da 1ª proposta de reintrodução, nos finais dos 90s, era presidente do ICN e foi o responsável pelo financiamento de vários estudos e projectos relacionados com a possibilidade de reintrodução das pesqueiras. Desde o financiamento do proj em Cabo Verde a diversas outras acções relacionadas com esta espécie, como a recuperação de infraestruturas na Torre de Aspa. Nada de mal nisto! Apenas acho piada à omissão deste facto no seu discurso inflamado. Falta de hombridade, no mínimo...
Segundo, o Sr. Gonçalo Rosa (ainda comercializas conchas exóticas, pá?). Nem percebo como se atreve sequer a falar do que quer que seja relacionado com conservação de Biodiversidade! Hilariante.
O que estes verdadeiros iluminados não referiram uma única vez, e não porque não o saibam, é que toda esta coisa da reintrodução das pesqueiras foi profundamente debatida, em duas ocasiões diferenciadas, por grupos dos maiores especialistas internacionais da espécie. A primeira vez, num simpósio internacional de rapinas em Urbino (Itália) em 1996, em que o caso português de uma possível reintrodução foi utilizado como case study por um grupo de 30 experts da espécie. E foi ali que os empreendedores trafulhas reuniram a maior parte dos dados que acabariam por originar o presente projecto. Um pormenor, claro, que não interessou referir. O discurso inflamado é muito mais eficaz com meias verdades e meias mentiras.
Depois nota-se a falta de alguns dados curiosos sobre a espécie em Portugal. Sabiam que os casais costeiros desapareciam misteriosamente durante uns 4 meses, a partir de Setembro? Ninguém sabe para onde se dirigiam, talvez logo ali ao lado, ou talvez para a Ria Formosa, ou talvez até para o Senegal... Residentes? Talvez.
E a extrema filopatria dos casais do sul da Europa? A espécie demorou 30 anos a colonizar o sul da Córsega, a partir do norte da ilha. Pensar em recolonizações naturais, a partir de Cabo Verde ou whatever, é âmbito da ficção científica.
Problemas com as temperaturas na zona do Alqueva? Então e os animais que nidificam no Mar Vermelho, usam ar condicionado para sobreviverem aos 40º à sombra?
E depois existe aquele pequeno pormenor que ocorreu 4 anos depois da morte da fêmea do último casal (o tal da Arrifana). 4 anos depois, o macho recrutou uma fêmea, tendo ocorrido tentativas de nidificação sem sucesso. Esta fêmea só pode ter sido originária do norte da Europa, o que é um facto de extremo relevo nesta questão.
Depois existem os registos históricos em Espanha de nidificação em áreas estuarianas e aparentemente mesmo no interior.
E os contra-argumentos poderiam continuar longa e enfadonhamente!
Qual o objectivo destes srs. com a contra-informação, não sei. Temo até que acreditem no que aqui verbalizam.
Não os conheço pessoalmente, tal como não conheço pessoalmente os tais empreendedores (aka trafulhas lol), mas conheço o trabalho que têm feito, colmatando a invisibilidade do ICN(B). Respeito-os por isso, no more no less.
Só mais uma coisita. O ICNB nunca financiará qualquer projecto de reintrodução no Sado. No máximo poderá facilitar o processo burocrático.
É engraçado constatar de forma tão gritante como a web pode ser particularmente perigosa. A culpa não é dela, coitadita, mas sim da falta de escrúpulos de quem a utiliza para proveito próprio (a problemática dos bloggers). Bem como da ingénua e "trigger happy" credibilidade de indivíduos como o anónimo que postou antes de mim.
Tá dito. E agora é esperar que os bloggers removam este comentário ;)"

Numa coisa estou inteiramente de acordo com este comentário: tá dito.

E por mais errado que esteja, ainda bem que cada um pode definir o seu "tá dito".

henrique pereira dos santos