Terça-feira, Fevereiro 09, 2010

A falta que faz o escrutínio público



"Nas áreas classificadas como RAN (reserva Agrícola Nacional) deve ser mantida a vegetação natural existente, se o proprietário assim o entender".

Garantem-me que isto está escrito no parecer de uma Câmara Municipal.
Não me custa acreditar porque vi dezenas (centenas? milhares?) de pareceres com o mesmo tipo de problemas.
O que este tem de útil é ser tão condensado e tão claro na demonstração do que pretendo.
A mais completa ignorância técnica (manutenção da vegetação natural na Reserva Agrícola Nacional?), a mais completa ausência de sentido de serviço público (se o proprietário quiser? Se é uma questão de gosto do proprietário, a que propósito o Estado comenta? se é uma questão de cumprimento da lei, o que está ali a fazer se o proprietário quiser?), a mais completa ausência de responsabilidade dos níveis hierárquicos pelos quais terá passado o parecer e, o que é mais que tudo, o tratamento de um parecer (que é o veículo de expressão do entendimento do Estado sobre a conformidadade legal de uma determinada pretensão) como se fosse uma mera opinião de café, uma expressão de gosto pessoal do técnico (nos pareceres mais sofisticados deste tipo aparece com frequência a ética, como se a ética não fosse uma questão irredutivelmente pessoal que não pode ser critério de decisão da administração pública).
Não se pense que este é um problema menor, este é provavelmente um dos maiores problemas de competitividade em Portugal, com uma administração refém dos interesses do Governo nas questões maiores (a administração rege-se pela Lei e não pelo programa do Governo) e ao Deus dará nas decisões quotidianas que levam os cidadãos e as empresas a perder horas sem fim a desembrulhar pareceres idiotas como este (este, de tão idiota, será dos mais fáceis de desfazer, mas se envolver, por exemplo, a conservação da toupeira de água, com toda a incerteza associada ao assunto e o reduzido número de pessoas que conseguem discutir o assunto de forma aprofundadamente técnica, pode resultar em anos de discussão, projectos e estudos).
Não se pense que isto se resolve com melhores técnicos (encontrei na administração dos melhores técnicos que conheço, embora também tenha encontrado dos piores, o difícil muitas vezes é distingui-los em tempo útil) apesar de eu saber que como diz um provérbio russo "cabeça que não tem juízo não dá descanso às pernas".
Isto resolve-se (lenta e dificilmente) com escrutínio público sistemático e responsabilização real pelos actos praticados pelos funcionários no âmbito das suas funções.
Mas temo que com a cultura de tratamento da informação em Portugal, sistematicamente procurando evitar o olhar do outro, isto vá durar anos e anos.
E com custos elevadíssimos para o movimento ambientalista: são pareceres destes que minam qualquer esforço sério de discussão racional da importância de figuras legais como a Reserva Agrícola Nacional.
Já agora, antes que o Governo caia e que haja novas eleições, se ainda não assinou, assine estas petições (a primeira sobre a Reserva Agrícola Nacional, a segunda uma quixotesca tentativa minha de limitar a intervenção do Estado numa sociedade profundamente anti-liberal):

Fundo Florestal Permanente (obrigado aos outros 118 moicanos que acreditam que os fundos autónomos de sectores maioritariamente privados não devem servir para financiar o Estado)
henrique pereira dos santos

Segunda-feira, Fevereiro 08, 2010

pré-conceitos


Como em muitíssimas outras, nas interessantes discussões tidas relativamente aos posts aqui, aqui, aqui e aqui publicados, é interessante notar como as pessoas reforçam os seus preconceitos, sinalizando tudo o que confirma a sua tese, às vezes de forma bem ao lado, e relativizando ou mesmo negando exemplos que apontam no sentido oposto.

Lembro-me de uma conversa que tive, há uns tempos atrás, com uma amiga minha, que nunca visitou os EUA mas que é manifestamente antiamericana, e que questionava a qualidade da Educação naquele país. Para dar substância à sua crítica, realçava as más condições de duas escolas que uma sua amiga havia visitado. É manifestamente um enorme abuso saltar de dois casos, supostamente escolhidos ao acaso, supostamente bem e equilibradamente relatados, para todo um sistema de ensino de um país de trezentos milhões de habitantes. E perguntei a mim próprio qual seria a análise que a minha amiga faria se o cenário fosse exactamente o oposto. E tenho dúvidas que se a resposta não deambulasse entre a relativização do tamanho da amostra ou da qualidade do relato, algo parecido se haveria de arranjar.

Creio que temos todos uma enorme tendência para criar preconceitos e que passamos o tempo a reforçá-los. Um bom esforço para quebra-los é questionarmos como analisamos factos contrários aos que usamos para os reforçar. Caso contrário, caímos inevitavelmente em argumentação “desonesta”, nomeadamente com nós próprios. E a discussão agradece.

Gonçalo Rosa

Bem vindo, Delgado Domingos

Esta imagem roubei-a daqui, para onde transbordou parte da discussão que se desenrolou (timidamente) no Expresso mas sobretudo aqui na Ambio
O Público de ontem tem um artigo de opinião de Delgado Domingos sobre alterações climáticas.
É um artigo crítico em relação às opções políticas da União Europeia na matéria.
A crítica assenta na ausência de fundamentação científica para relação quantitativa entre o CO2eq na atmosfera e o aumento da temperatura média global do ar junto à superfície.
Mas o que me pareceu mais notável no artigo é o que me parece (e sublinho o parece, apesar de já ter usado a palavra duas vezes numa frase tão curtinha) que há uma evolução na posição de Delgado Domingos desde a última troca de argumentos que ocorreu no espaço público sobre o assunto, nomeadamente aqui na Ambio.
Delgado Domingos não fala em fraude científica a propósito das alterações climáticas, insurgindo-se apenas contra o alarmismo (bem vindo), não contesta o aquecimento global antropogénico mas a atribuição de todas as alterações apenas ao CO2eq (bem vindo), faz uma referência ligeira ao climagate a propósito da contaminação do debate científico por opções políticas mas sem o associar imeditamente a qualquer fraude (bem vindo), afirma taxativamente que a União Europeia deve estar preocupada com as alterações climáticas de origem humana (bem vindo), e conclui que os outros efeitos que resultam dessas emissões chegam para se fazer opções políticas, não sendo necessário dramatizar o seu efeito no aquecimento global (bem vindo).
Ou seja, o que sobra de discordância é o velho argumento de que é preciso ter certezas para agir e o de que os efeitos do corte de emissões e do mercado do carbono é catastrófico social e economicamente.
Como se vê, nada de ciência, tudo de política com base em argumentos não demonstrados mas a necessitar de discussão séria.
Há tempos concluí, pelo meu próprio exemplo, que o climagate arriscava-se a ser um grande contributo para o consenso social à volta do aquecimento global: não só põe algum travão no alarmismo, o que é bom, como sobretudo muitas pessoas que evitavam a discussão, por demasiado complexa, foram obrigadas a entrar nela, a ler a informação primária e, por isso, reduziram muito as dúvidas sobre a solidez científica que suporta a tomada de decisão política.
Parece-me ser o caso de Delgado Domingos, tal como aliás foi também o meu caso (com a distância de conhecimento científico que nos separa, evidentemente, eu não percebo nem um quarto do que leio sobre a matéria).
Bem vindo ao campo da discussão que se pretende mais racional e menos contaminada por posições pré-definidas por critérios externos ao essencial do que está em causa.
henrique pereira dos santos

Sábado, Fevereiro 06, 2010

Gestão activa e não intervenção

Em matéria de conservação coexistem duas linhas de gestão: uma que implica intervenção sobre os territórios, outra que implica não intervencionar nada.
Miguel Araújo tem sido um dos grandes defensores das virtudes da não intervenção.
Eu já fui mais contrário a esta ideia, hoje tenho uma posição mais moderada, convencido pelos argumentos do Miguel e outros (como o Carlos Aguiar em alguns aspectos).
O que me interessa destacar é que é preciso ter consciência da implicações de uma ou outra opção.
A não intervenção é pacífica em áreas relativamente restritas mas para ter verdadeiro significado de conservação deve ter dimensões mínimas de 100 000 hectares que é o que permite que a dinâmica de populações dos grandes mamíferos seja razoavelmente independente do que se passa à volta.
A opção pela não intervenção tem ganhadores e perdedores, mesmo entre as espécies que queremos conservar.
Uma das razões pelas quais acho que a não intervenção em larga escala é socialmente inaplicável em Portugal (a discussão técnica é diferente da discussão social) é que a maioria das pessoas, mesmo das pessoas que a defendem, não estão disponiveis para aceitar as suas consequências: fogos enormes e severos durante muito anos até à estabilização do coberto vegetal criador de sombra e húmido, diminuição brutal de muitas espécies, com quase todas as mais emblemáticas que hoje protegemos (coelho, imperial, real, lince, borboletas,etc.) e a recuperação de outras (corço, urso, provavelmente alguns peixes, por exemplo) sendo mais ou menos indiferente para outras (lobo, por exemplo).
Daí que a gestão activa dirigida a grupos específicos, como o coelho e as estepárias, seja aceite com relativa facilidade.
Esta gestão activa implica intervenção permanente para contrariar a tendência natural para as matas fechadas e umbrosas das nossas condições climáticas.
Há duas formas de fazer esta gestão activa: ou os agentes económicos a fazem quotidianamente porque é do seu interesse económico (agricultores, pastores, caçadores, conservacionistas que actuam no mercado das doações) ou o Estado o faz retirando recursos à actividade económica externa.
O Estado é de maneira geral menos eficiente e mais volúvel na sua actuação que os agentes económicos que se guiam por grandes tendências de mercado e por isso eu defendo que sempre que a economia poder produzir biodiversidade é por aí que devemos actuar. E que sempre que a economia se afasta dessa possibilidade, com excepção das situações de não intervenção em que o peso directo do Estado pode ser mais interessante porque o que é preciso é investimento inicial mas pouca gestão operacional para além de funções clássicas do Estado como a repressão), o mais interessante é o Estado actuar indirectamente através da intervenção nos mercados que possam influenciar a gestão activa que se pretende.
É assim que a não caça não obtém as mesmas densidades de coelho que a caça bem gerida, excepto quando quem promove a não caça actua como qualquer outro agente económico, comprando terrenos e gerindo-os orientado para os seus clientes, os doadores.
Adenda: sobre a questão da morte de uma imperial, que se pretende ligar aos problemas de conservação criados pela caça, ver aqui. Trata-se de um problema de polícia, não é um problema de conservação de primeira grandeza.
henrique pereira dos santos

Sexta-feira, Fevereiro 05, 2010

Morte e extinção


Na sequência das discussões dos posts anteriores (aqui e aqui), um dos quais deve ser o post mais curto deste blog e já vai com mais de cinquenta comentários, gostaria de esclarecer algumas coisas.
1) A mixomatose entra na Península Ibérica a meio dos anos 50 e em cerca de cinco anos reduz a população de coelho a 5 a 10% da que existia antes da sua chegada;
2) A meio dos anos oitenta chega a hemorrágica viral quando as populações de coelhos estão a dar sinais de se adaptar à mixomatose (é dos livros, os poucos resistentes vão-se reproduzindo e a população no seu todo vai ganhando resistências à doença);
3) Nenhuma perseguição directa pode sonhar ter um efeito destes numa população (aliás a mixomatose é introduzida voluntariamente na Austrália exactamente com o objectivo de controlar as populações de coelho, que eram abundantemente caçadas, sem efeito de especial na diminuição do seu número);
4) Na sequência destas diminuições brutais da principal espécie presa de muitos dos predadores de topo, há regressões violentas das populações destes predadores, sendo que é tanto mais violenta quanto mais o predador depende desta presa e tem menos flexibilidade (o lince é o maior especialista de coelho e sofre por isso a maior regressão);
5) Depois de muitas asneiras, algumas delas decorrentes da dissolução da autoridade do Estado no pós 25 de Abril, outras decorrentes das alterações sociais também daí decorrentes (nomeadamente o fim dos coutos de caça e a generalização do regime livre), o sector da caça ganha algum juízo (em parte forçado pelo deserto biológico que estas alterações e as doenças tinham criado);
6) Com a tomada de consciência das asneiras e o aumento de conhecimento na gestão dos métodos de gestão, algumas zonas de caça focadas no coelho começam a ter resultados interessantes (sobretudo no Sul, onde se concentram reservas comerciais, geridas mais profissionalmente);
7) Estes resultados têm vindo a ser sucessivamente confirmados nos estudos que são feitos sobre o assunto, identificando quer uma razoável densidade de coelhos, quer dos seus predadores (aqui não sei se mais as aves que os outros);
8) Como resultado conjugado da progressiva adaptação das populações de coelho às doenças e da boa gestão cinegética, começam a recuperar, na Península (que é o que interessa) as populações dos seus predadores (lince, águia imperial, bonelli, etc.);
9) A morte de indivíduos é uma questão menor do ponto de vista de conservação (excepto em situações limite) porque o que é relevante é o saldo entre os que nascem (que tendem a aumentar quando o alimento abunda) e os que morrem;
10) Se numa reserva de caça se criam pontos de água, se fazem sementeiras, se cria abrigo, se abatem predadores generalistas o mais natural é que mesmo que se matem mais coelhos o saldo seja maior porque nascem muitos mais;
11) Podem ter-se mais mortes ao mesmo tempo que se correm menores riscos de extinção;
12) Nada disto é relevante para a discussão ética da caça (que é uma discussão não utilitária), nem invalida que haja caçadores que são umas bestas;
Conclusão: a caça é um instrumento de gestão que pode ser bem ou mal usado e que pode ser abandonado por outras razões que não a sua utilidade se as pessoas quiserem. O que não se pode é confundir isso com o facto de tecnicamente a caça ser útil à conservação quando bem usada porque é uma forma não deficitária (isto é, não concorre com as outras funções sociais do Estado) de gerir habitats e espécies.
henrique pereira dos santos

Os recursos da conservação


A discussão neste post é muito interessante ... e recorrente.
É curioso como a caça, ou seja o acto de matar um indivíduo, tão facilmente se transforma numa ameaça à espécie, como se a morte de cada indivíduo não fosse parte de um sistema que se perpetua na reprodução e não na ausência da morte.
Mas não é essa ideia naturalmente enraízada nos nossos cérebros (as descrições do paraíso e do inferno são muito interessantes como demonstrações da forma como funciona a nossa cabeça, sendo o inferno a terra do fogo, das trevas, do frio, da dor e da ausência, e o paraíso a terra da luz, da música, dos perfumes, da ausência da morte, da doença e da plenitude da presença) que quero falar, mas sim de um aspecto que aflora num dos comentários: o Estado está falido e portanto a conservação anda pelas ruas da amargura.
Um comentário lateral para dizer que não partilho desta visão catastrofista da conservação em Portugal: os sistemas estão a recuperar de forma pujante (Carlos Aguiar diz que não há recuperação da vegetação desta dimensão desde o holocénico), muitas espécies dependentes de cobertos florestais mais evoluídos estão a recuperar, o coelho, ainda com problemas sérios, parece estar melhor que há vinte anos, com reflexos na recuperação dos seus predadores, incluindo o lince, etc.. Nada disto tem que ver com a intervenção do Estado mas sim com grandes tendências sociais e económicas. Portanto, a biodiversidade recomenda-se em Portugal neste momento (amanhã não sabemos).
Disse nest post que o endividamento do Estado é a maior ameaça ambiental em Portugal. Mas não porque isso signifique menos dinheiro para a conservação. O problema é que com a sua falência o Estado é capturado pelos grupos de interesse e não tem capacidade de fazer a adequada ponderação dos interesses conflituais, sobretudo daqueles que se manifestam no longo prazo (porque apesar de muitos economistas passarem o tempo a dizer que no longo prazo estamos todos mortos, a verdade é que o longo prazo é uma realidade sobre a qual também temos responsabilidades, como aliás reconhecem os mesmos economistas quando se preocupam com o endividamento). E com o garrote do endividamento vende o que não lhe custa: licença, isto é, o mecanismo de regulação dos mercados para salvaguardar pela autoridade o que o mercado falha em assegurar.
No pequeno livro que vou publicar lá para Abril (do tempo e da paisagem, passe a publicidade), há um capítulo sobre áreas protegidas a que dei o título "das paisagens artificiais".
Podem ler mais em detalhe quando o livro sair, mas o essencial da tese é que exactamente por se retirarem as áreas protegidas do processo económico de uso dos recursos, a sua gestão depende de factores externos, isto é, depende da sua "artificialização".
O corolário desta tese é que grande parte da conservação depende, para ser sustentável, de uma boa integração com a economia.
Por isso, sendo a caça um poderoso instrumento de gestão de habitats, que gera rendimentos suficientes para a sua sustentabilidade económica (tal como a agricultura, tal como a pastorícia, etc.) não faz sentido prescindir do seu uso substituindo integralmente o que podia ser feito por agentes económicos, perseguindo o seu interesse próprio, por acções assentes em lógicas externas e centralizadas (que evidentemente também não são imunes aos interesses próprios dos detentores de decidir sobre a aplicação dos recursos comuns).
O risco de ter um primeiro ministro como o actual, que manifestamente tem um problema com a conservação da biodiversidade, é elevadíssimo, mas muitos outros riscos existem (incluindo o endividamento) de que falhe esta intervenção exógena e consumidora de recursos.
Por isso não é linear que esta lógica de artificialização seja mais eficaz que o mercado a conservar a biodiversidade.
Uma coisa é regular o mercado (e claro que muitas das situações descrita nos comentáros só são possíveis porque um Estado frágil permite que a sua autoridade seja corroída e não haja sanção para quem não cumpre as regras) outra é eliminar o mercado e substituí-lo por intervenções externas exclusivamente consumidoras de recursos.
Dito isto devo dizer que acho a conservação da biodiversidade uma função essencial do Estado ao nível da defesa, da diplomacia e do monopólio da violência legal.
O que não significa que queira prescindir de instrumentos economicamente sustentáveis, como a pastorícia e a caça, na gestão da biodiversidade.
henrique pereira dos santos

Quinta-feira, Fevereiro 04, 2010

O coelho


Quanto mais vou lendo e pensando, mais me convenço de que esta é a verdadeira prioridade de conservação da fauna em Portugal.
henrique pereira dos santos

Quarta-feira, Fevereiro 03, 2010

Sessão de esclarecimento: Verdade e Consequência: as Barragens no Rio Tâmega


A Adbasto (Associação de Desenvolvimento Técnico-profissional das Terras de Basto) com o apoio do Jornal “O Basto” promove na próxima Sexta-Feira, dia 5 de Fevereiro, pelas 21.30 horas, uma Sessão de esclarecimento sobre o impacto do Plano Nacional de Barragens no Tâmega e nas Terras de Basto.
A iniciativa é aberta a toda a população e decorre na sede social da Adbasto, situada no lugar da Quinta da Mata, junto à sede da vila de Cabeceiras de Basto.
Participam nesta acção como oradores, António Luís Crespí, doutorado em Biologia Vegetal pela Universidade de Salamanca e professor Universitário das disciplinas de Botânica e Ecologia vegetal na UTAD (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro) e José Emanuel Queirós, técnico superior de Planeamento Regional, Geógrafo especialista em Geomorfologia e fundador do Movimento Cidadania para o Desenvolvimento no Tâmega.

De referir ainda que António Luís Crespí é especializado em morfo-ecologia e análise fitoestrutural da vegetação, sendo autor de mais de oitenta publicações científicas em revistas especializadas nacionais e internacionais, sendo autor e co-autor de diversos livros sobre flora portuguesa. Orienta diversas teses de mestrado e doutoramento em colaboração com a Universidade de Salamanca (Espanha) e a Faculdade de Ciências do Porto, é investigador integrado em Centros de Investigação portugueses e espanhóis e forma parte de equipas de investigação europeia na área da filo-biogeografia neogênica. Desde 1998 é conservador do Herbário do Jardim Botânico da UTAD, sendo director deste último desde o passado mês de Fevereiro de 2008.

Com esta iniciativa, a direcção da Adbasto pretende de uma forma responsável esclarecer e alertar a população das Terras de Basto para os previsíveis impactos que a construção de barragens no Rio Tâmega poderão originar num futuro próximo, afectando o ambiente, os ecossistemas e a qualidade da água.

Pela Direcção

Miguel Teixeira (Cabeceiras de Basto), in Remisso - 29 de Janeiro de 2010

Terça-feira, Fevereiro 02, 2010

Turista acidental


Ver aqui.
Esta notícia não deixa de levantar uma questão interessante: os recursos para a conservação do lince seriam mais eficientemente usados na sua reprodução em cativeiro ou em preparar a sua chegada vinda de Espanha?
henrique pereira dos santos

Domingo, Janeiro 31, 2010

Conspiração?

imagem do artigo em causa e criticada aqui.
Olympus Mons sugeriu, há já algum tempo, quando este blog parecia um blog sobre alterações climáticas, que analisasse uma conversa de comadres que eu já tinha lido há algum tempo.
Demorei algumtempo a pegar nisto, não só por ter outras prioridades mas porque realmente já tinha lido a história e francamente não me interessava por aí além.
Mas o prometido é devido e aqui fica.
A alegação é a de que os famosos emails demonstravam uma deturpação do processo de peer review por parte de um "team", como o apelidam as putativas vítimas.
Convém ter em atenção que o artigo científico em causa era uma segunda tentativa de demonstrar o mesmo que já tinha sido dito uns anos antes (embora desta vez de forma mais limitada dada a crítica fundamentada a que tinha sido submetido o primeiro artigo com o mesmo tipo de alegações).
Vejamos os factos essenciais.
Em 5 de Dezembro de 2007 o artigo em causa é publicado on-line e só 11 meses depois é publicado em papel, no mesmo número onde é publicado um outro artigo que pretende rebater o primeiro.
Sobre isto convém dizer que qualquer director de jornal (e as publicações científicas são também publicações com objectivos de comunicação com o seu público) se pela por ter uma polémica a decorrer no seu jornal, portanto até aqui nada de novo.
A 30 de Novembro de 2007 (uma semana antes da publicação on-line) um jornalista manda as provas para alguns cientistas. Também aqui nada de novo: é normal os jornalistas terem informação previamente (muitas vezes com embargos de publicação até uma altura definida) e é normal que procurem suscitar o contraditório.
Alguns dos cientistas envolvidos acham o artigo muito mau e irritam-se com o facto de uma revista importante de climatologia o ter publicado. Independentemente de quem tem razão, este tipo de opiniões não é crime nenhum e acontece todos os dias.
Os cientistas que estão convencidos de que o artigo nunca deveria ter sido publicado por ter opções indefensáveis (esta é a sua opinião, e não discuto se é certa ou errada) procuram definir qual a melhor forma de responder e repôr o que acham que é a verdade. Normal, nada de novo.
Há depois uma troca de mails em que transparece uma certa proximidade entre o editor e os cientistas (inevitável dado serem investigadores de topo da área da revista) e em que os ditos cientistas pretendem criar uma posição mais favorável para o seu paper de resposta. Tenho dúvidas sobre a elegância deste procedimento mas não vejo nenhuma entorse fundamental do processo de peer review (o que existe sim é uma preocupação com prazos para que os dois papers sejam publicados em igualdade de circunstâncias na versão papel da revista. Como digo tenho dúvidas sobre a forma como este objectivo é perseguido, dúvidas no campo da ética, mas tenho poucas dúvidas de que coisas semelhantes se passam todos os dias neste mundo).
Tenho sobretudo dúvidas sobre a actuação do editor em alguns passos, incluindo o facto de não informar os autores do primeiro paper sobre o que está a acontecer, mas é muito forçado transformar estas eventuais falhas do editor da revista num problema de manipulação de dados e do processo de publicação por parte do dito team.
Francamente a maior parte do artigo do American Thinker que Olympus Mons me pede para comentar é uma conversa de comadres sem qualquer relação com a suposta "fabricação" de dados científicos: em nenhum momento esteve em causa a publicação do primeiro artigo (excepto o facto de ter sido rejeitado noutras revistas, mas isso acontece todos os dias e é a vida). Pelo contrário, apesar de rejeitado noutros lados foi possível publicá-lo, demonstrando que o sistema tem escapatórias suficientes.
E em nenhum momento o team foge ao confronto científico, pelo contrário, vai ao encontro dele escrevendo um artigo para rebater o primeiro.
O mais curioso que os mails demonstram é que apesar do team entender que o paper nunca deveria ser publicado ele efectivamente foi publicado.
Se há coisa que fica demonstrada é que não é verdade que o team tenha capacidade para sufocar a divergência.
henrique pereira dos santos

Sábado, Janeiro 30, 2010

A gestão do Parque Natural das serras de Aire e Candeeiros


Este post é bastante interessante porque corresponde a uma opinião bastante comum nos meios da conservação sobre a gestão do PNSAC (a fotografia é retirada também do mesmo blog).
Vale por isso a pena analisá-lo no que ele tem de essencialmente correcto e no que ele tem de essencialmente errado.
No que diz respeito à forma como são tratados os visitantes, à sinalização, à falta de indicação (ou pior, à indicação errada) de horários o post está essencialmente correcto. É um diagnóstico de problemas antigo e consensual. O difícil está no que fazer a partir deste diagnóstico. Não é no entanto essa a matéria que vou tratar neste post, apenas referindo de passagem que existia uma estratégia claramente definida sobre este assunto, cujo estudo base está no site do ICNB, mas que, como de costume, é letra morta.
Já quanto à questão da integração da extracção de pedra na gestão da área protegida vale a pena perder algum tempo.
O post tem um retrato desencantado e comum: "o actual cenário é já dificilmente aceitável numa área com um estatuto de protecção mínimo. Se as coisas vão ainda mudar para pior (como permite o Ministério do Ambiente) ou para muito pior (como exigem os autarcas), então é melhor acabar com a farsa de que isto é um parque natural. Se só as pedreiras são importantes, se o esforço de preservação da natureza não traz qualquer proveito à região nem aos seus habitantes, então extinga-se o Parque Nacional das Serras de Aire e Candeeiros, e deixem de se atrair visitantes com o engodo de que esta é uma área protegida".
No entanto este retrato tem bastantes imprecisões e equívocos.
O primeiro (sem qualquer ordem de prioridade ou importância) equívoco é o de que as áreas protegidas existem para os visitantes e que se os visitantes não saem de lá satisfeitos, então mais vale extinguir a área protegida. Isto não é verdade. As áreas protegidas existem enquanto instrumento administrativo de conservação de valores. Este é o ponto a partir do qual faz sentido discutir a classificação ou não de uma área protegida. Dito isto, é verdade que a visitação é uma questão estruturante porque a política de conservação da natureza depende do apoio do público e isso pressupõe uma gestão cuidada da comunicação, o que implica o desenho de modelos de visitação que tenham como objectivo aumentar o apoio do público às políticas de conservação.
O segundo equívoco, bem mais sério, é o de confundir as áreas de extracção com a totalidade da área protegida. As áreas de extracção, que são importantes sob bastantes pontos de vista, representam uma percentagem pequena da área total do Parque, e é tendo em conta esse peso relativo que deve ser analisada a sua influência na gestão da área protegida.
O terceiro equívoco é o de que as áreas de extracção de pedra são desertos patrimoniais. Isso não é de todo verdade. Não só existe património geológico e espeleológico que é tido em conta na gestão das áreas, embora as pessoas possam não se aperceber facilmente desse aspecto, como há património mesmo nas áreas de extracção. Por exemplo, as escombreiras das pedreiras são provavelmente os sítios onde é mais fácil encontrar Inula montana (não sei se ainda tem este nome). Do mesmo modo, algumas áreas hoje recuperadas (e que não são percebidas pelas pessoas como áreas de antiga extracção) são excelentes laboratórios de evolução e mesmo de construção de novos habitats. Por exemplo, é fácil fazer pontos de água numa área com fortes limitações de água à superfície, e na verdade o enchimento de áreas com escombros consegue criar bolsas de solos mais fundos numa zona onde o substrato de rocha firme está geralmente a escassos centímetros das superfície.
Quarto equívoco é esquecer que existem interacções importantes entre pessoas e património natural que não são tidas em atenção no parágrafo que citei. Por exemplo, a gralha de bico vermelho é dependente de áreas de vegetação muito rasteira e, preferencialmente, com utilização pelo gado, o que implica perturbação permanente, com gado e com fogo. Ora se não houver pessoas para fazer isso é muito complicado parar a sucessão ecológica. Dir-se-á que isso em si não é um problema. Eu direi que sendo em parte verdade, também não deixa de ser verdade que as pessoas não estão disponíveis para a perda de património que isso implica. As pedreiras, ao criarem riqueza e emprego são geradoras de recursos importantes para a conservação (incluindo o trabalho agrícola em tempo parcial).
Quinto equívoco é considerar-se que do ponto de vista da gestão do território se estaria melhor desclassificando a área, o que está longe de ser verdade. Foi nestas áreas que foram impostas pela primeira vez cauções sistemáticas para a recuperação de pedreiras, o licenciamento destas pedreiras e a fiscalização associada, muito maior que no resto do país, influenciou decisivamente a gestão e o enquadramento legal do sector, muitas áreas foram retiradas da exploração, foi muitas vezes imposto um modelo de gestão que implica a recuperação simultânea de áreas já esgotadas das pedreiras e também aqui se desenvolveram muitas técnicas e modelos de gestão que culminaram em recuperações de extensas áreas de pedreiras pelos seus exploradores. Retirar as áreas de pedreira da área protegida não tinha tido qualquer benefício, e mantê-las dentro da área protegida permitiu uma gestão muito mais cuidada (o que não é o mesmo de dizer que é isenta de erros, muitos foram cometidos, e por alguns deles sou o responsável directo, dizendo com clareza que provavelmente há património natural que hoje não existe por minha responsabilidade).
Muitas vezes vi negadas propostas minhas para desenvolver programas de visitação orientados para as áreas de exploração de pedra exactamente porque se entendia (provavelmente com alguma razão) que canalizar visitação para essas áreas criava mais problemas à gestão da área protegida que os que ajudava a resolver.
Mas continuo convencido de que é preciso levar as pessoas a essas áreas, discutir o que lá se faz, discutir as razões de cada um e permitir aumentar o grau de compreensão do público face à gestão de situações limite como esta, onde o conflito de interesses públicos divergentes é muito agudo.
henrique pereira dos santos

Sexta-feira, Janeiro 29, 2010

Prioridades no Ambiente

Saiu esta semana o Índice de Desempenho Ambiental das Universidades de Yale e Columbia (The 2010 Environmental Performance Index - EPI). Este Índice analisa dez categorias de políticas ambientais em 163 países com base em 25 indicadores (ver http://epi.yale.edu/). Portugal, embora recuando face à posição do ano passado situa-se, no segundo grupo de desempenho ambiental numa relativamente confortável 19ª posição, em linha com a maioria dos países Europeus.

(http://epi.yale.edu/file_columns/0000/0045/alphacountryprofiles_epi2010_complete.pdf)

Os dados mostram aquilo que em princípio já sabíamos. Nas políticas relacionadas com a água, o saneamento básico e actividades associadas está praticamente tudo feito (falta repensar a eficiência do modelo institucional de gestão, mas isso a este nível são detalhes), assim como nas políticas de protecção da Biodiversidade e redução de impactos sobre os Ecossistemas estamos ao nível do pior que é conseguido pelos nossos parceiros da União (e mesmo atrás de muitos países em desenvolvimento…).

Daqui, torna-se óbvio (se é que já não o era) que pensar numa política de Ambiente em Portugal obriga a equacionar prioritariamente o que fazer para garantir o reforço da Vitalidade dos Ecossistemas no território nacional. Bom desafio para o Ano Internacional da Biodiversidade que agora começa.

João Menezes

Quinta-feira, Janeiro 28, 2010

Preservando um lugar para a ciência na era da democracia


Sugestão de leitura: "How should scientific advice be incorporated into the political decision making process? Even experts can't keep up with the torrent of studies published in their own field, and, supposedly, scientific issues—from climate change to biodiversity loss—have obvious political components. How is advice treated in an age when experts are increasingly viewed with suspicion and distrust?"

Ler notícia completa aqui

"Hesito por momentos e uma amargura me submerge inconsolável"

Ler hoje o Público, depois de ter escrito o post de ontem, poderia ter-me dado alguma satisfação decorrente de aparentemente não ter dito muitas asneiras numa área que não é a minha.
Mas não, foi um nó na garganta que foi crescendo.
O défice que se reduz com as receitas extraordinárias das concessões das barragens (e o movimento ambientalista a falar de património natural importante que desaparece, a discutir a racionalidade económica de investir em produzir mais em vez investir em ser mais eficiente, mas a deixar de lado a questão essencial da opção política pelo endividamento) e venda de património (explicitamente edifícios, terrenos, habitações e outros bens de investimento).
A dívida, com juros a crescer nos próximos anos, das obras não essenciais muitas vezes contestadas pelo movimento ambientalista apelidado de inimigo do desenvolvimento pelos que prometiam o paraíso na Terra através de Alqueva (mais 11% da verbas do PRODER para afundar neste lago), auto-estradas para desencravar o interior (encravado também pelo desvio dos 11% das verbas do PRODER gastas em Alqueva), Pólis e outras coisas.
Discussões sobre o excesso de construção na Matinha e o destino dos hospitais de Lisboa, com o Estado central a pedinchar 9,5 hectares de terreno às autarquias, como se a localização de um novo hospital fosse uma questão de disponibilidade de terrenos em abstracto e não de necessidade de pessoas concretas.
O pior ano da procura na aviação comercial em mais de cinquenta anos, que não levanta dúvidas aos que se recusam a discutir a proposta de manter a Portela e ir crescendo noutros lados à medida das necessidades, como há muito propõe a generalidade do movimento ambientalista, porque o futuro só será risonho com mais uma obra fundamental e estruturante. Provavelmente porque isso pode não ser do interesse da TAP e o Estado precisa do dinheiro da sua privatização, em mais uma demonstração da captura do Estado pelos interesses sectoriais.
A empresa que fazia os despejos que cortaram a CREL por semanas e que ao mesmo tempo construía e pagava uma estrada para a Câmara Municipal da Amadora (a quem com certeza falta o dinheiro para fazer as estradas necessárias nos sítios adequados).
Mas o que verdadeiramente me arrumou foi ver o gráfico que reproduzo acima e ver como os efémeros ocupantes do poder negociaram as concessões das estradas de forma a que até 2013 as contas sejam baixinhas e simpáticas e depois das eleições que se farão nesse ano quem as ganhar (provavelmente por falta de comparência dos adversários) que resolva a súbita e incompreensível subida das rendas, que liquidarão qualquer hipótese do Estado decidir do destino dos nossos impostos durante muito tempo.
Nessa altura será inútil votar porque não há liberdade para decidir: quem quer que seja o incumbente só terá como alternativas pagar as dívidas das obras dos outros (se tiver com que), independentemente de cumprirem os objectivos para que foram construídas ou abrir falência.
No fundo deixámos de nos preocupar em viver com o que temos e alguma coisa que herdámos (isto é, o que sobrou da riqueza que antes de nós foi criada) e passámos a usar os recursos dos nossos filhos prometendo-lhes que com o que lhes tiramos hoje lhes vamos deixar uma herança fabulosa.
Com este passe de mágica livramo-nos da responsabilidade dos riscos que assumimos, empurrando o risco para os nossos filhos, o que aliás é muito conveniente porque eles não podem protestar.
Escolhi uns versos de Jorge de Sena para título e fui simplesmente verificar como o desespero e a angústia podem apesar de tudo ser tão bonitos. Especialmente quando a música ouvimo-la nós mas o desespero é o dos outros.
Infelizmente parece ser exactamente o contrário do que nos espera daqui a poucos anos.
henrique pereira dos santos

Quarta-feira, Janeiro 27, 2010

A ambiente e as contas do Estado


A cada novo Orçamento de Estado procura-se uma análise ambiental.
Infelizmente essa análise costuma partir de dois princípios que estão por demonstrar:
  1. o Estado é o grande actor em matéria ambiental;
  2. o carácter ambiental do Estado pode ser aferido pela dimensão e conteúdo das rubricas estritamente ambientais.
Há muito tempo que penso que a abordagem da generalidade do movimento ambientalista ao processo de decisão pública é deficiente.
Comecei a ter mais consciência desse facto na discussão sobre as razões que levaram Cavaco Silva a optar pela ponte do Montijo em detrimento da ponte do Barreiro (uma decisão ambiental e territorialmente completamente errada).
A generalidade do movimento ambientalista protestou contra os interesses obscuros e coisas que tal. Eu procurei argumentar que a questão decorria da falência progressiva do Estado português (na altura não usei esta ideia de forma explícita, mas o que disse na altura é para mim enquadrável neste processo).
O que estava em causa era a necessidade que o Governo sentia de fazer a obra, mas ao mesmo tempo não agravar o défice, razão pela qual aquela ponte foi a primeira feita em project finance (que agora se identifica melhor como parcerias público privadas). Nesse tipo de projectos o risco é uma questão central e a certeza (técnica e de tráfego) associada à construção da ponte no Montijo (exclusivamente rodoviária) era muito maior que em relação à ponte (rodo-ferroviária) do Barreiro.
Mais tarde tentei por diversas vezes influenciar posições ambientalistas sobre projectos, nomeadamente de estradas, por via da discussão da sua fundamentação económica (incluindo as delirantes previsões de tráfego em que muitas se baseiam).
E repetidamente tenho chamado a atenção para o facto da opção por parcerias publico privadas depender cada vez menos do value for money que da necessidade política de obra sem agravamento do défice (na realidade só se justifica fazer parcerias publico privadas quando a eficiência da gestão privada de um projecto é superior ao custo suplementar do crédito, por via do risco menor do Estado, da remuneração dos capitais e por aí fora. Para isso acontecer todo o risco tem de estar do lado do privado porque é esse risco que o leva a ser o mais eficiente possível na aplicação dos recursos).
Ora o que tem acontecido é que nós fazemos parcerias publico privadas por razões políticas e orçamentais, sem que daí resulte outra coisa que não seja o aumento da capacidade de fazer obra (uma questão politicamente importante) porque atiramos com o pagamento para as calendas (quem vier atrás que apague a luz).
Não se pense que este processo não tem efeitos reais na nossa capacidade de decidir sobre a qualidade do nosso quotidiano.
Só para dar um exemplo, o garrote do endividamento que liquida toda a liberdade de escolha no investimento público, traduz-se no facto do Estado prescindir de usar os seus bens imobiliários para garantir qualidade do espaço urbano, transformando-os no que a cidade precisa, para, pelo contrário, passar a patacos, os quartéis nas melhores localizações, os hospitais que abandona, as escolas de que não precisa, as lisnaves, as siderurgias, as cufs que tem nas mãos.
A fraude do Pólis, um programa de especulação urbana disfarçado de qualificação ambiental é, desse ponto de vista, paradigmático.
Por isso o Estado se entretém a vender licença, isto é, autorizações em sítios e circunstâncias que não o aconselhariam, com o argumento do desenvolvimento económico.
Desse ponto de vista, este Orçamento do Estado é tenebroso para a política ambiental do país, mesmo que tenha benefícios fiscais para os vidros duplos e para o isolamento dos telhados, que é bom, sem dúvida, mas é muito menos que dar um chouriço em troca de uma vara de porcos inteira.
A dívida do Estado é a maior ameaça ambiental que o país tem.
henrique pereira dos santos

Terça-feira, Janeiro 26, 2010

Erradicar para conservar

Foto de Jan Buys, tirada no Alvão em 2003


A semana passada, recebi de um amigo um e-mail com uma listagem das espécies que tinha observado durante uma saída de campo que tinha feito às lagoas de Chaves, existente junto ao Rio Tâmega, entre algumas espécie como a Andorinha-do-mar, o Mergulhão-pequeno, a Garça-real ou Aves-frias, apareceu um mamífero, o Visão-americano (Mustela vison).

É sempre bom ver uma espécie rara, contudo esta é uma espécie exótica e o seu carácter invasor e oportunista poderá ter um impacto negativo nos sistemas aquáticos. Não me admirava nada que muitas espécies de aves que nidificam nesta zona (regionalmente uma área importante para avifauna aquática), possam vir a sofrem impactos directos (e.g. predação) ou indirectos (e.g. perturbação ou efeito repulsa) face à sua presença.

Não sendo eu especialista em aves, a minha maior preocupação é sobre o impacto que esta espécie exótica e invasora possa provocar sobre a Toupeira-de-água (Galemys pyrenaicus) espécie de mamíferos classificada como Vulnerável (LVVP), pertencente ao anexo B-II e B-IV da Directiva Habitats, endémica da Península Ibérica e Pirenéus e presente na Bacia do Tâmega.De facto uma das ameaças identificada no PSRN200 é a introdução e expansão de espécie animais não autóctones, nomeadamente os potenciais predadores da Toupeira-de-água (e.g. Visão americano e Lúcio), deste modo uma das orientações de gestão referida no mesmo Plano é controlar introduções furtivas de espécies animais exóticas e controlar ou erradicar as populações já introduzidas.

A erradicação de qualquer espécie (de fauna, já a flora é outra conversa) é sempre questionável e polémica, mas será que vamos perder a oportunidade para resolver o problema em quanto temos algum controlo?


Paulo Barros

o polvo



Acerca de teorias da conspiração em geral, que parecem fazer algum sucesso, também no meio ambientalista; e de uma em concreto, particularmente rebuscada, publicada ontem na lista Ambio sobre um suposto sismo (?) que recentemente abalou o Haiti...

Este mês, é a segunda vez que me roubam galinhas. Decidi montar guarda, para ver se descubro o culpado. Ou melhor, eu sei quem é o culpado... apenas quero provar quão certo estou, para não se rirem mais da minha cara, na tasca da aldeia. Coitados. Boa gente, sempre pronta a acreditar em respostas simplistas para tudo o que acontece. Não veem para lá do visível! A meio da noite, o inusitado e frenético cacarejar vindo do galinheiro faz-me saltar da poltrona. Da janela embaciada, nada se vê. Saio em passos corridos rumo à escuridão, por entre a pequena vinha, e vejo raios de luz riscarem o céu. Estrelas cadentes, chamam-lhes alguns, mas eu sei lá o que mais inventaram... dos aviões auto-pilotados que espiam tudo, aos satélites que, do céu, conseguem ler as páginas dos jornais que eu, no alpendre da casa, folheio... Eu sei lá! O imperialismo usa os mais maquiavélicos meios de controlo para tudo e todos vigiar. É como um enorme polvo, inócuo, com infinitos tentáculos que percorrem cidades, vilas e aldeias de todo o mundo, abrem portas, ouvem as mais silenciosas conversas, matam incómodas personagens. Move supostos poderes, que mais não são do que seus testas de ferro. Pinta de diabo os santos que escolhe aniquilar. Monta o cenário e, com bombas ocultas no fundo do mar, ceifa agora a vida a muitas dezenas de milhares de inocentes. Os seus tentáculos percorrem agora as ruas de Port-au-Prince. Por entre corpos inertes, entulho e desgraça, sugam o fruto do seu veneno.

O breu da noite sem luar não me deixa ver para além do escuro. Volto para casa. Embrulho-me em dois cobertores. Tenho frio. Muito frio. A luz dos carros, que fazem a curva da estrada, penetra pela janela da pequena sala. As paredes brancas da sala, são pontualmente percorridas por pequenos mas assustadores quadrados iluminados. Parecem olhos que me observam e não me deixam dormir. De madrugada, menos duas galinhas no meu galinheiro. Na vinha, coberta de geada da invernia, nem o cantar dos pássaros se ouve. Silêncio. Apenas um vulto de uma raposa que corre como se tivesse visto o diabo, por entre as videiras já podadas. Um dia destes provo a certeza da minha suspeita. Aos simplistas, porque para mim há muito que deixou de ser preciso.

Gonçalo Rosa

Segunda-feira, Janeiro 25, 2010

Fabricar caro ou importar barato?

neste post me tinha referido ao facto da importação de electricidade implicar menos custos que a sua produção a partir de eólicas (em rigor com quase todas as outras fontes também, em grande parte do dia), pelo menos aos níveis actuais dos preços de petróleo.
Acho que vale a pena discutir isso, clarificar isso, não embarcar na propaganda de que se pouparam não sei quantos milhões em importações quando de facto se gastou mais para produzir a mesma quantidade de energia.
Mas também acho que vale a pena combater a ideia do outro extremo de que se está perante um absurdo mais que demonstrado e coisas que tal, como faz o ciência não é neutra.
Há um preço, convém defini-lo com clareza, trocamo-lo por um almoço e o que temos a discutir é se o almoço vale o preço, com racionalidade e frontalidade.
A demonstração (pelo menos é assim que o seu autor lhe chama) do absurdo eólico é feita com base em preços de uma situação concreta que o autor extrapola com base em inferências mais que duvidosas, usando correlações climáticas escandinavas, por exemplo, usando dias concretos para tirar ilações gerais e coisas do género.
Não pretendo demonstrar que o autor da demonstração está errado.
Só pretendo expor dúvidas sobre os seus cálculos, deixando aqui dois gráficos e uma figura: o primeiro gráfico compara a situação demonstrativa usada (um dia concreto, a azul) com a média dos preços ao longo do ano (para ver a sua representatividade), o segundo dá uma visão dos preços spot de todo ano de 2009 e mais uns dias de 2010 (os dias mais próximos estão à esquerda, como a situação dita representativa, o dia 1 de Janeiro de 2009 está à direita) para se ter a noção do que representa a situação que se pretende demonstrativa e a figura mostra a situação das albufeiras em Dezembro de 2009, que se pretende que seja demonstrativa da tal situação absurda, quando na verdade está bastante acima da média.
Volto a repetir, são dúvidas de ignorante.




henrique pereira dos santos

Ano Internacional da Biodiversidade

Artigo publicado no Público de 24 de Janeiro, com alterações pontuais, sobretudo no primeiro parágrafo, que a minha negligência deixou que saísse para publicação com um português horrível
Ex.ma Srª Ministra do Ambiente e cara Dulce Pássaro (espero que não se ofenda com este tratamento em memória do tempo em que nos cruzámos no Ministério do Ambiente quando eu insistia em que o aterro do Caldeirão deveria ser precedido de uma análise de incidências ambientais à luz do direito comunitário. Do seu lado respondiam que não havendo ainda transposição da directiva habitats, embora por responsabilidade do Estado Português, não era obrigatório ouvir o sector onde eu trabalhava pelo que se avançaria com o projecto, sem análise de incidências ambientais, para cumprir o calendário político).
Li com atenção o seu artigo do Público de 15 de Janeiro apelando a que todos os que queiram assinalar este Ano Internacional da Biodiversidade se juntem à sua aposta.
Respondendo a esse apelo aqui estou.
Nos muitos anos que passei no Ministério do Ambiente, reparei que a falta de sensibilização para a Biodiversidade de que fala, e bem, a Sr.ª Ministra não era um grande problema no público, não o era, salvo algumas excepções, nos promotores, mas era muito evidente nos decisores públicos aos mais variados níveis.
Conhece tão bem como eu essa situação, portanto não preciso de lhe lembrar o efeito de se ter contratado especificamente um Presidente da Comissão de Avaliação de Impacte Ambiental da Barragemdo Sabor cuja sensibilidade está bem expressa nos comentários que foi fazendo aos pareceres técnicos emitidos.
Não preciso também de lhe lembrar a falta de sensibilidade do decisor da barragem de Odelouca, que com a pressa do calendário político lançou um concurso de concepção construção de uma barragem (foi a primeira vez que tal vi), muito antes de decididos todos os aspectos em discussão em matéria de biodiversidade, do que resultaram atrasos e custos brutais para o processo.
Não preciso de lhe lembrar as mentiretas dos responsáveis pelas Estradas de Portugal, que com falta de dinheiro para fazer uma estrada em Vimioso decidiram inventar que o problema era o rato de cabrera.
Não preciso de lhe lembrar as várias auto-estradas com concessões atribuídas sem estarem acabados os estudos ambientais, de que resultaram alterações de traçado em que a posição negocial do Estado estava completamente enfraquecida, optando os responsáveis por culpar os lobos, em vez da sua incompetência, para justificar os milhões de sobrecusto.
Não preciso de lhe lembrar as campanhas públicas do Sr. Presidente da AICEP (e organismos antecedentes) responsabilizando a biodiversidade pelos atrasos na aprovação de projectos que, tal como foram apresentados, violavam grosseiramente a lei, com o objectivo de pressionar a decisão e enfraquecer os organismos e os técnicos responsáveis pela salvaguarda da biodiversidade.
Não preciso de lhe lembrar os anúncios públicos de projectos, protagonizados pelo Sr. Primeiro Ministro, mesmo antes das avaliações ambientais, numa clara demonstração da insensibilidade que tão bem caracteriza no seu artigo:
Não é que alguém se afirme contra a natureza ou não amigo da biodiversidade. Em abstracto todos a apreciam. Mas quando em concreto se trata de fazer as dificeis opções entre outros valores, outros projectos, e a biodiversidade, aí surge facilmente a rejeição da opção de conservar.”
Dificilmente se poderia dizer de melhor maneira.
Por isso venho oferecer-lhe a minha proposta: organizar umas sessões de sensibilização no início do Conselho de Ministros para a qual levarei um caso concreto e o seu desenvolvimento após a decisão, o seguimento no contencioso comunitário e o que a falta de sensibilidade para a biodiversidade custou ao uso eficiente dos recursos, ao bolso dos contribuintes e, sei que para si não é um detalhe, à biodiversidade.
Não sei de acção mais barata que tenha um potencial positivo tão grande como esta dirigida exactamente para onde a falta de sensibilidade é mais evidente e onde mais falta faz.
Seria uma belíssima maneira de assinalar o Ano Internacional da Biodiversidade.
henrique pereira dos santos

Domingo, Janeiro 24, 2010

U.S. Feeds One Quarter of its Grain to Cars While Hunger is on the Rise

by Earth Policy Institute on January 22, 2010

The 107 million tons of grain that went to U.S. ethanol distilleries in 2009 was enough to feed 330 million people for one year at average world consumption levels. More than a quarter of the total U.S. grain crop was turned into ethanol to fuel cars last year. With 200 ethanol distilleries in the country set up to transform food into fuel, the amount of grain processed has tripled since 2004.

The United States looms large in the world food economy: it is far and away the world’s leading grain exporter, exporting more than Argentina, Australia, Canada, and Russia combined. In a globalized food economy, increased demand for food to fuel American vehicles puts additional pressure on world food supplies.

From an agricultural vantage point, the automotive hunger for crop-based fuels is insatiable. The Earth Policy Institute has noted that even if the entire U.S. grain crop were converted to ethanol (leaving no domestic crop to make bread, rice, pasta, or feed the animals from which we get meat, milk, and eggs), it would satisfy at most 18 percent of U.S. automotive fuel needs.

Ethanol Demand, Rising Food Prices, and Hunger

When the growing demand for corn for ethanol helped to push world grain prices to record highs between late 2006 and 2008, people in low-income grain-importing countries were hit the hardest. The unprecedented spike in food prices drove up the number of hungry people in the world to over 1 billion for the first time in 2009. Though the worst economic crisis since the Great Depression has recently brought food prices down from their peak, they still remain well above their long-term average levels.

The amount of grain needed to fill the tank of an SUV with ethanol just once can feed one person for an entire year. The average income of the owners of the world’s 940 million automobiles is at least ten times larger than that of the world’s 2 billion hungriest people. In the competition between cars and hungry people for the world’s harvest, the car is destined to win.

Continuing to divert more food to fuel, as is now mandated by the U.S. federal government in its Renewable Fuel Standard, will likely only reinforce the disturbing rise in hunger. By subsidizing the production of ethanol, now to the tune of some $6 billion each year, U.S. taxpayers are in effect subsidizing rising food bills at home and around the world.

For more information on the competition between cars and people for grain, see Chapter 2 in Plan B 4.0: Mobilizing to Save Civilization (New York: W.W. Norton & Company, 2009), on-line for free downloading with supporting datasets.

Neutro, seguramente não, ciência, talvez



O blog nuclearista A ciência não é neutra é um blog a que vou de vez em quando aprender umas coisas.

Vou menos do que iria se não tivesse alguma dificuldade em lidar com pessoas que insultam os outros com a maior das facilidades mas demonstram uma hiper-sensibilidade à menor crítica que lhes seja feita.

Como acontece com a generalidade dos nuclearistas, a crítica às energias renováveis é uma constante. É uma crítica muitas vezes justa, e partilho com aquele blog alguma apreensão pela ideia instalada de tudo o que é renovável é bom e o que é preciso é andar (talvez por ouvir no fundo dessa argumentação o eco do para Angola em força que a pátria não se discute, agora substituído por renováveis).

Também acho que é preciso discutir o preço dessa política e tenho poucas dúvidas de que na sua base não está qualquer preocupação ambiental mas sim o facto das renováveis serem um meio fácil de captar investimento sem aumentar o défice. E embora com algum prejuízo da competitividade, a política compensa porque isso da competividade é coisa mais difícil de dar por ela e pode sempre dizer-se que são os empresários que são maus.

Mas o conjunto de posts sobre o facto de pontualmente se estar a produzir energia a um preço de 9 cents o kWh e a entregar de graça a Espanha merece alguns comentários de um ignorante como eu, que não comento lá no sítio dada a tendência do dono do blog se sentir insultado por dá cá aquela palha.

O essencial da questão é que em algumas alturas chove muito, venta muito e há pouco consumo. Nessas alturas, como o comprador está obrigado a comprar toda a electricidade eólica produzida, ele é obrigado a entregá-la em qualquer lado. Como não há consumo suficiente em Portugal, entrega ao lado. Mas como ao lado estão com o mesmo problema, e não precisam da energia, aceitam-na, mas de graça.

Onde começam as minhas perplexidades?

Em primeiro lugar no facto do autor do blog deixar entender que toda essa energia está a ser produzida a 9 cents por kWh, o que me parece que não será bem assim porque aqui estará incluída alguma energia produzida de outra forma (hídrica, por exemplo).

Depois, porque daria a impressão de que durante todo o tempo em que isso acontece a exportação seria a custo zero (enfim, num post mais à frente lá se fala da exportação em horas de cheio, que será a 5 cents, e há pelo meio um diagrama que mostra variações diárias).

Também não percebo por que razão se escolhe como diagrama demonstrativo um que diz respeito a um Domingo.

E tenho ainda dificuldade em perceber como se tiram conclusões gerais de uma situação particular (todos os dias há produção de muitos outros bens que não se vendem, desde bilhetes de avião, a quartos de hotel a outros menos perecíveis, como bananas), em vez de se fazer a análise global da questão.

Reparo ainda, que com certeza por distracção, quando se demonstra a correlação entre precipitação e vento se esquece a frase final do gráfico: essa correlação é particularmente verdadeira para barragens sem albufeira. Claro que pegar em correlações climáticas escandinavas e aplicá-las em Portugal é um detalhe, no meio disto tudo, incluindo essa coisa da irregularidade das chuvas nas nossas condições, que faz com que haja muitos anos em que faz vento, chove, mas ainda assim muitas albufeiras (que muitas vezes são de regularização inter-anual) estão muito menos que cheias.

Enfim, estou de acordo na necessidade de discutir o preço da política das renováveis (nomeadamente face à apatia perante a eficiência energética), estou de acordo na necessidade de introduzir racionalidade económica e etc..

Mas quando vejo tantas coisas a levantar-me dúvidas sobre a forma como um nuclearista lida com as renováveis fico com a sensação de que talvez as renováveis sejam mais competitivas do que parece à primeira vista, sobretudo face ao nuclear.

Mas isto é um ignorante a falar, claro.

henrique pereira dos santos

business as usual ?



Há algumas semanas atrás, a SPEA lançou um inquérito ao sócios sobre qual deveria ser a ave do ano. Existiam três propostas disponibilizadas, uma das quais a Cegonha-preta. Como existiam vários erros na página daquela espécie, publicada no website da SPEA, entendi contactar o Director Executivo da SPEA, Luís Costa. Eis a troca de e-mails:

04.01.2010
Olá,
Para além de outras incorrecções/imprecisões no texto aqui publicado, chamo à atenção que o nome ciêntífico da Cegonha-preta não é, evidentemente, Phoenicopterus ruber...
Gonçalo Rosa

05.01.2010
Obrigado, Gonçalo, já mandei rectificar o nome, e a o parágrafo das ameaças fica assim, vê lá o que achas:
A Cegonha-preta encontra-se em perigo?
Esta espécie está classificada com o estatuto de ameaça de “Vulnerável”, pelo Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal, enfrentando algum risco de extinção na natureza.
As maiores ameaças à sua sobrevivência são a perturbação humana, especialmente devido a actividades de recreio e de turismo em áreas de nidificação. A colisão com linhas eléctricas é também uma ameaça a considerar.
Abraço
Luís

05-01-2010
Olá,
Não há nenhuma informação que suporte a afirmação que a colisão com linhas eléctricas é uma ameaça a considerar. As principais ameaças são a perda de habitat de nidificação (p. ex. construção de barragens) e a perturbação humana em áreas de nidificação e de concentração pós-nupcial (p. ex. actividades de recreio e de turismo, actividades florestais, entre outras).
1 abraço,
Gonçalo

Depois deste email, não recebi resposta/contestação ao que afirmei. O primeiro erro que apontara foi corrigido, o restante, não.

Hoje, no Público (ver aqui), fiquei a saber que a Ave do Ano eleita pela SPEA foi mesmo a Cegonha-preta. A notícia cita a SPEA, referindo que “A maior ameaça à sua sobrevivência é a perturbação humana, especialmente devido às actividades de recreio e de turismo em áreas de nidificação. A colisão com linhas eléctricas, a florestação com espécies exóticas e a poluição dos rios e ribeiras são também ameaças consideráveis”.

Tendo trabalhado vários anos, enquanto técnico do então ICN, precisamente com Cegonha-preta, não seria razoável a SPEA questionar a pertinência da minha correcção contrapondo-a com evidências ou provas do contrário, assim sustentando o que insistem em afirmar? Em busca de resposta para esta insistência e silêncio, não encontro nada de muito agradável. Deve ser da minha mente perversa, ferina e sempre desconfiada da candura natural das coisas...

Gonçalo Rosa

Sábado, Janeiro 23, 2010

Para quê estar a moer a QUERCUS?


"Para que serve este post?"
José Rui, num comentário ao post, não se conforma com o facto de eu criticar a QUERCUS, quando para dizer mal da QUERCUS há tanta gente.
Eu diria que esta análise da utilidade da crítica em função de uma hierarquia de objectivos é tipicamente leninista. Ou melhor, nunca começando por aí, serve muito bem qualquer totalitarismo.
Para mim a crítica não tem outro objectivo que não seja corrigir um erro, não entro com outro tipo de considerações, como seja o facto de quem faz asneiras ser meu amigo, me dar geito ou ter objectivos semelhantes aos meus.
Portanto o post não serve para realmente mais nada que não seja manifestar a minha discordância em relação ao abuso da utilização dos fenómenos meteorológicos para discussões climáticas.
Digo-o em relação ao Insurgente e digo-o em relação à QUERCUS.
Para moer a QUERCUS?
Não, para que a QUERCUS não moa o esforço de racionalidade na discussão.

henrique pereira dos santos

Sexta-feira, Janeiro 22, 2010

QUERCUS e Insurgente: a mesma luta, a mesma falta de juízo


Este comunicado da QUERCUS é de fazer chorar as pedras.
Anda para aqui uma pessoa a ver se põe um bocadinho de juízo na cabeça dos negacionistas que confundem meteorologia com clima e a QUERCUS entretem-se a dar-lhes argumentos com parágrafos de antologia como estes:
"Na opinião da Quercus, as últimas semanas em termos meteorológicos em Portugal são sinais ou sintomas de uma alteração climática caracterizada por eventos meteorológicos extremos. O que se passou imediatamente antes do Natal na Região Oeste, o facto de Dezembro ter sido o mês mais chuvoso deste século, o ter-se passado de uma situação de seca meteorológica e de valores relativamente baixos de armazenamento das albufeiras, em comparação com a média, para uma situação de pleno armazenamento em muitos casos, são uma demonstração de uma maior irregularidade do clima.
Soube-se também agora que de acordo com a Direcção Geral de Saúde, no Verão de 2009 - ano em que as ondas de calor tiveram o seu início mais cedo – morreram precocemente mais mil pessoas. Os custos, só para o Estado, parecem ascender a mais de 80 milhões de euros, sem contar com os enormes prejuízos em termos de agricultura, edificações e infra-estruturas."
Francamente.
Amanhã estará bom para surfar de manhã ou as alterações climáticas mudaram o swell para a tarde?
henrique pereira dos santos

Quinta-feira, Janeiro 21, 2010

A avó do Eduardo


Neste post, Eduardo F. fez um comentário muito interessante:
"E não há dúvida que o pão que a minha avó materna fazia, com o trigo que ela ajudava a semear, na terra previamente arada com a ajuda do macho em terra de sequeiro e que ela própria depois ceifava, pão cuja massa ela mesma amassava à luz da lamparina de azeite, no forno de lenha que ela própria apanhava, era incomparavelmente melhor que qualquer sucedâneo hoje existente.Os seus netos adoravam o pão que fazia. Eu era um deles. Era, não haja dúvidas, um pão ambientalmente sustentável.Tenho, naturalmente, uma nostalgia especial por aquele pão (e filhó, e folar!) - oh, como gostaria de comer um bocado agora mesmo! -, mas ainda bem que aos meus pais e à minha geração não coube sorte igual à da minha avó. Tudo farei para que o mesmo continue a acontecer aos meus filhos."
O primeiro comentário é de que é muito interessante esta ideia maniqueísta de que temos de optar pelo que existe agora ou pelo que existiu antes. Nem por uma vez Eduardo F. parece vislumbrar duas hipóteses alternativas a estas: o que existe hoje ser impossível de manter; o que virá amanhã de diferente poder não ir no sentido do que já existiu. Ou dito de outra forma: o futuro é mesmo incerto e a única certeza é a de que não será apenas a projecção do passado.
O segundo aspecto interessante é a ideia de que a miséria (ou, sendo menos radical, a frugalidade) é sempre sustentável. Nada de mais incerto. Tudo se poderia passar exactamente como o descrito e o passado ter sido insustentável, bastando para isso que a lavoura fosse feita nos sítios errados, com as técnicas erradas, que o consumo de lenha estivesse acima da capacidade de reposição natural (situação frequente em muitos países pobres e que, a espaços, terá acontecido em algumas zonas de Portugal no tempo da avó do Eduardo), etc..
Terceiro e mais interessante: a avó do Eduardo só podia competir no mercado pelo preço, porque ninguém valorizava o que resultava do seu esforço, mas hoje seria possível que Eduardo estivesse disposto a pagar a diferenciação do produto, remunerando de forma totalmente diferente o trabalho de quem hoje esteja disposto a fazer de forma diferente. Sim, é um nicho de mercado muito pequeno, mas para o produtor que não pode competir pelo preço porque as suas condições naturais (ou sociais, mas apesar de tudo estas podem resolver-se de outra maneira) não lhe permitem ter elevadas produtividades, ter o Eduardo disposto a pagar a elevada diferenciação pode ser a diferença entre persistir ou desistir (off topic, desistir nas nossas condições não significa parar, significa evoluir de forma diferente, por exemplo, com um padrão de fogo socialmente muito mais complicado).
Quarto aspecto interessante: no longo prazo o preço da energia tenderá a subir. Isso vai implicar a reformulação da economia, beneficiando a produção que incorpora menos energia e prejudicando a que incorpora mais energia. Significa isto que vamos todos retornar ao modelo de produção da avó do Eduardo? De maneira nenhuma, hoje sabemos mais do que sabíamos sobre como produzir diminuindo a intensidade energética (os romanos já conheciam o moinho hidráulico mas nunca o usaram de forma extensa porque o trabalho escravo era um entrave à sua expansão, que só se deu na Idade Média quando a escassez de braços para a produção criou as condições para integrar totalmente esta inovação no processo produtivo).
Sendo assim, o que resultará desse processo?
O futuro.
Mesmo que algumas pessoas queiram ficar agarradas a um passado de grandezas reais e imaginárias que se tornaram entretanto impossiveis de sustentar.
Há tantos exemplos na história sobre o futuro dos reaccionários (sem juízos de valor, reaccionários no sentido etimológico, os que reagem à mudança).
henrique pereira dos santos

Quarta-feira, Janeiro 20, 2010

Rolhas

Chegou ao meu email esta carta de um produtor florestal ainda sobre a história das rolhas e tampas de rosca no vinho.
Achei que valia a pena retomar o assunto enquanto espero uma resposta de Miguel Champalimaud à carta que lhe escrevi.
henrique pereira dos santos

"Pela Felipa Arantes Pedroso que é uma amiga comum recebi um texto redigido pelo Miguel Champalimaud sobre Screw Top / Rolhas de Cortiça / Quinta do Cottô, que defende algumas posições técnicas assumidas pela casa vinícola Montez Champalimaud a nível da adopção de vedantes para os seus vinhos. Pareceu-me contudo a mim, essencialmente pelo tipo de argumentação empregue, que o texto acima de tudo demonstra muito mais uma curiosa forma de pensar e estar na vida da pessoa física em questão.
Pede o Miguel Champalimaud debate, respostas e comentários para animar o País mas, será que o que o subscritor do documento pretende não é tão-somente polémica e propaganda grátis que o ajudem a escoar o seu produto que, pelo que se diz, tem vindo a ter uma significativa queda nas suas vendas tanto no mercado Nacional como no Internacional?
Como entretanto ninguém lhe respondeu apesar dos seus apelos, o que eventualmente seria o mais sensato a fazer-se, achei por bem ser eu a dizer algumas coisas para que as pessoas, de uma maneira geral, não ficassem com uma única visão da questão, que ainda por cima na versão Miguel Champalimaud, no meu ponto de vista, se apresenta incompleta, distorcida, tendenciosa e desactualizada.
Mesmo para quem possa defender que “à excepção da honra, tudo se vende” não será possível negar que, sem verdade, a honra sai sempre menorizada; e a discussão sobre a cortiça precisa de mais verdade.
Assim, vamos lá:
Em primeiro lugar gostaria de dizer, para aqueles que não me conhecem, que sou Português, tenho mais de 50 anos, sou Produtor Florestal (cortiça inclusive), pertenço a uma família que há 6 gerações está neste negócio e que me considero razoavelmente informado sobre a questão que o MC levanta. Nunca organizei, apoiei ou participei em qualquer boicote organizado á compra de vinhos com tampas de rosca de alumínio mas entendo perfeitamente todos aqueles que o façam. Faço-o particularmente e pelo que sei, muitos outros (e cada vez mais), sem estarem engajados em nenhum movimento organizado, também o fazem.
A razão porque o faço? Simples. Por que carga de água iria privilegiar um produto sem fronteira, poluidor, que não traz nenhuma riqueza a Portugal e aos Portugueses e que ainda por cima corta os dedos ao ser utilizado quando, em Portugal, existe um produto que faz melhor a sua função, é natural, reciclável, amigo do ambiente e que gera uma riqueza enorme para o meu País. Só se fosse doido.
Em segundo lugar é importante que seja também dito que na sua missiva e em alguns pontos (poucos) o MC tem razão. Dentro destes destaco a sua menção á passividade e mesmo irresponsabilidade dos produtores de cortiça que pelo seu individualismo nunca quiseram assumir a sua cota parte na defesa do sector em que estão inseridos. Mas mesmo com essa atitude Portugal graças ao Grupo Amorim (e é bom que se diga isso) é líder mundial neste sector e se eventualmente as repartições dos proveitos e das responsabilidades desta situação podem ser questionáveis não é menos verdade que por exactamente existir essa situação os próximos anos estão garantidos para toda a fileira da cortiça. É essa a situação também nos vinhos da casa vinícola Montez Champalimaud? Espero que sim sinceramente pois não desejo gratuitamente mal a ninguém e muito menos a um Produtor de vinhos Português.
O MC para justificar as suas decisões aponta as suas baterias ao “bando” com especial ênfase no problema do TCA/sabor a rolha.
Começava então exactamente por ai.
A- Facto número 1: Tem a ver com o crítico de vinhos número 1: Robert Parker.
MC, que diz ser “a favor da modernidade”, poderia ter lido as últimas declarações de R Parker no seu blog, uma forma moderna de obter informação actualizada. Assim, em vez de cometer o erro de repetir afirmações feitas em 2004, poderia ter acesso às declarações do mês passado em que Robert Parker diz que “the tiny percentage of corked bottles (TCA) confirms what I have been seeing for the last 3-4 years...that industry has awakened following the decline in cork quality…less then 1% of corked bottles”. As palavras de Robert Parker, na primeira pessoa, estão disponíveis para o mundo moderno em:
http://dat.erobertparker.com/bboard/showthread.php?t=209945.
Caso as opiniões de Robert Parker deixem, a partir de agora, de ser uma referência útil para o Miguel Champalimaud, afirmações semelhantes também têm sido proferidas por pessoas tão relevantes para o vinho como Stephen Spurrier, Dr Christian Butzke, Dr Jamie Goode, David Denton e, pasme-se, o próprio Australian Wine Research Institute. Tenho a certeza que o MC por mais que procure não os encontrará numa lista de “gente da indústria corticeira” ou numa lista de”gente da Pátria”; mas, para o MC, parece que a verdade não se deve intrometer no meio de um mau argumento. É pena.
B- Facto número 2 tem a ver com a opinião de MC que elementos do processo produtivo de vedantes para vinho serão quimicamente instáveis ou inapropriados para o seu contacto com produtos alimentares. Podemos preferir ignorar o parecer favorável da Food and Drug Administration dos Estados Unidos sobre estes produtos usados pela cortiça. Mas isso não implicaria apenas escamotear o parecer de uma autoridade como a FDA; seria invalidar toda a indústria farmacêutica que o próprio MC, na sua carta, parece reter como paradigma. Mas talvez não se trate aqui de um caso de incoerência. De facto, tendo em conta as inúmeras questões médicas recentemente levantadas sobre componentes plásticos, também usados nos vedantes de rosca dos vinhos Quinta do Cottô, talvez valha a pena consultar o que tem sido escrito por meios de informação como Beverage Daily que em:
http://www.beveragedaily.com/Publications/Food-Beverage-Nutrition/FoodProductionDaily.com/Quality-Safety/BPA-causes-reproductive-health-defects-at-levels-currently-considered-safe-study/?c=YtUctU%2B%2Fv6ErwLhvSIOGzQ%3D%3D&utm_source=newsletter_daily&utm_medium=email&utm_campaign=Newsletter%2BDaily
dá conta do trabalho da North Carolina State University sobre o possível impacto na saúde pública de ingredientes utilizados em material para contacto com produtos alimentares. Além disso e bem ao estilo da argumentação que o MC utiliza podemos sempre dizer que não precisamos ir tão longe e basta atentar para as manchetes dos jornais e das Tv´s Portuguesas de ontem que noticiaram com grande alarde a interrupção do fornecimento de água a Évora por a mesma conter resíduos exagerados de Alumínio (não é o mesmo material das tampas de rosca do MC?) e que é muitíssimo perigoso para a saúde pública.
C- O terceiro facto prende-se com a “ideia” do MC que screwcaps significam modernidade, que a sociedade e as caves empobrecem por causa da cortiça e que as rolhas de cortiça são mais caras que os screwcaps (“esquecendo-se” é claro que ambas os famílias de produtos tem especificações diferentes e dentro desses parâmetros, preços diferentes).
Não haverá, aqui, necessidade de recorrer aos peritos estrangeiros que o MC parece favorecer quando discute a cortiça. Assim, deixemos de lado as opiniões do Forest Stewardship Council, do WWF, da RainForest Alliance e de milhares de cientistas internacionais sobre o significado de um futuro sem sustentabilidade ambiental e social. Imagino ser difícil para o MC que viu todo o sucesso alcançado pelo seu Tio António nos anos 50, 60 e 70 do século passado com enormes e poluentes fábricas siderúrgicas (e não só), começar agora a considerar que não pode haver futuro sem sustentabilidade e equilíbrio ambiental. É bom que o MC reconheça que todo o sucesso alcançado pelo seu Tio não foi pelo tipo de fábricas e produtos que teve e sim por ter sido um homem extremamente inteligente, um visionário e um enorme empreendedor e é bom não confundir o tipo de polémica que ele criou com este tipo de polémica.
Talvez não seja necessário relembrar que a fabricação de alumínio, como aquele usado nos vedantes artificiais dos vinhos do MC, constitui o processo industrial que mais energia consome em todo o mundo e que, por exemplo, o Governo da Noruega boicota as acções da maior empresa produtora de screwcaps por esta violar os princípios éticos de investimento do maior fundo soberano da Europa. Mas podemos preferir ler o artigo da Bloomberg News sobre o impacto de outra empresa de alumínio na floresta tropical da Amazónia e perguntar que tipo de modernidade seria criada se todos seguíssemos as “ideias” de MC. Exercício assustador mas fácil se consultarmos:
http://www.bloomberg.com/news/marketsmag/mm_0909_story3.html
D- Quanto à “ideia” de M Champalimaud que a cortiça pode contribuir para o empobrecimento da sociedade e da indústria do vinho, por tão manifestamente inane, valerá a pena analisar alguns factos que, por tão óbvios, imploram a questão: Têm noção o MC do peso do sector da cortiça no PIB Nacional? Tem noção o MC do valor das exportações anuais Portuguesas do sector da cortiça? Tem noção o MC do valor que o Estado Português arrecada em Impostos com as actividades ligadas á cortiça? Tem noção o MC da quantidade de empregos directos e indirectos que estão ligados a este sector? Sabe o MC que um dos trabalhos agrícolas mais bem pagos do mundo, pela sua especialização, existe em Portugal, exactamente na extracção da cortiça do Sobreiro? Sabe o MC que, à medição de riqueza monetária convêm também somar a riqueza derivada de uma biodiversidade única no mundo? Sabe o MC que sem sobreiros o problema da desertificação não deixaria o país mais rico? Sabe porventura o MC que os preços médios de vinho são mais altos nas garrafas vedadas com cortiça natural? E sabe também o MC que os preços absolutos mais altos do mundo são alcançados por garrafas que têm rolha de cortiça?
Mas afinal o que é que sabe o MC? Será que a sugestão dele é que toda esta riqueza criada em Portugal seja abandonada e entregue nas mãos de uma multinacional do Alumínio que hoje está aqui e amanha noutro qualquer lugar do mundo em troca de subsídios e de mão-de-obra barata?
E- Exemplo óbvio é a série de 21 questões colocadas na carta de M Champalimaud e, das quais, gostaria de destacar algumas.
- “a água mineral (…) há muito deixou de usar cortiça”. Por acaso, a água mineral mais cara do mundo até usa cortiça. Inovadora, moderna, bom gosto? Não sei, mas decidam vendo o produto e o preço (ah, essa questão 2.15…) em http://www.blingh2o.com/
- “ a cerveja há muito que deixou de usar cortiça (…).” Não só se vendem milhões de rolhas todos os anos para cerveja, como este mês uma marca portuguesa de cerveja lançou um produto com rolha de cortiça. E, a propósito, a cerveja mais cara do mundo também usa rolha de cortiça. Denominada Vintage Nº2, custa 250 euros a garrafa e é produzida pela Carlsberg. Empobrecedora, a cortiça? Só se comprar toda a produção desta cerveja ao preço de retalho….
- “(…) 75% das mulheres (…) têm dificuldade em abrir uma garrafa de vinho usando um saca-rolhas”. Com este tipo de afirmações sexistas e misóginas, não admira que MC se refira à “gente da retaliação e do boicote”. E a grande maioria dessa “gente” devem ser as mulheres da “Pátria” que acham que este tipo de atitudes não é “a favor da modernidade”.
Pergunto eu: E que tal incluir o numero crescente de queixas apresentadas por cortes nas mãos provenientes exactamente das folhas de alumínio afiadas de que é feito a tampa de rosca?
- “Porque é que na indústria da construção não se usa (sic) em Portugal e no mundo, a cortiça como isolante?” Eu uso e sei de outros que usam (ex: cadeia mundial de lojas Ghant) e se os meios de informação nacionais dão eco do reconhecimento do Museu Guggenheim em relação à utilização da cortiça como material de construção, assume-se que o MC é daqueles que herdou uma televisão e esta permanece (ah, essa questão 2.19…) dentro de um móvel que está sempre fechado?
Se Portugal, todos os anos, fabrica e exporta milhões e milhões de euros de material para construção em cortiça e um líder do tecido empresarial nacional nunca ouviu falar desse facto, sugiro vivamente que marque uma reunião com o Instituto Nacional de Estatística?
- “Quando vai comprar uma garrafa de vinho fá-lo na expectativa de comer a rolha?” Aplicando o mesmo raciocínio ao facto de o vinho também vir dentro de uma garrafa de vidro, poderemos deduzir que o próximo Grande Escolha irá adoptar uma lata de alumínio tipo Coca-Cola, com “easy-open” e tudo. Boa, vai com certeza ser um sucesso de vendas.
Pergunta-se ainda ao MC se quando se compra o vinho tem-se a expectativa que ele esteja deficientemente selado? Ou esteja oxidado? Ou mesmo se têm a expectativa de cortar os dedos no processo da abertura da garrafa? E o produtor de vinho terá a expectativa de que as suas garrafas vão verter, que o vinho vai ficar oxidado e que vai cortar os dedos dos seus clientes?
É que já muitas vezes aconteceu e foi amplamente divulgado (como ao “PORCO” do Francis Ford Coppola; http://www.bloomberg.com/apps/news?pid=email_en&sid=aMtOOCYDuqeU) mas acredito que este tipo de argumentos não interessa ao MC trazer para aqui.
- “um produtor paga mais dinheiro por uma rolha de qualidade do que recebe pela venda (…). Alguns dos produtores de vinho com mais êxito no mundo usam rolhas de nova geração com custos semelhantes ao de um screwcap. Nobilo, marca da maior empresa de vinhos do mundo, é o vinho branco neozelandês mais vendido nos EUA; há alguns meses mudou de screwcap para cortiça, como reportado pela britânica Decanter. Como não se chega a número 1 de nada tomando decisões operacionalmente ineficazes e financeiramente ineficientes, a Constellation não o teria feito se isso significasse perda de competitividade ou não fosse um factor de diferenciação positivo.
Preocupa-me de sobremaneira este ponto da dissertação do MC pois os seus argumentos parecem indicar que acredita piamente que mais de 90% dos produtores de vinho engarrafados (e entre eles, sem duvida, os produtores dos considerados melhores vinhos do mundo) não fazem a menor ideia de como é que se deve vedar as suas garrafas de vinho. Sugere o MC que ninguém sabe o que é que está a fazer e que só ele é que sabe? Preocupante.
Finalmente, sendo eu também daqueles que acreditam que “recusar o progresso científico de nada serve” gostaria de terminar chamando a atenção de M Champalimaud para o que a ciência, hoje em dia, tem a dizer sobre vinhos e vedantes. Tal seria claro se tivesse lido os estudos publicados em 2006, 2007 e 2008 em revistas científicas como o Journal of Agriculture and Food Chemistry dos EUA, que prova que a rolha não é “apenas uma matéria subsidiária” do vinho. A rolha é parte integrante de um processo de ingresso de oxigénio considerado fundamental. Artigos do Dr. Jamie Goode publicados em revistas norte-americanas e britânicas (por exemplo, Harpers; Dezembro 2006, Reino Unido) traduzem a ciência para os amantes do vinho. Mas se 2006 ainda é demasiado perto no tempo, uma leitura sobre as opiniões de Pasteur em 1863 sobre o impacto positivo do oxigénio no vinho terão já, porventura, uma difusão significativa entre o grande público.
Termino lembrando que, para produtores florestais e industriais, pouco relevância tem que algumas caves decidam promover o seu vinho com artifícios publicitários focados não no produto, mas sim na “novidade” do tipo de obturador adoptado. Pensei que o MC tinha dito e acreditava que o vedante era “apenas uma matéria subsidiária”.
Parece-me que o MC apesar de ser um amante da modernidade até aqui está desactualizado pois inúmeras caves australianas já o fazem há anos e, pelas notícias dos últimos dois anos, já ninguém aponta esse mercado vinícola como modelo de negócio a seguir ou exemplo de futuro. As implicações e consequências técnicas dessa decisão são, realmente, discutidas não na praça pública mas em fóruns técnicos especializados. Quanto às implicações junto do consumidor, essa soberana “gente do produto 100% natural”, continua a preferir a cortiça em todos e cada um dos mercados onde se vende vinho. E está disposta a, cada vez mais, valorizar o natural, o orgânico e o genuíno. Nos EUA, mercado fundamental para a nossa economia, o consumo deste tipo de produtos duplicou de 2003 a 2008 e já representa mais de 16 mil milhões de dólares.
Pareceria, pois, não apenas prudente mas também “moderno” tomar decisões baseado no que se sabe hoje e não no que parecia certo há anos atrás.
Respeito intrinsecamente todas as decisões do Miguel Champalimaud nas suas opções empresariais e desejo-lhe até sucesso, sinceramente é-me indiferente. O que não posso de maneira nenhuma aceitar é que alguém, seja quem for, só porque de alguma maneira se sente na necessidade de justificar ou promover o que quer que seja venha dar conhecimento público de notícias falsas, tendenciosas e desactualizadas, tentando condicionar comportamentos, sobre um produto e um assunto que merece respeito de todos nós porque a todos nós pertence e toca.
Com a esperança de humildemente ter contribuído para o esclarecimento do assunto.
António Posser de Andrade
Produtor Florestal"

Terça-feira, Janeiro 19, 2010

Uma área protegida para jornalistas incompetentes


O jornal i publicou na contracapa da edição de 15 de janeiro um artigo sobre uma área dedicada à proteção do habitat do urso polar, no Alaska. Seria a maior área protegida do mundo, nada mais nada menos que 50 mil campos de futebol. Os jornalistas são uma classe profissional curiosa. Para além de tratar os seus leitores regularmente como ignorantes (alguém começou a traduzir hectares em campos de futebol, medida tão curiosa como inortodoxa), e são particularmente fracotes em matemática. Sabendo que muitas das áreas protegidas Portuguesas são mais do que 50 mil hectares, estranhei a notícia e já comecei a sentir tal comichão quando vejo jornalistas e números em conjunto. Uma rápida pesquisa na internet revelou que a dita área é de 520 mil quilómetros quadrados. Ah, pronto, já está. São uns meros 52 milhões de hectares (ou campos de futebol, se quiserem, mas não vejo grande utilidade em tantos campos de futebol para os ursos). O jornalista enganou-se num factor de mil.

Será que isto é grave? Sim e não. É óbvio o que interessa é que foi criada uma área de proteção para os ursos jogarem à bola à vontade. Mas ao mesmo tempo, o valor de serviços noticiários depende de uma certa relação de confiança entre a mídia e o (neste caso) leitor. Quando se verifica com preocupante frequência que a mídia não merece esta confiança, o leitor fica com a dúvida sobre as restantes informações que recebe e que não consegue verificar numa rápida pesquisa na internet. E isto afeta a base da sociedade de informação.

Por fim, sinto-me lesado como cliente que sou do jornal. Paguei logo tenho direito a um serviço de qualidade. E quando um jornalista nem sequer se dá ao trabalho de pegar numa máquina calculadora e apurar o número de campos de futebol que tanto gosta, paguei demais para um mau serviço.

Henk Feith

Segunda-feira, Janeiro 18, 2010

Até pode ser que seja verdade...


"Manter-nos vivos, modelar a paisagem, produzir mais, circular, tudo isso são actividades consumidoras de energia, quer no momento inicial em que abrimos uma clareira, uma estrada ou construímos mais uma casa, quer depois, para usar e manter em bom estado o que tende sempre para a ruína e o desaparecimento.
O que distingue a “mão invisível” que conduzia a intervenção tradicional no território da “mão invisível” que conduz a intervenção moderna é a imperfeição da integração do custo energético resultante da actual energia a pataco.
...
Pode parecer estranha a referência a energia a pataco num tempo em que se fala de energia cara, mas essa estranheza apenas resulta do que se usa como referência base. Os preços da energia actual, mesmo com as suas grandes oscilações, são ainda incomparavelmente mais baixos que no tempo em que 30 000 homens abriam em onze anos um canal de drenagem na Roma imperial."
henrique pereira dos santos

Sábado, Janeiro 16, 2010

Malthus e as alterações climáticas


Sem grande pretensão de rigor eu diria que o movimento ambientalista tem três grandes linhas ideológicas:
as dos pais de yellowstone, desenvolvidas por outros até à deep ecology, isto é, uma linha ideológica de comunhão com a natureza, independentemente da sua utilidade para o homem;
as dos filhos de Rachel Carson, isto é, a linha ideológica que resulta da defesa da saúde (estendida também à saúde dos sistemas naturais) em função de agressões concretas, como poluentes, reduções de habitats, perseguição directa de espécies;
e as dos malthusianos, nos quais mais ou menos me incluo, isto é, dos que intuem que existem limites para o crescimento e para o uso de recursos não renováveis e portanto pretendem governar a expectativa de escassez antes que a escassez nos governe a nós.
Como está explícito neste post, esta perspectiva malthusiana tem uma dificuldade de base: é que a expectativa de escassez altera o uso dos recursos e portanto tende a antecipar economicamente a escassez, evitando-a.
As correntes ambientalistas mais alarmistas são aquelas que repetem o erro de Malthus: projectam no futuro tendências do passado, sem ter em atenção que essas tendências provocam alterações de trajectória que invalidam a sua simples extrapolação linear, e é por isso provavel que os piores cenários nunca se verifiquem.
No fundo estas tendências mais alarmistas esquecem Camões "outra mudança faz de mor espanto/ que não se muda já como soía".
Tradicionalmente os optimistas da economia apontam para este erro de Malthus para invalidar a ideia de que existe um limite, chamando a atenção para este fenómeno de deslocação do limite em função de novos desenvolvimentos não antecipáveis num determinado momento, como é o caso do novo avanço tecnológico que dispensou a tracção das carroças por cavalos.
O debate das alterações climáticas tem-me mostrado uma coisa curiosa: é ver uma quantidade razoável destes optimistas do futuro desconhecido a usarem exactamente a mesma lógica de Malthus, mas agora em benefício da defesa do modelo de economia que conhecem.
Isto é, quando se apela a uma economia menos assente no carbono, as projecções do futuro de quem se opõe as estas restrições, partem do princípio de que tudo se manteria igual, excepto a restrição de carbono, esquecendo a força de transformação económica que, provavelmente, nos levaria para uma economia que não é nem a que conhecemos, nem a que conseguimos vislumbrar a partir da simples projecção do que seria esta economia com menos carbono.
E por isso os cenários catastróficos de pobreza que alguns traçam a partir das restrições resultantes da diminuição da emissão de gases com efeito de estufa podem estar tão errados como os montes de excrementos de cavalo previstos por Malthus.
henrique pereira dos santos

Quinta-feira, Janeiro 14, 2010

Alimentação e sustentabilidade



A relação entre alimentação e a sustentabilidade é tão forte como a da energia. Aliás nem seria de esperar outra coisa sendo a alimentação apenas um detalhe particular da questão da energia.
Esta é uma das áreas que mais me interessam actualmente, desenvolvi para a ATN um programa em parceria com o Chef António Alexandre exactamente chamado "O gosto da biodiversidade" e que espero que tenha realizações concretas dentro de relativamente pouco tempo.
Lembrei-me disto quando ontem vinha para casa, de metro, e resolvi passar por um supermercado. Havia uns camarões em promoção e resolvi comprar um quarto de quilo (sim, um quarto de quilo) porque sabia que tinha um arroz branco de sobra com o qual poderia facilmente fazer o almoço das minhas três meninas que saem para o trabalho de manhã, acrescentando um bocado de tomate, uns legumes e dando destino a um parte da mayonaise que tinha feito (há uns anos, e garanto que a história é verdadeira, ouvi duas miúdas já meias adolescentes a conversar num supermercado onde tinham ido comprar mayonaise. E uma dizia para a outra que lhe tinham dito que se podia fazer mayonaise em casa, mas a outra recusava-se a acreditar).
Claro que da dita salada de camarão me sobraram umas cabeças e cascas, não muitas é certo. Fervi-as algum tempo numa pouca de água, deixei reduzir para um terço, e o resultado está ali à espera que logo faça um molho branco onde substituirei parte do leite por esta água de camarão coada num chinês, para por por cima de uma base de puré em que vou substituir a manteiga por azeite, pôr um bocado de pescada cozida e desfeita por cima (duas ou três postas vão dar seguramente para umas dez refeições, ou melhor, para refeições para dez pessoas) e o dito molho que espero que retenha um bocado do gosto do camarão, tudo no forno (provavelmente um bocado de queijo por cima a gratinar).
Se eu fosse bom cozinheiro poderia depois discutir que tal o resultado, mas como não sou escrevo este post só para dizer que, por exemplo, reduzir o consumo de carne e peixe, aproveitar os restos, usar azeite em vez de manteiga, usar menos alimentos processados não me parece um esforço brutal e uma ameaça ao nosso modo de vida.
E no entanto é isto que se discute quando se discutem alterações climáticas e as opções que temos disponiveis para correr menos riscos.
Não se trata de definir o que cada um deve ou não comer, trata-se de ter consciência dos efeitos das opções que fazemos, livre e individualmente.
henrique pereira dos santos

Quarta-feira, Janeiro 13, 2010

Avaliação para Portugal do Millennium Ecosystem Assessment

No ano 2000 o então Secretário-Geral das Nações Unidas, Kofi Annan, apelou ao estabelecimento de uma avaliação do estado dos ecossistemas do planeta e da sua capacidade para assegurar a manutenção do bem-estar humano. Essa avaliação foi denominada Millennium Ecosystem Assessment (MA), e foi desenvolvida a nível global entre 2001 e 2005. No entanto, para além do nível global, o MA integrou um conjunto de Avaliações Sub-Globais a escalas regionais, nacional e local.

A Avaliação Sub-Global para Portugal (ptMA) foi uma das 18 Avaliações Sub-Globais do Millennium Ecosystem Assessment. Foi liderada pelo Centro de Biologia Ambiental da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, iniciou-se em 2003 e envolveu uma equipa de mais de 60 cientistas de uma dezena de instituições. A ptMA foi concebida para responder às necessidades de informação dum grupo de utilizadores nacionais, que incluíram instituições governamentais, organizações não governamentais de ambiente, agricultores e industria.

Os resultados finais da Avaliação Sub-Global para Portugal do Millennium Ecosystem Assessment foram reunidos num livro, “Ecossistemas e Bem-Estar Humano: Avaliação para Portugal do Millennium Ecosystem Assessment”, que acaba de ser publicado. Transcrevo abaixo algumas das mensagens-chave. Um sumário executivo está também disponível no portal http://www.ecossistemas.org .


Mensagens-chave


Os ecossistemas portugueses providenciam um conjunto de serviços de ecossistema essenciais para o bem-estar humano.
Esses serviços incluem a produção de alimento, a produção de água, a produção de madeira e cortiça, a protecção do solo, a regulação da qualidade da água e do ciclo hidrológico, o sequestro de carbono, o valor estético e cultural da paisagem, o recreio e o turismo. Na base de todos esses serviços está a biodiversidade, que em Portugal Continental inclui mais de 3000 espécies de plantas vasculares, cerca de 400 espécies de vertebrados, e um número desconhecido de espécies de invertebrados. Nos Açores e na Madeira ocorrem mais de 1700 espécies de organismos endémicos, isto é, que não existem em mais nenhuma parte do mundo.

As alterações humanas aos ecossistemas portugueses começaram há milhares de anos. O domínio progressivo dos ecossistemas pelas populações humanas, principalmente no sentido de melhorar a produção de alimento, levou ao declínio da floresta e de várias espécies de grandes mamíferos. No final do século xix, só cerca de 10% do território nacional era coberto por floresta e havia graves problemas de erosão nas montanhas. Para mitigar esses problemas e para aumentar a produção de produtos florestais, o Estado Português fomentou várias campanhas de florestação, principalmente com pinheiro-bravo. Simultaneamente, a crescente procura de cortiça e de carne de porco de raça Alentejana levou ao aumento da área de montado de sobreiro e azinho. Em meados do século xx a área florestal tinha já triplicado.

Nos últimos 50 anos assistimos a alterações significativas nos ecossistemas portugueses impulsionadas por profundas modificações socioeconómicas. A economia aumentou mais de seis vezes, o número de agricultores diminuiu mais de 60% e a área agrícola reduziu-se em 40%. Ocorreu a intensificação agrícola e a florestação com monocultura de eucalipto, com impactes negativos na biodiversidade e nos serviços de regulação dos ecossistemas. Os nossos rios sofreram modificações dramáticas com a construção de barragens e com o aumento da poluição proveniente da agricultura e da indústria. O problema das espécies exóticas invasoras agravou-se nas ilhas e aumentou a pressão sobre os ecossistemas costeiros. Em muitos ecossistemas manteve-se ou agravou-se o nível de sobre-caça e sobre-pesca.

Actualmente 30% das espécies de vertebrados terrestres e 70% das espécies de peixes dulciaquícolas e migradores autóctones encontram-se ameaçadas. As florestas naturais no Norte do país têm uma distribuição escassa, embora no Sul o montado de sobro e azinho, um sistema agro-florestal semelhante à floresta natural desta região, esteja relativamente em bom estado. O sistema nacional de áreas protegidas e a Rede Natura 2000 cobrem algumas das áreas mais importantes para a biodiversidade. Outras opções de resposta para proteger a biodiversidade incluem a condução da regeneração da floresta em áreas agrícolas abandonadas, a conversão parcial das florestas monoespecíficas em florestas biodiversas, a utilização de práticas agrícolas que promovam a biodiversidade, o controlo das espécies invasoras, a protecção da integridade dos sistemas de água doce em bom estado, o controlo das fontes de poluição aquática e a expansão do sistema de áreas protegidas marinhas.

Os níveis de produção de água dos ecossistemas portugueses satisfazem as necessidades de consumo existentes. Menos de 10% do valor da precipitação anual é utilizada. Há no entanto uma grande variabilidade espacial e temporal na disponibilidade dos recursos hídricos, com a maior parte da precipitação a ocorrer no Norte do país de Outubro a Março. Em 2000 o valor de mercado do abastecimento de água era de cerca de 2 mil milhões €/ano, equivalente a cerca de 2% da economia portuguesa. Cerca de 3/4 do consumo de água é destinado ao sector agrícola e mais de metade do consumo provém de aquíferos subterrâneos. Alguns aquíferos estão sobreexplorados o que leva à diminuição do nível piezométrico e a situações de intrusão salina nas zonas costeiras.

A produção nacional de alimento é deficitária em 30% em relação ao consumo. Alguns dos produtos de que somos importadores líquidos incluem pescado, soja, milho, trigo e a carne. A produção por unidade de área aumentou nos últimos 20 anos, devido ao abandono de áreas marginais e à intensificação da produção. Houve também uma substituição de culturas anuais por pastagens permanentes. Os sectores agrícola e das pescas representam actualmente cerca de 3% e 0,3% da economia portuguesa, respectivamente (a indústria alimentar representa adicionalmente cerca de 2%). Uma grande parte dos stocks em Portugal estão em situação de sobrepesca e a quantidade pescada tem diminuído nos últimos 25 anos. O futuro deste serviço passa, entre outras medidas, pela certificação e valorização dos produtos agrícolas e pela adopção de técnicas e quotas de pesca mais sustentáveis.

Portugal é o líder mundial na produção de cortiça, sendo responsável por 54% da produção mundial, e é um exportador importante de pasta e papel. O sector florestal é responsável por 10% das exportações nacionais; a fileira florestal emprega 228 000 trabalhadores e representa cerca de 3% da economia portuguesa. Cerca de metade da floresta portuguesa de produção tem como função principal a produção de madeira (nomeadamente pinheiro-bravo e eucalipto) e a outra metade a produção de cortiça e a produção animal (nomeadamente sobreiro e azinheira). As principais ameaças à produção de madeira e cortiça incluem o ataque do nemátodo de pinheiro, o declínio do sobreiro e da azinheira, os incêndios florestais e a redução do preço dos produtos florestais.

A expansão da floresta nas últimas décadas favoreceu o sequestro de carbono ao nível da biomassa florestal. Os montados, os eucaliptais e os pinhais apresentam valores de produtividade líquida durante o crescimento equivalentes a 1-5 t CO2/ha/ano, 15-32 t CO2/ha/ano e 15-26 t CO2/ha/ano, respectivamente. Em áreas agrícolas, o sequestro de carbono no solo pode ser obtido através da implementação da sementeira directa de culturas anuais e de pastagens permanentes semeadas biodiversas ricas em leguminosas. O sequestro com sementeira directa é cerca de 8 t CO2/ha/ano e 2 t CO2/ha/ano, com e sem permanência de resíduos no solo, respectivamente. O potencial unitário de sequestro de carbono pelas pastagens semeadas biodiversas é em média de 5 t CO2/ha/ano.

A avaliação da condição da qualidade da água em Portugal revela que 40% dos meios hídricos superficiais estão num estado mau ou muito mau. Também os aquíferos subterrâneos enfrentam ameaças à qualidade da água por contaminação com poluentes de origem agrícola e intrusão salina. No entanto, nos últimos anos as zonas costeiras têm apresentado melhorias na qualidade das águas balneares. Opções disponíveis para melhorar a capacidade dos ecossistemas de regularem a qualidade da água e o ciclo hídrico incluem: um maior controlo das fontes de poluição provenientes da agro-pecuária, a restauração dos ecossistemas aquáticos, e uma gestão integrada dos recursos hídricos. Portugal é o país europeu onde o risco de degradação irreversível do solo, por erosão, é mais elevado. A degradação dos solos implica uma diminuição na capacidade de retenção hídrica potenciando, entre outros efeitos, a ocorrência de cheias. A adopção de práticas agrícolas com mobilização de solo reduzida é uma das respostas possíveis a este problema.

A procura de áreas rurais e naturais para recreio e turismo encontra-se em crescimento. O turismo de natureza, que inclui actividades como o pedestrianismo, a canoagem, e a observação de aves, é indicado como uma motivação primária por 6% dos turistas em Portugal. Os Açores (36%) e a Madeira (20%) são as regiões onde esta actividade é mais importante. O turismo e o recreio constituem um meio privilegiado de promoção dos recursos existentes e de revitalização do tecido económico e social local. Estudos de disposição a pagar indicam que os portugueses valorizam significativamente a paisagem e a protecção da biodiversidade.

Os problemas ambientais das próximas décadas só serão minimizados se houver uma atitude pró-activa da sociedade. A tendência para aumentar os serviços de produção à custa da degradação dos serviços de regulação e culturais só será contrariada se a sociedade se aperceber das implicações negativas para o bem-estar humano. No cenário mais favorável o desenvolvimento económico assentará no investimento científico e tecnológico e na valorização e criação de mercados para uma gama alargada de serviços dos ecossistemas. No cenário mais desfavorável assistiremos a um afastamento dos níveis de desenvolvimento económico de Portugal em relação ao resto da UE, e ao agravamento dos problemas da intensificação agrícola e à manutenção do flagelo dos fogos florestais.


granito



Há uns dias atrás fui dar uma volta pela Serra da Estrela. Aproveitei para visitar a vertente sul do serra, área que desconhecia totalmente. A paisagem, da serrania nevada, é fantástica. Respira-se ar puro e agradáveis aromas silvestres. Um pouco por todo o lado nascentes e fios de água formados pela neve que o sol de inverno tranquilamente derrete, interrompe o silêncio da montanha. A espaços, um pastor pastava as suas cabras com a ajuda dos cães. Mais frequentes são as velhas casas e currais de granito que foram sendo abandonadas. Mais ou menos degradadas, quase todas vandalizadas.

Recordo-me de uma particularmente bela, que deverá ter sido casa de férias de alguma família mais abastada, lá para as bandas da Loriga. É casario de dois pisos, todo em granito, com janelas de madeira pintadas de azul, e que vive em perfeita harmonia na encosta de um grande vale, junto a um pequeno ribeiro que corre abundantemente, ensombrado por alguns carvalhos e outras árvores. Como todas as outras casas, abandonado e vandalizado.



Nos povoados abundam casas e até prédios que parecem ter brotado em terra sem lei, feita ao gosto dos seus donos, engenheiros e arquitectos, sem ponta de respeito pela traça local. Cores chocantes do amarelo-canário ao azul, fachadas em azulejo ordinário, telhados com inclinações e de materiais diversos. Gradeamentos, sebes e muros que contornam vivendas para todos os gostos. Na verdade, de tão abundantes, fazem com que nos perguntemos qual seria a traça local ou se haveria alguma.

Entre outras, haverão seguramente razões económicas, urbanísticas, de ocupação do território e sócio-culturais que expliquem a lógica disto tudo. Na verdade, não percebo nada de casas, de materiais de construção, muito menos de arquitectura. Não percebo nada de um mundo de coisas. Mas não gosto do que vejo.  

Gonçalo Rosa

Terça-feira, Janeiro 12, 2010

A estabilização das temperaturas desde 1998

O Lowlander, num comentário a este "post", chama-nos à atenção do interessante "post" no blogue "open mind". Não resisto colocar aqui dois dos quatro gráficos apresentados e que me parecem ilustrativos do que tem vindo a ser discutido neste e noutros blogues sobre o significado da estabilização das temperaturas nos últimos 10 anos.

O primeiro gráfico mostra as temperaturas globais da base de dados da NASA (Goddar Institute) no período de 1975-2000 (gráficos para outras bases de dados são fornecidos no post original). O autor do blogue colocou na linha vermelha a tendência obtida com uma regressão linear e extrapolou o valor esperado até 2010. É fornecido também o desvio padrão que baliza os valores observados e esperados.

No segundo gráfico, o autor acrescenta os valores observados entre 2001 e 2009. Como é patente do gráfico, as observações enquadram-se nos valores esperados para os últimos 10 anos.


Ou seja, como tenho vindo a argumentar desde que respondi ao texto do Prof. Delgado Domingos, no Expresso, não faz qualquer sentido fazer conclusões apressadas sobre tendências climáticas com base em 10 anos pois a série climática histórica é pródiga em altos e baixos acompanhados por uma tendência generalizado de aumento de temperaturas.

Antevejo comentários de que o autor do blogue escolheu criteriosamente o período do século XX para análise. A verdade é que se escolhesse um período mais amplo, o desvio padrão seria maior pelo que os valores esperados seriam também maiores. Por absurdo, se usássemos uma série temporal de temperaturas desde o inicio do Holoceno, qualquer valor observado entraria dentro dos valores esperados pelo que ao escolher um período de aumento acentuado de temperaturas para comparar com um período de estabilização, o autor está a fornecer uma análise mais conservadora do que se tivesse escolhido um período mais amplo.

Dizem que o problema é a falta de recursos


Recebi hoje a seguinte comunicação da Associação de Pais da Escola de um dos meus filhos:
"As aulas na Escola dos nossos Filhos foram interrompidas pelo dia de hoje por determinação da Direcção. A Associação de Pais foi de imediato contactada pela Direcção, que nos quis explicar o sucedido.
Com o agravamento do estado do tempo e com as fortes chuvas desta manhã começou a entrar água pelas janelas de várias salas de aula. Nos patamares e escadas, que não têm parede estanque para a rua, mas sim uma divisória em rede metálica (total ou parcialmente), a chuva entrou e molhou abundantemente áreas de passagem, tornando difícil e mesmo perigosa a circulação em várias áreas do edifício.
A Direcção da Escola, os Funcionários e Professores tomaram todos os cuidados para que os Alunos, ao saírem das salas de aula, circulassem com a segurança possível nestas circunstâncias, contudo as condições levaram ... a tomar a decisão de encerrar as aulas pelo dia de hoje. A Escola e os vários serviços continuam abertos.
A Parque Escolar está neste momento da Escola tomando medidas para a resolução do problema - esperamos que em definitivo! - pelo que amanhã as aulas funcionam normalmente."
Não se pense que a escola em causa é uma escola velha com grandes problemas de manutenção, não, é uma destas novas que foram objecto de investimentos substanciais na sua total remodelação.
Já na lista de discussão associada a este blog se discutiram em algumas alturas as opções de investimento deste programa de remodelação de escolas, seja pelo aparentemente desnecessário abate de árvores, seja porque esta remodelação das escolas não foi aproveitada para introduzir uma sólida lógica de eficiência energética e, inclusivamente, em alguns casos, criaram-se situações onde só é possível funcionar com ar condicionado, para cuja operação e manutenção falta depois dinheiro às escolas.
Tenho estado várias vezes para fazer aqui posts sobre o facto de sempre que caem três pingos de água lá virem as notícias de inundações, nomeadamente no Marquês de Pombal, que aqui há tempos esteve interdito ao trânsito uma hora por essa razão. E já agora, do Público de hoje: "Chegou-se a pensar que o rio Douro tinha galgado as margens mas, afinal, a inundação da marginal de Vila Nova de Gaia foi provocada pela chuva intensa que entupiu algumas sarjetas, segundo explicou ao PÚBLICO Artur Mendes, dos bombeiros sapadores da zona.".
Santa paciência, a limitação de emissões em Portugal pode sair muito caro, mas tenho as maiores dúvidas que saia mais caro que a falta de juízo e inteligência no uso dos dinheiros públicos.
Senhores Presidentes de Câmara, Senhor Primeiro Ministro, por favor, deixem lá os grandes projectos, a marca da vossa efémera passagem pelo poder e resolvam os problemas comezinhos do quotidiano das pessoas, começando por lhes permitir que vos expliquem quais são os problemas que precisam de ser resolvidos, como por exemplo, a limpeza das sargetas, a manutenção das caleiras e coisas assim.
E que tal aproveitar a recuperação do parque escolar e hospitalar para os pôr a precisar de consumir menos energia para um maior grau de conforto? E perguntar aos professores o que era bom resolver em cada escola?
Talvez seja preciso um bocadinho mais de dinheiro, mas verdadeiramente não é esse o problema: a questão é que temos sido muito económicos no uso da inteligência.
E é com certeza um problema colectivo: como é que alguém se lembra de projectar, aprovar o projecto, lançar a obra, construir e usar uma escola que não conta com dias de chuva intensa?
henrique pereira dos santos

Procurando simplicidade no caos


Num comentário ao meu post sobre o alarmismo ambiental (a discussão é muito mais interessante que o post, de maneira que quem quiser pode passar directamente à caixa de comentários), Miguel Araújo fez um comentário que pela sua clareza e força pedagógica resolvi transcrever para um post, editando ligeiramente em questões de forma:
"Vamos com exemplos. Coimbra e Nova York têm a mesma latitude., i.e., 40° norte. As duas cidades têm um clima diferente. Nova York tem um clima temperado, com inverno rigoroso e Coimbra tem um clima temperado de feição mediterrânea com invernos mais suaves. A diferença entre as duas cidades deve-se, em grande medida, às correntes de massas de água que ladeiam os dois continentes. A corrente do Golfo que passa do nosso lado trás água quente dos trópicos e a corrente do labrador que passa do outro lado trás água fria do pólo. A isto eu chamo um mecanismo determinístico do regime climático que se junta a outros como o grau de insolação a que ambas cidades se encontram (e que neste caso é semelhante). Estes mecanismos são estáveis em escalas de tempo razoavelmente longas (do ponto de história da humanidade, entenda-se) mas mudam em escalas geológicas devido a outros mecanismos que também são determinísticos. Os mecanismos que causam variações no clima (não estou a falar de tempo) podem prever-se. Por exemplo e ignorando a óbvia variação orbital da terra em torno do sol, as correntes oceânicas são afectadas pelo nível de salinidade da água nos oceanos que por sinal é afectado pela quantidade de água retida nos continentes, que por sinal é afectado pelas temperaturas globais do planeta. Deslocações na posição dos continentes ("continental drift") podem também afectar as correntes oceânicas e os AOGCM (atmosphere-ocean coupled general circulation model) usados para projectar climas no Terciário e do Cretácico usam estas variações na posição dos continentes para modelar mudanças nas correntes com os consequentes efeitos nas temperaturas (ver trabalho do Paul Valdes e Alan Haywood). Projecções que são feitas, diga-se, com níveis de sucesso razoáveis tendo em conta a verificação independente que é feita usando o registo fóssil. Ora nada disto se deve a dinâmicas caóticas. Não que elas não existam, nisso estamos de acordo. Mas estas operam, "ceteribus paribus", dentro do grau de variabilidade permitido pelos constrangimentos, determinísticos, que forçam os regimes climáticos a serem o que são. Ora é de esperar, tendo em conta a magnitude das mudanças climáticas e o peso dos mecanismos que as determinam, que a influência dos factores caóticos seja tanto menor quanto maior o horizonte temporal (e espacial) considerado. A esta variação, os climatólogos chamam ruído!"
henrique pereira dos santos (citando Miguel Araújo).

Domingo, Janeiro 10, 2010

160 000 000


Esta é a estimativa da soma de cães e gatos com dono nos Estados Unidos.
O custo médio anual de cada um destes animais (comida, veterinário e etc.) está entre 700 a 875 dólares.
Ou seja, 112 000 000 000 de dólares anuais, admitindo o valor mais baixo.
A juntar a estes haverá cerca de 70 milhões de animais vadios.
Tirei os números daqui.
Isto é apenas nos Estados Unidos.
Quase sempre, quando se fala de redução de consumos, a conversa vai para estradas, carros, água, gestos diários, alimentação.
Haverá alguma razão para raramente se considerar a posse de um animal de estimação (excluindo os cães que acompanham cegos, os que vão à caça, os gatos que protegem dos ratos e outros produtores de serviços úteis) como um dos mais importantes comportamentos anti-ambientais?
henrique pereira dos santos

Sábado, Janeiro 09, 2010

Pontos de vista sobre o rigor do Inverno


Depois da chamada de atenção do Miguel Araújo, retirei daqui, dedicando a todos os blogues que passam o tempo a confundir meteorologia com clima, retirando conclusões precipitadas do frio que está onde nós estamos.
henrique pereira dos santos

O arrefecimento do Reino Unido



Esta espectacular fotografia foi tirada no dia 7 de Janeiro de 2010 por um satélite da NASA. É um presente de ano novo que regalo aos negacionistas. Imagem retirada de aqui.

O texto abaixo, também do dia 7 de Janeiro, é retirado da revista Brasileira ADEGA que, como o nome indica, trata de vinhos. É o meu presente aos alarmistas.

"Apesar do verão atípico do ano passado, os vinicultores classificaram a safra de 2009 como "uma das melhores da história.

O mês de julho na Inglaterra foi marcado pelo clima úmido, principalmente no sudoeste do país, o que poderia ter afetado a safra, se não fosse o calor percebido no outono.

Pelo visto, essa confusão de climas e temperaturas apenas tornou a uva ainda mais gostosa. A associação dos Produtores de Vinho da Inglaterra reportou que foram colhidas frutas excepcionais em todo o país, com as variedades Chardonnay e as Pinots possuindo nível alcoólico possivelmente entre 11% e 13%". Ver notícia completa aqui

A vantagem de confundir meteorologia com clima é a possibilidade que nos oferece de agradar a todos.

O alarmismo ambiental


Nesta discussão do climategate há um padrão de argumentação que deveria fazer o movimento ambientalista reflectir seriamente: grande parte da argumentação dos negacionistas que tem mais repercussão resulta da contestação de afirmações empoladas, quer pelo movimento ambientalista directamente, quer pelos jornalistas de causas, quer mesmo, aqui e ali, por aspectos da actuação do IPCC (veja-se a carta do Miguel Araújo e outros na Nature ou este post).
O exemplo típico é a tonteria do Greenpeace ter posto os quatro cavaleiros do apocalipse a percorrer as ruas de Copenhaga durante a cimeira do mês passado.
Este alarmismo que está no ADN do movimento ambientalista é compreensível por razões históricas e pela fragilidade intrínseca dos movimentos de cidadãos, que competem por visibilidade no espaço público com outros actores muito mais influentes.
Mas é um erro que se paga muito caro no longo prazo.
Nesse sentido, da mesma forma que não pode haver complacência para com as mistificações dos negacionistas, não deve haver complacência para com os exageros do lado das pessoas que estão preocupadas e pretendem influenciar a decisão política no sentido da crise climática potencial ser gerida eficientemente.
Um bom exemplo de onde pode conduzir este extremar de argumentos é esta entrevista. Não tanto pela fleuma britânica e imensa categoria demonstradas pelo chefe dos serviços meteorológicos britânicas, mas por se admitir que perguntas troglodíticas são normais neste nível de discussão (o óscar vai para "se não sabem prever o tempo a um mês como podem prever a vinte ou cinquenta anos", sendo que o não prever é o facto da previsão ter estado disponível nos EUA a 24 e 25 de Dezembro e no serviços meteorológicos britânicos apenas a 28).
henrique pereira dos santos

Quinta-feira, Janeiro 07, 2010

Assim se constroem mitos climáticos

De vez em quando dou uma espreitadela ao blogue dos mitos climáticos. Desta vez encontrei lá esta peça divertida: "De facto, estes estranhos cientistas pensam que sabem explicar subidas de temperaturas. Na realidade, não sabem, mas não são só eles. Por cá também temos émulos dos redactores destes emails, que afirmam que uma série de 10 anos não pode refutar a tese do global warming. Ou seja, estaríamos perante um milagre da Física, pois teríamos uma lei que seria interrompida durante 10, ou mais anos, mas que, pasme-se, continuaria válida!".

Esta frase é possivelmente uma reacção ao meu post sobre validação de modelos. Não vou voltar a repetir o conteúdo do post pois nenhum argumento avançado até agora contraria o que lá foi dito mas vale a pena colocar aqui um dos gráficos do último relatório do IPCC, com umas pequenas edições minhas.


Este gráfico mostra o que eu expliquei por palavras numa resposta a um comentador do referido post. Ou seja, que na série temporal dos últimos ca. 170 anos há uma tendência de aumento de temperatura mas que essa tendência não é monótona, ou seja, regista aumentos de temperatura, reduções de temperatura e momentos de estabilidade (mas com tendência para aumento acentuado, primeiro, a partir da revolução industrial e, depois, a partir dos anos 60 do século XX). O que eu chamei um aumento em "escada". Com um pouco de imaginação detecta-se uma possível regularidade nestes momentos de estabilidade (ver rectângulos vermelhos e imaginar outro eventual rectângulo vermelho no final da série da temporal) mas obviamente esta é uma especulação. Não obstante existe de facto a possibilidade que alguns mecanismos de "feed-back" tenham um carácter regular. Se assim for, não será de estranhar que dentro de alguns anos se consigam prever estas oscilações de temperatura com alguma precisão.

Mas no meu entender o essencial da figura, para o actual debate, é que demonstra, melhor do as minhas palavras, que não faz qualquer sentido usar os últimos 10 anos de aparente estabilidade da temperatura para refutar a tese de que as temperaturas do planeta estão, globalmente, em fase ascendente. Nem os últimos 10 anos, nem os anteriores períodos de estabilidade ou arrefecimento contrariam a tendência global pelo que insistir neste argumento parece ser como aquele que dá um tiro no seu próprio pé para combater o adversário. Além do mais, se as previsões dos climatólogos estiverem correctas, tudo indica que nos próximos anos se voltarão a registar recordes de temperatura elevada no contexto do registo histórico. Que dirá o autor dos mitos climáticos num ou dois anos, então?

Lendo o resto do post dos Mitos Climáticos percebe-se mal, aliás, a insistência nos últimos 10 anos. Se de facto Rui Moura acredita que os climatólogos usam a seguinte fórmula matemática para modelar o clima do planeta, "∆t = Ti – To = α . ln (Ci/Co)", em que se faz depender o aumento de temperatura, exclusivamente, dos aumentos de CO2eq, esperando-se portanto uma relação monótona entre as duas variáveis, existem muitos períodos que poderiam ser usados para refutar a tese. Acontece, obviamente, que este é um argumento "straw man" pois qualquer pessoa minimamente informada sabe que a climatologia actual não se baseia numa formulação tão simplificada para simular a tendência climática do planeta.

O argumento é aliás repetido por Jorge Oliveira, noutro post também nos Mitos Climáticos, que reconhecendo que o clima do planeta não se pode resumir a tão singela equação, insiste na falácia que "os teóricos do global warming têm recorrido a uma expressão logarítmica (vide os relatórios do próprio IPCC) em que a variação da temperatura é condicionada por uma única variável independente, a concentração do CO2". Convido o Jorge Oliveira que, por vezes aqui escreve, a indicar aos leitores do blogue ambio em que parte do relatório do IPCC encontrou a afirmação de que a variação da temperatura do planeta (obviamente não estamos a falar de um sistema experimental fechado) é condicionada por uma única variável independente.

Perplexidades de um ignorante

Um dia destes à conversa com João César das Neves vi este gráfico que representa o preço do petróleo a preços de 2008 (ou seja, limpo do efeito da inflação).
Acho o gráfico muito interessante, acho interessante que João César das Neves (se bem interpreto a conversa) não veja no gráfico qualquer aumento do preço do petróleo, apenas volatilidade (eu não sei contrapôr, a volatilidade é indiscutível, se desde o contra-choque petrolífero de 1986 a tendência é de estabilidade volátil ou se é de aumento suave acho que não se pode dizer com segurança a partir deste gráfico).
Mas este gráfico relaciona-se com outra ideia muito difundida nos meios nuclearistas, que em grande medida coincidem com os opositores das renováveis (há uns poucos que não são nem contra nem a favor de renováveis, limitam-se a discutir a racionalidade económica de as tratar excepcionalmente no tarifário): a energia cara tem custos económicos insuportáveis.
O exemplo que é dado para o efeito negativo das renováveis é a Dinamarca, que tem o custo de produção mais alto da Europa (dizem, não vou verificar).
E daí? Não é a Dinamarca muito mais rica que muitos outros que produzem electricidade a preços mais baixos?
Alguém conhece um estudo concreto que relacione o custo de produção da electricidade num país com o seu desempenho económico?
henrique pereira dos santos

Quarta-feira, Janeiro 06, 2010

A triste incapacidade de discutir ideias em Portugal


Vivi 9 anos no Reino Unido e um dos choques culturais a que fui exposto foi constatar que as pessoas eram capazes de discutir vigorosamente temas em que se contrapunham opiniões diversas (por vezes radicalmente opostas) sem por isso se socorrer da deselegante arma da desqualificação pessoal do adversário. Não sou sociólogo nem psicólogo pelo que me abstenho de teorizar sobre o assunto mas é patente esta diferença de atitude com o nível de debate que se observa em Portugal. Vem este comentário a propósito do texto que escrevi em resposta ao texto que o meu colega e amigo Delgado Domingos tinha escrito sobre o alegado caso do climategate. A discussão pública que com ele entabulei (ver também aqui e aqui) foi cordial e respeitosa e estou certo que continuará assim por muitos e bons anos pois a troca de opiniões que estabelecemos neste blogue não foi mais do que o começo de uma frutuosa conversa.

Infelizmente a populaça rapidamente interpretou o diálogo em termos clubistas e a internet é testemunha de diversos comentários deselegantes à pessoa do Prof. Delgado Domingos e a minha pessoa. O mais surpreendente foi verificar que esta ignóbil atitude (principalmente protagonizada por anónimos) teve eco em pessoas da qual se esperaria um pouco mais. Hoje o Henrique Pereira dos Santos fez-me saber que o blogue "a ciência não é neutra" me tinha dedicado uns piropos por ocasião do debate referido. Transcrevo os piropos:

"Dias depois, um jovem e ambicioso investigador ambientalista com um curriculum auto-laudatório surpreendente, Prof. convidado da cátedra "Rui Nabeiro" da Universidade de Évora de cujo reitor é filho, decidiu atacar Delgado Domingos no mesmo Expresso."

Esta frase revela bem a qualidade humana de quem a escreve mas é de salientar que na ausência de qualquer reflexão aprofundada sobre a matéria o que se faz é um ataque "ad hominem", distorcido, da pessoa que veicula uma opinião com a qual não se concorda. Começa-se por adjectivar o adversário de jovem como se essa qualidade tivesse relevância para entender o debate (e como se 40 anos qualificasse alguém de jovem). Continua-se adjectivando a pessoa de ambicioso e ambientalista sem se perceber bem a relevância de tais conjecturas. Depois fala-se num CV impressionante mas imediatamente retira-se peso ao mesmo ao classificá-lo de auto-laudatório. Depois refere-se o titulo profissional pontuando, na mesma frase, que este é detido, por convite (*), na mesma universidade onde o pai do autor do texto é Reitor. Uma menção que só faz sentido para sugerir que o titulo não se justifica pelo CV mas pelos laços familiares que o autor possui com o dirigente máximo da referida universidade. Finalmente, qualifica-se o artigo de opinião como um "ataque" a Delgado Domingos, revelando uma perturbante incapacidade para entender o conceito de discussão vigorosa mas cordata de ideias e interpretações sobre factos (e não de pessoas). Nada que no fundo deva surpreender pois é assim que as elites Portuguesas discutem política: em termos clubistas! Mas sejamos claros: este texto é - de acordo com os meus parâmetros, claro - miserável e esperava um pouco mais de alguém que, de vez em quando, escreve colunas de opinião com algum interesse ainda que acalente o hábito de censurar, no seu blogue, comentários assinados, cordatos, racionais mas veiculando posições diferentes do autor (por este motivo deixei de o ler).

Não vou contrapor as insinuações do meu colega Pinto de Sá pois recuso-me descer ao seu nível mas sugiro que quem tenha interesse em contrastar as suas insinuações com o meu CV visite as seguintes páginas da Universidade de Évora, do Centro Nacional de Investigação Científica de Espanha, da Universidade de Oxford, da Universidade de Copenhaga e já agora da Science Watch. Cada um tire as ilações que bem entender mas valerá a pena perguntar porque razão uma pessoa com o meu perfil académico é alvo de semelhantes ataques sendo que, ao mesmo tempo, se acalenta complacência com colegas que pouca ou nenhuma investigação científica fizeram durante as suas longas e tranquilas carreiras nas universidades.

* É curiosa a referência ao "convidado". Na verdade o titulo de convidado deriva da figura legal de contratação, de cinco anos, e não do facto da categoria profissional ter sido obtida mediante convite. Contrariamente à esmagadora maioria dos docentes universitários portugueses que entraram nas universidades por convite (como assistentes) e que por lá "assentaram arraiais" sem nunca terem sido expostos a processos verdadeiramente competitivos (apenas prestaram provas de mérito absoluto, i.e., aptidão pedagógica, doutoramentos, agregações), o "convite" no âmbito da cátedra de que sou titular na Universidade de Évora, por cinco anos, resulta de um concurso internacional, amplamente difundido na imprensa nacional e internacional (no caso vertente o concurso foi divulgado na revista "Nature") e onde competiram vários candidatos num processo avaliado por um júri maioritariamente externo à universidade.

Copenhaga: reflexões


Copenhaga: reflexões
por Pedro Martins Barata*



Desde o final da cimeira de Copenhaga, vários foram já os balanços da cimeira, feitos por uma multiplicidade de actores. Essas análises têm-se focado sobre as causas do colapso negocial em Copenhaga, bem como sobre as suas consequências geopolíticas. Isto porque é hoje, parece-me, incontroverso, que as alterações climáticas deixaram há muito de ser um problema ambiental stricto sensu, compaginável com o tipo de soluções e instituições elaboradas para os problemas ambientais internacionais tradicionais, como sejam a poluição transfronteiriça. A natureza global do problema, o questionamento que inevitavelmente coloca às estratégias e à própria noção de desenvolvimento, faz com que desde há muito, a negociação do quadro internacional de política de clima seja uma negociação sobre as questões mais profundas dos sistemas políticos actuais: a eficiência das soluções negociadas, a equidade e democraticidade dos processos e resultados negociais.
Tentarei, em traços tão breves quanto possíveis, dar o testemunho da minha observação pessoal de Copenhaga. Uma primeira observação é a de que a grande maioria das análises efectuadas até ao momento tenta analisar o porquê do colapso negocial com base num pressuposto essencial, típico da análise jornalística: a de que há desígnio negocial, i.e. inevitavelmente vencidos e vencedores, estratégias negociais claras e menos claras e acima de tudo, culpas a atribuir pelo fracasso. A realidade é mais complexa do que isso: há uma multitude de factores que levaram ao descalabro negocial, muitas delas escalpelizadas e bem: a actuação americana, algo errática, a teimosia e mesmo hipocrisia de alguns negociadores do G-77, a falta de flexibilidade (alguns chamar-lhe-iam arrogância) chinesa, a apatia europeia. Contudo, é tão ridículo apontar as baterias ao Presidente Obama pela sua tentativa mal alinhavada de salvar a Cimeira, como a Wen Jiabao ou a Hugo Chávez. Qualquer um deles contribuiu, no âmbito de um acontecimento mais complexo do que qualquer um deles poderia dominar, para a solução encontrada.
Tentemos então fazer uma análise, evidentemente pessoal, do papel que diferentes actores tiveram no final de Copenhaga, para melhor perceber onde estamos actualmente e quais as vias próximas de actuação possíveis, em particular para a Europa.

A Presidência Dinamarquesa

Primeiro: os hóspedes. A Dinamarca tinha, desde há dois anos, assegurado a organização da COP-15, mesmo que a custo de re-organizar a tradicional rotação regional dos hóspedes da conferência (este ano teria sido a vez da América Latina). O investimento negocial e de prestígio na organização foi imenso. É por isso surpreendente a evidente falta de preparação da organização para lidar com os volumes de delegados e manifestantes, como foi amplamente noticiado. Mas mais chocante do que a falha organizativa foi toda a postura diplomática do país organizador, apostado em ter um resultado positivo, sob a forma de um acordo político que fosse alinhavado em conferência de líderes. Note-se que todas as negociações internacionais não comportam a possibilidade de serem negociados entre 193 países com iguais direitos de negociação, pelo que a maioria dos acordos são feitos entre representantes de países com iguais interesses. É assim, absolutamente hipócrita pretender que Copenhaga poderia ser uma negociação de igual para igual entre os 193, como sugerido por algumas das Partes presentes em Copenhaga. Contudo, o que choca foi a forma como a Dinamarca não cuidou de criar as condições necessárias para criar a confiança entre as diferentes Partes, de que seria um árbitro equilibrado. Pelo contrário, as diferentes peripécias negociais que se sucederam, incluindo a fuga de informação sobre um texto (aliás já velho de duas semanas quando saíu), ou a mal explicada mudança de presidência a meio da segunda semana, tudo conspirou para retirar à Dinamarca legitimidade, sobretudo aos olhos dos países que mais desconfiariam sempre dos propósitos dinamarqueses (visto como demasiado próximos dos europeus): o G-77. Por último, o fraco desempenho da Presidência e do primeiro-ministro dinamarquês foi dolorosamente visível na última noite de Copenhaga, quando foi directamente acusado em plenário de ser parcial e ineficaz.

Obama na aldeia climática

Muitas esperanças foram colocadas no desempenho do presidente americano. Essas esperanças eram claramente infundadas. Quem conhece o ambiente político em Washington saberá que Obama tem uma estreita margem de manobra para actuar internacionalmente, se não quiser repetir os erros de Clinton. E Obama foi agressivo e corajoso: anunciou um pacote de financiamento climático bastante substancial, vinculou a sua Administração a um resultado no Senado de uma lei ainda em discussão, determinou que o acordo futuro a ser celebrado pós-Copenhaga deveria ser um acordo juridicamente vinculativo (seguindo assim as pretensões europeias). O que Obama aparentemente não contava era com o estado deplorável a que tinha chegado a negociação no momento da sua chegada a Copenhaga (a coordenação entre o Departamento de Estado e a Casa Branca não terá sido a melhor, diz-se). Seja como for, Obama tinha essencialmente um objectivo: negociar cedências com a China que permitissem vender um Acordo domesticamente como respondendo às exigências que os senadores centristas americanos não deixarão de fazer: acções com significado em reduções de emissões, internacionalmente verificáveis, por parte da China. Obama conseguiu isso, no Acordo de Copenhaga, e tal foi o suficiente para declarar o Acordo como um relativo sucesso.

A actuação chinesa

Era sobre a China que caíam todas as decisões e questões. Até onde pode a China ir no compromisso internacional pela redução de emissões? A resposta foi clara e até algo brutal: a China demonstrou, pela sua actuação, que o seu objectivo estratégico será sempre o de assegurar as condições máximas para o seu crescimento económico, sem constrangimentos internacionais. Na medida em que é afectada pelas alterações climáticas, a China contribuirá para o esforço global, mas não sente a necessidade de se vincular a um regime internacional de reduções. Mais: a China não aceitou sequer a inclusão de metas para 2050 para os países desenvolvidos, pela natureza do precedente que assim se abriria para futuros tratados. Contra a estupefacção, diga-se, dos próprios líderes europeus.
Convém no entanto compreender esta actuação à luz do regime chinês, das suas prioridades e do papel que a China pretende ter no mundo. De pouco serve demonizar a China, ou pretender que de alguma forma foi ela a culpada do colapso. Antes deveríamos atentar ao porquê de não termos, colectivamente, levado a China a alinhar o seu interesse estratégico por uma solução vinculativa em Copenhaga?

Os “radicais” do G-77

No grande e heterogéneo grupo que são o G-77, sobressaíram pelo seu papel crucial nas últimas horas, as posições radicais pró-transparência de Sudão, Bolívia, Venezuela e Nicarágua. Pretendendo falar em nome do G-77, recusaram-se a contemplar aceitação do documento final como um documento das Nações Unidas, denunciando de forma consistente a legitimidade do processo negocial em que redundou a conferência de líderes convocada pela Presidência dinamarquesa no último dia. É contudo uma situação cheia de hipocrisia, porquanto alguns dos seus membros foram efectivamente convocados para a conferência de líderes, tendo depois acusado a falta de transparência do mesmo. Mais gravoso, depois de acusações pouco diplomáticas aos líderes em causa (nomeadamente, de genocídio comparável ao Holocausto), ficou claro que se tratava de uma minoria dentro do grupo do G-77, apesar de tudo capaz de bloquear o consenso desejável.

O desempenho de Lula

No meio de Copenhaga, surge um líder carismático, e não é Obama: o discurso praticamente ad lib de Lula é uma lição de poder comunicacional (veja-se discurso em http://www.youtube.com/watch?v=hhL_fsp_Ufw). A sua oferta de financiamento (não especificada) uma jogada de mestre, obrigando os países desenvolvidos a irem mais longe nas suas ofertas. Contudo, importa reconhecer: muita da agenda climática brasileira tem claramente um objectivo interno, de ocupação do campo por parte dos potenciais candidatos à Presidência do Brasil. E tanto o Ministro do Ambiente, Carlos Minc, como Dilma Roussef, foram a Copenhaga posicionar-se já para as suas futuras corridas eleitorais. Nisso, nada de mal, faz parte do jogo democrático. E a prova da coerência do Brasil está na recente aprovação da lei que vincula o Estado brasileiro a metas de redução particularmente ambiciosas.

Na segunda parte do "post" analiso a prestação europeia, e o futuro do regime climático pós-Copenhaga.

* Membro do Comité Executivo do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo do Protocolo de Quioto e da delegação portuguesa à Conferência de Copenhaga. Consultor da Comissão para as Alterações Climáticas. As opiniões expressas são da responsabilidade do autor e não vinculam de forma alguma as instituições acima citadas.

Como agir perante incerteza?

Aqui está um artigo clarividente sobre riscos e como actuar perante a incerteza. Subscrevo o artigo na sua quase totalidade. Apenas acrescentaria dois pontos. Primeiro que sem existência de cenários e projecções, não seria possível mobilizar agentes económicos e políticos para empreender as reformas necessárias para a redução da vulnerabilidade social face à instabilidade climática (seja ela qual for). Por outras palavras: sem 4 relatórios de síntese, promovidos pelo IPCC, de excelente qualidade, sobre o clima do planeta, não teriamos chegado a Copenhaga onde, apesar das contradições inerentes a um processo com estas características, se congregaram mais chefes de Estado na mesma cidade do que em qualquer ocasião da História recente.

Segundo, ainda que concorde que deve ser dada maior enfase na implementação de medidas de adaptação (a conclusão do artigo mas também do IV relatório do IPCC), também é verdade que se medidas de mitigação (das alterações climáticas) não forem tomadas, o custo social e económico da adaptação será, se as projecções estiverem (mesmo que qualitativamente) correctas, incomensuravelmente mais elevado. Portanto, faz sentido actuar em ambas as direcções.

Mas é bom não perder de vista que as projecções - com os seus graus variáveis de incerteza - devem servir para identificar tendências e vulnerabilidades que, por sua vez, deveriam orientar decisões proactivas de redução do risco. A tentação de interpretar as projecções como se providenciassem previsões precisas sobre um futuro necessariamente incerto (ver crítica aqui) deve ser evitada na mesma medida como se deve evitar que o diletantismo intelectual e ignorância prevaleçam sobre a racionalidade inerente à utilização do melhor conhecimento científico actual para auxiliar o processo de decisão.

Science should focus more on understanding the present and less on predicting the future, argues Daniel Sarewitz.

Artigo completo aqui.

(...) In February 1997, the weather service predicted that the Red River would reach a record flood crest of 15 metres in Grand Forks, North Dakota. The town prepared for that height, but in April the crest passed 16 metres, and the result was US$1.5 billion in flood damage. The prediction was within the historical range of forecast accuracy (R. A. Pielke Jr Appl. Behav. Sci. Rev. 7, 83–101; 1999), but information providers, communicators and users lacked the experience and judgement to respond appropriately to the prediction.

In the wake of the disaster, residents were willing to abandon low-lying areas of town as part of a new $409-million flood-control system for floods of up to 19 metres. What had they learned from their experience? Not to depend on predictions. And when high floods struck again last March, the town stayed dry.

False belief

Predictions are not instructions that people simply follow to make better decisions. They are pieces of an intricate puzzle that may sometimes contribute to improved decisions. For complex, long-term problems such as climate change or nuclear-waste disposal, the accuracy of predictions is often unknowable, uncertainties are difficult to characterize and people commonly disagree about the outcomes they desire and the means to achieve them. For such problems, the belief that improved scientific predictions will compel appropriate behaviour and lead to desired outcomes is false.

This conclusion flies in the face of the instincts and interests of scientists and decision-makers. Scientists are attracted to the intellectual challenge of making predictions, and recognize that promising to provide predictions appeals to the interests of the policy-makers who fund them. And decision-makers would prefer to hand over responsibility for the future to scientists — who would also take the blame when wrong.

For example, regional climate predictions are now being offered by scientists as a next logical step in applying science to the global-warming problem. As explained on the website of the Climate Variability and Predictability project of the World Climate Research Programme: "The increased confidence in attribution of global scale climate change to human induced greenhouse emissions, and the expectation that such changes will increase in future, has led to an increased demand in predictions of regional climate change to guide adaptation." The seductive but dangerous logic is driven by the confluence of the "increased demand" of decision-makers, and the high-prestige science of climate modellers who believe that society needs more of what they've been doing anyway (see Nature 453, 268–269; 2008). But this logic confuses the distinct tasks of bringing a problem to public attention and figuring out how to address the societal conditions that determine the consequences of the problem.

Hurricane Katrina in 2005 provides cautionary insight. The likelihood of such a storm had been appreciated for decades and, in the days leading up to the disaster, the storm's path was accurately predicted. But New Orleans's fate had long been sealed by a lethal combination of socioeconomic and racial inequity, regional environmental degradation, unwise development patterns and engineering failure. Science had delivered ever more knowledge about regional climate behaviour and ever more accurate hurricane-track predictions, but this was not what the city needed to avoid catastrophe.

In contrast, from a societal perspective, perhaps the best thing that ever happened in the field of earthquake research was the recognition that earthquake prediction was likely to be impossible. In recent decades, the priorities of the US Geological Survey's earthquake-hazard programme have moved away from prediction and towards the assessment, communication and reduction of vulnerabilities. This evolution has demanded closer collaboration between scientists and diverse regional and state decision-makers, to provide information that can help improve construction practices, land-use decisions, disaster-response plans and public awareness.

If wise decisions depended on accurate predictions, then in most areas of human endeavour wise decisions would be impossible. Indeed, predictions may even be an impediment to wisdom. They can narrow the view of the future, drawing attention to some conditions, events and timescales at the expense of others, thereby narrowing response options and flexibility as well.

This difficulty is on spectacular yet unacknowledged display in the climate-change arena. The recently concluded United Nations climate-change conference shows that the world's attention is focused on global warming, but also that clear progress towards addressing the problem is incredibly difficult to achieve. A central obstacle is that predictions of long-term doom have created a politics that demands immense costs to be borne in the near term, in return for highly uncertain benefits that accrue only in a dimly seen future.

Science could help untangle this politically impossible dilemma by moving away from its obsession with predicting the long-term future of the climate to focus instead on the many opportunities for reducing present vulnerabilities to a broad range of today's — and tomorrow's — climate impacts. Such a change in focus would promise benefits to society in the short term and thus help transform climate politics. Strange as it may seem, the right lessons for the future of climate science come not from the success in predicting thunderstorms, floods and hurricanes, but from the failure to predict earthquakes.

pobreza e conservação


algumas notas utilizadas no Quénia e na Tanzânia

O pequeno avião ficou uns bons dez minutos à espera de lugar para usar a pista que rasgava a intensa forragem e fazer-se a sul. Amplas pastagens iam dando lugar ora à savana mais ou menos arborizada, ora a vastas áreas aparentemente semi-desérticas.

A esta distância a paisagem assume tons de verde seco e de amarelo de ervas e arbustos diversos, que cortam a inesperada coloração rubra da terra. Daqui, poderia pensar que sobrevoava o interior alentejano, não fosse a total ausência de povoados e de habitações alvas que decoram a paisagem lá para as bandas do Guadiana.

Como uma criança, busco manadas de elefantes e outra bicharada que por serem grandes teriam que ser facilmente visíveis, ainda para mais que o avião sobrevoava a uma altitude relativamente baixa, ou pelo menos, assim eu assim o desejava.

Entretanto, pequenas núvens vão criando silhuetas que caminham pela savana. Aos poucos, adensam-se e dão lugar a uma imenso tapete branco onde, alguns minutos mais tarde emerge a grande montanha. Quilimanjaro. Mais tarde, a monotonia do contínuo de nuvens que me parecia destinada, atirou-me para uma daquelas revistas das companhias aereas que existem em todos os aviões. Uma reportagem sobre mergulho em Zanzibar, outra sobre gravuras milenares em Kondoa-Irangi, outra sobre os gorilas-da-montanha no Uganda e mais outra sobre a pesca nas Murchison Falls ainda no Uganda, e uma última sobre um safari no Katawi National Park. Publicidade diversa usando imagens dos animais da região.

As gentes destas terras souberam aproveitar a incrível biodiversidade que possuem. Conservam-na porque representa uma tremenda fonte de receita. E convenço-me que é este o único caminho viável para promover a conservação da natureza, particularmente evidente em países pobres.

Gonçalo Rosa

Um gorro quentinho para André Azevedo Alves

O Insurgente tem-se dedicado a tirar partido de um Inverno frio no hemisfério Norte para sugerir que a teoria do aquecimento global está errada.
Não é o único, há vários blogs que se entretêm com isso.
Confesso que é uma lógica que não percebo.
A crítica ao excesso e ligeireza com que se usam as alterações climáticas para tudo e mais alguma coisa (ainda ontem ou anteontem lá vinha o WWF a falar nas alterações climáticas a propósito da conservação dos tigres, que coitados têm outros problemas e bem mais urgentes a resolver para que consigam persistir) é uma crítica justa.
Muito dos que agora falam deste inverno rigoroso (e acho que nem lêem os links que usam, como se pode verificar neste post, em que AAA fala em arrefecimento global quando o texto para que linka diz: "Guo Hu, the head of the Beijing Meteorological Bureau, linked this week’s conditions to unusual atmospheric patterns caused by global warming. Meteorologists were also trying to find a pattern in the heavy rains that have hit equatorial regions and the southern hemisphere in the past week.") criticaram, e bem, a ligação directa feita muitas vezes entre Verões e Invernos quentes anteriores e o aquecimento global.
É claro que agora, ao falar deste Inverno rigoroso no hemisfério Norte como demonstração de que não há aquecimento global, estão a caucionar os futuros abusos do outro lado quando com o calor se começar outra vez a dizer que é do aquecimento global, misturando clima e meteorologia.
Só ao ler um comentário ao post sobre a abertura da caça ao lobo na Suécia percebi o que se está a passar: o frio parece estar a congelar o cérebro de muito negacionista, da mesma forma que o calor frita muito cérebro de alarmista.
henrique pereira dos santos

Terça-feira, Janeiro 05, 2010

Eólicas, aves, impactes positivos?

Muito se tem falado sobre os impactes dos parques eólicos sobre a avifauna, em especial os negativos. Embora aceite que em zonas de elevada densidade de aves possa existir impactes sobre este grupo faunístico, reconheço que a meu ver, existem outras estruturas e actividades antrópicas bem mais impactantes que muitas vezes são negligenciadas ou subvalorizadas.

Após os trabalhos de recuperação paisagísticas dos taludes de um recente parque eólico construído na Serra de Montemuro, que terminaram a finais de Abril, este parque eólico entrou em pleno funcionamento em início de Maio. Enquanto fazia prospecção de mortalidade desse parque eólico em finais de Maio, um casal de Monticola saxatilis (merlo-das-rochas) chamou-me a tenção pela frenética actividade que desenvolviam no entorno de um dos aerogeradores. Bastaram 10 minutos sentado encima de uma rocha para descobrir que este casal de melro-da-rocha, tinha escolhido o talude deste aerogerador para nidificar, aparentemente com sucesso verificado pelos 3 juvenis voadores, observados nas imediações passado mais ou menos um mês.

Estranho este casal de merlo-das-rochas ter escolhido um local de nidificação onde 2-3 semanas antes se encontravam gruas, camiões e até uma retroescavadora envolvida na recuperação e modelação do talude onde nidificara e estar situado a escassos 5 metros de um aerogerador.

Será que para este casal de Monticola saxatilis a construção do PE teve um impacte positivo?



Segunda-feira, Janeiro 04, 2010

A Suécia autoriza a caça ao lobo ao fim de 45 anos


Esta notícia do Público merece ser lida. Nos números de lobos envolvidos e nas decisões tomadas. Um dia esta decisão vai ser tomada em Portugal.
henrique pereira dos santos

Exemplar


Via O Insurgente, no qual estou proibido de fazer comentários, cheguei ao A Artede da Fuga, onde fiz alguns comentários.
Escolhi uma das mil possibilidades de análise de um link que Range o Dente, pavlovianamente, também já colocou nos comentários da Ambio.
O link em análise é este.
Deliberadamente a minha escolha é sobre uma questão lateral.
Mas para quem quiser olhar para uma questão de fundo (a questão das reconstruções climáticas a partir dos anéis de crescimento das árvores a que está associada a famosa frase "hide the decline"), pode comparar a argumentação pueril de John Costella para invalidar o uso dos anéis de crescimento no link em causa, quando comenta um email de 22 de Setembro de 1999 (estão por ordem cronológica), com o que é dito neste link (incluindo os comentários dos leitores e discussão subsequente).
Escolhi para demonstrar a forma como é feita esta análise os comentários a um mail de 22 de Novembro de 1996.
John Costella diz "Again, selling the public message—before the actual end of the calendar year—is of primary importance for these senior scientists. Jenkins goes on to explain how this “invented” data should be leaked". Para o demonstrar, cita: "We feed this selectively to Nick Nuttall (of the United Nations Environment Program) (who has had this in the past and seems now to expect special treatment) so that he can write an article for the silly season. We could also give this to Neville Nicholls (climate scientist at the Bureau of Meteorology Research Centre in Melbourne, Australia)?". Salto algumas coisas para citar a parte final da análise feita por John Costella: "In other words, Jenkins was more interested in getting “headline” numbers out to the general public, than in ensuring an impartial release of information to all members of the press at the same time.
If repeated in 2009, Jenkins’ actions could have rendered him liable to criminal prosecution for insider trading. However, given that we are here talking about 1996—before so many billions of dollars of decisions and market movements watched the unfolding climate change debate—we can put his actions down to mere expedience and naivete."
Penso que pouca gente fará o que eu fiz. Fui ler o mail original: http://assassinationscience.com/climategate/1/FOIA/mail/0848679780.txt
O que qualquer pessoa normal pode ler neste mail é a preocupação normal e legítima de Geoff Jenkins, head of climate change prediction at the Handley Centre for Climate Prediction and Research, part of the United Kingdom’s Meteorological Office (national weather service), no sentido de ter uma resposta à pressão dos média que, no fim do ano, querem ter balanços do ano anterior, mesmo que os dados ainda não estejam totalmente disponiveis (provavelmente ele chama a esse período de fim de ano, que acabámos de passar e no qual acabamos de ver todos os balanços na mesma altura, silly season).
E o que o mail faz é propor um método perfeitamente normal:
"1. By 20 Dec we will have land and sea data up to Nov 2. David (?) computes the December land anomaly based on 500hPa heights up to 20 Dec. 3. We assume that Dec SST anomaly is the same as Nov 4. We can therefore give a good estimate of 1996 global temps by 20 Dec 5. We feed this selectively to Nick Nuttall (who has had this in the past and seems now to expect special treatment) so that he can write an article for the silly season. We could also give this to Neville Nicholls?? 6. We explain that data is provisional and how the data has been created so early (ie the estimate for Dec) and also 7. We explain why the globe is 0.23k (or whatever the final figure is) cooler than 95 (NAO reversal, slight La Nina). Also that global annual avg is only accuirate to a few hundredths of a degree (we said this last year - can we be more exact, eg PS/MS 0.05K or is this to big??) 8. FROM NOW ON WE ANSWER NO MORE ENQUIRIES ABOUT 1996 GLOBAL TEMPS BUT EXPLAIN THAT IT WILL BE RELEASED IN JANUARY. 9. We relesae the final estimate on 20 Jan, with a joint UEA/MetO press release. It may not evoke any interest by then. 10. For questions after the release to Nuttall, (I late Dec, early Jan) we give the same answer as we gave him. Are you happy with this, or can you suggest something better (ie simpler)? I know it sound a bit cloak-and-dagger but its just meant to save time in the long run."
Pode questionar-se o tratamento dado a um jornalista (ou dois) em especial, pese embora a afirmação de que a qualquer outro pedido se enviará a mesma resposta que ao primeiro, mas de resto o procedimento para lidar com a pressão mediática é irreprensível: usar todos os dados possíveis de coligir em tempo útil, estimar o resultado para os poucos dias em que não será possível ter dados em tempo útil, vincar que se trata de uma estimativa explicando como foi obtida e remeter para os dados finais logo que possível.
Pois perante isto o Sr. John Costella consegue retirar três excertos do mail, embrulhá-los em interpretações completamente abusivas, e tirar conclusões de que os cientistas envolvidos "inventam" dados (com medo dos tribunais o Sr. John Costella tem o cuidado de pôr aspas nesta palavra crucial da sua análise)", e estão é preocupados em fazer cabeçalhos nas notícias, mesmo antes do fim do ano, o que evidentemente passou despercebido aos bloggers que o citam como fazendo uma excelente análise.
O que isto tem de miserável não é apanágio deste mail, fiz a experiência em vários outros e escolhi, deliberadamente, uma questão lateral para ilustrar a forma como o assunto tem vindo a ser tratado.
Que um físico teórico envolvido nas teorias da conspiração sobre o assassinato de Kenedy se entretenha a fazer isto, eu percebo, a fama é sempre boa para quem gosta do género.
Que pessoas inteligentes, de blogs supostamente racionalistas lhe façam vénias e classifiquem como excelente a sua análise do assunto é para mim um mistério.
henrique pereira dos santos

Domingo, Janeiro 03, 2010

Se quiseres cultivar a paz, preserva a criação


"Como ficar indiferente perante as problemáticas que derivam de fenómenos como as alterações climáticas, a desertificação, a deterioração e a perda de produtividade de vastas áreas agrícolas, a poluição dos rios e dos lençóis de água, a perda da biodiversidade, o aumento de calamidades naturais, o desflorestamento das áreas equatoriais e tropicais? Como descurar o fenómeno crescente dos chamados «refugiados ambientais», ou seja, pessoas que, por causa da degradação do ambiente onde vivem, se vêem obrigadas a abandoná-lo – deixando lá muitas vezes também os seus bens – tendo de enfrentar os perigos e as incógnitas de uma deslocação forçada? Com não reagir perante os conflitos, já em acto ou potenciais, relacionados com o acesso aos recursos naturais? Trata-se de um conjunto de questões que têm um impacto profundo no exercício dos direitos humanos, como, por exemplo, o direito à vida, à alimentação, à saúde, ao desenvolvimento."
Do perigoso terrorista ambiental, neo-marxista, integrante do gang do climagate, Bento XVI.
Apesar de noticiada pelos jornais há já vários dias, o texto integral merece uma visita e leitura atenta, quer pelos mais firmes católicos, quer pelos mais fiéis crentes doutras religiões, quer pelos mais empedernidos ateus, quer ainda pelos mais perdidos agnósticos, como eu.
henrique pereira dos santos

Sábado, Janeiro 02, 2010

O DDT, a malária e os adolescentes inconsequentes


A propósito das alterações climáticas, um comentador anónimo (ou se se preferir, um comentador que usa um pseudónimo) resolveu fazer um violento ataque a Rachel Carson e à irresponsabilidade dos ambientalistas, que acusa de criminosos.
O nível da argumentação e a violência do ataque merecem resposta, sobretudo porque pessoas bem intencionadas mas sem tempo para verificar o que se sabe sobre o assunto podem ficar seduzidas pela segurança das afirmações feitas, confundido preconceitos com factos.
"Objectivamente a interdição de uso do DDT matou +50 milhões de pessoas" diz-se, com absoluta segurança. (ver aqui a perfeita desmontagem desta estupidez)
Não sei qual é a fonte para esta afirmação tão taxativa, nem sei como se faz a contabilidade, sobretudo sabendo que o DDT foi proibido em muitos países mas continuou a ser usado em muitos outros, em especial naqueles onde a malária (ou paludismo) é endémica e ataca mais fortemente, até porque as restrições ao seu uso sempre incluíram excepções para o controlo de doenças.
Nem sei como se chega a conclusões destas sabendo que um dos problemas principais do uso de pesticidas como o DDT é a bioacumulação ao longo da cadeia trófica, que tem efeitos especialmente graves nos predadores, muitos deles predadores dos mosquitos veículos de malária.
Uma coisa é discutir seriamente qual é a utilidade do DDT no controlo da malária, discutir os custos e benefícios do seu uso apesar dos efeitos secundários, discutir os mecanismos alternativos de controlo da malária, discutir o desenvolvimento de resistências ao DDT nas populações de mosquitos e por aí fora (um link equilibrado para a discussão).
Outra coisa é agir como um adolescente inconsequente, esquecer os efeitos de longo prazo do DTT, considerar que é possível erradicar a malária matando todas as populações de mosquitos que lhe servem de veículo.
Esta ideia de interferir nas cadeias tróficas de forma drástica tem sido trágica e ao longo da história causou desastres ambientais de que resultaram milhões de mortes, como no mais que conhecido caso chinês com o controlo dos pássaros para aumentar as culturas, ou, em muito menor escala, na secagem das zonas húmidas, quer para as reconverter para a agricultura, quer exactamente para diminuir as sezões (outro dos nomes dados ao paludismo e malária).
Querer resolver problemas complexos, num mundo complexo, com ideias simples é muitas vezes desastroso.
Acusar de criminoso quem simplesmente se limita a pôr em cima da mesa as limitações dessas ideias simples, querendo levar essas pessoas a tribunal em vez de demonstrar onde estão erradas é infame e ultrapassa o direito à asneira de que todos somos detentores.
henrique pereira dos santos
Adenda: Deixei de responder ao comentarista que fez este ataque de baixo nível sobre o DDT quando percebi que as suas referências sobre as alterações climáticas eram risiveis, sendo o seu valor inversamente proporcional à arrogância das suas certezas e à agressividade face a quem se limita a pensar de forma diferente. Para se perceber melhor a indignação que me fez escrever este post aconselho a leitura integral do artigo da Wikipedia em inglês sobre o DDT, com dezenas de referências bibliográficas, discutindo equilibradamente a sua relação com o controlo da malária, bem como todo o processo que levou à proibição do seu uso na agricultura (e nunca foi banido no combate ao vector da malária, ao contrário do que foi afirmado). Este blog preza a liberdade de expressão e o contraditório, mas o que foi dito sobre Rachel Carson e o movimento ambientalista a propósito do DDT é de facto inaceitável, não por ser uma opinião divergente sobre o DDT mas por, à falta de factos, se usar uma mentira evidente com o único objectivo de atacar quem pensa de maneira diferente.

O equívoco

Li este artigo no público on line.
E mesmo procurando ter alguma contenção na crítica à actuação em áreas que foram da minha responsabilidade há pouco tempo não consegui deixar de fazer um post referindo o que me parecem ser dois ou três equívocos.
O primeiro e principal equívoco da Sr.ª Ministra do Ambiente é considerar que a prioridade do Ano Internacional da Biodiversidade é sensibilizar o cidadão comum.
Na verdade é muito interessante ver a diferença entre estes dois parágrafos:
"“Não queremos que (a biodiversidade) continue a ser uma preocupação de elites técnicas, queremos que desça ao cidadão porque temo-nos dado conta que mesmo técnicos de outras áreas olham para a biodiversidade com desconhecimento”, disse Dulce Pássaro."
O Secretariado da Convenção da Diversidade Biológica tem razão (e apenas para poupar espaço não transcrevo mais, deixando o link para quem se queira informar). Públicos-alvo, sensibilização política, colaboração com parceiros, avaliação de resultados e um relatório à Assembleia Geral das Nações Unidas fazem uma enorme diferença para distribuição de pequenos jornais em postos de abastecimento de combustível, workshops, guias de biodiversidade para cada área protegida, e por aí fora.
Na realidade o problema não é apenas, nem sobretudo, a sensibilização do cidadão comum, muito menos com pequenos jornais amadores, sem profundidade e objectivos definidos, a distribuir profusamente, mas sim a sensibilização, talvez, mais mais que tudo os compromissos pela biodiversidade do Sr. Ministro da Agricultura, do Sr. Ministro da Economia, do Sr. Ministro das Finanças e, acima de todos, do Sr. Primeiro Ministro.
O problema não são os workshops que o ICNB fará, o problema seria saber o que se pretende que todos os outros façam, incluindo os cidadãos comuns e as suas organizações. O problema não é fazer edições e publicações, o problema é saber para quem, porquê e com que objectivo.
O ICNB tem um programa de comunicação e visitação das áreas protegidas que pretendia passar das redacções infantis "o lobo é muito importante, não devemos matar lobos" e por aí fora para um contacto directo das pessoas com as áreas protegidas, os seus dilemas, as suas opções de gestão. Mas ainda assim parece que se vai esquecê-lo para de novo inventar a roda fazendo publicações a esmo, sem objectivo e com custos reais que, evidentemente, retiram recursos à principal função do ICNB: gerir a biodivesidade.
Confesso o meu cansaço.
E sobretudo a minha falta de esperança: os mesmos erros, da mesma forma, mais ou menos pelas mesmas pessoas, com os mesmos custos, outra, e outra, e outra vez, como se fosse impossível aprender e mudar.
Como é evidentemente possível aprender e mudar, isto só pode ter uma interpretação, infelizmente bastante negra: não se quer mesmo mudar, e já que politicamente não se pode varrer para baixo do tapete o Ano Internacional da Biodiversidade, vamos lá fazer um programa de festas para entreter para ver se ninguém nota que realmente a biodiversidade é assunto politicamente inexistente.
Essa é a opção clara e consciente deste Governo. E funciona, dado o baixo grau de escrutínio e capacidade crítica que demonstramos.
henrique pereira dos santos

Sexta-feira, Janeiro 01, 2010

A rolha e o boicote - parte 3

Havia um escritor holandês (Simon Vestdijk) que escrevia tanto que originou um ditado que era "escrever mais rápido que Deus consegue ler". Vem me em mente esse ditado pensando em HPS, que se antecipou ao meu terceiro post, com todo o direito, por ter iniciado esse tópico com o post do boicote. Para evitar repetir o que HPS já disse no seu último post, por concordar com ele e por não conseguir fazê-lo com a mesma clareza e eloquência, desvio um pouco a atenção para a forma de comunicação que o Miguel Champalimaud (MC) escolheu em resposta ao tema em causa.

1 - É invulgar um CEO vir ao terreiro defender uma opção comercial da sua empresa em resposta a uma crítica relativamente inofensiva e sem grande ameaça. Normalmente esses assuntos são despachados por pessoal de departamentos de comunicação. Gostei da resposta, devo dizer. Sem papas na língua, ficou claríssimo o porquê da mudança de vedante nos seus vinhos. E, como já manifestou o HPS, tem muita razão no que afirma.

2 - Mais invulgar ainda é a forma como MC responde. A resposta é agressiva e chega a ser ofensiva quando passa a classificar de forma grosseira pessoas que manifestam a sua discordância com uma opção comercial da empresa. O MC evidentemente "dispensou" essas pessoas como possíveis clientes do seu produto, porque não passa pela cabeça de ninguém responsável ofender clientes. É um erro: só quem coloca a possibilidade de comprar um certo produto pode considerar o seu boicote. Seria ridículo eu afirmar que boicotava a Ferrari por achar que os seus carros consomem muito combustível. No caso dos vinhos de MC, comprava com alguma frequência o seu vinho verde Paço de Teixeiró, um bom, acessível e agradável vinho: deixei de fazê-lo desde que use tampas de rosca. É claro que o meu consumo pessoal não aquece nem arrefece a casa Montez-Champalimaud, mas é provável que haja mais pessoas com a mesma reação que eu. Isso devia preocupar MC.

3 - O MC mostra, de forma indireta, uma outra face da questão das rolhas vs. tampas: a real questão não é a da qualidade ou falta dela da rolha como vedante, mas sim uma relação comercial espinhosa entre a indústria corticeira e a vinícola. Se fosse uma questão de rolhas defeituosas, as grandes marcas mundiais de vinho já tinham abdicado de rolhas há décadas, porque as tampas não são uma invenção recente. Uma realidade é que, quase sem exceção, os vinhos topo de gama ao nível mundial continuam a usar rolhas como vedante e não as tampas. E essas marcas são pelo menos tão preocupadas com a qualidade do vinho como o MC. Pode aborrecer abrir uma garrafa de Quinta do Côtto com o vinho a saber a rolha, passa a ser um drama quando se trata de uma Barca Velha, Pétrus ou Clos de Vougeot. Portanto, a questão é comercial e não técnica. Como qualquer empresa, Montez-Champalimaud não gosta de depender de um grupo restrito de fornecedores e procura equilibrar o balanço de forças de oferta e procura. No caso dos vedantes conseguiu-o através de tampas de rosca, que qualquer indústria produz às toneladas. Compreende-se e está justificado.

4 - Como já afirmei no primeiro post meu sobre o boicote (que curiosamente refere vários dos argumentos depois usados pelo MC), penso que a rolha tem os dias contados para grande parte dos vinhos de consumo imediato (fica se calhar de fora a franja minúscula do mercado dos vinhos de guardar). O MC tem carradas de razão quando diz que a indústria corticeira vive à sombra do sobreiro e necessita urgentemente de encontrar novos mercados para os seus produtos corticeiros. Mas, sem a conhecer por dentro, penso que a "crise" das rolhas vai provocar uma resposta positiva por parte da indústria corticeira. Uma coisa sei eu: gastei mais cortiça no isolamento da minha casa (aí o MC está redondamente enganado) que um batalhão de ribatejanos bêbados pudesse gastar em rolhas no seu consumo de vinho ao longo da sua vida!

5 - Gostava muito de ver uma resposta do MC ao post do HPS. Muito mesmo.

Henk Feith

E se o almoço inclui o vinho


Lisboa, 1 de Janeiro de 2010
Caro Miguel Champalimaud,
Li a sua resposta a algumas reacções à campanha sobre as tampas de rosca.
Deixe-me em primeiro lugar dizer que gostei da sua frontalidade e clareza. E espero que possamos manter esse registo onde diferenças são diferenças, ditas de forma clara, sem que, por isso, possam ser entendidas como ataques pessoais.
Na sua classificação de grandes tipos de reacionários (no sentido em que reagiram à campanha, não mais que isso) eu estarei no grupo D. A gente da retaliação e boicote, etc, etc..
Sinto-me mal classificado neste grupo. É que boicote, retaliação e etc., etc., não são a mesma coisa. Eu sou do boicote, no sentido em que não compro vinhos com tampa de rosca, mas não estou a retaliar coisa nenhuma e nem sei o que é etc.,etc..
As razões pelas quais compro ou não os seus vinhos são direitos que tenho enquanto seu potencial cliente. Se não compro porque não gosto do rótulo, ou não gosto do preço, não estou a a retaliar. Se compro porque o vinho é bom, ou porque fico bem visto pela minha namorada, não estou a retaliar os seus concorrentes.
Estou apenas na categoria dos que boicotam tampas de rosca.
E o que gostava era de lhe explicar as minhas razões, sendo que para isso vou primeiro dizer-lhe com o que estou ou não de acordo na sua carta, e depois então passo às minhas razões, porque me parece que transparece na sua carta algum preconceito em relação a alguns grupos dos seus clientes potenciais, como é o meu caso.
É verdade que o meu potencial como seu cliente é pequeno porque não tenho dinheiro para comprar vinhos seus com mais frequência, mas isso é um detalhe que em qualquer altura da vida pode ser alterado.
“Eu, MIGUEL CHAMPALIMAUD, digo:
“Sou a favor da inovação, da qualidade e modernidade do vinho”;”
Penso que é difícil discordar da frase em si, o que acontece é que chamamos inovação, qualidade e modernidade a coisas diferentes, mas veremos se assim é mais para a frente.
“ “sou a favor da verdade achando que chegou a altura de assumirmos, ao nível da indústria-vinícula, o que há mais de 40 anos, por razões óbvias, se usa em todas as universidades e ou centros de investigação vinícola, os screwtops/tampasderosca, único sistema vedante que garante eficazmente o não contágio do vinho que se encontra na garrafa, por produtos aromas e sabores que lhe são estranhos”;”
Vou dar por adquirida esta afirmação que não posso verificar. Tenho lido coisas diferentes, nomeadamente quanto ao comportamento do vinho ao longo do tempo, mas acredito que saberá muito mais que eu sobre isto.
“ “sou a favor da eficácia e produtividade e contra as falácias e os preconceitos que só defendem e servem aqueles que estão instalados à custa do bem-estar e pobreza de terceiros”;”
É também difícil discordar desta frase, o que já é mais difícil é perceber por que razão aqui está, neste contexto. É que, como em todas as mudanças, há ganhadores e perdedores, e portanto usar tampas de rosca ou rolhas de cortiça implicam diferentes ganhadores e perdedores e consequentemente diferentes pobres. Duvido é que um sistema conduza à pobreza para quase todos e outro à riqueza para todos.
“ “numa garrafa de vinho, a rolha é apenas uma matéria subsidiária, um vedante que deveria preservar o vinho que a garrafa contém e nunca arruiná-lo”;”
Sim, isso é absolutamente verdade. O que não é verdade é que a cortiça tenha provado ser um mau vedante até hoje. Tem problemas, com certeza, mas parece-me excessivo dizer que um vedante que tem provado nos últimos duzentos anos (antes disso o seu uso para este efeito é residual) arruina o vinho. Por outro lado as tampas de rosca ainda não passaram o teste do tempo. Mas independentemente dessa discussão, e dando de barato que as coisas são inteiramente como descreve, a discussão sobre os efeitos globais do uso de materiais em qualquer processo produtivo não se esgotam na sua eficácia para esse processo em concreto. Tem um bom exemplo num sector que conhece bem, o dos pesticidas, em que a eficácia da sua aplicação para a resolução de um problema concreto é analisada em confronto com os seus efeitos secundários em aspectos não directamente ligados ao processo produtivo. Espero que esteja aberto a esta discussão, como estão as empresas mais dinâmicas e modernas do mundo.
“ “sou a favor dos ventos da História, recusar o progresso científico e tecnológico de nada serve, nem serviu então àqueles que, no seu tempo, foram a favor da destruição das máquinas a vapor”.”
O problema de entrar com os ventos da história nesta discussão é que só se sabem exactamente quais são e como se comportam esses ventos muito depois dos factos que eles influenciaram. Pelo menos da minha parte a minha recusa em comprar vinho com tampas de rosca não tem nada com a recusa do progresso científico e tecnológico, bem pelo contrário. É exactamente por estar preocupado com um progresso científico e tecnológico orientado para a sustentabilidade que me parece preocupante o retrocesso que me parece constituir o abandono de uso de materiais com fortes impactos positivos na sustentabilidade por soluções que se encaixam num modelo económico assente no esgotamento de recursos não renováveis.
“1.1 A gente da indústria corticeira é a única responsável pelas dificuldades com que se debate a rolha de cortiça e os produtores de cortiça. Ao não investirem há muitos anos na qualidade e fiabilidade do produto e aumentando desmesuradamente os preços das rolhas, abriram espaço aos novos vedantes nomeadamente às screwtops/tampasderosca.”
Estou genericamente de acordo consigo. Mas a questão neste caso não é o que faz a indústria corticeira mas a sua empresa. E a sua empresa prefere optar por uma solução fácil e barata, ainda que com implicações globais negativas, a optar por soluções que têm impactos globais positivos.
“1.4 A gente da retaliação e boicote, não representam mais do que a reacção de um grupo de pessoas com falta de informação e ou a mando e no interesse de terceiros que, na falta de argumentos sólidos para atacarem o moderno sistema dos screwtops/tampade rosca e defenderem o antiquado sistema de rolha de cortiça com o seu elevado deficit de fiabilidade/qualidade e custo 5 a 9 vezes mais elevado que o screwtops/tampaderosca, fazem consciente ou inconscientemente, o jogo de quem, ao abrigo de um quase monopólio e permanente abuso de uma posição dominante, usa e abusa da indústria vinícola nacional e internacional, enriquecendo ilicitamente à custa do empobrecimento daquela.”
Supreende-me que me diga que estou a mando de terceiros ou que sou um ignorante sem sequer me conhecer. Ignorante, aceito, a mando de terceiros parece-me excessivo. Retiremos portanto o processo de intenções e discutamos o que cada um de nós sabe sobre o assunto para ver se avançamos qualquer coisa e, no meu caso, se percebo melhor esta sua afirmação tão taxativa.
O que sei sobre o assunto é que a base dos vedantes sintécticos são materiais não renováveis, com fortes incorporações energéticas que implicam grandes emissões de gases com efeito de estufa. São totalmente dependentes de um recurso relativamente escasso e cujo o preço é extremamente volátil e se estima que possa vir a subir ao longo do tempo (pese embora a incerteza associada à volatilidade dos seus preços). Sobre estas afirmações tem objecções? Precisa de referências bibliográficas? Penso que conseguirmos perceber no que concordamos ou discordamos neste ponto ajudaria a racionalizar a discussão.
A base dos vedantes de cortiça (que, como diz muito bem, tem incorporado outros componentes com cada vez maior importância) é um produto renovável, com baixa incorporação energética (quando falo em incorporação energética estou a falar de combustiveis fósseis, bem entendido, já que a incorporação da energia solar através da fotossíntese é evidentemente relevante), e com uma capacidade de captação de carbono muito apreciável e compensadora de emissões com efeito de estufa.
Acresce que nesta comparação há diferenças substanciais entre as paisagens produzidas a partir da extração de petróleo e alumínio, por exemplo, e as paisagens produzidas a partir da produção de cortiça, sendo as primeiras inóspitas e com balanços negativos de biodiversidade e as segundas, pelo contrário, com um balanço muito positivo de biodiversidade.
Estas são as razões pelas quais boicoto o vinho com tampas de rosca e prefiro a utilização de cortiça (não apenas no vinho, bem entendido, os meus cartões de visita em vez de serem em papel são em cortiça, por exemplo).
Nada me liga ao sector da cortiça, e as minhas razões são as de cima.
Quer discuti-las, procurar ver onde está modernidade e os ventos da história? Por mim estou inteiramente aberto a esta discussão consigo, com a mesma clareza e frontalidade da sua carta que tenho vindo a seguir.
Repare que embora não estando completamente de acordo com alguns dos comentários específicos que se seguem na sua carta (por exemplo, parece-me excessivo chamar mão de obra penosa em casa ao tirar de uma rolha e confesso que já me cortei mais vezes com tampas de rosca do que me magoei a usar bons saca-rolhas) reconheco-lhe razão em muitos deles: o preço, a facilidade no uso, algumas das razões para o abandono da cortiça em muitos usos, etc..
E isso são com certeza dados da questão que precisam de discussão e resolução, estando nós de acordo em relação à antiga passividade da indústria da cortiça face aos problemas do sector, incluindo a forte posição dominante de algumas empresas que as fez perder alguma atenção aos seus clientes.
Tal como me parece que é relevante contar com os 30% do mercado que é sensível aos aspectos ambientais do seu consumo.
Não me parece é que varrer de uma penada para fora da discussão os aspectos de sustentabilidade e biodiversidade seja uma atitude de empresa moderna, inovadora e focada no cliente.
Com os melhores cumprimentos
henrique pereira dos santos
PS Como penso que a discussão assumiu uma forma mais ou menos pública, irei publicar esta carta no blog onde escrevo (a sua carta original já lá está reproduzida). Se quiser usar o nosso blog para também veicular os seus pontos de vista nesta discussão sinta-se nosso convidado e teremos todo o gosto nisso.

Quinta-feira, Dezembro 31, 2009

É bom saber bem o preço do almoço


Estive a ler dois estudos da APREN: um sobre os benefícios das energias renováveis (impacto económico, impacto no emprego e impacto ambiental) e outro sobre a tarifa aplicada a estas energias.
Não sou especialista e confesso que fiquei com algumas dúvidas sobre a forma como o assunto é tratado, dúvidas essas que gostaria de partilhar.
A primeira opção que me faz confusão é a do estudo sobre os benefícios das energias renováveis incluir toda a grande hídrica, o que complica toda a análise, sem que se percebam as vantagens de discutir a grande hídrica neste contexto.
Só para dar um exemplo de como a análise se complica com esta opção, basta pensar nos impactos ambientais. No estudo apenas se discutem emissões, o que pode ser uma opção aproximada da realidade para a eólica, ou a fotovoltaica, cujos impactos ambientais directos são razoavelmente escassos. Mas para o fazer para a grande hídrica seria necessário entrar em linha de conta, por exemplo, com os impactos das barragens na linha de costa e no déficit de sedimentos, ou com os seus pesados impactos na biodiversidade, matérias em que o estudo nem sequer toca.
Da mesma forma, toda a discussão económica se complica porque a grande hídrica não tem tarifas especiais e existe desde meados do século XX, o que significa que muito do que se diga sobre o seu impacto económico é quase história.
Mas adiante, tentando fugir dos problemas que esta opção introduz.
No estudo é feito um cálculo da redução das importações que é bastante estranho. Em primeiro lugar apenas contabiliza as importações evitadas mas não as induzidas pelo investimento em renováveis (que as há, evidentemente, em tecnologias, equipamentos, energia, etc.). E depois contabiliza o valor das importações evitadas mas não explica a que preço. Por exemplo, com o estudo sobre a tarifa, em que não entra a grande hídrica, ficamos a saber que para poupar 290 milhões de euros em importações gastamos 662 milhões. É um conceito de poupança um pouco estranho, mesmo tendo em atenção que se está a substituir uma importação por uma produção interna.
Outra das coisas interessantes é que apesar da produção ter aumentado substancialmente, o peso das renováveis no consumo mantém-se estável, ou seja, o crescimento da produção de renováveis não tem servido para substituir consumos de combustiveis fósseis (e em todos os estudos se fala sempre apenas da electricidade quando no consumo energético a electricidade é apenas uma parte e nem sequer a maior) mas simplesmente para manter o mesmo grau de cobertura dos consumos, o que quer dizer que o crescimento do consumo (de electricidade, a situação é bem pior se incluirmos os outros consumos energéticos) anula grande parte da vantagem ambiental do crescimento da produção de renováveis.
O mais difícil de aceitar para mim é a análise do impacto macro-económico. A verdade é que o estudo não entra em linha de conta com o aumento do custo da energia na competitividade dos nossos produtos transacionáveis (quer na exportação, quer no confronto com produtos importados), o que não seria grave porque a maior parte do sobrecusto da produção de renováveis assenta nos consumidores não industriais, contra toda a lógica de uma política de eficiência energética. Mas, o que já me parece pouco compreensível, não entra também em linha de conta com o efeito da perda de rendimento nas classes médias induzido pelo sobrecusto do preço de electricidade induzido pelas renováveis (0,008 por Kwh em 2008, um pouco mais de 5% da factura eléctrica de cada consumidor, mas este foi um ano especialmente favorável, com o petróleo a preços muito altos. Em anos normais esse sobrecusto aumenta, provavelmente até aos 15%).
O cálculo da redução da dependência energética não é feito com base nos saldos de importação e exportação, mas apenas com base nos valores de energia produzida que é considerada integralmente como produção de substituição de importações, o que pode nem sempre ser verdade. Visto as centrais termo-eléctricas terem de manter uma produção mínima (que é relevante) muita da energia eólica produzida irá substituir a produção hidro-eléctrica. Dir-se-á que em qualquer caso isso se traduz num maior armazenamento a usar noutras alturas. Sim, poderá acontecer, mas na cascata do Douro, em que não há capacidade de armazenamento, não é bem assim. Ou seja, o estudo parece demasiado simplista nalguns aspectos relacionados com a redução da dependência energética (não discutindo sequer se vale a pena assumir como intrinsecamente boa essa redução, matéria em que os economistas não estão todos de acordo).
Note-se, em qualquer caso, que como nas renováveis se incluíram todas as hídricas, alguns destes factores actuam há cinquenta anos, se que se vislumbre bem de que forma reduziram a dependência energética de Portugal e o seu crónico endividamento.
Com tudo isto não quero dizer que não há razões para investir em renováveis, que as há, dentro de limites razoáveis.
O quero realçar é que não é escondendo o preço do almoço que se consegue almoçar com a melhor relação qualidade preço.
O preço de ter renováveis deveria, pelo contrário, ser bem explícito e evidente. Ao fazê-lo talvez começasse a poder comparar-se com os custos das várias alternativas, incluindo os custos de redução de consumos e de investimento em eficiência energética.
Pode ser que assim surgissem nestes estudos indicações sobre o custo e benefício da água quente solar. É escandaloso o uso de tarifas astronómicas para pagar electricidade em centrais fotovoltaicas ao mesmo tempo que a água quente solar continua a ter o apoio que lhe foi dado no programa absurdo que foi montado este ano.
Não resisto a referir que se a poupança de energia com a água quente solar fosse paga ao preço do Kwh fotovoltaico, o país rapidamente estaria a instalar paineis solares térmicos em todos os cantos e esquinas, com benefícios económicos e ambientais muito mais relevantes. É que nas contas da água quente solar as análises de custo/ benefício as poupanças são valorizadas pela tarifa final ao consumidor (consideremos por exemplo a tarifa de 0,13 euros por Kwh), o que implica o retorno do investimento na casa dos sete/ oito anos. Acontece que a tarifa de compra da electricidade solar fotovoltaica anda acima dos 0,30 euros pro Kwh (corrijam-me os dados por favor). Ou seja, calculando a energia poupada por painel de solar térmico, uniformizando-a em Kwh, e aplicando a valorização assim obtida aos estudos de custo/ benefício da instalação de paineis solares térmicos, o tempo de retorno do investimento seria pelo menos duas vezes menor. Se esse benefício que hoje existe ao tarifário fotovoltaico fosse transformado num subsídio à compra de painéis solares térmicos (digamos, a energia poupada em cinco anos, por exemplo), mesmo que se lhe juntasse o custo financeiro associado a antecipar todo o benefício de cinco anos para o momento da compra (por forma a evitar a ilusão financeira que leva as pessoas a optar por comprar mais barato agora, gastando mais a vida toda), era bem provável que o investimento em paineis solares térmicos explodisse e a poupança assim conseguida continuasse a ter efeitos económicos positivos no resto da vida útil dos painéis, em vez de pesar na conta da electricidade de todos durante pelo menos quinze anos, como acontece com a actual tarifa do fotovoltaico.
O mesmo se poderia dizer da poupança induzida por soluções mais eficientes energeticamente, quer nos edifícios, quer na produção.
Repito, para que não existam dúvidas, que sou fortemente favorável à produção de electricidade a partir de fontes renováveis. Mas não embarco em cenários cor de rosa em que os benefícios são empolados e os custos varridos para debaixo do tapete.
Com tudo o que tem sido feito para produzir a partir de fontes renováveis a importação de produtos petrolíferos continua a aumentar porque a política energética portuguesa é desastrosa, ambiental e economicamente.
Entre outras razões porque se foge da discussão económica do assunto, substituindo-a por uma propaganda agressiva sobre a produção de electricidade a partir de fontes de energia renováveis. Um exemplo típico de como boas intenções ambientais podem ser manipuladas para justificar opções económicas provavelmente erradas.
Os estudos da APREN, que tanto quanto sei irão ser disponibilizados no seu site, são instrumentos importantes para esta discussão, em especial o estudo sobre a tarifa e as razões que justificam a tarifa especial da eólica (em rigor, eu ainda não percebi o que justifica a tarifa especial da fotovoltaica tão elevada) que me parece bem mais sólido que o estudo da Deloitte sobre os benefícios da produção de energia a partir de fontes renováveis, quanto a mim excessivamente cor de rosa e omitindo questões demasiado relevantes.
henrique pereira dos santos

Quarta-feira, Dezembro 30, 2009

A rolha e o boicote - parte 2

Dando continuidade a uma resposta minha a este post do HPS, resolvi enviar um e-mail à empresa que produz o vinho em causa (Quinta do Côtto), no dia 1 de dezembro. Recebi ontem a resposta do CEO da empresa (Sr. Miguel Champalimaud), datada de 16 de dezembro.

Penso que a resposta, aparentemente pública, é muito interessante, e surpreendente pela forma e conteúdo. Sendo bastante extensa, merece uma análise cuidadosa, mas para já não queria privar os leitores do Ambio da leitura da resposta.

Em breve procurarei transmitir a minha interpretação da resposta num terceiro post sobre esta matéria, que me parece muito relevante pela atualidade e pela visão sobre ambiente, comércio e conservação.

O texto do meu e-mail à Montez-Champalimaud foi o seguinte:

Ex.mos Srs.,
Recentemente foi publicado nos meios de comunicação escrita um anúncio do seu conhecido vinho Quinta do Côtto, no qual se destacava o facto da tradicional rolha de cortiça ser substituída por um vedante tipo "screwcap".
Este anúncio foi recebido por muitas pessoas com desagrado e reprovação, considerando o facto de a rolha ser um elemento importantíssimo na sustentabilidade económica de um ecossistema característico de Portugal e de elevadíssimo valor ambiental e social: o montado de sobro. Com o exemplo que a sua empresa está a dar, mostra a sua insensibilidade para a preservação do montado de sobro e, com ele, todo um sistema socio-económico das zonas rurais de Portugal.
Estou plenamente ciente das vantagens comerciais dos screwcaps, mas também estou em crer que a utilização da rolha como evidência do empenho ambiental e social da sua empresa e do contributo que dá à sustentação de um elemento que pertence à herança ambiental e cultural de Portugal. A rolha é, em vez de um problema meramente técnico, uma excelente oportunidade de comunicação com o exigente público consumidor dos seus (excelentes, que se diga) vinhos.
Para ver que o seu anúncio não ficou despercebido, veja: http://ambio.blogspot.com/2009/11/por-mim-boicoto.html
Com os meus melhores cumprimentos,
Henk Feith


Segue aqui a resposta:

Apreciadores de Vinhos e Outros

Assunto: ScrewTop /TampadeRosca /Quinta do Côtto

Na sequência da recente campanha publicitária ao vinho Quinta do Côtto, chegaram-me algumas reacções à mesma.

Sendo minha opinião que todo o debate de ideias, é útil, é com agrado que a ele me submeto, respondendo directamente àqueles que se me dirigiram e indirectamente àqueles que sobre a matéria, vinho e vedantes, têm curiosidade e opinião.

Para simplificação da elaboração dos meus comentários/resposta às reacções, dividi-os em quatro grandes tipos, a saber:

A. A gente da indústria corticeira, ex. APCOR, Ecologicalcork.com, Empregados das Corticeiras, etc, etc,.

B. A gente do Viva a Pátria, ex. cortiça produto nacional, a preservação do montado de sobro, do ambiente, de todo um sistema socioeconómico das zonas rurais de Portugal, ecossistemas únicos, etc, etc.

C. A gente da tradição dos costumes, do produto natural, etc, etc.

D. A gente da retaliação e boicote, etc, etc.


ROBERT PARKER disse:

“Acredito que em 2015, vinho engarrafado com rolhas será uma minoria. A indústria da cortiça não investiu em técnicas que evitem a transmissão ao vinho do sabor e aroma a rolha, que arruínam até 15% de todo o vinho engarrafado”.


Eu, MIGUEL CHAMPALIMAUD, digo:

“Sou a favor da inovação, da qualidade e modernidade do vinho”;

“sou a favor da verdade achando que chegou a altura de assumirmos, ao nível da indústria-vinícula, o que há mais de 40 anos, por razões óbvias, se usa em todas as universidades e ou centros de investigação vinícola, os screwtops/tampasderosca, único sistema vedante que garante eficazmente o não contágio do vinho que se encontra na garrafa, por produtos aromas e sabores que lhe são estranhos”;

“sou a favor da eficácia e produtividade e contra as falácias e os preconceitos que só defendem e servem aqueles que estão instalados à custa do bem-estar e pobreza de terceiros”;

“numa garrafa de vinho, a rolha é apenas uma matéria subsidiária, um vedante que deveria preservar o vinho que a garrafa contém e nunca arruiná-lo”;

“sou a favor dos ventos da História, recusar o progresso científico e tecnológico de nada serve, nem serviu então àqueles que, no seu tempo, foram a favor da destruição das máquinas a vapor”.


1. Dito o que, é minha convicção, sinto e penso, permitam-me deduzir e aduzir alguns argumentos e factos sobre a matéria, screwtops/tampasderosca versus rolhas de cortiça, a saber:

1.1 A gente da indústria corticeira é a única responsável pelas dificuldades com que se debate a rolha de cortiça e os produtores de cortiça. Ao não investirem há muitos anos na qualidade e fiabilidade do produto e aumentando desmesuradamente os preços das rolhas, abriram espaço aos novos vedantes nomeadamente às screwtops/tampasderosca. Os produtores de cortiça constituindo o elo mais fraco do sistema, não deixam de ser responsáveis de, pela sua falta de reacção, individualismo e passividade, terem permitido que se tenha constituído um quase monopólio no lado da industria que, abusando da sua posição dominante a montante e a jusante, sugou até ao tutano a industria vitivinícola nacional e internacional.

1.2 A gente do viva a Pátria como sempre e é próprio da História recente de Portugal, é um grupo social, reaccionário, que a coberto do amor dos outros pela pátria e do interesse dito nacional, se enriquece diariamente, empobrecendo todos os dias todo o país, pelo que nada mais há para lhe dizer, a não ser que há muito, ninguém acredita neles.

1.3 A gente da tradição dos costumes, do produto 100% natural, não resiste à realidade dos factos que todos vêem e eles não querem ver. Como todos sabemos na indústria vinícola, a rolha de cortiça como vedante de vinho, não é parte da tradição e costume. Há poucos anos (40 a 50), a tradição e o costume do vinho em todo o lado, era ser servido e bebido a partir da pipa, pelo que cai pela base a alegada ancestral tradição e costume de vedar as garrafas de vinho com rolhas de cortiça. Quanto ao 100% natural, não vêem nem querem ver o que todos na industria da cortiça e vinícola sabem há muito - todas as rolhas de cortiça são hoje tratadas com diversos produtos químicos, visando obter rolhas que em contacto com o vinho não lhe transmitam poeiras, odores e sabores alheios ao vinho que é suposto preservar, como vedante da garrafa em que são utilizadas.

Cito um pequeno exemplo constante do site Lusowine.com, António Amorim, defendendo como lhe compete a indústria da cortiça, falando das rolhas técnicas como a grande solução, diz: “Nas colagens são utilizados aglutinantes quimicamente estáveis, e mecanicamente muito resistentes”.

Diria, eu, pela indústria corticeira, são utilizadas colas químicas estáveis, segundo o Senhor António Amorim, o que não nos garante nada, na medida em que o Senhor António Amorim é interessado directo na afirmação de que tais aglutinantes ou melhor dizendo, colas, são quimicamente estáveis e não vão mais tarde ou mais cedo transmitir odores e sabores ao vinho com o qual por força das coisas estão em contacto.

1.4 A gente da retaliação e boicote, não representam mais do que a reacção de um grupo de pessoas com falta de informação e ou a mando e no interesse de terceiros que, na falta de argumentos sólidos para atacarem o moderno sistema dos screwtops/tampade rosca e defenderem o antiquado sistema de rolha de cortiça com o seu elevado deficit de fiabilidade/qualidade e custo 5 a 9 vezes mais elevado que o screwtops/tampaderosca, fazem consciente ou inconscientemente, o jogo de quem, ao abrigo de um quase monopólio e permanente abuso de uma posição dominante, usa e abusa da indústria vinícola nacional e internacional, enriquecendo ilicitamente à custa do empobrecimento daquela.


2. Antes de terminar, a título pedagógico e para reflexão de todos os interessados, deixo factos, comentários e perguntas que abaixo se transcrevem e que agradecia originassem reflexão, comentários e respostas:

2.1 a tampaderosca evita mão de obra penosa em casa e na industria hoteleira;

2.2 a água mineral com gás ou sem gás, há muito que deixou de usar cortiça como vedante;

2.3 a cerveja há muito que deixou de usar cortiça como vedante;

2.4 os medicamentos há muito que deixaram de usar cortiça como vedante;

2.5 os refrigerantes há muito que deixaram de usar cortiça como vedante;

2.6 uma tampa-de-rosca custa cerca de 1/5 a 1/9 de uma rolha de cortiça e a respectiva cápsula;

2.7 um produtor de vinho paga mais dinheiro por uma rolha de qualidade do que recebe pela venda a granel do respectivo vinho (refiro-me a 0,75 lt);

2.8 de acordo com dados da industria estima-se que cerca de 65% do vinho engarrafado vendido no mundo é comprado por mulheres;

2.9 estima-se ainda que 75% das mulheres que compram e bebem vinho têm dificuldade em abrir uma garrafa de vinho usando um saca rolhas;

2.10 de acordo com o norte americano Robert Parker, famoso apreciador e avaliador de vinhos, até 15% de todo o vinho engarrafado e vedado com rolhas de cortiça, está afectado com sabores e aromas estranhos ao vinho;

2.11 porque é que ninguém protesta ou boicota a industria de água mineral, cerveja, refrigerantes, medicamentos que deixaram de usar a cortiça como vedante?

2.12 porque será que todos aqueles sectores industriais deixaram de usar a cortiça como vedante?;

2.13 porque é que na indústria da construção não se usa, em Portugal ou no mundo, a cortiça como isolante?;

2.14 Porque é que na indústria da construção se usa, em Portugal e no mundo, como isolante produtos derivados do petróleo?;

2.15 Se for comprar uma garrafa de água mineral e tiver oportunidade de escolher entre uma garrafa vedada com rolha de cortiça e outra com tampaderosca, ao mesmo preço, qual delas compra?;

2.16 idem para garrafas de leite?;

2.17 idem para garrafas de cerveja?;

2.18 idem para garrafas de refrigerantes?;

2.19 Se comprar uma televisão para sua casa, compra também um armário para a pôr lá dentro, como fazia a sua avó ou avô nos anos 60?;

2.20 Quando vai comprar ou abrir uma garrafa de vinho fá-lo na expectativa de comer/beber a rolha?;

2.21 numa garrafa de vinho barato ou caro o que é mais importante, a qualidade intrínseca do vinho que lá está dentro, ou o vedante ser uma cara rolha de cortiça ou uma tampaderosca moderna barata, fiável e eficiente?


16 DEZ 2009

Aquecimento Global: Ser ou Não Ser e o que Fazer (eis as questões)!

O cenário apresentado nas televisões e jornais é por vezes apocalíptico: secas, desertificação, subida drástica dos oceanos, furacões, destruição e morte. Perante tais riscos ninguém em consciência pode ficar indiferente. E no entanto, compreende-se que sejam muito diversas as reacções ao problema: Há os que concordam; os que discordam; os que não sabem e os que não querem saber. Há os que criticamente concordam e os que criticamente discordam. Há os que aceitam o aquecimento mas que peremptoriamente excluem a influência humana. Há também os que ridicularizam as opiniões do "outros lados", os que não querem que se fale das opiniões diferentes das suas, os chamados cépticos, os chamados crentes. Há os que se refugiam na Ciência e os que a distorcem apenas para suportar a sua opinião pessoal.

Apesar de toda esta diversidade, há a tendência simplista de identificar apenas dois grupos: os a favor e os contra. Eu sou um dos que criticamente concorda com a possibilidade forte de existir um problema muito sério de aquecimento global, e que para tal pode estar a haver um contributo determinante das actividades humanas. Sou também um dos que separa claramente os dois aspectos fundamentais na abordagem ao problema: o aspecto científico e o aspecto político.

A Ciência ocupa-se com a compreensão do clima [1] e também, eventualmente, com o desenvolvimento de tecnologias que poderão (ou não) ajudar na minimização do problema. Em última análise, será esta a determinar a verdade das coisas (ou para ser cientificamente mais rigoroso: a que excluirá as conjecturas falsas).

A Política (no bom sentido do termo) será a que escolherá o caminho que se irá percorrer para lidar com o problema.

É muito importante compreender que muito embora a escolha de políticas (o que fazer) se deva basear no conhecimento científico existente, é também fundamental ter-se em conta as incertezas científicas existentes e os riscos associados às diferentes escolhas (incluindo a não escolha, ou seja, nada fazer). Se a política se fizesse apenas com base em certezas próximas do absoluto, pouco ou nada se faria. Todos nós na nossa vida do dia-a-dia fazemos escolhas (políticas) sem termos todo o conhecimento e informação disponível. Assim, por exemplo, num dia de nevoeiro cerrado, escolhemos conduzir o carro a uma velocidade moderada, mesmo sem termos a certeza de haver um obstáculo à frente. As escolhas que fazemos tentam minimizar o risco que corremos quando fazemos a escolha errada. Quanto maiores são os riscos envolvidos, mais tendemos a fazer isso mesmo.

Será então que todo este frenesim climático resulta de uma obscura conspiração internacional de inacreditável ignorância científica e paranóia colectiva, ou será que existem razões científicas fortes que justifiquem a preocupação com os gases de estufa antropogénicos em particular o dióxido de carbono (CO2)?

Poucas dúvidas haverá de que existem de facto razões para essa preocupação. Simplificando o problema eu identificaria quatro factos que desde logo me parece que justificam essa preocupação:
  1. O CO2 é um gás com efeito de estufa na atmosfera. É transparente no espectro da luz visível, deixando entrar a luz solar, e razoavelmente opaco no espectro dos infravermelhos, retendo o calor emanado da Terra;
  2. O tempo médio de permanência do CO2 na atmosfera é muito elevado (dezenas senão mesmo centenas de anos);
  3. O aumento da concentração de CO2 na atmosfera tem crescido significativamente desde o início da queima em grande escala de carvão, de petróleo e outros combustíveis fósseis. Neste momento essa concentração é a maior desde, pelo menos, os últimos 650 mil anos;
  4. Esse aumento tem claramente origem nas actividades humanas (queima de combustíveis fósseis e desflorestação).
Apesar destes factos é cientificamente importante chamar a atenção que o sistema climático é muito complexo não sendo o seu comportamento determinado somente pela existência de gases com efeito de estufa (dos quais, curiosamente, o mais importante não é o CO2 mas sim o vapor de água). Há uma influência absolutamente decisiva do Sol, quer nas variações que este vai tendo ao longo do tempo quer no tempo médio de exposição solar nas várias latitudes da Terra (esse tempo é afectado pela obliquidade do eixo da Terra).

Por outro lado, a complexidade é acrescida pelo facto de o sistema climático ter processos dinâmicos que contrariam alterações de clima (chamados por isso de realimentação negativa) e outros que, por outro lado, os reforçam (realimentação positiva). Os primeiros são benéficos para a estabilidade do sistema. Os segundos podem torná-lo instável e causar até mesmo mudanças bruscas de clima. Por exemplo, um aumento de temperatura faz com que aumente a quantidade de vapor de água na atmosfera. Como o vapor de água tem também efeito de estufa poderá aumentar a temperatura da atmosfera, resultando num processo de realimentação positiva. Por outro lado, mais vapor de água na atmosfera pode fazer com que apareçam mais nuvens, que por sua vez reflectem mais luz do sol para o espaço, o que reduz a quantidade de luz a chegar à Terra, resultando num processo de realimentação negativa.

Temos assim que o sistema climático é complexo e ainda não é compreendido o suficiente para termos uma quase certeza nas previsões climáticas. Sem dúvida que persistem incertezas quanto ao contributo do CO2 no clima. No entanto, também parece começar a haver um razoável consenso de que as dúvidas em sentido contrário (ou seja, sobre a sua não influência) são substancialmente maiores. Sempre achei curiosa a designação de cépticos relativamente aos que se opõem à influência humana no clima. O cepticismo - atitude essencial numa abordagem científica a qualquer problema - não é uma estrada de sentido único. Céptico é todo aquele que tem dúvidas. Sejam elas quais forem e em que sentido for. Eu sou céptico quanto à não contribuição humana no clima. Tenho também, cientificamente, uma atitude céptica na posição oposta. Mas as probabilidades que associo a ambas as conjecturas são muito, muito, diferentes. Por outro lado, reconheço sem dificuldade que os riscos associados a estarmos errados é muito diferente nos “dois” lados. Esse reconhecimento é absolutamente essencial nas escolhas políticas que se opta ter na abordagem ao problema.

Se as alterações climáticas forem para levar a sério, que escolhas devemos então fazer, quer como sociedade, quer como indivíduos?

Parece-me claro que um dos caminhos a seguir será o de reduzir o uso de combustíveis fósseis e de parar a desflorestação que tem ocorrido em larga escala. É necessário ter usos muito mais eficientes da energia (quer para nos transportar de um lado para outro, quer para aquecimento ou arrefecimento). É também necessário apostar forte na produção sustentável de energia (a muitas gerações). Ou seja: apostar nas energias renováveis.

Pergunto: Será que estas escolhas (urgentes) serão assim tão erradas MESMO QUE os (incorrectamente) chamados “cépticos climáticos” tenham razão quando dizem que a contribuição do CO2 para o aquecimento global é nula?

Será que não vamos ser confrontados com a mesmíssima necessidade de reduzir o uso de combustíveis fósseis tão só por estes serem finitos (não renováveis)? Não terá sido isso mesmo que se começou a verificar pouco antes de se iniciar a actual crise económica (cuja causa imediata terá sido financeira)? As subidas galopantes do preço do petróleo que então se verificaram (e que, certamente, se voltarão a verificar assim que esta crise vá passando), não serão uma evidência nesse sentido?

Por outro lado deixo também a seguinte interrogação (e imensa preocupação): E se o IPCC [2], os ambientalistas e os muitos cientistas que têm tomado posições públicas de preocupação climática tiverem razão, e nada tivermos feito, como sociedade, para prevenir, ou tão só minimizar o problema? Quem irá pagar a maior parte da factura serão os nossos filhos e netos! Quem é que se acha no direito de os obrigar a correr esse risco?

Miguel Oliveira e Silva
(Ambientalista)

(Republicação, com pequenas alterações, de um artigo publicado na sequência de um debate sobre Alterações CLimáticas realizado em Estarreja em 20 de Março de 2009)

[1] O clima é definido como sendo médias temporais alargadas (geralmente 30 anos) do estado do tempo

[2] Intergovernmental Panel on Climate Change (http://www.ipcc.ch)

Terça-feira, Dezembro 29, 2009

O elogio da ignorância (II)


Publicado na revista FreeSurf

Tem havido por aí um sururu porque alguém roubou uns mails privados a uns investigadores, publicou-os, retirou umas frases do seu contexto e com isso acusou os investigadores (e por arrasto todos os outros investigadores que não tinham nada com o assunto mas têm as mesmas ideias) de andarem a fabricar dados e teorias sobre as alterações climáticas na terra.
Fui acompanhando mais ou menos a discussão, apesar daquilo ter muita física, muita matemática, muita estatística para a minha pobre ignorância.
Mas o que mais me espantou foi a quantidade de gente, que sabendo tão pouco como eu, tinha opiniões absolutamente seguras sobre um assunto que é mais que muito complicado. Por isso fui tentar perceber e descobri a técnica: só lêem as opiniões que estão alinhadas com o que pensam e se por acaso tropeçam em alguma informação que os contrarie, ignoram-na dizendo que foi manipulada.
Confesso que fiquei fascinado com a inteligência desta opção: não só não temos de nos preocupar com a realidade para pensarmos de determinada maneira, como estamos sempre cheios de razão porque se não estivermos é porque os outros estão comprados e nos querem manipular.
É uma maneira desarmantemente simples de lidar com problemas complexos.
Fez-me lembrar uma conversa que há tempos tive com um surfista da Costa a quem perguntei se as ondas tinham melhorado ou piorado com os enchimentos da praia.
A diatribe que eu ouvi contra tudo e todos que tinham alguma coisa, por vaga que fosse, com os ditos enchimentos de praia. Quem pôs aqui a areia devia ser enforcado, pelo menos, garantia o rapaz. A questão é que a areia tem a estúpida mania de se mexer e demora algum tempo até atingir um equilíbrio dinâmico e naquela altura os fundos estavam maus, pelo que percebi da conversa, ou melhor dizendo, da irritação, que da conversa não percebo nada com agueiros, ondas tortas e outras coisas que tenho dificuldade em perceber bem o que são (para mim todas as ondas se entortam).
Mas ao contrário dos outros das alterações climáticas, que não querem ouvir nada com o qual não estejam de acordo, o rapaz ficou interessado quando lhe disse que talvez não fosse bem assim.
Apontei-lhe para a Serra de Sintra e expliquei-lhe que ali estava um esporão natural que impedia a foz do Tejo de se deslocar para Norte. Depois voltei-me para o outro lado e lembrei-lhe que o cabo Espichel era outro esporão natural. E que entre os dois estavam então extensas zonas de areias.
Em tempos estes areais eram alimentados pelo que o Tejo trazia. Mas com a quantidade de barragens que entretanto se tinham feito no rio, e com o aumento de cobertura do solo da bacia do Tejo, a quantidade de areias que o Tejo trazia tinham diminuído drasticamente.
E aqueles areais, que viviam de um sistema dinâmico de perdas e ganhos de areia, passaram a ter permanentemente um défice de sedimentos que as faria inevitavelmente recuar.
Como o défice é permanente, o mais natural é que as defesas costeiras, a mais ou a menos longo prazo, sejam também engolidas pelo mar, por mais fortes que se tentem construir.
Por isso a solução, também temporária, mas que alguns acreditam ser a melhor e mais barata, é ir buscar areia ao canal de navegação do Tejo, numa zona em que as areias já estão fora deste vai e vem que todos conhecemos, e despejá-la o mais a Norte possível, esperando que assim se resolva não só o problema destas praias como se evitem os problemas futuros das praias a Sul.
Confesso que achei que a reacção do surfista tinha sido tão serena que olhei com mais atenção.
Tinha adormecido com tanta explicação.
Talvez na práctica ficasse tão ignorante como estava antes, mas ao menos, ao contrário do pessoal da negação das alterações climáticas não é uma atitude orgulhosamente voluntária, é apenas um agudo sentido das prioridades dos momento.
E não havendo boas ondas, é razoável que a prioridade seja dormir.
henrique pereira dos santos

E se?


"E para terminar, o essencial:«me parece estranho que se queiram tomar decisões sem entrar em linha de conta com o risco, hoje claramente estabelecido, decorrente dos cenários de evolução do clima, simplesmente porque não existem certezas absolutas sobre o que vai suceder.»
Mas não vê o HPS que é exactamente isso que os cépticos disputam? Não vê que o seu argumento pode ser usado exactamente ao contrário do que pretende? E se for verdade que a temperatura média do planeta nos últimos dez anos até está a diminuir? E se for verdade que pelo contrário está a aumentar mas não é o CO2 o agente responsável ou, pelo menos, o mais importante? Ou acaso disputa que há eminentes cientistas que discordam em absoluto de muitas das teses do IPCC?"
Eduardo F. caracteriza bem o essencial.
E vale a pena discutir o essencial.
Primeiro caracterizemos uma ou duas discordâncias e depois concentremo-nos na discussão de fundo.
Ao contrário do que diz Eduardo F. os chamados cépticos (a que eu tenho chamado negacionistas) não são um bloco que pensa a mesma coisa, bem pelo contrário, há uma enorme gama de posições.
Há os que negam que exista aquecimento global, há o que entendem que esse aquecimento existe, mas não tem nenhuma relação com a actividade humana e ainda há os que admitindo que tem alguma coisa com a actividade humana, entendem que não há nada de útil que se possa fazer para contrariar o processo. Há ainda um grupo, que eu não coloco nos negacionistas, que aceitando que existe aquecimento global e que é provocado pelo homem, entendem que as soluções preconizadas no quadro da ONU são soluções pouco eficientes e querem discutir alternativas de solução.
O essencial, para esta discussão e para a tomada de decisão, não é quem está certo ou não, mas se existe risco, e de que dimensão, de que estejamos a provocar alterações no clima.
Se fizermos a pergunta com esta simplicidade, reduziremos muito o número de negacionistas, porque a aceitação de que existe risco é muito alargada, sobrando apenas os que entendem que não existe risco nenhum, nenhuma possibilidade de estar a ocorrer um aquecimento global. Com estes a discussão é difícil porque pura e simplesmente recusam toda a produção de conhecimento feita sobre a matéria com a alegação que se trata de uma gigantesca conspiração (que envolve cientistas, editores de publicações científicas, decisores políticos, ONGs, a ONU, a Academia Sueca que atribui os prémios Nobel, jornalistas e etc.).
Se sairmos desta visão paranóica do mundo, a discussão é possível, e a questão é a de saber o que fazer existindo risco, discutindo a magnitude do risco e discutindo os efeitos no caso de se verificarem alguns cenários em cima da mesa.
Começo por uma história que me contaram mas que não verifiquei. No entanto é boa como exemplo, independentemente da sua veracidade.
A autoridade portuária de Roterdão é confrontada com a seguinte decisão: sendo necessário fazer obras de fundo nas estruturas de protecção do porto, há quem proponha elevar a cota dessas infraestruturas 50 cm para precaver a eventual subida do nível do mar.
Elevar essa cota tem custos, mensuráveis e certos. Não elevar reduz portanto o custo da obra, no entanto se se verificar efectivamente a subida do mar, os efeitos dessa subida no porto serão desastrosos, fragilizando enormente a sua defesa.
O que faz sentido: fazer a obra agora, num quadro de incerteza que eventualmente a torna inútil se não se verificar qualquer alteração do nível do mar, ou fazê-la de emergência e especificamente com esse objectivo mais tarde, quando houver mais certeza, mas a um custo muitíssimo maior?
O mesmo se dirá de uma grande parte das medidas a tomar para reduzir as emissões de CO2. Aconselho vivamente a leitura de "Green and Competitive" de Michael Porter e Class Van der Linde, que não trata de nada que se relacione com alterações climáticas.
Trata sim da forma como se reflecte na competitividade das empresas a regulamentação ambiental.
E as conclusões são interessantes exactamente porque defendem que, em certas condições, a regulamentação ambiental não é apenas um custo mas um poderoso estímulo à competitividade das empresas.
Na realidade as emissões de CO2 reflectem, com demasiada frequência, um uso ineficiente do recurso energia.
Por exemplo, o que nos impede de investir num preço instantâneo da energia que reflicta a procura instantânea? Tem custos? Tem com certeza. Os benefícios ultrapassam os custos? Muito provavelmente sim. Vejamos, se o preço em vez de ser fixo for uma função do consumo em cada momento, eu posso instalar sistemas de redução do meu custo em função desse preço, por exemplo, nos sistemas de frio (e muitos de calor), que têm uma certa resiliência, podem ser ligados nos momentos em que a energia é mais barata, e desligados em alturas de energia mais cara. Globalmente qual é o resultado? A diminuição dos picos permite-me gerir a rede com menor capacidade instalada (a electricidade é um fluxo, não pode ser armazenada, portanto é necessário estar a produzir o mesmo ou mais que o necessário em cada momento, pelo que o sistema electro-produtor tem de estar dimensionado para os maiores picos expectáveis, resultando um sub-uso da capacidade instalada na grande maioria do tempo).
Do mesmo modo, cidades mais eficientes, com transportes mais eficientes resultam em ganhos ambientais, mas provavelmente em ganhos económicos também. O mesmo se dirá de edifícios mais eficientes.
E mais que tudo, é bem provável que na grande maioria dos processos produtivos seja possível introduzir ganhos de eficiência se houver suficiente incentivo para isso. Não se pense que se estará a falar de coisas do outro mundo, por exemplo, ainda hoje se continua a investir em restaurantes sem a menor preocupação de eficiência energética, quando com as tecnologias existentes, aos preços existentes, já se conseguem retornos muito interessantes em prazos relativamente curtos. O problema não é económico mas financeiro: exige-se investimento maior à cabeça, sendo que muitas vezes quem investe na infra-estrutura (ou numa casa) não é quem explora, havendo por isso um incentivo negativo à adopção de políticas de eficiência energética, apesar da sua racionalidade.
O caso evidente é o das casas de habitação, em que o sobrecusto de adoptar medidas de eficiência energética se reflecte no preço final da casa (crucial para o vendedor ter sucesso) e apesar dessas medidas se poderem pagar com poupanças em prazos inferiores a dez anos, muito poucos compradores estão dispostos a pagar mais inicialmente para ter um ganho diferido ao longo de dez anos.
Ou seja, caro Eduardo F., se a temperatura diminuir em vez de aumentar, ainda assim ganhámos usos mais eficientes dos recursos, ganhámos melhorias na poluição, ganhámos, provavelmente, alguns trocados.
A alternativa, pelo contrário, é que se o risco se verificar, as perdas são brutais.
Devo dizer que o que me faz mais confusão nesta estranha discussão (para além do elogio da ignorância a que os negacionistas fazem apelo constante desconfiando da ciência tal como a conhecemos) é ver engenheiros ligados às tecnologias, treinados a resolver problemas engenhosamente, treinados a inventar coisas novas para novos problemas, apavorados com o futuro e com a ideia de que não é possível ter novas soluções para problemas novos.
Confesso que esta estranha força reaccionária, que compreendo facilmente em outras formações treinadas para serem conservadoras (o que em si não é nenhuma hierarquização de valores, a inovação não é em si mesmo preferível ao conservadorismo), é para mim uma novidade em profissões de base tecnológica e francamente não a percebo.
henrique pereira dos santos

Domingo, Dezembro 27, 2009

"A linguagem é uma fonte de mal-entendidos"


Jorge Oliveira num comentário ao post anterior:
"O que não posso fazer é classificar o CO2 como poluente, quando sei que não é, acreditar que o CO2 tem todas as responsabilidades por ondas de calor e vagas de frio, por chuvas torrenciais e secas, por tudo e pelo seu contrário, e, em consequência, aceitar fechar as centrais térmicas convencionais porque emitem CO2, fechar as nucleares, que não emitem CO2 mas de que os ambientalistas não gostam e depois esperar calmamente que as ventoínhas me facultem a energia eléctrica de que necessito, a preços descabelados, que estão a dar origem a um défice tarifário descomunal que os meus filhos vão ter de pagar, e desta forma aniquilar o meu nível de vida, o dos meus filhos e netos e demais descendência. Acha que é isto que quer para os seus filhos?"
Discutir este parágrafo parece-me particularmente instrutivo.
Em primeiro lugar, notem-se as certezas firmes onde quem mais tem estudado o assunto fala em probabilidades e evidências parcelares, isto é, mantém dúvidas: o papel do CO2 no sistema climático.
Mas mais que isto, note-se depois a orientação política que decorre destas duas atitudes: quem tem dúvidas sobre esse papel prefere acentuar essas dúvidas, desenhar cenários e discutir os custos e os benefícos das diferentes soluções possiveis em cada cenário, procurando gerir o risco inerente à incerteza (veja-se, por exemplo, Lomborg e o consenso de Copenhaga) e Jorge Oliveira, da segurança das suas certezas, opta por eliminar o risco de se enganar em processos especialmente complexos como são os que comandam o clima.
A partir daqui o parágrafo descarrila e assume algumas coisas como factos e fundamento da sua posição política que convém revisitar.
"acreditar que o CO2 tem todas as responsabilidades por ondas de calor e vagas de frio, por chuvas torrenciais e secas, por tudo e pelo seu contrário".
O curioso é que Jorge Oliveira prefere argumentar contra o argumentário de idiotas ignorantes em vez de discutir o que diz quem produz conhecimento no tema. É que quem produz conhecimento sobre a matéria não diz nada disto. Diz simplesmente que o CO2 induz alterações no padrão natural de variação climática, sendo que os padrões se estudam com séries longas de dados e nenhum fenómeno particular (o que inclui toda a meteorologia) pode ser explicado com recurso ao CO2. Ou seja, para evitar discutir o padrão, que poderia introduzir dúvidas onde Jorge Oliveira tem a segurança das certezas, obrigando a discutir os riscos inerentes a essas dúvidas, Jorge Oliveira prefere dizer um lugar comum consensual: o CO2 não pode ser usado para explicar fenómenos meteorológicos pontuais.
"aceitar fechar as centrais térmicas convencionais porque emitem CO2".
Jorge Oliveira prefere fintar a discussão sobre as centrais térmicas convencionais, começando por não fazer as distinções que devem ser feitas, quanto à origem dos combustiveis e quanto à sua obsolescência para evitar discutir o custo/ benefício de cada decisão sobre cada central. É que as centrais a carvão com tecnologias antigas são efectivamente muito poluentes e não apenas por causa do CO2 (sobretudo se se tiver em conta todo o ciclo produtivo desde a mina à electricidade) e portanto pode muito bem acontecer que a sua substituição por outros combustiveis e outras tecnologias, mesmo que térmicas, tenham custos razoáveis para o benefício espectável, mesmo sem ter em atenção o CO2.
"fechar as nucleares, que não emitem CO2 mas de que os ambientalistas não gostam".
Depende dos ambientalistas, há os que gostam e os que não gostam, mas o problema é que são as pessoas comuns que não gostam: ninguém aceita ter uma central nuclear ao seu lado (experimente propor uma central nuclear no parque Eduardo VII e verá a reacção das pessoas). E isso não é uma questão de gosto, é uma questão de percepção de risco. Há uma tendência para as pessoas treinadas em confiar nas tecnologias desvalorizarem os riscos associados, mas felizmente nas democracias não são so técnicos que tomam as decisões, são os políticos. E digo felizmente porque o que não faltam são exemplos históricos de desastres provocados pelas certezas dos técnicos (com certeza, também existem avanços positivos gloriosos, mas é por isso que a decisão deve ser de natureza política e não técnica, para que as pessoas comuns as possam discutir).
"depois esperar calmamente que as ventoínhas me facultem a energia eléctrica de que necessito".
Não sei se por vontade se por distracção Jorge Oliveira distorce os argumentos dos que defendem opções políticas diferentes das suas. Não conheço ninguém que defenda uma produção de energia exclusivamente assente em ventoínhas, nem conheço nenhum ambientalista (não estou aqui a incluir a propaganda do anterior e actual Governo, que tem muito pouco de ambientalista na sua origem) que defenda que o problema da energia se resolve produzindo cada vez mais energia, mesmo que renovável. Jorge Oliveira com certeza, quando o calor da discussão tiver desaparecido, reconhecerá que a grande maioria do movimento ambientalista defende em primeiro lugar uma diminuição da intensidade energética (e como sabe várias das mais avançadas economias do mundo têm conseguido bons resultados na matéria, o que não é o caso de Portugal e Espanha, por exemplo) e, complementarmente, um aumento da produção de energias renováveis. O programa é pois bem diferente, e é isso que vale a pena discutir, não vale a pena protestar com um programa que só existe nas fantasias de alguns (nos quais se inclui, infelizmente, José Sócrates).
"depois esperar calmamente que as ventoínhas me facultem a energia eléctrica ..., a preços descabelados, que estão a dar origem a um défice tarifário descomunal que os meus filhos vão ter de pagar, e desta forma aniquilar o meu nível de vida, o dos meus filhos e netos e demais descendência".
Na realidade foi esta frase que me levou a escrever este post. Porque esta frase corresponde a atribuir ao movimento ambientalista uma política que é por ele contestada (quanto a mim, deveria sê-lo de forma mais firme e audível, já fiz alguns posts criticando o movimento ambientalista pelo seu low profile nesta discussão). Veja-se a minha posição aqui e aqui. Ou a posição de Pedro Martins Barata aqui. Se há coisa em que praticamente todo o movimento ambientalista está de acordo é na necessidade dos preços da energia reflectirem os custos directos e indirectos do seu uso, o que hoje não acontece em muitos combustiveis fósseis. Isso implica energia mais cara e não a criação de défices tarifários que têm muito pouca relação com as energias renováveis porque correspondem a uma opção populista e desastrosa do anterior e actual Governo em manter artificialmente baixos os preços ao consumidor (tal como em Espanha). Uma parte virá de não reflectir na tarifa ao consumidor o preço real das renováveis, é certo, mas uma outra grande parte decorre de outras parcelas de formação do preço que os Governos entendem não reflectir no preço final do consumidor (e em particular do consumidor da indústria). Esta é uma opção errada dos Governos que vai exactamente ao arrepio de toda a lógica de gestão energética sustentável: fazer reflectir no preço ao consumidor todos os custos reais, directos ou indirectos, associados ao seu uso.
Isto implica provavelmente menos rendimento hoje para quase todos nós? Sim, provavelmente sim, mas não vale a pena meter aqui filhos e netos, porque estes perdem de facto com a política de preços artificialmente baixos da energia hoje mas é bem possível que ganhem com preços reais no consumidor.
Por isso, caro Jorge Oliveira, se a sua preocupação são os filhos e os netos, o melhor mesmo é juntar-se ao movimento ambientalista na defesa de preços reais para a energia (e, já agora, também para a água, em vez dos preços políticos, por exemplo, para a água de Alqueva).
Aliás estou convencido que se quiser olhar com atenção para as posições ambientalistas mais sustentadas (que nem sempre coincidem com as mais audiveis) estou convencido de que ainda acaba do nosso lado, preocupado com a herança que vamos deixar aos que por aí estão para vir.
henrique pereira dos santos

Sábado, Dezembro 26, 2009

Um estranho desentendimento

Ao longo destas semanas, nos comentários aos posts sobre alterações climáticas, aparecem um conjunto de pessoas que insistem na tese de que como o CO2 subiu na última década e as temperaturas não, não há relação entre subida de concentração de carbono e subida de temperatura.
Naturalmente explicou-se que o clima é o resultado de um número muito grande de factores que não só actuam autonomamente, como têm relações de interdependência que o tornam uma coisa extremamente complexa, e que por isso o seu estudo, e o estudo da sua evolução, exige séries longas de observação.
Explicou-se também que o clima tem variações naturais muito relevantes e que a questão não é avaliar se é o CO2 o responsável por cada uma dessas variações (em rigor, por cada uma das variações meteorológicas) mas sim se a quantidade de CO2 presente na atmosfera é responsável por desvios em relação ao que seria a evolução natural do clima (sim, com certeza que definir o que é variação natural do clima é objecto de discussão), desvios esses que podem ser relativamente pequenos face às variações naturais, mas podem forçar alterações climáticas que nos são mais desfavoráveis que seriam as alterações naturais.
O mais extraordinário não é a discussão até este ponto, essa é razoável e como estamos no domínio da interpretação de sistemas complexos discutindo probabilidades de evolução é natural que haja controvérsia. No caso das alterações climáticas essa controvérsia ultrapassou os limites da controvérsia científica, dirimida pelos meios normais da ciência, para se tornar uma controvérsia social face ao que está em jogo para todos nós: um uso colossal e eventualmente inútil de recursos no caso das alterações climáticas não serem significativamente influenciadas pelo homem, um desastre ambiental, social e económico no caso dos cenários mais desfavoráveis sobre a influência humana no clima se confirmarem.
O extraordinário é a persistência na repetição de ideias simples que pura e simplesmente não constituem argumentos lógicos.
Não falo sequer do ar escandalizado que fazem os negacionistas militantes por Phil Jones dizer num mail que se for preciso altera o sistema de peer review (coisa que aliás nunca estaria sequer ao seu alcance) ao mesmo tempo que passam o tempo todo a negar a importância do peer review e o facto de raramente assentarem o que dizem em papers com peer review. Isto faz parte da retórica normal de uma discussão ideológica e não vale um caracol.
O extraordinário é, por exemplo, insistir em confundir (voluntária ou involutariamente, não faço ideia) o efeito de alteração acrescida no clima que possa ter o CO2, e o facto do CO2 ser eventualmente decisivo nesse efeito acrescido, com a ideia de que o CO2 é o único responsável por todas as alterações meteorológicas (coisa que ninguém no seu perfeito juízo diz, pesem embora as muitas distorções que tendem a olhar para a meteorologia com o filtro do que se pensa sobre as alterações climáticas).
E por isso, quando se diz que pode haver diminuições de temperatura resultantes de outros factores que não o CO2, e o efeito do CO2 manifestar-se no facto de não descerem tanto como seria espectável com concentrações menores deste gás, aparece sempre alguém a repetir o estribilho de que isso não passa contorcionismo para não reconhecer o óbvio: não há relação entre a subida de temperatura e a concentração de CO2.
O curioso é verificar como, com frequência, o vício de raciocínio implítico nesta observação (a omissão de que há muitos outros factores que influenciam o clima, evitando admitir-se que é possível que o CO2 provoque elevação do padrão de variação da temperatura, não eliminando esse padrão, que tem e sempre terá subidas e descidas) é escondido atrás de uma barragem de insultos sobre a falta de coerência, de vergonha, etc., dos aldrabões que pensam de maneira diferente.
henrique pereira dos santos

Quarta-feira, Dezembro 23, 2009

O CO2 e a caça furtiva


Há na lista de discussão que deu origem a este blog uma discussão em curso sobre a importância da caça furtiva na conservação de algumas espécies.
Eu penso que a caça furtiva (e todos os outros métodos de perseguição directa) têm pouca importância na conservação da grande maioria das espécies em Portugal porque me parece que os factores relacionados com o refúgio, mas sobretudo com a disponibilidade alimentar, têm muito mais peso na determinação das tendências populacionais.
Isso não significa que a caça furtiva não tenha relevância, significa apenas que em determinadas condições, por exemplo, quando existe uma tendência regressiva acentuada, a caça furtiva pode ser o factor que faz a espécie passar o limite de sobrevivência a cuja proximidade os outros factores a levaram. Mas isso não faz da caça furtiva uma força modeladora.
Ao ler alguns comentários sobre o CO2 e as alterações climáticas fico com a impressão de há raciocínios que impedem algumas pessoas de construir argumentos sólidos (se são verdadeiros ou não, é outra discussão em que não me meto).
Eu não faço a mínima ideia se o CO2 é ou não a principal força de empurra as temperaturas para fora dos limites normais e naturais da variação climática (o que está em causa não é a variabilidade climática, o que está em causa é se estamos a empurrar essa variabilidade para limites que nos são desfavoráveis).
Sou ignorante na matéria, a atmosfera é muito complicada e a quantidade de factores, por si só, mas também com retroacções imensas, é de tal forma grande que está completamente fora do meu horizonte ter opinião própria sobre o assunto.
Mas isso não me impede de ter opinião sobre a consistência do argumento que refere o facto de haver aumento de CO2 num determinado período, relativamente curto, não havendo subida simultâna de temperaturas como demonstração de que o CO2 não pode ter o papel que lhe é atribuído.
Este argumento pura e simplesmente não tem qualquer sentido, por si só e num período relativamente curto.
É que existindo muitos outros factores que influenciam o clima, que dão origem a variações naturais importantes, o argumento de cima só poderia ser considerado demonstrativo se todos os outros factores que comandam o clima se mantivessem iguais.
Não sendo assim, duas hipóteses existem: ou de facto o CO2 não tem o efeito que dizem (pelo menos com o peso que lhe é atribuído); ou efectivamente tem e a estabilidade (ou mesmo abaixamento) das temperaturas em períodos relativamente curtos deve-se a outros factores que conduziriam a temperaturas ainda mais baixas na ausência de CO2.
Não basta por isso apontar um facto e exibi-lo como prova, se ele não tiver uma explicação consistente e única.
Insisto que não sei quem tem razão, não tenho capacidade para fazer esse juízo autonomamente, o que quero realçar é que o argumento, por si só, só demonstra que os que o utilizam se portam como caçadores furtivos que disparam sobre cada facto controverso (ou ainda sem explicação) sem se darem ao trabalho de encontrar os argumentos que o explicam.
Um bocado como o rapaz que querendo demonstrar a inconsistência da reconstrução das temperaturas do passado acaba a descobrir alguns erros estatísticos e de digitação, mas quando os corrige faz uma reconstrução de temperaturas que está inegavelmente errada.
Questão diferente é o facto dos modelos de clima usados não serem capazes de integrar estes períodos de estabilidade, o que significa que ou são ainda imperfeitos (o que toda a gente dá como adquirido) ou estão errados (o que alguns garantem sem que ao mesmo tempo proponham modelos melhores).
É complicada a atmosfera, não vai lá com meditações de fim de tarde.
henrique pereira dos santos

Terça-feira, Dezembro 22, 2009

Pinóquio


Eu sou inegavelmente favorável às energias renováveis, mas gosto de saber quanto tenho de pagar por isso porque não acredito que haja almoços grátis.
Como tinha de desossar uma galinha, uma actividade que ocupa as mãos e liberta o cérebro, deu-me para pensar que se mais de 50% do nosso déficit anual está relacionado com o petróleo, então as energias renováveis devem resolver o assunto e ajudar a pagar as nossas dívidas, libertando crédito para a economia, que bem precisa.
Entusiasmei-me com a ideia e deixei correr o argumento, só que logo me lembrei que défice energético e défice de electricidade não são a mesma coisa, portanto pelo menos no que não é electricidade (e é muito) as renováveis não servem para resolver.
Mas há o carro eléctrico, pensei. Mas de facto temos de comprar os carros lá fora (ou pelo menos as partes com maior valor acrescentado) e voltei a esmorecer um bocadinho.
Para a frente e nada de negativismo, fazer parques eólicos em força para reduzir a dívida. Aqui corei um bocadinho, percebi a infantilidade do argumento, porque não só a construção de eólicos e barragens é actividade de capital intensivo (o que obriga a criar dívida e não a diminuir, pelo menos no curto prazo), como temos de comprar uma boa parte das coisas que precisamos lá fora, o que aumenta o défice com o exterior.
Não faz mal, é investimento e paga-se com o retorno da operação desses equipamentos. Ooops, parece que a operação é deficitária, pelo menos para já, e tem de ser financiada com tarifas especiais, mais altas, o que quer dizer que temos de pagar o custo suplementar para a economia através da energia mais cara. E se assim é, os nossos produtos perdem competitividade e os produtos de quem tiver a energia mais barata ganham competitividade em relação aos nossos. Provavelmente importamos mais e exportamos menos, e aumentamos outra vez o défice que queríamos diminuir.
Dei graças por estar sozinho, não ter tido a oportunidade de me entusiasmar a explicar a alguém o raciocínio simples e genial de que parti (se o défice é energético, ter energias renováveis é diminuir o défice) e retornei realisticamente à minha posição base:
renováveis é bom, com conta, peso e medida, eficiência energética é muito melhor e os dois têm custos que é preciso quantificar em cada momento.
Agora percebo porque não passa pela cabeça de ninguém responsável e sério responder que se combate o endividamento com energias renováveis.
No fundo, no fundo era o que eu já tinha dito aqui.
E nem sei por que razão me lembrei outra vez disto hoje.
henrique pereira dos santos

Bom senso no reino florestal


Num ato inesperado, foi decidido suspender a entrada em vigor do novo Código Florestal
, conforme notícia publicada no Avante no dia 17 de dezembro.

Nasceu assim a esperança que a nova direção da Autoridade Florestal Nacional venha a corrigir as falhas do código existente, com base numa reflexão séria sobre que legislação o setor precisa, que legislação é possível cumprir e que legislação é possível fiscalizar. E espera-se que a consulta à sociedade civil sujeita ao seu cumprimento seja igualmente séria e que os seus resultados sejam considerados na elaboração final de um código revisto.

O facto desta decisão da comissão parlamentar de Agricultura ainda não ser mencionada no sítio da AFN, a escassos dias da suposta entrada em vigor do código (23 de dezembro), não é, no entanto, bom sinal.

Henk Feith

Segunda-feira, Dezembro 21, 2009

Meteorologia e clima


Meteorologia é a ciência que estuda os meteoros, isto é, os fenómenos da atmosfera. A sua mais conhecida aplicação prática é a previsão do tempo, em diferentes escalas, mas sobretudo em pequenos períodos de tempos. Na realidade as previsões a mais de três dias, embora tenham sofrido progressos notáveis, são ainda relativamente pouco fiáveis.
O clima estuda o padrão das variações meteorológicas, ou seja, avalia estatístiscamente os elementos meteorológicos num período suficientemente grande para permitir avaliar padrões para lá da elevada variação meteorológica de curto prazo. O período considerado mínimo para a análise climática são trinta anos, sendo a média das observações ao longo de trinta anos que define a normal climatológica.
De um lado e do outro da discussão sobre alterações climáticas tende a esquecer-se esta diferença essencial entre meteorologia e clima.
Há os que não têm clara esta diferença, e por isso apontam para um dia especialmente quente ou especialmente frio como demonstração do seu ponto de vista e há os que sabendo muito bem esta diferença usam o tempo presente simplesmente para enganar tolos.
Aos primeiros é útil explicar mais uma vez esta diferença e realçar que nenhum valor, por mais extremo que seja, diz rigorosamente nada sobre uma tendência de trinta anos.
Aos segundos é útil explicar que não vale a pena ir por aí.
henrique pereira dos santos

O urso e a conservação


Imagem retirada daqui
Ontem, na revista do Público, vinha um extenso artigo sobre o regresso dos grandes mamíferos. Algures pelo meio falava-se na hipótese do regresso do urso pardo.
Aí por 1983/ 84, não sei bem, no meu relatório de estágio de fim de curso tenho ideia de que já dizia qualquer coisa sobre a hipótese (que devo ter considerada teórica na altura) de reintrodução do urso, porque ao contrário do que eu penso que era uma ideia comum na altura (a extinção do urso em Portugal no séc. XVI) eu dizia, baseado na leitura da integral do que escreveu o Abade de Baçal, que provavelmente no Nordeste só se teria extinto no século XVIII (ou melhor, no século XVIII ainda por lá andava).
Sei que durante o estágio discuti esta questão mas não posso verificar exactamente o que disse nesse relatório de estágio porque está perdido.
Vale a pena olhar um bocadinho para este "está perdido" (não é que o relatório valha grande esforço, é verdade, mas a questão não é este relatório mas o conjunto de coisas produzidas no ICNB em circunstâncias semelhantes).
Na altura em que fiz o relatório (ainda sem computadores), entreguei pelo menos um exemplar no PN de Montezinho, penso que dois para a biblioteca da Universidade de Évora, penso que três ou quatro para os membros do Júri (não tenho a certeza, mas seriam Ribeiro Telles, Fernando Pessoa e Alexandre Cancella de Abreu), provavelmente um para o meu orientador (Robert de Moura) e fiquei com um.
Por qualquer razão emprestei o meu exemplar a alguém que não mo devolveu. Fui um dia à biblioteca de Évora, para arranjar uma cópia para mim, os exemplares tinham sido requisitados e não devolvidos, não se sabia por quem, procurei em Montezinho, havia uma técnica qu