Domingo, Abril 14, 2013

Um projecto que vale bem cinco euros

Este projecto foi desde sempre apoiado por mim, embora não tenha nenhum mérito na sua existência, limitei-me a saltar para dentro de um comboio em andamento.
Umas vezes mais depressa, outras mais lentamente, o projecto tem vindo a passar o teste do tempo.
Agora o que se pede é apenas que cada um contribua com o que se quiser para mais um pé n'a Terra.
É aqui que está alojado o projecto de crowdfunding.
henrique pereira dos santos

Quinta-feira, Abril 11, 2013

A todos os deputados


Li hoje que a Assembleia da República gasta três milhões e 588 mil euros em transportes dos Senhores Deputados.
Ao que me explicam, 92,5% deste valor destina-se, nos termos da lei, ao pagamento aos senhores deputados das deslocações em trabalho parlamentar à Assembleia e ao círculo eleitoral, se diferente do local de residência.
Estes valores são directamente pagos aos Senhores Deputados, por quilómetro, mediante declaração sua de que realizaram essas deslocações.
Há aqui uma responsabilidade individual de cada deputado, independentemente da lei lhe conferir a possibilidade de receber este dinheiro, materializada no pedido que apenas depende da vontade de cada deputado.
É para essa responsabilidade pessoal que gostaria de apelar: prescindam do pagamento ao quilómetro e da deslocação de carro e, pelo menos para os que distritos de Faro, Setúbal, Santarém, Leiria, Coimbra, Aveiro, Porto e Braga, com um excelente serviço de comboio, façam o esforço solidário.
Poupam dinheiro aos contribuintes, ajudam a financiar a CP, cujos prejuízos contam para o défice, reduzem as importações de combustíveis fósseis, fazem uma viagem descansada e, nalguns comboios, até já há wireless gratuito.
E se o destino final não for ao lado da estação, a CP até tem um excelente acordo com algumas empresas de aluguer de automóveis que, por um valor irrisório, vos permite fazer o resto da viagem de carro.
Pensem nisso, se não for pelos contribuintes, que seja ao menos pelos vossos eleitores.
Deste que se assina,
henrique pereira dos santos

Quarta-feira, Abril 10, 2013

Responsabilidade social


Ora aqui está um bom exemplo de responsabilidade social de uma empresa (com quem colaboro pontualmente).
henrique pereira dos santos

Quarta-feira, Abril 03, 2013

Crowdfunding ambiental

Film Expedition to Raso from Madalena Boto on Vimeo.


Aqui e ali tenho apoiado alguns projectos ambientais sustentados em campanhas de crowdfunding, para além de eu próprio promover alguns.
Nunca apoiei os projectos da plataforma Indiegogo que foram feitos em Portugal por admitirem campanhas flexíveis, isto é, em que o promotor fica com o dinheiro angariado, independentemente de ter atingido o pedido (e supostamente necessário para o projecto).
Sou absolutamente contra campanhas flexíveis em crowdfunding, que acho uma péssima prática de crowd funding (a minha crítica resume-se ao facto de não saber se o dinheiro vai ser aplicado num projecto que não pode ser concretizado sem o dinheiro pedido, ou então o pedido é exagerado e desleal).
Mas desta vez acho que vale a pena apoiar este projecto, que cumpre o que me parecem ser as boas práticas.
henrique pereira dos santos

Domingo, Março 31, 2013

Eat the view


Mais uma crónica no Público em que falo da campanha eat the view, pela enésima vez. henrique pereira dos santos

Domingo, Março 24, 2013

Não quero acreditar

Quando escrevi o post anterior nem me procunciei sobre o projecto concreto de que falava a QUERCUS porque nem tinha visto do que se tratava (não era muito relevante para o que queria dizer sobre a fundamentação do comunicado). Hoje ao ler o Público (calculo que esteja apenas na versão do Norte), confirmado pelo comentário do Paulo Barros nesse post, só posso pedir aos santinhos que sejam o Público e o Paulo que estejam enganados e que haja mesmo uma estrada nova pelo meio do Alvão (a coisa parece-me estranha, mas mesmo assim). É que se do que estão a falar é mesmo do que dizem o Público e o Paulo Barros (asfaltar a estrada que existe entre duas aldeias) os dirigentes da QUERCUS perderam por completo a ligação com a realidade e com a sociedade. Tornar-se-ão, por esse caminho, cada vez menos relevantes socialmente. E isso é pena e um péssimo serviço prestado ao movimento ambientalista. henrique pereira dos santos

Sexta-feira, Março 22, 2013

Medo mulato


A QUERCUS resolveu fazer um comunicado preocupada com a extinção do lobo no Parque Natural do Alvão.
Eu não percebo por que razão me devo preocupar com eventuais extinções locais com uma espécie generalizadamente em expansão e comprovadamente associada a uma dinâmica de extinções e colonizações locais.
Até aqui é uma mera questão de opinião.
O que me preocupa é a ligeireza com que se tiram conclusões e se fazem afirmações cuja fundamentação é mais que duvidosa:
"Neste momento, as alcateias sobreviventes no SIC Alvão-Marão e no PN do Alvão estão isoladas". Há alguma evidência disto? Não.
"Esta situação teve como principal causa a proliferação de infraestruturas, como vias de comunicação, parques eólicos e seus acessos, as quais provocaram a fragmentação do habitat da espécie e a sua perturbação, através do aumento da presença humana e de veículos automóveis nos seus territórios de caça e de reprodução" Não, pelo contrário, há evidência de que cruzam as estradas, de que passam nas passagens aéreas e subterrâneas e nem vale a pena comentar a ideia peregrina de que os acessos dos parques eólicos são barreiras para os lobos. Há evidência de que outras áreas exactamente com o mesmo tipo de perturbações não parecem ter os lobos em regressão? Sim, há (Montemuro, Minho, por exemplo). Assim sendo o que suporta afirmações tão taxativas sobre processos complexos?
Mistério.
Mas por que razão faço um post sobre isto em vez de ir protestar contra a barragem da Iberdrola? Ou contra a estrada municipal que a Quercus refere?
Simples, porque não estou convencido dos dramas que representam para o lobo estas infra-estruturas mas sobretudo porque me faz falta um movimento conservacionista forte, sólido e ouvido por toda a gente. E com coisinhas tão pouco sustentadas não vamos lá.
henrique pereira dos santos

Quarta-feira, Março 13, 2013

A antecipação da Primavera

Todos os dias me vai chegando informação nova de que a Primavera anda por aí.
Ainda bem, apesar de eu gostar do Inverno (e do Verão, e do Outono).
henrique pereira dos santos

Domingo, Março 10, 2013

O fascinante mundo das cabeças alheias


No Público on-line, onde agora escrevo umas coisas, fiz um texto sobre o facto das más notícias terem prevalência sobre as boas notícias em matéria de conservação. E de como isso pode conduzir ao desvio de recursos de problemas reais para problemas mediáticos (distorcidos pela resistência às boas notícias).
Usei como ilustração o caso do lince por ser o mais evidente deste enviesamento, relacionando a evidente recuperação do lince (e não só) com a recuperação das populações de coelho.
Note-se que no texto faço uma ressalva: "Embora existam referências a uma terceira doença actualmente em progressão nas populações de coelho" que implicitamente diz que a verificar-se um efeito devastador desta doença semelhante às anteriores, naturalmente isso se reflectirá na conservação do lince. Como tenho escrito muitas vezes, aliás, por exemplo, aqui
Pois bem, alguém resolve comentar o texto, num estilo vagamente familiar:
"Caro Henrique deveria consultar-se com quem sabe o que se passa no terreno. Sabe que nestas matérias de bicharada convem consultar quem lida com os temas de perto. Não basta ter boas idéias, ânsia de protagonismo mediático e tempo de antena nos media. Para sua informação surgiu uma nova estirpe de DHV, devastadora, que reduziu recentemente os coelhos a um nível que parecia já não ser possível . Como vê, essas suas fabulações carecem de fundamentação, o lince, esse infelizmente parecer continuar condenado.".
A mim parecer-me-ia perfeitamente razoável a crítica de que o texto não tem suficientemente em destaque a ressalva que fiz. Parecer-me-ia razoável que se dissesse que o texto era demasiado optimista e por aí fora.
O que acho extraordinário é um comentário que diz o mesmo que eu (as flutuações das populações de coelho provocadas pelas doenças são o principal driver da conservação do lince) servir para uma série de comentários pessoais, alguns positivos (que tenho boas ideias), outros assim, assim.
Sempre me fascinará esta forma de discutir, em que os argumentos são absolutamente secundários face à necessidade de dizer e redizer vezes sem conta o que se pensa sobre o interlocutor.
Um assunto que de maneira geral não interessa a muita gente.
henrique pereira dos santos


Sábado, Março 09, 2013

Transportes públicos


Resolvi fazer uma carta para o Primeiro Ministro que vos convido a assinar, se estiverem de acordo.
henrique pereira dos santos

Quinta-feira, Março 07, 2013

Pé ante pé


Desta vez é propaganda mesmo.
Depois de anos a pregar no deserto, com poucos ouvintes atentos, como o Carlos Machado ou o Paulo Tomé, que lá vão fazendo as suas experiências de gestão de combustíveis com pastoreio dirigido (ou terei sido eu que os ouvi a eles, nesta coisas das ideias é sempre difícil saber de onde aparecem, em especial quando não são ideias novas mas meras aplicações de técnicas desenvolvidas noutros lados), lá vou acompanhando o projecto de pastoreio dirigido da Aguiar Floresta.
Depois de em Dezembro as primeiras experiências terem sido levadas a cabo, com cercados móveis, lá vão andando os bichos a fazer o seu trabalho, e nós (um nós relativo, eu dou mais apoio moral que carrego paineis de rede) a mudar cercados e a verificar resultados.
Em mato derrotado, em alterações de solo, em acompanhamento da vegetação, à procura de alterações na bicharada e a avaliar custos.
Ora o que interessa agora é que quem quiser ir ver no concreto, discutir a técnica e avaliar resultados connosco tem uma oportunidade de outro no próximo dia 23 de Março.
Uma manhã de campo útil, acabada numa merenda preparada pelo António Alexandre.
henrique pereira dos santos

Segunda-feira, Março 04, 2013

O incompreensível desprezo pelo factos


Li este artigo, cujo título me chamou a atenção.
Helena Freitas é uma académica reconhecida e botânica de formação.
É por isso estranho o que escreve.
Vejamos:
Facto 1: "De acordo com a notícia, em 12 anos ardeu uma área correspondente a 38% do parque, o que é dramático.". Vamos admitir que estes 38% é a área ardida do PNPG em 12 anos. É dramático porquê? Não sabemos. Temos de ir lendo o resto do artigo para tentar perceber o que se pretende dizer com esta qualificação dramática.
Facto 2: "o aumento dos matos e a provável ocupação preferencial por esta tipologia de cobertura, uma vez que a ocorrência de fogos é cada vez maior.". Fonte? Uma notícia de jornal onde falam autarcas. A ocorrência de fogos é cada vez maior? É relativamente fácil verificar que ao aumento progressivo de área ardida (nos últimos 40 anos, com fortes variações inter-anuais) não corresponde um aumento do número de fogos e muito menos uma diminuição da área florestal. Há cada vez mais área de mato no Gerês? Gostava de ver os dados. E de ver de onde vêm as novas áreas de matos (a haver, do que duvido que tenha expressão significativa pela simples razão se várias vezes fiz análise de evolução da ocupação do solo e não encontrei esse padrão nos últimos anos. Sendo que os aumentos marginais da área de mato resultam mais do abandono agrícola que da diminuição da área florestada, em especial em áreas como o PNPG onde não existe dominância de pinhal bravo).
Facto 3: "Este é um facto incontornável na paisagem portuguesa: os ecossistemas florestais vão sendo substituídos por urzais, giestais e tojais ou formações naturais mistas de urzes, giestas, tojo e carqueja, conhecidos pela designação genérica de matos". Bom, aqui o problema é mais bicudo, porque se apresenta como facto incontornável uma coisa que simplesmente não é verdade. A área de ecossistemas florestais aumenta enormemente no último século e é razoavelmente estável nos últimos anos, sendo que o aumento eventual da área de matos se dá quando o saldo entre o abandono agrícola (que faz crescer os matos) e o aumento da área florestal (que faz diminuir os matos) é positivo. O facto incontornável simplesmente não existe e é facilmente verificável.
Facto 4: "Com as opções florestais das últimas décadas, parte dessas montanhas e muitas outras zonas do país estão hoje transformadas em imensos eucaliptais". Os eucaliptais não estão predominantemente situados em montanhas, nem há uma única das montanhas de Portugal (há algumas serras a menor cota) que tenha imensos eucaliptais, essencialmente porque o eucalipto dá-se mal com as geadas. O facto não existe, e é facilmente verificável.
Facto 5: " última fase desta degradação ecológica tem-se verificado com uma acentuada desertificação em muitas zonas de montanha e com a instalação progressiva de extensas manchas de acacial". Confesso que não quero acreditar que isto tenha sido escrito por quem é especialista em botânica. Não só as acácias não são dominantes em sistemas de montanha (embora existam invasões importantes em algumas zonas de menor altitude) como é um completo disparate dizer que que se verifica uma acentuada desertificação das zonas de montanha em Portugal, onde a recuperação da vegetação autóctone nunca terá sido tão pujante desde a última glaciação. É simplesmente incompreensível, para mim, que a cegueira ideológica leve tão longe a capacidade de uma académica negar a realidade verificável por qualquer pessoa.
Corolário: " É evidente que os fogos frequentes, a par de outras práticas que persistem, são factores que continuam a contribuir para a desertificação das nossas montanhas". Não Helena, não só não é evidente, como é falso que as nossas montanhas estejam em processo de desertificação, sendo que os fogos são exactamente o sintoma de recuperação que permite a acumulação de combustível que os alimenta.
O que é evidente é que qualificações académicas não defendem ninguém da cegueira ideológica.
É o respeito pelos factos que nos ajuda a não seguir simplesmente o mais fácil.
henrique pereira dos santos

Quinta-feira, Fevereiro 28, 2013

Charcos com Vida


Há projetos que encantam logo à partida. A Lei dos números grandes nos ensina que, quando temos algo muito abundante que desperta a curiosidade de muita gente, temos material para um projeto de grande visibilidade. O Charcos com Vida é um deles.

Os charcos (ou ribeiras ou poços ou tanques ou qualquer outro ponto de água, natural ou artificial) são repletos de vida. Lembro-me, enquanto miúdo, de passar horas à beira de um "sloot" (canal de pequena dimensão nas lezírias neerlandesas) a admirar as rãs e que invariavelmente falhava ao tentar apanhá-las. Mais tarde, já integrado num grupo juvenil de estudo da natureza, e equipado com redes e chaves dicotómicas, apanhava libélulas, coleopteras e outros grupos de animais e não descansava até determinar as espécies. Nos tanques da quinta dos meus pais, admirava as aranhas subaquáticas, as alfaiates e o meu campeão, o escaravelho Dytiscus marginalis, brutal predador que terrorizava o tanque todo.

Hoje em dia, os charcos são um "spearpoint" na estratégia europeia da conservação da biodiversidade, com projetos um pouco por todo o continente europeu. Acontece que essa relevância conservacionista ganha uma dimensão extra nos paises com clima mediterrânico como (partes de) Portugal, onde os charcos são autênticos hotspots de biodiversidade e refúgios para inúmeras espécies que dependem deles para a sua sobrevivência.

Acontece que há charcos e outros pontos de água um pouco por todo o lado. Ninguém sabe com rigor quantos há em Portugal. O projeto Charcos com Vida procura preencher esse vazio através do Inventário de Charcos. É mais um exemplo de Citizen Science que permite a qualquer citadão contribuir para o aumento de conhecimento sobre um tema. Não é preciso conhecimento especializado, basta juntar curiosidade, vontade e um pouquinho de tempo para introduzir um charco, sim, aquele lá logo ao virar da esquina da sua casa.

O projeto Charcos com Vida já conta com uma série de parceiros e ele próprio é parceiro do projeto Biodiversity4All. Espero que estes projetos, tal como tantos outros que estão interligados, não o são exclusivamente pela intenção, mas que trabalhem em rede, com reais e constantes fluxos de informação entre eles. Espero que os levantamentos de espécies ao abrigo do Charcos com Vida acabem na base de dados da Bio4All e que os habitats aquáticos identificados no Bio4All acabem no Inventário de Charcos do Charcos com Vida. E por aí fora.

Outro dia, contei a um amigo a atração do meu filho por anfíbios (e outra bicharada, tudo menos aranhas) e ele respondeu-me que as crianças gostam de coisas nojentas. Respondi-lhe que se calhar elas ainda não "aprenderam" isso, de ser nojento quero dizer, e que simplesmente se deixam encantar pela bicharada. E sabe tão bem, uma pessoa adulta e responsável e respeitável e tal, sentir de vez em quando aquele "jazz" de miúdo, a espreitar o fundo de um tanque onde uma rã se escondeu por baixo de uma folha submersa.

Os conservacionistas não gostam de boas notícias


Mais um artigo no Público on-line.
henrique pereira dos santos

Segunda-feira, Fevereiro 25, 2013

Carla Castelo

O exemplo acabado de que quando se quer, há sempre maneira de arranjar espaço para o que se gosta de fazer. henrique pereira dos santos

Sexta-feira, Fevereiro 22, 2013

Off topic...


... ou talvez não.
Recapitulando: Durante muitos anos Portugal viveu comprando mais que o que vendia, o que não seria grave se por qualquer motivo (por exemplo, remessas de emigrantes) entrasse dinheiro na mesma ordem de grandeza da diferença entre vendas e compras. A partir de certa altura Portugal passou a suportar essa diferença em dívida. De cada vez que alguém tentava inverter este rumo, o que implicaria vender mais (que em grande parte não está nas mãos dos governos) ou comprar menos (que tem custos políticos elevados), os sectores empregadores, com destaque para a construção (em sentido lato) erguiam-se em protesto, apoiados na inevitável subida da taxa de desemprego. Para resolver o desemprego os governos, com especial destaque para os do PS (a esquerda, esta, moderada, e a outra, imoderada, conseguiu pôr um inveterado esquerdista como eu a fazer campanha pela direita só para ver se se introduzia um mínimo de racionalidade na gestão da coisa pública) resolveram pedir mais dinheiro emprestado para fazer mais obras que iriam, um dia, melhorar o desempenho económico do país. A partir de certa altura eram as famílias, as empresas, os bancos e o governo a pedir dinheiro emprestado para manter uma ficção económica que se resolveria amanhã. No meio desta suave descida aos infernos, uma crise financeira mundial absorveu os abundantes meios financeiros que suportavam as dívidas de má qualidade (ou seja, as que dificilmente seriam um dia pagas, mas que se esperava que fossem sendo geridas) e Portugal foi confrontado com uma dificuldade grande de acesso a dinheiro que pagasse a diferença entre o que vendia e o que comprava. O que fez então o governo incumbente? Aprofundou o modelo económico anterior e, dementemente, endividou-se desesperadamente para suportar, pelo menos até à eleição seguinte, a ficção económica em curso, despejando a dívida que ia arrancando a ferros e a custos progressivamente maiores, sobre os sectores protegidos, em especial a inevitável construção civil que alimentava uma miríade de pequenos negócios ineficientes a jusante e montante, segurando artificialmente a taxa de desemprego. Até ao dia em que um golpe de Estado orquestrado pela banca (em risco de falência) e executado pelo seu ministro das finanças, obrigou o primeiro ministro de então a pedir a intervenção externa antes que a bolha do endividamento rebentasse descontroladamente, com um inevitável cortejo de falências, desestruturação do sistema financeiro, disparo do desemprego e miséria, muita miséria. Os representantes dos credores estabeleceram então um programa para resolver os desequilíbrios externos fundamentais (isto é, equilibrar compras e vendas) e, por essa via, criar confiança suficiente para que o dinheiro para gerir a dívida retornasse ao país. Inevitavelmente esse programa consistia em reduzir drasticamente a despesa do Estado e as compras ao exterior, visto que aumentar as vendas é um processo complexo que resulta essencialmente do desempenho das empresas. Inevitavelmente o sector da construção estoirou, o sector financeiro não estoirou porque foi amparado (o seu papel numa economia é equivalente ao papel do sistema circulatório num corpo, e se sobrevive a uma amputação de um braço, não se sobrevive à amputação do coração) e os milhares de negócios ineficientes a montante e jusante da construção faliram. A necessidade de resolver os problemas do sector financeiro obrigou a uma contracção brusca do crédito que acentuou os problemas das empresas no limiar da sustentabilidade. Inevitavelmente o desemprego disparou e o nível de rendimento baixou drasticamente, acentuando os problemas das empresas que viram os seus mercados contrair-se rapidamente. Acresce que as famílias, assustadas com o cenário que se desenhava, não reduziram o seu consumo apenas na proporção do rendimento disponível mas aumentaram essa redução para garantir a poupança, o que se facilitou o processo de reestruturação do sector financeiro e diminuiu a necessidade de endividamento, aumentou a retracção dos mercados das empresas. Surpreendentemente, o ajustamento externo foi muito mais rápido que o previsto, com as exportações a subirem mais que o previsto e as importações a diminuírem mais que o previsto, o que, se resolveu mais rapidamente os desequilíbrios estruturais, aumentou as dificuldades de financiamento do défice do Estado porque as exportações são menos taxadas que o consumo. Pois bem, três a quatro anos depois do início do processo de ajustamento (começou antes da tróica na economia, com as exportações a crescerem rapidamente, embora menos que as importações) hoje estão essencialmente resolvidos os desequilíbrios estruturais e está, no essencial, garantido o financiamento da economia. Ou seja, a questão essencial do programa de ajustamento financeiro está resolvida (embora precariamente, é certo). Podemos, portanto, desviar a prioridade e o foco da necessidade de assegurar o financiamento e evitar a bancarrota para a necessidade de reforçar o ajustamento com maior criação de riqueza, sem que isso signifique maior endividamento do Estado. O que conclui a oposição, os jornais e etc., sobre essa evidente viragem do governo e da tróica? Que é a demonstração do falhanço do programa e que os que disseram que isso do endividamento era um problema menos central que os de manter as taxas de desemprego baixas sempre estiveram certos, fazendo tábua raza das alterações estruturais que permitem a mudança de foco. É por isso, pela profunda estupidez e falta de seriedade que vejo nisto tudo que eu, esquerdista impenitente e com verdadeiro desprezo pela forma como Passos Coelho obteve o poder, sou obrigado a continuar a apoiar um governo de direita, dirigido por uma pessoa a quem não reconheço grandes qualidades, acolitado por outra a quem reconheço tantas qualidades como faltas de carácter, com ministros que não escolheria certamente para trabalhar comigo nem a distribuir panfletos, e, vá lá, com outros que aceitaria pacificamente, eventualmente gosto, como meus chefes. É simplesmente porque é um governo que fez o que precisava de ser feito, mesmo que o custo social seja, como é, muito elevado. Mas certamente muito menos elevado que manter o absurdo económico anterior, da mesma forma que por mais dramática que seja uma amputação (e é sempre) é infinitamente melhor que deixar lavrar a gangrena por falta de coragem para decidir sobre a amputação imprescindível.

Quarta-feira, Fevereiro 20, 2013

Não jogo mais à bola contigo


Ora aqui está mais um texto de opinião do Público Online.
E mais uma vez o mais interessante são os comentários: 1) Os factos são irrelevantes, o importante é descobrir a careca ao autor; 2) Aparentemente é normal e vulgar considerar-se que quem vende a sua força de trabalho, oferece a sua liberdade de pensamento como brinde.
henrique pereira dos santos

Domingo, Fevereiro 17, 2013

Feijoada completa


De vez em quando reproduzo aqui o que escrevo no Público on-line. Neste caso o mais interessante são os comentários. henrique pereira dos santos

Sábado, Fevereiro 16, 2013

O grande Elias


O Gonçalo Elias, a propósito da discussão do post anterior e do abate de um macho de águia imperial há algum tempo, relembra, e bem, o cadastro e as suas implicações jurídicas.
A coisa explica-se rapidamente: quando se discutiu o novo regime jurídico da conservação eu insisti em que se procurasse uma forma de dar valor jurídico (e, já agora, abertura, transparência e democraticidade) aos livros vermelhos.
Pedro Gama, o jurista que trabalhava no núcleo mais restrito de elaboração das propostas do regime jurídico, propôs uma solução que inicialmente me pôs de pé atrás mas da qual passei depois a ser o maior defensor: a elaboração de um cadastro dos valores naturais protegidos.
Esta ideia foi vezes sem conta confundida com um inventário dos valores naturais (o putativo SIPNAT, que há mais de dez anos vai ficar fantástico nos próximos seis meses) e a solução final do regime jurídico incorpora o cadastro e o inventário (SIPNAT, ou um primo qualquer).
Fora do núcleo mais restrito de elaboração do regime jurídico esta ideia do cadastro continuou a ser um objecto estranho em que ninguém pega, de tal maneira que ainda há coisa de um ano, numa discussão alargada com a nata dos botânicos de Portugal (e outros penduras como eu) ficou tudo muito espantado com a possibilidade de qualquer pessoa poder propôr a classificação de qualquer valor natural (as versões originais do regime jurídico eram mais liberais que as versões finais, mas enfim, faz parte do processo normal de consenso social onde quem decide é quem é eleito).
E depois do primeiro espanto, voltou tudo à mesma, à crítica do Estado que não adopta os instrumentos de protecção das espécies (que incluem a gradação das coimas em função do estatuto de ameaça, que pode ser alterado por proposta de qualquer pessoa, desde que cumpra um mecanismo democrático e aberto de decisão que inclui discussão pública dos estatutos de ameaça).
A verdade é que isso só depende de nós querermos ou não querermos exigir um cadastro que inclua a nossas propostas.
Mas tirando o Gonçalo Elias (eu estou cansado da guerra, cheio de dívidas e desisti de remar contra a maré) não vejo ninguém, indivíduos, académicos, associações, jornalistas , etc., a perguntar pelo cadastro.
Obrigado Gonçalo.
henrique pereira dos santos