segunda-feira, Novembro 04, 2013

Silvatica



Estamos a criar uma nova associação de conservação, a Silvatica, Sociedade de Conservação da Natureza, inspirada no modelo da ATN, compra e gestão de terrenos para conservação.
Temos um colóquio inaugural com um bom naipe de oradores, sobre gestão do fogo e do território.
Seja bem vindo quem vier por bem.
henrique pereira dos santos
PS Pergunta-se, e bem, onde é. É em Vouzela que, por si só, vale a visita

quinta-feira, Setembro 26, 2013

Uma ideia trágica para o mundo rural



"De modo que este país da vinha e da oliveira, das frutas magníficas e das flores preciosas, podendo oferecer no grandes mercados, com antecedência de bastantes dias, os produtos mais caros e mais raros, de maior procura e consumo, vive agarrado à miséria da sua cultura de cereais. Porque não a abandonará?”".

Esta citação, por muito que muitos estranhem, é de António Oliveira Salazar.

Salazar, no ensaio de 1916 que cito (Questão cerealífera: o trigo), e que este excerto traduz bem, faz uma extensa análise da questão cerealífera, em especial do trigo, muitíssimo bem informada e demonstrando uma cultura agronómica notável, tanto porque sabia de perto o que era o campo dos pequenos agricultores, como pela quantidade e solidez das fontes que usa, seguramente as melhores disponíveis na altura, sobre a questão agrária em Portugal.

E traduz fielmente a tragédia das elites que se debruçaram sobre o mundo rural português (e em grande parte ainda hoje isso se verifica).

Quase todos formados pelas escolas da Europa central, ou pelo menos fortemente influenciados por elas (como Salazar, que cita o escol dos que pensaram sobre agricultura no país, nesse tempo), a agricultura assume uma primazia absoluta (era preciso alimentar a nação) a que se junta, em complementaridade, a produção florestal.

A pecuária, em especial de bovinos, está muito entranhada nesta discussão, mas como submundo da agricultura e, em especial, como sub-utilização de um espaço que poderia ser agrícola (muito interessante a discussão do último quartel do século XIX sobre os avanços e recuos das áreas cultivadas, em especial para trigo, estando sempre presente o famoso mito dos incultos e do abandono, nomeadamente o recuo pontual da produção de trigo e, concomitante, aumento da produção pecuária, considerada uma extensificação da produção prejudicial à nação, embora favorável ao produtor).

A ideia trágica é a de que a produção em regime pastoril, em especial de pequenos ruminantes, é matéria que não merece grande consideração, ou que merece análises semelhantes às que são feitas para os incultos que é fundamental erradicar.

Ora o que começo a aprender é que esta ideia, que ainda hoje é dominante, e que foi dominante seguramente nas elites que discutem o mundo rural nos últimos 150 a 200 anos, desde a transição do antigo regime para a economia moderna, é uma tragédia que se abateu sobre o mundo rural, impedindo uma discussão equilibrada sobre a produção, a riqueza e a sustentabilidade do mundo rural.

Está na altura dos nossos engenheiros florestais passarem a engenheiros de montes e recolocar a pastorícia no seu devido lugar na discussão do mundo rural.

É, como sempre foi, embora raramente reconhecido, a chave do mundo rural que nos coube em sorte gerir, mesmo que a agricultura seja, como sempre foi, o motor que põe o maquinismo em movimento.

henrique pereira dos santos

domingo, Setembro 08, 2013

Carta Aberta ao Professor Jorge Paiva sobre incêndios florestais



Caro Professor Jorge Paiva,

Sou henrique pereira dos santos, não sei se se lembrará de mim.
Temo-nos cruzado aqui e ali, mas durante algum tempo cruzávamo-nos com alguma frequência no comboio das seis da manhã, o Professor indo para Coimbra, eu a ir para o Porto.

Uma vez por outra, conversámos brevemente sobre as nossas divergências quer em relação ao fogo, quer em relação à vocação florestal do país, e nesse contexto dei-lhe o meu livro “Do tempo e da paisagem” por ser a maneira mais fácil de fundamentar as minhas opiniões.
O Professor chegou a dizer-me depois que não concordava com o que eu dizia no livro, mas penso que nunca conversámos exactamente sobre as razões de discordância.

Escrevo-lhe agora como resposta ao seu artigo de ontem no Público “Incêndios florestais, causas e consequências”.
Com certeza há várias coisas em que concordamos, difícil seria ser de outra maneira.

Noutras não sei se discordamos ou se simplesmente damos importância diferente aos diferentes factores em presença para explicar a realidade dos incêndios florestais.
A mais profunda destas diferenças está no valor que atribuímos à pastorícia no sistema de produção orgânica tradicional. Carlos Aguiar é a pessoa que mais insistentemente fala na gestão da fertilidade associada a estes sistemas de produção, sendo quem me indicou os trabalhos de George Estabrook, muitíssimo interessantes e luminosos, deste ponto de vista.

Infelizmente penso que Estabrook terá morrido antes de conseguir publicar o livro que reunia todos os seus estudos sobre Portugal.
Para além deste aspecto, onde não penso que exista divergência, mas apenas uma diferença de valoração deste facto essencial na interpretação da evolução da paisagem, há no seu artigo algumas coisas que francamente não compreendo, de tal maneira me parecem pouco úteis para se chegar a soluções razoáveis de gestão do fogo em Portugal.

A primeira, menos importante, é a contabilização que faz dos carvalhos cortados para os descobrimentos. Confesso que 5 milhões de árvores, em várias dezenas (na realidade, centenas) de anos, dando valores que dificilmente passam as duas árvores cortadas por hectare, me impressionam muito pouco. Se um carvalhal tiver duzentas árvores por hectare, estamos a falar de um corte de 2% ao longo de várias dezenas de anos, ou seja, uma intensidade de uso perfeitamente compatível com a manutenção dos carvalhais.
Não vejo pois como pode esse processo ser comparado com a arroteia para a agricultura, a que está associada a arroteia para pastorícia, numa proporção que, de acordo com Carlos Aguiar (se a minha memória não estiver a trair o que diz Carlos Aguiar), estará na proporção de 5 a 7 hectares pastoreados para um hectare cultivado, se se quiser manter a fertilidade necessária à produção agrícola.

Provavelmente este processo, quinhentos anos antes das descobertas, teve muito mais influência no recuo das matas, como se depreende do facto das alterações da linha de costa da região Centro começarem a ser visíveis desde o século X, e estarem bastante avançadas já no tempo de D. Dinis, o suficiente para o assustar com o avanço contínuo das areias que formaram a ria de Aveiro, muito antes das Descobertas, portanto.
Também não entendo como diz que em meados do século XIX, quando são criados os serviços florestais, o país estava praticamente desarborizado (no que estamos de acordo) e imputa ao caminho-de-ferro um papel relevante na desarborização. É que o caminho-de-ferro começa a expandir-se na segunda metade do século XIX, tendo o seu apogeu pelos anos 40 e 50 do século XX, num processo totalmente contemporâneo da expansão da taxa de arborização do país.

O mesmo tipo de incongruência temporal é visível no seu argumento de que o eucalipto empurrou as populações para fora do mundo rural “Além de terem acabado com os Serviços Florestais, "obrigaram" o povo a abandonar os montes por estarem eucaliptados”.
É que o processo de abandono rural e emigração é dos anos 50 e, sobretudo, da década de 60 do século XX, e a expansão do eucalipto dada sobretudo dos anos 80 e 90 (mesmo que se considere a década de 70 como a do arranque da expansão do eucalipto, já o povo tinha abandonado os montes). Ou seja, há, no seu artigo, uma clara inversão das relações de causa/ efeito: é o abandono rural que abre espaço ao eucalipto (em rigor, à produção florestal, juntamente com a substituição dos estrumes orgânicos pelos adubos de síntese) e não o eucalipto que empurra o povo para fora da montanha. Usando a sua terminologia, é o povo que empurra o eucalipto para as serras e não a inversa.

Também não tem qualquer base factual a sua afirmação de que “os eucaliptais, tal como os pinhais (resinosos), também ardem melhor que as florestas de folhosas, por produzirem essências”.
Um eucalipto ou um pinheiro até podem arder melhor que um carvalho, mas num povoamento o que interessa é a estrutura do povoamento, e não a essência dominante.

É assim que, por esta ordem, ardem mais os matos (que foi o que foi substituído pela produção florestal, os carvalhais há muito que não existiam a não ser alguns vestígios reliquiais), depois os pinhais e depois os eucaliptais. A amostra para carvalhais é demasiado pequena, e muito sujeita a erros, mas os dados (poucos e imprecisos) sugerem que ardem bem mais que os pinhais e eucaliptais.
A explicação é simples: a grande maioria dos carvalhais que temos são carvalhais jovens, resultantes do intenso processo de regeneração natural que está a ocorrer como consequência do abandono rural, e não povoamentos maduros em que a sombra controla os matos heliófilos, comportando-se em relação ao fogo mais como matos altos que como carvalhais maduros.

Mas, mais importante, os eucaliptais, como os pinhais e os carvalhais, não são todos iguais, e todos eles ardem mais ou menos em função da estrutura do povoamento.
É assim que os eucaliptais do minifúndio das regiões de elevada produtividade primária ardem mais que os eucaliptais das celuloses, geridos intensamente e com taxas de prevalência do fogo que são menos de um quarto da média do país.

Paulo Fernandes demonstra isto de forma muito clara quando compara vários povoamentos e os caracteriza em função da espécie dominante e da sua estrutura, concluindo, como aliás é intuitivo, que a estrutura do povoamento é muito mais relevante que a espécie dominante para avaliar a sua relação com o fogo.
Se dúvidas houvesse, o incêndio do Caldeirão do ano passado, que atingiu cerca de vinte mil hectares, percorreu, em 90%, áreas de sobreiro, que ardeu como arde qualquer árvore (como cada espécie reage depois ao fogo é outra discussão, mas que todas ardem, disso não há dúvida).

Não gostaria de terminar sem falar de alguns aspectos em que estamos de acordo, seguramente:
1)      É o abandono e o crescimento dos matos que está na origem deste padrão de fogo;
2)      É preciso encontrar formas de gerir este combustível que todos os anos se acumula no nosso mundo rural (não só nas matas de produção mas em dois terços do território, com ou sem povoamentos florestais)
3)      O combate deveria ser profissionalizado, levado a cabo por profissionais da floresta (eu diria da paisagem, mas com certeza serei acusado de corporativista) que a conhecem e que todo o ano trabalham nela

Peço-lhe por isso que leia esta petição (http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=P2013N70639) e, se achar razoável, que nos ajude a dar-lhe divulgação e a centrar a discussão nos dois pontos em que estamos de acordo: 1) A organização de uma gestão profissional do fogo; 2) A necessidade de encontrar formas de gerir o combustível que se acumula.
É que por mais que estranhe a sua visão do futuro do país com “as nossas montanhas cobertas de rocha nua” numa altura em que a recuperação dos sistemas naturais nunca terá sido tão pujante e intensa, penso que na definição de modelos de actuação prática estaremos de acordo no essencial.

Com as minhas desculpas pelo atrevimento deste leigo em criticar quem seguramente sabe mais,
henrique pereira dos santos

sexta-feira, Setembro 06, 2013

O amigo americano

Carvalhal-americano ardido em Vizela - agosto 2013

Em comentários sobre um post anterior, o Luís Lavoura e Jaime Pinto (não levo a mal as gralhas no meu nome) teceram rasgados elogios à espécie Quercus rubra, o carvalho-americano.

De Luís compreendo-os (Luís é produtor florestal; se eu quisesse produzir madeira de carvalho também plantaria Q. rubra), do Jaime fiquei muito surpreendido.

O carvalho-americano é tão exótico na flora Portuguesa como o eucalipto, e é considerado por muitos como espécie invasora devido à elevada capacidade de germinação da sua bolota. O carvalho-americano não é resistente ao fogo e arde como todas as outras espécies florestais.

Eu acho o carvalho-americano bastante feio. As cores berrantes da sua folhada no outono não condizem com as cores outonais lusas e a sua casca falta aquela linda rugosidade dos carvalhos nacionais. São gostos...

Eu proibo plantar carvalhos-americanos em projetos de restauro ecológico da minha empresa, por não servir objetivos ecológicos mas sim de produção, dando preferência a carvalhos nacionais (isto é, quando os planto porque cada vez mais me convenço que plantar carvalhos é deitar dinheiro na rua que pode ser muito mais bem aproveitado em outras ações de restauro como a eliminação de espécies exóticas em áreas de conservação).

Mas o que acho curioso é como duas espécies exóticas de produção podem originar sentimentos tão opostos.

Henk Feith

quarta-feira, Setembro 04, 2013

O movimento ambientalista e os fogos



Tenho ouvido, estupefacto, declarações de ambientalistas sobre os fogos, uns procurando usar os fogos no seu combate ao eucalipto, outros aproveitando para falar na gestão das áreas protegidas (este ano menos, porque, por puro acaso, as áreas protegidas têm sido mais poupadas) e outros para falar nos grandes problemas ambientais causados pelos fogos (o menu é grande, mas o meu preferido é o problema do sal da água salgada usada para apagar fogos, referido pelo Presidente da Quercus).

Em geral têm uns narizes de cera sobre o assunto, que repetem à exaustão, em especial o ordenamento florestal e a prevenção (sendo que por prevenção se entendem muitas coisas diferentes).

Mas se existe uma exploração florestal que arde estatisticamente menos que a generalidade do país, o movimento ambientalista é contra porque é a exploração industrial de eucalipto (que é minoritária dentro da área de eucalipto do país, de maneira geral muito mal gerida, mais susceptível ao fogo, mas provavelmente mais biodiversa) e é preciso estar sempre contra o eucalipto.

O mais curioso disto é o progressivo desfasamento entre o discurso científico sobre os fogos e o discurso ambientalista.

Dentro do mundo científico há um amplíssimo consenso em matérias centrais que o discurso ambientalista trata:

1) os fogos não são, em si mesmos, positivos ou negativos, depende das circunstâncias, diz o discurso científico consensual, os fogos são um desastre ambiental, diz o movimento ambientalista;

2) Não existe qualquer evidência de relação entre eucalipto e aumento da incidência de fogos, diz o discurso científico consensual (que inclui pessoas relevantes do movimento ambientalista, vejam-se os trabalhos científicos de Francisco Moreira ou Joaquim Sande e Silva, por exemplo), os eucaliptos induzem fogos, diz o movimento ambientalista;

3) O fogo não é um problema que se resolve, é uma circunstância com que se aprende a conviver (formulação brilhante de José Miguel Cardoso Pereira), diz o discurso consensual sobre fogos florestais, o fogo resolve-se pelo ordenamento, pelo investimento na prevenção e apagando os fogos o mais rapidamente possível, diz o movimento ambientalista;

4) Salvo algumas circunstâncias muito delimitadas (em especial alguns povoamentos de coníferas ou habitats específicos como os zimbrais) o fogo não tem grandes efeitos ambientais negativos e a recuperação é muito rápida, diz o consenso do discurso científico, qualquer fogo sobre uma área com maior interesse natural é imediatamente catalogada pelo movimento ambientalista como uma perda irreparável, ou, sendo reparável, que demorará dezenas de anos a recuperar.

Poderia continuar mas não vale a pena.

Chegam estas ilustrações.

O movimento ambientalista nasceu das elites instruídas das universidades que prezavam a sua reputação, pelo que um dos princípios de intervenção pública era a garantia de segurança científica do que é dito.

Mas ao evoluir para um movimento populista e mediático o problema da reputação passou a ser outro: o que é preciso é criar mensagens simples para a turba perceber e não a confundir com discursos complexos, como são, inevitavelmente os discursos fundamentados sobre assuntos complexos, como os fogos e os eucaliptos, por exemplo.

Deve ser por isso que mesmo os investigadores que trabalham o assunto do fogo, e que publicam coisas diferentes do que é dito pelas organizações onde militam e têm actividade, não se revoltam perante a patente ignorância do discurso ambiental sobre os fogos, e deixam que outros académicos, que na verdade nunca escreveram uma linha sobre fogos numa perspectiva científica, ocupem o espaço mediático com as mais espantosas afirmações, de maneira geral não fundamentadas, mas com as costas quentes pelo seu prestígio académico ... noutras áreas que não a ecologia do fogo.

O movimento ambientalista descolou da sociedade quando o seu financiamento deixou de depender dos sócios e, em matérias fulcrais, como os fogos e o eucalipto (e, seguramente, não são as únicas), descola da academia, preferindo a espuma dos dias do que aparece nos jornais.

O que cada um faz com a sua reputação, só a ele diz respeito, mas seria bom que os senhores dirigentes das ONGAs percebessem que quando deixarem os cargos em que estão (eu sei que há alguns que acham que são posições vitalícias, mas não são) as suas organizações terão de lidar com a herança que lhes deixarem, nomeadamente em questões de reputação.

E se a coisa continua assim, deixarão heranças pesadas que demorarão mais anos a resolver que as matas a recuperar dos fogos.

Tenho pena.

henrique pereira dos santos

sexta-feira, Agosto 30, 2013

Um texto execrável


 
Há bastante tempo que deixei de me interessar pelo que escreve habitualmente Viriato Soromenho Marques no Diário de Notícias.

Mas desta vez resolvi interessar-me porque várias pessoas, cuja opinião prezo e considero, me remeteram um texto sobre fogos, acompanhado de grandes elogios.

Ora eu acho esse texto verdadeiramente execrável.

Como esta é uma crítica bastante violenta, passo a tentar fundamentá-la.

Passo por cima dos primeiros parágrafos, que não acrescentam nem atrasam (são uma visão ligeirinha e pouco fundamentada da história do movimento ambientalista, passando por cima de todo o trabalho da escola de arquitectura paisagista e dos florestais, por exemplo, em matéria de políticas públicas de ordenamento do território) e centro-me no que realmente conta.

“As reportagens televisivas mostram-nos, sistematicamente, bombeiros e populações cercados por eucaliptos em chamas.”

Confesso, já o disse noutro contexto, que discutir fogos a partir do que aparece na televisão é como discutir física quântica a partir dos livros do Tio Patinhas. Mas independentemente disso, não é simplesmente verdade que as imagens dos fogos sejam bombeiros e populações cercadas por eucaliptos em chamas. A grande maioria dos fogos nem sequer é em povoamentos florestais. E quando são, não são sistematicamente eucaliptos, variam de região para região.

“Chegado a Portugal em 1829, esta espécie exótica ocupa agora 26% do espaço florestal, e é o grande combustível dos incêndios florestais.”

VSM diz-nos aqui que 74% do espaço florestal não é eucalipto, mas que o eucalipto é o grande combustível dos incêndios florestais.

Se isso for verdade, os dados indicarão uma profunda relação positiva na sobreposição das áreas ardidas e nas áreas de eucalipto e, para além disso, as áreas de eucalipto seriam a maioria das áreas ardidas.

Ora, nada disso é verdade. Não só as áreas ardidas tem uma distribuição muito diferente da área de eucalipto, como a maioria do que arde são matos, e ainda é preciso juntar as outras espécies florestais, nomeadamente o pinheiro.

Factualmente VSM está errado neste ponto central da sua argumentação.

Mas isto não me faria escrever este texto: VSM não estuda fogos, não se informa, enquanto responsável pelo Programa Gulbenkian de Ambiente nunca ninguém lhe conheceu um especial interesse na matéria, nem contributo para resolver o problema, é pois natural que diga coisas erradas sobre um assunto que desconhece.

Um direito que nos assiste a todos é o direito à asneira e apesar do tamanho da asneira não me parece que se justificasse perder tempo a corrigi-la, tanto mais que são frequentes as pessoas que fazem questão em impedir que os factos influenciem as suas ideias.

“Quando vejo ministros, com ar pesaroso, lamentarem a morte dos bombeiros, apetece-me perguntar-lhes: "Onde estavam os senhores no dia 19 de Julho de 2013?". Nesse dia foi aprovado, em Conselho de Ministros, o ignóbil Decreto-Lei n.º96/2013, que, debaixo da habitual linguagem tabeliónica usada para disfarce, estimula ainda mais a expansão caótica da plantação de eucaliptos, aumentando o risco de incêndio, e fazendo dos bombeiros vítimas duma política de terra queimada ao serviço dos poderosos.”

É aqui que o caldo se entorna, quando Viriato Soromenho Marques, com sólida formação em filosofia, resolver usar o argumento que já Daniel Deusdado tinha usado nesta matéria: existe uma relação entre os fogos de Agosto e uma lei florestal de Julho. Curiosamente nem se dão conta de que ao defender o status quo anterior, estão a defender a circunstância legal em que se desenvolveram os actuais fogos.

Uma tal barbaridade já não pode ser simplesmente atribuída à falta de conhecimento do assunto, é mesmo pretender torturar os factos até que digam o que se pretende.

E é essa voluntária vontade (passe o pleonasmo) de contrabandear factos para os pôr ao serviço de uma tese pré-definida que torna toda este texto particularmente podre, em especial tendo em atenção na forma como é concluído.

Eu teria vergonha de usar a morte de terceiros, em especial nestas circunstâncias, para procurar ter ganho de causa numa discussão política, mesmo que com base em factos solidamente irrefutáveis.

Pelos vistos Viriato Soromenho Marques não tem essa vergonha, nem mesmo quando usa argumentos factualmente falsos.

Viriato Soromenho Marques tem todo o direito de ser contra a exploração de eucalipto em Portugal.

Já é mais duvidoso que tenha o direito de associar a exploração de eucalipto apenas ao interesse dos poderosos, esquecendo que dos 750 mil hectares de eucalipto, apenas 150 mil são geridos pelas celuloses, sendo a grande maioria dos outros 600 mil de pequenos proprietários.

E esquecendo toda a riqueza criada, incluindo o emprego associado, como se fosse irrelevante para o país prescindir de uma das suas fileiras florestais mais competitivas internacionalmente.

E mais do que isso, VSM esquece que em muitas áreas de produção de eucalipto a alternativa à sua exploração é o abandono, potenciador de fogos mais severos e extensos.

Mas tudo isso cabe na discussão política, por pobres que sejam os argumentos de Viriato Soromenho Marques, neste caso.

O que eu não aceito, o que acho mesmo execrável, é que Viriato Soromenho Marques conte uma história da carochinha sobre a relação entre a produção de eucalipto e os fogos, usando a morte de bombeiros a favor do seu argumento político.

Este aspecto em concreto torna o texto verdadeiramente execrável.
henrique pereira dos santos

sábado, Agosto 24, 2013

Sobre a gestão do fogo


Com o essencial do texto feito a partir de um post do Paulo Fernandes, com achegas de mais algumas pessoas, nomeadamente o José Miguel Cardoso Pereira, aqui fica uma petição para ver se se muda alguma coisa na gestão dos fogos.
Essencialmente o que se pede é um debate público sobre a criação de um corpo profissional de bombeiros florestais e um programa nacional de gestão de combustíveis, para o qual se desviem até 50% das verbas actualmente afectadas ao combate.
Quem quiser assinar, é dar um salto aqui.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, Agosto 23, 2013

Obrigado ao leitor atento...



... que chamou a atenção para as previsões do vento a partir de amanhã, num comentário ao último post.
Eu acho que o leitor tem razão, o abrandamento relativo de hoje não vai chegar para recuperar forças para a semana que vem, se as previsões meteorológicas se concretizarem.
O risco é grande, muito grande.
Até 15 de Agosto a área ardida era razoável, em torno dos 30 mil hectares.
Daí para cá a situação ter-se-á alterado bastante, mas suspeito que, a confirmar-se a previsão de vento, ainda se alterará mais na semana que agora entra, começando já amanhã à tarde.
Dito isto, reafirmo o que já aqui disse dezenas de vezes: a área ardida é um péssimo indicador, sobretudo quando é eleita como o principal indicador.
As perdas (sociais, em especial vidas de pessoas, ambientais, de maneira geral diminutas e reversíveis e económicas, muito variáveis em função do uso do solo) é que deveriam ser o indicador base.
O que me assusta são as enormidades que tenho vindo a ler vindas do Governo, que aparentemente acha  que os fogos são um problema de polícia e de combate.
Ainda hoje, no Público, Paulo Fernandes refere que as substituições de responsáveis pelo dispositivo de combate em Junho era mau, mas acima de tudo o facto dos responsáveis escolhidos estarem mais perto dos bombeiros que da floresta.
Ora o que arrepia é a resposta que o Público diz que o Ministro da Administração Interna deu: "Os bombeiros são, também eles, especialistas na floresta".
Não só continuamos a falar dos fogos como se fossem um problema florestal (quando em muitos casos os bombeiros se limitam a proteger casas, deixando de gerir o fogo fora da envolvente urbana), como mais que isso, achamos que comandantes de bombeiros são especialistas em floresta (e, calculo eu, em gestão do território e combustíveis).
No curto prazo os Governos não são responsáveis pelos fogos, que se explicam quase só pela meteorologia e pela acumulação de combustíveis (com alguma maximização pela eventual incompetência dos dispositivos, nomeadamente nas fases de rescaldo).
Mas é inacreditável pensar que o Governo acha que os problemas dos fogos são, essencialmente, uma questão de bombeiros.
Pelos vistos vai ser preciso outro 2003 para que este, ou outro, Governo perceba que o excesso de peso da protecção civil, dos autarcas e dos bombeiros, que tapam com o seu peso político o conhecimento científico que hoje existe sobre o fenómeno, é um caminho que não leva a lado nenhum.
E que custa fortunas aos contribuintes.
Dêem-me 1% do que se gasta em cada concelho com os bombeiros e protecção civil (deveria dar perto de um milhão de euros anuais) e eu monto um sistema de protecção com resultados visíveis ao fim de cinco anos (antes disso não é possível ter resultados consistentes).
Não acabaria com os fogos, isso é seguro, mas reduziria perdas de forma sensível, criando emprego e riqueza.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, Agosto 05, 2013

Zandinga ataca de novo


A manter-se a previsão, a partir da tarde de quinta feira, dia 8 de Agosto, vamos ter problemas com fogos. Já temos, mas estou a falar de problemas mais sérios.
henrique pereira dos santos

sábado, Julho 06, 2013

Conversemos então, Pedro


Depois do meu espalhanço anterior com a previsão dos fogos (de que ainda me estou a recompor, ou seja, a tentar perceber, tendo como hipótese base o facto de Este e Nordeste que entrou em Portugal, chegar ao Norte da Península vindo do Norte, e não do Sul, como é costume), tive uma pequena troca de argumentos com o Pedro Vieira sobre o que iria acontecer nesta semana em que estamos.

No essencial o Pedro dizia que o país ia estar em chamas por causa das temperaturas muito altas (e depois na conversa explicava que as minhas previsões falhavam por ser necessário pelo menos 15 dias sem chover para que haja grandes fogos, coisa de que discordo).

Eu dizia que não tinha a certeza de que ardesse assim tanto porque as temperaturas não são o factor essencial.

Claro que as temperaturas têm alguma importância, mas não me parece que seja o factor determinante.

O que temos então até agora?

Alguma razão para o lado do Pedro no sentido em que está a arder mais que na semana que eu previ. Alguma razão para o meu lado, no sentido em que está a arder, sim, há alguns (poucos) incêndios preocupantes, mas nada que se assemelhe aos dias de inferno.

Ou dito de outra maneira, até há bastantes incêndios, mas conseguem apagar-se quase todos em fases iniciais e os que ganham alguma dimensão apagam-se ao fim de algumas horas.

Ora é exactamente esta a diferença fundamental entre os dias de inferno, ou seja, os menos de quinze dias do ano em que arde 80% da área do ano, e os dias como aqueles a que estamos a assistir.

Note-se que não há dúvida de que as temperaturas estão especialmente altas, mas isso não se traduz num cenário limite do ponto de vista dos fogos.

Há alturas no Inverno, com temperaturas francamente baixas, em que é mais difícil apagar fogos que nestes dias de temperaturas brutais em que estamos.

É do factor que faz essa diferença, que está seguramente relacionado com a secura, não dos combustíveis (por isso o Pedro e eu discordamos dos tais 15 dias prévios sem chuva, a transição tem sido quase imediata em alguns casos) mas da atmosfera (que se traduz depois na secura dos combustíveis, em especial dos finos) que estou sempre à procura.

Que está relacionado com a vento Leste, não tenho a menor dúvida, mas que há mais tipos de vento Leste que os que pensei, também não tenho, hoje, a menor dúvida.

Já não é mau ter consciência da ignorância.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, Junho 28, 2013

Olha, enganei-me

O Luís Lavoura já tinha dito que o vento estava de Norte. Na realidade só estava de Norte no litoral, estava, tem estado e ainda estará de Leste ou, especialmente, Nordeste, no interior.
Eu estaria por isso à espera de ver muito mais fogos. De facto de Sábado para Domingo o número de fogos diários triplicou, mas para um patamar ainda gerível, em torno dos 110 a 120 fgos diários.
Mais importante, estes fogos foram sempre mais ou menos simples de apagar, ao contrário do que é costume em situações de vento Leste.
Olhando para os mapas, e tendo atravessado uma boa parte de Portugal nestes dias, dá-me a impressão de que o que foi diferente desta vez é que o vento que alimentava as correntes que estavam a chegar de Espanha eram de Norte até mais ou menos ao vale do Tejo, e de Sul daí para baixo.
De facto sentia-se uma frescura e humidade bastante catitas no início da manhã em zonas que, em condições de vento Leste, são habitualmente impossíveis de refrescar.
Talvez tenha mais rzão o Henk (é natural, sabe mais disto) que Sábado e Domingo sejam dias piores, mas parece-me que estamos ainda no patamar normal de fogos, sem grande expressão, com um ou outro a fugir um bocado mais de controlo.
Antes assim.
henrique pereira dos santos

sábado, Junho 22, 2013

Suspeito...


... que as notícias de abertura dos telejornais de quarta feira e arredores serão sobre fogos.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, Junho 14, 2013

terça-feira, Junho 11, 2013

Um Altlas a sair do forno



 

No seguimento deste post, já se podem dar uma olhadela aos primeiros mapas (ainda provisórios) dos dados compilados para o Atlas de Morcegos de Portugal, que está previsto ser publicado ainda este ano!