Quarta-feira, Julho 08, 2009

Boicotes, barragens e balelas


Declaração de interesses: trabalho profissionalmente com ONGs que não vão boicotar o fundo EDP para a Biodiversidade e parte do meu trabalho actual consiste em apoiar a gestão estratégica e fazer fund raising para projectos de conservação, incluindo por isso contactos com várias empresas que se dispõem a financiar projectos de conservação da biodiversidade

Já tinha tido conhecimento do que se preparave e aparece hoje a público o anúncio de um boicote ao Fundo EDP de biodiversidade.
É uma posição de algumas ONGs que não percebo.
A EDP fez uma campanha de comunicação que tem um ponto de fragilidade forte: não torna claro que a EDP, como companhia generalista de produção de electricidade é, inerentemente, uma empresa poluidora.
Na verdade a campanha não tem nenhuma mentira mas ao não deixar claro este ponto dá o flanco à imensa demagogia das ONGs.
Demagogia em primeiro lugar porque na verdade o que as ONGs contestam é o plano de barragens, que é da responsabilidade do Governo e executado por várias empresas, entre as quais a EDP.
Demagogia porque que a alternativa que apresentam (a eficiência energética) não é uma alternativa no quadro do negócio da EDP mas uma alternativa de política energética que está em grande medida na mão do Governo adoptar ou não (sendo certo que as mesmas ONGs estiveram absolutamente caladas quando o actual Governo impediu uma subida brusca de electricidade que é, sem dúvida, uma das mais sólidas medidas para garantir a eficiência energética).
Demagogia porque as mesmas ONGs que não querem o dinheiro da EDP atribuído num concurso aberto não rejeitam o dinheiro do Estado (muitas vezes atribuído em processos pouco transparentes) que condiciona as opções da EDP.
Demagogia porque as mesmas ONGs (ou pelo menos algumas) não rejeitam o dinheiro do mundo rural que lhes é atribuído pelo Ministério que liquida a Reserva Agrícola Nacional.
Demagogia porque as mesmas ONGs não rejeitam o dinheiro da Comissão Europeia que condiciona as opções energéticas do Estado e da EDP.
E demagogia ainda porque se a EDP estivesse calada em matéria de biodiversidade, como estão muitas outras empresas, do sector ou não, as ONGs estariam também caladas (é curioso como empresas com fortes pegadas ecológicas, a GALP, por exemplo, para não falar de outras eléctricas concorrentes da EDP, tem sido tão pouco fustigada pelas ONGs apesar da sua miserável, se existente, política de biodiversidade).
Também eu tenho muitas dúvidas sobre o plano de barragens. Também eu sou contra a barragem do Baixo Sabor. Também eu acho que a EDP podia fazer mais que o que faz e de forma mais consequente e aberta.
Mas francamente, neste charivari inconsequente não me apanham, muito menos por causa de uma campanha de comunicação fraquita e de um conjunto de opções políticas que cabem ao Governo e não à empresa que se pretende atingir com este boicote.
henrique pereira dos santos

Terça-feira, Julho 07, 2009

Bem aventurados os pobres de espírito...


Ao ler os comentários ao post que fiz sobre fogo e insectos tenho a demonstração de como se é feliz sendo um pobre de espírito.
Fui dar um passeio ao campo e resolvi usar parte da informação que trouxe na minha cabeça para fazer uns posts.
E escolhi um título provocatório num deles, chamando porcarias aos invertebrados, porque essa é forma como a maioria das pessoas os veêm.
A reacção é muito curiosa, já que a maioria dos comentadores não se preocupam em saber se a informação está errada ou certa mas se está cientificamente validada ou não, coisa que nunca pretendeu ser.
Eu, na minha pobreza de espírito, tentei explicar que um post é um post, não é um artigo com peer review, e que a informação do post era apenas uma informação que coligi porque achei graça (é um direito que assiste às pessoas comuns, o direito à asneira).
Agora é o Pedro Gomes que pedagogicamente me vem explicar que estou a ser demagógico, que há uma questão muito importante na problemática dos indicadores de que me estou a esquecer e que o leva a concluir que eu não tenho uma grande experiência na identificação de artrópodes e outras coisas que tais.
Pedro Gomes foi, tanto quanto sei, responsável por gerir e aplicar um orçamento muito relevante em estudos sobre o Parque Nacional da Peneda-Gerês. Esta situação não decorreu de qualquer concurso público mas de adjudicações directas feitas por um colega da sua Universidade que episodicamente era director do Parque Nacional da Peneda-Gerês.
Eu sou um pobre de espírito que não compreendo os assuntos de que falo e que não tenho muita experiência na observação de artrópodes.
E como pobre de espírito pergunto-me o que foi feito com os recursos excepcionais postos à disposição desta equipa de investigação?
Uma boa aproximação de resposta está nas quatro referências bibliográficas indicadas num comentário anterior onde se discutem coisas absolutamente centrais para a conservação no Parque Nacional da Peneda Gerês como a sobreposição dos hábitos alimentares e dos nichos ecológicos do coelho, da raposa, do gato bravo e da geneta, esse momentoso problema de conservação e profunda lacuna de conhecimento cuja colmatação era fundamental para a gestão do PNPG.
E o mais curioso é que pelo menos uma das conclusões não tem qualquer suporte a não ser umas inferências estatísticas erradas (não estatisticamente, mas biologicamente) sobre a relação entre o coelho e os matos altos.
Mas como eu sou um pobre de espírito ignorante do processo científico e da realidade aconselho que antes de começarem já a explicar que o que digo decorre da minha incapacidade em ter um pensamento científico por favor leiam isto.
Não é verdade que eu não tenha grande experiência na observação de artrópodes. O que é verdade é que não tenho nenhuma. Nem de outros invertebrados. E olhe, mesmo assim tinha pensado para mim se a diferença que via nas libelinhas não era apenas resultante de dimorfismo sexual e vi claramente vista a diferença de comportamente das tais duas libelinhas. E expuz, com a leveza que me dá a pobreza de espírito, a minha ignorância dizendo que esperava não estar a dizer nenhuma asneira. E por isso acrescentei a história da libelinha igual mas azul para que quem soubesse mais pudesse interpretar, que muitas vezes a nós, simples pobres de espírito passeantes, basta-nos o prazer de ver, sem qualquer pretensão científica, não sendo má ideia registar, mesmo que só na memória, o facto cujo significado desconhecemos, porque pode ser útil a quem saiba dar-lhe utilidade ("guarda o que não te faz falta e acharás o que precisas").
Já agora, o processo de florestação, sobretudo no Gerês, não é dos anos 40 e 50 mas tem o seu início em meados fins do século XIX.
Caros investigadores, discutam as minudências do processo científico com os vossos pares e não queiram estragar o prazer dos pobres de espírito que se contentam em ir acumulando informação inútil e de forma caótica e, apesar disso, conseguem dizer, fundamentando, que alguma da informação que consta das vossas publicações está errada, e muita outra é inútil, em vez de se limitarem a discutir os milhares de outras possibilidades de olhar para cada um dos assuntos que nos chamam a atenção.
Seria útil que também em relação ao post explicassem os seus erros, em vez de explicarem que não podem dizer nada porque não está cientificamente validado (curiosamente ninguém quiz saber coisas normais como onde era, o que lá estava antes, há quanto tempo ardeu, que características tinha o fogo, etc.),
Não admira que em Portugal haja tão poucos naturalistas empíricos e por isso os investigadores passem a vida a fazer modelos sem solidez por falta de dados de campo.
É que nem toda a gente está para ser tratado do alto da burra.
henrique pereira dos santos

Plano estratégico dos transportes

Está em consulta pública a sua avaliação ambiental estratégica.
Quem se interessa por sustentabilidade deve ver.
Começando pelos aspectos metodológicos que definem quem o sector considera como stakeholders:
"A elaboração do PET foi coordenada pelo GPERI, realizada por uma equipa técnica nomeada por Sua Ex.ª o Senhor Ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, e acompanhada por duas comissões: uma Comissão Técnica, com representantes técnicos dos organismos e empresas tutelados pelo Ministério, e uma Comissão de Acompanhamento, esta integrando os mais altos responsáveis do MOPTC."
henrique pereira dos santos
PS O Público de hoje tem uma página sobre isto. Na edição de economia e repetindo acriticamente o que está nos documentos preparados para a discussão pública. É bom, pasra informar as pessoas mas não percebo como se considera isto como notícia para a secção de economia. O que está em causa tem com certeza relevância económica, mas é muito mais que isso.

Segunda-feira, Julho 06, 2009

O fogo e os seus mistérios

Um claro exemplo da forma como os sistemas estão a evoluir com o actual padrão de fogo, dos vales para as encostas, numa das zonas do país mais complicadas deste ponto de vista

A propósito do post sobre invertebrados e o fogo José Carlos Carvalho dá indicações sobre referências das suas publicações que lhe permitem afirmar: "Ao trabalhar com coelho-bravo, no Norte, pude constatar que um dos problemas é, precisamente, o fogo. Todos os anos são queimadas extensas áreas de mato alto que servem de abrigo ao bicho. Ora o coelho é o suporte trófico do bufo-real, águia-real (ainda existia no tempo que andei por lá), gato-bravo, etc. etc. Por vezes, tudo o que resta ao bicho são as fendas nas rochas onde consegue estabelecer pequenos núcleos. Bem, o resto é história... (em jeito de nota, nas zonas mediterrânicas, os fogos controlados até podem ser benéficos...)"

Confesso que não encontrei as quatro referências na net (apenas os seus resumos) mas das duas primeiras (primeira referência segunda referência) pude ver os textos completos e quer nestes abstracts, quer nos textos completos, nada permite a afirmação acima, parece-me a mim.

No fundo José Carlos Carvalho faz um raciocínio frequente e lógico mas, tanto quanto me parece, errado. E é por ter estas três características, ser frequente, lógico e errado que faço este post a explicar por que me parece errado.

José Carlos Carvalho conclui, não vou discutir se bem se mal porque é num dos tais textos de que só consegui ler o resumo, que há uma relação estatística entre a existência de matos altos e a presença de coelho. Note-se, apenas a presença e não a abundância.

Partindo desta conclusão, conclui que se os fogos queimam os matos altos, então são prejudiciais ao coelho. Parece lógico, e é. Mas lógico não quer dizer verdadeiro.

Para verificar a correcção da conclusão é preciso verificar a correcção dos pressupostos.

Discutamos primeiro a questão dos matos altos. O facto de haver indícios mais frequentes de coelho nos matos altos não significa necessariamente maior importância para a conservação do coelho. Se numa determinada área existe abundante área de alimentação aberta e poucos sítios de abrigo, é natural que esses poucos sítios de abrigo sejam intensamente usados, ao passo que as extensas áreas de alimentação terão um uso mais disperso, sendo por isso mais difícil encontrar sinais dos coelhos. Pode acontecer que ao gerir o habitat no sentido de aumentar a disponibilidade de abrigo (à custa da área de alimentação) eu venha um dia a encontrar mais sinais de coelhos nas áreas abertas que nas áreas de matos altos. É o problema das correlações estatísticas sem verificação das relações de causa/ efeito.

Segundo pressuposto do raciocínio: os fogos diminuem as áreas de mato alto. Este pressuposto não foi analisado nos trabalhos em causa mas parece uma evidência. Mas simplesmente não é inteiramente verdade, dependendo da frequência e severidade dos fogos. Em fogos muito extensos há, com muita frequência, áreas não ardidas ou sobre as quais o fogo passa como gato sobre brasas. Mas sobretudo são muito poucos, actualmente, os sítios em Portugal onde o fogo tem frequências incompatíveis com a existência de matos que forneçam abrigo a coelhos. Mesmo que uma área fique temporariamente sem grande abrigos, há uma recuperação notável nos dois três anos seguintes, o que invalida este pressuposto quando se tem em atenção a dinâmica dos sistemas.

Daí que a perturbação pelo fogo tenha uma importância marginal face aos outros factores que influenciam a conservação das populações de coelho, como sejam as doenças, à cabeça de todos, e as alterações estruturais de habitats provocadas pelo abandono agrícola (de que aliás os fogos são um sintoma, mas um sintoma que com efeito contrário aos efeitos do abandono agrícola na dinâmica do sistema).

Ora é esta "contradição" entre os efeitos imediato e mediato do fogo que leva a muitas e muitas afirmações como a de cima (aliás tal como uma outra afirmação, no comentário seguinte, que afirma que o fogo transforma zonas de carvalhal em zonas de mato muito rasteiro, o que está muito longe de ser o padrão habitual que se verifica) que faz com que persista em muitos académicos, que estudam questões marginais aos efeitos do fogo mas não directamente a dinâmica associada aos fogos, uma ideia errada, embora aparentemente lógica, do que está a acontecer no nosso país nesta matéria.

henrique pereira dos santos

Domingo, Julho 05, 2009

Recuperação após fogo


Confesso que a reacção ao meu post sobre os insectos e o fogo me surpreendeu.

Teve no entanto uma vantagem.

Paulo Fernandes mandou-me duas fotografias sobre uma área de fogo experimental e o texto que transcrevo:

"Anexo umas imagens interessantes da bastante rápida recuperação pós-fogo aqui na serra do Alvão. Os fogos (experimentais) foram nos dias 29-30 de Maio de 2003, e as fotos tiradas a 4 de Setembro do mesmo ano. As espécies são a carqueja e a urze Erica australis, que rebentam profusamente após o fogo, e também um Halimium, que regenera por semente. Alguns números: antes desses fogos a comunidade contava 7 anos de idade desde o último fogo, 98% do terreno estava coberto pela vegetação, com uma biomassa aérea de 34,0 t/ha. 21 meses depois dos fogos experimentais o coberto já alcançava 81% e a biomassa 12.6 t/ha. Isto não significa que a área estivesse pronta para arder de novo: um incêndio de 3000 ha em Agosto de 2005 auto-extingiu-se nestas parcelas."

henrique pereira dos santos

Sábado, Julho 04, 2009

reflex: o que os olhos não vêem

Peixe-sapo
Curral Velho, Santa Luzía, Cabo Verde
Julho de 2008
(clique nas fotos para ampliar)

Enquanto mergulhávamos, um amigo meu chamo-me a atenção para um pequeno peixe, cuja forma e cor eram contínuas às rochas e algas que o rodeavam. Tratava-se de um peixe-sapo (Antennarius sp. cf. senelagensis) obviamente bem difícil de observar, já que aposta a sua vida num mimetismo bastante eficaz. Em mais de 1000 horas de mergulho naquelas águas, foi esta a única vez que vi um peixe-sapo, certamente bem mais raro aos meus olhos do que no fundo do mar.

Gonçalo Rosa

Sexta-feira, Julho 03, 2009

Uma curiosidade

Nunca tinha tido consciência deste detalhe que se vê mal na fotografia mas eu explico.
Meia dúzia de meses após fogo o grau de cobertura do solo não é brilhante, mas não parece mau de todo. Choveu bem uns dias antes e já passaram algumas chuvinhas mas ainda não passou um Inverno seguido de Primavera.
O detalhe prende-se com uma coisa lógica mas em que nunca tinha reparado: a encosta não é plana, tem zonas de micro aplanamento e micro declive acentuado. Até aqui, nada de especial.
O que me parece um deetalhe interessante é o facto das zonas de ruptura do declive (como digo, a uma escala de grande detalhe) corresponderem às zonas onde as raízes seguram a terra. Ora como essas zonas de ruptura do declive seriam as mais erosionáveis pela fisiografia mas coincidem com zonas de retenção dos sedimentos pelas raízes, é bem possível que o efeito real da erosão seja menor do que se poderia antecipar.
Aparentemente as zonas mais expostas são também as de menor declive.
henrique pereira dos santos

um milhão de páginas visitadas... é obra!


Para os que não conhecem o site avesdePortugal.info, convido-os a uma visita. Trata-se de um espaço dinamizado por um grupo de duas dezenas e meia de observadores de aves, ornitólogos e fotógrafos de natureza, com o objectivo de promover a observação de aves em Portugal. Ali se ficam a conhecer mais de 400 espécies de aves que ocorrem no nosso país, como identificá-las e onde observá-las. Este site, apresenta ainda mais de 100 sugestões relativas a locais onde observar aves em Portugal Continental, dando ainda boas dicas para cada local. Tudo isto apresentado numa estrutura simples e bem ilustrado com alguns milhares de fotografias. O avesdeportugal.info encontra-se ainda ligado a alguns micro sites mais específicos, tais como, Chegadas, Biblioteca Ornitológica, Raridades, Flamingos e Aves de Lisboa, que igualmente merecem visita atenta.

Hoje, a visitação ao avesdeportugal.info atingiu a impressionante marca de 1.000.000 de páginas visitadas em apenas ano e meio de existência (ver estatísticas aqui), sendo que o último meio milhão de páginas visitadas foi obtido em apenas 6 meses. A média diária, em crescendo, aproxima-se das 2.900 páginas visitas por mais de trezentos utilizadores, valor elevadíssimo quando comparado com os obtidos por outros sites nacionais nesta temática.

Nos últimos tempos, muito se tem falado sobre a participação activa da sociedade civil na defesa e promoção dos valores naturais. O site avesdeportugal.info é um belíssimo exemplo de como promover o gosto pela Natureza - neste caso em concreto, pela observação de aves - e de como isso pode ser feito por iniciativa pessoal, sem andar à espera que os outros o façam!

Parabéns pois a todos os promotores e dinamizadores do avesdeportugal.info!

Gonçalo Rosa

Quinta-feira, Julho 02, 2009

insectos e outras porcarias


Ontem fiquei de novo com a ideia de que avaliações pós fogo sem entrar em linha de conta com os invertebrados, sobretudo nos meses imediatamente após o fogo, é um omissão relevante de informação.
Já quando em 2004, 2005 e 2006 andei a percorrer áreas ardidas em 2003 tinha verificado que antes de mais nada o que se encontravam eram teias de aranha e insectos vários, desde os rastejantes aos voadores.
Ontem vi pelo menos sete espécies de borboletas diferentes (não percebo nada do assunto, não sei que espécies são, mas lá que eram diferentes umas das outras, disso não há dúvida) não tanto no centro dos dez hectares ardidos em Janeiro ou Fevereiro mas sobretudo na margem entre o ardido e não ardido.
É claro que a libelinha (espero não dizer nenhuma asneira) da imagem de cima não estava na área ardida, mas junto à água a juzante da dita área (havia outra espécie azulada onde esta é amarelada, mas muito mais arisca).
Que há muita vida após fogo parece-me fácil de verificar.
henrique pereira dos santos

produzindo atuns

Atum-rabilho
(foto sacada daqui)

O El País publicou hoje uma interessante notícia que relata a primeira vez que investigadores conseguiram obter uma quantidade considerável de ovos viáveis de atum-rabilho em cativeiro (ver aqui). O Instituto Espanhol de Oceanografia, que lidera o projecto, refere estar ainda a definir dietas eficazes e que respeitem o Ambiente, com o objectivo de reduzir ou eliminar a importação de potenciais processos patológicos derivados da alimentação com peixe cru durante a fase industrial de engorda dos atuns.

São boas notícias, se considerarmos o decréscimo de muitas populações das espécies de peixes mais consumidas para alimentação, bem como o impacte que algumas artes de pesca teem nos ecossistemas marinhos. Acredito que boa parte da resposta às necessidades do mercado de pescado pode passar pela piscicultura.

Gonçalo Rosa

Quarta-feira, Julho 01, 2009

reflex: necessidade ou peso da tradição?

Serra Negra, Sal, Cabo Verde
Setembro de 2008

Na Serra Negra, na costa leste da ilha do Sal, em Cabo Verde, encontrei largas dezenas de carapaças e ossadas de grandes tartarugas, que ali tentaram fazer as suas posturas. Muitas, mortas há já muitos anos, outras bem mais recentemente. Apesar das campanhas de conservação desenvolvidas por países europeus em colaboração com as autoridades locais, são muitos os que não dispensam esta fonte de alimento.

Gonçalo Rosa

Domingo, Junho 28, 2009

I beg your pardon?


Questionado sobre o que está o governo a fazer para acolher os milhares de doutorados e investigadores que actualmente estão noutros países, o ministro inverteu a pergunta: "O que querem as pessoas qualificadas fazer em Portugal e o que querem fazer para criar e melhorar as suas oportunidades?"

no Público online de 28 junho 2009

Em países como a Austrália, que reconhecem abertamente a fuga de cérebros, o governo e as universidades oferecem pacotes irrecusáveis (emprego fixo, bom salário, financiamento inicial para montar equipa, etc) para que os melhores investigadores da diáspora regressem. E alguns regressam. Aqui, apela-se aos bons sentimentos e a um empreendorismo que só faz sentido para uma minoria de investigadores que trabalham em áreas no interface entre a ciência e a tecnologia. Supõe-se que estas afirmações fazem parte da "operação de charme" do governo português para atrair investigadores Portugueses radicados no estrangeiro.

Sábado, Junho 27, 2009

Michael Jackson: Música da Terra

video

Sexta-feira, Junho 26, 2009

que sentido reintroduzir águias-pesqueiras?

último local de nidificação da águia-pesqueira em Portugal
Pedra da Agulha (Arrifana), Costa Vicentina
Junho de 2009

Esta Primavera, dois casais de Águia-pesqueira nidificaram, em plataformas artificiais, na Andaluzia. Desde meados do século XX que tal não acontecia em Espanha (ver noticias aqui ou aqui), sendo estes os primeiros resultados de um programa de reintrodução iniciado em 2003 e que passou pela introdução através de hacking (ver nota final) de mais de uma centena de crias, oriundas da Alemanha, Finlândia e Escócia.

Este acontecimento reaviva a história da extinção da águia-pesqueira em Portugal e os porquês da ausência de um programa de reintrodução desta ave no nosso país.

As águias-pesqueiras que nidificavam na Península Ibérica eram residentes, não empreendendo migração, utilizavam essencialmente escarpas costeiras e palheirões (rochedos nas costa como a Pedra da Agulha, na figura que ilustra este post) para construir os seus ninhos e caçavam na costa. Tinham pois características biológicas bem distintas das nidificantes no Norte e Centro da Europa, onde a espécie é migradora, invernando a maioria destas populações na África Ocidental, construindo o seu ninho em árvores e em postes e utilizando sobretudo planos de água interiores para capturar as suas presas.

Apesar de extinta como nidificante - fora do período de nidificação não é difícil observar indivíduos desta espécie oriundos na Europa Central e do Norte em algumas zonas húmidas ibéricas - a águia-pesqueira tem uma muito ampla distribuição mundial, nidificando em todos os continentes excluindo América do Sul, onde apenas ocorre fora do período reprodutor, e Antártida. Em aumento moderado, a população europeia deverá rondar os 10.000 casais.

Sem grande sucesso, tentei obter informação sobre outras vertentes do projecto espanhol (nomeadamente a financeira) via internet. Encontrei um poster de apresentação do projecto aqui que muito me fez recordar uma proposta apresentada há uma década atrás, no ICN. Segundo aquele poster, "restablecer una población viable de Águila pescadora en la provincia de Cádiz para favorecer la expansión de la poblacón mediterránea y reducir su riesgo de extinción es el objectivo prioritario y perseguido desde la Junta de Andalucía". Referindo mais adiante que "las diferencias genéticas de la población mediterránea y las poblaciones europeas no son significativas, se podrían solicitar para la reintrodución ejemplares nacidos en cualquier país europeo". E, dada a indisponibilidade de crias oriundas da população mediterrânica em número suficiente, recorreram os espanhois a aves oriundas do Norte e Centro da Europa. Mas ao introduzir crias de águias-pesqueiras nascidas daqueles países, deita-se por terra o argumento da singularidade biológica da população mediterrânica.

Fará sentido aplicar recursos num programa de reintrodução de uma espécie, globalmente pouco ameaçada, quando para tal se abdica da relevância das características biológicas do núcleo populacional que outrora existia (nidificação nas escarpas costeiras, padrão migratório ausente, utilização regular das águas costeiras para caçar)?

No final da década de 1990, enquanto técnico do ICN acompanhei, numa fase inicial, a discussão de uma proposta para a reintrodução de águia-pesqueira na costa sudoeste de Portugal. Concordando inicialmente com os pressupostos iniciais do projecto, mudei completamente de opinião depois de verificar falsidade do argumento que a população mediterrânica tinha afastamento genético da do Norte e Centro da Europa e de me aperceber que as distintas características biológicas das aves mediterrânicas que pareciam motivar o projecto eram ignoradas quando se afigurava muito difícil conseguir dadores desta região.

Compreendo o interesse deste projecto sobre o ponto de vista turístico ou mesmo da promoção ambiental, mas realçar a sua enorme importância ao nível da conservação da natureza revela ignorância ou má fé.

Gonçalo Rosa

hacking - é uma técnica que consiste basicamente na libertação de crias retiradas dos seus ninhos em idades precoces e criadas em pequenas instalações colocadas nos locais onde se pretende reintroduzir a espécie

Quinta-feira, Junho 25, 2009

conversa da treta



Do "filme da treta", um naco de treta :) que vale a pena revisitar.

Gonçalo Rosa

negociações na CBI: a posição do Governo Português

Moby Dick
(imagem sacada daqui)

Ainda sobre o tema debatido nos últimos dois posts - «Portugal disposto a aceitar caça costeira à baleia» e Caçar ou não caçar baleias - aqui segue o comunicado de imprensa que pretende esclarecer algumas das dúvidas sobre o referido assunto.

Acrescento que esta posição do Governo Português me parece bastante sensata e equilibrada.

Gonçalo Rosa

Comunicado

Na sequência de notícias veiculadas nos meios de comunicação nacional sobre a posição do Governo Português a respeito das negociações internacionais no quadro da Comissão Baleeira Internacional (CBI), o Ministério do Ambiente, do Ordenamento do Território e do Desenvolvimento Regional esclarece o seguinte:

1) O Governo Português defende o reforço das políticas de conservação das baleias em todo o mundo e favorece a manutenção da actual moratória à caça à baleia;


2) O Governo Português rejeita que a caça à baleia venha alguma vez a ser retomada em Portugal, e tudo fará para assegurar o cumprimento da proibição desta actividade nas suas águas territoriais;


3) O Governo Português, mantendo pleno respeito pelas diferenças culturais entre países, considera que os cetáceos são animais com capacidades cognitivas especiais e como tal considera que não devem ser explorados como um vulgar recurso pesqueiro;


4) Portugal orgulha-se de ter transformado com sucesso as suas actividades de caça à baleia (proibida desde meados dos anos 80 do século passado) em actividades de observação de cetáceos, recomendando que outros países sigam a mesma linha de valorização económica dos cetáceos através de usos não letais;


5) A observação de cetáceos gera hoje mais riqueza para as comunidades que tradicionalmente se dedicavam à caça à baleia, do que a caça alguma vez gerou;


6) Há decadas que as negociações na CBI se encontram num impasse, estando a actual moratória fragilizada pelo abate anual de milhares de baleias através da caça comercial praticada pela Noruega e Islândia, e pela caça científica praticada pelo Japão, número que tem aumentado consistentemente nos últimos anos;


7) As declarações prestadas pelo Senhor Ministro do Ambiente, do Ordenamento do Território e do Desenvolvimento Regional, no passado dia 22 de Junho, na sessão de abertura da 61a Reunião Anual da CBI, no Funchal, indicando que Portugal pode tolerar a retoma da caça costeira em países com tradição baleeira, como o Japão e a Noruega, visam apoiar as recomendações de um grupo de trabalho especial da CBI que, após um ano de negociações, propõe um acordo de compromisso que pode desbloquear o actual impasse negocial;


8) Este acordo de compromisso, tal como proposto pelo referido grupo de trabalho, prevê nomeadamente que o Japão deixe de abater a maior parte das cerca de mil baleias por ano ao abrigo do seu programa de caça dita científica, não vistoriada pela CBI, em troca de lhe ser permitida alguma caça em águas costeiras japonesas, em algumas comunidades tradicionais, sob controlo e supervisão da CBI;


9) Portugal, tal como a generalidade dos paises pro-conservação, apenas poderá admitir a retoma desta caça costeira no Japão como parte de um acordo de compromisso com reforço das medidas de conservação, que tenha como resultado uma redução efectiva e substancial do número de baleias abatidas anualmente em todo o mundo;


10) Portugal considera a criação de santuários para baleias, internacionalmente reconhecidos no âmbito da CBI, uma peça fundamental do futuro acordo.

Quarta-feira, Junho 24, 2009

Caçar ou não caçar baleias

Baleia-anã
(foto sacada daqui)

Há um par de dias foi publicado no Público um interessante e equilibrado artigo, com mais alguma informação sobre toda esta polémica.

Gonçalo Rosa

Segunda-feira, Junho 22, 2009

«Portugal disposto a aceitar caça costeira à baleia»

Alguém se lembra se isto (ver abaixo) faz parte do programa deste Governo? Se não, com que base surge esta posição, sobretudo agora que os baleeiros se reconverteram em 'whale watchers'?

Portugal admite o regresso de alguma caça à baleia a nível internacional, em troca de mais medidas de conservação para os grandes cetáceos. Aproximar as posições pró e contra a caça à baleia é a postura que o país está a manter na reunião anual da Comissão Baleeira Internacional (CBI), que começou hoje no Funchal, Madeira. [notícia integral]

Domingo, Junho 21, 2009

reflex: dilúvio

Punta Engaño, Cebu, Filipinas
Dezembro de 2008

Depois de seis horas de autêntico dilúvio matinal que parece ter suspendido a vida na aldeia, os habitantes começam a sair das suas casas e fazem-se à estrada. O caminho é longo até ao mercado e não é certo que os pequenos táxis passem nalguns locais. Pelo crepúsculo, nem parece ter chovido, tal a rapidez com que as águas se evaporam e se juntam em novas nuvens.

Sábado, Junho 20, 2009

Prémio Quercus 2009



Justo, muito justo, para um homem tão fundamental para o ordenamento do território em Portugal como discreto, de tal maneira que não arranjei melhor imagem que a de cima para ilustrar o post.
Usem o link abaixo para o reconhecer e lhe agradecer o que fez pelo país quando se cruzarem com ele na rua:


henrique pereira dos santos