Domingo, Dezembro 06, 2009

Climategate: Resposta a Delgado Domingos


Fotografia de Miguel Araújo (Svalbard, Árctico, Junho de 2009)

No dia 30 de Novembro de 2009, Delgado Domingos escreveu um artigo de opinião no jornal Expresso onde acusa os investigadores envolvidos na troca de correspondência electrónica, roubada aos servidores da CRU ("Climate Research Unit" da Universidade de East Anglia), de manipular dados para provar o aquecimento global considerando este alegado "climategate" como um dos maiores escândalos científicos da história. A argumentação de Delgado Domigos centra-se em: A - Defender que não existe evidência de que o clima esteja a mudar a nível global; B - Afirmar que os emails roubados demonstram uma fraude científica que compromete a credibilidade da ciência climática. No texto que se segue explicarei porque razão a argumentação de Delgado Domingos é equívoca e porque considero serem algumas das suas conclusões precipitadas.

A - Não existe evidência de que o clima esteja a mudar a nível global

Para consubstanciar esta ideia, Delgado Domingos recorre a dois exemplos. O primeiro é que a catástrofe de Nova Orleães não foi causada pelo aquecimento global. Esta é uma afirmação surpreendente. O professor Delgado Domingos sabe que não é possível isolar um evento meteorológico e atribuir-lhe uma tendência climática. Também sabe que a interpretação deste tipo de fenómenos se faz analisando séries temporais mais longas e interpretando-as à luz de teorias e modelos. Ou seja, qualquer afirmação sobre furacões e aquecimento global tem de decorrer da análise de séries temporais e da sua comparação com modelos que assumem interpretações alternativas dos mecanismos que governam o clima do planeta. Se é verdade que essas séries são escassas (no passado só se registavam eventos desta natureza quando causavam prejuízos em terra), também é verdade que a "US National Hurricane Center" analisa dados sistemáticos de furacões no Oceano Atlântico desde 1944. Finalmente, o professor Delgado Domingos deveria reconhecer que o IPCC não afirma que o furação de Nova Orleães se deve às alterações climáticas actuais. O que se afirma no relatório de 2007 é que se estima que os furacões do atlântico poderão tornar-se "menos frequentes mas mais intensos".

O segundo exemplo é que a temperatura que, segundo os dados do "UK Met Office", terá estabilizado desde 1998. Para completar este argumento deveria ter sido referido que 1998 foi um ano particularmente quente devido ao efeito "El Niño" e que 2008 foi um ano particularmente frio devido ao efeito "La Niña". Ora todos sabemos que as projecções de tendências têm associadas a si uma variação inter-anual que é de carácter estocástico (melhor dizer, não se pode explicar à luz do conhecimento actual), e que escolher um ano quente para depois demonstrar uma evolução é negativa é certamente uma boa forma de produzir argumentos retóricos. A questão é se ajudará a compreender fenómenos complexos. Se é verdade que a estabilidade climática não pode ser inteiramente explicada pelos modelos actuais, também é verdade que simulações recentes demonstram ser prováveis ciclos de estabilidade climática seguidos de aumentos de temperatura e tudo indica que 2009 voltará a ser um ano quente. Delgado Domingos também se esqueceu de referir que, de acordo com os mesmos dados do "UK Met Office", os 10 anos mais quentes do registo climático moderno registaram-se desde 1997.

Portanto e passando ao lado de se ter optado por ignorar a bateria de dados independentes sobre alterações climáticas no artigo do Expresso (designadamente os que advém da observação de como o sistema biológico responde a ela), é claro que a argumentação apresentada é, além de incompleta, rebatível.

B - Os emails roubados demonstram a existência de uma fraude científica que compromete a credibilidade da ciência climática

Aqui Delgado Domingos parece misturar duas possibilidades distintas: a possibilidade de ter havido uma fraude que compromete a ciência climática no seu conjunto (a opinião veículada no artigo) e a possibilidade de que tenham havido comportamentos eventualmente reprováveis por parte um grupo restrito de climatólogos sem que isso tenha tido consequências práticas ou que, a ter, tenha tido consequências limitadas. A primeira interpretação é, no meu entender, abusiva e carece de demonstração. A segunda, está por comprovar e para isso foi nomeada uma comissão independente. Esta comissão analisará a totalidade da informação disponível e não só a que foi seleccionada e colocada fora do contexto para divulgação na internet.

Além desta aparente "confusão" sobre as eventuais implicações do alegado "climategate", que pode ter levado Delgado Domingos a empolar algumas das palavras usadas no artigo do Expresso, há factos que nos dão indícios de que a interpretação de Delgado Domingos tenha sido precipitada. Se não vejamos:

Delgado Domingos diz que houve uma tentativa de silenciar cientistas críticos, alterando "as regras de aceitação das publicações para consideração nos Relatórios do IPCC de modo a suprimir as críticas fundamentadas às suas conclusões". É verdade que, no calor do debate, dois artigos foram criticados (S. McIntyre and R. McKitrick Energy Environ. 14, 751–771; 2003 e W. Soon and S. Baliunas Clim. Res. 23, 89–110; 2003) e que se escreveu que estes deveriam ser erradicado do relatório do IPCC, mesmo que para isso fossem redefinidas as regras para inclusão de artigos no relatório do IPCC. As frases exactas terão sido: "I can't see either of these papers being in the next IPCC report" (diz Jones a Mann); "Kevin [Trenberth] and I will keep them out somehow - even if we have to redefine what the peer-review literature is"). Independentemente do que foi escrito nestes emails, em registo privado, o que interessa é o que foi feito. E o que foi feito é que ambos artigos foram referidos no relatório do IPCC pelo que não existe qualquer demonstração de fraude a este respeito.

Outro argumento utilizado para demonstrar a existência de uma fraude reside na sugestão de que os dados climáticos até 1960 terão sido destruídos. Aparentemente tal conclusão derivaria de uma frase de Phil Jones, num dos emails: "I think I'll delete the file rather than send to anyone". Mais uma vez, independentemente do que possa ter sido dito no contexto de discussões acaloradas estabelecidas entre colegas, em privado, a afirmação de que os dados foram destruídos já foi formalmente negada por Phil Jones (que será agora forçado a demonstrar que assim é na comissão de inquérito). A ser verdade que os dados tivessem sido suprimidos, seria obviamente gravíssimo. Porém, os dados continuariam a existir na sua fonte. Isto é, nos institutos que produzem os dados e os enviam ao CRU pelo que seria sempre possível voltar a juntá-los para reanalisar os dados.

No seu texto, Delgado Domingos faz outras afirmações excessivamente simplistas que comprometem a lógica do raciocínio apresentado. Por exemplo, numa passagem do artigo afirma que a "verdade [do aquecimento global actual] é incompatível com o Período Quente Medieval (em que as temperaturas foram iguais ou superiores às actuais apesar de não existirem emissões de CO2eq". Esta é uma afirmação provavelmente desactualizada. A verdade é que hoje se questiona que o Período Quente Medieval tenha sido um fenómeno global. Além do mais, é óbvio que o aquecimento actual é um período de aquecimento entre vários (ninguém o nega e o relatório do IPCC tem um capítulo inteiro sobre o assunto) e que no passado o planeta já foi exposto a temperaturas superiores às actuais. O último período com temperaturas superiores às actuais pode ter sido durante o último inter-glacial que ocorreu há cerca de 125.000 anos. Também é óbvio (e mais uma vez ninguém o nega) que o CO2eq é apenas um mecanismo, entre vários, a afectar a dinâmica climática do planeta. Neste contexto, interpreta-se mal que na sequência da constatação acima referida, Delgado Domingos afirme "Esconder ou suprimir estas constatações foram objectivos centrais da fraude científica agora conhecida".

Apesar das minhas profundas discordâncias com o tom, oportunidade e conteúdo do artigo de Delgado Domingos, há alguns pontos em que ambos partilhamos de pontos de vista comuns. Estes sintetizam-se numa das últimas frases do texto "Chame-se variabilidade climática ou alteração climática, os problemas de fundo da sustentabilidade ambiental permanecem e agravam-se pelo que devem ser atacados com determinação e realismo". Eu acrescentaria que uma excessiva focalização da actividade política sobre as ameaças das alterações climáticas pode ter efeitos contraproducentes (já está a ter, nalguns casos) na sustentabilidade global dos nossos recursos biológicos. É que alguns dos remédios apresentados para mitigar as alterações do clima e permitir a nossa adaptação aos mesmos têm efeitos negativos sobre o mundo vivo e sua capacidade de persistir num mundo em acelerada mudança. Este tema foi desenvolvido num artigo que pode ser lido aqui.

PS. Continuaremos a dar informação actualizada sobre o alegado "climategate". Para esse efeito criou-se uma etiqueta no blogue "climategate" que permitirá aos leitores interessados o acesso directo a todos os artigos que foram escritos e divulgados sobre o tema. Como complemento a este artigo de opinião sugere-se a leitura dos editoriais das revistas Nature, Science, New Scientist e The Economist. Ainda que com pontos de vista nem sempre coincidentes, estes textos oferecem uma visão equilibrada e informada do tema em apreço.

O que aconteceu ao aquecimento global?

Um dos argumentos reptidos esta semana, no auge do debate sobre o caso "climategate", como prova de que as alterações climáticas globais não existem, é que o registo global de temperaturas não indicia um aumento desde 1998. Vale a pena ler o que diz a revista Science na sua edição de 2 de Outubro de 2009.

What Happened to Global Warming? Scientists Say Just Wait a Bit

Richard A. Kerr

Adaptação da revista Science de um artigo de J. KNIGHT et al., BULL. AMER. METEOR. SOC., 90 (SUPPL.), S22--S23 (AUGUST 2009)

The blogosphere has been having a field day with global warming's apparent decade-long stagnation. Negotiators are working toward an international global warming agreement to be signed in Copenhagen in December, yet there hasn't been any warming for a decade. What's the point, bloggers ask?

Climate researchers are beginning to answer back in their preferred venue, the peer-reviewed literature. The pause in warming is real enough, but it's just temporary, they argue from their analyses. A natural swing in climate to the cool side has been holding greenhouse warming back, and such swings don't last forever. "In the end, global warming will prevail," says climate scientist Gavin Schmidt of NASA's Goddard Institute for Space Studies (GISS) in New York City.
The latest response from the climate community comes in State of the Climate in 2008, a special supplement to the current (August) issue of the Bulletin of the American Meteorological Society. Climate researcher Jeff Knight and eight colleagues at the Met Office Hadley Centre in Exeter, U.K., first establish that—at least in one leading temperature record—greenhouse warming has been stopped in its tracks for the past 10 years. In the HadCRUT3 temperature record, the world warmed by 0.07°C±0.07°C from 1999 through 2008, not the 0.20°C expected by the Intergovernmental Panel on Climate Change. Corrected for the natural temperature effects of El Niño and its sister climate event La Niña, the decade's trend is a perfectly flat 0.00°C.

So contrarian bloggers are right: There's been no increase in greenhouse warming lately. That result came as no surprise to Knight and his colleagues or, for that matter, to most climate scientists. But the Hadley Centre group took the next step, using climate modeling to try to quantify how unusual a 10-year warming pause might be. In 10 modeling runs of 21st century climate totaling 700 years worth of simulation, long-term warming proceeded about as expected: 2.0°C by the end of the century. But along the way in the 700 years of simulation, about 17 separate 10-year intervals had temperature trends resembling that of the past decade—that is, more or less flat.

From this result, the group concludes that the model can reproduce natural jostlings of the climate system—perhaps a shift in heat-carrying ocean currents—that can cool the world and hold off greenhouse warming for a decade. But natural climate variability in the model has its limits. Pauses as long as 15 years are rare in the simulations, and "we expect that [real-world] warming will resume in the next few years," the Hadley Centre group writes. And that resumption could come as a bit of a jolt, says Adam Scaife of the group, as the temperature catches up with the greenhouse gases added during the pause.

Pinning the pause on natural variability makes sense to most researchers. "That goes without saying," writes climate researcher Stefan Rahmstorf of Potsdam Institute for Climate Impact Research in Germany by e-mail. "We've made [that point] several times on RealClimate," a blog. Solar physicist Judith Lean of the Naval Research Laboratory in Washington, D.C., and climate modeler David Rind of GISS reached the same conclusion in a peer-reviewed 15 August paper in Geophysical Research Letters. They broke down recent temperature variation into components attributable to greenhouse gases, pollutant aerosols, volcanic aerosols, El Niño/La Niña, and solar variability. Combined, those influences explain all of the observed variability, by Lean and Rind's accounting. But unlike the Hadley Centre's model-based analysis, this assessment attributes a good deal of climate variability to variability in solar activity. That's because most models can't translate solar variability into climate variability the way the actual climate system can (Science, 28 August, p. 1058), Rind says.

Researchers may differ about exactly what's behind recent natural climate variability, but they agree that no sort of natural variability can hold off greenhouse warming much longer. "Our prediction is that if past is prologue, the solar component will turn around and lead to rapid warming in the next 5 years," says Rind. Climate modeler David Smith of the Hadley Centre, who was not involved in the State of the Climate analysis, says his group's climate model forecasts—made much the way weather forecasts are made—are still calling for warming to resume in the next few years as ocean influences reverse (Science, 10 August 2007, p. 746). Whether that's in time to boost climate negotiations is anyone's guess.

Sábado, Dezembro 05, 2009

Intervalo no Climategate

Sexta-feira, Dezembro 04, 2009

Nações Unidas investigam Climategate

O Painel das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (IPCC) vai iniciar uma investigação própria sobre as alegações de que os dados usados no relatório do IPCC foram truncados.

Rajendra Pachauri, "chairman" do IPCC disse à radio 4 da BBC que:

''We will certainly go into the whole lot and then we will take a position on it,''.

''We certainly don't want to brush anything under the carpet. This is a serious issue and we will look into it in detail.'

Notícia completa aqui

Climategate - A opinião da Science

Já publicámos a opinião da prestigiada revista Nature e agora deixamos a opinião da não menos importante revista Science.

Stolen E-mails Turn Up Heat on Climate Change Rhetoric

Eli Kintisch

The theft and unauthorized release last month of 1000 private e-mail messages from the servers of the Climatic Research Unit (CRU) at the University of East Anglia in the United Kingdom has provided a glimpse into the fractious world of climate science. The public airing of frank conversations among powerful scientists about sensitive topics such as possible holes in their data and the use of contrarian papers in major reports comes at a pivotal time for climate science, just days before a meeting of world leaders in Copenhagen.

The messages—whether hacked or released by a disgruntled insider—have raised thorny questions about the proper behavior of researchers who feel under siege for their science. How willing should they be to share their raw data with their staunchest critics? "It's very difficult to admit that your data are not as strong as you wish it were, especially if you know that will be used against you," says Nicholas Steneck, an expert on research integrity at the University of Michigan, Ann Arbor. And yet the "circle the wagons" mentality conveyed in numerous messages could inflict lasting "damage to the public credibility of climate research," warns climate scientist Judith Curry of the Georgia Institute of Technology in Atlanta.

But openness just leads to twisted interpretations, says NASA climate researcher Gavin Schmidt. "You can't have a spelling mistake in a paper without it being evidence on the floor of the Senate that the system is corrupt," says Schmidt.

Four e-mail exchanges have received most of the media attention. The first regards a research finding considered by most scientists as a canonical fact: that the globe warmed by roughly 0.7°C in the 20th century. That fact derives in large part from global temperature data recorded by stations on land and sea, as analyzed independently by groups at East Anglia, NASA, and the U.S. National Oceanic and Atmospheric Administration.

Referring to requests for climate data from critics, CRU Director Phil Jones wrote in 2005 that "I think I'll delete the file rather than send to anyone." In May 2009, Jones told Michael Mann of Pennsylvania State University, University Park, to "delete any emails" to a colleague about their work on the Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) report and to ask a third colleague to do the same. (Mann says he conveyed the message but deleted no messages himself.) Through a spokesperson, Jones declined an interview request. But in a statement he said that "no record" has been deleted amid a bombardment of "Freedom of Information requests." CRU acknowledged in August that it deleted old data on digital tapes to make space for a move.

A second message relates to a chapter in the 2007 IPCC report that Jones edited. In 2004, he suggested that two recent papers on temperature trends didn't deserve to be published in a peer-reviewed journal. "I can't see either of these papers being in the next IPCC report," he wrote Mann. "Kevin [Trenberth] and I will keep them out somehow - even if we have to redefine what the peer-review literature is." But Trenberth, of the National Center for Atmospheric Research in Boulder, Colorado, says the papers were indeed considered. Thomas Karl, director of the National Climatic Data Center in Asheville, North Carolina, an official reviewer for the chapter, says the IPCC's peer-review procedures "were sacrosanct." Both papers wound up being cited.

A third message is viewed by critics as an acknowledgement that global warming has ceased. "The fact is that we can't account for the lack of warming at the moment and it is a travesty that we can't," wrote Trenberth in October. Contrarians have noted the lack of record new highs in global temperature since 1998 (Science, 2 October, p. 28). But Trenberth was actually bemoaning something else. "The observing system we have is inadequate for tracking energy flow through the climate system," he observed, affecting the forecasting of year-to-year climate changes.

A fourth message, about assembling a diagram for a 1999 World Meteorological Organization report, has been misinterpreted, says Trenberth (see graphic). Scientists believe proxy data such as tree rings are valuable for reconstructing past climates, but certain tree-ring data became unreliable midway through the century. So scientists used proxy data for all but the final 40 years of the millennium before switching to instrumental data in 1961. "Reasonable people," writes Stephen McIntyre, a retired industry consultant and prominent blogger, might conclude that the decision not to show the divergence of the two data sets was "simply a trick" to avoid giving fuel to skeptics.

Whatever their meaning, the messages have emboldened opponents. Some are calling for congressional hearings and, possibly, lawsuits. Penn State says that it is "looking into" the matter, and the University of East Anglia has announced an investigation into the theft and contents of the e-mails.

Scientists know they will need every bit of credibility to defend their findings from future attacks. But Curry suggests that it would be better to bring the skeptics into the fold than to keep them out. That way, she says, the critics will "quickly run out of steam and become irrelevant."

Climategate - A opinião do "New Scientist"

A revista New Scientist é provavelmente a revista de divulgação científica mais prestigiada do Reino Unido. Aqui fica a sua leitura dos acontecimentos respeitantes ao alegado "climategate".

Why there's no sign of a climate conspiracy in hacked emails

The leaking of emails and other documents from the Climate Research Unit (CRU) at the University of East Anglia, UK, has led to a media and political storm. The affair is being portrayed as a scandal that undermines the science behind climate change. It is no such thing, and here's why.

We can be 100 per cent sure the world is getting warmer
Forget about the temperature records compiled by researchers such as those whose emails were hacked. Next spring, go out into your garden or the nearby countryside and note when the leaves unfold, when flowers bloom, when migrating birds arrive and so on. Compare your findings with historical records, where available, and you'll probably find spring is coming days, even weeks earlier than a few decades ago.

You can't fake spring coming earlier, or trees growing higher up on mountains, or glaciers retreating for kilometres up valleys, or shrinking ice cover in the Arctic, or birds changing their migration times, or permafrost melting in Alaska, or the tropics expanding, or ice shelves on the Antarctic peninsula breaking up, or peak river flow occurring earlier in summer because of earlier snowmelt, or sea level rising faster and faster, or any of the thousands of similar examples.

None of these observations by themselves prove the world is warming; they could simply be regional effects, for instance. But put all the data from around the world together, and you have overwhelming evidence of a long-term warming trend.

We know greenhouse gases are the main cause of warming
There are many ways, theoretically, to warm a planet. Orbital changes might bring it closer to its star. The star itself might brighten. The planet's reflectivity – albedo – can change if white ice is replaced by darker vegetation or water. Changes in composition of the atmosphere can trap more heat, and so on.

It could even be that Earth isn't really warming overall, just that there has been a transfer of heat from the oceans to the atmosphere.

Researchers have to look at all of these factors. And they have. Direct measurements since the 1970s make it certain, for instance, that neither the sun's fluctuating brightness nor changes in the number of cosmic rays hitting Earth are responsible for the recent warming. Similarly, direct measurements over the past century show that the oceans have warmed dramatically. The planet as a whole is getting warmer.

That leaves the rising levels of greenhouse gases in Earth's atmosphere – which have been directly measured – as the main suspects. Working out how these changes should affect the planet's temperature in theory is extremely complicated. The only way to do it is to plug all the detailed physics into computers – create computer models, in other words. The results show that the only factor that produces anything like the temperature rise seen is the observed increase in greenhouse gases.

How do we know the models aren't wrong? From studies of past climate. To take one example, ice cores drilled from the Antarctic ice-sheet show a surprisingly close correlation between greenhouse gas levels and temperature over the past 800,000 years.

During this time, greenhouse gases have never risen as high or as fast as they are now. That means there is still a lot of uncertainty about the extent of future warming – estimates of the effect of doubling CO2, including all feedback processes, range from 2°C to 6°C. But the big picture is clear.

Is it possible that tens of thousands of scientists have got it wrong? It is incredibly unlikely. The evidence that CO2 levels are rising is irrefutable, and the idea that rising levels lead to warming has withstood more than a century of genuine scientific scepticism.

So why are scientists "fixing" the temperature data?
Some of the contents of the hacked email material, such as the "Harry_read_me.txt" file, might appear shocking, with its talk of manipulation and "tricks". But raw data almost always has to be "fixed".

For example, suppose you and your neighbour keep a record of the temperature where you live, and decide to combine your records to create an "official" record for your locality. When you compare records, however, you're surprised to find they are very different.

There are many reasons why this might be so. One or other thermometer might be faulty. Perhaps you placed your thermometer in an inherently warmer place, or where it was sometimes in direct sunshine, or took measurements at a different time of day, and so on. To combine the two records in any meaningful way, you'll need to adjust the raw data to account for any such factors.

Not doing so would be pretty dumb. Where possible, scientists should always look at their data in the context of other, comparable data. Such scrutiny can often reveal problems in the way one or other set of data was acquired, meaning it needs adjusting or discarding. Some apparent problems with the predictions of climate models, for example, have actually turned out to be due to problems with real-world data caused by the failure to correct for factors such as the gradual changes in orbits of satellites.

The tricky question is where to draw the line. There is a continuum from corrections based on known problems (essential), to adjustments based on probable errors in the data (good practice as long as all assumptions are made clear), to adjustments done solely to make the data fit a hypothesis (distinctly dodgy).

It remains to seen if any of the adjustments described in the hacked material fall into this last category. But the mere fact that the leaked material reveals climate researchers "fixing" data is not proof of fraud. Manipulating data is what scientists do.

But what about that "trick" to "hide the decline"?
One of the leaked emails refers the "trick" of adding the real temperatures, as recorded by thermometers, to reconstructions of past temperatures based on looking at things such as growth rings in trees.

The problem is that some sets of tree-ring data suggest temperatures start falling towards the end of the 20th century, which direct temperature measurements show was not the case. So the researchers instead replaced the reconstructed temperature data for this period with the
directly measured temperature data.

Is this an unjustified "fix"? No, because some sets of tree-ring data can be compared with the direct records of local temperature for the past century. Up until the 1960s, there is a very close correlation between the density of growth rings in trees in northern latitudes and summer temperatures, but after this it starts to break down.

We don't know why. It might be that the correlation breaks down whenever it gets too hot, in which case reconstructions of past temperature that rely heavily on tree-ring data will give a misleading picture. Or it might be due to some factor unique to the 20th century, such as changes in the timing of the snow melt, in which case it will not affect reconstructions.

The issue has not yet been resolved but there has been no attempt to conceal this or any of the many other problems with temperature reconstructions. On the contrary, the head of the Climate Research Unit at East Anglia, Phil Jones, and others whose emails were hacked, have published papers discussing it in prominent journals such as Nature.

What really matters is not how hot it is now or how hot it was a few hundred years ago, but how hot it is going to get. Campaigners have highlighted temperature reconstructions like the "hockey stick" graph because they are easy for people to understand, but in scientific terms they are not of great significance. We know the world is warming and we know that the main cause is rising CO2 levels. So with CO2 levels rising ever faster, we can be sure things are going to get a lot hotter.

But surely any attempt to block publication of sceptical scientific papers is indefensible?
Some of the leaked emails reveal the climate researchers' unhappiness with the publication of scientific papers questioning the global warming consensus, and seem to indicate a desire to remove editors at journals they perceived as being sympathetic to global warming sceptics.

This sounds horrifying to many non-scientists. But that is confusing two very different things: attempting to block publication in certain scientific journals and the suppression of information.
Scientific journals are only supposed to publish papers that meet certain scientific standards. Researchers work for years on papers and then submit them to the top journals in their field. The editors select the ones they think are most important or noteworthy, and send them to a handful of reviewers - scientists working in the same areas. Each reviewer sends back a report suggesting acceptance, rejection or revisions, and the editor decides whether to publish based on these reports. Most papers sent to leading journals get rejected.

This system of "peer review" has its critics, but is generally regarded as the least-worst system to ensure the quality of published scientific research. Researchers whose work is rejected can resubmit their papers to other, less high-profile journals. Failing that, anyone is free to publish their views on global warming online, or in books and newspapers if they can.

Respected scientists have agreed that the papers mentioned in the emails had serious scientific flaws and possibly should not have been accepted by the journals in question. If this were the case, it would raise questions about the role of the editors at those journals. It is hardly outrageous behaviour to call for the replacement of people who are, in your personal view, not doing their jobs properly.

What about apparent attempts to avoid freedom of information requests?
In some emails, Jones – who has stepped down pending a review of what went on – discusses ways not to fulfil requests made under the UK's freedom of information laws. In one, he calls on other researchers to delete certain emails. While on the face of it that does not look good, whether they broke any laws or breached any university guidelines remains to be determined.

In other cases, however, it is clear that researchers could not comply with freedom of information requests because they did not have the right to release all the data in question. There is also no doubt that climate change deniers have been using freedom of information requests to harass researchers and waste their time, with the CRU receiving more than 50 such requests in one week alone this year.

What's more, individual researchers have little to gain from giving away data and software they have spent years working on. Scientific careers depend on how many papers you publish. If you keep data to yourself, no one else can publish papers based on it before you do.

This does not mean researchers should be allowed to hold onto their data. It is undoubtedly in the public interest for there to be full disclosure of the measurements upon which climate scientists are basing their conclusions. In fact, much of it is already freely available. But the pressures climate researchers are under does help to explain why many are so reluctant to make all data public.

Clearly the leaked emails have caused disquiet in some quarters. There's no doubt there are concerns about the content of some of the emails – even when you know the way science really works – as laid out above. The Intergovernmental Panel on Climate Change and the University of East Anglia are now holding investigations to determine if anything unethical did go on. If these dispel uncertainty and restore the credibility of science, that can only be a good thing.

O insuspeito amor do Insurgente para com Estaline

O blog O Insurgente tem-se destacada na campanha negacionista em relação às alterações climáticas publicando posts atrás de posts de tudo o que sirva para explicar o climagate como sendo "e-mails comprovativos de um conluio para denegrir e apagar as posições de quem questione a actividade humana como principal causa do aquecimento global".
Ao princípio nem liguei muito (é um blog que não frequento regularmente apesar da sua base ideológica liberal, que será semelhante à minha em muitos aspectos), mas a partir de certa altura achei que era demais o desequilíbrio da transmissão da informação e comecei a fazer alguns comentários.
Um contribuinte do blog de nome Miguel de vez em quando respondia-me, cordialmente embora nunca usasse um único argumento de substância e um outro, André Azevedo Alves, do alto da sua autoridade, ia dizendo que não percebo nada de peer review.
Eu, que sei que é verdade, quis saber em concreto o que é que o demonstrava no que eu tinha escrito. Mas as pessoas importantes não descem à trivialidade dos argumentos e portanto limitou-se a, várias vezes, repetir que eu não percebia nada de peer review (o que sendo verdade nem sequer percebi o que tinha de tão essencial para imeditamente desqualificar o que quer que eu dissesse sobre o climagate).
Quando publicaram um post que no seu título dizia que Phil Jones se tinha afastado mas no corpo insinuava que tinha sido suspenso (ao que André esperava que se seguisse a demissão) achei que era desonestidade intelectual a mais e disse-o nos comentários.
Nada se passou, continuando eu a dizer o que me apeteceu até que num outro post linquei o artigo da nature e do economist.
Aí o importante André disse que o meu comentário confirmava a minha má educação.
Ainda comentei dizendo que não percebia de onde vinha a acusação de má educação, mas se o senhor assim o entendia eu pedia desculpa e não repetiria a acusação de desonestidade.
Vi o comentário no blog, mas no dia seguinte não estava lá. Como sou ingénuo pensei que me tinha esquecido de carregar num botão qualquer para o publicar.
Depois comecei a reparar que eu fazia um ou outro comentário (de maneira geral a sugerir leituras alternativas à descabelada campanha do Insurgente) e fiquei a perceber que embora eu visse o comentário como se tivesse sido publicado, ele de facto não aparecia no blog.
Não tenho nada contra blogs que seleccionam o que publicam nos comentários.
Mas registo que mais um blog campeão do negacionismo nega aos outros a possibilidade de apresentar pontos de vista alternativos, evitando o contraditório, como faz o Mitos Climáticos. Mas o Mitos Climáticos é claro, não admite comentários.
Aqui é bastante mais subtil: a impossibilidade é disfarçada e ninguém sabe que existe.
Para quem faz tanto barulho com o climagate (que na mais desfavorável das hipóteses é exactamente um problema de manipulação de informação) não está mal.
O Insurgente segue as pisadas de Estaline.
Les beaux esprits se rencontrent.
henrique pereira dos santos

Quinta-feira, Dezembro 03, 2009

Criacionismo e "cepticismo" climático

Poderíamos mudar o texto do carro e ler:

Climate change?
Tree rings say no!
Climate change is a fairy tale for grown-ups!
Good bless America!

Conheço bem o risco que o raciocínio por analogia comporta mas esta tarde quando ouvia a cativante palestra de Janet Browne, a biógrafa mais autorizada de Charles Darwin, professora na Universidade de Harvard, não pude deixar de estabelecer algumas analogias entre o fenómeno criacionista e do cepticismo climático, ambos com forte implantação nos Estados Unidos da América.

Numa passagem da sua conferência, Janet Browne referiu o facto de, apesar de ser agnóstico, Darwin foi enterrado na Westminster Abbey de Londres, a igreja onde se enterram os heróis nacionais no Reino Unido. Por ocasião do seu enterro elogiaram-se as qualidades pessoais e profissionais de Darwin, tendo sido este apresentado como o exemplo de um bom homem e um grande cientista. Não muito tempo depois, Darwin e a sua obra foram vilipendiadas por activistas de várias Igrejas cristãs tendo este processo culminado com o aparecimento do movimento criacionista nos EUA. Este é o movimento que nega a evolução assim como toda a evidência que a suporta, proclamando, entre outras bizarrias, que os dinossauros se extinguiram na idade média.

Uma pergunta que se coloca é porque razão terá o movimento criacionista tanta pujança nos EUA quando na Europa, Darwin está longe de ser considerado um inimigo do cristianismo. Esta pergunta é importante e a sua resposta ajudará a entender um pouco o mecanismo social que conduz ao aparecimento do cepticismo climático. A forte contestação ao pensamento de Darwin surge, na realidade, porque muitos cristãos americanos vêm na teoria da evolução uma ameaça os dogmas da religião, logo às suas crenças e "modus vivendi" mais profundos. Arriscava-me a afirmar que a maioria (talvez todos) os movimentos sociais anti-ciência tiveram, ao longo da História, um principio semelhante: factos e descobertas da ciência percepcionadas socialmente como uma ameaça ao conforto e ao estabelecido tornando-se, desta forma, um alvo a abater.

As alterações climáticas e as respostas necessárias para a mitigar são um exemplo, óbvio, de um facto científico que, a comprovar-se, ameaçaria o "status quo" e o conforto de muitos de nós. Logo, não é de estranhar que, da mesma forma como o Darwinismo gerou um movimento social de larga escala contra a teoria da evolução, as alterações climáticas, vistas como uma teoria e não um facto, têm potencialidade para gerar um movimento com a potencialidade de atingir proporções semelhantes. Note-se, aliás, que são os países que mais têm a perder com a adopção das medidas de mitigação, designadamente os EUA e os países árabes produtores de petróleo, que mais se têm oposto à concepção de que o clima tem vindo a mudar devido ao impacte das actividades humanas.

No final da conferência, Jant Browne perguntou se a educação seria a solução para o problema do criacionismo nos EUA, tendo imediatamente respondido que duvidava que assim fosse. Na realidade e esta é a conclusão que chegámos numa conversa, no final da conferência, a solução passa por convencer os criacionistas que a teoria da evolução "não morde" e que os cristão de várias congregações podem continuar a ser felizes sabendo que descendemos de um ancestro comum sem que isso retire humanidade ao ser humano nem, para quem quiser pensar assim, que possa ter sido necessária intervenção divina para que aparecesse no planeta terra a matéria prima necessária para que a evolução se iniciasse. Nesta linha vai o pensamento de E.O Wilson que, aproximando-se do final da sua vida, conclui que a única forma de combater o criacionismo é estabelecendo pontes entre os biólogos evolutivos e representantes de várias igrejas. Por analogia, também é esta a visão de Judie Currie (ver também editorial da revista "The Economist") que defende a necessidade de se reforçarem plataformas de diálogo entre os estudiosos do clima e os que se têm mostrado pouco disponíveis para acreditar na bondade da sua investigação.

Washington em África



Esta manhã, fotografei à socapa uma pele de um leopardo à venda num pequeno mercado perto da casa. Fui fortemente coagido a não o fazer por um dos comerciantes, que me tomou por um dos europeus que aqui vive, certamente habitando numa bela casa, com ar condicionado e demais mordomias, bem distinta das sua barraca de lata e cartão, e sempre disposto a condenar moralmente o abate e venda daquela bicharada que a natureza oferece e que lhe põe o arroz no prato . Era uma das 14 peles de leopardo que vi e que se podem adquirir por cerca de 50 euros. Havia ainda peles de pitões e de crocodilos, ora transformadas em malas, carteiras e sapatos, ora em bruto. E marfim de elefante trabalhado. E presas de hipopótamos e de alguns outros bichos da floresta e da savana. Havia ainda um par de enormes mãos de um gorila, secas, que virão a servir de cinzeiros na casa de um tipo qualquer que tenha 20 euros para gastar e especialmente uma insensibilidade do tamanho deste mundo e do outro, porque vos garanto que é impossível ficar indiferente quando se tem nas mãos aquelas mãos, metade bicho metade homem. Há excepção deste último item – já observei, em vários países, um considerável pudor que muitos africanos têm em matar grandes primatas – tudo isto está exposto para venda, sem qualquer receio de supostas autoridades.

Este pequeno mercado situa-se no centro da capital do Djibuti, um pequeno país no Corno de África entalado entre países em guerra e conflitos internos. A norte, a Eritreia e a Etiópia em guerra, a sul, a Somália com enormes conflitos étnicos. A “independência” deste país, com pouco mais que 30 anos de existência, depende completamente das ajudas financeiras e de apoios militares internacionais. Boa parte, dos fundos que angaria resultam ainda de fretes e taxas que cobra à Etiópia que, após a independência da Eritreia, perdeu a sua costa e apenas consegue aceder a bens que chegam via marítima pelo porto do Djibuti. Recentemente a Eritreia invadiu o norte do Djibouti. A segurança é garantida por tropas francesas e americanas. Não há trabalho nem recursos naturais que pareçam permitar mais do que a miséria e a fome à enorme maioria dos 800.000 habitantes locais.

Mas este mercado podia ser num outro país africano qualquer, com elevados níveis de fome, de pobreza e de miséria, de desigualdades sociais, de corrupção, de conflitos, como boa parte dos países africanos. A maioria daquelas espécies não existem no Djibuti, mas as suas peles, presas e partes diversas circulam com toda a facilidade um pouco por toda a África e é esta a realidade da Convenção de Washington (CITES) no terceiro mundo, onde vivem grande parte das espécies que esta convenção procura proteger. Muitos africanos ricos e bastantes europeus e americanos compram estas animais, transformados em objectos de adorno. Para os locais, o controlo é nulo, para os outros, é possível que vejam os seus bens confiscados à entrada da Europa ou dos Estados Unidos. O facto de ser tão comum ver produtos deste tipo à venda demonstra que, neste cenário de pobreza extrema e de impunidade total, há mercado para tudo isto e que leis feitas por países ricos para países pobres, sem considerar a realidade local, estão condenadas ao fracasso.

Mesmo numa África em paz, dificilmente me convenço que a conservação da natureza não passará forçosamente pela valorização económica das suas paisagens, flora e fauna, por exemplo, através do turismo de natureza nas suas múltiplas vertentes e de actividades cinegéticas devidamente ordenadas. Mais a sul, na África do Sul, Quénia e Tanzânia há bons exemplos disso mesmo.

Gonçalo Rosa

Lobos e eólicos


A primeira vez que tomei contacto com a discussão sobre lobos e eólicas foi por volta de 1996 ou, mais provavelmente, 1997, numa informação em que o Zé Nascimento defendia, entre vários outros fundamentos, uma relação negativa do parque eólico com a conservação do Lobo, levando a um parecer negativo a um parque eólico (penso que seria de um ou dois aerogeradores, pouco mais) no Marão ou no Alvão.
O contexto do parecer não foi, tanto quanto penso, correctamente apreendido pela estrutura técnica do ICNB, mas a então Presidente (Teresa Andresen) é uma pessoa inteligente e preocupou-se em definir o posicionamento do ICNB em relação a uma matéria que sabia que viria em força no futuro, apoiada em razões ambientais. Na realidade quis evitar um isolamento do ICNB que lhe retirasse capacidade de influência suficiente para salvaguardar o essencial, mesmo que à custa de algumas cedências acessórias.
O essencial desse posicionamento procurava evitar opiniões excessivamente ideológicas e procurava ter um posicionamento de colaboração com os outros interessados na matéria, sem ceder no que tivesse que se chumbar. O que implicaria muita solidez no fundamento dos pareceres negativos.
No caso concreto o ICNB nem sequer se tinha de pronunciar legalmente, pelo que qualquer posição de força teria de ser absolutamente inquestionável tecnicamente, e não baseada em dúvidas mais ou menos legítimas e geradoras de uma interpretação do princípio da precaução demasiado extensa.
Eu tive de me pronunciar sobre esse parecer e o que verifiquei é que a grande maioria da fundamentação do parecer era muito frágil e quase sempre sustentada em indícios passiveis de interpretações mais que discutiveis.
Lembro-me de ter feito um despacho que questionava essa fundamentação, também em relação aos lobos, perguntando se se previa que batessem com a cabeça nas pás (não terei dito exactamente assim, mas a ideia era essa).
Isso deu origem a várias conversas com o Zé Nascimento e a minha conclusão foi a de que o Zé não tinha razão na fundamentação (ou pelo menos não era claro, é muito frequente os pareceres de conservação, na ânsia de carrearem o máximo de argumentos para sustentar as suas posições, se esquecerem de distinguir o essencial do acessório) mas tinha razão na necessidade de avaliar melhor a relação entre os lobos e os parques eólicos, do ponto de vista do seu impacto na conservação.
Algum tempo depois saí do cargo em que estava e puseram-me numa pequena estrutura técnica isolada do grosso dos funcionários da área protegida ao cujos quadros eu pertencia, a trabalhar numa escola primária isolada, de uma aldeia isolada basicamente sem me darem grande coisa para fazer.
Devo dizer que foi um tempo muito agradável, em que tinha horário contínuo por causa dos miúdos, chegava a casa relativamente cedo e gastava a meia hora de almoço a ir ao café na outra ponta da aldeia (vi agora no google que seriam cerca de 600 a 700 metros para cada lado), numa estrada sem movimento de uma aldeia quase sem gente a essa hora, a pé e sozinho (duas coisas de que sempre gostei) para beber um galão e voltar para trás, depois de dar uma vista de olhos no Correio da Manhã dos dias anteriores.
Aproveitei o tempo em que o Estado me pagava para, se eu quisesse, não fazer nada para estudar meia dúzia de coisas, para fazer uma avaliação exaustiva da forma como a participação pública era tratada nos diplomas de conservação (incluindo todos os diplomas das áreas protegidas desde a sua fundação) e respectiva evolução e quando me deram o relatório de actividades para fazer (obrigatório por lei, com um processo de elaboração que obriga à participação dos principais stakeholders mas a que ninguém liga) eu resolvi fazê-lo de acordo com a lei, incluindo indicadores de desempenho em função dos objectivos da área protegida descritos no seu diploma de criação.
Foi aí que me comecei a interessar mais pelo fogo, quando comecei a procurar estabelecer uma relação entre os recursos alocados a cada actividade e o respectivo contributo para os objectivos da área protegida e concluí que era uma barbaridade o desequilíbrio entre recursos alocados aos fogos e resultados de conservação obtidos (uma barbaridade relativa, porque comparada com a barbaridade do investimento em obras e respectivo retorno em objectivos cumpridos da área protegida a questão dos fogos era, apesar de tudo, muito limitada).
Por causa do meu envolvimento anterior com os parques eólicos um dia pedem-me um parecer para um parque eólico na serra dos Candeeiros. Lá fiz o parecer (naturalmente com o apoio das pessoas da área, que nessa altura tinha a melhor equipa de vigilantes de todas as áreas protegidas, com conhecimentos técnicos muito acima do exigível e a que o Estado nunca ligou nenhuma), pesei todas as incertezas, falei de uma data de condicionantes e de medidas de minimização, áreas a não afectar e por aí fora, mas o parecer era positivo.
Algum tempo depois veio o despacho do então Presidente do ICNB, recusando liminarmente o parque eólico porque se entendia que os parques eólicos eram incompatíveis com o estatuto de área protegida (fiquei tão divertido com o que antevi que o futuro iria trazer que devo ter por aí uma cópia desse despacho). A questão era simples: a Presidência anterior tinha sido fortemente criticada pela sua suposta cedência aos interesses do lobbie das eólicas e o então Presidente (Carlos Guerra), como aliás o então Ministro (José Sócrates) quiseram deixar claro que parques eólicos em áreas protegidas, nem pensar. Com a fundamentação que referi.
Como o tempo se encarrega de cobrir o chão de verde manto que já coberto foi de neve fria o contexto da energia eólica mudou, como toda a gente sabe (e já então era previsível).
E o contexto da minha actividade profissional também.
Por isso, anos mais tarde, tenho a responsabilidade final de concordar ou não com os pareceres dos meus colegas sobre parques eólicos na zona de Montemuro. Diga-se, para contextualizar, que já tinham sido aprovados alguns parques eólicos para a região, pelos mesmo duros que anteriormente não tinham dúvidas sobre os seus impactos, sem que houvesse para esses parques eólicos qualquer responsabilidade assacada na conservação dos lobos do Sul do Douro (nem, diga-se de passagem, em relação a nada de relevante em matéria de conservação).
Nessa altura tive uma das mais duras discussões sobre impactos e sobre parques eólicos.
O então Ministro tinha abandonado a sua anterior posição sobre as cautelas a ter em relação aos parques eólicos em áreas naturais e agora tinha muita dificuldade em admitir que quem quer fosse levantasse qualquer dúvida sobre a bondade de pôr parques eólicos em qualquer lado o mais rapidamente possível.
E os dirigentes de topo do Ministério, atentos, venerandos e obrigados, perfilhavam caninamente esta orientação política e, como é próprio dos followers, eram mais papistas que o papa (no que eram ajudados pelo terror que o desagrado do senhor ministro inspirava à maioria dos funcionários).
A minha unidade orgânica (depois de muitas discussões internas no ICNB, entre quem queria posições mais radicais e posições mais contemporizadoras) levantou problemas, fundamentou-os na lei (a directiva habitats impede a aprovação de projectos com impactos negativos na conservação dos valores protegidos, excepto em condições específicas que são mais restritas para espécies prioritárias como o lobo) e propôs aprovar os projectos mas nas condições previstas na lei, o que significava a definição de medidas de compensação para os lobos.
A questão de fundo prendia-se exactamente com os caminhos e a perturbação induzida, que se considerava constituir um risco face ao estado muito desfavorável de conservação daquelas populações de lobo. E de acordo com a directiva, o risco deve ser tratado como um facto.
Obviamente com o apoio de vários dos meus colegas no ICNB e de unidades orgânicas diferentes da minha, cabia-me a mim dar a cara quando, como se verificou, as outras entidades todas, incluindo a Agência Portuguesa do Ambiente (e suas antecessoras, que os nomes vão mudando mas não a essência) e a tutela política (quer do ambiente, quer da economia) contestaram de todas as maneiras a posição do ICNB.
Fui portanto eu que fui defender que havia risco de afectação significativa da população de lobo em causa, fui eu que expliquei que havendo risco a lei só nos permitia aprovar os parques eólicos em determinadas circunstâncias e, dentro dessas circunstâncias, com medidas compensatórias.
E fui também eu que não só defini, como defendi, as medidas compensatórias a adoptar.
Não foi uma discussão interna fácil, porque implica a discussão sobre as ameaças que actuam sobre esta população de lobos (ver aqui que não é uma discussão fechada) e, mais que isso, implica definir o que realmente pode ser feito e que pode ser da responsabilidade dos promotores (a definição de medidas compensatórias que são da responsabilidade de terceiros, como o Estado, por exemplo, a criação de áreas protegidas e outras decisões administrativas, é uma fraude).
Mesmo depois de se admitir que a falta de disponibilidade alimentar é o primeiro dos problemas que enfrenta esta população de lobo (o que não é consensual), a definição de medidas de resposta continua a ser difícil, até por puro preconceito ideológico de algumas pessoas que acham que a única solução é favorecer as presas selvagens porque não é ético favorecer a existência de presas domésticas.
Acontece que nas condições de Montemuro (e regiões envolventes) não é fácil ter resultados num prazo curto na expansão das populações de presas selvagens.
Os promotores (devo dizer que praticamente todos os problemas que tive na avaliação de impacte ambiental, quer aprovasse, quer chumbasse processos, foram-me criados pela administração, e raramente, se alguma vez, pelos promotores) pretendiam substituir-se ao Estado no pagamento das indeminizações pelos prejuízos do lobo, o que foi recusao porque essa seria uma medida de financiamento do Estado e não compensava coisa nenhuma (a obrigação do Estado existe, portanto a medida não era adicional face à situação de referência), pretendiam entregar dinheiro para que o ICNB fizesse o que quisesse (o que foi recusado porque se perde o vínculo de responsabilidade entre o promotor e a efectiva execução da medida) e por aí fora.
Acabámos por nos fixar na mais exótica das medidas compensatórias que alguma vez aprovámos: os promotores teriam de criar um rebanho de pequenos ruminantes de dimensão resultante da multiplicação de duas cabras por megawatt instalado, pagando do seu bolso a substituição dos animais mortos pelo lobo.
Penso que nunca me vi rodeado de tanta chacota por uma decisão técnica, com a perfeita consciência do isolamento em que estava, quer do resto da administração que nos tratava como tontinhos, quer dos promotores que estavam aterrados perante a perspectiva de passarem a ter de guardar ovelhas, quer por um grupo alargado de conservacionistas que não concordavam com a ideia e preferiam que se fizessem campanhas de educação ambiental, estudos e essas coisas do costume.
A intransigência face a três princípios básicos (a responsabilidade dos promotores pela execução, a necessidade de medidas efectivas que respondessem à falta de disponibilidade alimentar e a recusa de que as medidas compensatórias se traduzissem em dinheiro a entrar no ICNB) mas a total flexibilidade quanto à forma de respeitar estes princípios acabou por conduzir a uma solução proposta pelos promotores, que pode ser vista aqui.
Trata-se de um fundo fortemente orientado para medidas concrtas de gestão de habitat e de disponibilidade alimentar, em que o ICNB impôs limites estreitos para o gasto em educação ambiental e estudos (o fundo pretende conservar os lobos e não os conservadores do lobo) e que vai fazendo o seu caminho.
Portanto, respondendo à pergunta que me fizeram sobre a minha perspectiva quanto aos impactos do parques eólicos nas populações de lobo, direi que há risco da perturbação constituir uma ameaça adicional a populações muito fragilizadas por outras razões, mas que a actuação sobre essas razões de fundo permite compensar largamente o eventual efeito negativo da perturbação induzida (e que as medidas de minimização devem procurar reduzir seriamente).
O impacto dos parques eólicos sobre as populações de lobo é um assunto sério (so long, Zé, tinhas razão e fico mais descansado por ter tido tempo para to dizer) mas tenho as maiores dúvidas de que esteja a ser equilibradamente tratado, quer do lado da administração, quer do lado dos conservacionistas.
Do lado dos promotores penso que tem havido mais razoabilidade (com excepções, bem entendido).
henrique pereira dos santos

Quarta-feira, Dezembro 02, 2009

Literatura céptica? Ou simples manipulação?

Um dos comentaristas anónimos deste blogue ofereceu, como comentário a este "post", uma lista de 450 artigos sujeitos a arbitragem científica alegadamente escritos pelos cépticos climáticos. Como se diz na página referida estes seriam "450 Peer-Reviewed Papers Supporting Skepticism of AGW caused Global Warming". A lista despertou-me interesse por várias razões das quais se destacam o elevado número de artigos e a qualidade de algumas das revistas incluídas na lista.

Qual não é o meu espanto, no entanto, quando ao discorrer sobre a lista encontro um artigo da minha autoria!!

O artigo, de facto, faz uma crítica ao tratamento mediático recebido por um artigo na revista Nature e que nos pareceu equívoco. Acontece que a crítica aberta e frontal é normal e saudável em ciência mas isso não nos qualifica automaticamente como "cépticos climáticos", ou melhor dizer, "negacionistas" (cépticos somos todos).

Também é curioso que o artigo que poderia ter sido vagamente interpretado com céptico, porque critica a metodología do artigo da Nature referido anteriormente, passou ao lado, tendo os autores da compilação de 450 artigos cépticos escolhido um artigo que não critica a base científica do artigo da Nature mas sim o tratamento mediático que este recebeu na imprensa.

Alguns dos chamados cépticos climáticos são profissionais da blogosfera. Como tal, devem intuir que neste meio pouca gente lê textos grandes e difíceis. É, pois, possível que consideram ser eficaz inundar a internet de "links" e listas de artigos que ninguém lerá mas que darão a impressão de que por detrás do "negacionismo" existe uma base científica sólida. Nesta ocasião tiveram azar pois ao incluir um artigo meu na lista dos 450 artigos cépticos deixam antever a possibilidade de que realmente não lêem o que divulgam ou lêem mas não entendem o seu verdadeiro alcance.

Climategate - Opinião do "The Economist"

Longe de ser considerada uma revista verde, "The Economist" é possivelmente a revista liberal mais respeitada a nível internacional. Este excelente artigo, na sua secção de ciência e tecnologia, é equidistante e equilibrado. Uma atempada análise do que está em jogo.

Mail-strom
Nov 26th 2009
From The Economist print edition

Leaked e-mails do not show climate scientists at their best
IS GLOBAL warming a trick? That is what some saw in a huge batch of e-mails and documents taken from the servers of the Climate Research Unit (CRU) at the University of East Anglia, in England, and put up anonymously on the web. The result has been a field day for those sceptical of the idea of man-made climate change, who have combed through them, pouncing and pronouncing on snippets that seem to show scientific malfeasance.

The CRU specialises in studies of climates past. For parts of the past where there were no thermometers to consult, such studies use proxy data, such as tree rings. Reconstructions based on these tend to show that the planet’s temperature has risen over the 20th century to heights unprecedented for centuries and perhaps millennia. They are far from the only evidence for believing in climate change as a man-made problem, but they are important, and the sharp uptick they show has taken on iconic value. A tree-ring reconstruction known as the “hockey stick”, which shows unprecedented 20th-century warming, has been a particular target of criticism by sceptics. It was published in 1998 by Michael Mann (then at Yale, now at Pennsylvania State University) and his colleagues, and featured prominently in the 2001 report of the Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC).

Hence the eagerness with which bloggers fell on one of the stolen e-mails, sent in 1999 by Phil Jones, the CRU’s director: “I’ve just completed Mike’s Nature trick of adding in the real temps to each series for the last 20 years (ie from 1981 onwards) and from 1961 for Keith’s to hide the decline.” Trickery associated with Dr Mann was catnip to the sceptics. But Dr Jones has clarified that “The word trick was used here colloquially as in a clever thing to do. It is ludicrous to suggest that it refers to anything untoward.” The “hiding” concerned the decision to leave out a set of tree-ring-growth data that had stopped reflecting local temperature changes. That alteration in growth pattern is strange, and unexplained, but eliminating it is not sinister.

Another e-mail seen as shocking was from Kevin Trenberth of America’s National Centre for Atmospheric Research, in Colorado: “Where the heck is global warming? We are asking that here in Boulder where we have broken records the past two days for the coldest days on record.” But to take this as evidence that Dr Trenberth questions global warming seems foolish. He does not mean that a comparative lack of warming over the past decade shows greenhouse warming has stopped. He knows that the climate has natural ups and downs imposed on such trends, and that cold snaps happen. He is expressing frustration that the monitoring needed to understand how these variations work is not as good as it could be.

There is nothing in the e-mails so far to suggest that the authors do not believe in man-made global warming and are making the whole thing up, as some have been claiming. A more serious concern is that they believe in global warming too much, and that their commitment to the cause leads them to tolerate poor scientific practice, to close themselves off from criticism, and to deny reasonable requests for data.

More heat than light
Some e-mails suggest the criticisms made by sceptics outside academic climate science may have had more support within it than might be expected. Comments on the tree-ring section of the IPCC’s latest report by John Mitchell, director of climate science at Britain’s Met Office, raise issues very like those highlighted by perhaps the most prominent critic of the hockey stick, Steve McIntyre, who runs a blog called Climate Audit. An e-mail apparently from Dr Mann refers to an aspect of some statistical testing he did not want discussed widely as “dirty laundry”. Those worried that undue weight is being put on data from the tree rings of a dozen larches on the Yamal peninsula in Siberia, a topic that exercises Mr McIntyre, will be interested to see that some climate scientists shared some of their worries.

None of this is evidence of fraud. Looked at broadly, the e-mails seem to show a pretty workaday picture of scientists, with frustrations and sloppinesses, disagreements, opponents badmouthed, and cultural differences bridged (for example, explaining to an American colleague not just why a particular person is a prat, but what a prat is in the first place). Some of the e-mails may, looked at in a context not currently available (those posted were a selection), add weight to previous criticisms by Mr McIntyre and others. But that, in itself, is not dramatic. Many of these issues were aired in the most recent IPCC report, though not particularly thoroughly. And the idea of anthropogenic climate change rests on a great deal more than just tree-ring records, useful as they are for providing context to the current warming.

A spate of recent claims of global cooling, for example, rely on comparing 1998, the second-hottest year in the modern record (going to 1880), with 2008, which was relatively cooler. Yet, according to the Goddard Institute for Space Studies, a part of NASA, America’s space agency, 2008 was the ninth-hottest year on record. 2009 is shaping up to be the sixth-hottest. All of the ten hottest years recorded have come since 1997. And retreating Arctic sea ice provides even more visible data to support conclusions of warming.

More worrying than anything revealed about the scientific and other views of the people involved is the sense that legitimate attempts at ensuring transparency are being thwarted. Perhaps the most damaging exchange follows a request made by Dave Holland, a British sceptic, to see CRU e-mails under Britain’s Freedom of Information Act. (The CRU is publicly funded, and therefore subject to the act.) Caspar Amman, one of Dr Trenberth’s colleagues at the National Centre for Atmospheric Research, wrote of the request: “Oh MAN! When will this crap ever end??” Then Dr Jones wrote to Dr Mann: “Mike, can you delete any e-mails you may have with Keith [Briffa] re AR4? Keith will do likewise.”“AR4” refers to one of the IPCC’s reports. Dr Mann says he never deleted any e-mails. Gavin Schmidt, a scientist at NASA and the keeper of realclimate.org, an anti-sceptic blog, wrote that that e-mail was very ill-advised. Dr Jones did not answer a request for comment.

Dr Mann rebuts allegations of data-hoarding. Ten-year-old data protocols did not require keeping every scrap of data and calculation. Referring to his hockey-stick paper, he says: “If we knew then the type of scrutiny that would be applied to this work, we’d have made every scrap of data available.” Now, he says, climate scientists release not only all their data but also the proprietary algorithms they write to crunch the data. Not that he thinks it will help: “They’re not looking to reproduce your analysis, in many cases. They’re looking to badger, and to make unpleasant for us what we love doing as scientists. It’s obvious to other graduate students and post-docs rising up: if you choose to do this, this is what you will be subject to.”

He should not expect matters to improve any time soon. In the wake of “climategate”, the Competitive Enterprise Institute, a right-wing think-tank in Washington, DC, announced that it intended to sue NASA for not providing climate data and other materials requested under America’s Freedom of Information Act.

Many who accept that mankind is changing the climate disagree on how much and how quickly things will change—projections into the future rely on models whose feedback loops are constantly being refined, and which are the source of much debate. Other observers have written that the focus on carbon dioxide above all else has been misplaced, since quick wins are available in other areas like cutting methane emissions or black carbon soot.

Sadly, discussing these things rationally in public is hard. As Judith Curry, a climatologist at the Georgia Institute of Technology, observes, attacks on climate scientists, sometimes paid for by carbon-emitting industries when global warming first became a public issue, have made many researchers in the field nervous and defensive. This does not excuse attempts to resist transparency, but does help explain them. Though such attacks have become rarer, there is now little presumption of good faith between global warming believers and sceptics, even independent ones, as an episode like this illustrates. Little wonder that the scientists are looking tribal and jumpy, and that sceptics have leapt so eagerly on such tiny scraps as proof of a conspiracy.

Climategate - Editorial da revista Nature

Dada a importância e prestígio desta revista vale a pena divulgar o editorial que a revista Nature acaba de publicar sobre o alegado climategate. Como seria de esperar uma posição cautelosa, sensata mas incisiva.

Nature 462, 545 (3 December 2009) doi:10.1038/462545a; Published online 2 December 2009

Climatologists under pressure

Stolen e-mails have revealed no scientific conspiracy, but do highlight ways in which climate researchers could be better supported in the face of public scrutiny.

The e-mail archives stolen last month from the Climatic Research Unit at the University of East Anglia (UEA), UK, have been greeted by the climate-change-denialist fringe as a propaganda windfall (see page 551). To these denialists, the scientists' scathing remarks about certain controversial palaeoclimate reconstructions qualify as the proverbial 'smoking gun': proof that mainstream climate researchers have systematically conspired to suppress evidence contradicting their doctrine that humans are warming the globe.

This paranoid interpretation would be laughable were it not for the fact that obstructionist politicians in the US Senate will probably use it next year as an excuse to stiffen their opposition to the country's much needed climate bill. Nothing in the e-mails undermines the scientific case that global warming is real — or that human activities are almost certainly the cause. That case is supported by multiple, robust lines of evidence, including several that are completely independent of the climate reconstructions debated in the e-mails.

First, Earth's cryosphere is changing as one would expect in a warming climate. These changes include glacier retreat, thinning and areal reduction of Arctic sea ice, reductions in permafrost and accelerated loss of mass from the Greenland and Antarctic ice sheets. Second, the global sea level is rising. The rise is caused in part by water pouring in from melting glaciers and ice sheets, but also by thermal expansion as the oceans warm. Third, decades of biological data on blooming dates and the like suggest that spring is arriving earlier each year.

Denialists often maintain that these changes are just a symptom of natural climate variability. But when climate modellers test this assertion by running their simulations with greenhouse gases such as carbon dioxide held fixed, the results bear little resemblance to the observed warming. The strong implication is that increased greenhouse-gas emissions have played an important part in recent warming, meaning that curbing the world's voracious appetite for carbon is essential (see pages 568 and 570).

Mail trail
A fair reading of the e-mails reveals nothing to support the denialists' conspiracy theories. In one of the more controversial exchanges, UEA scientists sharply criticized the quality of two papers that question the uniqueness of recent global warming (S. McIntyre and R. McKitrick Energy Environ. 14, 751–771; 2003 and W. Soon and S. Baliunas Clim. Res. 23, 89–110; 2003) and vowed to keep at least the first paper out of the upcoming Fourth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC). Whatever the e-mail authors may have said to one another in (supposed) privacy, however, what matters is how they acted. And the fact is that, in the end, neither they nor the IPCC suppressed anything: when the assessment report was published in 2007 it referenced and discussed both papers.

If there are benefits to the e-mail theft, one is to highlight yet again the harassment that denialists inflict on some climate-change researchers, often in the form of endless, time-consuming demands for information under the US and UK Freedom of Information Acts. Governments and institutions need to provide tangible assistance for researchers facing such a burden.

The e-mail theft also highlights how difficult it can be for climate researchers to follow the canons of scientific openness, which require them to make public the data on which they base their conclusions. This is best done via open online archives, such as the ones maintained by the IPCC (http://www.ipcc-data.org/) and the US National Climatic Data Center (http://www.ncdc.noaa.gov/oa/ncdc.html).

Tricky business
But for much crucial information the reality is very different. Researchers are barred from publicly releasing meteorological data from many countries owing to contractual restrictions. Moreover, in countries such as Germany, France and the United Kingdom, the national meteorological services will provide data sets only when researchers specifically request them, and only after a significant delay. The lack of standard formats can also make it hard to compare and integrate data from different sources. Every aspect of this situation needs to change: if the current episode does not spur meteorological services to improve researchers' ease of access, governments should force them to do so.

The stolen e-mails have prompted queries about whether Nature will investigate some of the researchers' own papers. One e-mail talked of displaying the data using a 'trick' — slang for a clever (and legitimate) technique, but a word that denialists have used to accuse the researchers of fabricating their results. It is Nature's policy to investigate such matters if there are substantive reasons for concern, but nothing we have seen so far in the e-mails qualifies.

The UEA responded too slowly to the eruption of coverage in the media, but deserves credit for now being publicly supportive of the integrity of its scientists while also holding an independent investigation of its researchers' compliance with Britain's freedom of information requirements (see http://go.nature.com/zRBXRP).

In the end, what the UEA e-mails really show is that scientists are human beings — and that unrelenting opposition to their work can goad them to the limits of tolerance, and tempt them to act in ways that undermine scientific values. Yet it is precisely in such circumstances that researchers should strive to act and communicate professionally, and make their data and methods available to others, lest they provide their worst critics with ammunition. After all, the pressures the UEA e-mailers experienced may be nothing compared with what will emerge as the United States debates a climate bill next year, and denialists use every means at their disposal to undermine trust in scientists and science.

Detalhes



"A alteração dos contratos entretanto realizada define que a remuneração das concessionárias, que até agora dependia do volume de tráfego através do pagamento de "portagens virtuais, passa a ser feito em sede de pagamentos por disponibilidade".
Este pequeno parágrafo é de uma das notícias de hoje do Público sobre as concessões de estradas.
E é um parágrafo que deveria motivar uma fortíssima reacção do movimento ambientalista.
Sob a capa de uma mera minudência contratual está a nudez crua da transferência do risco de baixo tráfego dos concessionários para o Estado.
A partir do momento em que esta alteração contratual entrar em vigor, o Estado passa a ter interesse directo em não diminuir o tráfego automóvel nas estradas concessionadas.
Quando entrei na lista de discussão Ambio, vai para mais de dez anos (acho eu) entrei discutindo com dirigentes ambientais de topo (Joanaz de Melo e Palmeirim) o fundamento da decisão de colocar a ponte Vasco da Gama onde está, em vez de ter sido adoptada a alternativa Chelas-Barreiro.
Se não distorço a discussão da altura, os dirigentes do movimento ambientalista, como é muito vulgar, justificavam a decisão com teorias da conspiração e interesses ocultos que teriam prevalecido e eu dizia que era melhor olhar para a necessidade de controlar o défice e para a forma como as parcerias publico-privadas permitiam fazer obra sem pesar no défice actual (a ponte actual fazia-se mais facilmente que a do Barreiro, que se pretendia que tivesse comboios que complicavam a arquitectura financeira em project finance).
Depois disso tive alguma formação (elementar) em parceiras publico privadas e fiquei ainda mais convencido do que então defendia.
Infelizmente o movimento ambientalista continua a preferir teorias de conspiração ao estudo sobre o fundamento das decisões em políticas públicas.
Penso que só isso justifica que não reaja a decisões que implicam que o Estado passe de uma posição de indiferença face ao volume de tráfego automóvel nas estradas concessionadas (se fosse baixo, esse era problema do concessionário) para directamente interessado no aumento desse tráfego (ao pagar por disponibilidade de serviço, ou seja, uma renda fixa independente do tráfego, mas recolher o valor das portagens, por enquanto fala-se apenasem portagens virtuais, mas veremos mais para a frente se não passam a reais, quanto maior fôr o tráfego mais ganha o Estado).
À medida que défice e o endividamento for apertando veremos como a vontade do Estado transferir trânsito fortemente emissor de poluentes (como é o do transporte individual automóvel) para trânsito mais sustentável (transporte públicos por ferrovia e por rio e mar) se vai esvaindo.
henrique pereira dos santos

Terça-feira, Dezembro 01, 2009

Cimategate - A defesa dos visados III

Outro documento informativo da parte dos visados que foi retirado do blogue realclimate. Se seguirem o link poderão ver que ao contrário de alguns blogues cépticos estes autores permitem e lidam com comentários na ordem dos milhares. É uma diferença de posicionamento que deve ser ponderada na hora de dar crédito a uns e outros.

The CRU hack: Context

Filed under: Climate Science— gavin @ 23 November 2009

This is a continuation of the last thread which is getting a little unwieldy. The emails cover a 13 year period in which many things happened, and very few people are up to speed on some of the long-buried issues. So to save some time, I’ve pulled a few bits out of the comment thread that shed some light on some of the context which is missing in some of the discussion of various emails.

Trenberth: You need to read his recent paper on quantifying the current changes in the Earth’s energy budget to realise why he is concerned about our inability currently to track small year-to-year variations in the radiative fluxes.

Wigley: The concern with sea surface temperatures in the 1940s stems from the paper by Thompson et al (2007) which identified a spurious discontinuity in ocean temperatures. The impact of this has not yet been fully corrected for in the HadSST data set, but people still want to assess what impact it might have on any work that used the original data.

Climate Research and peer-review: You should read about the issues from the editors (Claire Goodess, Hans von Storch) who resigned because of a breakdown of the peer review process at that journal, that came to light with the particularly egregious (and well-publicised) paper by Soon and Baliunas (2003). The publisher’s assessment is here.

Update: Pulling out some of the common points being raised in the comments.

HARRY_read_me.txt. This is a 4 year-long work log of Ian (Harry) Harris who was working to upgrade the documentation, metadata and databases associated with the legacy CRU TS 2.1 product, which is not the same as the HadCRUT data (see Mitchell and Jones, 2003 for details). The CSU TS 3.0 is available now (via ClimateExplorer for instance), and so presumably the database problems got fixed. Anyone who has ever worked on constructing a database from dozens of individual, sometimes contradictory and inconsistently formatted datasets will share his evident frustration with how tedious that can be.
“Redefine the peer-reviewed literature!” . Nobody actually gets to do that, and both papers discussed in that comment – McKitrick and Michaels (2004) and Kalnay and Cai (2003) were both cited and discussed in Chapter 2 of the IPCC AR4 report. As an aside, neither has stood the test of time.
“Declines” in the MXD record. This decline was written up in Nature in 1998 where the authors suggested not using the post 1960 data. Their actual programs (in IDL script), unsurprisingly warn against using post 1960 data. Added: Note that the ‘hide the decline’ comment was made in 1999 – 10 years ago, and has no connection whatsoever to more recent instrumental records.
CRU data accessibility. From the date of the first FOI request to CRU (in 2007), it has been made abundantly clear that the main impediment to releasing the whole CRU archive is the small % of it that was given to CRU on the understanding it wouldn’t be passed on to third parties. Those restrictions are in place because of the originating organisations (the various National Met. Services) around the world and are not CRU’s to break. As of Nov 13, the response to the umpteenth FOI request for the same data met with exactly the same response. This is an unfortunate situation, and pressure should be brought to bear on the National Met Services to release CRU from that obligation. It is not however the fault of CRU. The vast majority of the data in the HadCRU records is publicly available from GHCN (v2.mean.Z).

Suggestions that FOI-related material be deleted … are ill-advised even if not carried out. What is and is not responsive and deliverable to an FOI request is however a subject that it is very appropriate to discuss.

Further update: This comment from Halldór Björnsson of the Icelandic Met. Service goes right to the heart of the accessibility issue:

Re: CRU data accessibility.

National Meteorological Services (NMSs) have different rules on data exchange. The World Meteorological Organization (WMO) organizes the exchange of “basic data”, i.e. data that are needed for weather forecasts. For details on these see WMO resolution number 40 (see http://bit.ly/8jOjX1).

This document acknowledges that WMO member states can place restrictions on the dissemination of data to third parties “for reasons such as national laws or costs of production”. These restrictions are only supposed to apply to commercial use, the research and education community is supposed to have free access to all the data.

Now, for researchers this sounds open and fine. In practice it hasn’t proved to be so.

Most NMSs also can distribute all sorts of data that are classified as “additional data and products”. Restrictions can be placed on these. These special data and products (which can range from regular weather data from a specific station to maps of rain intensity based on satellite and radar data). Many nations do place restrictions on such data (see link for additional data on above WMO-40 webpage for details).

The reasons for restricting access is often commercial, NMSs are often required by law to have substantial income from commercial sources, in other cases it can be for national security reasons, but in many cases (in my experience) the reasons simply seem to be “because we can”.

What has this got to do with CRU? The data that CRU needs for their data base comes from entities that restrict access to much of their data. And even better, since the UK has submitted an exception for additional data, some nations that otherwise would provide data without question will not provide data to the UK. I know this from experience, since my nation (Iceland) did send in such conditions and for years I had problem getting certain data from the US.

The ideal, that all data should be free and open is unfortunately not adhered to by a large portion of the meteorological community. Probably only a small portion of the CRU data is “locked” but the end effect is that all their data becomes closed. It is not their fault, and I am sure that they dislike them as much as any other researcher who has tried to get access to all data from stations in region X in country Y.

These restrictions end up by wasting resources and hurting everyone. The research community (CRU included) and the public are the victims. If you don’t like it, write to you NMSs and urge them to open all their data.

I can update (further) this if there is demand. Please let me know in the comments, which, as always, should be substantive, non-insulting and on topic.

Climategate - Defesa dos visados II

Dado que continua a campanha de desinformação a respeito deste tema considero ser oportuno, na sequência de outros posts sobre o tema aqui e aqui, divulgar no blogue ambio informação proveniente dos autores criticados. As fontes serão variadas. No caso vertente, o texto consiste no primeiro comentário sobre o tema, defendendo a perspectiva dos autores, no blogue realclimate. Como não tenho qualidades de tradutor coloco o texto na sua versão Inglesa:

The CRU hack

Filed under: Climate Science— group @ 20 November 2009

As many of you will be aware, a large number of emails from the Climate Research Unit (CRU) at the University of East Anglia webmail server were hacked recently (Despite some confusion generated by Anthony Watts, this has absolutely nothing to do with the Hadley Centre which is a completely separate institution). As people are also no doubt aware the breaking into of computers and releasing private information is illegal, and regardless of how they were obtained, posting private correspondence without permission is unethical. We therefore aren’t going to post any of the emails here. We were made aware of the existence of this archive last Tuesday morning when the hackers attempted to upload it to RealClimate, and we notified CRU of their possible security breach later that day.

Nonetheless, these emails (a presumably careful selection of (possibly edited?) correspondence dating back to 1996 and as recently as Nov 12) are being widely circulated, and therefore require some comment. Some of them involve people here (and the archive includes the first RealClimate email we ever sent out to colleagues) and include discussions we’ve had with the CRU folk on topics related to the surface temperature record and some paleo-related issues, mainly to ensure that posting were accurate.

Since emails are normally intended to be private, people writing them are, shall we say, somewhat freer in expressing themselves than they would in a public statement. For instance, we are sure it comes as no shock to know that many scientists do not hold Steve McIntyre in high regard. Nor that a large group of them thought that the Soon and Baliunas (2003), Douglass et al (2008) or McClean et al (2009) papers were not very good (to say the least) and should not have been published. These sentiments have been made abundantly clear in the literature (though possibly less bluntly).

More interesting is what is not contained in the emails. There is no evidence of any worldwide conspiracy, no mention of George Soros nefariously funding climate research, no grand plan to ‘get rid of the MWP’, no admission that global warming is a hoax, no evidence of the falsifying of data, and no ‘marching orders’ from our socialist/communist/vegetarian overlords. The truly paranoid will put this down to the hackers also being in on the plot though.

Instead, there is a peek into how scientists actually interact and the conflicts show that the community is a far cry from the monolith that is sometimes imagined. People working constructively to improve joint publications; scientists who are friendly and agree on many of the big picture issues, disagreeing at times about details and engaging in ‘robust’ discussions; Scientists expressing frustration at the misrepresentation of their work in politicized arenas and complaining when media reports get it wrong; Scientists resenting the time they have to take out of their research to deal with over-hyped nonsense. None of this should be shocking.

It’s obvious that the noise-generating components of the blogosphere will generate a lot of noise about this. but it’s important to remember that science doesn’t work because people are polite at all times. Gravity isn’t a useful theory because Newton was a nice person. QED isn’t powerful because Feynman was respectful of other people around him. Science works because different groups go about trying to find the best approximations of the truth, and are generally very competitive about that. That the same scientists can still all agree on the wording of an IPCC chapter for instance is thus even more remarkable.

No doubt, instances of cherry-picked and poorly-worded “gotcha” phrases will be pulled out of context. One example is worth mentioning quickly. Phil Jones in discussing the presentation of temperature reconstructions stated that “I’ve just completed Mike’s Nature trick of adding in the real temps to each series for the last 20 years (ie from 1981 onwards) and from 1961 for Keith’s to hide the decline.” The paper in question is the Mann, Bradley and Hughes (1998) Nature paper on the original multiproxy temperature reconstruction, and the ‘trick’ is just to plot the instrumental records along with reconstruction so that the context of the recent warming is clear. Scientists often use the term “trick” to refer to a “a good way to deal with a problem”, rather than something that is “secret”, and so there is nothing problematic in this at all. As for the ‘decline’, it is well known that Keith Briffa’s maximum latewood tree ring density proxy diverges from the temperature records after 1960 (this is more commonly known as the “divergence problem”–see e.g. the recent discussion in this paper) and has been discussed in the literature since Briffa et al in Nature in 1998 (Nature, 391, 678-682). Those authors have always recommend not using the post 1960 part of their reconstruction, and so while ‘hiding’ is probably a poor choice of words (since it is ‘hidden’ in plain sight), not using the data in the plot is completely appropriate, as is further research to understand why this happens.

The timing of this particular episode is probably not coincidental. But if cherry-picked out-of-context phrases from stolen personal emails is the only response to the weight of the scientific evidence for the human influence on climate change, then there probably isn’t much to it.

There are of course lessons to be learned. Clearly no-one would have gone to this trouble if the academic object of study was the mating habits of European butterflies. That community’s internal discussions are probably safe from the public eye. But it is important to remember that emails do seem to exist forever, and that there is always a chance that they will be inadvertently released. Most people do not act as if this is true, but they probably should.

It is tempting to point fingers and declare that people should not have been so open with their thoughts, but who amongst us would really be happy to have all of their email made public?

Let he who is without PIN cast the the first stone.

O sapateiro e o rabecão



Por causa do meu post sobre os lobos e as serras de entre Vouga e Douro, acabei por ter acesso (o documento é público e existe na APA) a um relatório de monitorização do primeiro ano dos parques eólicos da região.
Voltarei, provavelmente, à fantástica (se procurarem no dicionário, fantástico não quer dizer bom, o que não quer dizer que a reportagem não seja boa, quer apenas dizer que o que me fascina na reportagem é ser fantástica, no verdadeiro sentido da palavra) reportagem que o Público fez sobre o assunto mas hoje queria centrar-me num aspecto concreto do dito relatório.
O relatório em causa identifica como principais ameaças às alcateias da zona as seguintes:
1) Os incêndios, porque são um importante factor de degradação do habitat;
2) O aumento da rede viária, porque são um importante factor de fragmentação do habitat, de perturbação e causa directa de morte de lobos;
3) A utilização generalizada de laços.
Todas estas afirmações adequadamente suportadas em referências bibliográficas.
Conheço este elenco de ameaças e reconheço-o como razoavelmente consensual entre os principais investigadores que trabalham em Lobo.
Mas a meu ver estão completamente errados.
Reconheço a arrogância da afirmação, no sentido em que agora aparece um ignorante em matéria de lobos a dizer que os principais investigadores na matéria estão todos errados, como se os outros fossem todos tontos e só ele o inteligente.
Eu sei que a interpretação citada no parágrafo acima é plausível e por isso gostaria de explicar muito bem que o que pretendo fazer é apenas confrontar estas afirmações com duas narrativas paralelas no tempo, feitas pelos investigadores do lobo e que são contraditórias entre si.
O que não é de estranhar visto que uma delas se suporta em matérias nas quais eles não só não são especialistas, como a não estudam: a dinâmica da paisagem.
À primeira narrativa não vou dedicar muito tempo (pese embora a existência de algumas dúvidas que tenha sobre ela e que talvez trate noutro post um dia destes) limitando-me ao essencial: as populações de lobo estão em perda, pelo menos se tomarmos como referencial os últimos 100 a 150 anos, e por isso os lobos destas alcateias estão especialmente ameaçados e fragilizados.
Partindo desta narrativa, procuremos reconstituir as condições em que viviam essas populações de lobo mais ou menos abundantes (pelo menos longe do limiar de extinção em que hoje são colocadas as populações de lobos ao Sul do Douro).
Em vez de adoptarmos a lógica básica que consta da primeira das ameaças descritas (os fogos queimam, logo destroem a vegetação, logo são um factor de degradação do habitat) adoptemos uma posição um bocadinho mais exigente e vamos verificar o que está efectivamente descrito de como seria a região há 150 anos.
"Um dos tractos de terrenos mais extenso, quasi todo inculto e sem arborisação, diz o engenheiro M. C. Corrêa Paes, é a cumiada que separa parte das aguas do Paiva e do Douro...
... onde há notável falta de madeiras, e onde as lenhas se vendem por subido preço, attenta a sua grande falta.
As cumiadas e parte das encostas das serras de Sernancelhe e da Senhora-da-Lapa, completamente calvas em grande parte da sua superfície, cobrem-se de vegetação no seu prolongamento para o lado do NO., de modo que na chã de Leomil, ao descahir para a vertente septentrional da montanha, vê-se o solo não só coberto de mato, mas também de olival.
...Acima das cotas de 600 a 800 metros (serra de Montemuro) sobr o Douro escasseiam a cultura e o arvoredo; n'esta parte mais elevada da serra a vegetação é rasteira, e o granito mostra-se em muitos pontos escalvado. Na cumiada há somentes fetos, giesta, sumagre, carvalheiras, urzes e outras espécies de mato e plantas herbaceas, nas quais todavia milhares de cabeças de gado encontram no estio a sua nutrição.
...A sua arborização (de uma outra área, mais perto de Sever) tem sido tentada por alguns particulares, mas tem-a estorvado a obstinada opposição dos povos, a quem a cultura prejudicaria um pouco, roubando-lhes a regalia do usu-fructo dos matos bravios.
...Se n'este concelho principalmente, e no de Albergaria, não está hoje arborisada toda ou quase toda a superfície de terreno que não vale a pena agricultar-se, ou que o não possa ser, deve attribuir-se tão grande mal a uma prática condemnavel e a um abuso que muito carece de ser reprimido. Refiro-me às queimadas que por este tempo (mez de outubro) se fazem nestes concelhos no matos altos, com o fim de obter e melhorar as pastagens para o gado lanigero que por ali se cria."
Penso que chegam estas citações do relatório àcerca da arborização geral do país, de 1868 (e poderia acrescentar muitas outras) para se ter uma ideia do que era a paisagem e o uso desta zona há cento e cinquenta anos.
Não tenho aqui à mão, mas se se ler "Montemuro, a mais desconhecida serra de Portugal", de 1940, do meu primo Amorim Girão, poderão ter um retrato de como era esta região há quarenta anos, que confirma o essencial do descrito (como o livro não é de fácil acesso, na única vez em que estive com a Presidente da Câmara de Castro Daire ainda lhe sugeri que o reeditasse, fica uma referência para uma tese de doutoramento de fácil acesso, tendo em conta os quase setenta megas, onde se reproduzem fotografias do livro de Amorim Girão que permitem ter ideia do que era aquela paisagem de fragas e vegetação rasteira).
Ora aqui retomamos a narrativa inicial da evolução da população de lobo.
Se a população de lobo era maior, mais contínua e menos ameaçada numa paisagem mais despida, com menos vegetação e com queimadas constantes, como se pode concluir que os actuais fogos são por um lado um factor de degradação do habitat e por outro um facto de ameaça destas populações de lobo? Eu não consigo compreender.
O mesmo poderemos dizer para as vias de comunicação, visto que estas populações já estavam bem ameaçadas antes da construção da A24, pelo que não pode ser este um factor primordial (pode, no máximo, acentuar dificuldades, mas não é a origem das dificuldades). E nem vejo como se possa dizer que estradas de onde os carros saem pouco são um factor indutor de perturbação maior de milhares de cabeças de gado, acompanhadas pelos seus pastores e os seus cães, meses a fio nos sítios mais recônditos da serra (convém lembrar que no Verão não pastavam aqui apenas as ovelhas das povoações da serra, que já de si seriam incomparavelmente mais que as que hoje por lá andam, mas também às dos povos dos vales mais próximos, nomeadamente Douro e Vouga, que eram aos milhares).
Os laços são para mim uma coisa ainda mais estranha: não só ninguém sabe se havia mais laços antigamente que agora, como o mais provável é que houvesse muitos mais antigamente, porque havia muito mais gente por ali, e com um ódio ancestral ao lobo que está mais que documentado.
O que veradeiramente é diferente é a disponibilidade alimentar: não só as milhares de cabeças de gado estão reduzidas a poucas centenas, como a população de coelho será, na melhor das hipóteses, 5 a 10% da que existia, como ainda a perdiz praticamente desapareceu com o abandono do cultivo de cereais de inverno nas cumeadas.
Ou seja, simplesmentes estes lobos têm é fome.
O resto diz mais respeito às histórias do capuchinho vermelho (histórias do centro da europa, passadas na floresta) que à realidade.
henrique pereira dos santos

natal up-to-date






 Em vez da consoada há um baile de máscaras
Na filial do Banco erigiu-se um Presépio
Todos estes pastores são jovens tecnocratas
que usarão dominó já na próxima década

Chega o rei do petróleo a fingir de Rei Mago
Chega o rei do barulho e conserva-se mudo
enquanto se não sabe ao certo o resultado
dos que vêm sondar a reacção do público

Nas palhas do curral ocultam-se microfones
O lajedo em redor é de pedras da lua
Rainhas de beleza hão-de vir de helicóptero
e é provável até que se apresentem nuas

Eis que surge do céu a estrela prometida
Mas é para apontar mais um supermercado
onde se vende pão já transformado em cinza
para que o ritual seja muito mais rápido

Assim a noite passa e passa tão depressa
que a meia-noite em vós nem se demora um pouco
Só Jesus no entanto é que não comparece
Só Jesus afinal não quer nada convosco

David Mourão-Ferreira
Cancioneiro de Natal, 1969

Gonçalo Rosa

Segunda-feira, Novembro 30, 2009

COP15

A uma semana da conferência das Nações Unidas para as Alterações Climáticas (COP15) que se vai realizar em Copenhaga, duas questões surgem-me como pertinentes. Tendo-se verificado algum recuo no apoio que as sociedades ocidentais têm dado, nos últimos anos, ao objectivo de reduzir emissões globais de gases com efeito de estufa, com o avanço das teses daqueles a que se costuma chamar “cépticos”, então porque é que os principais líderes políticos ocidentais, seja qual for a sua proveniência ideológica, parecem determinados a fazer avançar em Copenhaga metas com significado apreciável? Segundo, porque é que em Portugal o debate sobre este assunto praticamente não tem existido? (esta última abordarei num futuro post)

Abordemos então a primeira. Hoje, como referi, todos os Governos aceitam publicamente que o Homem tem um papel determinante nas alterações climáticas e concordam com a urgência de parar o aumento de emissões de CO2. Existe igualmente um consenso básico no modo de lidar com o problema, que vai desde o corte equitativo de emissões, ao estabelecimento de um mercado internacional de comércio de carbono, até à implementação de um sistema de transferências financeiras do mundo “rico” para as nações em vias de desenvolvimento, com o objectivo de as ajudar a suportar o custo da mudança para uma economia sem carbono.

Ainda não é certo qual o alcance das decisões que virão a ser tomadas em Copenhaga, que poderão fazer a diferença ou ficarem-se por um acordo político e o postponement da acção para um futuro incerto (o que não deixará de representar um sério revés na credibilidade das Nações Unidas). A questão prende-se, aliás como sempre, com o envelope financeiro que estará em cima da mesa para que as negociações possam triunfar. Os países em desenvolvimento argumentam que o volume financeiro disponibilizado pelos países industrializados é curto para cobrir as transferências tecnológicas necessárias e assegurar nesses países que as intenções em alterar o paradigma energético se verifiquem de facto. Os países industrializados tentam reduzir ao máximo a sua comparticipação e em alguns casos (US) atrasar o mais possível os efeitos nas suas economias.

Contudo, segundo o Yale Environment 360, a Gallup e outros barómetros sociais especializados, o apoio da opinião pública à redução de emissões de CO2, em princípio fundamental para que a pressão se mantenha sobre os decisores políticos, depois de se ter mostrado estável nas últimas duas décadas tem vindo a decrescer nos últimos anos, ao contrário do que se passa com a opinião publicada e a opinião das consideradas “elites”. Ou seja, o esforço desenvolvido pela comunidade científica e fortemente ampliado pela comunicação social parece não ter tido grande significado. Estou em crer que, como já abordei aqui, as ameaças apocalípticas têm efeito nulo, se é que não são prejudiciais ao que se pretende defender.

Neste contexto, as Alterações Climáticas não só são algo de distante e de difícil visualização para o comum das pessoas, como a aceitação dos pressupostos que lhes estão subjacentes implica uma visão negativa da actual ordem social e do futuro, obrigando a aceitar que o nosso estilo de vida presente tem alguma coisa de imoral e que serão necessárias grandes mudanças para que algo de verdadeiramente impactante, no problema detectado, tenha algum efeito positivo. Ora, como a psicologia social pode demonstrar, estando em presença de uma ameaça longínqua e difusa que obriga a uma resposta eventualmente dolorosa, é mais fácil destruir o mensageiro (neste caso a opinião científica e a sua divulgação), dando menor credibilidade às opiniões publicadas de especialistas, do que aceitar as propostas de alteração ao “status quo”.

É aliás, neste sentido que têm sido construídas as campanhas dos chamados cépticos, que pretendem desacreditar a base de suporte de credibilidade dos defensores do “actuar já”. A revelação de mails de cientistas que põe em causa os dados sobre o aquecimento global do planeta, de facto uma machadada forte na credibilidade da comunidade científica do clima, faz parte da campanha que referi. Não lhes dou grande relevo, não só porque a investigação científica não depende das conclusões de um grupo de investigadores mas sim do acumular de evidências e consensos ao longo do tempo e em diversos cenários sobre determinado fenómeno, mas fundamentalmente porque acho que são irrelevantes para a decisão a tomar em Copenhaga (como tentarei explicar adiante).

Então, porque é que com uma opinião pública menos apoiante e com uma oposição mais forte os Governos da Europa (e até ver os dos US e da China) continuam a apostar numa posição activa de redução de emissões? O gráfico abaixo pode explicar muito desta posição.



(Surripiado daqui, (a terça-feira, 24 de Novembro de 2009) que por sua vez também veio daqui)

É aceite que o actual paradigma tecnológico está esgotado para o Ocidente (em particular para Europa) o que lhe traz a inevitável decadência económica. Se associarmos a este facto a evidência de que o actual modelo é excessivamente dependente de recursos, energéticos e não só, que hoje deixaram de ser baratos e facilmente controláveis pelos países que no anterior século exerciam esse domínio, estamos em presença da chave para a resposta à questão colocada.

Para a Europa é fundamental um novo modelo, baseado na inovação e no conhecimento e que não seja dependente do carbono, senão o mais que pode aspirar é a ser o museu do planeta e ir adiando o seu fim com cada vez mais proteccionismo (que obviamente será sempre necessário em doses variadas num estádio de transição…). A actual liderança dos US, embora a outro ritmo, também considera que no xadrez geopolítico, e não apenas económico, este novo cenário poderá ser-lhe favorável. A China não se oporá se os US lhe continuarem a garantir o acesso à tecnologia que precisa para se modernizar (coisa que Obama teve o cuidado de assegurar antes de Copenhaga começar…). A Índia e o Brasil são as grandes incógnitas, embora para o segundo seja mais importante o tamanho do “cheque” a receber do que outra coisa. Mas dinheiro não será problema, embora dependa obviamente da dimensão a que se chegar, porque é com esse capital que o mundo irá adquirir ao Ocidente as tecnologias que ele irá desenvolver.

Mas para que esta nova revolução capitalista possa ter êxito e empolgar as pessoas é fundamental um “berço” ideológico que agregue e sirva de fundamento nesta nova aventura. O que sobejou no cemitério das utopias do século XX, e ainda com um potencial apreciável, é a Utopia Ambiental.

Pelo que referi, “a chave do negócio” é apoiar a nova Administração dos US garantindo o seu envolvimento e se isso se concretizar o sucesso de Copenhaga está garantido sejam quais forem as metas a serem alcançadas.

O registo público e privado em ciência - paródia

apêndices e apendicites



Num comentário a um post aqui publicado, José Luís Monteiro fez duas afirmações que me parecem interessantes de comentar: “Eu não discordo que os sócios são importantes para as associações, não concordo é que, em Portugal, possam ser importantes para o financiamento das associações”, questionando-me ainda se acharia “que o trabalho que as ONGAs têm feito (e mesmo que sejas crítico de boa parte desse trabalho) se podem financiar só com as quotas dos sócios”.

A discussão centrava-se na LPN, mas pode e deve ser feita num âmbito mais global, não só porque existem exemplos mais evidentes do que me parece interessante discutir como o que me interessa é desconstruir esta lógica de “prestadoras de serviços” que algumas ONGAs vão assumindo.

Começando pela segunda afirmação, é óbvio que, na realidade das principais ONGAs, não sendo expectável uma subida vertiginosa do número de sócios, nem sendo possível um aumento desmesurado dos valores das quotas, projectos de centenas de milhares de euros nunca poderiam nem poderão, pelo menos no curto/médio prazo serem financiados, em boa parte, pelas quotas/contribuições dos seus associados. É um facto, difícil de questionar. Mas também é óbvio que José Luís Monteiro discute partindo do pressuposto que o fim de uma ONGA, ou, pelo menos, boa parte dele, reside na execução de projectos. E é aqui que divergimos claramente. Tenho fortes dúvidas que a preservação ambiental ganha mais com as ONGAS centradas na execução destes projectos, geralmente de âmbito local e/ou tendo como objectivo a conservação de um pequeno grupo de espécies, que a abordarem de forma consistente e continuada, na opinião pública e com pressão política, questões essenciais para a preservação ambiental no país: o abandono agrícola, o ordenamento florestal e cinegético, as grandes opções estratégicas do Estado quanto a infra-estruturas, as opções energéticas, o desinvestimento estatal na conservação da natureza e da biodiversidade, entre outras.

Se aparentemente é possível seguir ambas as linhas de acção – a da execução de projectos e a de trabalho político em questões ambientais – parece-me claro que as ONGAs que têm assumido uma postura de prestadoras de serviços, vão abdicando ou nunca tiveram uma linha de acção política consistente e continuada. Não conseguindo o que, na minha opinião, é equilíbrio razoável entre aquelas duas linhas. Na ausência de direcções activas e de comunidades de sócios activos que trabalhem a vertente política das associações, é mais do que espectável e aceitável que contratados se preocupem com a execução dos projectos que os pagam.

Entra-se então numa dinâmica em que os sócios se limitam basicamente a valer, para direcções e técnicos de ONGAs, o valor das suas quotas e o potencial que o seu número tem para ajudar a angariar novos projectos. São vistos como meros apêndices, úteis especialmente quando pagam as suas quotas, mas claramente nefastos quando procuram um maior envolvimento associativo e questionam esta lógica empresarial que se vai instalando em várias ONGAs. As Assembleias Gerais tornam-se meros pró-formas; a apresentação de contas, programas e relatórios de actividades, necessária burocracia a seguir. E com uma boa dose de hipocrisia, muitos dirigentes lamentam que Assembleias Gerais e actos eleitorais sejam um deserto participativo, mas preferem este cenário a outros que ponham em causa as opções que vão tomando.

Assim, seria para mim, ao menos expectável assistir a uma lógica semelhante à do Automóvel Clube de Portugal, que oferece uma gama de produtos aos seus associados suficientemente atraente, para que estes o sejam, em grande número, sem sequer saberem muito bem os objectivos daquela instituição. Aqui, seria até bem mais fácil dado o que são, para muitos dos cidadãos, os nobres objectivos de uma ONGA. Mas a dinâmica é tão obsessiva que nem nesta visão estritamente contabilística/financeira do valor dos associados se faz uma aposta séria em angariar novos sócios e em cativá-los, para que não se desliguem da associação ao fim de 2 ou 3 anos, deixando de pagar as suas quotas, como tantas vezes acontece. Porque, contrariamente ao que José Luís Monteiro afirma, até do ponto de vista financeiro, no cenário actual e na lógica de “prestadoras de serviços” os sócios são importantes para as ONGAs, porque apesar das suas quotas e donativos representarem, quase sempre, uma pequena parcela dos seus orçamentos - o “naco de leão” vem do financiamento dos projectos -, por um lado é, no caso da angariação de novos projectos falhar, o garante da sobrevivência financeira das associações (inevitavelmente noutra lógica, é certo), e por outro, a principal fonte de financiamento de todas as outras actividades/acções que dificilmente se podem auto-financiar, como por exemplo, uma verdadeira política de angariação e fixação de sócios…!

Não é pois para mim estranho que os sócios se desinteressem da vida associativa, em boa parte por se sentirem frustrados com o desinteresse que as suas direcções demonstram por questões ambientais que consideram relevantes. Deixam de pagar quotas, não participam em assembleias-gerais, não querem saber de programas nem de actos eleitorais, não apresentam alternativas políticas em parte porque sabem que compram uma guerra. É assim fácil compreender como em Portugal as “grandes ONGAs” são, na verdade, relativamente pequenas, como se torna difícil captar associados em número relevante, como mais difícil se torna fixar sócios que não sentem a Associação como algo que verdadeiramente lhes pertence.

Inverter este ciclo implica que grupos de associados, tendo noção de quão errada e perigosa é esta lógica empresarial, apresentem novas propostas políticas que invertam o actual estado das coisas. Esperar que as actuais direcções que criaram e/ou defendem estas tendências mudem de orientação é desmesurado optimismo.

Gonçalo Rosa

Domingo, Novembro 29, 2009

Climategate - A defesa dos visados

Muito se escreveu na internet sobre este caso e uma das críticas feitas foi não haver resposta por parte dos visados. Bom, a resposta já saiu e como complemento ao meu "post" de opinião tomo a liberdade de a publicar aqui no blogue - na sua versão original em Inglês.

Statement from Professor Phil Jones, Head of the Climatic Research Unit, University of East Anglia.
In the frenzy of the past few days, the most vital issue is being overshadowed: we face enormous challenges ahead if we are to continue to live on this planet.

One has to wonder if it is a coincidence that this email correspondence has been stolen and published at this time. This may be a concerted attempt to put a question mark over the science of climate change in the run-up to the Copenhagen talks.

That the world is warming is based on a range of sources: not only temperature records but other indicators such as sea level rise, glacier retreat and less Arctic sea ice.

Our global temperature series tallies with those of other, completely independent, groups of scientists working for NASA and the National Climate Data Center in the United States, among others. Even if you were to ignore our findings, theirs show the same results. The facts speak for themselves; there is no need for anyone to manipulate them.

We have been bombarded by Freedom of Information requests to release the temperature data that are provided to us by meteorological services around the world via a large network of weather stations. This information is not ours to give without the permission of the meteorological services involved.

We have responded to these Freedom of Information requests appropriately and with the knowledge and guidance of the Information Commissioner.We have stated that we hope to gain permission from each of these services to publish their data in the future and we are in the process of doing so.

My colleagues and I accept that some of the published emails do not read well. I regret any upset or confusion caused as a result. Some were clearly written in the heat of the moment, others use colloquialisms frequently used between close colleagues.

We are, and have always been, scrupulous in ensuring that our science publications are robust and honest.

CRU statement
Recently thousands of files and emails illegally obtained from a research server at the University of East Anglia (UEA) have been posted on various sites on the web. The emails relate to messages received or sent by the Climatic Research Unit (CRU) over the period 1996-2009.

A selection of these emails have been taken out of context and misinterpreted as evidence that CRU has manipulated climate data to present an unrealistic picture of global warming.

This conclusion is entirely unfounded and the evidence from CRU research is entirely consistent with independent evidence assembled by various research groups around the world.

There is excellent agreement on the course of temperature change since 1881 between the data set that we contribute to (HadCRUT3) and two other, independent analyses of worldwide temperature measurements. There are no statistically significant differences between the warming trends in the three series since the start of the 20th century. The three independent global temperature data series have been assembled by:

• CRU and the Met Office Hadley Centre (HadCRUT3) in the UK.

• The National Climatic Data Center (NCDC) of the National Oceanographic and Atmospheric Administration (NOAA) in Asheville, NC, USA.

• The Goddard Institute of Space Studies (GISS), part of the National Aeronautic and Space Administration (NASA) in New York.

The warming shown by the HadCRUT3 series between the averages of the two periods (1850-99 and 2001-2005) was 0.76±0.19°C, and this is corroborated by the other two data sets.

The Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) in its 4th Assessment Report (AR4) published in 2007 concluded that the warming of the climate system was unequivocal. This conclusion was based not only on the observational temperature record, although this is the key piece of evidence, but on multiple strands of evidence. These factors include: long-term retreat of glaciers in most alpine regions of the world; reductions in the area of the Northern Hemisphere (NH) snow cover during the spring season; reductions in the length of the freeze season in many NH rivers and lakes; reduction in Arctic sea-ice extent in all seasons, but especially in the summer; increases in global average sea level since the 19th century; increases in the heat content of the ocean and warming of temperatures in the lower part of the atmosphere since the late 1950s.

CRU has also been involved in reconstructions of temperature (primarily for the Northern Hemisphere) from proxy data (non-instrumental sources such as tree rings, ice cores, corals and documentary records). Similar temperature reconstructions have been developed by numerous other groups around the world. The level of uncertainty in this indirect evidence for temperature change is much greater than for the picture of temperature change shown by the instrumental data. But different reconstructions of temperature change over a longer period, produced by different researchers using different methods, show essentially the same picture of highly unusual warmth across the NH during the 20th century. The principal conclusion from these studies (summarized in IPCC AR4) is that the second half of the 20th century was very likely (90% probable) warmer than any other 50-year period in the last 500 years and likely (66% probable) the warmest in the past 1300 years.

One particular, illegally obtained, email relates to the preparation of a figure for the WMO Statement on the Status of the Global Climate in 1999. This email referred to a “trick” of adding recent instrumental data to the end of temperature reconstructions that were based on proxy data. The requirement for the WMO Statement was for up-to-date evidence showing how temperatures may have changed over the last 1000 years. To produce temperature series that were completely up-to-date (i.e. through to 1999) it was necessary to combine the temperature reconstructions with the instrumental record, because the temperature reconstructions from proxy data ended many years earlier whereas the instrumental record is updated every month. The use of the word “trick” was not intended to imply any deception.

Phil Jones comments further: “One of the three temperature reconstructions was based entirely on a particular set of tree-ring data that shows a strong correlation with temperature from the 19th century through to the mid-20th century, but does not show a realistic trend of temperature after 1960. This is well known and is called the ‘decline’ or ‘divergence’. The use of the term ‘hiding the decline’ was in an email written in haste. CRU has not sought to hide the decline. Indeed, CRU has published a number of articles that both illustrate, and discuss the implications of, this recent tree-ring decline, including the article that is listed in the legend of the WMO Statement figure. It is because of this trend in these tree-ring data that we know does not represent temperature change that I only show this series up to 1960 in the WMO Statement.”

The ‘decline’ in this set of tree-ring data should not be taken to mean that there is any problem with the instrumental temperature data. As for the tree-ring decline, various manifestations of this phenomenon have been discussed by numerous authors, and its implications are clearly signposted in Chapter 6 of the IPCC AR4 report.

Included here is a copy of the figure used in the WMO statement, together with an alternative version where the climate reconstructions and the instrumental temperatures are shown separately.




The WMO1999 figure (top) with climate reconstructions and instrumental temperatures merged, and a version (bottom) with the climate reconstructions (coloured) and instrumental temperatures (annual & summer in black) shown separately.

Climategate?

Nos últimos dias recebi vários mensagens de colegas perguntando-me a opinião sobre o caso do roubo da correspondência dos servidores da University of East Anglia (UEA), em particular das mensagens envolvendo Phil Jones, Director do Climate Research Unit. A estas pessoas respondi que isto não passava de mais um "fait divers". A resposta surpreendeu alguns que rapidamente responderam que não e que mais explicações seriam necessárias.

Não tenho dúvidas que mais explicações serão necessárias e que uma investigação independente seria desejável para esclarecer o verdadeiro significado das mensagens vindas a lume. É possível que sendo as mensagens escritas em registo privado tenham sido meros desabafos sem qualquer consequência (quantos de nós dizem e escrevem coisas num registo privado que seriam certamente mal interpretadas se ditas num registo público?). Também é possível que, representando as mensagens uma amostra pequena, colocada fora do contexto, de um universo de milhares de outras mensagens, o seu verdadeiro significado não seja inteligível. Sobre isto o principal visado diz: "My colleagues and I accept that some of the published emails do not read well. I regret any upset or confusion caused as a result. Some were clearly written in the heat of the moment, others use colloquialisms frequently used between close colleagues". E conclui "We are, and have always been, scrupulous in ensuring that our science publications are robust and honest".

Obviamente, não é impossível que as mensagens divulgadas indiciem procedimentos cuja honestidade possa ser questionada e/ou condutas que estão longe de ser irrepreensíveis do ponto de vista da deontologia profissional. Todavia, na fase actual, recuso-me julgar Phil Jones e os restantes colegas pois 1) não tenho informação suficiente para fazer um julgamento sobre a conduta destas pessoas (a informação disponível na internet é obviamente parcial e como tal de valor limitado); e 2) acredito veementemente que o local próprio para julgar o comportamento das pessoas são os tribunais (ou comissões específicas, criadas para o efeito e que possibilitem o exercício, básico em qualquer sistema de justiça, do direito de defesa própria). Se se provar que as interpretações feitas nalguns blogues, com base em informação parcial, forem correctas é óbvio que estas pessoas terão de responder pelos seus actos. Mas também é possível que estes investigadores estejam a ser alvo de uma conspiração sem precedentes na história da internet (a data da divulgação das mensagens levanta a suspeição de que o objectivo seja minar a cimeira de Copenhaga), pelo que prudência é atitude que me parece mais acertada no momento.

Mas suponhamos, por um momento, que na sequência de um inquérito independente se demonstre que as suspeitas de fraude científica se justificam. Provar-se-à com isto que a informação sobre aquecimento global é o resultado de uma conspiração dos cientistas para fazer vingar uma agenda verde, de fama, poder, ou dinheiro? Provam estas mensagens que a evidência científica, acumulada durante décadas, por vários grupos de investigação, usando indicadores e fontes de informação diferentes, sujeitas ao escrutínio de investigadores independentes, são o resultado de uma grande cabala orquestrada por um número elevado de pessoas desonestas ao serviço de uma alegada agenda que teria tomado conta do "establishment" científico?

Não, obviamente que não. Provar-se-ia que o último relatório do IPCC foi editado ao mais alto nível de forma a melhor fazer passar uma mensagem política veemente (o que aliás não seria novidade como tive ocasião de escrever aqui e aqui) mas não se provaria que as inúmeras fontes de informação, directa e indirecta, sobre o aquecimento actual foram inventadas ou truncadas.

Um caso paradigmático de evidência indirecta, raramente referida pelos "cépticos" (e completamente independente da "rede" do Phil Jones) , é o degelo do "permafrost" (i.e., solo permanentemente gelado que se encontra em zonas de latitude e altitude elevada). Há uma camada do "permafrost" que é instável, ou seja, que degela em estações/anos quentes e volta a congelar em estações/anos frios mas há sequências do "permafrost" que têm estado em estado sólido há dezenas, nalguns casos centenas, de milhar de anos. Áreas importantes deste "permafrost" pré-histórico encontram-se actualmente em declínio trazendo à superfície, pela primeira vez, material genético de inúmeras espécies de animais e plantas (hoje extintas) que foram congeladas e soterradas neste solo. Se o aquecimento actual não se distinguisse do ciclo natural de aquecimento e arrefecimento, como sugerem os cépticos, era de esperar que este material genérico se tivesse degradado há muito tempo.

Em suma, a revelação destas mensagens roubadas do servidor do UEA venderá notícias, incendiará debates, causará danos na vida pessoal de algumas pessoas e, no melhor dos casos, abrirá discussões úteis sobre o acesso a dados públicos de clima (é inexplicável que alguns institutos de meteorologia, como é o caso de Portugal, continuem a restringir o acesso aos dados nacionais de meteorologia) e sobre a necessidade de disponibilização dos dados usados nos artigos científicos para melhor garantir a sua replicação em caso de dúvida (nem todas as pessoas o fazem, umas vezes com razões de peso, que importa discutir, outras nem tanto). Sobre isto a própria UEA divulgou comunicados de imprensa (com data de 28 de Novembro) que deixam antever alguns progressos.

Walt Disney e os lobos da serra da Nave


"Por vezes, a compreensão da ideologia basta para restabelecer a "normalidade" de um comportamento. Recordemos um único exemplo: a imitação dos gritos dos animais. Durante mais de um século, acreditou-se que esses gritos estranhos do xamane eram a prova do seu desequilíbrio mental. Porém, tratava-se de coisa muito diferente: da nostalgia do Paraíso que assediava já Isaías e Virgílio, que alimentava a santidade dos padres da Igreja e que desabrochava, vitoriosa, na vida de São Francisco de Assis".
Estou convencido de que Mircea Eliade encontraria no Público de hoje matéria que lhe interessasse sobre os mitos do bom selvagem ou a nostalgia do Paraíso.
É muito interessante verificar como no coração do pensamento moderno se mantém vivo o pensamento selvagem, como desde sempre.
""Imagino-me a ser lobo agora e há cinquenta anos. Eles acabaram por se habituar a um novo meio onde há mais pessoas do que havia e há carros", diz Sara Roque, também bióloga do Grupo Lobo".
Deixando de lado a fascinante análise da relação com os grupos humanos e os animais totémicos adoptados, vejamos como o mito se encrava no seio do discurso dos cientistas, o que não é o mesmo que dizer no discurso científico.
É muito interessante como Sara Roque abandona a lógica científica (a compreensão dos animais enquanto animais) para encarnar a lógica da humanização dos animais, mesmo que disfarçada da animalização dos homens (a técnica genial de Walt Disney).
E é porque se abandona o campo do pensamento científico, trocando-o pelo pensamento selvagem e a clássica nostalgia do Paraíso que é possível ouvir Sara Roque falar de um tempo mítico em que os lobos não tinham de conviver com pessoas e carros.
O curioso é que os lobos não se preocupam excessivamente com os carros, sabem conviver com eles, têm sido encontradas evidências de reprodução muito próximo de áreas altamente perturbadas, como a construção de estradas ou de parques eólicos. Para além disso ninguém sabe se o lobo fica mais perturbado com um carro que passa com um trajecto definido e num espaço de tempo curto ou se com uma matilha de cães, por exemplo. Mas mais que tudo, há cinquenta anos aquelas serras tinham incomparavelmente mais gente e mais actividade que têm hoje.
Mas nada disto interessa muito porque na realidade o que se trata é de uma comunhão emocional com o animal e não de um trabalho científico como seja procurar compreendê-lo na sua irredutível diferença dos humanos.
O mesmo se diria de Francisco Álvares, quando compara a serra à nossa casa e fala de torres eólicos na sala e no quarto.
É de novo um pensamento que sai das regras estreitas do pensamento científico que lhe permite dizer que:
1) os lobos são muito fiéis ao seu território e já se constatou, nas áreas onde foram construídos parques eólicos, que eles não desapareceram desses locais (facto verificado);
2) mas alteram comportamentos (facto verificado);
3) com mais parques eólicos há mais dificuldade na obtenção de alimentos, de caça e na reprodução (facto não verificado em lado nenhum, mas coerente com a ideia de que alteração é sempre perda, muito comum na base ideológica da biologia da conservação).
O mais curioso é que o facto dos lobos se manterem alterando os seus comportamentos não é avaliado como positivo (embora na teoria a capacidade de adaptação a novas circunstâncias seja considerada como uma vantagem) mas sim como uma hipótese de problema, aliás não verificada empiricamente.
Voltarei provavelmente a este fascinante artigo do Público de hoje, mas não quis deixar de assinalar como é ténue a fronteira que separa o pensamento moderno do pensamento selvagem quando estão em causa fenómenos a que estamos ligados por profundas emoções.
henrique pereira dos santos

Sábado, Novembro 28, 2009

Um momento de reflexão

“Estereótipo é a imagem preconcebida de determinada pessoa, coisa ou situação. São usados principalmente para definir e limitar pessoas ou grupo de pessoas na sociedade. Sua aceitação é ampla e culturalmente difundida no ocidente, sendo um grande motivador de preconceitos e discriminação (Wikipédia).”



curiosidades egípcias


Abutres-do-Egipto
Tadjoura, Djibuti (Novembro de 2009)

Esta foto foi obtida ontem, em Tadjoura, numa pequena vila no Norte do Djibuti. Tratam-se de alguns Abutres-do-Egipto pertencentes a um bando de mais de 30 que se procuravam comida à saída de uma coisa “meio lixeira, meio esgoto”. Já numa praia, tentaram roubar-me uns peixes que havia caçado para o jantar e que, de forma algo displicente e inconsciente deixara, enquanto almoçava, mais longe de mim que o recomendável. Afoitos animais que, nas lixeiras, competem com os babuínos por alguma comida. Foi fácil fotografá-los a menos de uma quinzena de metros.

Em Portugal e no Sudoeste da Europa, a espécie é muito mais tímida sendo inimaginável fotografá-los descontraídos aquelas distâncias, assim como quem sai do carro para “bater umas chapas”. Sempre achei curiosas estas diferenças comportamentais inter-regionais que podem fazer a dificultam ou facilitam a conservação de uma espécie.

Gonçalo Rosa

A rolha e o boicote


Henrique Pereira dos Santos afirmou neste post que boicotava uma marca conhecida de vinhos por ter substituído a rolha por um "screwcap" metálico (presumo eu, porque não é explícito).

Como terá sido para muitos, também estranhei a publicidade, sobretudo pela frontalidade em que assumiu um assunto sensível como os vedantes artificiais a substituir a clássica rolha de cortiça.

Acontece que, na verdade, não é a rolha que preocupa os boicotantes (nos quais me incluo), porque ainda ninguém apelou à utilização de rolhas nas restantes garrafas que usamos, todas com vedantes artificiais, para não falar das garrafas plásticas, elas totalmente feitas de produtos de origem fossil. Preocupa a sobrevivência do ecossistema montado de sobro, que passa obrigatoriedade pela valorização mercantil da sua produção. E a rolha é dos produtos com maior mais-valia do montado (mas não é o único, felizmente).

A rolha é um vedante de luxo, mesmo para o vinho, que somente nas últimas décadas se vulgarizou na embalagem dos vinhos. Antigamente, grande parte do vinho, mesmo o engarrafado, não usavam rolhas mas sim cápsulas plásticas (quem não se lembra das garrafas de 1 litro de vinho corrente, tão em uso nas zonas rurais até há relativamente pouco tempo).

Para compreender a substituição, devem esquecer um pouco a nossa lusandade (isto existe?) e ver o vinho como um produto de mercado global, em que se combate taco a taco com produtores de todos os continentes.

Os vedantes artificiais, nomeadamente os "screwcap" (ainda não encontrei tradução adequada), têm como vantagens serem mais baratos, mais práticos e não afetem a qualidade de vinho, como fazem as rolhas com TCA, substância que provoca o "saber a rolha". A sua principal desvantagem é de não apoiar uma produção rural que suporte um ecossistema de elevada relevância em termos de biodiversidade (o montado de sobro), para além de ser de origem fóssil.

Em viagem recente à minha terra natal (Holanda), verifiquei que mais do que metade das garrafas de vinho comercializadas tinham como vedantes screwcaps ou rolhas plásticas. Ao questionar a minha irmã, pessoa com inteligência bem acima da média e razoavelmente consciente em termos ambientais, sobre a opção por vinhos com rolha natural, ela respondeu de forma surpreendente: "mas que bom que finalmente acabaram com aquelas rolhas chatas! São muito mais práticos os screwcaps, abro e fecho quando quiser. Antes era frequente querer abrir uma garrafa e não ter sacarrolhas à mão. Já tentaste fechar uma garrafa com uma rolha?". Ao explicar a importância do ecossistema montado para a conservação de muitas espécies ameaçadas, ela encolheu os ombros e afirmava que não era motivo para escolher uma garrafa de vinho com rolha de cortiça.

Para os portugueses pode ser uma argumentação inacreditável, mas para compreender o comportamento de grandes empresas como a do Montez Champalimaud que produz o vinho Quinta do Cotto, que procuram sobretudo os mercados internacionais, clientes como a minha irmã são relevantes, e se a sua satisfação passa pela utilização de screwcaps, que assim seja. Se esse screwcap ainda por cima
for mais barato e não tem o problema do TCA, então quem ainda tem dúvidas?

Quer dizer que devemos resignarmos com a invasão do mercado com screwcaps? De todo. Empresas como Montez Champalimaud são sensíveis a factores que afetam a sua imagem. Por isso, não é muito eficiente "boicotar" a compra desse vinho (é de gama média alta, vi o referido venho por uns 8€ no supermercado), isso não aquece nem arrefece a casa do Montez. Já muda de figura se passa a enviar
e-mails, dezenas, centenas, milhares de e-mails a chamar à responsabilidade da empresa as consequências da sua opção. Por isso, para além de não comprar o referido vinho (e as restantes que vão surgindo no mercado nacional), chateia-os, pedindo explicações sobre as suas opções.

Boa sorte!

Henk Feith

Sexta-feira, Novembro 27, 2009

Por mim, boicoto

henrique pereira dos santos

Quinta-feira, Novembro 26, 2009

4025


Na net, é o número de assinantes que consta nesta petição.
Há repetições com certeza, uma ou outra assinatura inválida, mas há também as assinaturas recolhidas em papel e que não estão aqui contabilizadas.
Quando fui o primeiro a assinar a petição (cortezia da QUERCUS que a lançou comigo) confesso que nunca pensei que fosse possível chegar ao número mínimo que obriga à sua discussão na Assembleia da República.
Espero que sirva para no fim haver um regime da reserva agrícola que cumpra equilibradamente os seus objectivos: a manutenção do potencial produtivo dos poucos solos agrícolas verdadeiramente fertéis de Portugal.
henrique pereira dos santos

de dromedários e outros camelos



Etiópia, Novembro de 2009

Existirão certamente óbvias razões para que a lógica da minha ignorância vá rapidamente por água abaixo, mas não resisto a levantar uma insólita questão, bronzeada seguramente pelos minutos que me sobram no deserto e apimentada pelo calor que me esquenta a cabeça…

Porque razão é que estas simpáticas criaturas utilizadas na África sub-saariana como animais de carga e para produção de carne e de leite, de grande resistência ao calor e ao frio, de dias e noites em zonas desérticas, que pastam não raras vezes com cabras, que, posso atestar, produzem saborosos e biológicos bifes, que comem quase qualquer vegetal e não só, que aparentemente dão pouquíssimo trabalho… nunca foram introduzidos no sul de Portugal?

Seria, para mim, presença mais expectável que as já familiares avestruzes, tendo em vista a produção de carne.

Existirão razões de rentabilidade económica ou outras que inviabilizem a ideia e que me voltem a pôr os pés na terra?

Gonçalo Rosa

Quarta-feira, Novembro 25, 2009

4 por milhão


E se quiserem podem também ir aqui.

A propósito de alguns comentários ao post anterior: será a luta contra a pobreza off topic num blog sobre ambiente?

henrique pereira dos santos

PS Declaração de interesses: sou um dos paitrocinadores deste projecto

Self interest

Primeiro não queriam aulas de substituição, aceitando o conceito de que os alunos pudessem estar entregues a si próprios, no recreio, em horário lectivo (ao contrário do que se pratica na maior parte da Europa).

Depois não queriam avaliação. Vendo que esta batalha não seria ganha, optaram por criticar o modelo proposto. Mais importante, não aceitaram que qualquer que fosse o modelo de avaliação este tivesse consequências para a progressão da carreira (como acontece nas restantes carreiras docentes) preferindo o velho sistema de progressão por antiguidade.

Agora que conseguem o lastimável resultado de ver retirados os dois escalões da carreira, pretendem que o ingresso nesta não dependa de uma prova específica (como acontece, por exemplo, em Espanha) e que as progressões não estejam dependentes de vagas; ou seja, que todos possam ser generais, catedráticos, etc (coisa que só em Portugal se poderia defender).

Ver notícia original no público de hoje: "Apesar da saudar a proposta de eliminação da divisão da carreira em duas categorias hierárquicas (professor titular e professor), Dias da Silva revelou aos jornalistas que o Ministério da Educação mantém dois aspectos "francamente negativos". Na proposta hoje apresentada aos sindicatos, o Ministério continua a defender a existência de uma prova de ingresso na profissão - uma medida consagrada no Estatuto da Carreira Docente aprovado em 2007 - e sobretudo propõe a existência de vagas para a progressão dos docentes para o 3º, 5º e 7º escalão da carreira. Ou seja, em vez da progressão ser apenas ditada pela antiguidade e pela avaliação do docente, passará também a estar dependente da abertura de vagas."

E assim vai este País. Em vez de andar para a frente anda-se para trás.

Ainda a questão da mulher de César


A história é conhecida, podem ser encontradas milhares de versões diferentes.
Usemos a versão de Suetónio, retirada de "Os Doze Césares" (cuja leitura integral recomendo vivamente e pode ser encontrado numa edição com preço razoável na Biblioteca de editores Independentes).
"Quando apelaram para o seu testemunho contra Públio Clódio, amante de sua mulher Pompeia, e por essa razão acusado de sacrilégio, respondeu que nada sabia, conquanto sua mãe, Aurélia, e sua irmã Júlia, tivessem dito toda a verdade aos juízes; e quando lhe perguntavam porque repudiara então a mulher, respondeu: "Porque, em meu parecer, os meus devem estar tão isentos de suspeita como de crime"."
Vem esta história a propósito de um dos comentários ao post anterior.
Retira-se desse comentário, que não havendo nenhum sinal de falcatrua nas contas da SPEA (o que me interessa aqui são as questões gerais e por isso onde se ler SPEA pode ler-se qualquer outra ONG) está tudo bem.
Imaginemos, por exemplo, que um dia aparecia um Presidente da SPEA (insisto, pode substituir-se SPEA por outra qualquer ONG porque de qualquer maneira os exemplos são fictícios, embora nem toda a coincidência com a realidade seja mera coincidência) numa televisão defendendo que era preciso aprofundar os estudos de avifauna, por exemplo, referentes ao novo aeroporto de Lisboa. A toda a gente pareceria lógica esta reivindicação, podendo concordar-se com ela ou não, mas é natural que seja essa a posição da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves dadas as interacções entre os aeroportos e as aves.
Imaginemos que passado algum tempo, a mesma pessoa aparecia de novo, mas agora a falar como consultor de ornitologia responsável pelos estudos das aves referentes ao novo aeroporto de Lisboa.
Há alguma ilegalidade nisto? Não me parece. Há alguma quebra estatutária da SPEA nisto? Não conheço em detalhe os estatutos da SPEA mas muito me espantaria que contivessem uma norma que impedisse os profissionais da ornitologia de exercerem cargos nos orgãos sociais da SPEA (e se por acaso contivessem essa norma, eu seria contra essa norma). Há alguma relação entre os dois factos (fictícios) descritos acima e alguma irregularidade contabilística na SPEA? Não seguramente.
Todos os sócios e não sócios (convém lembrar que estas associações têm estatuto de utilidade pública, tendo por isso vantagens pagas pelos contribuintes) da SPEA se sentirão confortáveis com os factos fictícios sucessivos descritos? Tenho as maiores dúvidas.
Aliás existem situações concretas que, passados alguns anos, continuam a fazer mossa nalgumas ONGs, sendo talvez o mais conhecido o caso de José Manuel Palma, um brilhante empreendedor da área do ambiente cuja carreira no mundo dos negócios de consultoria ambiental tem um antes e um depois de ter sido Presidente da QUERCUS, sem que até hoje exista qualquer suspeita de irregularidade na sua actuação, que eu saiba.
Ainda hoje a QUERCUS se tem de defender da acusação de ser uma plataforma de gestão de carreiras, para alguns, bem entendido, sendo essa acusação muitas vezes ilustrada com este exemplo de sucesso empresarial.
É por isso razoável o desconforto que alguns sentem quando acham que a mulher de César não está isenta de suspeita, mesmo que considerem que está isenta de crime.
E é muito pouco razoável que a mulher de César reaja desconsiderando, omitindo, ridicularizando e escondendo a dúvida, querendo reduzir tudo a questões de legalidade e regularidade de procedimentos.
Em organizações que dependem estritamente da confiança que a sociedade deposita nelas para a sua sobrevivência a prazo, a ética é um assunto muito mais sério que os estatutos.
Os princípios chamam-se princípios por não dependerem das circunstâncias, por virem no princípio de tudo.
Pelo contrário, a ética é a escolha que cada um faz do que é o bem e o mal em cada situação concreta. A ética é, antes de mais, um juízo irredutivelmente pessoal da aplicação dos princípios às situações concretas
Por isso ética nas organizações precisa de discussão constante para poder ser reconhecida por um conjunto alargado de pessoas.
E é por isso que me recuso a deixar de discutir o interior do movimento ambientalista neste blog.
Mesmo que por isso passem a vida a colar-me um rótulo idiota e completamente infundado de inimigo das ONGs e do movimento ambientalista.
henrique pereira dos santos

Terça-feira, Novembro 24, 2009

Aventuras dos santos no reino do Gordinho e seus Gordões

Fazer piadas com o nome das pessoas não é de bom gosto. Por isso gostaria de explicar que este título, embora parodiando o nome da pessoa que ontem dirigia a Assembleia Geral da SPEA a que assisti parcialmente, resulta essencialmente do meu fascínio pela capacidade do Sérgio Godinho brincar com as palavras, sendo este título o mero pretexto que finalmente encontrei para usar o nome do conjunto musical que ele inventou na famosa quadra "Diz-me o que fazes aqui/ canto ali com as atracções/ no conjunto do "Godinho/ e os seus Godões". Mas minhas desculpas ao Luís Gordinho (que desconhecia até ontem) por este abuso.

Ontem assisti parcialmente a uma Assembleia Geral da SPEA, bem composta para o que é costume (talvez vinte pessoas, um pouco mais, não sei).
Apesar de sócio da SPEA (e de mais umas quantas ONGs) é raro participar nas suas assembleias gerais, mas desta vez tinha dois motivos essenciais para lá estar: havia um conflito interno na SPEA com o qual nada tenho (e sobre o qual nem sequer tenho opinião) mas em que o meu nome terá sido invocado em vão; a forma como a Direcção da SPEA tratou o conflito pareceu-me tão surreal que acreditei que valia a pena ir discuti-lo cara a cara, no sítio adequado.
A questão prende-se com o facto do Conselho Fiscal da SPEA se ter demitido em bloco há alguns meses.
Incompreensivelmente para mim não havia ninguém na sala pertencente ao Conselho Fiscal demissionário. Não sei as razões para isso, mas senti-o como um sinal de degradação das relações institucionais muito pouco auspicioso. Mas para mim é uma situação incompreensível.
Em qualquer caso foi lida uma mensagem breve do Conselho Fiscal em que expunha os seus motivos e depois, durante um quarto de hora, o Presidente da Direcção da SPEA expôs os seus pontos de vista.
Uma intervenção curta de um sócio e eu faço uma intervenção curta (um minuto? dois?) em que essencialmente quiz deixar claras duas questões que tinham sido referidas pelo Presidente da SPEA de uma forma que me pareceu incorrecta: 1) uma suposta dificuldade de relação do ICNB com a SPEA que justificaria opções da SPEA (basicamente eu disse que nunca tinha havido nenhuma dificuldade de relação do ICNB com a SPEA, no máximo uma dificuldade voluntária da SPEA se relacionar com o ICNB); 2) A referência a este post deste blog como sendo uma manobra do Conselho Fiscal demissionário (basicamente disse que os posts deste blog apenas responsabilizavam quem os assina e considerei de extremo mau gosto fazer processos de intenções ao Conselho Fiscal demissionário com base num post de um blog que está assinado e por cujo conteúdo só o seu autor pode ser responsabilizado).
Mais alguém diz qualquer coisa e o Presidente da Direcção da SPEA gasta um quarto de hora a contestar as minhas afirmações de um minuto, sem que em qualquer momento seja interrompido (excepto um comentário meu sobre a necessidade de não confundir opiniões de pessoas do ICNB com as posições do ICNB).
Nesse quarto de hora o Sr. Presidente da SPEA diz várias coisas que traduzem mais o que me parecem ser os vícios de algumas direcções do movimento ambientalista do que eu consegui transmitir até agora nos meus posts em que critico o estado actual do movimento ambientalista.
Sobre as relações com o ICNB refere as questões à volta do Atlas das Aves que já referi neste post e um facto muito curioso: a oposição da estrutura técnica do ICNB (ou pelo menos de uma parte relevante e sgnificativa para o assunto em causa) a uma parceria que a SPEA queria estabelecer para uma candidatura comunitária. O curioso é que temporalmente este facto não pode ter nenhuma relação com a anteriormente invocada dificuldade de relação com o ICNB por lhe ser posterior (já agora, a título de curiosidade diga-se que na discussão deste assunto me aconteceu uma coisa que nunca me tinha acontecido antes. Numa reunião formal com a SPEA, foi manifestada a discordância dos técnicos e dirigentes intermédios do ICNB em relação à parceria proposta, mas referi que de qualquer maneira as decisões que vinculavam o ICNB eram tomadas pelo seu Presidente e portanto iria fazer um memorando sobre o assunto cujas linhas gerais expliquei, perguntando se a posição da SPEA ficaria bem expressa da forma como o estava a planear ou se pretendiam que eu clarificasse algum ponto da argumentação da SPEA. A resposta foi extraordinária: "escreve aí também que vamos ter uma reunião com a Secretaria de Estado sobre este assunto no dia .... para o teu presidente ter bem consciência de que tem uma hierarquia a respeitar". A frase pode não ter sido esta ipsis verbis, mas a ideia seguramente foi, o que descreve bem o que algumas ONGs consideram dificuldades de relacionamento institucional).
Mas mais significativa foi a fundamentação de que a publicação do post acima referido era uma manobra "deles" (isto é, do Conselho Fiscal demissionário). Isso era evidente porque a direcção da SPEA tinha querido tratar do assunto entre quatro paredes, pelo que a situação só era conhecida de pessoas de absoluta confiança, o que demonstrava que o conhecimento da demissão do Conselho Fiscal (nessa altura já formalizada) fora da SPEA só podia resultar de uma manobra do dito Conselho Fiscal, até porque o Presidente da Direcção da SPEA conhecia muito bem as relações pessoais entre os diversos intervenientes na divulgação da situação.
Pedi a palavra de novo, e tencionava explicar que este tipo de situações crescem e agravam-se em ambientes de desconfiança e que exactamente a opção de procurar limitar o conhecimento do pedido formal de demissão do Conselho Fiscal a quatro paredes, escolhendo fazer circular a informação apenas entre pessoas de absoluta confiança, era um absurdo desrespeito pelos sócios e uma concepção cesarista da gestão da Associação inevitavelmente criadora de desconfiança.
Não o cheguei a fazer na Assembleia Geral.
Ao fim de 15 segundos de intervenção estava a ser interrompido pelo Presidente da Mesa em exercício para me lembrar que eu deveria ater-me ao assunto em discussão (que não cheguei a perceber qual era).
Somei esta interrupção à evidente falta de isenção na condução dos trabalhos desde o início, ao facto de eu ter sido a única pessoa a quem foi pedida a identificação para falar (com muitos pedidos de desculpas, mas os outros eram todos pessoas conhecidas, eu era o único estranho e esperavam que não me sentisse descriminado) e ao ridículo de eu ser interrompido ao fim de 15 segundos para responder a uma intervenção de um quarto de hora (quando os trabalhos nem sequer estavam atrasados, sendo que dos 45 minutos que já durava a AG, 30 tinham sido gastos pelo Presidente da Direcção em duas intervenções), quarto de hora esse que respondia a duas questões concretas colocadas num ou dois minutos, e concluí que essa interrupção e a tentativa de limitação do âmbito da minha intervenção era um evidente convite a que não perturbasse o funcionamento da Assembleia Geral.
Pelo que percebi a Assembleia Geral era uma mera formalidade estatutariamente necessária para repôr a existência de um Conselho Fiscal e não uma oportunidade para que a SPEA reflectisse sobre o que se tinha passado, procurando melhorar os seus procedimentos.
E como não gosto de estar em sítios onde as pessoas me fazem sentir que estou a mais, levantei-me e vim-me embora.
É assim o esforço de algumas direcções do movimento ambientalista para cativar os seus sócios e os envolverem nas suas actividades.
Porque nos comentários ao post anterior sobre a demissão do Conselho Fiscal da SPEA se admitiu que houvesse qualquer relação com a contabilidade da associação, quero deixar claro que as razões referidas pelo Conselho Fiscal para a sua demissão não incluem qualquer dúvida sobre a contabilidade da SPEA, mas apenas um desconforto do Conselho Fiscal com uma situação de sobreposição funcional de membros dos orgãos sociais da SPEA, que o Conselho Fiscal considerou pouco esclarecida e com pouca vontade de ser esclarecida pela Direcção (situação evidentemente contestada pela Direcção da SPEA).
henrique pereira dos santos

Segunda-feira, Novembro 23, 2009

Uma luz ao fundo do túnel


Li hoje a extraordinária entrevista da Sr.ª Ministra do Ambiente e francamente fiquei, contra as minhas expectativas, muito optimista sobre a governação nesta área.

Explico porquê com extractos da entrevista:

"Sente-se confortável a defender o Plano Nacional de Barragens?Sinto. Temos a grande pressão das alterações climáticas. Nessa luta, temos como opção as energias renováveis. Somos um país com grande potencial hídrico e eólico e as duas opções em simbiose conduzem-nos a menor dependência das energias tradicionais. Nesta perspectiva, sinto-me confortável a defender o plano.
...
O estudo diz que as alterações climáticas não foram devidamente acauteladas e considera que poderá não haver água para as barragens, perdendo-se o seu potencial hidroeléctrico.Já pedi opiniões isentas e o foi-me dito que, havendo alguns aspectos bem elencados que já estão a ser ponderados nos estudos de impacto ambiental, relativamente ao efectivo potencial esperado não havia problema.
...
Ultimamente surgiram vários episódios, como o caso Face Oculta, em que o sector dos resíduos aparece na berlinda. Esteve na génese de muita da legislação nesta área. O que é que está a correr de errado?Têm realmente acontecido coisas que acho lamentáveis, sobretudo tendo sido feito o esforço que foi feito na área dos resíduos. Anteriormente, quando não tínhamos unidades licenciadas para os resíduos em número suficiente, a deposição inadequada era mais explicável. Se calhar, a fiscalização não foi suficiente, não exerceu toda a pressão que seria necessária. Isso também tem a ver com os quadros inspectivos ainda carecerem de crescer para exercerem toda a vasta fiscalização no domínio da legislação de ambiente. (nota: Dulce Pássaro passou os últimos anos como vogal do Conselho Directivo do Instuto Regulador da Água e dos Resíduos)
...
É a favor ou contra o nuclear em Portugal?Não está prevista neste Governo a opção nuclear. Como ministra do Ambiente, o posso dizer é que não está previsto reabrir a discussão do nuclear nesta legislatura.
...
Quais são os temas concretos que mais a preocupam?A questão dos resíduos, por exemplo, de haver a necessidade de dar um sinal e tentar estancar [o actual] estado de coisas. Também me preocupa o cumprimento dos nossos compromissos internacionais no âmbito das alterações climáticas. Acho que é um dossier importante em que Portugal tem marcado pontos. Preocupa-me este dossier, preocupa-me esta situação na área dos resíduos e preocupa-me também as questões do ordenamento da orla costeira.
...
Parece que o ICNB abandonou o terreno. Os seus técnicos estão dentro das sedes a dar pareceres, os seus vigilantes são escassos. É o problema eterno do ICNB...Já tive oportunidade de receber a direcção do ICNB e uma das questões elencadas foi a necessidade de reforçar os vigilantes da natureza. Foi também referido que a estrutura necessita de um reajuste interno, em termos de reorganização de gestão. Um dos desafios para 2010 é toda esta reorganização.
Mas a reorganização do ICNB já foi feita...Mas esta direcção considera que podem ser feitos alguns ajustes em termos das chefias intermédias.
...
É essencial uma boa articulação com a Agricultura, que gere os dinheiros do Plano de Desenvolvimento Rural (Proder), que em parte irão financiar a Rede Natura. No anterior Governo, essa articulação não foi a melhor. Como é que estão neste momento as relações do Ambiente com a Agricultura?Muito boas. É verdade que uma das questões que estão nas nossas prioridades são as chamadas intervenções territoriais integradas [zonas da Rede Natura que irão receber investimentos do Proder]. Já falámos, porque ficamos sentados um ao lado do outro no Conselho de Ministros.
...
No ordenamento, há dois mega-dossiers, a lei dos solos e o cadastroA lei de solos, com as implicações que tem, é algo que só é possível aprovar numa legistaltura com as características desta se houver um pacto de regime. É um documento que deve ser preparado por técnicos com conhecimento e simultaneamente muito discutido antes de subir propriamente ao nível político.
E acha que é viável aprovar uma lei de solos nesta legislatura?Acho que é importante fazermos alguma coisa. Nós vamos fazer alguma coisa sobre isso. Vamos trabalhar nisso, depois vemos se conseguimos ou não conseguimos.
E o cadastro? É um esforço de anos...O organismo que poderá dinamizar o cadastro é o Instituto Geográfico. E o que me foi transmitido é que merece ponderação alocar esta tarefa ao Instituto Geográfico ou eventualmente pensar numa unidade de missão. Eu diria à partida que estou mais vocacionada para começarmos a mexer na lei dos solos, com carácter mais prioritário. Agora não digo que não seja possível fazer alguma coisa relativamente ao cadastro."

Repito, esta entrevista deixou-me feliz: a partir desta entrevista a actuação da Ministra só pode mesmo melhorar.
O que não deixa de ser positivo.
henrique pereira dos santos

Domingo, Novembro 22, 2009

Um bom plano?

Varias pessoas manifestaram em comentários a este post a ideia que vale mais um mau plano que plano nenhum. Discordo profundamente deste ponto de vista, que para mim é um ponto de vista comum a quem tem como missão elaborar planos e não de quem tem de os cumprir de seguida.

A nossa história recente está recheada de planos, dos mais diversos formas e feitios e, infelizmente, a experiência é particularmente negativa, desde os patéticos Planos Regionais de Ordenamento Florestal aos inacessíveis Planos de Ordenamento de Albufeiras, as ridículas Normas Técnicas para a elaboração dos Planos de Gestão Florestal, e agora acrescento também o falhado Código Florestal, só para dar uns tristes exemplos recentes que conheço mais de perto. Portugal sofre de uma mania de planos e não há um metro quadrado do território que não esteja abrangido por pelo menos uns quatro planos, todos independentes e desarticulados entre si.

O problema desses planos é que alguém tem de os cumprir.
E esse alguém, já rodeado de dificuldades reais de sobrevivência da sua atividade económica, vê-se confrontado com uma avalanche de planos que vêm basicamente condicionar a sua atividade e impor uma séria de obrigações, para o suposto bem comum.

Outro problema é de alguém tem de os fazer cumprir. E esse alguém desapareceu do terreno de forma acelerada na última década, tornando os planos letra morta.

Não sou contra planos. Mas só devem ser publicados planos que são comprovadamente úteis para a gestão do território em causa. E só devem ser implementados planos que podem ser acompanhados pelas autoridades. Para quem está lá fora, no terreno, um mau plano é mesmo mau, e bem pior que plano nenhum.

Henk Feith

Sábado, Novembro 21, 2009

Uma derrota amarga


Acaba por estes dias a segunda discussão pública da proposta de Plano de Ordenamento do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros.
Foi um processo de que me desligaram há tempos e neste caso confio que não tenha o mesmo destino de um dos outros processos de que me desligaram há tempos, o chamado Freeport.
E eu, por uma questão de equilíbrio mental, desliguei-me intelectualmente da discussão do que se estava a passar, já que o cenário era o que descrevi resumidamente neste post quando começou esta segunda discussão pública.
Mas hoje dei de caras com uma notícia sobre o parecer da QUERCUS que parece que não quer mais parques eólicos no PNSAC.
Não vou, neste momento, gastar o meu latim a tentar perceber o que faz a QUERCUS ser favorável aos parques eólicos em Montezinho e desfavorável no PNSAC, até porque também eu tenho posições diferentes nos dois parques: exactamente as inversas da QUERCUS. Se tiver tempo e disposição ainda poderei retomar o assunto mais tarde.
Hoje quero ser só assinalar a minha derrota total no processo de ordenamento do PNSAC, em que me empenhei profissionalmente gastando muito tempo e muito esforço.
Não por ter sido afastado do processo, não por não serem as minhas ideias a terem vencimento no processo: isso aconteceu-me e acontece-me dezenas de vezes e é natural que assim seja a quem trabalha em matérias deste tipo.
É pelo que posso ver do resultado final, que não me apetece estudar mais profundamente que o que já vi.
Dois exemplos penso que chegam para explicar.
Versão inicial:
Era condicionada (não interdita) "A colheita, corte, captura, abate ou detenção de exemplares de quaisquer espécies vegetais ou animais sujeitas a medidas de protecção, em qualquer fase do seu ciclo biológico, bem como a perturbação ou a destruição dos seus habitats, desde que não seja prejudicada a manutenção das populações da espécie em causa, e quando tal actividade vise proteger a flora e a fauna selvagens ou conservar os habitats naturais, permitir a investigação científica nos termos do artigo 31º deste Regulamento e permitir a reprodução artificial e o repovoamento das espécies em causa;"
Versão actual:
É interdita (não condicionada) "A colheita, captura, abate ou detenção de exemplares de quaisquer espécies da flora e da fauna sujeita a medidas de protecção legal, designadamente nos termos do Decreto-Lei n.º 140/99, de 24 de Abril, com a redacção que lhe foi dada pelo Decreto-Lei n.º 49/2005, de 24 de Fevereiro, incluindo a destruição de ninhos e a apanha de ovos, bem como a perturbação ou a destruição dos seus habitats, com excepção das acções de âmbito científico e de gestão levadas a efeito ou devidamente autorizadas pelo Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade (ICNB), I.P.;"
O que é verdadeiramente alterado de uma norma para a outra?
No primeiro caso o plano limitava-se a ser um complemento da legislação de protecção existente (por exemplo, se o corte deuma espécie era interdito pela legislação de protecção a que se fazia referência, continuaria a ser interdito) e excepcionava da necessidade de autorização as acções que não prejudicassem as populações das espécies em causa, limitando assim as autorizações necessárias, mas criando um enquadramento que permitia de facto fiscalizar e sancionar o prejuízo eventual para os valores a conservar.
No segundo caso, a excepção de bom senso desaparece, tudo é interdito, mesmo quando não prejudica as populações em causa e, mais grave, proibe o que a legislação específica de protecção não proíbe (existem espécies que têm outras medidas de protecção que não implicam a proibição do seu corte, colheita ou abate, dependendo do anexo da directiva habitats em que estão listadas), criando-se uma norma excessiva, inaplicável e, nalguns casos, ridícula, como resulta do facto de passar a ser interdito o corte de gilbardeiras, planta mais que comum em Portugal.
O segundo exemplo é mais simples.
Passa a ser condicionado "A visitação e a entrada nas cavidades cársicas susceptíveis de albergar comunidades de morcegos;". É uma norma tipicamente ideológica criada por alguém tão preocupado com a conservação dos morcegos que não lhe sobra tempo para pensar nos outros aspectos que todas estas normas têm. Na realidade quase todas as cavidades são susceptíveis de albergar morcegos pelo que o que esta norma quer dizer é que a visitação e entrada em praticamente todas as cavidades do PNSAC passam a precisar de uma autorização do ICNB. Claro que ninguém vai ligar nenhuma à norma, com excepção de meia dúzia de pessoas escrupulosas que desesperarão pela emissão destas autorizações (cuja emissão leva aliás ao pagamento de taxas razoáveis), ao mesmo tempo que vêem toda a gente entrar calmamente em todo o lado.
O que mais me incomoda não é o facto de se terem feito opções diferentes das que eu faria. O que me incomoda é a nítida sensação de que não se avaliou verdadeiramente o que agora consta da proposta de plano simplesmente por incompetância técnica: as pessoas verdadeiramente não sabiam o que estavam a fazer.
E é aqui que esta derrota profissional é mais amarga para mim, é nesta verificação da falta de qualidade e bom senso destas aberrações (volto a dizer, só dei dois exemplos, não quero perder mais tempo com isto).
E o absurdo processo de elaboração desta segunda versão permite aos responsáveis por isto não serem responsabilizados pelo que fizeram e não precisaram de fundamentar as suas opções.
Que me desculpem a irritação e a eventual injustiça que resulta de me faltar a disposição para avaliar o plano em toda a sua extensão, mas a sensação com que fico é a de que este plano foi um bocado assucatado.
henrique pereira dos santos

Sexta-feira, Novembro 20, 2009

Democracia de bastidores

Hoje ficámos a saber que a Europa tem novos dirigentes. O Presidente do Conselho Europeu, como se sabe, foi imposto pelo eixo Franco-Alemão. O alto comissário para os assuntos exteriores foi imposto pelo Reino Unido. Tudo na boa tradição Europeia com os Franceses e Alemães a procurarem controlar o rumo da Europa mesmo que contra ventos e marés e os Britânicos a lembrar que é necessário contar com eles ainda que estes raramente contem com os outros. Os restantes Países são forçados a remeter-se ao papel de "claque" torcendo por uns ou por outros e procurando distribuir favores aos "grandes" Países na esperança que algum dia lhe seja distribuída uma migalha de poder Europeu.

Mérito dos candidatos? Não não é por aí que vão as escolhas: os dois escolhidos são praticamente desconhecidos dos Europeus e ainda que tenham as suas qualidades e o seu currículo político - ninguém o nega - não são personalidades carismáticas, capazes de entusiasmar os cidadãos para um projecto Europeu comum. Como diz a revista Economist:

"A man who has been Belgian prime minister for less than a year and a British technocrat who has never held elected office were chosen by European Union leaders on Thursday November 19th to represent their 27 countries around the world, and lead their policy making at the highest level."

É óbvio que nesta escolha tratou-se, essencialmente, de equilibrar os interesses nacionais de alguns Países e escolher personalidades que não fizessem sombra aos respectivos líderes. Esta é velha Europa que herdamos do rescaldo de duas grandes guerras.

É uma Europa que usa a retórica do mérito quando parece bem (ver estratégia de Lisboa) mas que na hora da verdade recorre a velhas soluções medíocres que garantem o "status quo" e dão segurança aos pequenos políticos que capitaneiam os países da União Europeia.

Uma Europa com medo da democracia e que por este motivo bloqueou a proposta de que o Presidente do Conselho Europeu fosse eleito de forma directa pelos cidadãos Europeus.

Uma Europa que espalhou a civilização ocidental pelos quatro cantos do mundo mas que actualmente é mera espectatora de um mundo cada vez mais bipolar em que os EUA e a China se perfilam como as únicas potências que realmente contam.

Uma Europa autista, sem capacidade de liderança e que em momentos críticos como o actual, com uma oportunidade ímpar para restabelecer o multilateralismo, por ter nos Estados Unidos da América um Presidente como Barak Obama, resolve escolher duas personalidades com perfil tecnocrático para representar os interesses Europeus ao mais alto nível.

O que se consegue com isto? manter a preponderância política dos três Países que controlaram a escolha dos novos representantes europeus (Fr, D, UK) e afundar as pretensões de consolidação de uma terceira potencia mundial (a União Europeia) que conte no panorama geo-estratégico internacional.

Ou seja, a velha Europa dos interesses nacionais e das desconfianças históricas entre vizinhos.

Dia 19 de Novembro ficará conhecido como um dia triste para o processo de construção Europeia.

Quinta-feira, Novembro 19, 2009

Gato Bravo

Autor da foto: Renato Fernandes
Local: Planalto do Laboreiro, Parque Nacional da Oeneda-Gerês
Local exacto: Este do Rodeiro Data: 12-3-2009

Como pelo post do Paulo tinha ficado sem saber se sempre era um gato bravo ou não, perguntei-lhe.
A resposta, acompanhada de um desenho e citando uma breve discussão internacional, pareceu-me muito pedagógica para quem anda no campo, começando por falar do gato da fotografia que agora segue neste post, antes de falar da que o Paulo publicou no outro dia:
"A character that has not been mentioned is the colour of the underside of the hindfoot: from toes to heel the colour fades from black to brown/grey. In domestic cats the underside of the hindfoot is usually black over its entire length. I do not see any signs of beeing it a bastard with domestic cat. I presume you have seen that both photographs represent the same individual: see notch in right ear.The dead cat however is more of a problem. That results from a lack of pictures from the backside and the upper side of the tail. So next time please take pictures of all sides of the animal, plus details of underside of all feet, upperside of the tail, and the back! My impression is that it is a domestic cat: the tail has more rings than a wildcat USUALLY has, the right hindfoot seems to have a total black underside (left foot seems to be rather light however), and the striping on the sides is too heavy, not 'washed'. But I am not 100% sure. What was the time of year the cat was found? (Important for the thickness of the tail)."
henrique pereira dos santos, com os agradecimentos ao Paulo, a quem participou na discussão (que não é o meu caso, evidentemente, que não sei distinguir um gato de um leopardo) e ao autor da fotografia que ilustra este post.

Curiosidades III

Glória Gonçalves divulgou a sua tese de mestrado ("Ordenamento e Áreas Urbanizadas Inundáveis:Uma Uma leitura histórico-geográfica entre 1900 a 2007 em Arcos de Valdevez e Ponte da Barca") na lista Ambio há já algum tempo (Setembro de 2009).
Porque a área geográfica me interessa e porque o tema também, perguntei como lhe poderia ter acesso.
Simpaticamente, e para leitura privada, foi-me cedida uma cópia digital não totalmente revista. Porque alguns mapas me interessaram, pedi os dados de base para fazer um gráfico que é inteiramente da minha responsabilidade e que é esse que está em cima.
A mancha a cheio, associada à escala da direita, é a evolução da população do Concelho de Arcos de Valdevez desde 1864 (os dados anteriores não incluíam o então concelho do Soajo e outras freguesias relevantes para o que eu queria, pelo que os excluí).
O que me interessa relevar:
1) Mesmo sendo os Arcos um concelho relativamente rico do ponto de vista agrícola (não tanto como Vila do Conde, por exemplo, mas bastante mais que Vimioso ou Estremoz, também para usar exemplos), há uma perda acentuada de população a partir do censo de 1970 (em rigor já há uma pequena perda no censo de 1960). Nada que não seja conhecido, com maiores ou menores amplitudes em quase todo o Portugal que não se inclua em áreas metropolitanas;
2) O que me interessa não é pois esta trivialidade bem conhecida, mas pôr em evidência que esta evolução da população concelhia esconde dinâmicas internas do Concelho substancialmente diferentes, traduzidas nas linhas a cores, relacionadas com a escala da esquerda;
3) A sede do Concelho, se traduzida pelas suas duas freguesias quase estritamente urbanas, segue um padrão semelhante ao do concelho (com excepção do censo de 1920, especulo eu que em consequência da gripe espanhola, mas é pura especulação), mas bastante mitigado, isto é, com perdas menores de população de 1960 para cá;
4) Mas em rigor este padrão não pode ser separado da evolução da linha que aparece como suburbana, para a tradução da qual escolhi a freguesia de Vila Fonche, em que o padrão difere substancialmente das restantes por esta freguesia ganhar população consistentemente desde o censo de 1981;
5) Isto significa que se a área urbana incluir as freguesias limítrofes (e nos Arcos as freguesias urbanas são mesmo muito pequenas e restritas ao casco urbano antigo e pouco mais) parece ser claro que não há grande perda de população na sede do Concelho (admitindo que há alguma);
6) Escolhi duas freguesias para ilustrar o que se passa nos vales mais ricos e, neste caso, situadas nas linhas de circulação mais urbana, entre Arcos, Barca e Ponte de Lima. E também aí vemos que o padrão de evolução é bastante amenizado em relação ao concelho considerado globalmente, com perdas suaves de população. Há num entanto um fenómeno que um gráfico de população residente não pode mostrar, que é a alteração das características das populações destas freguesias, próximas e com bons acessos a centros urbanos: grande parte da população que lá fica deixou de viver da agricultura, para viver ou da construção civil e indústria (que há alguma na zona) ou dos serviços na vila (bancários, professores, polícias, etc.). Do ponto de vista da evolução do território esta manutenção de população, com alteração da sua actividade, tem alguns efeitos próximos dos do abandono rural;
7) Escolhi duas freguesias da serra (Soajo e Miranda) para ilustrar de onde vem a quebra acentuada de população, que não merece muitos comentários de tal modo o gráfico é expressivo.
Que evolução futura poderemos esperar do que se vê.
Os centros urbanos, as vilas onde se funda o poder local (repare-se como o peso eleitoral da sede do Concelho se acentua de forma brutal face ao conjunto da população concelhia, crescendo cerca de 25% neste intervalo, de acordo com umas contas de merceeiro que aqui fiz), têm vindo a crescer com o abandono do seu hinterland.
Este crescimento faz-se sobretudo pelo aumento da cobertura dos serviços públicos, pelo investimento público em infra-estruturas, pela construção civil financiada quer por esta deslocação das aldeias para as vilas quer pelos recursos dos que se foram embora e pelas transferências da segurança social, incluindo alguns subsídios agrícolas que são na verdade apoios sociais disfarçados de apoio ao rendimento do agricultor.
Ora os serviços públicos estão em recuo (e estarão mais face ao endividamento do Estado), o ciclo de infra-estruturação tende a abrandar (porque o essencial está feito e porque o Estado está falido), o ciclo da renovação do alojamento está quase esgotado e os velhos, receptores das transferências sociais, vão morrendo.
Os orgulhosos concelhos que hoje proclamam a sua libertação da desvalorizada condição rural, por exemplo apoiando a remoção dos obstáculos à protecção do solo agrícola de que sempre dependeram e de que agora dizem não precisar, correm sérios riscos de perceber tarde de mais que depois das aldeias vazias não sobram razões para manter os núcleos urbanos que organizavam os mercados e serviços essenciais ao desenvolvimento da produção agrícola e pecuária.
henrique pereira dos santos

Terça-feira, Novembro 17, 2009

O que é uma ONG?

" Crowd", Diana Ong

Quarto e último post da série desencadeada pelos comentários de Miguel Rodrigues sobre a questão da conservação do lince.
Note-se que nos comentários deste post e deste e ainda deste, a discussão continua lenta e civilizadamente.
Há bastantes anos, numa das poucas vezes que fui a Inglaterra (já vivi em mais de quarenta casas diferentes, pelas minhas contas, mas sempre viajei pouco) encontrei um indivíduo que geria um excelente projecto de educação ambiental. A fórmula organizativa que tinha escolhido para gerir o projecto era a de empresa sem fins lucrativos (ao contrário do que muitas vezes se diz, a função distintiva da empresa é criar riqueza, não é dar lucro. O lucro é uma condição de sobrevivência). Surpreendido perguntei-lhe se não teria sido melhor fazer uma ONG. Explicou-me que sim, que poderia ter optado por isso, mas não queria fazer duas coisas essenciais numa associação: uma news letter pelo menos uma vez no ano com a demonstração do bom uso do dinheiro dos sócios e uma gestão de sócios que inevitavelmente consome recursos importantes.
Eu acho que este senhor definiu de forma magistral as características base de uma ONG.
Uma associação é uma organização que junta pessoas com interesses comuns que estão disponíveis para aplicar os seus recursos para materializar esses interesses. E porque entregam os seus recursos à associação, querem ter garantias de que são usados para os fins comuns que definem a associação.
Em Portugal não se pensa assim. Em Portugal pensa-se que uma associação tem fins definidos por obra e graça do Espírito Santo, fins esses que definem um estatuto moral superior a quem os persegue, pelo que a missão das direcções das associações não é materializar o que os sócios querem mas encontrar os meios para executar os fins da associação.
Desde que os recursos existam, os sócios são dispensáveis, porque os sócios, nesta concepção, são meros canalizadores de recursos para a prosecução de fins míticos que se impõem como evidências reveladas e não resultam da manifestação de vontade dos sócios.
Se, como é o caso em Portugal, é fácil arranjar fundos porque o Estado está capturado pelos grupos de interesses (onde se incluem todo o tipo de associações) e porque os recursos do Estado canalizados via Comissão Europeia (anda por aí gente enganada que acha que os fundos europeus não são recursos do Estado) são abundantes o trabalho essencial das direcções das ONGs é garantir que uma fatia desses fundos entram nas associações, tornando mínimo o peso do financiamento das associações pelos sócios, o que os torna inúteis (quando não um empecilho).
O que transforma as ONGs em empresas de prestação de serviços, que concorrem deslealmente com as empresas registadas como tais pela execução de projectos. E concorrem deslealmente, não só porque têm alguns benefícios (e condescendência na hora de analisar os resultados) como sobretudo detêm uma capacidade de influenciar as decisões que as favorecem na obtenção de recursos, usando para isso o seu estatuto de grupo de interesses socialmente positivo.
A demonstração de que as coisas são mais ou menos assim é que as maiores ONGs de Portugal, na área do ambiente (não estou a falar do ACP, uma grande ONG, talvez a maior, em Portugal) não têm departamentos de sócios consistentes e poderosos, mas têm departamentos técnicos bastante alargados.
Quer isto dizer que as ONGs devem estar impedidas de ter projectos?
Do meu ponto de vista, de maneira nenhuma. Mas deveriam estar obrigadas a ter o núcleo duro do seu funcionamento, nomeadamente a pessoa que decide tecnicamente sobre as opções da associação (ou se não decide, propõe e formata as decisões de terceiros) completamente financiada pelos sócios, única garantia de que as decisões sobre os projectos das ONGs visavam efectivamente cumprir a vontade dos sócios e não apenas garantir o emprego a quem tem o seu salário dependente do trabalho nas ONGs.
E completa separação de funções electivas e funções remuneradas (com excepção das que estatutariamente seja exercidas remuneradamente e precedidas de eleição, que neste caso deve implicar restrições fortes ao exercício do cargo, como a limitação de mandatos, a não participação em decisões estratégicas ou das quais seja beneficiário e a existência de um órgão de decisão superior a quem seja devido reporte frequente e detalhado).
Sem isto eu considero que não se está perante verdadeiras ONGs mas sim de empresas imperfeitas.
Que podem ser muito úteis, mas não são grupos de interesses organizados a partir de uma base de participação inteiramente livre.
henrique pereira dos santos

Animais proibidos

Da lista de discussão Ambio reproduzo, com autorização de Sérgio Henriques, uma mensagem interessante:

"Saíu a 12 de Outubro a portaria n.º 1226/2009, onde no seu artigo 5.º se pode ler que "Os detentores de espécimes das espécies listadas no anexo II da presente portaria, que dela faz parte integrante, têm de ser maiores de idade e registar os espécimes detidos no ICNB, I.P."
O referido anexo contém espécies como
4 — Arachnida (classe dos aracnídeos):
4.1 — Araneae (ordem das aranhas) — todas as espécies;
4.2 — Scorpiones (ordem dos escorpiões) — todas as espécies não listadas no anexo I.
5 — Chilopoda (classe das centopeias) — todas as espécies não listadas no anexo I.
sendo que o anexo 1 refere:
4.1 — Scorpiones (ordem dos escorpiões) — todas as espécies das famílias Buthidae e Buthridae;
4.2 — Chilopoda (classe das centopeias) — todas as espécies da ordem Scolopendromorpha.
Não dando muita ênfase ao facto dos escorpiões da familia Buthridae não existirem e que é possívelmente um gafe com a família Buthidae, já referida no mesmo anexo. Solicito a todos o receptores desta mensagem que regularizem a sua situação legal até ao dia 12 de Dezembro como mencionado na mesma portaria), uma vez que certamente serão detentores de exemplares das espécies referidas (muitos de vós possivelmente possuem sotãos, caves, garagens ou jardins, e mesmo no interior das vossas casas certamente já terão visto aranhas).
Pelo que de acordo com a referida portaria, o que deverão fazer é registar os animais destes grupos que possuam em vossas casas, e caso não os consigam determinar o que lhes sugiro é que enviem fotos dos mesmo para o ICNB, para que este proceda a essa identificação e ao seu respectivo registo.
O texto a enviar poderá ser algo do tipo:
Eu........., portador do B.I. nº.........., venho ao abrigo da Portaria n.º 1226/2009, requerer o registo de espécimes do grupo ..............., como exigido de acordo com o anexo 5.º da mesma portaria.
Enviando em anexo fotos dos referidos exemplares, para que se possa proceder à sua identificação e registo.
Cumprimentos
..........; ......., ../../..
Refira-se que o referido registo tem uma taxa de inscrição inicial de 125,00 €, podendo o valor ser acrescido de um pagamento anual de 50,00 €, conforme a parte V da tabela de Taxas anexas à Portaria nº1245/2009, de 13 de Outubro.
Melhores cumprimentos
Sérgio Henriques
Almargem

henrique pereira dos santos

Segunda-feira, Novembro 16, 2009

primavera no outono

Num passeio de domingo à tarde na zona cársica do concelho de Santarém, deparei-me com um fenómeno curioso: vi azinheiras com lançamentos novos como se fosse primavera (ver foto acima). O crescimento policíclico das quercíneas é conhecido (na Holanda até dá nome ao "raminho de São João", que ocorre normalmente por volta do dia 24 de junho, sendo o segundo momento de crescimento no ano) e origina 2-3 impulsos de crescimento num ano. No entanto, estes crescimentos verificam-se normalmente durante a primavera e verão e nunca tinha observado no outono.

Ao continuar o passeio, verifiquei semelhante crescimento em vinhas:

e uma macieira em flor (com a curiosidade de fotografar um ramo com maçã e flor):
Na véspera tinha visto a mesma coisa numa nogueira (nova folha) e pessegueiro (em flor).

Fica registada a curiosidade. Não sei se é normal acontecer num tipo de outono que tivemos (muito quente e seco em outubro com bastante chuva e temperaturas amenas de seguida), mas vou estar mais atento a isso.

Henk Feith


Domingo, Novembro 15, 2009

E os outros “linces”


Andava eu nas minhas andanças do costume, quando nesta semana numa das noites tropecei num bicho morto, que aparentemente seria um gato-barvo (Felis silvestris), não foi o facto de ser era ou não um Gato-bravo que me levou a fazer este post, mas sim o resultado de um pequeno exercício mental.

Durante os breves segundos que estive à espera que o GPS captasse satélites suficientes para tirar as coordenadas do ponto, tentei fazer um mapa mental da distribuição do Gato-bravo (exercício que gosto e faço regularmente), e sinceramente tive alguma dificuldade. Como o céu estava bastante carrascão e o relevo não ajudava o GPS demorou mais alguns segundos do que o normal, o que me deu tempo para fazer mais uns exercícios passando pela doninha (Mustela erminea), toirão (Mustela putorius) e marta (Martes martes), resultado: a dificuldade aumentou.

Isto tudo levou-me a uma breve reflexão: tendo em conta que o conhecimento dos valores a conservar é a base para a sua conservação, será que temos o trabalho de casa feito?



Sábado, Novembro 14, 2009

The good news show ou como a agricultura intensiva pode ajudar a salvar uma espécie criticamente em perigo

Foto de Francisco Calado tirado daqui.
O chasco-preto (Oenanthe leucura) é uma espécie classificada no Livro Vermelho de Vertebrados de Portugal como Criticamente em Perigo. No entanto, no IUCN Redlist, a espécie está classificada como "Least Concern". (Este fenómeno de grandes diferenças entre a classificação nacional no LVVP e a IUCN Redlist é muito frequente e deixa-me por vezes um pouco confuso, mas não é tópico deste post).

A ocorrência da espécie, outrora com uma ampla distribuição pelo interior do país, de norte a sul, é hoje confinada aos troços superiores do Douro e Tejo.

Na última edição (18/2008) da revista Airo, editada pela SPEA, foi publicado um artigo da autoria de Tiago Múrias et al., que relata um estudo sobre a ocorrência e nidificação do chasco-preto na região de Foz-Tua, na região demarcada de vinho do Douro. A espécie terá mostrado uma tendência de aumento da sua subpopulação na região estudada e, segundo o artigo, e passo a citar, "uma explicação para o aparente aumento da espécie na área é a de que a substituição das vinhas tradicionais por vinhas de tipo intensivo ou semi-intensivo promove condições para um aumento da disponibilidade alimentar (sobretudo fauna do solo) que, asociada á existência de numerosos e relativamente seguros potenciais locais de nidificação, favorece a expansão local do chasco-preto".

Ora e essa agora. Estávamos todos obrigados a acreditar que o grande mal em termos da biodiversidade é o abandono da agricultura tradicional, vem aí um estudo que mostra uma espécie às portas da extinção (pelo menos em Portugal) que tem nos suspeitos agricultores modernos um amigo que vem dar uma ajudinha ao simpático chasco-preto.

É o que eu chamo uma boa nóticia, para o chasco-preto e para mostrar que a realidade é sempre, sempre mais complexa que se quer fazer crer. E obrigado Tiago, pela objetividade do artigo e suas conclusões.

Henk feith