terça-feira, janeiro 31, 2006

Pinheiro e eucalipto: caminhos para actualização de atitudes e posições no movimento ambientalista

Por Carlos Aguiar

Haverá pouca gente que sinta um misto de amizade, gratidão e admiração pelo Dr. Paiva tão profundo como eu. Além das qualidades humanas e da generosidade como activista pela causa ambiental, admiro no Dr. Paiva o saber botânico e o trabalho Científico que produziu, e produz, nesta ciência em Portugal (para quem não sabe, o Dr. Paiva é editor de alguns dos volumes da Flora Iberica, talvez a mais prestigiosa obra de taxonomia botânica Europeia pós Flora Europaea). Alguém tão perseguido pelos seus pares por delito de opinião como o Dr. Paiva entende que as suas posições públicas estão sujeitas a um escrutínio atento e cuidadoso. Além do mais, o Dr. Paiva sabe que a sua opinião conta e, por isso, escreve com um evidente intuito de estimular a discussão e de abanar as mentes. Como ambos recusamos o beija-mão das ideias dominantes, julgo seria incorrecto para com ele e para com os leitores deste blogue não assumir a minha discordância com algumas das suas opiniões.

O preâmbulo paleoecológico do artigo do Dr. Paiva foi já suficientemente dissecado [nota do blogue: este aspecto será abordado noutro "post"] . Por isso, vou focar a análise numa questão paralela ao texto do Dr. Paiva: é o pinheiro-bravo indígena de Portugal? Ser ou não ser autóctone faz toda a diferença porque condiciona a interpretação da acção dos serviços florestais durante o séc. XX. A informação paleoecológica disponível é peremptória, o Pinus pinaster é indígena de Portugal!


Durante grande parte do Holocénico co-existiram no território português dois ecótipos distintos: um litoral e outro continental. O ecótipo litoral é indígena, pelo menos, dos sistemas dunares a norte da Figueira da Foz e das paleodunas sadenses. O ecótipo continental foi extinto pelo Homem através da acção combinada do encurtamento do ciclo de recorrência dos fogos, sobrexploração e poluição genética. Este ecótipo ocupava solos delgados, sobretudo em encostas de grande declive; possivelmente alternava nos mesmos espaços com Querci, num ciclo controlado pelo fogo. Lamentavelmente, as arborizações feitas no interior do país foram realizadas com o ecótipo litoral (a maioria dos sementões portugueses estão nas matas nacionais do centro-oeste) daí as fraquíssimas taxas de crescimento nos territórios mais mediterrânico-continentais (algo que ninguém sabia no início do séc. XX).

Do ponto de vista técnico, as arborizações com Pinus estão correctamente justificadas no Plano de Povoamento Florestal (1938-1968) ou no "Reconhecimento dos baldios do continente", documentos, diga-se de enorme solidez e substância técnica. Está escrito que os Pinus actuariam como espécies pioneiras que, além de produzirem riqueza, abririam caminho aos Quercus e à reconstituição de fertilidades perdidas (reparem nos objectivos de emulação dos sistemas naturais). A ideologia subjacente aos planos de arborização era simples: produzir riqueza e restaurar a fertilidade do solo num país pobre, sobrepovoado e sem recursos naturais, profundamente degradado pelo Homem, de fraca aptidão agrícola e com uma enorme falta de matérias lenhosos. Os objectivos de produção de riqueza e de restauração ecológica foram cumpridos enquanto as premissas sociais dos planos de arborização i.e., as características dos sistemas sociais não se alteraram. No meu entender, é injusto apontar um dedo acusador aos idealizadores do Plano de Povoamento Florestal porque este dificilmente podiam prever que o fogo acabaria por atrasar os objectivos de criar um Portugal mais produtivo, e que seria o abandono a abrir caminho aos Querci. De facto, para já não falar nos sistemas de preços e no controlo estatal dos mercados, os sistemas sociais nas sociedades modernas mudam a um taxa francamente superior à duração do ciclo biológico das árvores: por isso é tão difícil planear a floresta.

A conclusão avançada pelo Dr. Paiva " ... pinhais e eucaliptais contínuos, os incêndios florestais tornaram-se não só frequentes, como também incontroláveis. Desta maneira, o nosso país tem já algumas montanhas transformadas em zonas desérticas" necessita de ser clarificada. Na realidade, as montanhas e outras áreas marginais onde o pinheiro (e o eucalipto) têm baixos crescimentos anuais e são pouco rendáveis, utilizando a metáfora do deserto, voltaram a ser o "deserto" que eram. Portanto, a crítica maior às arborização em áreas marginais, concretamente de montanha, tanto de Pinus como de Eucalyptus, não é uma hipotética degradação do território mais sim o enorme desperdício de recursos públicos e privados para tudo ficar na mesma, i.e., um mau investimento da riqueza num país pobre. Quando os erros começaram a ser percepcionados - e o movimento ecologistas foi essencial neste processo - as políticas públicas e os comportamentos demoraram demasiado tempo a mudar, em grande parte por causa o hábito nefasto, que nos caracteriza e persiste, de não fazermos contas e de nada monitorizarmos. As empresas de celuloses, após a mudança de uma lógica pública para uma lógica privada, aprenderam com o erro e rapidamente arrepiaram caminho: investiram em I&D e concentraram as suas actividades onde o eucalipto é rentável … e o mesmo pode acontecer com o pinheiro-bravo. Como os critérios de eficiência e eficácia económica, por atavismo ideológico, demorou (demora?) a impregnar ao Estado, as políticas estatais de arborização continuaram a propagar e a repetir os mesmos erros por muito tempo (até hoje?).

Agora vamos ao eucalipto. A questão que se põe é a seguinte: devemos repudiar a cultura do eucalipto? Esquecer a floresta de produção e dedicar os recursos públicos aos Querci? Começo por expor as minhas dúvidas. Alguém já estudou a taxas de rentabilidade associadas à produção de eucalipto? Por outras palavras, nas áreas onde o Eucalipto é rentável, e estas são cada vez menores com a expansão por exemplo do Eucalyptus grandis (e derivados híbridos) no Brasil, esta cultura compromete significativamente o seu uso futuro? Estamos a passar uma factura pesada para as gerações futuras? Vejamos. É maior o impacte (controlo) nos usos futuros da agricultura de eucaliptos, porque na realidade é isso que se trata (o eucalipto fertiliza-se e cuida-se como uma árvore de fruto), do que usos alternatives como sejam o cultivo de cereais, o corte tradicional de matos ou a produção de mato para arder, e a consequente exportação de nutrientes? Por exemplo, no médio-longo prazo, a hipotética produção de energia a partir de biomassa, defendida pelo actual governo, não será ambientalmente mais gravosa do que a produção de eucaliptos? Para onde irão as cinzas da oxidação das lenhas nas centrais de biomassa? Não bastaram já 5000 anos de "nutrient mining" nas paisagens portuguesas? Na realidade, o eucalipto é tão estranho aos ecossistemas portugueses como o milho, o trigo, o pessegueiro ou a amendoeira. O seu efeito simplificador (ou de substituição) das biocenoses autóctones não é maior do que um milheiral regado com um pivot ou um campo de cebolas numa maceira do Minho. As dificuldades em restaurar os espaços cultivados com eucalipto são bem menores do que num baldio queimado de 5 em 5 anos. Mais perguntas. Não é verdade que a fertilização do eucalipto garante a manutenção da fertilidade do solo de uma forma francamente mais eficiente do que os cereais extensivos "criados" à custa da mineralização da matéria orgânica? e que a cerealicultura deixa o solo bem mais exposto à erosão do que árvores e as toiças dispostas ao longo de curvas de nível? Nas áreas onde o eucalipto é rentável o efeito facilitador da agricultura de eucaliptos nos Querci não é maior do que os pomares macieiras ou aveleiras ou a cerealicultura? E recupero mais uma vez a velha questão: onde é maior o impacte da produção de uma tonelada de pasta de papel? No Minho ou na baixa fluminense? Mais; é ambientalmente mais vantajoso produzir uma tonelada de papel num sistema semi-intensivo ou extensivo (i.e. numa área de maior dimensão)? Portanto, partindo do princípio que o papel é indispensável, a bandeira ecologista nos dias de hoje não pode ser a mesma de há 20 anos atrás.


O movimento ecologista tem que lutar, sim, 1) pelo fim das transferências de riqueza, mediadas pelo estado, através de benefícios fiscais e subsídios, para as celuloses e para produtores florestais irresponsáveis; 2) pugnar por políticas e um planeamento florestal a escalas cartográficas cada vez mais pequenas, em que os custos de oportunidade dos usos sejam quantificados (e.g. substituição de bosques nascentes por monoculturas). A produção de riqueza com a agricultura de eucaliptos tem de ser real e as suas taxas de rentabilidade alteradas (provavelmente reduzidas), através da internalização das suas externalidades negativas (por exemplo, taxas sobre a redução na recarga dos aquíferos e sobre a erosão), mas também das suas externalidades positivas (fixação de carbono). Adicionalmente, é fundamental a internalização das externalidades positivas das folhosas (o que no entanto já tem sido parcialmente feito através dos apoios à florestação) e, para evitar enviesamentos, não esquecer a internalização das externalidades negativas de usos alternativos como a cerealicultura. Como há já alguns anos defendi na AMBIO os critérios de eficiência económica têm cada vez de estar mais próximos do pensamento ecologista.

No meu entender a crítica radical contra o eucalipto de hoje é, sobretudo, ideológica, e, por definição, não refutável. Consequentemente, por uma questão de honestidade científica, estou acordo com as posições do Paulo Canaveira. Não há que ter medo da transferência do eucalipto para antigas áreas agrícolas, pelo contrário! Esta modificação da geografia agro-florestal seria francamente favorável porque libertaria as áreas marginais para a conservação da Natureza e para a produção de bens e serviços que nos são indispensáveis (amenidades, ciclo da água, etc).

Agora, a luta do Dr. Paiva foi inútil? Não, de modo algum? Alertou para os perigos da conivência entre o poder político e as falsas promessas de riqueza. A sua luta foi sobretudo contra a ignorância, a incoerência e contra um estado amador e dominador: portanto, estou com ele.



Engenheiro Agrónomo , Escola Superior Agrária de Bragança

3 comentários:

Anónimo disse...

"Não há que ter medo da transferência do eucalipto para antigas áreas agrícolas, pelo contrário!"
Eucaliptos em terrenos agricolas de sequeiro ou regadio? Mas está tudo doido?

"Agora, a luta do Dr. Paiva foi inútil? Não..."
"FOI"?! Já lhe reza pela alma?
Ainda agora começou! viva a luta, mais actual que nunca, do Dr. Paiva contra a eucaliptizaçaõ!

Henrique Pereira dos Santos disse...

Infelizmente o comentário não é assinado, o que considero de boa prática, mas mesmo assim merece um contra-comentário.
Aquilo a que se está a chamar terrenos agrícolas (e não vale a pena falar aqui dos terrenos de regadio, que não é disso que se trata) são muitas vezes terrenos marginalmente produtivos, e a alternativa não é entre pôr eucaliptos ou mantê-los agricultados, mas ter eucaliptos ou abandoná-los. Por outro lado, se a mata de produção não utiliza estes terrenos marginais, naturalmente terá de ocupar outros terrenos, mais marginais ainda, de menor produtividade e, normalmente, de maior valor conservacionista.
Vale pois a pena fazer a discussão de forma calme e ponderada, sempre tendo presente a pergunta: que fazer ao território marginal? Que fazer ao território que o mercado abandona?
henrique pereira dos santos

mateiro disse...

MBA

obrigado pela sua escrita.
haja quem a leia.
penso ainda, que o pensamento ecologista, tem de avaliar e acautelar a eficiência e RESULTADOS económicos, sob pena de os € se esfumarem.
e sem eles, nada feito.
Concorrência sã, conclusiva e... não obstrução por obstrução.