terça-feira, janeiro 31, 2006

“Eucaliptização” e vulnerabilidade aos incêndios

Por Paulo Fernandes

Porque arde com tanta intensidade e em tão grande extensão o pinhal e o eucaliptal nacionais? Porque regra geral constituem manchas extensas e contínuas, em estado de abandono ou sub-gestão, de espécies que produzem combustível de qualidade e em quantidade. Jorge Paiva ao referir-se à perigosidade do eucalipto dá no seu texto alguma ênfase ao contributo dos respectivos óleos e resinas, que culmina na frase “ … quando a madeira do eucalipto começa a arder, [os óleos] provocam a explosão dos troncos e respectiva ramada, lançando ramos incandescentes a grande distância”. A composição química da vegetação é na verdade apenas um dos vários factores envolvidos, desempenhando um papel relativamente menor na propagação e intensidade do fogo.

Vegetação com mais substâncias voláteis pode ser mais inflamável, mas este efeito é em muitas espécies anulado ou moderado por outros factores. Um exemplo evidente são espécies como a esteva ou o alecrim, que malgrado a sua composição química são bastante menos inflamáveis que o tojo, por exemplo. É então mais relevante considerar a combustibilidade, ou seja a libertação potencial de energia, conceito distinto do potencial de ignição, e que condiciona a severidade de um incêndio. Da biomassa disponível para arder – uma conjugação da quantidade existente com o seu teor de humidade, dimensão e posição relativamente ao fogo – e do seu arranjo espacial dependem essencialmente a severidade do fogo. Acontece que espécies razoavelmente produtivas e cuja biomassa morta é decomposta lentamente, como o são o pinheiro bravo e o eucalipto, acumulam combustível com rapidez e em quantidade, especialmente em ambiente mediterrâneo (onde a decomposição é já naturalmente lenta).

A presença dos óleos e resinas na vegetação está usualmente associada a um maior poder calorífico. O eucalipto tem cerca de 21000 Joules por grama de poder calorífico, valor considerado relativamente moderado e algo abaixo de certas urzes (Erica arborea, por exemplo) que, sem substâncias voláteis na sua composição, se aproximam de 24000 Joules por grama. As “explosões” a que Jorge Paiva se refere não são mais do que a inflamação dos gases libertados pela biomassa quando é aquecida. O eucalipto é exuberante em "explosões" porque é rico em voláteis, mas tal não acarreta necessariamente fogos mais intensos. Note-se que, contrariamente ao pinhal, raras vezes é o eucaliptal percorrido por fogo de copas, a não ser em plantações mais jovens e/ou em terreno muito declivoso. A inflamação dos gases leva ao envolvimento de mais biomassa na combustão, mas certamente não origina a explosão de troncos, que nem sequer ardem, a não ser que estejam mortos ou sejam bastante finos.

Um factor que concorre em extremo grau para a ameaça colocada pelo eucalipto, e que dificulta sobremaneira o combate ao incêndio, são as características aerodinâmicas das folhas e cascas, que possibilitam os abundantes e conhecidos focos secundários a longa distância (500 a 1000 m). Em todo o caso valores modestos em comparação com os 20 a 30 km de "saltos de fogo" que estão documentados para certas espécies de eucaliptos, felizmente confinadas à Austrália. É este fenómeno que explica a generalizada prática Australiana de execução de fogo controlado em eucaliptal em grande escala, receita que aliás aplicam também ao pinheiro bravo, a fim de simultaneamente aumentar a facilidade de combate de um incêndio e reduzir o seu potencial de produção de focos secundários.

Incêndios de grande intensidade provenientes de pinhais, eucaliptais e matos são usualmente facilmente extinguíveis e reduzem a sua severidade para níveis não letais ao entrarem em bosques caducifólios, devido à natureza do combustível dessas formações, aumento da humidade e redução do vento. Pode este efeito ser conseguido em pinhal e eucaliptal? Certamente, mas a obtenção de resultados práticos exigiria um esforço considerável de gestão de combustíveis e de silvicultura preventiva. O sucesso de uma estratégia deste tipo, no nosso País, está à partida limitado pela debilidade do combate a incêndios que, fatalmente, desperdiçaria essas oportunidades. E a sua implementação será na maioria das situações uma quimera, dada a escala espacial de intervenção que é requerida. Mas não tão irrealista como a proposta de arranque de toiças de eucalipto advogada por Jorge Paiva …


Engenheiro Florestal, Departamento Florestal, Universidade de Tras-os-Montes e Alto Douro

2 comentários:

mateiro disse...

estou abazurdido.

que grande confusão anda na cabeça dos ambientalistas, que já verifiquei,"trocam impressões", baseando as
opiniões em investigações científicas.

Vou desistir do âmbio, mas entretanto deixe -me transmitir o seguinte:

o eucalipto, foi incentivado porque É efectivamente uma espécie
(embora exótica como o pinho...),rentável a curto prazo.
Para que isso se confirmasse, foi acompanhada genéticamente, culturalmente, sanitáriamente,
financeiramente (ex. juro),
exploração(entenda-se tereno plantado/indústria).

temos 10% de terrenos eucaliptados;
em 33% de terreno florestal;
num país que tem potencialidades exclusivas, para 55% da área.Isto é,cerca de 5 500 000 has.
Dos quais, e incluindo o que está queimado, não haverá 3 000 000 de has.

Ainda, e porque os eucaliptais pressupõem
cuidados anuais de limpeza, para que se atinjam as tais produções, SÓ provocam fogos de copa.
Que estão dependentes de de detecção atempada do foco de incêndio,da rapidêz e meios dos bombeiros, que podem ou não gostar de si( o comandante, claro),da água disponível, que normalmente são pequenos tanques -250, 500 lts, cheios de tinónis e bombeiros encarniçados a correr e serem importantes, que gastam os litros em 2/ 5 minutos e deveriam gastar, usando a cabeça,
em 15 / 20 minutos,voltam , revoltam , correm, speedam, com tinónis e sem água, etc.,etc.,etc., .

E depois, o rescaldo.
Deficiente,Mal feito e a correr, PORQUE:
NÃO HÀ CABEÇA.
E infelizmente, morrem.
Porque não há controle.
Ainda por cimas e agora, todo o bicho tem telemóveis, que é uma forma de cada um ser chefe.
Sem coordenação. Até porque as escutas telefónicas são para casos especiais e depois,..., afinal são ilegais.

SOBRETUDO, porque não há acerto de políticas.
Andam sempre zangados, todos querem mandar, gastam e não recebem e não se entende como subsistem, têm quartéis milionários e não têm capital, enfim, uma ORGIA.
Que me recorde, hà 35 anos.

O pinho, não é limpo, é uma reserva bancária e .....os intermediários tanto oferecem 1000€, como amanhã pagam 3000€.
Pelo mesmo.

Mas, digo-lhe mais se lhe interessar.

Se o PQP vender as celuloses, são mais 5000 desempregados directos e provàvelmente 40 000 indirectos.Fora os familiares.
Queé pouco, claro para esta merdice de país.
boa noite.
Só hoje, terão sido 15 000 refeições pagas pelo erário público(povo/impostos).
POnha 50 € e são 750 000€.
Não estou a criticar, estou a alertar, são 21430 m3 de eucalipto na fábrica (+/-) 2% do consumo anual.
143 has de eucalipto.
o.o5% produção anual.
boa noite

mateiro disse...

o ambiguo

in "eucalipto, o dogma".

onde está?