segunda-feira, janeiro 30, 2006

Eucalipto: O Dogma

Tendo o artigo de Jorge Paiva como mote seguir-se-ão alguns artigos, ou comentários, provenientes de pessoas que se manifestaram publicamente sobre o referido texto quando este foi divulgado na lista AMBIO. Sugere-se igualmente a leitura de um texto anterior, de Pedro Bingre, que ajuda a contextualizar o tema em foco. O primeiro destes textos que agora se publicam é de autoria de Paulo Canaveira. Espera-se que do saudável confronto de opiniões se contribua para aprofundar uma matéria que é do interesse generalizado de muitos os que lêem este blogue.


Por Paulo Canaveira

Nos anos 70/80 observou-se uma rápida alteração de paisagem. O eucalipto (na verdade várias espécies de eucaliptos) presente no nosso País há muitos anos subitamente passa de uma espécie ornamental e de produção de sombra para a ribalta da comunicação e da luta ambiental.

Porquê? Porque estava em curso uma (muito) rápida mudança da paisagem portuguesa com a expansão de plantações de eucalipto um pouco por todo o País. Na altura os promotores dessas arborizações acreditavam que o eucalipto poderia crescer igualmente bem em quase todas as condições do nosso território, bem como constituir-se como alternativa num contexto agrícola que apresentava os primeiros sinais de declínio. Por outro lado, o crescimento industrial dessa altura ditava uma pressão de arborização que assegurasse o abastecimento da matéria-prima em quantidade e qualidade suficientes.

O processo foi obviamente rápido demais e generalizado demais. É hoje notório que o eucalipto não é uma espécie que possa ser produzido em qualquer ponto do território. Existem várias situações que ilustram estas “tentativas falhadas” – vejam-se os eucaliptais em Mértola, por exemplo.

A reacção não se fez tardar e o movimento ecologista levantou-se contra esta dinâmica da paisagem. Motivavam-no justas preocupações com a qualidade do solo, consumo de água e redução de biodiversidade. Alguns dos projectos falhados alimentavam com argumentos esta luta e generalizou-se e cristalizou na sociedade portuguesa este conceito de “árvore demónio”, hoje aparentemente inatacável.

A par destes projectos falhados foram feitas muitas arborizações com um enorme sucesso produtivo. A capacidade de produção de fibra e a qualidade da fibra produzida não têm par com as espécies de árvores da flora nativa de Portugal.

Ainda assim, subsistiam dúvidas legítimas sobre o impacto ambiental do eucalipto que era necessário esclarecer. Isso motivou uma investigação e experimentação sem precedentes na história florestal (e agrícola) deste País. 20 anos dessa investigação mudaram muita coisa – desde as variedades de eucalipto utilizadas, às práticas de gestão “recomendadas” e postas em prática no terreno.

O que hoje observamos no território português, quando falamos de eucalipto, é uma mistura de projectos falhados, projectos com uma gestão amadora e projectos com uma gestão altamente sofisticada, apoiada na melhor ciência disponível. Por outra perspectiva, observamos projectos de eucalipto bem localizados (em termos edafo-climáticos) e projectos em locais que não suportam condições adequadas para esta espécie.

Faz sentido, na situação actual, falar dos benefícios ou malefícios do eucalipto? Eu acho sinceramente que não. A diabolização ou o endeusamento da espécie enquanto espécie não faz qualquer sentido técnico e científico.

A questão que coloca o debate na sua dimensão correcta, face à diversidade actual, é: em que condições é que o eucalipto (ou melhor dito a silvicultura do eucalipto) pode, com evidentes ganhos económicos e reduzido impacto ambiental, ser produzido?

Para que esta questão se possa debater é preciso não tratar o eucalipto como um dogma, mas sim tratar a cultura do eucalipto como um problema técnico e científico para resolver. Como com qualquer outro problema científico é preciso revisitar os pressupostos do suposto impacto ambiental e do suposto ganho produtivo e económico e perguntar:

1. À luz do conhecimento actual (muito diferente do ponto em que estávamos à 20 anos atrás) qual é o impacto do eucalipto sobre o solo, água e biodiversidade?

2. Este impacto é igual em todas as situações geográficas? E em todos os sistemas de gestão e práticas culturais?

3. É possível, para os impactos identificados como significativos, desenvolver, testar e implementar soluções de gestão que os reduzam ou anulem?

4. Em que condições (locais e práticas de gestão) é possível produzir eucalipto em quantidade e qualidade suficientes? Como controlar e optimizar os custos de gestão e exploração deste tipo de floresta para garantir um retorno aceitável para os proprietários?

5. Que questões não esclarecidas satisfatoriamente devem orientar a política científica em torno desta espécie?

O que me parece é que o movimento anti-eucalipto está confortavelmente sentado sobre o seu dogma da “árvore demónio” e a simples sugestão de que nem tudo no eucalipto é intrinsecamente mau é combatida com a insinuação de que os mentores dessa argumentação só podem ser comprados, corruptos ou de uma completa irresponsabilidade social.

Pessoalmente, não me revejo em nenhuma das categorias anteriores, e tento apenas manter a mente aberta e confrontar os prós e os contras de qualquer actividade humana – todas as têm.

O paradigma ambiental do montado de sobro (outro dogma nacional) não é inimputável do ponto de vista ambiental, tal como não o é nenhuma actividade de gestão de espaços naturais.

As diferenças de opinião são normais e saudáveis num País que se quer democrático, mas a opinião deve surgir sobre um contexto técnico e científico verdadeiramente sólido. As causas ambientais (ou as industriais), particularmente quando são justas, nada ganham com a manipulação, ampliação, generalização abusiva ou distorção de informação. Os balanços de opinião (informada) e, principalmente, o terreno médio construído a partir de posições inicialmente antagónicas, é o que podemos designar por “desenvolvimento sustentável”.

Felizmente, existem sinais encorajadores de movimentos ecologistas dispostos a questionarem-se e a alargar a sua visão do problema. Permitam-me que lhes sugira uma leitura de um texto do WWF, IUCN e CIFOR “Fast Wood Forestry – Miths and Realities” http://assets.panda.org/downloads/fastwood.pdf onde o movimento ecologista faz uma revisão dos mitos e realidades que rodeiam o debate sobre plantações.

Pela minha parte subscrevo este documento, até porque basicamente conclui que os impactos das plantações são altamente dependentes do contexto em que se desenvolvem, mais do que das espécies envolvidas. Reconhece também o importante papel das plantações na satisfação de necessidades humanas crescentes em produtos com origem florestal e nas vantagens relativas em utilizar plantações para este fim, face às outras opções, tipicamente provindas de florestas “naturais” ou de recursos não-renováveis.

Sejamos nós capazes em Portugal de revisitar os nossos dogmas e de construir um caminho económica, social e ambientalmente sustentável, digno de cidadãos preocupados e de indústrias responsáveis.


Engenheiro Florestal de interesses ambíguos: por um lado trabalho para indústria papeleira, por outro sou gestor de 200 ha de carvalhal e de 50 de galeria ripícola, de amieiros e freixos: tudo espécies "boas" e à prova de fogo - mas que já vi arder!

7 comentários:

mateiro disse...

meu caro eng florestal ambíguo.

Afinal, onde está a sua ambiguidade?

Diga lá, homem.

se entendi bem, ganha mais com os eucaliptos, do que na tal "papeleira".

Faz bem, cria a matéria prima, e... ganha na transformação. É mau?

Claro que tudo arde,
mas agora..., descanse, porque vamos ter americanos a "ensinar" fogo controlado aos portugueses.(os novos técnicos, claro).E aos PROFS que proliferam .Agora, é que isto vai para a frente.
Só que tarde, mas enfim.
Cuide-se na papeleira.

Anónimo disse...

Como o povo diz: uma mão no cravo, outra na ferradura...

Anónimo disse...

muito cuidado, porquê cobrir nosso planeta com plantas exóticas, se podemos conservar e recuperar a mata nativa, tudo tem limites, eu não quero deixar O Deserto Verde pra meus filhos e netos, e vc quer?

Anónimo disse...

já tem gente utilizando o eucalipto de forma desrregrada para secar açudes ou lodoçal, quer prova maior que realmente o eucalipto consome muita aguá, a mesma aguá que faltara para as futuras gerações.concientize-se.

Anónimo disse...

É lamentável que tanta gente fale do que não saiba, ...nada se cria nada se perde, tudo se transforma!!!!!!!!!!!!!!!
a agua que o eucalipto retira dos solos retorna ao solo através da chuva ou o aumento da umidade do ar!
ou vcs já cortou um eucalipto e ele jorrou agua?
kkkkkkkkk

Eng. Agronomo

Anónimo disse...

Estudem o ciclo das aguas!
e vejam que a agua que sai do solo retorna a ele!
Eng. Agronomo

Anónimo disse...

Bem, eu como estudante do ensino médio, vejo realmente o Eucalipto como um assunto polêmico e praticamente indiscutível...Tudo porque através dele gera-se muito lucro. Acredito que será uma história passageira, como os transgênicos.A sociedade está desse jeito justamente porque visam somente o LUCRO, mas e a preservação ambiental, os recursos naturais como ficam?