Segunda-feira, Abril 03, 2006

Os doutoramentos em Portugal

Dado o interesse suscitado pelo meu texto sobre endogamia universitária, publicarei na AMBIO alguns “posts” sobre aspectos pontuais da tão necessária reforma do ensino superior em Portugal.

A discussão de uma tese de doutoramento tem dois objectivos. O primeiro, é a avaliação científica do trabalho. O segundo, é a apresentação pública dos resultados. Em Portugal (assim como em Espanha, França e outros Países de tradição romana) a defesa das teses de doutoramento mescla estas duas componentes. O resultado é que nem um papel nem outro são devidamente cumpridos.

As defesas de teses são sessões protocolares onde um número excessivo de avaliadores – entre os quais, pasme-se, o orientador– debita meia dúzia de perguntas sem consequência. Raramente se chumba uma tese e o cerne da questão é se a tese merece a “distinção e louvor”. Como não existem critérios objectivos para classificar as teses o “louvor” é arbitrário, desprovido de valor e essencialmente indicador das simpatias e relações de força entre o orientador e os membros do júri. As defesas de teses transformam-se, assim, em tristes cerimónias formais desprovidas de conteúdo. Mas mais grave, promovem a lógica dos "acordos de cavalheiros" que estão muito bem na política mas menos bem na ciência.

No Reino Unido o procedimento é o oposto. A apresentação pública dos resultados é relegada para congressos e reuniões científicas pelo que a defesa da tese consiste numa discussão à porta fechada, com dois avaliadores, onde não participa o orientador da tese. As discussões são duras e desprovidas de salamaleques protocolares (digo-o por experiência própria). Destas discussões é frequente saírem recomendações, para alterar a tese, que poderão ser pontuais (quando tudo corre bem) ou substanciais (quando tudo corre mal). Para evitar arbitrariedades o resultado da avaliação consiste no passar ou não passar. O conceito de “distinção e louvor” não existe.

O sistema Britânico tem a vantagem de exigir o trabalho de um número reduzido de avaliadores. É uma vantagem pois alivia-se a pressão sobre o mercado de avaliadores. Por outro lado não se convidam avaliadores para fazer número. Os que lá estão é porque têm alguma coisa para dizer. Ao excluir-se a componente de “espectáculo” reduz-se uma pressão desnecessária sobre o candidato e favorece-se um ambiente propício a uma avaliação mais substancial da tese; uma avaliação com consequências pois é pouco frequente que uma tese passe sem alterações.

O lado triste da defesa de teses no Reino Unido é a solidão do acto. Os países de tradição latina gostam do espectáculo e a defesa da tese é um dia importante na vida do candidato.

Para assegurar a seriedade da avaliação e proporcionar o espectáculo existe uma terceira via: a via Finlandesa. Na Finlândia separa-se a avaliação da apresentação pública. A avaliação faz-se por escrito. Isto é, envia-se a tese de doutoramento a três avaliadores. Estes deverão lê-la e sugerir as correcções que forem necessárias. O candidato tem depois um período para incorporar as sugestões dos avaliadores. Este trabalho de edição é revisto pelo presidente do júri que poderá decidir reenviar a tese aos avaliadores. Uma vez aceite a versão final da tese, marca-se a sua apresentação pública. Esta é iniciada por uma palestra proferida pelo doutorando, seguida de um debate animado por um especialista de reconhecido mérito na área da tese. O papel deste não é avaliar o trabalho do doutorando mas facilitar a discussão pública da tese. O seu papel, é fazer brilhar o candidato. Nunca humilhá-lo.

Ao separar o processo de avaliação do espectáculo garante-se que cada um destes actos seja produtivo e gratificante. Reduzem-se também os custos da cerimónia pois apenas se tem de custear a deslocação e estadia de um cientista externo. Os avaliadores são contactados por escrito. Com este processo, consegue-se também assegurar a qualidade dos avaliadores já que nem sempre o critério da proximidade geográfica coincide com o critério da relevância dos científica dos avaliadores.

A mudança do sistema de defesa de teses é importante para assegurar a credibilidade do acto. Ao assegurar a credibilidade do acto estamos a contribuir para melhorar a saúde do meio académico Português e por arrasto a qualidade dos doutorados que se formam no País.


Nota póstuma [05.04.06]. Como referido por um comentador privado – comentário enviado por correio electrónico – todos os sistemas de avaliação são imperfeitos se as pessoas se esforçarem suficientemente por os desvirtuar. Na Finlândia a qualidade das teses é assegurada pelo facto de se exigir, como critério de qualidade, que as teses tenham dado origem a cinco artigos publicados, ou em vias de ser publicados, em revistas científicas da especialidade indexadas pelo ISI (Institute for Scientific Information). Como é natural não contam os artigos em que o candidato não seja primeiro autor. Esta regra, de “per se”, assegura um nível de qualidade média muito superior às teses realizadas em Portugal.

10 comments:

Anónimo disse...

No geral concordo com este texto, e acho-o muito pertinente. Só uma pequena correcção: pelo menos na Universidade de Évora o orientador nunca pode ser arguente (idem para o co-oriemtador, se existir).

Também gosto do esquema finlandês.

JVC disse...

Pode fazer-se assim em Évora, mas é ilegal. Veja-se o artº 26º, c) do DL 216/92, agora confirmado pelo novo decreto dos graus (74/2006), artº 34º, 2. c). É claro que não concordo, que mais não seja pela experiência incómoda de ter arguido muitas teses dos meus doutorandos. Estava a criticar-me a mim próprio?

Aproveito para informar que, com acordo do Miguel Araújo, vou publicar este post no meu site:
http://jvcosta.planetaclix.pt/

Anónimo disse...

Posso também dizer que na UTL (ou pelo menos no IST) se segue o tal esquema finlandês. A tese é enviada a dois relatores que submetem dois relatórios (nenhum pode ser orientador ou co-). Os relatórios são discutidos numa reunião do júri em que é decidido se a tese deve ou não ser alterada. Após as alterações é marcada a sessão de discussão: 1/2 hora para o candidato e 2 horas no máximo para toda a sessão. A classificação é aprovado ou reprovado. Se algum membro do júri é estrangeiro (o que é muito comum), a tese pode ser escrita em inglês na sua totalidade.

LOS

Anónimo disse...

Na FEUP a estrutura é, diria, mista. Ou seja, a tese é enviada a aos arguentes que decidem se deve ou não ser aceite a provas (leia-se, é aprovada). Em caso afirmativo, as provas são mais uma apresentação pública que outra coisa. Concordo no entanto que o número de elementos do júri (tende) a ser excessivo. Aqui as defesas costumam demorar cerca de 3 horas:
30 min apresentação
2 h para arguentes (os chamados "principais", que são dois, 1h cada)
30 min para o resto

MSReis disse...

Muito interessante e pertinente, mesmo do ponto de vista dum não académico interessado. (não confundir com um académico não interessado).

Acho que o esquema relatado apresenta valor, merecendo uma ponderação.

Quanto às justificações de no meu sítio é assim... pouco pertinentes, mas esclarecedoras do estado da nação (académica, ambiental, etc. e tal).

Quanto às teses integralmente em inglês porque um dos candidatos é estrangeiro... que saloice! é o que se me oferece dizer... SALOICE!!!

do tipo daquela que leva o empregado de café a dizer gracias a qualquer cliente que não fale Português.

A comunidade académica não se pode abstrair (aliás, manter abstraída) das questões de relevância da sociedade e do país. A língua portuguesa sofre assim um mau trato.

Aceito, aliás defendo, teses bilingues nesses casos ou noutros, obviamente.

Agora caminhar para tornar a nossa pátria obsoleta? talvez um dia (longe muito longe, espero) mas que então seja algo assumido e voluntário. Nunca por distracção ou demissão!

MSReis disse...

Errata:
onde se lê deve-se ler
um dos candidatos um dos arguentes


Nunca é tarde para corrigir...

Miguel B. Araujo disse...

Creio que, se entendi bem, discordo dos termos com que msreis coloca a questão linguística.

Obviamente que a língua Portuguesa é importante e que devemos procurar incentivar o seu uso, designadamente através da publicação de obras de divulgação científica; infelizmente um parente pobre da produção literária em Portugal.

Mas as teses de doutoramentro não devem constituir-se como obras de divulgação científica. São obras de PRODUÇÃO científica. E como tal têm de chegar ao mercado a que se destinam, i.e., a comunidade internacional que produz ciência. Como tal devem ser escritas em Inglês pois, quer se queira ou não queira, esta é a língua da ciência.

Defender o contrário implica uma de duas consequências. A exigência que os doutorandos escrevam as teses duas vezes, uma em Português e outra em Inglês; ou o reconhecimento de que a qualidade da ciência produzida em língua Portuguesa não requer que esta seja divulgada na comunidade científica internacional.

No primeiro caso, a exigência seria injusta pois colocaria os nossos doutorandos em situação de desigualdade perante os doutorandos de outros Países.

No segundo caso está-se a passar um atestado de incompetência aos nossos investigadores ou, simplesmente, aceitar que não há nenhuma necessidade de comunicar o que produzimos com a comunidade global científica.

Levará alguns anos para que as teses na área das ciências sejam obrigatoriamente escritas em Inglês (como são, por exemplo, na Finlândia). Mas antes disso seria bom que algumas universidades mais retrógradas aceitassem que, pelo menos quem quisesse, pudesse escrever a sua tese em Inglês.

Anónimo disse...

Estou a fazer Doutoramento em Espanha (Universidade de Barcelona).
A avaliação da Tese será feita pela leitura do documento escrito. Apenas se este for aprovado, poderei apresentá-lo publicamente.
A defesa pública da Tese é apenas uma formalidade, pois nessa altura a classificação já foi atribuída.
O Júri é maioritariamente composto por representantes de cada uma das disciplinas principais (o Doutoramento é entre diversos Departamentos da mesma Universidade). O orientador de Tese não faz parte do Júri.
Não há salamaqueques nem vénias da corte; e desde o primeiro dia, pude tratar o meu Orientador - Professor Catedrático, etc etc - pelo seu primeiro nome (apesar de ter idade para ser meu pai).
(Que diferença em relação à minha Licenciatura em Portugal, onde jamais se poderia chamar um professor pelo nome (falta de respeito!), e onde, bastantes vezes, nem sequer olhavam para os alunos quando falavam com eles....)

Em relação à língua, para ser reconhecida como Tese Europeia, tem de estar redigida 25% numa língua, e o resto noutra. Posso fazer, por exemplo, a introdução em Espanhol e o resto em Português, ou Inglês. Pessoalmente, sou totalmente a favor, por considerar que permite ser mais fácil a divulgação dos conteúdos da Tese. Aliás, tal como fiz com a Tese de Mestrado, pretendo posteriormente tê-la (traduzi-la eu própria), pelo menos, em Português e em Espanhol.

Por outro lado, tenho um amigo que está a fazer Doutoramento em Portugal. Parte da sua avaliação consiste no número de artigos públicados em revistas científicas - quantidade, não qualidade. Poder-se-ia presumir que, se revista X publica um artigo, é porque o artigo é bom - mas suponho que já todos passámos esse nível de ingenuidade. Também contam as publicações de conferências e palestras - embora seja sabido como é fácil participar em muitas que não sejam propriamente relevantes.
Acho péssima ideia a Universidade relegar uma parte importante da avaliação dos seus Doutorandos para a Direcção de revistas (por muito boas que elas sejam).

Outro dado que julgo pertinente acrescentar à discussão: o preço dos Doutoramentos. Digo apenas que, agora na fase da Tese de Doutoramento propriamente dita, pago cerca de 50 (cinquenta) euros/ano. No primeiro ano (aulas) paguei cerca de 40 euros por disciplina (eram 6), mais algumas taxas.

Anónimo disse...

Estou a tirar o mestrado cá em Portugal, e só poderei apresentar publicamente a minha tese, depois de a mesma ter sido aprovada em comissão ciêntifica.

_Bekas disse...

Em Coimbra, pelo menos na Faculdade de Ciências segue-se um modelo semelhante ao Filandês. A parte de "fazer brilhar o candidato" é que nem sempre se aplica. Às vezes aparecem 'primas-donas' que gostam de humilhá-lo.
O orientador está presente no juri, mas praticamente não intervem.