sábado, julho 07, 2007

Mais negócios e mais biodiversidade

Para além do BES, a EDP e a Secil assinaram publicamente as suas adesões à iniciativa business and biodiversity.

Os compromissos que assumem são públicos e podem ser consultados por todos.

Nos 38 comentários ao meu post anterior sobre esta iniciativa há queixas de que não se percebe o que é a iniciativa e que compromissos assumem as empresas.

É uma crítica em parte justa. Eu próprio critiquei os responsáveis pela comunicação do BES por no seu site ter estado apenas disponível a nota de imprensa e não os compromissos assumidos, crítica imediatamente aceite e situação corrigida.

Há ainda outra família de críticas que se prendem com o facto das empresas já estarem a melhorar a sua imagem e a biodiversidade ainda não ter lucrado nada. É um comentário completamente inconsistente: as empresas só melhoram a imagem se a campanha que estão a fazer for credível. E a biodiversidade ganha notoriedade de cada vez que alguma empresa considera ter valor suficiente para o seu negócio para gastar nela um tostão que seja, mesmo que só em propaganda.

A loja de sustentabilidade da EDP, por onde eu e muitas outras pessoas passam todos os dias por ter a sua montra virada para o Marquês de Pombal, tem a sua imagem totalmente assente na ideia de biodiversidade. É isto indiferente do ponto de vista da sensibilização do público para o assunto? Eu acho que não.

Em nenhum dos comentários, talvez por falta de informação, é referido o facto do BES ter contratado um dos principais centros de investigação do país em matéria de biodiversidade, o CIBIO, da Universidade do Porto, para fazer a avaliação do impactoda sua actividade na biodiversidade e o assessorar na iniciativa. Alguém está convencido que pessoas como as que dirigem esses centros estão disponíveis para processos de simples greenwashing?

Volto a frisar o que desde o primeiro momento referi: o nó górdio desta iniciativa é a sua credibilidade. Quer para as empresas, quer para a biodiversidade, iniciativas como esta só têm interesse se forem crediveis.

Até agora os críticos da iniciativa, ou pelo menos da adesão do BES, têm-se refugiado na ideia de que os pecados ambientais do universo do banco (que curiosamente não abrange formalmente a Portucale que é do universo de outra holding do grupo, cuja adesão à iniciativa esperamos que se venha a concretizar um dia) o desqualificariam para a adesão à iniciativa.

O mesmo irão com certeza dizer da EDP (o geota fê-lo na própria cerimónia de adesão da EDP) e da Secil.

Mas infelizmente recusam-se a discutir o essencial: as propostas apresentadas são boas ou más? que mecanismos de transparência e reporte é preciso garantir para que isto não sejam meras operações de green washing? É necessário garantir primeiro que as empresas não têm passivos ambientais para que possam aderir à iniciativa? Se sim, significa isto que achamos que as empresas que têm passivos ambientais devem estar libertas de passos voluntários (mas com custos evidentes) no sentido da integração da biodiversidade nas suas lógicas de gestão, distorcendo ainda mais a concorrência contra as empresas ambientalmente mais responsáveis?

Sejamos claros, esta é uma iniciativa voluntária. Sendo assim precisa de voluntários. Nenhuma empresa adere a uma iniciativa voluntária que ponha em causa a sobrevivência do seu negócio. E a iniciativa é tanto mais sustentável a prazo quanto mais interesse tiver para as empresas e os seus negócios. Por isso a iniciativa não questiona as opções de negócio das empresas, mas oferece-lhes um caminho para ter efeitos positivos na biodiversidade que minimizem os efeitos negativos do seu negócio.

Evidentemente isto não resolve os problemas da perda da biodiversidade no mundo.
Mas qual é a resposta a esta pergunta simples: este é ou não um passo útil no sentido certo, do ponto de vista da biodiversidade?

henrique pereira dos santos

2 comentários:

José Rui disse...

as empresas só melhoram a imagem se a campanha que estão a fazer for credível
Isto é uma completa inverdade! Não é necessário estar dentro dos meandros de como funcionam estas coisas da comunicação (há quem chame mais adequadamente propaganda) para saber que é assim.
É exactamente o mesmo mecanismo das primeiras páginas bombásticas e dos tímidos desmentidos no número seguinte, algures numa caixinha, lá para o meio do jornal.

Alguém está convencido que pessoas como as que dirigem esses centros estão disponíveis para processos de simples greenwashing?
Não, tal como do seu inverso. Digo-lhe é que na sociedade de hoje, não descarto nenhuma hipótese. E realmente pouco me importa que diga que me acho moralmente superior, ou coisa que o valha. Não confundo moral com realismo.

Sobre a pergunta concreta, uma vez li no Guardian que há um português muito empreendedor que cumpre promessas de outros a Fátima, basta pagar-lhe. E é o que isto parece, essas empresas não sabem o que hão-de fazer ao dinheiro (diz colocar em causa o seu negócio?) e pagam a uns bons para que lhes façam algumas boas acções ambientais, enquanto continuam o "business as usual" noutra parte qualquer.

Se é útil? É muito útil, até porque não se vê mais nada.

De resto, acho que já aqui mais alguma informação. Como vão ser avaliados na prática os resultados das iniciativas?

Henrique Pereira dos Santos disse...

Caro José Rui,
A iniciativa está em desenvolvimento e muita coisa está por definir.
O seu princípio de funcionamento é o de que as empresas avaliam o seu impacto na biodiversidade, positivo ou negativo, com base nessa avaliação adoptam um plano de acção para a biodiversidade e é feito o reporte público de todo o processo.
Isto é, as empresas assumem compromissos perante a sociedade e o que se pretende é garantir a transparência necessária para que o público possa avaliar em que medida esse compromisso é relevante e em que medida é cumprido de forma séria.
Os compromissos que estas empresas estão a assumir agora são como projectos piloto, são demonstrações práticas de como não estão apenas a falar mas a agir resolvendo ou ajudando a resolver problemas concretos de biodiversidade.
O que as ONGs estabeleceram para avaliar a iniciativa, no quadro da presidência portuguesa é o seguinte: "2. Business and biodiversity – um projecto significativo
Dar origem a um empenho genuíno por parte dos sectores empresariais para além dos mínimos exigidos pela lei.
Evitar o "green-washing", ou lavagem verde de imagem, através do estabelecimento de directrizes claras. Ser suficientemente aberto para envolver empresas de diversos tipos, desde as grandes empresas cotadas em bolsa às PMEs.
Incluir organizações ambientais de cidadãos na sua elaboração.
Não desviar a atenção política e os recursos das obrigações e metas já estabelecidas, em particular pelas Directivas Aves e Habitats."
Parece-me um bom quadro de referência para avaliar a iniciativa (e já agora a acção de cada empresa que a ela adere) de forma consistente do lado da biodiversidade.
Não tenhamos dúvidas de que haverá sempre empresas a procurar apenas o greenwashing, mas essas situações não invalidam a iniciativa no seu todo.
O que me parece que vale a pena discutir é o que é necessário garantir nos procedimentos da iniciativa para separar o trigo do joio.
Infelizmente nesta discussão os argumentos têm sido mais prévios que outra coisa, isto é, têm sido argumentos que remetem para a discussão de eventuais responsabilidades em acções negativas para a biodiversidade por parte das empresas que argumentos orientados para garantir que qualquer pessoa consegue facilmente obter informação fiável sobre o que cada empresa tem efectivamente em desenvolvimento no quadro da iniciativa.
E sim, volto a dizer, a propaganda só será eficaz a prazo para as empresas se for credível. Em contrapartida o barulho mediático em torno da ligação dos negócios à biodiversidade vale por anos de acções de senbilização para a conservação dos recursos, até por ter maior efeito num público habitualmente pouco frequentador de acções de sensibilização ambiental: o universo dos decisores das empresas.
henrique pereira dos santos