domingo, agosto 19, 2007

Violência e cobardia

You say you want a revolution
Well, you know
We all want to change the world
You tell me that it's evolution
Well, you know
We all want to change the world
But when you talk about destruction
Don't you know that you can count me out
You say you got a real solution
Well, you know
We'd all love to see the plan
You ask me for a contribution
Well, you know
We're doing what we can
But if you want money for people with minds that hate
All I can tell is brother you have to wait
You say you'll change the constitution
Well, you know
We all want to change your head
You tell me it's the institution
Well, you know
You'd better free your mind instead

Vem a lembrança desta música dos Beatles a propósito de uns vândalos que se intitulam a si próprios Verde Eufémia. John Lennon terá sido tudo menos um homem passivo e alterou mais o mundo que todos estes activistas juntos, por isso é útil citá-lo num momento em que marca uma fronteira de uma forma admirável .

A fronteira que pelos visto foi ignorada. Vejamos como.

Cerca de cem pessoas, pelo que percebi vindas de um encontro internacional que decorria em Aljezur, resolveram que era legítimo, em nome do ambiente, causar danos a terceiros.

Foi uma acção violenta. É preciso ser claro neste ponto. Alguns pretendem usar um eufemismo chamando-lhe acção directa. Mas há acções directas não violentas e acções directas violentas. E eu até acho que a violência pode ser justificada em alguns casos e defensável em último recurso, como por exemplo em legítima defesa.

Conheço o argumento de que é exactamente de legítima defesa que se trata.

Não, até pode ser defesa, mas não é legítima.

É muito triste ver a imagens desta acção e verificar que são os pretensos ambientalistas que estão de cara tapada. É muito triste ver que o agricultor cumpriu a lei em toda a sua extensão, e que os vândalos se esqueceram de discutir a sua aplicação nos locais próprios, de usar todos os meios pacíficos e legais à sua disposição antes de atacarem cobardemente o elo mais fraco da cadeia. É muito triste ver que é o agricultor que chora e pede tolerância e é o suposto movimento ambientalista que usa a violência do número desproporcionado de pessoas para impôr os seus pontos de vista a meia dúzia de pessoas desarmadas.

E como se não bastasse tanta cobardia ainda oferecem sementes biológicas para fingir que são construtivos concluindo que é muito difícil conversar com os agricultores por estarem muito mal informados. Conversaram antes de homem para homem, ou de mulher para mulher ou as misturas de género que queiram? Ou foi só a coberto da superioridade numérica que quiseram conversar calmamente sobre as vantagens da agricultura biológica sobre o uso de transgénicos?

A agenda foi claramente assumida: "O objectivo é restabelecer a ordem ecológica, moral e democrática que tem sido constantemente deteriorada pelas políticas de União Europeia e pelo governo português".

Exactamente: cerca de cem pessoas acham que os seus pontos de vista políticos e morais podem ser impostos aos outros milhões de votantes que vivem em sociedades democráticas sem passaram pela maçada de convencer os outros e fazer aprovar democraticamente as suas propostas.

Enquanto é tempo é bom que o movimento ambientalista se demarque claramente destes cobardes com agendas violentas e anti-democráticas que usam linguagem ambientalista para procurar legitimar as suas acções e obter a vergonhosa complacência com que grande parte da comunicação social tratou este crime.

E que o Estado Democrático tenha o bom senso que não cair na armadilha da contra-violência sem perder um átomo da firmeza democrática que deve ter para punir exemplarmente estes criminosos, com as leis democráticas, que estes vândalos desprezam mas que respeitam o o seu direito de defesa, mesmo que os vândalos não tenham reconhecido o mesmo direito de defesa ao agricultor João Menezes.

henrique pereira dos santos

9 comentários:

aeloy disse...

Com clareza e absoluta firmeza só tenho que dizer que talvez nunca tenha estado tão de acordo com o Henrique.
No meu blog, com maior liberdade criativa...publiquei post
Ver (signos.blogspot.com).
Que a justiça não seja peca e que não lhe doa a mão a pesar a balança!
António Eloy

Anónimo disse...

Apoiado!

aeloy disse...

Encontrei no blog do Miguel Portas este comentário mto interessante. Aqui transcrevo:
Mas passando à vaca fria, o que me levou a escrever este comentário em que deixo algumas preocupações e reflexões é a gravidade da acção praticada pelo até agora desconhecido grupo “Verde Eufémia”. Vou então expor as minhas interrogações e reflexões por pontos:

1. Há cerca de um mês era divulgada a data de uma acção de destruição de milho transgénico no Algarve, a suposta acção encontrava-se no programa de actividades do Acampamento Ecotopia e até teve divulgação em noticiário televisivo.

Como é que é possível que se anuncie publicamente a prática de um ilícito criminal com data marcada e todos os pormenores à excepção do nome da herdade e não haja qualquer espécie de acção preventiva e a GNR só apareça depois do mal estar feito?

Só belos contactos junto dos media aliados ao medo da GNR em actuar podem justificar esta palhaçada.

2. Cerca de 100 indivíduos decidem destruir uma ceara de milho transgénico para evitar “perigo de contaminação”.

Quem são estes 100 indivíduos? Quem votou neles ou os mandatou para servir de agentes da ASAE ou justiceiros? Em nome de quem falam eles? Quem vai arcar com as consequências dos seus actos? Que espécie de democracia é esta?

Nas imagens transmitidas só apareciam freaks e afins, a avaliar pela espécie dá para ver claramente que alguém os apoiou na retaguarda usando essa tropa fandanga para os seus fins políticos qual tropa de choque.
A legitimidade daquele grupo é mais que duvidosa, nas minhas festas de anos tenho mais convidados do que naquela acção, será que isso me legitima e tomar o poder e me declarar imperador de um regime iluminado?
Quanto a consequências parece que mais uma vês quem se lixa é o mexilhão, o agricultor que sofreu o ataque vai ter de pedir dinheiro emprestado e esperar que alguém lhe faça o jeito, quanto à “generosa” oferta de sacas de milho biológico anunciada pelo eco-pelotão-de-linchamento a resposta é simples: é o mesmo que sopas depois de almoço. Perdendo esta cultura o agricultou não pode plantar imediatamente, nem isso lhe paga as despesas e o trabalho que investiu nesta colheita.
Grupos de uma centena de indivíduos a tomarem a lei nas suas mãos e a imporem a sua vontade aos demais, mostrando desrespeito pelos outros, não discutindo, não convencendo e sim destruindo cheira por demais a ditadura.
Quanto à maneira como supostamente evitaram o perigo de contaminação originado pelas sementes transgénicas é risível, é o mesmo que evitar o perigo de uma contaminação radioactiva despejando o material nuclear num descampado. Partir as espigas e espalhar as sementes é a melhor maneira de espalhar a dita “contaminação”.

3. A solução apresentada pelo grupo “Verde Eufémia” passa pela agricultura biológica e a proibição dos transgénicos.

Voltar à agricultura do século XIX? Será que a agricultura do século XIX pode alimentar o século XXI? Será que estão dispostos a deslocar população à força das cidades e pagar-lhes os salários de miséria do século XIX para obter alimentos a baixo custo? Será que o nível populacional mundial terá de diminuir para os valores de há dois séculos?

Quanto a um regresso ao passado só na cabeça dos mais iludidos será possível, a agricultura biológica só é viável quando aplicada a nichos de mercado que podem suportar os preços elevados dos seus produtos, ou seja, os produtos biológicos só são acessíveis comercialmente aos ricos.
A produtividade da agricultura biológica é baixa, basta dizer que um hectare de trigo plantado segundo métodos biológicos dificilmente produz 800kg, usando métodos modernos produz cerca de 1,5 toneladas, usando sementes melhoradas pode cegar às 3 toneladas, isto para o tipo de terrenos que suportam cereal em Portugal. Não me parece exequível voltar a produtividades tão baixas na agricultura, o cenário a enfrentar seria um regresso às fomes ciclícas e à subnutrição no Ocidente.
Não existe mão-de-obra disponível para um regresso a uma agricultura baseada na mão-de-obra intensiva. Ninguém está disposto a trocar os empregos na cidade por empregos sub-pagos na agricultura. A pagar salários socialmente justos na agricultura de mão-de-obra intensiva o custo dos alimentos torná-los-ia inacessíveis à generalidade da população.
Numa altura em que nos deveríamos preocupar com a questão da subnutrição e fome no Terceiro Mundo não nos aproximamos de uma solução para este problema se criar-mos subnutrição e fome no Primeiro Mundo.
Ao regressar às práticas agrícolas do passado como único modo de produção alimentar estamos a aceitar um nível de produção de alimentos que não chega para alimentar o Mundo, o que vamos fazer em relação a isto, deixar as pessoas morrer à fome? Abatê-las a tiro? Castrar a população para não nascerem mais crianças?

4. Os transgénicos devem ser abandonados por uma questão de segurança.

Será que podemos parar o progresso? Porquê rejeitar imediatamente os transgénicos? Será que apenas as grandes multinacionais poderão lucrar com eles?

Quanto a recusar o futuro e voltar ao passado temos exemplos históricos que demonstram a dimensão deste erro, do Cambodja e os seus campos da morte ao Japão isolado dos Shoguns a história é bem sabida. Se devemos ter cautela? Devemos, para tal há que testar os transgénicos e o seu código genético deverá ser divulgado, não pode haver um “ingrediente secreto Coca-cola”. Os transgénicos devem ser estudados e caso esteja aprovada a sua segurança avança-se para a sua utilização, é uma questão de regulação.
Se graças aos transgénicos for possível resistir a pragas e aumentar a produtividade podemos resolver problemas de escassez alimentar e fazer baixar o preço dos alimentos, se a produção e comercialização dos mesmos for regulamentada não serão apenas as multinacionais a lucrar com eles, é apenas uma questão de poder político, quem o detém manda.

#. Motivos que me levam a distanciar da acção do grupo “Verde Eufémia”:

- Um grupo de 100 pessoas impor a sua vontade pela força aos restantes não constitui uma prática democrática, uma coisa é um enfrentamento social no qual participam milhões de pessoas, outra é um golpe de mão de meia dúzia, aqui está a diferença entre uma revolução e um atentado terrorista;

- a não preocupação com o visado, arruína-se um agricultor porque se é “iluminado” e portanto se tem o direito de “educar” a “besta” destruindo-lhe a seara;

- como informar, debater, esclarecer e ouvir os outros dá trabalho optaram por fazer uma acção violenta para atrair a atenção da comunicação social, é o mesmo argumento que os terroristas empregam para justificar os seus actos;

- as soluções apontadas por este grupo para os problemas ecológicos são exclusivas ao invés de inclusivas, pode ser muito bom para meia dúzia de pessoas sobreviver da agricultura biológica mas para a grande maioria da população esta opção implica a miséria, a fome e mesmo a morte;

- não existe uma forma de vida 100% natural, renegar a indústria é renegar a penicilina, a aspirina, as vacinas, a habitação e vestuário acessível a todos… é voltar às altas taxas de mortalidade, às crianças com raquitismo, à tuberculose e à peste;

- muitos outros motivos tenho para considerar que este movimento totalitário não é parte da solução para os problemas ambientais e sim parte do problema. Qualquer solução para os problemas ambientais não pode ameaçar a sustentabilidade das populações humanas, a solução passa sim por maior racionalidade e gestão dos activos ambientais, alteração dos padrões de consumo e controlo democrático das opções tomadas.

- Um último argumento que aqui apresento e para mim um dos mais sensíveis, para mim OS FINS NÃO JUSTIFICAM OS MEIOS.

Atenciosamente, Pedro Pato.

Rita disse...

Eu não me lembro dos OGM terem sido democraticamente aprovados, ou então estava a dormir quando foi esse referendo. Só houve consultas públicas não vinculativas feitas pela EFSA e bem difíceis de encontrar na net. Isto só para apontar uma das muitas falácias do texto... mas é naquela, não vale a pena conversar com quem se acha dono da razão.

José M. Sousa disse...

Algumas das suas observações são excessivas e tendenciosas. Embora eu possa discordar da acção, acho que há razões de sobra para muitos cidadãos se julgarem ignorados pelo poder político, sobretudo quando confrontados com grupos de interesse bem organizados, tratando-se de algo tão importante e sagrado como a nossa saúde e alimentação.
Em relação à legalidade e democracia, parece ignorar ou esquecer que houve uma votação por uma assembleia eleita no Algarve por um Algarve livre de transgénicos.

Henrique Pereira dos Santos disse...

Cara Rita,
Remeto-a para o artigo de António Vitorino no diário de notícias de sexta feira de que transcrevo uma parte directamente ligada ao processo de decisão:
Na realidade a autorização para produções agrícolas geneticamente modificadas há vários anos que está na ordem do dia. Para responder às complexas questões que se colocam, a comunidade internacional adoptou um conjunto de critérios que se traduziram na designação genérica de "princípio da precaução" e que está na base quer de moratórias de autorização de produção (como foi o caso durante algum tempo do próprio milho transgénico) quer de interdições.

Participei longamente nas discussões sobre o caso do milho transgénico na Comissão Europeia ao longo de quase dois anos. De par com a autorização para investigação em determinadas condições sobre células estaminais e com a interdição da importação de carne americana tratada com hormonas terá sido o dossier do milho transgénico o que mais tempo nos ocupou e que foi objecto de mais pareceres científicos e técnicos baseados no princípio do contraditório.

A conclusão a que se chegou foi a de que estavam no caso devidamente observados os critérios em que se traduz o "princípio da precaução", em função da evidência científica produzida e devidamente certificada por entidades independentes. Daí a autorização que foi endossada pelos Estados membros segundo os procedimentos apropriados.

É verdade que esta decisão foi do agrado de muitas multinacionais. Mas é bem mais longa a lista de desagrado dessas mesmas multinacionais sobre outros produtos geneticamente modificados que não foram autorizados com base na aplicação do mesmo "princípio da precaução". E não me parece sequer que o senhor Lameiras seja o rosto avançado dessas temíveis multinacionais...

Não gosta dos processos democráticos que temos? Preferia outros? Está semrpe a tempo de apresentar melhores soluções que as que existem nos estados democráticos da europa ocidental, mas olhe que tem sido difícil fazer melhor em matéria de democraticidade.

Senhor José M. Sousa,
A Assembleia de que fala não é eleita, embora seja constituída por pessoas eleitas para outras funções e com outros programas. Veja lá bem quantos candidatos a Presidente de Câmara têm no seu programa a interdição de OGMs no concelho.

Com os melhores cumprimentos

henrique pereira dos santos

Simão Dias disse...

Mas o principio da precaução é mesmo para levar a sério ou é apenas uma espécie de carimbo de um processo administrativo, em que se é obrigo esperar, mas cujo resultado será positivo apenas numa questão de tempo?? A EEA tem um relatório "Late lessons from early warnings: the precautionary principle 1896–2000" que acho que fazia sentido trazer alguns dos argumentos apresentados a esta discussão.

Henrique Pereira dos Santos disse...

Caro Simão,

O princípio da precaução não é igual ao princípio da imobilização. O princípio da precaução significa decidir pesando adequadamente as dúvidas e incertezas, isto é, decidir contra a novidade na medida em que exista dúvida científica razoável.

A União Europeia é bastante mais precaucinista que os EUA em matéria de OGMs, sendo certo que apenas uma das variedades de milho OGM está autorizada para cultivo.

E está autorizada depois de uma moratória que deu tempo a toda a discussão e contraditório que as instâncias de decisão, que são políticas e democráticas, entenderam como necessário.

Foram levantadas objecções aos estudos feitos pela Monsanto e auditados por várias entidades independentes, a propósito de uma eventual alteração da curva de crescimento dos ratos alimentados com esse milho OGM (é bom que se perceba que o que está em causa é a existência ou não de uma diferença estatística na curva de crescimento dos ratos, não os resultados finais, que ninguém, nem mesmo o senhor Sératini, pôs em causa), bem como a interpretação biológica dessa eventual discrepância estatística, com base nos resultados paralelos das análises de sangue, urina e etc., nas quais , ninguém, nem mesmo Sératini, detecta diferenças.

O esencial é que a partir destas dúvidas foram desenvolvidos uma série de novas validações estatísticas, por duas entidades diferentes, que concluíram com uma série de críticas ao trabalho de Sératini e negando que os seus estudos ponham em causa as conclusões anteriores.

Só depois destes procedimentos todos o milho foi autorizado. O princípio da precaução foi usado.

Há quem entenda que se devia ir mais longe no uso do princípio da precaução e quem, como eu, ache que o princípio da precaução deve ser aplicado ao próprio princípio da precaução sob pena de o transformar num princípio de imobilidade.

Esta é uma discussão política e social que continuará, com certeza, mas o que não é de todo sério é dizer que não foi aplicado o princípio da precaução.

henrique pereira dos santos

António Aguiar disse...

John Lennon terá sido tudo menos um homem passivo e alterou mais o mundo que todos estes activistas juntos, por isso é útil citá-lo num momento em que marca uma fronteira de uma forma admirável .
E o senhor Henrique Pereira vai mudar o mundo com os seus escritos em blogs e afins. Espero ansiosamente pela sua solução revolucionária.... O que não faria o senhor se tivese os seus 5 minutos de discurso ao vivo nos media nacionais!