sábado, outubro 18, 2008

O custo, o benefício e o cadastro

Estive ontem no workshop, como agora se chamam às reuniões de técnicos, de onde aliás trouxe vários pretextos para posts que se seguirão.
A dada altura vem à baila o cadastro da propriedade do país. Pergunta-se: mas há ou não dinheiro para fazer o cadastro.
A resposta vem, longa, do principal responsável pelo principal organismo responsável pela elaboração do cadastro.
Mas confesso que só retive um bocado da resposta, tudo o resto se tornou irrelevante.
Ao que parece terá sido exigido um estudo de custo benefício da elaboração do cadastro para suportar a sua candidatura a financiamento. E o estudo foi feito.
Tal como feitos estamos nós que vivemos num país em que alguém se lembra de exigir um estudo de custo benefício para decidir se vale a pena ou não financiar a elaboração do cadastro. Tal como feitos estamos nós que vivemos num país onde os responsáveis cedem a esta exigência estúpida e absurda. Tal como feitos estamos nós onde ninguém aparentemente se revolta por se gastar dinheiro e tempo a fazer o estudo de custo benefício da elaboração do cadastro. Tal como feitos estamos nós onde parece haver receio de explicar que é uma enorme falta de rigor na gestão exigir o estudo de custo benefício da elaboração do cadastro em nome de um suposto rigor de gestão. Tal como feitos estamos nós que nos demitimos de exigir o apuramento de responsabilidades e de exigir que os responsáveis por esta exigência reponham o dinheiro inútil e estupidamente gasto pelo Estado a justificar o custo benefício de elaboração do cadastro.
Lembro-me com frequência do meu pai a explicar que nunca seria contra a burocracia porque era um pilar fundamental da civilização mas seria sempre contra a burocracia estúpida que sustenta a mediocridade.
O mesmo se poderia dizer das técnicas de gestão mal apreendidas e aplicadas a martelo e sem consideração pelas especificidades do Estado e das organizações cujos resultados não influenciam o nível de remuneração dos seus decisores, como é o caso das organizações burocráticas.
Neste caso, por baixo da linguagem elegante e fashion das técnicas de gestão está apenas a pura idiotia da irracionalidade à solta.
henrique pereira dos santos

4 comentários:

O Raio disse...

Qualquer dia ainda se lembram de fazer um estudo do custo-beneficio das eleições...

Quanto à burocracia, esta está para a sociedade como o sistema operativo está para o computador.
Tal como um computador dificilmente funciona sem sistema operativo, uma sociedade não funciona sem burocracia.

Há é bons e maus sistemas operativos e boas e más burocracias!

Anónimo disse...

Isso que nos diz é verdadeiramente incrível. Acho que todos gostaríamos de saber os nomes dos responsáveis pela ideia de fazer a análise de custo benefício.

Anónimo disse...

Para o Cadastro ficar certinho nas aldeias, em terras e barracas que não valem 10 reis de mel coado, é necessário:

- Escritura de habilitação de herdeiros (pague-se)
- Escritura de partilhas (pague-se)
- Levantamento topográfico (pague-se)
- Multas - caso haja atraso (pague-se)
- Imposto Municipal sobre Imóveis (pague-se durante todos os anos)
- Mais umas alcavalas que nem me lembro para quê

No meu caso, se soubesse o que sei hoje ficava tudo como estava, que é o que tem sido feito por quase todos os que vão herdando. As despesas centuplicaram. Propriedades que sempre foram rústicas transformaram-se em urbanas por passar perto uma estrada e apanharem alguma luz de um candeeiro público. Os avaliadores avaliam pela internet (site da DGCI) sem se deslocar ao local, ficando as propriedades (urbanas principalmente) avaliadas por valores absurdos. Contestar acarreta mais despesas e quase sempre fica tudo na mesma, ou, nalguns casos, pior.

Caso a propriedade rústica e urbana, no interior do país, estivesse toda certinha nas finanças, o IMI que as autarquias receberiam punham-nas podres de ricas, e em lugar de nas festas actuar o Tony Carreira, a cobrar milhares de euros, seriam os Stones a cobrar milhões.

Cadastro actualizado tudo bem, desde que isso não signifique uma enormidade de trabalhos e uma despesa desproporcional ao valor dos bens.

Sei de pessoas a quem seria impossível pagar anualmente o IMI, caso fosse dado ao fisco os barracões e chão que possuem. O Cadastro vai mal? ainda vai ficar pior...haja alguém que estude esta coisa.
Jaime Pinto

TPais disse...

Admira-me é como é que os tais responsáveis conseguiram realizar tal estudo sem antes ter um outro estudo que permitisse avaliar o custo benificio de um estudo sobre o custo beneficio do Cadastro!!

"Tal como feitos estamos nós que nos demitimos de exigir o apuramento de responsabilidades e de exigir que os responsáveis por esta exigência reponham o dinheiro inútil e estupidamente gasto pelo Estado a justificar o custo benefício de elaboração do cadastro."

E como se consegue exigir isto?? Votando noutros nas próximas eleições que provavelmente farão o mesmo?