terça-feira, setembro 15, 2009

100 000 hectares

"Com estes resultados, em 2008 foi possível cumprir, novamente, a meta estabelecida pelo Plano Nacional de Defesa da Floresta contra Incêndios, para 2012, cuja fasquia se encontra em 100 mil hectares." (de área ardida, explico eu para tornar esta frase inteligível).
Esta é uma frase notável e acho que é muito interessante enquanto demonstração de como é fácil resolver os problemas.
Basta escolher o referencial que vamos usar como medida do sucesso.
O valor escolhido é muito divertido como meta.
Vejamos mais uma vez o quadro da área ardida anual
Inspirado por alguns membros do Governo terem passado a falar da mediana dos tempos de espera no sistema de saúde em detrimento da média, também eu fiz um gráfico que compara a evolução da média e da mediana da área ardida anual.
Depois resolvi fazer uma coisa: substituir o valor da área ardida em 2003 e 2005 pela média ddesde 2006. Com esta simpes operação de eliminação de dois valores claramente discrepantes (não impossiveis de repetir, claro) coloquei logo a média muito mais próximo da mediana, obtendo valores entre os 85 000 e os 90 000, isto é, abaixo da meta estabelecida.
O que me pergunto é para que afinal se quer uma meta anual que é mais alta que a que resulta do business as usual, excepto quando se incluem anos claramente discrepantes.
Este ano, passa a passo, incêndio a incêndio lá nos encaminhamos para um valor que será acima dos três últimos anos.
E nem por isso as condições meteorológicas são muito adversas.
Quando se atira dinheiro para um problema, uma das suas coisas desaparece, mas raramente é o problema.
henrique pereira dos santos

8 comentários:

Incitador disse...

Os governos gostam muito daquilo a que se poderia chamar "manipulação estatística".

Paulo disse...

O estudo técnico para o Plano Nacional de DFCI propunha como meta de área ardida 40.000 ha, cerca de metade do business as usual. Os políticos não gostaram (tal como não gostaram de outras propostas esquisitas, como concentrar as competências da prevenção/combate a incêndios numa só organização...)

Paulo Fernandes

Pedro Almeida Vieira disse...

E estamos já largamente acima desses valores. Contabilizando os dados mais actuais do European Forest Fire Information System estamos quase na casa dos 60 mil hectares ardidos, a que se têm de contabilizar mais uns milhares (estimo entre 5 e 10 mil hectares) dos pequenos incêndios que não são «apanhados» pelo EFFIS. E, de facto, como diz o Henrique nem tivemos condições muito adversas. Bastou que não tenha chovido durante algumas semanas em várias partes do país. Já agora o maior incêndio do Sabugal deste ano (o principal, porque a área de que se fala é o somatório de dois muito próximos) terá sido o 14º de sempre em área ardida. Foi uma coisa que daria primeiras páginas e aberturas de telejornais nos anos 90.

Rui Pedro Lérias disse...

"A seca meteorológica mantém-se em quase todo o território continental, sendo que 37% do território se encontrava em situação de seca moderada, 34% seca severa e 25% em seca fraca. Apenas 4% se encontrava em situação de seca normal a chuva fraca."

Do Instituto de Metereologia.

Talvez as condições sejam um pouco mais adversas do que o artigo pressupõe.

Henrique Pereira dos Santos disse...

Caro Rui Pedro,
Essas não são condições especialmente agressivas, são condições normais às quais era suposto o nosso dispositivo dar resposta, que evidentemente não está a dar (nem poderia dar com a acumulação de combustível que existe e a falta de clareza estratégica da sua missão).
henrique pereira dos santos

Henk Feith disse...

Há um aspeto curioso que ainda não foi mencionado: a quase ausência de incêndios a sul do eixo montanhoso Montejunto-Estrela, onde há tanta ou mais seca e combustível que a norte.

Também curioso é a ocorrência da maior parte dos grandes incêndios nas regiões onde o pastoreio ainda é uma prática generalizada.

Por fim, quase três quartos da área ardida são matos (dados AFN: http://www.afn.min-agricultura.pt/portal/dudf/informacoes/relatorios/2009/relatorio-provisorio-n.o-8-01-jan-a-31-ago-2009).

A equação a volta dos incêndios continua recheada de variáveis malconhecidas e cujo resultado é tudo menos previsível.

Henk Feith

Henrique Pereira dos Santos disse...

Henk,
Tenho a impressão, mas não verifiquei em detalhe, de que a linha é um bom bocado diferente e passa mais por montemuro que por montejunto.
Estou convencido de que isto tem sobretudo uma origem climática, embora possa estar relacionada com o pastoreio como referes, comvém lembrar que o pastoreio está lá todo o ano e só agora o fogo tem mantido uma persistência notável que parecia estar a ceder mas que ontem voltou a ultrapassar os quatrocentos fogos diários (o número de fogos diários tem tido sempre oscilações consistentes com as variáveis climáticas).
Repara que o post é sobre o referencial que escolhemos para medir o êxito e como tenho defendido a área ardida é um péssimo indicador desse êxito (ou falhanço). Como notas, três quartos da área ardida são matos, de cuja queima provavelmente não vem grande mal ao mundo.
henrique pereira dos santos

TPais disse...

Caro Henk,
gostaria que confirmasse a sua afirmação sobre a existencia de tanto ou mais "combustivel" a sul do sistema Montejunto Estrela como a norte. Acredito que possa ter razão mas intuitivamente é uma afirmação que me custa a aceitar.

Relativamente à observação que faz entre grandes incendios e pastoreio, julgo não ser uma situação nova nem surpreendente. Outras zonas do país passaram por um processo semelhante associado à redução do numero de pastores. O que parece acontecer é que os poucos pastores que vão sobrando tem dificuldade em fazer as suas habituais queimadas de forma controlada fruto, exactamente, de uma maior acumulação de combustivel que por sua vez tem origem na diminuição do numero de queimadas.

Assim penso que a relação implicita de zonas onde ainda se faz pastoreio e a ocorrencia de grandes efeitos não tem como causa o pastoreio em si, mas sim a sua diminuição.
Cump
Tiago P