quarta-feira, novembro 04, 2009

Uma discussão interessante

Miguel Rodrigues, comentando este post, levanta três questões muito interessantes a que procurarei responder separadamente em três posts: 1) Porque há zonas de habitat favorável em que não há linces e há zonas de abundância de coelho em que também não há linces; 2) O que é uma ONG; 3) Como se produz a informação científica que enforma as políticas de conservação da natureza.
Mas antes de o fazer (quando tiver oportunidade) deixo aqui integralmente o comentário de Miguel Rodrigues, acrescentando-lhe eu alguns links que me parecem facilitar a vida a quem queira ter mais informação:

"Caro Henrique
Afinal sabe mais do que as muitas dezenas de investigadores de várias nacionalidades (não só portugueses e espanhóis) que estudaram esta questão. Gostava de o ver a explicar isso ao coordenador do Cat Specialist Group da IUCN, Urs Breitenmoser. Para lhe dar apenas um pequeno exemplo, falo-lhe do trabalho em que estive envolvido em 1996, juntamente com mais duas pessoas cuja competência e idoneidade considero inquestionáveis (http://www.pluridoc.com/Site/FrontOffice/default.aspxmodule=Files/FileDescription&ID=719&state=SH). É obvio que a regressão do coelho foi um dos principais factores que ditaram a quase extinção do lince. Mas é também óbvio que este não foi o único factor. É livre de pensar o que quiser mas deveria ser cuidadoso para não desinformar os seus leitores."(…)simplesmente isso não pode ser verdade porque há áreas imensas de habitat favorável ao lince, sem que o lince lá esteja" Quer fazer-me crer que não entende esta situação? Bem, aproveito para explicar aos leitores que não sejam técnicos destes assuntos. Os surtos de doenças, largamente agravados pela falta de habitat adequado e por alguma actividade cinegética mal gerida (havendo neste caso muitos exemplos negativos e outros tantos positivos) levaram ao desaparecimento do coelho. Isso quereria automaticamente dizer, na visão do Henrique, que todas as zonas com tamanho suficiente e com grande densidade de coelho deveriam, obrigatoriamente, estar a abarrotar de linces. Como este seria o único factor… Conheço muitas reservas de caça bem geridas que, possuem boas densidades de coelho, vou já lá ver quantos linces consigo encontrar.
Quando escrevo ou falo em português, muitas vezes refiro-me à nossa associação pelo nome da espécie em português, em vez do nome científico. Erro meu. O nome completo é SOS Lynx – Associação de Defesa da Fauna e da Flora. Como somos uma associação com poucas pessoas, que trabalham no pouco tempo livre que possuem, aplicamos esse tempo a trabalhar directamente para o nosso objectivo. A página reflecte isso mesmo. Como não a explorou bem, esclareço aos leitores que poderão lá encontrar muita informação e muito trabalho realizado na área da divulgação, área essa em que nos especializamos. Poderão consultar as publicações Lynxbrief ou os relatórios publicados sobre o lince e o coelho, alguns realizados a pedido da Comissão Europeia. Estes relatórios não se referem a trabalho científico de campo mas a compilações exaustivas e muitíssimo completas sobre os temas, juntando num só volume a informação mais relevante e que, até ao momento, se encontrava dispersa por muitas publicações e opiniões pessoais. Aconselharia ao Henrique que desse uma breve leitura a estes relatórios. Irá seguramente, como todos nós, aprender qualquer coisa. Acrescento que o relatório sobre o coelho foi uma das principais bases para que o IUCN Lagomorph Specialist Group reclassificasse esta espécie de Não Ameaçada a Quase Ameaçada nas áreas de distribuição natural (http://www.iucnredlist.org/apps/redlist/details/41291/0). O que não está na página é o trabalho de sensibilização e educação que temos levado a cabo e que estamos a tentar implementar de forma ainda mais consistente no futuro. Estamos na fase de tentar arranjar financiamento e apurar pormenores de operacionalização. Espero ter podido esclarecer-lhe, e aos leitores, estes pontos. Obrigado pela oportunidade.

Miguel Rodrigues"


Espero que o Miguel não se zangue de puxar para um post este comentário, o que me parece útil e de justiça, facilitando a discussão posterior, e espero que o SOS Lince não se importe que eu use o seu logotipo, como parece que acontece com outras associações com mau feitio.

henrique pereira dos santos

5 comentários:

Rui Pedro Lérias disse...

Caro Henrique,

Tem a capacidade de enfurecer a sua audiência de uma forma autista (pelo menos a mim tem). A sua contribuição é importante mas seria muito mais eficaz se reconhecesse a presença e importância dos seus interlocutores e empatizasse e reconhecessse as suas emoções. Ao insistir em ignorar regras de sociabilização fundamentais para se fazerem progressos, acertar posições, construir consensos, deita por terra abaixo muito dos seus contributos. E isso é uma pena. Por vezes pergunto-me se tem noção disto.

A razão porque o digo deve-se em concordar com muito do conteúdo das suas opiniões sobre a conservação do lince mas em discordar com a forma como transmite esse conteúdo e com algumas conclusões que tira.

Vamos ao conteúdo.

Concordo que o coelho parece ser o factor número 1, 2 e 3 na regressão do lince-ibérico. Mas não o único. A densidade populacional de uma área de lince - que resulta também da densidade de coelho - é outro factor determinante da exirpação de populações locais. Uma vez diminuido um certo limiar de densidade e tamanho de uma população parece difícil parar o desaparecimento da mesma. Daí poder haver áreas com muito coelho, ou habitat favorável, mas que simplesmente não são grandes o suficiente para uma futura população.

A sobrevicência da população da serra morena não é acaso. Era a maior população contínua já nos anos 80 e foi a única que permaneceu viável no estado selvagem. Mas que acabaria extirpada na mesma se não houvesse intervenção para mudar as condições no terreno.

Já a população de Doñana não é uma população representativa, a meu ver, de lince. É um habitat marginal para o lince, nada representativo da sua ecologia. Infelizmente, foi sobre essa população que durante anos e anos incidiram muitos dos estudos sobre a ecologia e hábitos do lince.

Depois do coelho e do tamanho de um sub-população a existência de abrigo para crias e de água fresca parecem ser outros factores a ter em conta.

Mas mapar o desaparecimento do lince ao longo de 50 anos é mapar a morte natural de populações a um ritmo regular. Uma análise de viabilidade populacional do lince consegue espelhar a realidade do desparecimento de sub-populações usando apenas um valor de fecundidade, a estrutura populacional (idades, sexos, etc) natural do lince no estado selvagem e o tamanho da sub-população. A baixa fecundidade derivou da falta de presas. A extirpação resultou de uma estrutura populacional que restringe a capacidade de reprodução em liberdade e potencia a baixa natalidade. Note-se que a divisão de uma população por uma auto-estrada, por exemplo, significou a aceleração da extirpação de ambas as subpopulações. Por isso, sem dúvida que o coelho não é o único factor, apesar de ser o mais importante.

A meu ver isto reforça a ideia do Henrique que as reintroduções devem ser feitas em populações fronteiriças, em metapopulações de grande número de indivíduos. Terão a melhor hipótese de sucesso. Não foi por acaso que a Malcata e o vale do Guadiana provavelmente viram os últimos linces nascidos em liberdade em Portugal - mesmo que alguns adultos errantes tenham andado até terras do Sado ainda na década de 1980.

Quanto à conclusão do desperdídio de dinheiro no projecto da LPN discordo.

O projecto da LPN é de enorme valor. Num mundo racional, em que o Henrique quer colocar todas as pessoas recusando-se a ver a complexidade das relações e opiniões humanas, seria um desperdício de recursos. Mas no mundo real projectos demonstrativos são muito importantes. Considero por isso dinheiro bem gasto.

Devo dizer que sou sócio da LPN há muitos anos e considero patéticos alguns ataques que se fazem a ONGAs. A LPN - como exemplo - é feita de pessoas. Quem quiser melhorar uma ONGA deve envolver-se com o seu trabalho, ao contrário de fazer ataques estéreis como os de alguns comentaristas em posts anteriores.

E, Henrique, se não ataca directamente em muitos casos, cria muitas vezes um ambiente propicio a esses ataques. Insiste em dar tiros no pé, confunde as pessoas com as instituições.

(continua)

Rui Pedro Lérias disse...

Mas, mais uma vez, concordo com o seu repúdio ao argumento da idoineidade, seja de que tipo. Isso é ridículo. Não conheço as pessoas nem as quero conhecer. Os estudos científicos devem valer por si. Infelizmente, confio na idoneidade de muito pouca gente, e mesmo essa gente confio porque escolho fazê-lo. Nunca, Miguel, mas nunca, se deve puxar do galardão da idoneidade para defender estas coisas. É um erro e deixa-me logo de pé atrás. Enfraquece a posição que defende, a meu ver. Dificilmente irei mudar de opinião com base no argumento que a pessoa é muito idónea. Não quero discutir pessoas, mas sim opiniões e factos. Até porque discutir pessoas alimenta este espírito de "eu sei o que se passou no Verão passado" que pouco ajuda seja ao que for. Esclarecimentos sobre o passado são importantes mas devem ser feitos pelas razões certas.

Quanto ao SOSlynx, não me parece ser muito abonador do vosso trabalho não disponibilizar estatutos, orgãos sociais, etc, online. E dou comigo a concordar com o Henrique nisso também. A transparência é muito importante. Boas intenções não chegam. Ser parte de uma ONGA é diferente de ser parte de uma empresa.

Para terminar este longo comentário, desejo muitas felicidades à recuperação do lince a longo prazo. Que tenha o sucesso que o bobcat, equivalente americano, tem. (e porque é que tem?)

Henrique Pereira dos Santos disse...

Caro Rui Pedro Lérias,
Gostaria de lhe dizer que espero que tenha a certeza de que não escrevo para o enfurecer. Se quiser explicar-me que regras de sociabilização é que eu quebro, procurarei ter mais cuidado para a próxima.
Quanto ao grande interesse do projecto da LPN, tal como está desenhado, seria bom que eu percebesse qual é o fundamento do que diz, para podermos avançar na discussão.
Obrigado pela sua manifestação de concordância comquase tudo o que eu disse.
henrique pereira dos santos

Anónimo disse...

Tem piada, por exemplo, e a respeito da recuperação do bobcat nos USA e México, que a recuperação do Lynx canadiensis no Wyoming tenha sido feita à custa de linces fornecidos (pagos!) por caçadores do Canadá, que os apanham com armadilhas. E de a produção anual sucessiva desta população estar directamente ligada à densidade da população da lebre das neves. Mas nestes casos (bobcat e canadiensis) a extirpação deveu-se maioritariamente a causas de morte não natural.

Eu ainda acredito que o lince ibérico foi ao fundo maioritariamente por inanição, ainda que admita muitos outros factores. Acho que reside aí o nosso maior problema. E talvez oportunidade? O lince só pode ser reintroduzido de uma forma bem sucedida se for encarado como espécie-marco de um (ou vários?) ecossistema, porque me parece óbvio que temos de conservar o Oryctolagus c. algirus antes de tudo o resto. Será que agarramos essa oportunidade?

Pelo menos o projecto da LPN tem esse mérito, o de focar as suas actuações no coelho-bravo e no mundo rural.

Henrique Pereira dos Santos disse...

Caro anónimo,
Se a questão é a do coelho e do mundo rural (o que quer dizer da economia do mundo rural) para que diabo é preciso gastar os recursos escassos em sensibilização e recuperação do matagal?
A questão não é o foco ser nesses dois factores, a questão é que as medidas propostas não são as mais eficientes para obter os resultados que se pretendem.
henrique pereira dos santos