domingo, agosto 15, 2010

Crónica politicamente correta


Na última crónica da Clara Ferreira Alves, "Selvagens nas dunas", a cronista chama atenção para um problema conhecido, que é o caravanismo na costa Vicentina. Como compete a um cronista, a Clara exagere qb (não dou cinco anos ao 'paraiso' da Costa Vicentina: esta ideia oiço desde o início dos anos 90, quando era a primeira vez que fui de férias à CV), tem alguma razão no que diz, mas deita tudo por terra quando resolve introduzir duas coisas: a nacionalidade dos caravanistas e o seu padrão de consumo. A Clara não gosta de caravanistas, sobretudo aqueles que partilham o local de férias da Clara, e não gosta de serem estrangeiros_ "muitos são alemães, muitos são espanhois, alguns ingleses e holandeses" que "percorrem as estradas da Europa naquelas casas de portento e chegam (...) entre a ponta de Sagres e Aljezur." e por terem formas de passar as suas férias diferentes da Clara. Segue uma lista de comportamentos reprovados (pasma-se: "bebericando cerveja e vinho ao por do sol"). Mas o melhor vem depois: "comendo latas de conserva e pão de plástico em fatias, trazido dos sueprmercados dos países onde habitam. (...) Nem frequentam restaurantes nem compram em lojas.".
Por acaso estou a passar umas férias em Aljezur. Vejo as caravanas por todo o lado, não o nego. Não acho que são mais que em anos anteriores, mas aí a minha subjetividade por estar a trocar-me as voltas e, presumo eu, a cronista terá feita o seu trabalho de casa antes de afirmar o seu aumento. Não acho provável que a Clara não tenha reparado nas inúmeras caravanas Portuguesas que vejo plantadas por aí fora, por isso sou levado a crer que a Clara acha o comportamento dos caravanistas Portugueses muito mais civilizado que as bestas estrangeiras que invadem Portugal. Quando vou ao supermercado em Aljezur, vejo que a maioria da clientela são (que horror) alemães, espanhõis, alguns ingleses e holandeses. Deixam lá bastantes euros para comprar latas de conservas Portuguesas, vinho e cerveja Portugueses, para não falar do pão de Rogil (em fatias, como é possível?), bolos de alfarroba e figo, fruta e legumes frescos. Volto a encontrar esses estrangeiros nas esplanadas e restaurantes da zona, e, pelo que me parece, consomem o que é habitual nesses lugares. São tipicamente pacíficos e pouco dados a confusões.
Para a Clara, um comportamento reprovável (na sua perspectiva, não a dos caravanistas, claro) exercido por um estrangeiro é bem pior que o mesmo comportamento exercido por um cidadão Portugues. Um estrangeiro a usefruir do paraíso da Clara já é difícil de suportar para ela, mas um que não gasta cá as suas notas, então isso é um escândalo que merece uma crónica.
Sendo a Clara uma pessoa culta, instruída e contratada para partilhar os seus pensamentos sobre a sociedade com uma centena de milhares de leitores do Expresso, esperava-se um pouco mais de reflexão e ponderação nas suas palavras. Se calhar ela devia mas é tirar umas férias, para descansar um pouco a cabeça e voltar a escrever crónicas quando tem algo para dizer, em vez de catalogar pessoas com base na sua nacionalidade ou hábitos de consumo.
Henk Feith

4 comentários:

Di Al disse...

Penso que a Clara presume (e a mer ver, bem) que se espera mais dos cidadãos de países mais literatos e com uma cultura cívil mais enraízada do que dos portugueses.

Henk Feith disse...

E porque havia de presumir isso? Há alguma razão objetiva de presupor que alemães, ingleses, espanhois e holandeses são mais civilizados que Portugueses? É essa a essência do post. Avaliar pessoas diferentes exclusivamente com base na sua nacionalidade chama-se xenofobia.

Mas não é isso, a Clara sabe isso muito bem. A Clara não gosta é de ver o "seu" paraíso invadido de gente com estilos de vida diferentes. Ponto final. E invoca uma série de argumentos patéticos para provar a sua razão e justificar o seu impulso de ver aquela gente daqui para fora.

Henk Feith

Joana disse...

Acabei de vir de férias de Aljezur e também me deparei com o excesso de caravanistas, sem olhar a nacionalidade. Há cinco anos que vou para a Costa Vicentina e, sem dúvida, que os excessos têm vindo a aumentar (e não, não tenho números ou estatísticas oficiais). A praia do Barranco é um parque de caravanistas e de matilhas de cães, o lixo amontoa-se. A questão passa pelo ordenamento do espaço, afinal ainda é um parque natural. Há costa portuguesa suficiente para todo o tipo de turistas, mas há que dar condições para que se usufrua de um modo ordenado, limpo e com respeito por todos.As várias entidades envolvidas na gestão das praias da costa vicentina (câmaras, ICNB, etc) não parecem estar a fazer o trabalho e é clara a degradação daquelas que já foram das melhores praias do país. Recolham o lixo de modo adequado ao fluxo dos turistas, façam parques com condições para os caravanistas, e que as áreas de parqueamento das praias sejam devidamente dimensionadas à sua procura, em especial, no mês de Agosto, são algumas das sugestões que deixo. Mas como a responsabilidade passa por todos nós, deixei de ir para a praia do barranco, de contribuir para a invasão canina das praias, passando a deixar os meus cães em casa e contribui para a economia local, indo aos restaurantes desde Aljezur, Arrifana, Carrapateira e Pedralva. Pelo menos, a comida está cada vez melhor!

RauLopes disse...

Henk Feith, parabéns pela sua clarividência e pela pertinência da crítica.
Não estive na zona, pelo que não conheço exactamente do que fala Clara Ferreira Alves, mas sou autocaravanista (que é algo bem diferente de caravanista ou campista selvagem) pelo que não posso deixar de sentir que a crónica da sociality está impregnada de preconceitos e ignorância.
Há pessoas (autocaravanistas e outros banhistas) que se comportam de forma indigna nas dunas, mas isso não justifica a adjectivação preconceituosa que é feita, não só quanto à nacionalidade como especialmente quanto ao modo de vida.
cumprimentos
Raul Lopes