domingo, dezembro 18, 2011

Ribeiro Telles não tem razão




“É impressionante pensar que temos um modelo económico que exporta parafusos para importar pão”
Este é o lead de uma entrevista a Ribeiro Telles que o Público publica hoje. E é um bom resumo de muito do que Ribeiro Telles tem vindo a dizer nos últimos anos.
Ribeiro Telles é uma pessoa incontornável na história da minha profissão, que lhe deve muita da sua visibilidade. Mas a partir de meados dos anos setenta há uma alteração profunda que gostaria de realçar.
Até essa altura Ribeiro Telles é um entre uma dúzia (mais coisa, menos coisa) de arquitectos paisagistas que centram a sua actividade profissional numa base muito sólida que relaciona território, elementos naturais e cultura.
São um grupo de profissionais que trocam ideias, se apoiam, discutem, divergem, afirmam as suas individualidades, sempre, sempre com a mesma base conceptual, mas em permanente evolução. Têm nessa altura uma das visões mais lúcidas e modernas (se não, “a”) da relação do homem com o seu território, e sentem-se bem trabalhando planos de cidades (Dentinho, para Lourenço Marques, por exemplo), regiões (Barreto, Dentinho e Castelo Branco, para o Algarve, por exemplo), parques (Barreto e Ribeiro Telles, para a Gulbenkian, por exemplo) e jardins, dos maiores aos mais pequenos, dos públicos aos privados.
Nesse grupo todos são mais ou menos iguais, não há um primus inter pares, e, a haver, só poderia ser Caldeira Cabral. E todos se sentem mais ou menos à vontade para dizer o que pensam do trabalho uns dos outros, para utilizar o trabalho uns dos outros e para trabalhar uns com os outros.
A partir de meados dos anos setenta o estatuto de Ribeiro Telles altera-se, quer dentro da profissão, quer para fora da profissão. Dentro da profissão, então em crescimento rápido, Ribeiro Telles passa a estar rodeado de epígonos que o adulam mais que o criticam. Fora da profissão, mercê do envolvimento político e mediático de Ribeiro Telles que todos conhecemos, a sociedade descobre um pensamento novo sobre o território e a sociedade, atribuindo-o ao seu porta-voz mais visível e não a uma escola de pensamento que o vinha formulando há perto de cinquenta anos.
Só isso explica, por exemplo, que as constantes declarações de amor ao jardim da Gulbenkian (justas, aliás) sejam perfeitamente compatíveis com o mais profundo alheamento face à mutilação do jardim do tribunal de Rio Maior, onde se podem encontrar soluções originais posteriormente reinventadas na Gulbenkian, como os famosos quadrados de betão que fazem os caminhos da Gulbenkian, reinterpretando os quadrados que Dentinho tinha desenhado para a envolvente do tribunal de Rio Maior. Sacralizar uma obra de arte desprezando por inteiro parte das suas origens é próprio de quem não sabe e não conhece.
É assim que quase aos noventa anos, com a mesma frescura intelectual que sempre o caracterizou, Ribeiro Telles continua a sua intervenção no espaço público, mas infelizmente sem que os seus epígonos e aduladores o confrontem com algumas das ideias que expressa, discutindo-as pelo seu valor facial e não como oráculos.
A ideia que cito no início deste post é uma dessas ideias (há mais) que penso que o próprio Ribeiro Telles estaria mais disponível para discutir que a sua entourage.
Vender parafusos para comprar pão não é nenhuma novidade: há mais de duzentos anos que a Inglaterra o faz, seguramente quase há outro tanto o faz a Alemanha (de que a escola portuguesa de arquitectura paisagista é tributária), para não falar da Suíça, que não mantém a sua paisagem doutra maneira que não seja assim.
Mas vamos admitir que Ribeiro Telles teria razão neste ponto, estando assim de acordo com Salazar, o Partido Comunista Português e os indignados, três outras fontes sociais da ideia de soberania alimentar, traduzida na ideia de que o importante é produzirmos o pão que comemos porque é isso que nos garante a independência.
Salazar foi quem levou esta ideia mais longe na prática (não tanto na teoria, a que levantou sérias reservas em 1916 numa das teses que defendeu em Coimbra, ainda enquanto professor universitário). E não vejo como pudéssemos fugir da sua solução para esta ideia: campanha de apoio à produção agrícola, sobretudo cereais e regadio, com olival e vinho, forte apoio à pesca, à produção mineira e à florestação.
Salazar procurava alimentar cerca de sete milhões de portugueses nos anos 30, não os 10 milhões que agora somos, e ainda assim falhou. Ribeiro Telles é seguramente um adversário da campanha do trigo, tal como ela foi executada. E é também um adversário da florestação do Estado Novo. E é ainda desfavorável a uma agricultura assente na fertilização química. E é ainda um defensor das matas de carvalhos e outras para climácicas.
Só que produzirmos o nosso pão implica intensificação agrícola. E se se pretender que essa intensificação não assente nos adubos químicos, então implica também largas áreas desmatadas para colecção de nutrientes que suportem a fertilidade das terras de pão.
Visto que não somos suficientemente eficientes na produção de parafusos para sermos reconhecidos como uma potência económica nesse sector, demos um bocadinho mais de realismo ao argumento de Ribeiro Telles e substituamos parafusos por pasta de papel e papel, onde de facto temos uma posição forte, base de uma das nossas grandes exportações (e, de longe entre os grandes sectores exportadores, a que tem maior incorporação de riqueza endógena).
E o que acontece é que se deixássemos de produzir eucaliptos onde hoje os produzimos, substituindo a produção de pasta e papel por produção de pão, nós seríamos hoje incomparavelmente mais pobres, com salários de miséria na agricultura, com um pão caríssimo que os consumidores urbanos teriam de pagar, sem que a exportação de pasta e papel (ou parafusos) criasse a riqueza necessária para o fazer.
A questão é que somos eficientes a produzir pasta e papel, mais eficiente que muitos outros países no mundo, mas somos muito pouco eficientes a produzir pão, muito menos eficientes que outras regiões do globo, como o corn belt americano. Portanto estaríamos a abdicar de criar eficientemente riqueza que outros estão dispostos a pagar, para produzir o que outros estão dispostos a vender-nos a um preço mais baixo que aquele a que conseguimos produzir.
Se olharmos para uma das declinações desta ideia, sempre presente no discurso de Ribeiro Telles, que é a ideia peregrina de que a agricultura urbana é necessária para alimentar as cidades, rapidamente verificamos que é um pensamento reaccionário sem a lucidez e a modernidade da escola a que tanto Ribeiro Telles como eu pertencemos.
Ribeiro Telles defende, como eu, a existência de agricultura urbana. Mas justifica-a nos termos em que falava Caldeira Cabral quando a defendia pelos anos 40 ou 50 do século XX, como uma actividade social, já que em nenhum momento discute a economia associada à sua criação e manutenção. O que se modernizou foi uma linguagem justificadora, a da paisagem pós-moderna, onde não há urbano e não urbano, mas esta é uma língua de pau que não diz nada (ou, pelo menos, eu não percebo nada do que isso quer dizer).
Estou profundamente convencido de que se Ribeiro Telles se mantivesse no cadinho de cultura que fundou a profissão, onde o futuro se discutia solidamente com os pés na terra inter pares, provavelmente a justificação para a agricultura urbana há muito teria acompanhado os tempos e tinha mitigado as suas componentes sociais assentes na produção em quantidade para alimentar pessoas (componentes que existem e são limitadamente válidas) e se tinha afirmado na cidade por aquilo que é: uma função urbana de primeira grandeza, assente na procura de diferenciação alimentar e sustentabilidade na gestão do espaço público.
Parece ser uma discussão de lana caprina, mas não é. Michele Obama e a Rainha de Inglaterra fazem parte da campanha eat the view, que leva à criação de hortas integradas nos jardins das propriedades mais emblemáticas, como a Casa Branca ou Westminster. O que está em causa não é a dedicação de espaços marginais, das traseiras, da periferia, a extractos sociais de baixos rendimentos, o que está em causa é reconhecer que controlar o que se come numa cidade é um luxo urbano só ao alcance de muito poucos.
E que disponibilizar espaços para democratizar esse luxo é uma alternativa de gestão urbana que não pode confinar-se a uns sítios meios esconsos. O jardim da casa oficial do primeiro ministro em São Bento poderia bem ajudar quer o Sr. Primeiro Ministro, quer os Senhores Deputados a saber de onde vem o que comem e como foi produzido. Tal como o Palácio de Belém. Tal como o tabuleiro central do Parque Eduardo VII. E isso é um sinal de diferenciação assente na possibilidade de comer bem, não é, como antigamente, uma necessidade básica de ter horta para poder comer de qualquer maneira.
O papel da agricultura urbana não é alimentar as cidades (basta fazer meia dúzia de contas para perceber como a ideia é absurda) é sim competir com outras funções nobres das cidades na criação de verdadeira qualidade de vida para os seus habitantes, criando riqueza, criando diferenciação, criando valor que permita conter a ocupação de todo o espaço pela construção.
A minha homenagem a Ribeiro Telles é isto.
Não é adulá-lo aceitando acriticamente tudo o que diz, mas estimulando uma discussão em que sei que Ribeiro Telles entra mais facilmente que muitos dos que o rodeiam de forma acrítica.
A minha homenagem consiste em reconhecer em Ribeiro Telles a sua capacidade de evoluir rapidamente, adaptando ideias e conceitos ao que de novo foi encontrando pela vida, e estou convencido de que mantém essa capacidade, não merecendo que o tratem como se se incomodasse por meia dúzia de críticas de um impertinente qualquer.
(neste texto uso ideias para as quais contribuíram várias pessoas, claro, mas gostaria de realçar Carlos Aguiar e João César das Neves. Nenhum deles tem nenhuma responsabilidade no que eu aqui escrevi mas há coisas que só escrevi porque fui ouvindo o que me foram dizendo generosamente e apenas pelo gosto de ensinar)
henrique pereira dos santos

10 comentários:

Luís Lavoura disse...

Só uma vez ouvi Ribeiro Telles ao vivo, e foi para o ouvir dar uma calinada que quase me fez cair da cadeira. Ele disse "se Portugal tivesse uma agricultura de montanha, assim como por exemplo a agricultura da Baviera". É de pôr os cabelos em pé!!! Um alemão que estava ao meu lado olhou para mim, estarrecido...
Aqueles quadrados de betão do jardim da Gulbenkian são uma coisa péssima. Além de ocuparem uma área enorme do jardim com betão, criam constantes degraus que são chatos de ultrapassar, propícios a tropeções, e que exigem da parte dos caminhantes constante atenção e um constante medir dos passos.

Henrique Pereira dos Santos disse...

Luís,
Ribeiro Telles, como todos nós, diz asneiras e coisas certas. Uma das grandes qualidades de Ribeiro Telles é ser capaz de discutir as asneiras que diz de forma simpática e razoável, aceitando correcções (mesmo que nem sempre no momento). E tem a grande virtude de não ter medo de dizer asneiras (correspondente ao grande defeito de adoptar rapidamente ideias que não avaliou com suficiente profundidade, mas que corrige se lhe demonstrarem os aspectos frágeis do que diz).
Quanto aos caminhos do Jardim da Gulbenkian têm o risco de todas as soluções inovadoras. Raramente uma solução inovadora é perfeita, o que tem é a grande vantagem de abrir caminhos diferentes para que outros possam chegar às soluções perfeitas ou, pelo menos, soluções de maturidade. Neste caso acho que Luís está a pôr sobre os quadrados de betão um problema mais que conhecido e reconhecido do jardim da gulbenkian: as escadas têm degraus com uma relação espelho/ cobertor errada, que as torna bastante desconfortáveis (sobe-se sempre com a mesma perna). Os quadrados podem ter pequenos problemas resultantes de pequenas diferenças de cota mas não me parece que sejam um problema de primeira grandeza, e são uma solução com muitas virtudes, quer estéticas, quer de flexibilidade.
henrique pereira dos santos

Henrique Miguel Pereira disse...

Henrique,
Excelente texto, ao explicar as verdadeiras virtudes do movimento moderno da agricultura urbana (eu adicionaria a manutenção de algum conhecimento agrícola em franjas alargadas da população) e a falácia da auto-sustentabilidade alimentar.

Henrique Miguel

Rui Pedro Lérias disse...

Viva,
leio "falácia da auto-sustentabilidade alimentar" e pergunto-me se essa falácia não tem de assentar na premissa que há na terra comida para todos? É que a ideia de exportar pasta-de-papel para comprar pão a quem é mais eficiente faz sentido, mas continuará a fazer sentido quando não houver quem exporte?
Concordo com o que HPS defende sobre as ideias erradas que temos sobre a nossa agricultura, mas não estaremos a mudar rapidamente de paradigma económico, que tudo se pode comprar?
Quanto a Ribeiro Telles, tenho dificuldade em o separar de dois factos recentes, o que me torna tudo menos adulador do personagem: o facto de o seu gabinete de arquitectura e os seus 'discípulos' dominarem os projectos de 'recuperação' de espaços verdes em Lisboa, de uma forma algo açambarcadora - e na minha experiência no jardim do Principe Real profundamente pobre, e activamente defendida de forma sectária pelo próprio - e o facto - para mim, pessoalmente, inultrapassável - de ter desfilado publicamente contra o direito ao casamento de pessoas do mesmo sexo.
Sei que avaliar o trabalho de pessoas não é avaliar as pessoas, mas enquanto for vivo não o posso dissociar de ter lutado activamente contra os meus direitos cívicos que considero essenciais.
Coisa banal em Portugal, somos todos democratas, blá-blá, e cada um pensa o que pensa. Pois, só que o que esse senhor pensa (e outros que estarão a ler isto e apensar que não é nada demais) afecta a vida de muita gente e contribui para a sua miséria e infelicidade.
Perdeu para mim, nos últimos, qualquer tipo de autoridade. Avalie-se de forma isenta os projectos, a pessoa é mediocre.

Henrique Pereira dos Santos disse...

Pedro,
Era o que mais faltava que o Ribeiro Telles não pudesse ter e manifestar uma ideia diferente da sua sobre o que são direitos fundamentais dos cidadãos (ou mesmo direitos, há muito quem ache que o casamento nem sequer é um direito).
Quanto ao argumento de haver quem não nos queira vender pão, é um argumento velho mas que tem o problema de não ter nunca tido qualquer tradução prática. De qualquer maneira, se isso acontecer, vamos passar muita fome, com ou sem alguém que nos venda porque não temos capacidade de produzir alimentos para dez milhões de pessoas sem petróleo, adubos, rações e outras coisas que nos venderão menos muito antes de nos deixarem de vender pão.
henrique pereira dos santos

Rui Pedro Lérias disse...

Henrique,
Quanto ao pão, eu concordo consigo. Apenas saliento que os argumentos são baseados em premissas que não estou certo valerão muito mais tempo. Não quero com isso dizer que se deve começar a repetir disparates do passado. Apenas que o valor do pão pode subir e bastante numa década ou duas.
Quanto ao Ribeiro Telles, coisa banal para si, imagino. Mas acharia o mesmo se ele se tivesse manifestado numa marcha racista ou anti-judaica? Acho que não. É ingénuo alguém achar que por detrás da oposição ao casamento entre pessoas do mesmo sexo não está um preconceito profundo contra homossexuais (mulheres e homens). Essas tretas de ser apenas um desacordo a um conceito são isso mesmo tretas que servem para esconder homofobias que resultam, com uma frequência nunca estudada, na morte prematura de gente a mais.

Henrique Pereira dos Santos disse...

Quando o pão valer mais dinheiro é possível que as pessoas repensem as suas dietas alimentares e os seus modelos de produção, o que não vale a pena é hoje perder capacidade de responder aos problemas de hoje por causa de problemas de amanhã que não sabemos sequer se algum dia existirão.
Quanto ao resto, eu acho que as pessoas têm o direito de ser homofóbicas e de o manifestarem, não têm o direito de impôr a sua homofobia a terceiros. Como acho que têm o direito de ser racistas ou anti-judaicas. O direito de expressão, que inclui o direito de pressionar o poder político é uma coisa que levo a sério.
Sou completamente contra as normas que proíbem os partidos nazis e coisas que tal.
henrique pereira dos santos

Rui Pedro Lérias disse...

Henrique,
Não disse que acho que devem ilegalizar seja o que for. Ele tem todo o direito a ir. E eu tenho todo o direito em achar que o seu valor é bem menor por o fazer. Só isso.

Henrique Pereira dos Santos disse...

De acordo quanto aos direitos mútuos. O resto daria uma longa conversa e este não é o sítio para isso.
henrique pereira dos santos

Thiago disse...

Uma nova linguagem musical da Amazônia para o mundo.
A Música Universal das Linguagens (baseada nas vocalizações dos animais - Sem plagiá-los) é um pequeno ramo da “Música Transmórfica". A Música Transmórfica, foi criada pelos compositores paraenses, Albery Albuquerque e Thiago Albuquerque que se manifesta sobre, através e além das formas percebidas e não percebidas pela consciência humana. Este novo e gigantesco sistema musical transmórfico, trabalha com a simultaneidade entre arte e ciência.
Quem estiver interessado em conhecer essa nova música, ou quiser ouvir alguma conferência, ou audições comentadas (que como já dissemos, tem uma de suas vertente que é essencialmente ecológica e ambientalista) entre em contato pelo nosso e-mail: guirapuru@gmail.com

Links que demonstram a música transmórfico em nível ecológico e ambientalista:
http://www.youtube.com/watch?v=Yty2_aAMcGw

http://www.youtube.com/watch?v=VVXeIcHpQZA

http://www.youtube.com/watch?v=6HAeYagbka8

http://www.myspace.com/alberyalbuquerque