segunda-feira, abril 30, 2012

O retorno do urso a Portugal

Por infeliz coincidência os meus últimos posts que referem um possível avistamento relativamente recente de um urso nas serras do Parque Nacional foram contaminados pelo facto de ter andado um urso em Albergaria a ser filmado para um anúncio.
Daí alguns comentários cépticos sobre o assunto, traduzindo o cepticismo quanto à possibilidade de um regresso eminente do urso a Portugal.
Gostaria de fazer sobre isso alguns comentários.
1) O primeiro prende-se com uma sugestão de leitura para evitar a repetição ad aeternum da ideia, errada, de que o urso desapareceu de Portugal no século XVII (mais precisamente 1650), com base num texto de Baeta Neves;
2) O referido no artigo cuja leitura aconselho é suficientemente claro e sólido para que não haja dúvidas de que o urso existia em Portugal muito para cá do século XVII;
3) A leitura integral dos onze volumes das "Memórias arqueológicas-históricas do distrito de Bragança (1909-1947)" do Abade de Baçal, ali por volta de 1983, já me tinha convencido de que o urso, pelo menos em Trás-os-Montes, tinha permanecido em Portugal muito para cá do século XVII (quase trinta anos depois não sei exactamente em que ponto das memórias estão as referências ao urso, e como o meu relatório de estágio desapareceu sem deixar rasto, nem sequer tenho a possibilidade de ir ver se por acaso registei isso como deve ser);
4) Ainda recentemente, ao ler os forais dionisinos, fim do século XIII, da região de Vila Pouca de Aguiar (Documentação dionisina do concelho de Vila Pouca de Aguiar, Maria Olinda Rodrigues Santana, Mário José da Silva Mineiro, edições Colibri) lá aparecem os tributos das mãos de urso em quase todos, com excepção de um dos forais;
5) Note-se que o poderoso assoreamente do litoral entre o Espinho e S. Pedro de Moel, que se terá acentuado a partir do século X, estaria já, no fim do século XIII, bastante consolidado, o suficiente para que D. Diniz procurasse limitar os efeitos da invasão das areias com a florestação das dunas, como é do conhecimento geral. O que significa que uma parte muito importante do arroteamento e desflorestação de Portugal estaria já concretizado também, quando estes forais das serras do Norte continuam a referir tributos em mãos de urso. Claro que há muito arroteamento e desflorestação posterior ao fim do século XIII, mas convém repelir a ideia absurda de que o processo de substituição das matas por agricultura e pastagem é uma coisa mais ou menos recente;
6) O artigo cuja leitura recomendo no ponto 1) é muito claro na identificação de evidências de presença do urso na zona fronteiriça de Portugal, quer junto ao Parque Nacional, quer junto ao que é hoje do Parque Natural de Montezinho, na primeira metade do século XX;
7) Essa presença parece ser uma presença em clara perda, isto é, os restos de populações acossadas de urso, embora ainda com evidência de reprodução;
8) De então para cá essa presença desvaneceu-se, consistentemente com o pico de pressão sobre o território e o recuo máximo das formações vegetais para-climácicas que se verifica nos anos 50;
9) Mas desde o fim dos anos 50 há uma inversão de tendências, diminuindo a pressão sobre o território e assistindo-se a uma poderosa recuperação dos carvalhais, em especial na zona Noroeste da Península Ibérica, uma das zonas de maior produtividade primária da Europa;
10) Esta recuperação é particularmente visível a partir dos anos 80 do século XX, sendo hoje a matriz que condiciona a dinâmica de recuperação de um conjunto de espécies (lobo, corço, marta, esquilo, etc.) que beneficiam da mata, e da dinâmica de contenção de outras espécies (coelho, embora mais fortemente condicionada pelas doenças, águia real, provavelmente algumas cobras, perdiz, lebre, etc.) que beneficiam da clareira;
11) O urso é dos claros e mais evidentes beneficiários da recuperação dos carvalhais, estando hoje em expansão, admitindo-se que o isolamento actual seja uma situação atípica e pouco usual ao longo da história;
12) "Así, aunque el número de osas con oseznos aumenta paulatinamente y en los últimos diez años prácticamente se ha duplicado, el área reproductiva donde se localizan las hembras con oseznos no lo hace de igual manera y se expande mucho más lentamente por la filopatría de las osas, que tienden a formar agrupaciones matrilineales."
Duplicação em dez anos. Repito, duplicação em dez anos. Repito, duplicação em dez anos. Isto dito em 2005, mais coisa, menos coisa, sendo que daí para cá este processo se tem acentuado.
A minha conclusão é clara: os sorrisos irónicos que respondem a cada nova referência à eminência da chegada do urso a Portugal correm o risco de ficarem um bocado amarelos com o tempo.
E é bem possível que não venha assim tão longe esse dia.
É tempo de dizer que também reagi com sorrisos irónicos, mais ou menos, quando João Menezes, então Presidente do ICNB, defendeu, em círculo restrito, a assumpção da reintrodução do urso como bandeira forte do ICNB e da política de conservação em Portugal.
Hoje acho que ele tinha razão, antes do tempo, provavelmente, mas tinha razão.
henrique pereira dos santos

5 comentários:

FredericoV disse...

Fui um dos que escrevi um comentário céptico no referido post. Mais do que ter dúvidas sobre a chegada de ursos a Portugal (não duvido que acontecerá brevemente), fico sempre na "defensiva" quando leio algo do género "foi visto por alguém", sem grandes detalhes. A minha outra dúvida prendia-se com o local, sempre achei mais provável o aparecimento no Montesinho em vez do Gerês.

Sigo atentamente as discussões do fórum Meteopt sobre biodiversidade e no tópico sobre o urso aparecem vários galegos com notícias de observações cada vez mais perto de Portugal, mas numa área mais interior da Galiza, daí a ideia que eles aparecerão pelo Montesinho.

http://www.meteopt.com/forum/biosfera-atmosfera/urso-pardo-de-volta-peneda-geres-2209.html

Henrique Pereira dos Santos disse...

Frederico V,
Eu também fui um dos que subscreveram comentários cépticos. E continuo a subscrever.
O que não me impede de olhar para as evidências empíricas e as tentar organizar logicamente.
Foi só isso que fiz.
Quanto ao chegar por um lado ou outro não sei. O artigo que cito fala dos últimos ursos no lado mais ocidental.
Mas também é verdade que é a área preferencial de estudo de quem o escreveu, o que às vezes distorce a realidade.
Também tenho lido umas coisas nesse fórum e não sei quando as observações se devem mais à densidade que observadores ou à densidade de observados.
O essencial é a velocidade de recuperação que me parece bastante maior do que eu estaria à espera.
Mas tudo isto são especulações. Que em si não são nenhum problema, só não devem é ser confundidas com a realidade, como temos alguma tendência para fazer.
A observação descrita foi bastante mais concreta do que a transmiti aqui porque não me lembro dos pormenores. Mas tem razão que referências nebulosas são isso mesmo: referências nebulosas, nada mais que isso.
henrique pereira dos santos

Marco Fachada disse...

Dum blog ainda online, mas inactivo: http://faunaourense.blogspot.pt/2010/06/o-oso-pardo-en-ourense-aniversario-da.html#comment-form

Para quem queira investigar o tema contactem o autor do blog; julgo haver relatos sobre o urso na Galiza nos anos 70, não muito longe da fronteira com Portugal.

Anónimo disse...

O urso em quanto predador de topo desempenha uma fulcral papel nos ecossistemas, a sua importância é relevante. E fazendo historicamente parte da fauna nacional deveria ser devidamente respeitado e reintroduzido.

tiago beja disse...

Foi visto um urso na Sanabria a cerca de 15 km de Portugal, e tb há um vídeo de um urso junto de uma colmeia no concelho de zamora numa aldeia que fica a cerca de 25km de Portugal, pode ser que desçam mais um pouco e cheguem a Portugal. Ah e isto não é no sec passado, é atual