domingo, agosto 07, 2005

Fogos: uma questão de ponto de vista?

Falar de fogos no Verão nunca é grande ideia, é como decidir de cabeça quente.
Falar de fogos no Inverno não é muito eficaz, é como malhar em ferro frio.
Como o tolo na ponte sem saber para que lado ir, pensei ficar calado.


Mas fui visitar áreas do Pinhal Interior que arderam em 2003. Já no ano passado as tinha visitado em Maio, não como os condutores que abrandam para ver os desastres dos outros ou os jornalistas que procuram sangue, escândalo, lágrimas e miséria em cada época de fogos, mas à procura de sinais de vida depois da primeira Primavera passar.

Já anunciados em 2004 e claramente visíveis em 2005, vi sinais de vida na recuperação de que poderia vir aqui dar testemunho, falando das ervas, dos matos, do grau de cobertura do solo, da resistência do sistema às desgraças sempre anunciadas da erosão e empobrecimento.

E poderia ainda dar testemunho das intervenções que vão aparecendo aqui e ali, sobretudo florestações pesadas de eucalipto, opção racional do ponto de vista do dono do terreno convencido da sua vocação florestal: florestar com uma espécie que produza antes que arda.

Mas prefiro procurar perceber o que continua a ser para mim um mistério: por que razão se considera ser do âmbito florestal a questão dos fogos? Por que razão quando arderam 400 000 ha de território, se criou um fundo florestal e não um fundo rural?

O que vi não foi nenhum território de vocação florestal, mesmo que um dia tivesse sido a maior mancha contínua de pinheiro bravo da Europa e se chame "pinhal interior".
O que vi foi um território, uma paisagem, um espaço sem vocação, sem destino, sem Norte, o que vi foi a vitalidade de uma paisagem que insiste em recuperar com as urzes, os medronhos, as giestas, as carquejas, as herbáceas anuais e uma intervenção que insiste na fatalidade de uma florestação tornada evidente por falta de comparência da mínima ideia coerente sobre o mundo rural.

O que fazer com aquele espaço difícil, sem água e sem solo, naturalmente marginal para as produções agrícolas mais ricas?

Talvez valha a pena olhar um bocadinho para trás, perceber que o pinhal não predominava ainda há menos de cem anos, vale a pena perceber que a ocupação daquele território se fez a partir de umas hortitas no fundo dos vales e de cabras e cabras pelos montes acima, rapando tudo, apagando a importância natural do sobreiro na região.

O pinheiro foi a forma encontrada para ocupar o espaço deixado vago pela emigração maciça dos que fugiam da fome e da miséria de uma economia da cabra, suportada na utilização sistemática do fogo de elevada frequência característica da pastorícia de percurso, deixando para trás um território cansado e sem capacidade produtiva.

Esta florestação à base de pinheiro, que claramente não contou com os efeitos de longo prazo do abandono agrícola, foi acompanhada de um programa de correcção torrencial ainda hoje com testemunhos muito interessantes no terreno, e outras medidas de gestão territorial, admitindo que a floresta poderia suportar uma economia alternativa à da cabra e recuperar os solos.

Os limites desta opção são agora bem evidentes na violência dos fogos que vemos. Mais esforço neste caminho, trará mais de resultados que conhecemos: alguma riqueza criada pelo sector florestal, custos elevadíssimos, económicos e sociais, provocados pela necessidade de defesa em relação ao fogo.

Haverá alternativa?

Talvez sim, mas implica tomar decisões agora, muitas delas bem fora da esfera das políticas florestais.

Implica pensar que território alternativo poderemos ter naqueles quase ermos que pouca gente em Portugal conhece sem ser pelos nomes dos incêndios.
Implica admitir que a gestão do fogo é um problema de gestão de paisagem, que o fogo é um dos modeladores das nossas paisagens, como são a agricultura, a pastorícia, a floresta, as infra-estruturas, etc.

Quando um qualquer serviço público que trata de agricultura entende que os regulamentos comunitários não nos permitem apoiar a pastorícia de percurso nos locais e com a intensidade que a gestão do fogo ou a conservação de natureza exigirem, apesar dos espanhóis com os mesmos regulamentos o fazerem, não é apenas um problema de afectação dos recursos da PAC que está em causa, é todo um conceito de gestão de paisagem que é posto em causa.

Ou de maneira mais geral, enquanto os recursos da política agrícola forem vistos apenas como instrumentos de gestão da produção agrícola e não também como instrumentos de modelação do território que queremos, enquanto o problema dos fogos for visto apenas como uma questão florestal e de produtividade da floresta ou de protecção de pessoas e bens e não também como uma componente do mundo rural que construímos, dificilmente haverá futuro para os nossas áreas mais marginais se não o de manterem um padrão de fogo crescentemente consumidor de recursos, sem contrapartidas positivas visíveis para as economias locais e nacional.

Partamos da ideia de recuperação territorial que estava subjacente ao programa de controlo torrencial executado pelos serviços florestais no hoje chamado pinhal interior.

Redesenhemos as funções do território, começando por centrar todo o esforço de recuperação dos solos e da vegetação onde é mais fácil, no fundo dos vales, incluindo aqui todas as pequenas depressões em que só corre água quando chove.
É bem possível que num prazo relativamente curto consigamos um objectivo central: aumentar a diversidade paisagística, com a consequente valorização cénica da paisagem e aumento da diversidade biológica e desencadeando um processo de recuperação que se irá estendendo das áreas mais favoráveis para as áreas mais inóspitas.

Se simultaneamente apoiarmos uma nova pastorícia de menor intensidade, usando o território numa lógica de gestão do fogo e não na lógica ancestral de alimentar o maior número de pessoas, se apoiarmos uma gestão florestal já não exclusivamente assente na ideia de vocação florestal do território, mas com objectivos de produção, incluindo o eucalipto, em algumas áreas, e objectivos de conservação e diversificação noutras, tirando partindo da excelente regeneração natural do sobreiro e do medronho, teremos definido um caminho mais sustentável.

E a prazo, talvez mais curto do que seria de supor, é bem possível que tenhamos resultado económicos bem interessantes: na valorização turística, actualmente fortemente limitada pela monotonia paisagística existente, na valorização do medronho e do sobreiro e, provavelmente o mais interessante no curto prazo, na possibilidade de ter resultados interessantes com a exploração cinegética.
E, no que aos fogos diz respeito, ouviremos com certeza falar deles, mas provavelmente numa escala já socialmente aceitável.

henrique pereira dos santos

10 comentários:

Ponto Verde disse...

Muito interessante e fundamentado este texto, o elogio do sobreiro e medronheiro vem de encontro ao que o A-Sul tem proposto para as zonas periurbanas. Há de facto que repensar a floresta e contributos como este de H.P. dos Santos são de ter em conta e análise.

Anónimo disse...

http://dn.sapo.pt/2005/08/10/sociedade/quase_metade_incendios_europa_sul_20.html

Portugal é o país com menor sucesso no combate aos incêndios florestais. Enquanto todos os países da Europa do Sul - que inclui ainda Espanha, França, Grécia e Itália - tiveram em 2004 um total de área ardida inferior à média dos últimos 25 anos, Portugal foi o único Estado membro onde o fogo consumiu mais floresta do que a média anual desde 1980.

Aliás, em 2004, a área ardida foi quase 20% superior à média desse período. Números que explicam que, por exemplo, o total de terreno devastado no País corresponda a 37% do valor da Europa do Sul e que o número de fogos seja 41% do conjunto dos cinco países.

Estes dados constam do relatório da Comissão Europeia (CE) sobre fogos florestais, que é hoje apresentado em Bruxelas pelos comissários do Ambiente e da Ciência. O documento, produzido pelo Centro de Investigação Comum da CE, explica que a pesquisa destaca a Europa da Sul porque é nessa região que se têm registado "fogos florestais dramáticos" com valores elevados.

Em Itália , o total da área ardida em 2004 foi quase metade da média dos últimos 25 anos. França conseguiu valores inferiores em quase dois terços. Espanha, que teve apenas 4,5 mil hectares de área ardida do que Portugal (quando é quatro vezes maior que o nosso país), conseguiu reduzir os fogos em quase 30%. De uma maneira geral, assinala o relatório, "o valor para os cinco Estados membros do Sul está bem abaixo da média dos últimos 25 anos".

Relativamente a 2004, a área ardida em Portugal corresponde a 37% do total dos cinco países (com a Espanha a ter 39%, Itália 17%, França 4% e Grécia 3%), mas o nosso País teve maior número de fogos 41% do total, seguida por Espanha (40%), Itália (12%), França (4%) e Grécia (3%).

O documento da CE assinala que 2004 foi, apesar de tudo, muito melhor do que o ano anterior, um dos mais negros na história portuguesa, com mais de 421 mil hectares de área ardida, contra os perto de 130 mil no ano passado. Em 2004, explicam os autores do relatório, o desempenho do País foi positivo em Junho e Julho relativamente a igual período de 2003, apesar de se terem registado condições meteorológicas também desfavoráveis.

Contudo, a situação agravou-se na última semana de Julho, com valores de área ardida que se aproximam de metade do total do ano. O maior incêndio atacou a Serra do Caldeirão, destruiu mais de 25 mil hectares e exigiu o recurso a ajuda externa, que veio de Espanha e Grécia. Durante todo o ano de 2004, registaram-se 151 incêndios com áreas ardidas superiores aos cem hectares e duas vítimas mortais. Vastas plantações de sobreiros e pinheiros foram consumidas. O distrito mais afectado foi Faro, com perto de um quarto do total da área ardida em Portugal.

Anónimo disse...

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Anónimo disse...

O Henrique Santos pergunta:

"por que razão se considera ser do âmbito florestal a questão dos fogos? Por que razão quando arderam 400 000 ha de território, se criou um fundo florestal e não um fundo rural?"

Suponho que seja pelo facto de a maior parte da área ardida corresponder a floresta e ser esta a que mais tempo leva a regenerar. Um matagal, ou uma área de cultura arvense, regenera quase imediatamente.

Como arde mais e floresta, cria-se o fundo florestal. Qual é a dúvida?

Mario Pereira

Anónimo disse...

Gostei deste texto. Muito ilucidativo.

Ambientalistas da Amadora
http://ambientalistasdaamadora.blogspot.com/

henrique pereira dos santos disse...

Sobre o artigo do DN penso que o que é interessante é que cerca de 70% da área ardida seja na península ibérica. Fazre comparações com a França ou a itália parece-me completamente absurdo dadas as diferenças de condições geiográficas entre o Conjunto desses países e o conjunto da península ibérica. Mesmo as comparações entre Portugal e Espanha devem ser sempre feitas com cuidado porque há diferenças significativas dentro desses países (se compararmos o norte de Portugal com o Sul também vamos obtre diferenças estatisticamente relevantes, que são mais acentuadas se excluirmos do Sul o Algarve). Quanto ao que diz Mário Pereira, convirá ter em aenção que apenas a partir de 2003 os povoamentos florestais ultrapassam os matos em área ardida. De qualquer maneira não é esse o problema: a floresta arde porque há todo um sistema rural que ruiu. Se se pretender continuar a achar que os fogos em Portugal são uma questão florestal (embora os povoamentos florestais sejam pouco mais de 50% da área ardida) então o sector florestal que assuma a responsabilidade de resolver o problema, incluindo o seu financiamento. Ora o que eu acho é que isso é simplesmente continuar uma política cujo o resultado é o que se vê.
henrique pereira dos santos

William dos Montes disse...

excelente artigo, de que partilho muito do conteudo, mas não posso concordar com a tendencia geral em menosprezar o efeito nefasto do fogo na biodiversidade, e num vastissimo conjunto de especies altamente ameaçadas da fauna e da flora, o fogo é sem dúvida a principal razão para sermos o verdadeiro deserto faunistico da Peninsula Ibérica. Defender os incendios florestais/rurais nacionais dos ultimos 30 anos como um processo natural que "não prejudica e até valoriza" (citando outrém) os ecossitemas do nosso país é o primeiro passo para não resolvermos este gravissimo problema e continuarmos a perder património natural, veja-se Espanha aqui ao lado onde uma politica séria e pragmática de combate aos fogos manteve serranias e montes que produzem riqueza economica (caça e silvopastoricia) e estão vivos em todos os aspectos (não me interprete mal, não estou a defender que sejamos anexados, considero-me um patriota, defendo apenas que basta aproveitar os modelos do pa+is vizinho que têm tido resultados positivo em vez de continuarmos com a visão lirico -melancolica de veneração da tal paisagem rural que desepareceu hám 5.

William dos Montes disse...

perdão... sou novo nisto...que despareceu há 5 décadas atrás...

Anónimo disse...

Excelente análise.

Pessoalmente, tenho firme convicção que a "floresta portuguesa" vai continuar a arder ano após ano, enquanto se continuar a apostar neste tipo de floresta.
É claro que há os incendiários que provocam fogos pelo seu prazer (ou pelo prazer de outros...); é claro que os meses de seca e as altas temperaturas foram propicios à ignição; é claro que o interior está desertificado de pessoas que cuidem e vigiem; é claro que os "é claro" podiam continuar.
Mas parece uma evidência para cada vez maior numero de pessoas que a "floresta portuguesa" tem de mudar para a tradicional Floresta Portuguesa.
E ASAP, que o futuro é já hoje.

PS: Entretanto vamos estar cá para o ano a assistir os milhares hectares ardidos da "floresta portuguesa"

henrique pereira dos santos disse...

A verdade é que Portugal não é um deserto biológico, pelo contrário, é, juntamente com a Espanha, um dos principais forncedores de biodiversidade da Europa; A verdade é que a vegetação autóctone tem vindo a recuperar de forma poderosa; A verdade é que quando se compara com Espanha convém perguntar qual das Espanhas, porque a ideia de que existe uma boa gestão da biodiversidade e dos fogos em toda a Espanha é uma ideia a que falta alguma adrência à realidade. Aliás quando em 2004 ardeu o Caldeirão no Algarve, mesmo ao lado em Huelva ardeu tanto como do lado de cá da fronteira. A verdade é que este ano também este ano ardeu Guadalajara e o que ardeu e Portugal foi sobretudo a fachada atlântica do centro do país, que não tem correspondente em Espanha. Não digo com isto que não seja melhor o que se passa em Espanha nesta matéria (até porque em Espanha não existiu uma revolução que enfraqueceu, como era inevitável, a autoridade do Estado e ajudou a desestruturar algumas coisas, como a gestão da caça), mas acho que não devemos ser tão lineares nestas comparações.
henrique pereira dos santos