quinta-feira, novembro 17, 2005

A propósito do terramoto de 1755

Reproduzo aqui um texto publicado no público pelo Presidente da Associação Portuguesa dos Arquitectos Paisagistas
Ainda a propósito do Terramoto de 1755 e das suas consequências em Lisboa quanto tempo mais será necessário para aprendermos que se deve ter cuidado com as construções em zonas de risco. A aprovação de grandes projectos imobiliários como o Alcântara XXI, numa zona classificada em cartografia da própria Câmara Municipal de Lisboa como de forte vulnerabilidade à inundação e de intensidade sísmica escala 10 (Mercali modificada) em terrenos lodosos e arenosos dá que pensar. É preciso convidar arquitectos de renome para tentar dissimular este erro monumental? Espero que não morra ninguém, mas julgo que a natureza e a Ribeira de Alcântara vão um dia mostrar que aquele espaço lhes pertence. Veja-se o exemplo de Nova Orleans, a natureza reclamou de novo para si o seu espaço. Para quando uma cidade de Lisboa à escala humana bem ordenada, com espaços verdes de qualidade e não a caricatura que fazem deles, com passeios para as pessoas e não para os carros, pistas de bicicletas e um excelente sistema de transportes urbanos que desincentive o uso de veículo próprio? Os lisboetas merecem uma cidade construída com o respeito e manutenção dos ciclos naturais e não uma das cidades mais poluídas da Europa. O incentivo a políticas baseadas na construção civil não desenvolveu o país, antes pelo contrario continua a asfixiar o seu desenvolvimento sustentável. Como os fundamentalistas do betão continuam a vencer em todas as frentes e por todo o lado, para reconhecer este facto basta andar pelo país, muitas vezes os projectos não são pensados devidamente quer ao nível da arquitectura e da arquitectura paisagista e como o interesse é o lucro imediato e máximo, esquecendo-se a qualidade, não são equacionadas as diferentes opções nem são realizados com profundidade e rigor os necessários estudos. A preservação do perfil tradicional da cidade de Lisboa, que considero um património paisagístico de interesse mundial, não obstante erros do passado como as torres das Amoreiras, que um dia serão provavelmente implodidas como um qualquer prédio Coutinho, é um valor essencial a ser defendido pelos alfacinhas. As boas noticias para Lisboa deviam ser as relacionadas com a construção de mais espaços públicos, verdes ou outros, da criação de corredores verdes, de novos Monsantos, da diminuição da poluição atmosférica e não das sempre renovadas e sem imaginação noticias de novos empreendimentos imobiliários fomentando a continuada política do betão.
Henrique Tato Marinho Presidente da Direcção
APAP - Associação Portuguesa dos Arquitectos Paisagistas

4 comentários:

Ambientalistas da Amadora disse...

Excelente artigo!

Anónimo disse...

Em Portugal continua a arriscar-se muito: parece que se vai construir mesmo um aeroporto (OTA) em zona de cheia numa confluência de 3 rios. Será que somos loucos?

Anónimo disse...

fundamentalistas do betão..... É mesmo isso!

M.G. disse...

Não esquecer que o vale de Chelas esta assistir a uma ocupação selvatica com fins urbanisticos.
O perigo reside em que esta ocupação anarquica feita pelo imobiliario invada ainda mais zonas sensiveis pondo em causa o plano verde de Lisboa.