terça-feira, agosto 08, 2006

A desgraça dos galegos seria «boa» em Portugal

O Governo português irá, concerteza, «aproveitar-se» da «onda de incêndios» na vizinha Galiza para justificar a actual destruição em Portugal. Até irá, por certo, defender que nos estamos a portar melhor, dado que as notíciasque se vão transmitindo revelam a ocorrência de uma centena de incêndios activos, dos quais 60% não circunscritos.

Convém, porém, relativizar estes números. Para a situação «normal» da Galiza, está-se perante, de facto, casos anormais. Mas essa «anormalidade» não se compara à situação nacional. E por uma simples razão: o mais extenso fogo na Galiza, ocorrido no ano 2000 em Ourense, causou uma destruição de 2.850 hectares. Em Portugal, o maior incêndio devastou, em 2003, uma área contínua de 41 mil hectares.

Pelas notícias terão ardido, em toda a Galiza e durante os últimos dias, cerca de 5.000 hectares (os valores obviamente são muito provisórios). E por isso, numa região que, apesar de ter tido sempre muitos fogos, atingirem-se aqueles valores é sempre um motivo de alarme. Além disso, a existência de tantos fogos activos na Galiza também é enganador quando comparamos com Portugal. Embora na página do nosso SNBPC raramente tenha surgido mais de 20 incêndios activos por dia, é certo que esse número é muito superior durante o dia; apenas não surge elencado por durar menos de duas horas a ser extinto e/ou ter tido menos de coinco veículos a combater. Se no domingo tivemos, oficialmente, mais de 500 fogos, significa que, em algumas horas, terão estado activos mais de uma centena. Aliás, em muitos dias, só no distrito do Porto são contabilziados mais de uma centena de ignições! E ninguém parece ter ficado muito preocupado com isso, tanto assim que aquele distrito é o que menos investiga as causas dos fogpos (0,2% nos últimos cinco anos).

Em suma, quase tenho a certeza que, no final do ano, quando olharmos para a área ardida na Galiza e a compraramos com Norte Litoral de Portugal concluíremos que até gostaríamos de ter a «desgraça» dos galegos...

5 comentários:

Pedro Bingre disse...

Insisto em perguntar se faz sentido comparar a intensidade dos fogos florestais entre Galiza e Portugal, sabendo-se que estas areas apresentam bioclimas e biomas diferentes. Por exemplo, comparar ecologicamente Santiago de Compostela (floresta temperada caducifolia) com Figueiro dos Vinhos (floresta perenifolia mediterranica) e' tao absurdo como comparar floresta tropical de moncao (savana) com floresta tropical chuvosa (selva) - sao biomas distintos, com padroes de fogo distintos.

Mesmo qie a superabundancia de eucaliptos de um e outro lado atenue as diferencas vegetacionais, as diferencas climatologicas mantem-se.

Vide
http://www.globalbioclimatics.org/form/bi_med.htm
http://www.globalbioclimatics.org/form/bg_med.htm

Paulo Fernandes disse...

O HPS e, principalmente, o Pedro Bingre expressam objecções à comparação Galiza/Portugal. Para o caso o bioma é pouco importante, porque pinheiros e eucaliptos, carquejas, urzes e tojos abundam dos 2 lados. O pinhal da Galiza é o que acumula a maior carga de combustível não da Europa, mas do Mundo, e a produtividade do eucalipto na Galiza é talvez a maior da Europa. A situação é explosiva no que respeita à acumulação de biomassa e muito possivelmente capaz de compensar a maior humidade do clima galego. Mas há que notar que a relação do comportamento do fogo com a meteorologia é tudo menos linear, ou seja, não é porque o bioclima é, em média, mais benigno do ponto de vista do fogo que não são de excluir episódios extremos. Há cerca de 2 anos, no âmbito de um projecto europeu, efectuámos fogos experimentais em Junho, em Trás-os-Montes e na zona de Pontevedra. O trabalho foi feito em condições meteorológicas algo distintas, com tempo mais fresco e mais húmido na Galiza. Mas a verdade é que nos tojais galegos a intensidade do fogo foi 4-5 vezes maior que nos urzais transmontanos...
Tradicionalmente as grandes áreas ardidas na Galiza situam-se no interior sul, onde as temperaturas acima de 35ºC e os verões secos não são raros. Assim foi o ano passado, com grandes incêndios que rivalizaram com os do norte de Portugal. Este ano parecem estar mais concentrados no litoral, onde há mais combustível. Mas quase toda a Galiza tem um índice de mediterraneidade bastante razoável, com a evapotranspiração estival a ser 2 a 4 vezes superior à precipitação estival. Tudo isto para dizer que do ponto de vista estritamente científico é difícil fazer estas comparações, mas não há qualquer dúvida de que a principal razão que explica a diferença no regime de fogo entre a Galiza e Portugal é a diferente eficácia no combate ao fogo. O melhor indicador de que assim é é o facto de os indicadores estatísticos dos fogos serem na Galiza (de 1991 a 2004) muito constantes de ano para ano, enquanto que em Portugal cerca de 80% da variação da área ardida entre anos é explicada pela meteorologia.

Paulo Fernandes

Paulo Fernandes

Anónimo disse...

Existe alguma explicação para que se investiguem apenas 0.2% dos fogos no Porto?

Pedro Bingre disse...

Caro Paulo:
Obrigado pela explicação, que em parte esclareceu as minhas dúvidas. Porém, repito que apenas contestei comparações genéricas entre entidades geográficas tão latas como a Galiza e Portugal. É evidente que Viana do Castelo é comparável com Vigo e Bragança com León. Já não é evidente, pelo contrário, que (repito) Figueiró dos Vinhos seja comparado com Santiago de Compostela. Quanto à correlação entre fogos e clima, imagino bem que se vá tornando difícil de calcular neste contexto de alterações climáticas e mudança rápida nos padrões de ocupação do solo.

Cumprimentos do
PB

Pedro Almeida Vieira disse...

A única explicação que vislumbro sobre a fraquíssima investigação das causas dos incêndios (4,5% a nível nacional e 0,2% no distrito do Porto e menos de 1% nos de Braga e Lisboa - dados dos últimos cinco anos) é a irresponsabilidade. Não se considerou nunca importante conhecer as razões de tantos fogos concentrados em determinados locais, pensando-se que se não eram grandes, não causavam preocupações. Claro que isto faz lembrar a história do cântaro e da fonte: por exemplo, o grande incêndios de há dias em Aguiar de Sousa foi o partir do cântaro, no concelho (Paredes) que mais ignições registou em Portugal na última década (mais de 8.100!!).
Aliás, nos últimos anos houve vários dias em que no distrito do Porto e de Braga ocorreram, em cada um, mais de 100 fogos...