quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Inverno de 2006-2007 coincide com projecções para o futuro

A NASA teve a gentileza de divulgar um mapa onde se mostra a anomalia (diferença) entre a temperatura de Dezembro 2006 e a média de 2000-2005. As cores quentes representam aumentos de temperatura, as cores próximas do branco representam ausência de alterações de temperatura, e as cores frias representam arrefecimento.

Independentemente da natureza dos valores absolutos (que são por vezes extraordinários) o que é interessante observar é o padrão geográfico do aquecimento e arrefecimento. Se os modelos climáticos estiverem correctos, o inverno de 2006-2007 é um bom exemplo dos tempos que estarão por vir.

Um estudo que publiquei, conjuntamente com colegas, esta semana (ver artigo 15 de 2007), na revista Global Environmental Change, sobre cenários de aquecimento global em áreas de montanha no século 21, revela um padrão geográfico de aquecimento semelhante ao observado este inverno.

Nos próximos 40-50 anos, as montanhas do hemisfério norte são as que deverão estar sujeitas a maiores aumentos de temperatura (3.6 a 5 graus centígrados) sendo que as alterações de temperatura em latitudes inferiores serão mais suaves (2.3 a 2.7 graus centígrados). Estas projecções foram efectuadas assumindo um cenário de continuação de uso intensivo de combustíveis fósseis.

Se conseguíssemos reduzir substancialmente os nossos padrões de consumo prevê-se que a magnitude das mudanças fosse inferior (2.8 a 2.6 graus centígrados nas montanhas de elevadas latitudes). No entanto, mesmo neste cenário de bonança seriamos confrontados com alterações de temperatura importantes. Tal leva-nos a concluir que as medidas preconizadas pelo Protocolo de Quioto são úteis mas insuficientes.

Uma nota final: o portal Ciência Hoje teve a amabilidade de publicar uma pequena nota sobre o artigo por nós publicado.

8 comentários:

Anónimo disse...

Parabéns! No entanto, há um problema que me preocupa cada vez mais, e que tem a ver com a enunciação científica, que por sua vez tem a ver com o protocolo dos testes estatísticos. Afinal de contas desde "Os limites do crescimento", senão antes, no princípio da década de 70, que D&D. Meadows alertavam convictamente para o problema do aquecimento global, e foi preciso esperar mais de 30 anos para que a evidência levasse à rejeição de H0 com 90% de confiança, quando a inércia da coisa já torna bem mais difícil inflecti-la.

O protocolo estatístico dos testes de hipóteses tornou-se porventura o maior obstáculo à fórmula da essência da verdade que desde a Escolástica e até Heidegger se colocava como: adequatio intellectus et rei.

josé casquilho

Anónimo disse...

http://www.publico.clix.pt/shownews.asp?id=1284440

Reacções ao relatório do IPCC
Investigador considera que política climática é das mais fundamentadas

02.02.2007 - 16h23 Helena GeraldesPUBLICO.PT

Desde que, no final do século XIX, o sueco Svante Arrhenius inventou o termo "efeito de estufa", milhares de cientistas têm estudado as mudanças no clima. A mais recente novidade é o relatório do IPCC apresentado hoje em Paris. Na verdade, poucos são os processos de decisão política acompanhados por tanto trabalho científico, diz um investigador português que estuda a biodiversidade e o clima.

Miguel Araújo, investigador do Museo Nacional de Ciências Naturais de Madrid e investigador associado da Universidade de Oxford, lembrou, em declarações ao PUBLICO.PT, que "poucos são os processos de decisão política que foram acompanhados por tantos estudos e tanto rigor na quantificação da incerteza".

As alterações climáticas — reconhecidas pela opinião pública internacional — têm sido acusadas pela classe política de alguns países de terem insuficiente sustentação científica. Este foi um dos argumentos usados em Março de 2001 pelo Presidente George W. Bush para se recusar a ratificar o Protocolo de Quioto, única ferramenta internacional para mitigar os efeitos das alterações climáticas.

Hoje, o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) apresentou o resultado do trabalho de centenas de cientistas sobre a evolução do conhecimento sobre o fenómeno.

"Este é um processo longo. Depois da parte técnica estar pronta, os relatórios são discutidos pelos governos e depois aprovados pelos Estados. Tudo isto influencia o resultado final", explica Miguel Araújo, professor associado convidado da Universidade de Copenhaga.

"Em ciência é difícil fazer afirmações inequívocas porque o mecanismo de aquisição de conhecimentos não é o da confirmação de hipóteses mas sim a sua desqualificação". O que tem acontecido com as alterações climáticas é que "a hipótese de aumento da temperatura do planeta tem passado por vários estudos e não tem sido desqualificada".

"A questão que se coloca é o que fazer perante a crescente evidência de que o clima está a mudar e que as causas dessa mudança não são independentes das actividades humanas", considera.

Miguel Araújo afirma ainda que este novo relatório "lança um alarme e um sinal aos políticos; um certo sentido de urgência".

O-Lidador disse...

O artigo é interessante mas a mim, que sou um leigo na matéria, suscita-me uma interrogação.

Se o fenómeno do aquecimento é "global", e provocado pelo efeito de estufa, porque razão há extensas zonas da terra que estão a arrefecer?

O efeito de estufa é localizado?

Ponto Verde disse...

Curioso é o facto de alguns escamotearem esta evidência, referindo que tudo se trata de influências do lobbye nuclear.

Mesmo o principio da precaução tendem a ignorar.

aeloy disse...

Pois respondendo a post anterior há de facto é uma má interpretação do "efeito de Estufa". E não há nenhum aquecimento global, mas alterações climáticas com picos cada vez mais extremos nas temperaturas terrestres e tempos cada vez mais longos de frio e, ou calor. Tudo isso interagindo com os polos, e o degelo e o dos glaciares, e interagindo com as correntes oceanicas. A meteorologia é a área da ciencia que se depara com mais indeterminantes e variaveis a se interseccionarem.
Tudo está ligado e o problema globar tem diversas e diferentes repercussões locais.
O que não é desmentível é que as alterações climáticas estão aí a modificarem os processpos de produção e a provocarem uma decisão imediata, antes que seja mais, muito mais tarde do que o necessário.
cc
AEloy

Miguel B. Araujo disse...

Fala-se de aquecimento global porque se têm registado aumentos de temperatura média a nível planetário e se projectam aumentos ainda mais marcados para o século 21.

Mas as médias globais fazem-se a partir de valores locais e estes variam no tempo e no espaço.

Lidador disse...

Caro Eloy, parece de facto que há alterações climáticas. Consta que Groenlândia era verde há cerca de 1000 anos e que se recuarmos centenas de milhares de anos, o clima já deu várias vezes a volta.
Ora como não havia homens em muitas dessas épocas, o clima terá variado por si próprio e com causas que não conhecemos.
Porque então todo este "rush"?
Que podeemos nós fazer para evitar que daqui a 100o anos a Groelandia volte a ser verde?
E porque haveríamos de fazer algo?

E como é que pode entrar na cabeça de alguém que haja zonas a arrefecer quando o planeta está (dizem) a aquecer? O efeito de estufa não é global?


Caro Araujo

Como é medida a temperatura média da terra?
Quem a mede?
Onde estão os termómetros?
Onde estavam e como eram os termómetros há 60 anos?

Em cidades ou no campo?
É que, dizem, as cidades de um modo geral aqueceram vários graus, em virtude dos efeitos de utilização dos solos...se os termómetros estão nas cidades, como há mais e maiores cidades, é muito provável que se desiquilibre a média só por isso.

De resto, parece que em 100 anos, esse "aumento de temperatura" é de apenas 0,6 graus.

POrquê tanto alarme?

Anónimo disse...

É espectacular. Modelos matemáticos que conseguem prever a temperatura terrestre daqui a 100 anos, com um grau de precisão incrível. "it's science, Jim, but not as we know it."