quinta-feira, agosto 02, 2007

O anticiclone dos Açores

Já por aqui se discutiu bastante sobre responsabilidades de áreas ardidas em Portugal.

Há anos que venho dizendo que comparar séries curtas de anos em matéria de fogos não faz qualquer sentido porque os fenómenos climáticos que lhes estão associados são demasiado variáveis de ano para ano. Fui até acusado, aqui e ali, de estar apenas a querer desresponsabilizar os responsáveis pela tragédia dos incêndios decorrente, dizem muitos, apenas da incúria e incompetência portuguesas.

O discurso oficial nesta mtéria é aliás muito equívoco, como demonstra o principal slogan adoptado presentemente: "Portugal sem fogos depende de todos". Não só Portugal sem fogos é uma miragem, que nem chega a ser utopia como sobretudo não é verdade que dependa de nós e, dentro do nós, de todos nós.

Mas aos poucos algum senso tem vindo a entrar na discussão, e embora se continuem a ver os responsáveis a fazer declarações demagógicas acerca do bom resultado que se obteve aqui e ali, já as previsões de alerta que circulam no dispositivo de prevenção e combate aos fogos fazem referência especial aos dias de vento Leste.

Este ano ardeu na Grécia e Itália, arde nas Canárias e no ano passado ardeu na Galiza. Os tais exemplos que nos dão de eficácia dos outros países quando comparados com Portugal não resistem ao simples facto do anticiclone dos Açores ter mudado de sítio este ano.

Como já não se trata de demonstrar a incompetência e incúria nacionais até já é possível ler no Público de 28 de Julho: "Nuno Moreira explica que as temperaturas elevadas no Sudeste europeu se deveram a três factores... Em Portugal isso também aconteceu em 2003. Tivemos uma massa de ar quente com altas pressões que se manteve na mesma região recorda Nuno Moreira. Essa onda de calor em Portugal durou de 29 de Julho a 15 de Agosto de 2003". Isto num Artigo cujo título é "Anticiclone dos Açores baralha o tempo na Europa", com uma entrada que é "os meteorologistas dizem que o anticiclone se perdeu no Atlântico, fugiu para sudoeste e abriu a porta às cheias no Reino Unido".

Quer isto dizer que estamos condenados à tragédia?

Não. Quer apenas dizer que cá, como em qualquer parte do Mundo, não há dispositivo de combate a fogos que possa ser desenhado para esses tais dias especiais. Cá, como em qualquer parte do Mundo, nos dias especiais o dispositivo entrará em ruptura.

Esperemos que este ano o anticiclone não volte tão depressa à normalidade: as condições estruturais no terreno são pavorosas, como muita erva e feno resultante de um Inverno e Primavera amenos e chuvosos.

Se vierem três dias de vento Leste o dispositivo montado entrará em ruptura e depois só umas velinhas à senhora de Fátima para que empurre o anticiclone e mude o vento, que é como quem diz, que mude as condições meteorológicas desfavoráveis, nos salvarão de um Verão infernal em matéria de fogos.

E já agora que ilumine o nosso Governo no momento de tomar decisões sobre o Plano de Desenvolvimento Rural que condensa o apoio do sector da agricultura. É que as propostas que existem partem do princípio de que o anticiclone se perdeu de vez no Atlântico.

É aí, e não no dispositivo de combate aos fogos que está a medida da nossa incúria e incompetência em matéria de gestão do território, de que a gestão dos fogos é só uma parcela.

henrique pereira dos santos

1 comentário:

Cláudia Costa disse...

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Deixo meu abraço fraterno, na esperança de merecer um pouquinho da sua atenção.
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Água e Luz, para sua vida.