domingo, dezembro 02, 2007

As contas do Programa Nacional de Barragens

Pasmado com as afirmações do Ministro do Ambiente, no Público, resolvi ler os relatórios que constam do "Programa Nacional de Barragens com Elevado Potencial Hidroeléctrico" com intuito de procurar entender as razões que justificam a construção das 10 novas barragens. Surpreendentemente o meu pasmo não diminuiu.

Os dados hidrológicos utilizados para justificar a necessidade de construção de 10 novas barragens e assim aumentar a potencia actual instalada de 5000 MB para 7000 MB consistem em séries hidrológicas observadas e em nenhum momento se consideram os modelos sobre disponibilidades hídricas futuras!

Ou seja, ainda que existam previsões que apontem para reduções de 20% da capacidade de produção de energia hidroeléctrica até 2020, que estas previsões estejam reconhecidas pelo Governo Português (Portugal subscreve os relatórios do IPCC) e que os dados produzidos pelos modelos hidrológicos estejam disponíveis, a equipa que produziu o relatório resolveu, inexplicavelmente, assumir um cenário sem alterações climáticas para justificar a necessidade de investimentos hidroeléctricos futuros.

Isto quer dizer que, qualquer que seja o investimento necessário para construir as referidas barragens, haverá que descontar 20% de rentabilidade até 2020, 20-30% até 2050 e 50% até 2070. Os 7000 MW de potencia instalada prevista pelo relatório, com a construção de mais 10 barragens, serão, possivelmente, 3500 MB em 2070; menos dos que os 5000 MB actuais!

Será um investimento razoável no quadro dos recursos limitados de que dispomos? Não parece.

Se o Governo está seriamente preocupado com a questão energética terá, obrigatoriamente, de chumbar este relatório e solicitar um relatório com valores corrigidos pelo efeito da redução de disponibilidade hídrica num contexto de alterações climáticas.

Terá também, à luz destes valores corrigidos, oferecer uma comparação que falta e que se impõe para justificar qualquer que seja a opção energética que Portugal deverá adoptar no futuro, i.e., uma análise rigorosa e ampla de alternativas.

Visto que uma das justificações centrais para a construção das novas barragens é permitir o armazenamento de energia eólica nos picos de produção de energia eólica, que coincidem com picos de baixo consumo, importa clarificar em que medida não se consegue obter a necessária capacidade de armazenamento com a reconversão de barragens existentes. No caso da resposta ser negativa (ou parcialmente negativa pois nalguns casos estas reconversões já estão a ser planificadas) importa analisar com rigor quais seriam as barragens imprescindíveis para as necessidades de armazenamento de energia eólica.

Existem poucos elementos que suportem a ideia de que o investimento em 10 novas barragens para produção de energia hidroeléctrica seja uma aposta racional. Fica por justificar a necessidade de construção de novas barragens para armazenamento de energia eólica. Façam-se as contas de novo, com simulações hidrológicas realistas e estude-se, de forma rigorosa, a viabilidade de alternativas designadamente a energia solar que, como se sabe, será um recurso abundante num Portugal cada vez mais quente.

Há muitas perguntas que ficam por responder com o relatório produzido e é preocupante constatar que decisões tão importantes, como seja a construção de 10 barragens novas num País tão pequeno como o nosso, sejam suportadas por estudos que partem de pressupostos errados.

11 comentários:

TPais disse...

Na verdade, estudos pouco sérios ou pouco realistas já estamos habiutados a ver sair dos gabinetes dos ministérios e semelhantes.
Servirão para alimentar os que fazem os estudos, para os "espertalhões" que tomam as decisões ficarem convencidos que o povo todo "come" o estudo, para esgrimirem argumentos falaciosos na assembleia da república ou para encherem espaço nas gavetas e serem substituidos por outros mais tarde!
Nada de novo então...infelizmente!
TiagoP
PS. uma coisa que não percebi, porque é que o pico de produção de energia eolica coincide com o pico de baixo consumo??!há mais vento à noite??

EcoTretas disse...

A acumulação de energia, utilizando a água em termos gravíticos, é uma das poucas formas eficientes de armazenar a energia produzida pelas eólicas à noite ou aos fins de semana e feriados... Já agora, só praticamente as barragens que sejam construídas nas fozes dos afluentes do Douro são interessantes em Portugal para esse fim, por as barragens do Douro serem de fio de água...
http://ecotretas.blogspot.com/

Miguel B. Araujo disse...

Tiago: Sim, existe umaa tendência para haver mais vento à noite quando o consumo é mais baixo. Ver relatório do programa citado, e.g., página 12.

TPais disse...

Bom, analisar 4 semanas por ano durante 3 anos e afirmar, como está no estudo que "a produção eólica tende a ser máxima durante a noite", parece-me no minimo abusivo. Agora, a partir desta conclusão fazer todo um cenário de produção nas eolicas e sinergia com a energia hidrica já em parece uma perfeita inutilidade dada a incerteza brutal nos dados de base.
Pelo pouco que li do documento parece-me muito pouco criterioso e rigoroso.
Lá está, o estudo serve para que conste que o estudo foi feito.

Anónimo disse...

Cresci junto dum rio, agora albufeira duma barragem que se supunha viesse a irrigar campos o que não aconteceu. Contrariamente à maioria das pessoas, sei que uma albufeira é um "deserto de agua" e destrói um estreito vale de vida vegetal e animal. Mas o post do Sr. M. Araújo não deixa de me parecer um pouco demagógico. Se as barragens não devem ser construídas tendo em conta as alterações climática previstas, então o que devemos fazer é pensar em emigrar, não sei bem para onde. Se houver uma séria desertificação que diferença faz construir ou não as barragens? Tudo será perdido, barragens e o resto! Na minha grande ignorância, penso que se está longe da unanimidade e de certezas sobre o que de facto vai acontecer. Exemplo: Prevê-se que havendo um aquecimento significativo a Inglaterra sofrerá um arrefecimento drástico, por anulação da corrente quente de que beneficia. Ao desarranjo no actual "equilíbrio" outro lhe sucederá , mas qual? A questão é: teremos lugar nele?

Miguel B. Araujo disse...

Caro anónimo:

"Se as barragens não devem ser construídas tendo em conta as alterações climática previstas, então o que devemos fazer é pensar em emigrar, não sei bem para onde."

Eu não disse que não se devem construir barragens. Leia lá outra vez com atenção.

"Se houver uma séria desertificação que diferença faz construir ou não as barragens?"

As barragens são necessárias para constituir reservas de água. Mas existe uma diferença entre planear um rede de reservas de água (que obviamente terá de ter em conta outros factores como seja uma reforma de política agrícola que se adeque melhor ao novo contexto climático) e planear uma rede de barragens para produzir energia eléctrica. O plano que se discute agora é para energia, apesar de o ministro vir dizer que o essencial é a reserva de água, apesar de depois dizer que afinal são os privados que vão pagar as barragens.

"Na minha grande ignorância, penso que se está longe da unanimidade e de certezas sobre o que de facto vai acontecer."

Incertezas existem hoje e existirão sempre. Mas nunca a incerteza impediu a humanidade de actuar. E nunca houve tanto acumular de conhecimento científico para suportar decisões como a que foi compilada durante os vários anos de existência do IPCC.

"Exemplo: Prevê-se que havendo um aquecimento significativo a Inglaterra sofrerá um arrefecimento drástico, por anulação da corrente quente de que beneficia."

Essa informação é incompleta. O arrefecimento drástico da Europa (não só de inglaterra) no século 21é um cenário possível mas que de acordo com o conhecimento actual possui uma probabilidade menor que 0.1 (numa escala de 0 a 1). No século 22 a probabilidade pode aumentar mas ainda é cedo para se avançarem com valores.

"Ao desarranjo no actual "equilíbrio" outro lhe sucederá , mas qual? A questão é: teremos lugar nele?"

De acordo.

Anónimo disse...

Caro Miguel Araújo,

Li o seu post com toda a atenção e queria perguntar-lhe se a informação que referiu é do conhecimento do ministério do Ambiente?

Não seria igualmente útil fazê-la chegar aos meios de comunicação social? Julgo que os argumentos apresentados são suficientemente compreensíveis para a generalidade da opinião pública compreender.

Cumprimentos

João Silva disse...

Peço desculpa por não me ter identificado anteriormente.

Escrevo isto porque aprendi a nunca subestimar a ignorância e a incompetência (voluntária e não voluntária) dos técnicos

Cumprimentos

Osvaldo Lucas disse...

Miguel B. Araújo escreveu...
"(...)O plano que se discute agora é para energia, apesar de o ministro vir dizer que o essencial é a reserva de água, apesar de depois dizer que afinal são os privados que vão pagar as barragens."
Nesse caso, deixemos aos privados a decisão de pagar e/ou arriscar, recursos financeiros. Quanto à qualidade dos contratos, contrapartidas e obrigações que serão reduzidas a letra de forma é melhor manter algumas reservas... SCUTs e trabalhos a mais são o pão nosso de cada dia.

De qualquer modo o Plano de Barragens foi feito às 3 (talvez menos) pancadas. Por ex: a cota prevista e a localização a jusante de Constância de uma possivel barragem de Almourol (Tejo) deixaria toda a baixa desta vila submersa...
Nem me dei ao luxo de participar na discussão pública porque, pura e simplesmente não vale a pena, ou melhor, não tenho nada em geral contra um plano desta natureza. Creio que, basicamente trata-se de declarações de intenções a ver como reage a população em geral à ideia de construir p'raí uma dezena de grandes barragens.

É preciso é estar com atenção (e criticar/propor alterações, etc) quando sairem os estudos de impacto ambiental de cada empreendimento em si, porque não nos podemos fiar muito nos técnicos... penso eu de que.

PS - Em que futuro mais ou menos longínquo a produção fotovoltaica pode competir, economicamente, com modos tradicionais de produção eléctrica?

Manuel Rocha disse...

Caro Miguel:

Li com atenção o seu post.

As ilacções que retira do cenário hidrológico em que se apoia, parece-me que precisariam de ser particularizadas às bacias de recepção dos projectos, não acha ?

É que as quebras de precipitação que antecipa podem não ter necessariamente interferência num caudal minimo de suporte, mas não sei se é o caso.

Quanto á decisão politica. Bem...ela tem que se apoiar em cenários, e normalmente até não são os ministros quem os concebe, certo ?

Depois, há o facto de as decisões por vezes serem tomadas com suportes complementares. Por exemplo: a necessidade de incentivar o emprego e a actividade económica, mas também não sei se é o caso...

Portanto, neste panorama, o que tenho de mais seguro é que andamos a discutir mais uma vez um fait-divers.

Explico-me:

Dê-se as voltas que se der á questão a resolução do problema de abastecimento energético é complicadissimo - tapa-se de um lado, destapa-se do outro.
Portanto, tentar resolvé-lo sem alterar a estrutura do consumo, que provavelmente passou há muito tempo a fronteira do razoável, talvez seja um trabalho inglório.

Não me parece que a prazo a questão se resolva nem pela via da poupança, nem pela via das ditas alternativas. Poderia resolver-se por alterações significativas no paradigma social, não acha ? Mas quem é que está disposto a falar disso ?

Saudações.

Paulo Almeida Santos disse...

Não deixa de ser curioso o timing da apresentação deste projecto, poucos dias depois de ser anunciada como certa a construção da Barragem do Sabor... Sera porque esta seria logo chumbada, à luz destes novos critérios? Nada acontece ao acaso...