domingo, setembro 21, 2008

As contas da florestação do país

Retomando um comentário riquíssimo a que ainda retornarei posteriormente, nomeadamente quanto à questão dos vidoais (ou bidoais como preferiu chamar-lhes a Associação Lusitana de Fitossociologia):
"As contas estão erradas desde há 150 anos, meu caro HPS? Gerações de silvicultores, apoiados por economistas agrários e florestais, lançaram-se numa empresa ruinosa para o país, convencendo mesmo o avarento Salazar, sem antes fazerem as contas? É espantoso que ninguém tenha reparado nisto todos estes anos, é pior que o vento leste!"
Há muita gente a dizer desde o início da florestação estatal do país que nem sempre as contas estão bem feitas.
Separemos no entanto dois aspectos diferentes: a florestação estatal e a florestação privada.
A primeira é uma empreitada que não é ruinosa para o país mas, em larga medida, sobretudo a partir do Estado Novo, tem-se caracterizado por um mau uso dos recursos públicos.
A segunda, apesar de se verificar muitas vezes em condições que as ideias florestais dominantes do país consideram adversas a uma boa gestão florestal (mini-fúndio, baixa incorporação técnológica, aversão ao associativismo, baio recurso a técnicos especializados como acontece no Noroeste de Portugal) é responsável pela maior parte da riqueza criada no sector florestal. Evidentemente que aqui a fileira do eucalipto, em circunstâncias diferentes das descritas para o minifúndio do Noroeste, desempenha um papel de relevo e tem características diferentes, com elevada incorporação de conhecimento e tecnologia e manchas florestais de grandes dimensões.
Sobre este assunto ler ou ouvir Américo Mendes que é muito instrutivo.
Por que razão faço esta distinção?
Porque grande parte da florestação do país, inicialmente com algum apoio estatal, foi feita na área da economia do milho, onde as bouças são complementares da exploração agrícola e as comunidades não tiveram qualquer problema em dividir em sortes os baldios existentes, criando pequenos pinhais numas nesgas de terreno.
Nessas circunstâncias, em que o mato continua a ser a produção principal, agora já não para alimentar o gado mas para estrumar a terra, os pinheiros constituem um património que vai aumentando e que se usa como se usa o aforro. Na verdade o que torna competitiva esta exploração florestal é uma boa produtividade primária, sem dúvida, mas o facto da exploração agrícola pagar a roça dos matos.
Na medida em que a economia tradicional do milho vai ruindo e deixando de pagar a roça dos matos o custo desta operação essencial para manter seguro o aforro em pinheiros passa para a gestão florestal. E o resultado é o aumento exponencial do risco de incêndio, não só porque muitas vezes não é rentável a roça dos matos enquanto operação florestal (já não como operação agrícola) como explorações florestais sem exploração agrícola em Portugal é coisa rara e pouco vista por falta de condições objectivas para que o seu gestor subsista apenas da floresta.
Já a empreitada estatal começou por ser uma boa coisa, quando assumia os custos do controlo da torrencialidade, da criação de solo e coisas destes género. Só que passou rapidamente a uma lógica produtivista típica do Estado Novo (à semelhança da campanha do trigo, também a floresta era um desígnio nacional vindo do século XIX a que o Estado Novo vinha dar novo alento resolvendo os problemas anteriores de falta de autoridade do Estado) em que a independência da Nação era bem mais importante que os direitos dos indivíduos.
Simplesmente, por mais que um relatório de 1935, em pleno Estado Novo, pretenda demonstrar o contrário, a falta de escrutínio público, a evidente aversão à mudança e o mundo fechado da silvicultura nacional com quase todos os técnicos formados indo directamente para a muito hierarquizada e rígida estrutura dos serviços florestais integrar-se na missão de dar uso aos "incultos", terminologia do século XIX que ainda hoje o sector usa, inacreditavelmente, não tem conta a quantidade de desperdício de recursos públicos mal usados, desde o uso cego da carta ecológica de Pina Manique e Albuquerque para a escolha das espécies, sem avaliação posterior, até ao extremar da ideia de que é preciso usar pioneiras (nas quais se incluíam grande parte das resinosas) antes de usar quercíneas ou castanheiros, o orgulho em manchas contínuas mono-específicas, sem atenção às especificidades de cada local e a esmagadora dominância do uso da florestação sobre o uso da regeneração natural não tem conta o número de situações de claro erro e desperdício das plantações feitas com dinheiros públicos. Também a fileira do eucalipto começou por fazer umas grossas asneiras mas como o accionista não tinha bolsos sem fundo, cedo arripiaram caminho a aprenderam com a experiência, ao contrário dos serviços florestais do Estado.
Estes erros e desperdícios, numa sociedade aberta, teriam provavelmente feito evoluir a forma de gerir a floresta em Portugal.
Infelizmente foi preciso que ardesse praticamente 5% do país para que finalmente, muitas ideias larvares, muitas delas defendidas por florestais que foram sendo emprateleirados, nomeadamente durante o Estado Novo, pudessem ganhar foros de cidadania na política florestal do país.
E isso custou muitos e muitos recursos que poderiam bem ter sido usado noutras coisas.
É isso que me faz dizer que há muitas contas mal feitas de há 150 anos para cá. Muita contabilidade sobre benefícios teóricos e muito pouca avaliação de resultados empíricos.
henrique pereira dos santos

2 comentários:

b. gomes disse...

Caríssimo Henrique,

O conteúdo do seu post não condiz com o título: promete “as contas da florestação do país” e só oferece farelório, como dizia o mestre Aquilino.

Não me parece que seja uma resposta adequada às questões que lhe coloquei, sobretudo as que pediam números.

De resto, o normal: não se ama o que não se conhece, e o Henrique percebe muito pouco de história da intervenção florestal do país, do contexto social e técnico da sua aplicação, do zeitgeist. Para quê conhecer a obra em discurso directo, ou no terreno, se nos podemos esconder atrás de Américo Mendes, o mago da análise histórica (e simultaneamente economista dirigente de associações privadas de produtores florestais)?

É notável a forma como o Henrique não fundamenta concretamente as suas afirmações, choca frontalmente com a realidade de factos históricos ou, pelo contrário, usa verdades lapalisseanas como provas das suas teses.

HPS: “Há muita gente a dizer desde o início da florestação estatal do país que nem sempre as contas estão bem feitas.”

Quem, HPS? Há tantas pessoas que não consegue escolher uma? Dou-lhe o nome de dois técnicos florestais que souberam fazer (e publicaram, já há vários anos) críticas demolidoras ao uso de dinheiros públicos no fomento da arborização particular, sobretudo nas décadas 80 e 90 do século XX: os eng. João Soares e João Soveral. Fundamentadas no estudo pormenorizado das estatísticas oficiais de inventário, incêndios e arborizações. Proponho-lhe que compartilhe outros nomes para outras fases da nossa história florestal do país, se os tiver – e estamos a falar de contas, não de “Quando os Lobos Uivam” ou de outros romances.

HPS: “A segunda [a florestação estatal “privada”], apesar de se verificar muitas vezes em condições que as ideias florestais dominantes do país consideram adversas a uma boa gestão florestal (mini-fúndio, baixa incorporação técnológica, aversão ao associativismo, baio recurso a técnicos especializados como acontece no Noroeste de Portugal) é responsável pela maior parte da riqueza criada no sector florestal”.

Como é que o contrário poderia ser possível, Henrique, se a área de floresta privada é 93% da superfície florestal do país e, no caso da floresta de produção lenhosa, ocupa as regiões mais favoráveis ao crescimento vegetal (baixas altitudes e melhores solos – os que não ficaram para baldios…)? Como é que as matas públicas, cerca de 7% do total, poderiam produzir mais se foram criadas sobretudo para proteger bacias hidrográficas, em altitude, e depois em grande percentagem se integraram em parques e reservas? Tem de explicar bem esse seu argumento.

HPS: “E o resultado é o aumento exponencial do risco de incêndio, não só porque muitas vezes não é rentável a roça dos matos enquanto operação florestal (já não como operação agrícola) como explorações florestais sem exploração agrícola em Portugal é coisa rara e pouco vista por falta de condições objectivas para que o seu gestor subsista apenas da floresta.”

Mais uma asserção contrariada pela crua realidade: mais de 50% da superfície florestal produtiva não está integrada em explorações agrícolas, diz-nos o cruzamento das estatísticas agrícolas do INE com as do inventário florestal. Posto de outra maneira: já foi alguma vez às regiões florestais do Caramulo ou do Entre Douro e Vouga ver do que é que os nossos concidadãos vivem? Alguma vez parou para falar com as pessoas do Pinhal Interior Sul e perceber como funcionou, nas décadas de 1940 a 1980, uma economia agrária privada baseada sobretudo no pinhal e na resina? Basta falar com as pessoas, meu caro HPS, e não passear pela paisagem "cada vez mais bonita"…

HPS:” Já a empreitada estatal começou por ser uma boa coisa, quando assumia os custos do controlo da torrencialidade, da criação de solo e coisas destes género. Só que passou rapidamente a uma lógica produtivista típica do Estado Novo (à semelhança da campanha do trigo, também a floresta era um desígnio nacional vindo do século XIX a que o Estado Novo vinha dar novo alento resolvendo os problemas anteriores de falta de autoridade do Estado) em que a independência da Nação era bem mais importante que os direitos dos indivíduos.
Simplesmente, por mais que um relatório de 1935, em pleno Estado Novo, pretenda demonstrar o contrário, a falta de escrutínio público, a evidente aversão à mudança e o mundo fechado da silvicultura nacional com quase todos os técnicos formados indo directamente para a muito hierarquizada e rígida estrutura dos serviços florestais integrar-se na missão de dar uso aos "incultos", terminologia do século XIX que ainda hoje o sector usa, inacreditavelmente, não tem conta a quantidade de desperdício de recursos públicos mal usados, desde o uso cego da carta ecológica de Pina Manique e Albuquerque para a escolha das espécies, sem avaliação posterior, até ao extremar da ideia de que é preciso usar pioneiras (nas quais se incluíam grande parte das resinosas) antes de usar quercíneas ou castanheiros, o orgulho em manchas contínuas mono-específicas, sem atenção às especificidades de cada local e a esmagadora dominância do uso da florestação sobre o uso da regeneração natural não tem conta o número de situações de claro erro e desperdício das plantações feitas com dinheiros públicos.”

261 palavras pouco articuladas, de quem só tem uma fugaz ideia do que foi a aplicação do plano de povoamento florestal de 1938 e se limita, sobretudo, a reproduzir uma ladainha de base ideológica e corporativista, velha de décadas (aqui bem compactada, reconheça-se).

Como os únicos números que usou nesses dois parágrafos foram “1935” [ainda por cima errado!] e “XIX”, vou-lhe dar um outro para meter na sua folha de cálculo que (espero) esteja a construir sobre o “deve e haver” da florestação das montanhas: a partir do final da década de 60 e até às hecatombes do virar do século, os terrenos arborizados pelo PPF produziram anualmente uma média de 500 000 m3 de madeira (estatísticas oficiais INE), colocadas no mercado e nas fileiras industriais.

Claro que para o Henrique tal não passa de uma bagatela desprezível, mas ainda assim e correndo o risco de me apelidar de “produtivista” ou qualquer outra coisa pior, atrevo-me a lançá-lo à discussão. Sim, que as centenas de pedreiras e os parques eólicos do PNSAC são só para enfeitar, não produzem nada.

Esta estranha aversão do HPS ao trabalho e esforço de centenas de colegas seus, também funcionários públicos dedicados, ao longo de muitas dezenas de anos, só tem – na minha modesta opinião, uma explicação racional.

No longo percurso da história e perante o resto da sociedade, só existem duas formas de garantir o protagonismo e o reconhecimento público: uma implica gerir activamente os recursos nacionais para promover o bem comum (“fazer obra”), a outra (quando não há “obra” para mostrar) consiste simplesmente em depreciar a dos vizinhos.

B. Gomes

Ana Paula Dias disse...

Será no mínimo cruel dizer que as contas dos florestais estão mal feitas desde há.... 150 anos. Seria de facto incrível que 150 anos atrás fosse feito um plano infalível, que ponderasse todas as alterações do mundo rural e, sobretudo, todas as aspirações da sociedade face aos espaços florestais. Os florestais teriam de ser magos para além de técnicos.

Falhou, talvez, a noção que os planos não são ( não podem ser) estáticos, devendo-se adaptar as acções a desenvolver às alterações de contexto. Mas enfim o conceito de monitorização e avaliação em planeamento não tem de certeza 150 anos.

Ou talvez nem tenha falhado essa noção aos florestais que desde há mais de um século trabalham na questão, mas apenas a capacidade da sociedade reconhecer
a importância das florestas. Esse reconhecimento teria contribuído de forma decisiva para adaptar o investimento público às aspirações da sociedade quanto aos seus espaços florestais.


Já imaginou o Plano Sectorial da Rede Natura 2000 analisado daqui a .. 150 anos...?