quinta-feira, setembro 25, 2008

A ética e a informação na conservação

Há um aspecto que fragiliza todo o movimento conservacionista mas que em Portugal, meio pequeno e de capelinhas, tem uma dimensão dramática.
Como alguém me dizia um dia destes, há produtores de informação de conservação (maioritariamente da academia, mas também noutros enquadramentos) que partem do princípio de que tendo nós políticos pouco sensíveis à conservação, que distorcem a informação para um lado, é legítimo (alguns consideram quase um dever) torcer a informação para o outro lado para ver se a coisa se equilibra.
Há efectivamente uma tolerância, quando não apoio, em relação à manipulação da informação de conservação desde que a favor do bem maior que é a conservação.
Os dados e, sobretudo, a interpretação dos dados é com frequência distorcida para se obter um enquadramento mais favorável para as políticas de conservação.
Só isso explica que ninguém se pergunte como podem o lobo e o lince estar no mesmo estatuto de ameaça, de criticamente em perigo (isto é, "enfrentando um risco de extinção na natureza extremamanete elevado" que duvido que seja a percepção que alguém tenha hoje da situação do lobo em Portugal).
Ou que um vulgaríssimo milhafre seja considerado vulnerável (isto é, enfrentando um risco de extinção na natureza elevado).
Esta torção ética que permite aceitar maus procedimentos científicos em função da sua utilidade para a obtenção de um resultado mais favorável à conservação diminui a capacidade de nos concentrarmos no que é realmente importante.
Mas sobretudo diminui a nossa vigilância perante o abuso desta técnica para fins particulares.
Vem lobo, vem lobo, costumava gritar o pastor para mangar com o povo. E quando um dia o lobo apareceu ninguém acorreu a ajudá-lo.
henrique pereira dos santos

10 comentários:

Rita disse...

Gostava de ver bem explicada a sua afirmação de que os dados sobre a vulnerabilidade das espécies são distorcidos, de preferência com exemplos reais. É que pelo que sei, isto parece-me mais uma acusação sem fundamento atirada para o ar.

Gonçalo R. disse...

Cara Rita,

Não, infelizmente não é uma acusação sem fundamento, atirada para o ar.

A ideia de que determinada espécie pode estar a recuperar, ter uma população superior à inicialmente conhecida ou não ter a diferenciação genética tão grande quanto inicialmente suposta pode ter consequências no seu estatuto, prioridade de conservação e, finalmente, atribuição de fundos que visem a sua conservação.

A tentação de dramatizar cenários de forma a obter a resposta política desejada é real e, ainda que possa parecer genuína, nos casos em que apenas o que pretendemos é salvaguardar a conservação da espécie em questão, não é. Na realidade, a distorção deliberada de resultados/análises é tão ilegítima, como leituras enviesadas de decisores políticos, as tais, que tanto lamentamos. Mas uma coisa não pode legitimar a outra.

Quer um bom exemplo disso? Há alguns anos atrás, quando preparava um documento sobre o censo nacional de uma das espécies com que trabalhei e que se encontrava em claro crescimento populacional, um dos meus colaboradores pediu-me para alterar o cenário e afirmar que a situação populacional era “estável”… o motivo apresentado foi exclusivamente o de que depois se daria menor “importância” aquela espécie, se se afirmasse que a população daquela espécie tinha recuperado.

Quer outro? Os argumentos apresentados para fundamentar a importância da re-introdução de Águia-pesqueira na costa sudoeste do país foram-se alterando consoante se foi descobrindo, por exemplo, a questionável diferenciação genética relativamente a “núcleos populacionais” onde a espécie se encontra em situação bem mais favorável, ou ainda de acordo com a inviabilidade de conseguir aves, em número suficiente, oriundas de algumas regiões/países.

Para além da questão ética, propriamente dita, há ainda o problema de que uma “espécie prioritária” ou é em relação a outras. Ou seja, sempre que elevamos o “estatuto” de uma espécie, baixamos automaticamente os de todas as outras.

Ainda que discorde manifestamente desta estratégia de distorção de realidade, independentemente do verdadeiro objectivo pretendido, não creio que seja um problema generalizado à maioria da informação que se produz em Portugal ainda que, os casos que conheço, em nada contribuam para a imagem de credibilidade que todos desejamos que estes estudos tenham.

Anónimo disse...

Aqui vai mais uma bela ilustração do que tem sido aqui discutido e denunciado:
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1343624

Grão a grão enche a galinha o papo...

JFélix

Henrique Pereira dos Santos disse...

Cara Rita,
Discutamos, por exemplo, o caso do lobo até porque ao contrário do que disse antes o lobo tem estatuto de em perigo e não criticamente em perigo. Isto é, não está classificado como "enfrentando um risco de extinção na natureza extremamanete elevado" mas apenas "enfrentando um risco de extinção na natureza muito elevado".
Vejamos por que razão o lobo é colocado neste grau de ameaça.
De acordo com a fundamentação do livro vermelho é porque a população de lobo em Portugal é de menos de 250 indivíduos maduros, embora o mesmo livro vermelho estime a população entre 200 a 400 indivíduos (fica-me a dúvida se os indivíduos maduros diferem da estimativa dos indivíduos citada, que não refere "maduros").
Este critério de ameaça para populações muito pequenas foi definido pela UICN para populações globais. Há no entanto critérios para aplicar regionalmente os limiars definidos para populações globais.
Em qualquer caso tecnicamente não há qualquer justificação para aplicar um critério desenhado para uma população global a uma parte de uma população separada de outra por uma mera fronteira administrativa.
Isto é, a população portuguesa deveria, em meu entender, se avaliada pelo grau de ameaça da população espanhola contígua, o que provavelmente faria disparar a dimensão da população, retirando-a do estatuto de ameaça mais preocupante.
Repare-se que globalmente o lobo está num estatuto de ameaça pouco preocupante e em Espanha vulnerável.
O que digo é que a opção de sistematicamente optar por considerar a população do país em detrimento da população ibérica que é efectivamente a mesma nunca seria tomada se o resultado fosse no sentido de se obterem estatutos de ameaça menos preocupantes.
Mas como o resultado desta opção implica maior grau de ameaça, logo mais protecção, nós todos acabamos por aceitar esta torção da realidade biológica, que raramente reconhece fronteiras administrativas.
henrique pereira dos santos

Anónimo disse...

É verdade que a população portuguesa de lobo, que ocorre a norte do Douro, faz parte da grande população do norte da península (1700 lobos "espanhóis"+ 300 lobos "portugueses").

Do ponto de vista biológico, esta perspectiva é correcta, mas será que é correcta do ponto de vista da conservação?

Com tanta estrada, parque eólico e barragem a ser construída ou projectada, como é que acha que o lobo seria visto pelos promotores e pelo governo? Não seria alvo de qualquer preocupação e não seriam tomadas medidas para o salvaguardar. Em pouco tempo franja portuguesa da grande população ibérica despareceria do país, como o HPS muito bem deve saber.

Se considerarmos todos os factores de ameaça que sobre o lobo caem (envenenamento, caça, perturbação dos locais de criação, regressão das presas silvestres, fragmentação do habitat e morte por atropelamento) o estatuto "Em Perigo" é mais que justificável.

Henrique Pereira dos Santos disse...

Caro anónimo,
Só posso agradecer-lhe a poderosa demonstração do que eu tento dizer com muito menos sucesso.
O rigor dos processos e da aplicação dos critérios implicaria classificar o lobo em Portugal como vulnerável (pelo mesno esta perspectiva é defensável).
Mas as nossas opções políticas de conservação aceitam sem pestanejar que torçamos os dados para que se obtenham resultados mais favoráveis de conservação.
Qual é o risco?
O que acontece é que desvalorizamos os estatutos de ameaça e deixamos de separar o que deve ser separado.
E consequentemente temos dificuldade em sustentar definições de prioridades claras e compreensiveis para todos.
E, ao aceitar este tipo de procedimentos, abrimos a porta ao seu uso por razões que já nem sequer são da conservação (como provavelmente é a base ética da maioria das pessoas que se interessam pela discussão) e qualquer oportunista bem informado pode usar a permeabilidade ética para justificar o torção a seu favor.
Já agora, quanto à questão de fundo, o lobo não está em declínio, portanto nem sequer a dinâmica populacional justifica o raciocínio feito.
henrique pereira dos santos

Anónimo disse...

Percebo o problema ético que refere e dou-lhe razão.

Quanto ao lobo, pelo que tenho lido, a situação presente é relativamente estável, excepção feita ao núcleo situado a sul do Douro e ao núcleo de Vila Real, que está segundo consta a sofrer com os impactes da A24, das eólicas e com as pedreirar ilegais (estou a citar o que li sobre o Seminario Grandes Infraestruturas e a Conservação do Lobo Ibérico).

Mas as perspectivas para a situação futura não em parecem muito animadoras. Não acha que as 4barragens do Tâmega e do Sabor vão prejudicar fortemente a conectividade do habitat do lobo? Como é que se vão mitigar os impactes das ditas, quando os autarcas referem que querem tornar a zona das barragens em polos turisticos?Face a isto ainda acha que a situação inspira pouca preocupação?
No Sul do Douro, que eu saiba, também ainda nada de concreto foi feito para melhorar a situação!

Henrique Pereira dos Santos disse...

Caro Anónimo,
O facto de se considerar o estatuto de vulnerável (que traduzido em miúdos quer dizer "enfrentando um risco de extinção na natureza elevado") como pouco preocupante já é bem um sintoma dos efeitos das opções associadas à dramatização.
Significa que andamos a perder tempo e recursos com muitas espécies classificadas como ameaçadas mas que efectivamente não paresentam um risco elevado de extinção na natureza.
Mas a questão de fundo é que não é dramatizando a informação que se obtêm melhores soluções de conservação, é sendo rigoroso que é possível obter melhores soluções.
Mas a questão de fundo é que se estão a misturar coisas: uma coisa é avaliar o risco de extinção, esse é o papel do livro vermelho. Outra coisa é discutir que políticas e medidas adoptar face a uma avaliação concreta, que já não é o papel do livro vermelho (embora o livro vermelho português, que é um bom livro e foi agora reeditado em terceira edição, tenha pistas nesse sentido).
Por último, e para não nos afogarmos todos em pessimismo aconselho a visita às serras de Montemuro, Arada e Freita com o Gonçalo Brotas, da Associação para a conservação do lobo nessa região, que é financiada pelos parques eólicos.
henrique pereira dos santos

Anónimo disse...

Fá-lo-ei assim que puder. Conheço a referida associação e espero que desenvolvam um bom trabalho, porque o lobo bem precisa. E que no meio de todas as discussões sobre estatutos de ameaça, não nos afastemos do essencial. Que é melhorar o estado de conservação (não confundir com estatuto...) das nossas espécies.

Aproveito para deixar os parabéns ao si e ao ICNB a propósito do programa escola na natureza.

Anónimo disse...

Gostava de ler mais alguns cientificos em português sobre filosofia, ética e informação da conservação. Se fosse possivel ajudar e recomendar alguns artigos agradecia.