quinta-feira, outubro 23, 2008

A minha ingenuidade

Leio no público de hoje uma artigo de Ana Fernandes (desde que li jornais que escreveram coisas sobre assuntos em que estive envolvido começo cada notícia por saber quem a assina e se refiro aqui a Ana Fernandes é para explicitar o meu grau de confiança no que li) sobre a apresentação do Programa Nacional de Prevenção Estrutural 2009/ 2010.

A dado passo entusiasmo-me com o arranque de um parágrafo:

"Além destes objectivos de gestão florestal (que me merecem comentários mas agora não tenho tempo, digo eu, não a Ana Fernandes), o Governo quer também promover a recuperação dos ecossistemas."

Aleleuia, pensei eu, afinal eu não tinha razão nas críticas ao PRODER e à sua demissão face à responsabilidade legal de garantir os meios de financiamento da gestão da Rede Natura e dos valores da biodiversidade. Entusiasmado, prossegui.

Que grande erro o meu. Eu, que poderia ter passado um dia feliz com o arranque do parágrafo, leio incrédulo:

"Pelo que se compromete a chegar a 2010 com 25 000 hectares do território intervencionados com acções preventivas contra incêndios e 500 000 hectares repovoados."

Não vou discutir o que significam os 25 000 hectares nos cerca de 5 a 6 milhões que representam os espaços de matos e matas. Não vou discutir como nestes dois anos se repovoam (o que não sei o que seja mas percebe-se a ideia) 500 000 hectares.

Mas não posso passar por cima da ideia de que para este Plano, pelo menos como descrito pela Ana Fernandes, recuperação dos ecossistemas seja prevenção de incêndios e repovoamento florestal.

Que tristeza.

E eu a lembrar-me do slide do José Miguel Cardoso Pereira que tinha visto na sexta feira:


henrique pereira dos santos

PS A imagem é da comunicação do José Miguel Cardozo Pereria a quem agradeço a cedência.

2 comentários:

B. Gomes disse...

Caro Henrique,

Pois é, continua a confundir alhos com carvalhos, que é o que os analistas de imagens de satélite fazem: só se vê a reflectância da superfície da vegetação, não se consegue distinguir se é um pinhal, um prado ou um musgueiral.

E para o Henrique, como tem os seus proventos seguros pelo Orçamento de Estado, ou por qualquer outro orçamento, não interessa qual, pouco lhe importa que os proprietários e produtores florestais do Portugal rural profundo vejam a sua riqueza acumulada durante decénios carbonizar-se em alguns minutos, seja madeira, medronho, cortiça ou pinhão.

Ou que, dois Outonos depois, a serra ardida venha abaixo com as enxurradas, como sucedeu no maciço do Açor, em Ourém ou em Pombal, em Outubro de 2006.

Desde que o EVI recupere bem, a teoria segue verosímil... e daqui a alguns anos com certeza lá teremos um habitat Natura 2000 para proteger.

Como cada acção em SIC e ZPE rende pelo menos € 100 em parecer obrigatório para o ICNB, o cidadão pode dormir descansado que, mesmo financeiramente depenado, as Chioglossas terão quem vele por elas.

As vantagens que os incêndios têm!

B. Gomes

Henrique Pereira dos Santos disse...

Caro B. Gomes,
Lamento o seu registo de permanente agressividade.
Mas lamento ainda mais que para dar mais eficácia a este registo esteja permanentemente a querer colar-me a posições que não exprimi num ataque pessoal que para mim é incompreensível.
Digo clara e permanentemente que o regime de fogos actual tem três vertentes de consequências que devem ser distinguidas: a de protecção civil, que é séria e deve ser uma responsabilidade do Estado; a económica que é séria para algumas fileiras, em especial a do pinheiro, que deve ser uma responsabilidade da produção e dos produtores; a de conservação, quer das espécies e ecossistemas, quer das funções relacionadas com os ciclos da água e dos nutrientes e a conservação do solo, que é marginal e limitada no espaço e no tempo e portanto pouco preocupante.
Conluir que defendo os fogos, que me estou nas tintas para os rendimentos dos produtores porque tenho o ordenado assegurado pelo o Estado e por aí fora só mesmo por má-fé, que lamento.
Quanto à questão de fundo, o meu post refere-se a uma aldrabice que me pareceu espelhada na notícia: o apoio à produção florestal disfarçada de gestão de ecossistemas.
Em lado nenhum disse que o notável gráfico do José Miguel Cardoso Pereira (não sua opinião um "analista de imagens de satélite" que "confunde alhos com carvalhos") significa que existe recuperação total dos povoamentos.
Bem pelo contrário, é o José Miguel Cardoso Pereira que na sua comunicação chama a atenção para o facto deste gráfico nada dizer quanto a muitos aspectos necessários para essa análise, sendo evidente que povoamentos florestais não recuperam totalmente em dois anos. Mas do ponto de vista da recuperação dos sistemas, o que o gráfico diz é que dois anos depois de fogos com a extensão e a severidade de 2003, a cobertura do solo e a actividade fotossintéctica está reposta.
E isso, meu caro B. Gomes, é um dado bem mais relevante que a sua delirante afirmação de que "dois Outonos depois, a serra ardida venha abaixo com as enxurradas, como sucedeu no maciço do Açor, em Ourém ou em Pombal, em Outubro de 2006." que se esquece de fundamentar, tanto mais que as serras ainda lá estão e com excelentes recuperações após fogo.
Tenho pena que em vez de escolher dsicutir uma matéria complexa e relevante para o futuro do mundo rural escolha defender um modelo florestal para o país que o tempo tem mostrado estar desajustado da realidade que temos, mesmo que para isso tenha de usar qualquer argumento que esteja à mão para desqualificar quem se limita a ter uma opinião diferente da sua e a procura exprimir de forma fundamentada.
henrique pereira dos santos