sexta-feira, outubro 24, 2008

O sisão

AS Roubei na net esta fotografia a Vitor Maia. Se alguém souber como se contacta o seu autor por favor digam-lhe que tirarei imediatamente a fotografia se considerar este uso não comercial como abusivo

Fiz há algum tempo uns posts sobre a forma como a informação favorável ao que a generalidade do movimento conservacionsta considera a tomada de medidas positivas para a conservação é pouco escrutinada.
Num encontro fortuito alguém me disse: "já sei que contestaste o estatuto de ameaça do sisão que consta do livro vermelho dos vertebrados". A frase em si não é verdadeira, não contesto essa classificação, não sei o suficiente para isso.
Mas tenho efectivamente uma enorme perplexidade pela prioridade dada a esta espécie no financiamento de acções de conservação. E acho que é possível, não digo que exista, acho apenas possível, que as pessoas mais ligadas à sua conservação moldem um bocadinho os dados à vontade, legítima, de manter um elevado grau de prioridade à sua conservação.
Vejamos então.
O livro vermelho classifica, à semelhança do que é feito em Espanha, o sisão como vulnerável numa escala que vai do "quase ameaçado" (a minha categoria favorita pelo que representa de todo um programa ideológico), ao criticamente em perigo, passando pelo em perigo e vulnerável (estes três estão por ordem de mais ameaçado para menos ameaçado).
Como o livro vermelho dos vertebrados de Portugal é um bom livro vermelho, como uma quantidade incrível de informação (reeditado em terceira edição recentemente, passe a propaganda) é possível ir procurar na ficha da espécie a fundamentação para esta classificação.
A União Internacional para a Conservação da Natureza estabelece, para a classificação de uma espécie como ameaçada, um conjunto de critérios. Se apenas houvesse uma população de sisão no mundo e a sua dimensão fosse de menos de 10 000 indivíduos automaticamente entraria na classificação de vulnerável (até um limiar menor a partir qual passaria a em perigo e outro ainda menor a criticamente em perigo).
Ora o Livro Vermelho aplica às populações portuguesas critérios que são definidos para populações globais (ou, em alternativa, populações isoladas). E depois aplica uns critérios de adaptação que não me parecem inteiramente sólidos (e reconheça-se como difícil esta tarefa).
No caso do sisão a estimativa da população em Portugal é de superior a estes 10 000 indivíduos (provavelmente 20 000) e se fosse considerada a população ibérica, que é separada artificialmente pelo limite administrativo que é a fronteira entre Portugal e Espanha, passaria largamente este número visto as estimativas oscilarem actualmente entre os 100 000 e os 200 000 indivíduos.
Consequentemente não é este o critério usado para classificar a espécie como vulnerável mas a sua dinâmica populacional, isto, o facto de se estimar uma perda de efectivos superior a 30% nos últimos 10 anos.
E aqui é que a porca torce o rabo. A verdade é que não há dados directos para estimar esta diminuição da população porque não há estimativas fiáveis da população de há dez anos. Portanto esta dinâmica é estimada a partir da dinâmica dos habitats da espécie.
Ou seja, admite-se uma redução de trinta por cento da área agrícola de cereais de sequeiro e estimam-se mais trinta por cento para os próximos dez anos, o que leva a supor que o declínio irá outra vez acentuar-se mais trinta por cento.
Dir-se-ia que provavelmente estão fundamentados estes dados de dinâmica de uso do solo, visto que sobre isso há informação há bastantes anos em Portugal.
Pois.
Esse detalhe de fundamentação não é evidente. Aparentemente basta a convicção de especialistas em sisão que não são especialistas em dinâmicas de paisagem.
O facto da área agrícola estar praticamente estabilizada nos dois últimos inventários florestais, por exemplo, não parece ser obstáculo a esta visão catastrófica da situação do sisão e dos seus habitats.
Dir-se-á que se for transformado sequeiro em regadio, ou cereal em olival a área agrícola se mantém mas o habitat do sisão não. Sim claro, da mesma forma que se for transformado cereal em pastagem de sequeiro pode ser considerada uma alteração do uso do solo mas não é linear que seja uma perda de habitat para o sisão.
Mas a questão não é tanto saber quem tem razão no estatuto de ameaça.
A questão é saber por que razão, havendo instrumentos que permitem tirar estas dúvidas, se opta por aceitar, sem mais, o consenso científico dos principais interessados na definição do estatuto de ameaça.
E a minha tese é a de que há muito quem ache que é eticamente admissível uma certa moldagem dos dados aos resultados que se pretendem obter, se for a favor da conservação .
Eu discordo por achar que a confiança é um valor maior e mais seguro que a medida imediata de conservação que se consegue obter desta forma.
E perder a confiança da sociedade na informação produzida pelo movimento conservacionista, nomeadamente pelos investigadores empenhados na conservação da biodiversidade seria uma tragédia para o sisão e todos os outros valores que se pretendem conservar.
henrique pereira dos santos

16 comentários:

Natalia Melo disse...

Olá, Henrique.

Trabalho nos Açores para a SPEA (Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves. Conheci o Vitor Maia ´há pouco tempo, quando esteve aqui para fotografar o Priolo.
O e-mail dele é fibramar@fibramar.pt
Não sei se tiraste a foto no site, mas é o www.flickr.com/vitor_maia

Um abraço.

Anónimo disse...

caro henrique,

percebo a sua lógica, mas se os dados antigos não são fidedignos, então não será melhor aplicar um princípio da precaução?

penso que será melhor prevenir a conservação do que remediar a extinção.

Ao proteger o sisão, estamos também a proteger o habitat de estepe ceralífera para todo um leque de espécies menos "visíveis".


AC

Henrique Pereira dos Santos disse...

Caro AC,
A minha primeira pergunta é: "princípio da precaução em relação a quê?".
É que se for em relação à confiança da sociedade no sector conservacionista, por exemplo, o melhor mesmo é não pintar o quadro com tons mais ou menos carregados em função dos objectivos do pintor.
Se é em função da conservação do sisão, teriam de me explicar por que razão é mais precaucionista empolar uma ameaça que aparentemente não tem a dimensão que se transmite que ter uma quadro rigoroso de prioridades em que os recursos são canalisados para o que efectivamente mais depende deles para se conservar.
Se temos uma definição de estatutos de ameaça empolada para algumas espécies isso significa menos disponibilidade de recursos para outras, porque os recursos não são inesgotáveis.
É isso o princípio da precaução?
henrique pereira dos santos

Anónimo disse...

Caro Henrique,

reconheço alguma razão na questão que levanta, mas se não temos informação fidedigna relaticamente à tendência, volto a defender a precaução.

Prefiro que o engano seja "afinal temos mais sisões do que pensávamos, podemos aligeirar as medidas de conservação" do que "afinal já não temos sisões, vamos reproduzi-los em cativeiro".
Na vida real não é assim tão simples mas devia. Para mim é esse o quadro da precaução.



AC

Gonçalo R. disse...

Caro AC,

Creio que a sua resposta sobre o "principio da precaução" passa algo ao lado da argumentação de HPS, com o qual concordo.

O problema não é "termos mais sisões do que pensávamos" mas canalizarmos indevidamente dinheiro para uma espécie em deterimento de outros realmente ameaçadas.

Reforço a ideia já apontada por HPS de que, quando se dá prioridade a uma espécie, dá-se relativamente a outras espécies. Subir o estatuto de conservação de uma espécie é, em certa medida, o mesmo que baixar o estatuto de todas as outras...

G. Rosa

Anónimo disse...

Caro G. Rosa, não entendi essa da "prioridade a uma espécie, dá-se relativamente a outras espécies".. existe um número clausus?
Gostaria também que me explicassem quais são os investimentos no sisão que deixam de ir para outras espécies, e caso existam, quantas outras espécies beneficiam também do investimento no sisão. Creio que este não exista sozinho nas estepes cerealíferas.

Cumprimentos
AC

Anónimo disse...

Para esclarecer, eu não concordo com a estória das espécies prioritárias. Para mim deveria haver apenas espécies protegidas ou não protegidas.
A verdade é que a sociedade liga muito pouco quer a umas quer a outras.
AC

Miguel B. Araujo disse...

Caro AC,

Quanto a prioridades a questão não é se se concorda ou não mas se são necessárias face à existência de recursos escassos. Sobre o tema aconselho-o a ler o seguinte artigo publicado neste blog há alguns anos:

http://ambio.blogspot.com/2004/06/o-estado-da-poltica-de-conservao-em.html

Henrique Pereira dos Santos disse...

Caro AC,
Algumas clarificações: não é inteiramente verdade que os dados históricos não sejam fidedignos. Há métodos e técnicas, nomeadamente quanto à tendência de evolução do habitat, que podem ser usados e não são, sendo aceites pelos seu valor facial as afirmações não fundamentadas dos espacialistas nas espécies ou habitats mas que não são especialistas em dinâmica de paisagem.
Ora a minha tese central é que esta negligência na verificação da fundamentação é aceite exactamente com base em ideias próximas das que tem exprimido aqui: não faz mal, pelo sim, pelo não, escolhe-se a opção mais precaucionista.
Só que esta opção tem várias consequências, todas elas nefastas.
A primeira refere-se ao facto desta atitude permitir largamente a manipulação dos dados por parte de quem o queira fazer ao baixarmos as guardas da exigência no escrutínio do rigor da informação prestada;
A segunda refere-se ao facto dos recursos não serem ilimitados e a incorrecta definição de prioridades acabar por beneficiar mais os investigadores de algumas espécies que as espécies em si mesmo (quer as que não precisam efectivamente de afectação de recursos porque sobrevivem sem isso, quer as outras que precisam dos recursos para sobreviverem e não os terão porque foram desviados).
Por último deixe-me dizer-lhe que classificar uma espécie com um determinado estatuto de ameaça não se traduz em nenhuma vantagem para a sua conservação que não seja melhorar a sua posição relativa na afectação de recursos.
Portanto não há nenhuma aplicação do princípio da precaução associado à classificação errónea de estatutos de ameaça.
henrique pereira dos santos

Anónimo disse...

Caro Miguel,quando falo em espécies prioritárias, falo em espécies da directiva 92/43/CEE e não em prioridades. Algumas espécies consideradas como prioritárias nessa Directiva são bastante mais comuns em Portugal do que outras que ficaram "esquecidas". Nos vários estudos de impacte ambiental que li, é frequente dar-se uma grande relevância à ausência de espécies prioritárias, quando podem existir espécies não protegidas muito mais ameaçadas do que as ditas "prioritárias".
É neste contexto que discordo da designação prioritárias e penso que tenho o direito de ter uma opinião, pois este é um blog de convite à reflexão.

Como disse anteriormente concordo com a lógica do Henrique e apenas quis levantar algumas questões, felizmente com sucesso.

Relativamente aos dados pouco fidedignos de dinâmica populacionais e as estimativas e interpretações subjectivas é o Henrique que o diz no seu post (pelo menos é o que entendi) e por isso é que eu pergunto se a precaucção será assim tão nefasta?

Concordo plenamente que devemos trabalhar para ter informação o mais completa possível relativamente às espécies, para hierarquizarmos prioridades, mas quantas espécies são realmente bem estudadas? temos recursos para fazer esses estudos para todas as espécies?
É verdade que a "precaução" pode ser usada tambem com algum laxismo que se propaga ano após ano e acaba por passar mais uma década e nunca se criar nova informação. Aqui penso que poderia ser criada uma plataforma entre vários agentes envolvidos na conservação para existir um sistema nacional de registo de biodiversidade, porque de nada serve cada uma das entidades envolvidas na conservação (ICN, ONGAS,Universidades, curiosos)ter a sua informação, mas quando chega a hora das decisões e dos estudos, essa informação estar perdida e cada um fazer a sua "estimativa".


Outra questão: na ausência de recursos abundantes, será que não faz sentido que espécies como o sisão, o lobo, possam funcionar como "umbrella-species" na óptica da conservação?


AC

Miguel B. Araujo disse...

Caro AC,

Não me pronunciei sobre a questão da informação necessária para estabelecer prioridades pois se o fizesse teria de estender a conversa e dispor de mais tempo do que, efectivamente, tenho. Mas devo-lhe dizer que sobre o tema já manifestei algumas discordâncias pontuais com o Henrique, na lista ambio, ainda que noutros aspectos esteja de acordo.

Mas deixe-me que volte a comentar o que escreve, agora em resposta à minha interpelação:

"Caro Miguel,quando falo em espécies prioritárias, falo em espécies da directiva 92/43/CEE e não em prioridades. Algumas espécies consideradas como prioritárias nessa Directiva são bastante mais comuns em Portugal do que outras que ficaram "esquecidas".

As prioridades só fazem sentido no quadro dos objectivos específicos e escalas em que são definidas. Uma espécie pode ser prioritária a nível Europeu se a sua distribuição se restringir a uma pequena proporção do seu território (p.e. Portugal). Ser abundante localmente ou não é um qualificativo adicional que pode ajudar a refinar a classificação de prioridade mas não há nada de errado, muito antes pelo contrário, em definir prioridades em escalas territoriais mais vastas. Também não há nada de errado em definir prioridades em escalas locais (p.e., espécies localmente raras mas comuns noutros locais) mas é natural que estas tenham um valor local mais do que Europeu.

"Nos vários estudos de impacte ambiental que li, é frequente dar-se uma grande relevância à ausência de espécies prioritárias, quando podem existir espécies não protegidas muito mais ameaçadas do que as ditas "prioritárias"."

As prioridades a nível Europeu acarretam responsabilidades legais pelo que é normal ser-lhes dada importância nos EIA. Também é normal que assim seja pois é a nível global que as prioridades de conservação fazem mais sentido e é através de uma análise deste tipo que se poderão atribuir recursos escassos de uma forma mais racional.

"É neste contexto que discordo da designação prioritárias e penso que tenho o direito de ter uma opinião, pois este é um blog de convite à reflexão."

Ninguém lhe negou esse direito. Pelo contrário. Se o faz é porque esse direito é-lhe reconhecido (dentro das normais normas de convivência).

Anónimo disse...

"As prioridades a nível Europeu acarretam responsabilidades legais pelo que é normal ser-lhes dada importância nos EIA."
Pois é, o que não é normal é não dar importância a espécies que sejam muito mais raras a nível global e que não estejam incluídas nos anexos da directiva (existem endemismos portugueses nesta situação). Será eticamente correcto não realçar estas espécies nos estudos? Será eticamente correcto não aplicar princípio da precaução, no caso de uma espécie rara sem estatutos de protecção?


AC

Miguel B. Araujo disse...

AC:

"Pois é, o que não é normal é não dar importância a espécies que sejam muito mais raras a nível global e que não estejam incluídas nos anexos da directiva (existem endemismos portugueses nesta situação). Será eticamente correcto não realçar estas espécies nos estudos? Será eticamente correcto não aplicar princípio da precaução, no caso de uma espécie rara sem estatutos de protecção?"

Mas de que espécies estamos a falar, concretamente?

Os livros vermelhos nacionais avaliam prioridades nacionais. Se existir uma espécie globalmente rara que não esteja listada nas directivas Europeias (que não são exaustivas), deveriam estar nos livros vermelhos. E se não estão, cabe perguntar se é deficiência do livro vermelho, falta de cobertura dos taxa avaliados, ou simplesmente que a raridade não coincide com ameaça ou prioridade.

E é bom dizer que tal ocorre frequentemente. Por exemplo existem uma série de endemismos ibéricos que estão de muito boa saúde (por exemplo a esteva) e que, portanto, não carecem de estatuto de conservação.

Outra questão colateral: não cabe aos EIA estabelecer prioridades nacionais ou internacionais. Os executores destes estudos têm de usar parâmetros definidos (ou pelo menos caucinados) pelos Estados que são os únicos que têm legitimidade democrática para definir o que é prioritário ou não.

Anónimo disse...

Caro Miguel,

"Mas de que espécies estamos a falar, concretamente? "
Várias espécies de flora: Linaria lamarckii, Ulex erinaceus, Euphorbia pedroi, Centaurea crocata, Juniperus navicularis, Senecio lopezii, Euphoria monchiquensis, Allium ericetorum.. Tal como existem várias espécies endémicas livres de perigo, existem várias endémicas raras e ameaçadas não são listadas na lista da Directiva.
Infelizmente não existe um livro vermelho de flora, nem legislação nacional nesse sentido.

"não cabe aos EIA estabelecer prioridades nacionais ou internacionais" - em ponto algum sugeri isso, apenas questionei se é correcto ética e profissionalmente omitir informação que seja útil para assegurar a conservação de uma espécie, que não seja protegida.
Penso que será uma questão pertinente, pois é o tipo de situações que acontecem na realidade.

Daiane Santana disse...

Opa...

Linkei o seu blog em um Post de DICAS DE SITES E BLOGS :D

Parabéns e sucesso :D

Paulo Eduardo Cardoso disse...

Partilho da ideia de que nos EIA dá-se importância à existência de espécies listadas quando poderá existir particularidades locais/regionais de grande interesse sem que dos elencos conste qualquer espécie dita protegida ou prioritária. Acontece ser muito mais difícil caracterizar uma zona, onde se faz um EIA, ao ponto de ser possível avaliar o interesse local das associações florísticas por exemplo; Não há, infelizmente, tempo para esta tarefa. É mais fácil obter dados sobre a distribuição das prioritárias e, com um índice qualquer, inferir sobre a relevância ecológica da área em avaliação.
É uma discussão difícil. Deveria um EIA ser um procedimento sempre expedito? Em função da tipologia do projecto, qual deveria ser o esforço de caracterização da fauna e flora de uma área?

E já agora, o comentário "...Por exemplo existem uma série de endemismos ibéricos que estão de muito boa saúde (por exemplo a esteva) e que, portanto, não carecem de estatuto de conservação."

A Esteva (suponho que se refira ao Cistus ladanifer) de facto goza de boa saúde mas a informação não é completamente verdadeira.
A espécie ocorre desde o Sul de França, Península Ibérica e até ado Norte de África. É também exótica na costa Oeste dos Estados Unidos.