quinta-feira, março 05, 2009

Fusão da Quercus e LPN?

Numa entrevista que acabou por nunca sair, perguntaram-me: Como avalias o movimento ecologista português actualmente?

E respondi: O movimento ambiental em Portugal é, provavelmente, o mais influente movimento cívico que temos no País. Apesar da sua indiscutível influência, tem perdido a maior parte das batalhas. Foi a Ponte Vasco da Gama, a Barragem do Alqueva, a Barragem do Sabor. Mais preocupante... tem perdido iniciativa em matérias onde deveria ter um papel importante: os PIN, o plano das 10 barragens, o aeroporto de Alcochete, o plano ferroviário nacional, para citar apenas alguns casos. As ONGAs encontram-se numa encruzilhada e não estou certo que os seus dirigentes estejam todos conscientes desse facto. Para me não alongar refiro dois aspectos que deveriam ser objecto de reflexão aprofundada: a necessidade de melhorar a operacionalidade das ONGAs e a necessidade de aumentar a legitimidade das suas posições. A operacionalidade advém da profissionalização dos serviços e a legitimidade da massa de associados e da qualidade técnica das suas posições. Como responder a estes desafios? Ambos problemas estão relacionados e a resposta para os resolver é simples: crescendo.

E como podem crescer as organizações?

A forma mais fácil é através de processos de fusão. É assim que as empresas fazem quando consideram não ter dimensão suficiente para fazer face aos desafios da globalização mas, curiosamente, não tem sido assim que as ONGAs têm respondido aos desafios da globalização. No quadro europeu, Portugal é minúsculo. Também sabemos que, quando comparados com, por exemplo, a Espanha, temos uma taxa de participação cívica modesta. Apesar destes condicionantes, temos mais de 100 ONGAs registadas e temos 3 organizações nacionais, a Quercus, a LPN e o GEOTA, que apesar de ocuparem o mesmo nicho de mercado continuam a trabalhar de forma independente. Sinceramente, não creio que faça qualquer sentido.

A fusão da Quercus com a LPN impõe-se se o objectivo for dotar Portugal de uma organização não governamental forte, capaz de responder aos desafios ambientais de um mundo global no século 21. O GEOTA possui uma organização mais próxima de um gabinete de estudos do que uma grande ONGA mas tem a vantagem de ter uma boa relação com as associações locais devido à sua estratégia interna de as associar em vez de as aglutinar e pelo facto de ser, indiscutivelmente, a mais influente ONGA no seio da CPADA. Portanto temos aqui espaço para duas estratégias de actuação diferenciadas. De uma parte, uma grande ONGA que resultasse da fusão da LPN e Quercus (por exemplo, a Quercus – Liga para a Protecção da Natureza) e por outro, uma Confederação de pequenas ONGAs, agrupadas em torno do GEOTA. Com o tempo, talvez fosse desejável começar a pensar no relacionamento entre estes dois núcleos de poder ambiental mas penso que nesta fase o mais urgente seria a reestruturação da Quercus e LPN.

Sem movimentos de fusão não creio que seja possível crescer e ter a dimensão necessária para fazer face aos desafios actuais. Uma estratégia, alternativa, protagonizada pela SPEA (Sociedade para o Estudo das Aves), é a fusão com grandes organizações internacionais. Essa estratégia resultou bem para a SPEA pois tinha um parceiro, a Bird Life International, que é ideal para este tipo de parcerias. Mas não creio que fosse fácil adoptá-la com o mesmo sucesso para as restantes ONGAs pelo que a fusão nacional parece ser o caminho mais razoável a seguir.

12 comentários:

Anónimo disse...

Interessante. Fui fundador do Grupo Lontra, uma associação de ambiente local, que andou pela fundação da CPADA mas que optou por integrar a Quercus já que a CPADA tinha menos peso interventivo. A Quercus no seu início tambem começou assim, como uma aglutinação de associações locais. Estou, portanto, à vontade para falar de fusões. Acontece, porém, que estamos a falar de 2 grandes associações nacionais, com uma história própria e um património forte, a vários níveis. Não seria muito fácil convencer a grande maioria dos sócios de ambos os lados da vantagem da perca da identidade em prole de uma intervenção mais eficaz. E seria mais eficaz? Duas balas têm duas chances de acertar no alvo, não?
Mas a vida já me ensinou que não se pode fechar a mente a novas questões...Ludgero Paninho

mariodasilva disse...

Isso só é possível quando duas estruturas têm o mesmo modus operandi -- o que nem sequer é o caso -- ou filosofia de acção identica.

Se calhar fazia mais sentido o Miguel Araújo inscrever-se numa delas e começar a trabalhar para a tal união de acção que diz faltar em vez de andar a mandar bitates para o ar.

Desculpe lá mas esta sua atitude de cátedra -- ou de treinador de bancada -- enerva profundamente.

Até mais.

Anónimo disse...

Pois, muito haveria a dizer sobre este assunto, mas não me parece nada consensual de que uma super ONG tenha mais hipóteses de sucesso do que várias mais pequenas...
Nos EUA, por exemplo o lobby ambiental funciona muito à custa de "pequenas" associações de âmbito regional...

O exemplo que aliás foi dado das empresas, não me parece que abone muito em defesa desta linha de raciocínio. Todos temos visto em que é que têm descambado os grandes grupos, financeiros, industriais ou empresariais.
Por outro lado, a história também nos tem ensinado de que ONG com estruturas muito pesadas que são mais susceptiveis de ser contaminadas pela corrupção.

O Miguel Araújo parece remeter ainda as ONG para uma espécie de contra-poder, com um papel que se resume a questionar e a limitar a intervenção do Governo em geral e das obras Públicas em particular.
Julgo que esse tem sido aliás uma das grandes falhas do movimento ambiental Português, porque se por um lado o impacto dos grandes projectos é grande, por outro, os pequenos comportamentos de todos e de cada um no dia a dia, ainda são maiores.

Em abono da verdade, a Quercus tem promovido campanhas com a de troca de lâmpadas, mas muito mais haveria a fazer nestes domínios.

É por isso que acho que a verdadeira revolução ambiental só se pode atingir por via de um programa político e de intervenção social e ideológica, que não se limite a olhar para a economia de mercearia.

Alexandre Vaz

Gonçalo Rosa disse...

Não veria grandes vantagens na fusão das maiores ONGAs do país.

Creio que existe um mercado enorme de potenciais associados na sociedade civil que as ONGAs não conseguem captar. É interessante verificar que existe ainda uma enorme discrepância entre número de "fichas de sócio" recebidas e número de sócios que efectivamente pagam quotas. A chamada "fidelização" e a "longevidade" de cada pessoa que se associa às principais ONGAs deixa muito a desejar e é principalmente nestes pontos que existe uma enorme margem de crescimento para as ONGAs nacionais.

Para tal julgo essencial ir para além da solicitação ao "altruismo" e "sentido civíco" do cidadão. Seria fundamental oferecer uma gama de produtos/serviços que seja claramente atractiva. Qualquer coisa semelhante ao modo de funcionamento de, por exemplo... o ACP.

Como tal e contrariando a opinião do Miguel, acho até que, sobre o ponto de vista de potenciais associados, em Portugal há espaço para mais uma grande associação. A maior de todas.

Gonçalo Rosa

EcoTretas disse...

As ONGAs não irão longe enquanto não tiverem ideais próprias. E então ultimamente, com a colagem às teorias do Aquecimento Global, tem saído chamuscadas com o evidente Arrefecimento Global que grassa...
Ecotretas

Miguel B. Araujo disse...

Caros,

Quando a Quercus se formou tinha um “modus operandi” muito diferente da LPN e por isso justificava-se a existência das duas organizações. Eu próprio fui um feroz apologista desta separação enquanto dirigente da LPN nos anos 80-90.

A LPN era uma espécie de ala cívica das universidades e a Quercus era uma associação com uma intervenção mais jovem, irreverente e portanto mais catalizadora de apoio social de massas. A legitimidade da LPN vinha da qualidade técnica dos seus representantes e das suas posições e a da Quercus do maior número de apoiantes, em particular nas camadas mais jovens da população.

Com o tempo tem vindo a verificar-se uma aproximação entre as duas associações. Por um lado a Quercus é cada vez menos jovem, dado que muitos dos seus dirigentes se mantêm e vão amadurecendo (muitos deles são académicos). A LPN, por seu lado, é cada vez menos uma ala cívica das universidades pois nos tempos que correm, de competição feroz, os académicos não têm tempo para se dedicar a actividades cívicas.

Portanto, na prática, a LPN tem evoluído no sentido de se tornar numa espécie de organização de consultores enquadrados por uma direcção sem tempo para tomar as rédeas da associação. Em virtude da fragilidade económica da associação, estes consultores são, tipicamente, jovens licenciados ou, quando muito, mestres com pouca experiência profissional. Ainda que procurem consubstanciar as posições da LPN em estudos e argumentos técnicos, estas posições estão longe de terem a solidez e o peso das posições tomadas pelos académicos que antes davam a cara pela associação.

A conclusão desta análise, apressada a forma mas não na substância (e muito fica no tinteiro), é que o modelo da LPN está em crise e precisa de ser revisto à luz da realidade actual. Por outro lado, a Quercus chegou a uma assíntota de crescimento e como tal beneficiária do “input” de prestígio, capital humano e material que a LPN pode aportar.

As vantagens parecem-me claras – e são comuns aos “merge” entre empresas - enquanto as desvantagens, aparte o romper do “status quo”, francamente não se conhecem.

Miguel Araújo

PS. Ao M da Silva. Para sua informação sou associado da LPN (desde 1983), da SPEA, e do GEOTA tendo sido, em tempos idos, sócio da Quercus. Fui dirigente das duas primeiras organizações (da primeira fui co-fundador da Delegação Regional do Alentejo e do Centro de Iniciação ao Ambiente) e coordenador do grupo de trabalho que deu origem à CPADA. Portanto, não enfio a carapuça dos bitates.

Gonçalo Rosa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gonçalo Rosa disse...

Caro Miguel,

Muito, mas mesmo muito haveria a dizer sobre este assunto. E é interessante discuti-lo numa perspectiva teórica, longe das emoções de quem vive o dia-a-dia destas associações.

Sou também da opinião que, ao longo dos anos, a Quercus incrementou o rigor técnico que suporta a sua intervenção nos media, regrando o fernesim mediático que a caracterizava nos seus primeiros anos de vida. Como afirmas "era uma associação com uma intervenção mais jovem, irreverente e portanto mais catalizadora de apoio social de massas". Mas a outra face da moeda é que tu, eu e muitos outros, eramos da Quercus quando eramos jovens... e, se calhar, os verdadeiros motivos desta falta de fidelização são muitas vezes os mesmos.

Já quanto à LPN, se é um facto que as posições públicas desta associação se caracterizavam por terem muito maior robustez, o que é certo é que, não raras vezes, eram completamente ofuscadas pela forma apelativa e principalmente pela rapidez de resposta às solicitações dos media com que a Quercus actuava. Independentemente da qualidade tecnica intrínseca de um parecer/comunicado, de nada vale se a resposta não falar a mesma linguagem e não corresponder aos timings dos media. Ao longo dos anos creio que a LPN tem melhorado neste aspecto e, contrariamente à tua opinião, não creio que a solidez das suas intervenções seja hoje muito menor.

Em suma, no que concerne à relação com os media concordo que as duas associações se têm aproximado. Sendo um aspecto importante, está longe de ser o único a considerar. E depois, há as pessoas...

Gonçalo Rosa

Anónimo disse...

Em primeiro lugar, penso que este tipo de discussão é útil e vem reforçar a vontade que todos no movimento ambientalista português temos de fazer mais e melhor.
Na minha opinião a analogia da LPN e da Quercus como empresas concorrentes não é feliz. Por definição uma empresa procura maximizar o lucro próprio e por isso concorre com outras empresas no mesmo nicho de mercado. A LPN e a Quercus tem o mesmo objectivo: Proteger o ambiente, mas duas estratégias diferentes que são no meu entender complementares e que beneficiam por ser desenvolvidas por instituições diferentes. Eu penso que ambas as estratégias são necessárias e que poderiam perder força com uma eventual fusão. No entanto penso que é fundamental concertar esforços entre estas e todas as ONGAS no sentido de apresentar mais projectos, pareceres e actividades em conjunto, ai sim, o movimento ambientalista sairia, no meu entender, reforçado.

Em jeito de nota final: não me parece nada que a posição da LPN esteja a perder força, coerência ou "experiência". Mais ainda, equiparar "graus académicos" a "experiência" é no mínimo questionável.

Rúben Heleno

Kau disse...

Fusão de associações seria uma experiência interessante, pelo menos durante um período, para verificar se se capitalizavam algumas vitórias já que as derrotas são demasiado fáceis de elencar.

Há precisamente seis anos, tentámos fundir a nível regional associações, ou antes, representantes de associações em torno de uma estrutura “Espaço Ambiente”. A ideia era servir os interesses ambientalistas dando corpo jurídico (associação/co-federação) a esta estrutura e reunir pessoas/associações habitualmente concorrentes (por na região representarem associações distintas com objectivos idênticos). A ideia caiu por terra pois uma das associações tinha na calha um projecto LIFE e um orçamento milionário que não quis na altura “partilhar”. Fundir associações é cada vez mais difícil principalmente porque a lógica que as sustenta são os projectos e não os contributos e envolvimento dos associados. Consulte-se, por exemplo, as presenças/participações de associados nas assembleias gerais da LPN ou da Quercus.

Também nas ONG’s de ambiente há interesses, alguns dos quais aceitáveis outros merecedores de repúdio. Muitas vezes mobilizar associados resulta no confronto de ideias para as quais muitos dos eternos líderes apresentam dificuldades de aceitação. Seria interessante confrontar os líderes destas duas associações sobre uma eventual fusão.

Cumprimentos

Carlos Miguel Cruz

Miguel B. Araujo disse...

Algumas notas soltas na sequência das reflexões dos leitores:

O Rúben diz: "A LPN e a Quercus tem o mesmo objectivo: Proteger o ambiente, mas duas estratégias diferentes que são no meu entender complementares e que beneficiam por ser desenvolvidas por instituições diferentes."

Essa é a questão fulcral que a ser verdade invalidava o meu argumento. A questão é que 1) não estou convencido que as duas associações possuam hoje uma estratégia marcadamente diferente - realmente o que fazem é responder, como podem, a solicitações semelhantes; 2) estou convencido que o tempo aproximará ainda mais as duas associações, i.e., a Quercus será cada vez mais cuidadosa com as suas posições e a LPN cederá, como já cede, à necessidade de dar resposta rápida a questões que se impõem no dia a dia perdendo as suas posições, inevitavelmente, densidade.

Esta pressão crescente é uma das causas da aproximação entre as suas associações. Enquanto que no passado a LPN liderava a agenda ambiental, fazendo estudos de prospectiva sobre problemas de conservação e propondo a classificação de novas áreas protegidas, a conservação de espécies não protegidas, a adopção de novos conceitos de política de ambieente, etc, hoje a LPN não tem essa capacidade de iniciativa e vai a reboque, como pode, de uma agenda definida pelo Estado e pelos agentes económicos.

A Quercus padece do mesmo problema mas em virtude de ter uma estrutura organizativa mais sólida e ter sabido utilizar a massa associativa de uma forma mais eficaz que a LPN, ainda vai tendo iniciativas próprias que não são o resultado imediato da necessidade de dar resposta imediata a solicitações externas.

Esta é a questão de fundo que uma fusão poderia ajudar. A Quercus tem uma estrutura mais sólida, com uma rede de associados activos verdadeiramente nacional mas obviamente ainda não possui a dimensão (nomeadamente de massa crítica) que lhe permitiria ter mais sucesso nas suas iniciativas. A LPN tem um número razoável de associados, muitos dos quais com peso na área do ambiente, mas tem uma estrutura menos sólida, mais dependente da Direcção Nacional e de um conjunto de consultores. O financiamento para cobrir os salários desta estrutura cara e centralizada é condicionado pelas oportunidades de financiamento que são, por sua vez, definidas por agentes externos. A organização encontra-se, assim, condicionada por interesses e agendas que pouco ou nada têm a ver com as prioridades que poderiam presidir à associação se o planeamento fosse liderado por ela própria.

Esta, aliás, é uma conversa já velha que me lembro de ter tido com um anterior vice-Presidente da LPN que foi, na realidade, quem lançou, para o bem e para o mal, as sementes iniciais do modelo que hoje vigora na associação: o Miguel Vieira.

Independentemente se se concordar com o modelo actual de gestão da Quercus ou LPN -para o caso não é fulcral discutir isto- a questão é que existe um problema grave. Ambas as associações perderam, em maior ou menor grau, a liderança em matéria de política de ambiente e vão essencialmente a reboque de agendas externas. Para inverter esta situação a única possibilidade é crescer. E para crescer, no quadro actual, não vejo outra saída que não seja por movimentos de fusão estratégica.

Se houver melhores ideias, estamos aqui para as ler...

PS. O argumento da diferença entre associações e empresas não serve pois ambas são corporações e ambas beneficiam de economias de escala, optimização de recursos e maior concentração de massa crítica, especialmente quando esta é escassa. Ou seja, para efeitos desta conversa, a analogia entre associação sem fins lucrativos (mas com fins de maximização de benefício ambiental) as empresas é perfeitamente apropriada.

Gonçalo Rosa disse...

Kau,

Se me permites, agrada-me francamente a lucidez e frontalidade do teu comentário com o qual concordo completamente. Infelizmente, muitos continuam a confundir essas qualidades com "mau feitio".

Um abraço,

Gonçalo Rosa