terça-feira, maio 12, 2009

O terreiro do paço


Leio no Público de hoje:

"Especialista em questões da Baixa, Walter Rossa dá mesmo os parabéns aos seus autores, por terem conseguido "respeitar a solenidade e o silêncio do espaço". Tal como João Rodeia, também Walter Rossa temia o surgimento de árvores, banquinhos ou outro mobiliário urbano que de alguma forma apoucasse o sítio. "Qualquer intervenção deve respeitar a escala do local", e não tentar transformá-la, diz o arquitecto."

Curvo-me perante a sapiência dos eminentes especialistas e desde já declaro a minha ignorância, que é tão funda e tão grande que nem consigo perceber o que é um especialista em questões da Baixa.

Mas o silêncio do espaço? Mas respeitar a escala do local e não alterá-la?
O silêncio do local?
De que silêncio se fala aqui?
Do inerente ao Porto de Lisboa que tinha à ilharga o arsenal da construção de navios?
Dos autos de fé da inquisição?
Dos cortejos nupciais de reis e rainhas?
Da principal praça de comércio do maior porto do mundo?

Dos desembarques cerimoniais?

Mas se o Terreiro do Paço está bem para quê intervir? Se não é para o alterar, para quê gastar dinheiro?
Tudo se alterou, o centro do governo, o império, o porto, o comércio, a posição de Portugal, Lisboa e as pessoas que aqui vivem, mas quando tudo mudou o que é fundamental é manter o que perdeu sentido, isto é, a função cerimonial?
Não é espaço e nobreza a mais para tão pouco retorno para a cidade?

Deixem-me apresentar-lhes a Place des Vosges, de lindíssimo enquadramento formal edificado.
Que burros os parisienses, em vez de contratar um arquitecto, desses que respeitam o rigor formal do mundo, que mandasse limpar tudo para deixar ver bem os edifícios, respeitar o silêncio hierático dos edifícios, respeitar a escala real da praça, os estúpidos, limitam-se à pequenez ignorante de a usar.
E eu, cuja ignorância sobre o assunto é tão grande como o Terreiro do Paço, olho embasbacado a discussão sobre pavimentos e a fina inteligência de decidir sobre a mais nobre das praças de Lisboa sem perguntar, sem discutir e sem ouvir os lisboetas.
Que evidentemente preferem ir para a praia a esturricar no meio do Terreiro do Paço, bêbados de silêncio e respeito pela escala.


Ah, fadista!
henrique pereira dos santos
PS E que tal uma acção popular a propor um referendozito para se fazer um concurso público, que escolha uma solução formal, depois da discussão pública para definir o programa?

11 comentários:

José M. Sousa disse...

Apoiado!

João disse...

É sem dúvida uma afronta à nossa inteligência. Viva a variação de tom e a pedra farta.
As praças são para ser vividas e para isso temos que quebrar frieza escaldante da pedra e plantar árvore, árvores com fartura e acabar com o discurso das vacas sagradas que a única coisa que fazem é destruir a memória colectiva e o espaço público.


Faz falta um movimento de cidadãos que se oponha a esta orda de políticos que se esforçam por destruir as nossas cidades.

Nuno disse...

Perdoem-me de antemão o longo desabafo.

Como arquitecto levo quase todos os dias com insultos porque inexplicavelmente vinga a ideia de que são 15.000 profissionais todos iguais. Todos patos bravos. Todos inúteis e chatos.

Imagino que isto me dá a legitimidade para dizer que todos os funcionários públicos são uns preguiçosos incompetentes, que todos os médicos são como o Dr. Mengele, e que todos os vegetarianos são como o Adolf Hitler.

Podia juntar-me ao coro de insultos mas prefiro manifestar o meu total apoio, como arquitecto, á justiça com que o autor do post clama por: uma Praça Viva, por transparência e participação pública no processo de transformação da cidade, pela necessidade de um procedimento de concurso.

Todas estas coisas, naturais quando se faz cidade em Democracia, foram aqui atropeladas sem pudor. Junto-me em tudo isto a vós com toda a sinceridade e apoio. Contem comigo para uma petição, para apoio, o que quiserem.

O meu único alerta vai para quando o ultraje (justificado) vai ao ponto de se comparar o Terreiro á Place des Vosges- sinceramente é como perguntar porque é que a Batalha não pode ser mais parecida com um pagode chinês que é tão mais bonito!

É incrível de facto a ignorância (perdoe-me) de achar que a intervenção "lá das Franças" não teve mão de um destes especialistas inúteis.

Se o Terreiro é uma forma única e histórica da Arquitectura Portuguesa, restaurada desta forma, com honestidade e rigor há que desconfiar porque o que é português tem cá sempre o problema da nacionalidade! É um crime inaceitável ser de cá. Torna-se estranho. Não deve prestar.

Acontece que todas as coisas têm o seu lugar próprio. Para dar uma analogia que talvez seja mais fácil de compreender aqui: é como quem se convenceu de que o Eucalipto é que uma grande carpete nacional e aquilo que os especialistas em silvicultura dizem é muito bonito mas não vem para aqui chamado, que a floresta não é feita para "os estúpidos que se limitam à pequenez ignorante de a usar." É igual. Pode-se meter a martelo o que se quiser que “os doutores” aqui em Portugal não valem nada- esses gandulos! O que é que eles sabem? Nada!

Existe uma história da Arquitectura e do Urbanismo e, quando se quer preservar com honestidade, as coisas tem o seu modo de ser feitas. Claro que eu gosto imenso de azulejos e de calçada portuguesa, ocorre-me utilizá-los a martelo de Trás-os-Montes á Madeira? Do Românico ao Barroco? Onde vingar o Eucalipto? O Terreiro é o Terreiro. Tem uma forma, uma materialidade, uma alma.

Onde é que foi dito que a Praça não iria ter vida, que não iria acolher acontecimentos temporários (bem melhores que a Feira Popular que se instalou) e passagem de pessoas?

Como é que isso fica inviabilizado?

Como é que a solução proposta é ineficiente? Onde está o projecto? Foi analisado antes de se criticar? Leu-se a intervenção do autor e a explicação da história do local ou leu-se um recorte de jornal e partiu-se para o desabafo sarcástico?

Este blogue é uma leitura quotidiana incontornável para mim, desilude-me que não se dedique o mesmo discernimento a este assunto como a tantos outros que por aqui passam. Uma intervenção irreconhecível que só posso atribuir como vingança involuntária- e compreensível pelos infindáveis atropelos que sofre o planeamento urbano neste país e que tantas vezes são aqui justamente denunciados.

Fora o imbecil processo em que a obra foi encomendada, em relação ao recultado proposto não é o caso. Mesmo que seja outro o projecto não pode estar em causa a intenção de restaurar a este grande espaço a sua alma, com a naturalidade das coisas naturais.

Cumprimentos

Henrique Pereira dos Santos disse...

Caro Nuno,
E onde está dito que a place des vosges é o modelo que deveria ser usado para o terreiro do paço?
Usei-a como analogia por ser de um rigor formal no edificado que tem sido uma das pedras de toque da defesa deste tipo de intervenção para o terreiro do paço. E porque efectivamente é uma praça em que apetece estar.
A solução de projecto que vi é uma solução que mantém o essencial do problema de apropriação do terreiro do paço pelos lisboetas: uma excessiva reverência face à arquitectura envolvente que dispensa os projectistas de olharem para a funcionalidade da praça.
Se quiser, podemos começar pelo princípio: por que carga de água devemos mexer no terreiro do paço?
Só a partir da resposta a esta pergunta é possível discutir o resto.
Agora discutir a história do terreiro do paço a partir do formalismo que o foi caracterizando é simplesmente uma perda de tempo, se não for acompanhada de uma discussão mais funda.
Por isso me parece que a discussão dos pavimentos é uma discussão sem sentido neste momento (não tenho nenhuma atracção especial por ter calçada no terreiro do paço, não tenho nenhuma objecção a um pavimento de cor térrea, simplesmente isso é irrelevante, antes da discussão funcional).
O terreiro do paço, desde de que D. Manuel resolveu descer do castelo para o paço da ribeira e desde que foi canalizada a foz da ribeira de Valverde que ali desaguava, foi uma praça de comércio suportada no porto, na proximidade do arsenal e do paço real onde estava a companhia das índias e toda a gestão das rotas marítimas.
É em primeiro lugar uma praça (se preferir, um terreiro) que desempenha funções essenciais da cidade.
Com a deslocação do porto, com o fim do controlo das carreiras marítimas, com o fecho do arsenal, com a saída da casa real daqui, que funções sobram para o espaço?
Uma, a que foi claramente opção do projectista e tem sido a opção dominante, uma função de cenário.
Outra, que defendo, a de espaço público funcionalmente amarrado a Lisboa.
Pela dimensão, localização, nobreza e valor simbólico entendo que essa dimensão funcional terá sempre que se relaciocar com usos públicos de massas (pelo menos não os impedir) mas tem de permitir também a apropriação quotidiana pelas pessoas.
Pelo lazer, pelo comércio, pelas realizações culturais, o que quiser, podemos discutir, mas tem de permitir que as pessoas lá estejam por estar e porque apetece estar.
Isso não se consegue em espaços públicos inóspitos, como é efectivamente o terreiro do paço hoje e será depois de executado este projecto, para lá de uma estreita faixa na influência das arcadas.
henrique pereira dos santos

Vasco Flores Cruz disse...
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Nuno disse...

Caro Henrique Santos,
Agradeço a sua resposta.
Continuo a não perceber a comparação com a Place des Vosges. É uma praça monumental em que as árvores estão presentes para complementar a forma do edificado, são tratadas como volumes que complementam os edifícios (repare que são podadas para se adequarem á sua escala e altimetria). Na rural França dessa altura não estavam lá para servir de abrigo, estavam para ser objectos que evidenciam a subordinação da Natureza á Razão seiscentista. É uma praça monumental feita para celebrar um casamento real, não é para pessoas passearem. A ideia de um urbanismo humanista, para usufruto de pessoas, surgiu no final do séc. XIX, é impensável na arquitectura monumental até aí.
O Terreiro do Paço é uma praça monumental (um “cenário” se preferir) feita para receber realeza e para mostrar a pompa da era Pombalina. É uma obra que se quer espectacular para mostrar. No século XVIII pura e simplesmente não existia a ideia de fazer praças monumentais para o povo, faziam-se praças específicas para mercados, como o foi a Praça da Alegria.
Um exemplo: a Piazza Navona é monumental, para representação (não vai ver lá bancos e árvores) e o Campo dei Fiori, perto, é uma praça de mercado, com árvores e bancos. São assim porque foi assim que foram criadas, é intrínseco á sua existência. Num as pessoas estão em “arcadas de passagem”, noutra habitam.
Deslocou-se o porto daquele local? Saiu a monarquia que por lá desfilava? Acabaram as carreiras marítimas para a Índia? Acontece. É história. Tem que me explicar de que forma a Praça fica inapta com esta intervenção para receber vida e acontecimentos! Não vai decerto ser ocupada por um fosso com crocodilos ou vedada com arame. Não se vai de certeza evitar ocupações sazonais, mercados, feiras do livro (por exemplo) com um restauro capaz!
Qual é a crítica?
Tem razão quando diz que “que foi claramente opção do projectista e tem sido a opção dominante, uma função de cenário.” Pois foi. A do projectista original que queria uma Baixa ortogonal, monumental, ordenada! É um símbolo construído da Razão. Por muito que isso choque a nossa consciência contemporânea era precisamente essa a intenção. E se damos valor ao nosso património é precisamente isso que temos que respeitar!
É inóspito? Pois são inóspitas todas as avenidas e praças monumentais por essa Europa fora. Devemos demoli-las ou chegar a um compromisso entre um Terreiro do Paço restaurado e habitável? Pergunta porquê intervir e eu respondo que como está é mau não só para o espaço em si como para o seu uso que também defende. Tem agora uma existência indigna e é triste vê-lo com roulottes de farturas e anúncios da TMN.
Todas as cidades portuguesas precisam de espaços para viver, para estar, de árvores para se abrigarem e de prados onde se deitarem. Vamos criá-las onde devem ser criadas, sem prejuízo para o nosso património. Estas coisas não são incompatíveis.
A sua indignação, que também é a minha, deverá ter menos a ver com as intenções reservadas á Praça e mais com o triste processo político de estas obras caírem de pára-quedas sobre os cidadãos, sem apresentação, sem discussão, sem participação. É por tudo isto que se parte para o protesto, porque não se deu a conhecer intenções, não houve informação - sentimo-nos enganados e partimos para a guerra, já a odiar tudo o que nos põem á frente. Foi mal feito este processo imposto por quem decide, mas foi cuidada proposta de quem recupera. É um problema político, não arquitectónico. Haja discernimento.
Sinceros votos de continuação de um bom trabalho.

Henrique Pereira dos Santos disse...

Caro Nuno,
A Piazza Navona não foi feita para ser assim, é um aproveitamento do estádio anterior, foi depois mercado e tem fontes cuja água ameniza a envolvente e onde se pode estar. Acresce que pela sua escala e forma permite ter sombra em grande parte do dia em áreas bastantes generosas da praça.
Repare que uma esplanada adossada a um dos edifícios laterais acaba por cobrir mais de um décimo da largura da praça, ou seja, tudo na piazza Navonna remete para uma escala humana de uso.
Nem falo do campo dei fiorii que é um mercado.
Terreeiros com árvores, sem árvores e etc., é fácil de encontrar pelo país e pela história, o que não encontra em lado nenhum são terreiros sem funções ou com funções exclusivas de enquadramento de edifícios.
Quanto à teoria de que as árvores na Places des Vosges estão talhadas para respeitar o edificado é uma afirmação cuja fundamentação desconheço(do ponto de vista de quem está na praça nem sequer se consegue grande vantagem para a apreciação dos edifícios com aquele tipo de poda, cuja geometrização conflitua com o edificado) porque esse modelo de condução de árvores é tradicional em Paris (em França, numa má interpretação de le Nôtre), em muitos outros sítios (e que foi importado para Portugal, infelizmente, estando hoje mais em desuso, felizmente). Volto a repetir que falei na place des vosges apenas para referir um exemplo clássico de como a qualidade do edificado não deve impôr-se ao uso que as pessoas comuns fazem dos espaços.
Repare que quando Siza Vieira desenha os Terraços do Duque, respeita a envolvente mas não a mumifica. Repare que quando o Távora redesenha Santa Marinha não mumifica o pré-existente, que tornaria inviáveis as novas funções. Quando Souto Moura pega na Alfândega do Porto não diz que o projectista inicial queria que fosse uma alfândega e reinventa a sua funcionalidade (e, necessariamente, as soluções formais). Quando o Carrilho da Graça refaz a pousada da Flor da Rosa não anda a brincar às funcões originais e às intenções originais e reinventa um edifício para lhe dar a função que se pretende.
O que acontece com frequência é que as escolas de arquitectura em Portugal (e como todas as generalizações esta deve ser lida com as limitações de uma generalização, que tem, claro, muitas excepções) olham para o espaço exterior público como púlpitos para o edificado e não como aquilo que verdadeiramente são: espaços das pessoas (a trienal de arquitectura até foi subordinada ao conceito extraordinário de vazio urbano, que é uma coisa que não existe). Como lhes falta a capacidade técnica para trabalhar materiais que não dominam (e não têm de dominar, porque não é o seu métier), têm dificuldades em reinventar o espaço público em função das novas funções que lhes cabem, como fazem, e muitas vezes bem, com os edifícios.
E é este o problema do Terreiro do Paço.
O terreiro do paço é uma ruína funcional, embora uma belíssima ruína (como o convento do Carmo também é uma ruína bonita).
Não tenho nada contra o facto de se manter e gerir o convento do Carmo como ruína e nada mais.
Acho o terreiro do paço demasiado importante para ser gerido como uma ruína funcional que suporta um cenário projectado para peças que nunca mais irão subir ao palco.
É verdade que o terreiro do paço foi projectado como cenário, mas cenário de uma vida que existia e estava presente, no paço real, no arsenal, no porto e por aí fora.
Pretender que desde sempre o importante foi o cenário e não a peça que todos os dias se representava naquele espaço parece-me uma ideia completamente errada (a repetição formal que se encontra na baixa pombalina deve mais à racionalização da pré-contrução para aumentar a velocidade de reconstrução da cidade que a uma vontade de afirmação das luzes, como sabe).
E é isso que diz o post.
E por isso acho que deveríamos discutir a peça antes de discutir o cenário.
henrique pereira dos santos

Anónimo disse...

Caro Henrique Santos,

Novamente agradeço a oportunidade de diálogo.

Retenho a minha questão recorrente:
em que medida é que o restauro do Terreiro do Paço afecta a manifestação da "peça" que nele se desenrola através do uso quotidiano dos seus habitantes?

Como é que de repente está tudo impedido de lá ocorrer?
Existe alguma legislação que desconheça e que acompanhe a intervenção que proìba a realização de eventos?

Quando existe recuperação isto não significa cristalização e estagnação, como nos bons exemplos que refere. Mas o que difere neste caso? Não existe incompatibilidade entre um espaço vivo e um espaço bem recuperado!
Como ficaria o Terreiro mumificado com esta intervenção, pergunto?

Quando estes arquitectos que mencionou se lançaram nesses projectos interpreta que também se sacrificou rigor em nome da função?
Ou que se soube gerir um relação entre as duas coisas, uma convivência?

Deveremos eliminar das nossas cidades todos os traços de monumentalidade "inumana" do passado em nome da sua vivência actual?

O património é algo a sacrificar porque a Câmara de Lisboa é totalmente incapaz de dar aos cidadãos os espaços de vivência pública de que precisam na caótica cidade contemporânea?

Concordo: vamos discutir a "peça" que refere porque faltam "cenários" capazes nas nossas cidades.
Não podemos é castigar um teatro por isso.

Sinceros Cumprimentos.

PS. Não percebo a referência ao, como diz, verdadeiramente inane tema da Trienal- mais uma vez é meter tudo no mesmo saco.

Nuno disse...

Não assinei a mensagem anterior que é da minha autoria.

Nuno Ribeiro

Henrique Pereira dos Santos disse...

Caro Nuno,
A referência ao tema da trianal está dentro da generalização (para cujos limites como generalização pedi atenção) de alguma conceptualização das escolas de arquitectura em relação ao espaço público.
A questão de fundo em relação ao terreiro do paço é muito bem colocada pelo Nuno: faz-se um projecto que demonstra (como acontece no terreiro do paço actual) uma enorme indeferença pelo bem estar das pessoas e pela lógica de uso do espaço pelas pessoas e depois apela-se a que o Estado (neste caso referiu-se a Câmara, mas vamos estender isso ao Estado no seu todo) invente realizações que, apesar da inospitabilidade do local, tragam gente para aqui.
É exactamente isso que eu critico, essa ideia de que o espaço não deve ser projectado para que as pessoas estejam, esperando que depois cá venham por estímulo externo.
Não faz sentido. Acabei de passar por um bom exemplo desta lógica de desprezo pelas pessoas: o apeadeiro do Oriente, como alguém disse, o apeadeiro mais caro do mundo e absolutamente inutilizável por quem tem de o utilizar (como o próprio Calatrava já reconheceu aliás, demonstrando uma humildade tão nobre quanto rara em grandes projectistas).
No fundo, no fundo o que nos separa é que o Nuno olha para as fachadas do Terreiro do Paço e vê a fachada exterior dos edifícios ao mesmo tempo que eu vejo a parede interior do espaço.
Imagine-se a recuperar uma casa em que tomava como questão absolutamente essencial que as paredes, por terem sido projectadas para um salão de baile, e portanto com soluções formais que pressupõem que sejam visiveis, pelo menos na esmagadora maioria do superfície e agora tinha de fazer ali o lounge de um hotel. Passa-lhe pela cabeça, em nome da monumentalidade das paredes, fazer um lounge sem cadeiras, sem zonas de repouso, sem recantos de conforto?
Pois é isto que se está a defender para o terreiro do paço.
E eu não estou de acordo porque prefiro um terreiro do paço onde as pessoas vão, e do qual se apropriam, porque têm razões próprias do seu quotidiano para ir e não porque existe um evento.
O terreiro do paço, quando foi projectado, era inevitavelmente o espaço sujo, caótico e barulhento onde a ralé do império se misturava com a realeza porque aquele era o centro económico de de um dos maiores, mesmo decadente, impérios do mundo, numa das maiores cidades da Europa nesse tempo.
A afirmação do poder absoluto do rei pela a arquitectura que contém o espaço visa impôr-se a esse caos mas não o segrega.
henrique pereira dos santos

Nuno Ribeiro disse...

No interesse do debate gostaria de contribuir com esta notícia que vem hoje no Publico:

"Projecto de remodelação do Terreiro do Paço não convence arquitectos "

http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1383237&idCanal=59

Nesta muito tardia exposição do projecto, organizada pela Ordem dos Arquitectos (não pela Camara, "naturalmente") ficaram expostas as fragilidades de toda a pormenorização do projecto, após debate e análise pelos seus pares.

Há que destacar que não ficou por destacar o aspecto gravíssimo e insultuoso que envolveu o processo de atribuição do projecto:

#O facto de Bruno Soares ter sido escolhido pelo Estado, via Sociedade Frente Tejo, para remodelar o Terreiro do Paço, sem qualquer espécie de concurso público, foi um facto que não passou despercebido aos seus pares.

"Em vez de estarmos a discutir um só projecto para o Terreiro do Paço, era mais interessante podermos estar a discutir 50"

Espero que estejamos a tempo de discutir várias propostas num contexto de um concurso público, como convem a uma democracia.